18 novembro 2021

ATRÁS DO ESPESSO VÉU


Disse adeus aos pais e, montada no camelo, partiu com a longa caravana na qual seguiam seus bens e as grandes arcas do dote. Atravessaram desertos, atravessaram montanhas.  Chegando afinal à terra do futuro esposo, eis que ele saiu de casa e veio andando ao seu encontro.

“Este é aquele com quem viverás para sempre”, disse o chefe da caravana à mulher.  Então ela pegou a ponta do espesso véu que trazia enrolado na cabeça, e com ele cobriu o rosto, sem que nem se vissem os olhos. Assim permaneceria dali em diante. Para que jamais soubesse o que havia escolhido, aquele que a escolhera sem conhecê-la.

COLASANTI, Marina. Atrás do espesso véu. In: ____. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 47.




[1] ATRÁS DO ESPESSO VÉU

O título do conto já se nos apresenta como um aperitivo para a expectativa, aguçando-nos a curiosidade, a fim de buscarmos solucionar o enigma, o mistério, o desconhecido: o que será que há “atrás do espesso véu”?

O uso do advérbio “atrás”, determina que algo ou alguém não se encontra às claras, oculta-se à espera de ser desvendado. O determinante “espesso” conferirá características que reforçarão a ideia do que mais se esconde.

Detendo-nos, ainda, no determinado “véu”, em sua concretude, ele nos remeterá ao plano imaginativo e ao cultural, possibilitando-nos conjecturas: o quê ou quem estaria atrás de um véu? em que contexto social? quando? onde? e quanto à espessura? O porquê já se construíra como o primeiro enigma, os demais reforçam-lhe o vigor. O enigma se alicerçará, a partir da ótica do “oculto”, do “não visível”, tanto no plano externo, quanto no interno: atrás de um véu espesso, pouco pode ser visto, sob o ponto de vista daquele ou daquilo que se oculta (interno): há uma ideia de fechamento para o mundo a ser percebido (mundo exterior). Entretanto, ao se fechar atrás de um espesso véu, algo ou alguém impossibilita ao mundo externo a visão. Nega-se, portanto, a relação sensorial do visível.

 

[2] DISSE ADEUS AOS PAIS

O verbo, “disse” tem por função identificar o narrador. Mas o fato dessa estrutura não apresentar sujeito determinado, este também se oculta, aumenta ainda mais a expectativa do leitor. Por outro lado, o substantivo “adeus” confere ao texto, a ideia de partida, de despedida. Essa despedida propõe a ruptura do convívio familiar: um filho ou uma filha deixa a casa paterna - “aos pais”.

 

[3] E, Montada No Camelo, Partiu Com A Longa Caravana

A oração reduzida de particípio, intercalada, colocada entre vírgulas e deslocada, possibilita-nos a resolução do primeiro mistério (ou oculto) do texto: “montada” refere-se a uma mulher. Nessa mesma estrutura define-se, também, a situação espacial, pois o substantivo “camelo” designa um mamífero cujo habitat natural é o deserto: outro oculto desfeito.

Na oração coordenada, o substantivo “caravana” confirma a relação espacial já mencionada. Longa não é a caravana, mas a viagem, a distância a ser percorrida. “Partiu” comprova o “adeus” de [2]: uma mulher que deixa a casa paterna e parte, em caravana, para um destino.

 

[4] NA QUAL SEGUIAM SEUS BENS E AS GRANDES ARCAS DO DOTE

O código sociocultural, apenas enunciado em [3], agora se concretiza no sujeito composto da oração adjetiva: “seus bens e as grandes arcas do dote”. A princípio, o substantivo “bens” expressa os pertences pessoais (“seus” – pronome possessivo); “as grandes arcas do dote” configuram aquilo que passa a pertencer a ela, por doação, a estender-se a alguém que, provavelmente, a receberá, outro mistério a desvendar-se.

Depreende-se a possibilidade de um contrato matrimonial – índice comum na sociedade patriarcal do Oriente. Contrapõe-se, ainda, à ideia de “bens”, em proporção inferior, a ideia do “dote”: não há referências específicas quanto ao espaço ocupado pelos “bens” (arcas, talvez?). Entretanto, nota-se que o dote vai em “grandes arcas”. Muito maior é o que vai ser doado, oferecido; menor o que é daquela que o leva.

 

[5] ATRAVESSARAM DESERTOS, ATRAVESSARAM MONTANHA

A gradação, estabelecida pelas coordenadas assindéticas e pela repetição do verbo, intensifica não só a ideia de lentidão da caravana de camelos, mas também da continuidade mantida pela própria rotina do viajar nas paragens orientais. Contudo, percebemos a oposição que se registra a partir dos substantivos “desertos” e “montanhas” que nos remete à ideia de duração da viagem: muito tempo gasto para percorrer a distância.

 

[6] CHEGANDO AFINAL À TERRA DO FUTURO ESPOSO

A reduzida de gerúndio, marcada pela presença do verbo chegar, dá-nos a finalização do percurso. O adjunto adverbial de lugar resolve outro mistério: o objetivo da viagem. Configura-se pelo casamento a realizar-se, confirmada pela expressão “futuro esposo”. Cabe ainda ressaltar a palavra denotativa de situação – “afinal” – que nos reporta à ideia de finalmente, pela chegada; e de enfim sós, pelo encontro daqueles que irão contrair núpcias.

O código sociocultural consolida-se ainda mais: no Oriente, é a mulher que vai ao encontro do homem.

 

[7] EIS QUE ELE SAIU DE CASA E VEIO ANDANDO AO SEU ENCONTRO

Seu efeito é o de revelação: “eis”, palavra que denota designação. O que está designado é o que está determinado por imposição: revela-se o marido; o novo contexto a ser vivenciado.

Interessante observar que o sair de casa para ele é diferente do sair de casa para ela. Da mesma forma, “veio andando” para ele é diferente do percurso para ela, tanto no tempo, quanto na distância e, principalmente, no que se refere ao contexto do homem e ao da mulher no Oriente. “Veio andando” sugere cautela, certa expectativa que produz um andar mais lento. A função da locução verbal confirma-se, assim, retardando o processo de encontro. Partimos do princípio de que quem espera anseia pelo esperado e quer tê-lo mais rapidamente. Ambos eram desconhecidos. Há, aqui, a presença do encontro para o desvendar do desconhecido: o visível.

 

[8] “ESTE É AQUELE COM QUEM VIVERÁS PARA SEMPRE”

Abre-se a frase com aspas, indicativo de discurso direto. “Este” determina a aproximação do que estava longe (“aquele”). A distância é anulada pela presença do verbo em sua forma presente. Determina-se, portanto, a presença masculina e o vaticínio confirma-se a seguir: com quem viverás para sempre. Reforça-se o papel do destino e nega-se a possibilidade do livre arbítrio.

Apresenta, também, o discurso autoritário, característica de uma sociedade patriarcal, na qual a hierarquia sempre coloca a mulher em posição de inferioridade e obediência. O uso da 2ª pessoa do singular (tu) também confirma a aproximação com o imperativo dos dogmas cristãos.

 

[9] DISSE O CHEFE DA CARAVANA À MULHER

A forma verbal “disse” comprova o discurso direto. Mais uma vez, constata-se a posição da mulher nesta sociedade: o pai a entrega a um homem, um acordo estabelecido pelas partes masculinas: a mulher é apenas o objeto comerciado.

 

[10] ENTÃO ELA PEGOU A PONTA DO ESPESSO VÉU QUE TRAZIA ENROLADO NA CABEÇA

“Então” é comum às narrativas orais, tendo como finalidade dar continuidade à narração. Entretanto, a partir dessa palavra, a ação que se segue passa, pela primeira vez, a ser assumida pela personagem feminina. Interessante observar que o uso do pronome pessoal reto – “ela” –, na função de sujeito do verbo “pegou”, determina o agente, mas não o nomeia. Falta, ao conto, o nomear das personagens. O oculto vem se alastrando: sujeitos determinados, ocultos. Em [9], o sujeito modifica-se, deixa de ser pronome, contudo não é também nomeado.

O relevante, sem dúvida, é o deslocamento da ação para a personagem feminina “ela” que, ao pegar “a ponta do espesso véu que trazia enrolado na cabeça”, desvenda mais um oculto: o véu pertence a ela e era usado para enrolar a cabeça. A espessura do véu torna-se pertinente à função por ele desempenhada: proteger contra o sol, o frio e o vento que são inerentes ao deserto, região por onde viaja a caravana.

Parte do enigma já se nos apresenta desfeito; todavia, há, ainda, algo a ser esclarecido: por que será que “ela pegou a ponta do espesso véu”? o que ela pretende fazer com ele? O mistério ressurge e mantém a expectativa.

 

[11] E COM ELE COBRIU O ROSTO

Eis a resposta para a dúvida surgida em [10]: para cobrir o rosto, ela retira o véu que enrolava a cabeça. O véu deixa de ter sua função de proteção para assumir outra. Uma nova questão firma-se, completando o mistério anterior: por que cobrir o rosto com o véu espesso? Define-se o clímax da narrativa, constituindo-se, assim, no código narrativo.

Sabemos que, no Oriente, a mulher só descobre o rosto para o marido. Como a mulher encontrava-se diante daquele que seria o seu futuro esposo, provavelmente, num ato instintivo e também cultural, ela cobre seu rosto para que ele não a visse antes do casamento.

 

[12] SEM QUE NEM SE VISSEM OS OLHOS

Pertinente observar a estruturação. A estrutura tem a sua finalidade bem definida: não eram apenas os olhos a serem escondidos, como é do hábito das mulheres orientais esconderem, vedarem; o rosto todo deveria ser coberto, para não ser visto, e, consequentemente, os olhos, que normalmente ficam descobertos, também seriam ocultados. Ver os olhos e ver através deles é penetrar na alma, perceber o mundo interior daquele que é observado: os olhos são o espelho da alma.

O desvendar não mais no plano externo do leitor, mas no plano interno da narrativa, o dos personagens. Levando-se em consideração que “sem que” é locução conjuntiva condicional, depreende-se daqui a condição que será estabelecida por ela: nem os olhos, nem todo o rosto poderão ser vistos. A reação da personagem feminina possibilita-nos uma reflexão mais profunda: da mesma forma que ela saiu para o desconhecido (sem ter a visão daquele para quem fora determinada), assim também nega a ele a possibilidade de perceber-lhe a alma.

 

[13] ASSIM PERMANECERIA DALI EM DIANTE

A decisão tomada pela mulher seria mantida e continuada. Dois adjuntos adverbiais – o primeiro, de modo; o segundo, de tempo – reforçam a atitude e confirmam a determinação e, talvez, o único domínio que ela poderia ter sobre a situação que lhe fora imposta: o rosto, especialmente os olhos, jamais seriam descobertos. Aquele a quem ela se destinara, por contrato matrimonial, não a teria com a alma, não a mediria através do olhar. Fechava-se ela para ele.

 

[14] PARA QUE JAMAIS SOUBESSE O QUE HAVIA ESCOLHIDO

Nessa estrutura, iniciada pela locução conjuntiva que expressa finalidade, seguida do advérbio jamais, há a reiteração do que já fora exposto em [13]. Contudo, o verbo “soubesse”, transitivo direto, vem completado pelo demonstrativo “o”, trazendo-nos uma particularidade: “o” equivale a aquilo, reforçando a ideia de objeto, de mercadoria, confirmada pelo verbo principal da oração adjetiva – “escolhido” – cujo sentido também transita para um “que” (pronome relativo), reiterando a mesma ideia do demonstrativo “o”.

 

[15] Aquele Que A Escolhera Sem Conhecê-La

Inicia-se com o demonstrativo “aquele”, que se refere ao futuro esposo. Em sua função é o que mais se distancia, como já foi dito anteriormente. O distanciamento dele é confirmado em relação a ela. Por cobrir-se com o espesso véu para sempre, ela o afastará de sua intimidade: o enigma agora será vivido por ele.

Há, nessa unidade, uma inversão: ela passa a ser o grande enigma para ele, além de estabelecer as regras do jogo amoroso, se é que o mesmo será realizado. Percebemos, ainda, o poder da mulher, apesar da narrativa acontecer num contexto masculino. Ela usa de sua arma mais poderosa, a sensualidade, porém encoberta. Conhecê-la, vislumbrá-la, só a ela caberia o direito de determinar o momento. O corpo pode vir a pertencer-lhe, mas jamais a alma.

Num plano social, em que a mulher se vê subjugada, oprimida, desrespeitada, só lhe cabe uma resposta: negar-se ao mundo que lhe impõe as regras, não permitindo que este mundo a veja, abstendo-se também de vê-lo.


17 novembro 2021

O BRASIL ESTÁ A INVADIR O VOCABULÁRIO DOS MAIS NOVOS

 por CATARINA SILVA

08/09/2021

 

A “geladeira”, o “trollar” ou o “policial” estão a entrar a toda a velocidade na fala das crianças à boleia de youtubers brasileiros de conteúdos infantis. As modas da oralidade sempre existiram e a influência do país irmão já cá anda há umas décadas. Fomos saber se há motivos para alarme.

Os olhos arregalados e expressivos, a fala despachada e a brincadeira é num mar de bonecos vestidos de t-shirt e boné azul, tal e qual o youtuber brasileiro Luccas Neto. Maria Luís fala pelos cotovelos e, no meio de um discurso articulado a enganar os quatro anos de idade, entram palavras como geladeira, mamadeira, picolé, sorvete ou trollar. O português do Brasil está a invadir o vocabulário das crianças à boleia de influenciadores infantis do outro lado do Atlântico que inundam o YouTube e acumulam dezenas de milhões de seguidores.

As respostas de Maria Luís têm pressa, chegam num ápice. “O meu youtuber preferido é o Luccas Neto porque ele é divertido e ensina que temos de pôr o lixo no caixote para não sujar o ambiente.” O maior influenciador infantil do Brasil tem 29 anos e salta fronteiras. Lança episódios em que recria momentos do dia a dia, na escola, no supermercado, em brincadeiras no exterior, com várias personagens. Produções que envolvem uma equipa enorme e que já chegaram à Netflix e ao merchandising, com brinquedos, mochilas, jogos, discos, livros. E há mais exemplos de youtubers infantis do Brasil a ganhar terreno por cá, como Maria Clara & JP. O fenómeno aterrou em força em Portugal, é transversal no mundo dos mais pequenos.

Na agenda de Maria Luís, que mora em S. João da Madeira, o dia 20 de novembro está reservado. É o musical de “Luccas Neto e a Escola de Aventureiros” em Guimarães. O youtuber esgotou aí duas sessões e já abriu a terceira. Em Lisboa, idem. Na costureira, a mãe Maria João Lima já tem uma fatiota “igual à da irmã do Luccas Neto” a ganhar forma para Maria Luís vestir no dia do espetáculo. Ou melhor, do “show”. E a pequena, que parece carregar toda a energia do Mundo, leva as músicas do youtuber na cabeça, sabe-as de cor e salteado, e as coreografias também.

“Quando a Maria Luís começou a ver estes vídeos, notámos que começou a usar algumas palavras de português do Brasil. Não fala com sotaque, mas vai introduzindo algumas expressões”, revela Maria João. A solução mais simples não foi pôr-lhe travão em proibições aceleradas, foi antes explicar que em Portugal não se diz “banheiro” mas sim “casa de banho”. “Os vídeos até são pedagógicos. Dou por ela a brincar sozinha e a falar sobre o ambiente. E embora não ache graça nenhuma a ouvi-la dizer estas palavras, a verdade é que ela evoluiu muito na fala, porque vai reproduzindo o discurso”, constata a mãe. O fenómeno, acredita Maria João, “tem a ver com o facto de a língua brasileira ser muito mais sonante e de não haver oferta infantil portuguesa no YouTube”. Mas Maria Luís, de tão desenvolta, faz os pais baixarem os alarmes, já sabe dizer palavras com o mesmo significado em português do Brasil e em português europeu.

 

As modas, as influências, a oralidade

E parece ser esse o caminho: não corrigir, mas sim explicar aos mais novos a diferença. Pelo menos é nisso em que acredita a linguista Margarita Correia, que não entra em histerismos com o abrasileirar da fala. “Vejo este fenómeno não só como linguista, mas também como avó. Tenho um neto que chama a mãe de mamãe e o pai de papai.” Os desenhos animados dobrados em português do Brasil também são sintoma de uma tendência que diz ser “normal e enriquecedora”. Basta rebobinarmos umas décadas para o tempo em que as telenovelas brasileiras, como “Gabriela”, inundaram a televisão portuguesa. “Nessa altura, já se dizia que a língua estava em risco e sobreviveu. O mesmo aconteceu com as influências do inglês. Depois o pânico veio com as abreviaturas que se usavam nas SMS, as crianças iam deixar de saber escrever. Nada disso aconteceu. E é muito saudável ouvirem outras variantes do português.”

As modas da oralidade raramente têm impacto na língua escrita. Mas é certo que já bebemos muita influência do Brasil. A expressão “nem que a vaca tussa”, importada das novelas brasileiras, é prova disso. “Eles são 200 milhões, nós somos dez. É inevitável. E não há que combater as influências. Há mais de sete mil línguas no Mundo, a língua portuguesa é provavelmente a quinta mais falada. Como é que pode estar em risco? A evolução de uma língua resulta da evolução da sociedade que a fala.” E num português vivo que cresce à boleia das modas de cada época, Margarita Correia aponta umas quantas. Foi Alexandra Lencastre no programa “Na cama com”, no início dos anos 90, que introduziu a expressão “à séria” em vez de “a sério”. “E foi uma reportagem da TVI que aproveitou o título de uma canção para chamar música pimba à música popular. E não é uma expressão enriquecedora?”, questiona.

A professora de Português Filomena Viegas também não dramatiza. O “policial”, o “café da manhã” ou a “geladeira” até a podem incomodar, mas sabe que o pequeno Portugal não pode lutar contra um gigante Brasil. “Não vale a pena remar contra uma maré de milhões, isto vai continuar a acontecer.” De purista tem pouco, a verdade é que já dizemos “email” em vez de “correio eletrónico” ou “site” em vez de “sítio”. “Também enraizamos o bué. E há problema? Não é isso que faz uma língua. O caminho é explicar que o youtuber diz assim e nós cá dizemos assado. Perdemos tempo a ensinar? Sim, mas vale a pena tirar partido disto, é uma oportunidade para a aprendizagem. Mesmo em Portugal, temos variantes, no norte, no sul, nas ilhas.”

Numa idade em que absorvem tudo, ainda antes da entrada na Primária, as crianças são “pequenos aspiradores de palavras” e proibir não é solução. Os pais, aconselha, devem continuar a falar no português europeu. “Os miúdos têm capacidade para aprenderem várias línguas ao mesmo tempo e, quanto mais variantes ouvirem e isso lhes for explicado, mais vão aprender.”

 

“Já sei que gramado é relva”

Henrique Guerra está em casa, em Lisboa, agarrado ao tablet a ver o youtuber brasileiro Robin Hood a ensinar a jogar Minecraft. Tem cinco anos. “Ele está a jogar e vejo para aprender. Mas os meus pais já me ensinaram que gramado é relva”, atira o petiz. Deixa logo tudo em pratos limpos, como quem quer vincar, no meio de uma timidez apressada, que sabe distinguir o português do Brasil do português europeu. Os pais, André Guerra, bancário, e Patrícia Luz, administrativa, foram corrigindo algumas palavras. “Não é querer castrar. Mas ele dizia reais em vez de moedas, marrom em vez de castanho, goleiro em vez de guarda-redes e quisemos ensinar. Não para dizer que está errado, mas para explicar que no Brasil diz-se de uma maneira e em Portugal diz-se de outra. Até porque ele tem amigos brasileiros no pré-escolar e já percebe a diferença”, comenta o pai.

O caminho no YouTube começou aí há uns dois anos, quando Henrique descobriu o Luccas Neto. Desde então que os youtubers brasileiros, que falam alto e bom som – para irritação dos pais -, entraram pela porta de casa da família sem pedir licença. André e Patrícia já os reconhecem só de os ouvir entoar no tablet. E os brinquedos que abundam nos vídeos também trazem atrelados pedidos constantes. “Acho que os conteúdos até são interessantes e podem influenciar positivamente. Mas há uma grande vertente comercial, virada para o consumismo, e isso, sim, tentamos combater”, diz André. A entrada de algumas palavras do Brasil no vocabulário de Henrique não os assusta, mas o casal conhece o caso de uma menina que só fala com a pronúncia brasileira e talvez aí o fenómeno ganhe outra escala.

 

Os riscos e quando é preciso intervir

Segundo a psicóloga Manuela Cameirão, é aí que está o risco. “Já me deparei com casos desses, sobretudo em contexto pré-escolar, é nessa faixa que o fenómeno mais está a acontecer. Duas crianças, muito fãs de youtubers brasileiros, com total ausência do recurso ao português de Portugal.” Sabe que os vocábulos do Brasil já começaram a entrar no país há uns bons anos, “e isso é normal e desejável, as línguas estão vivas”. A preocupação chega quando vê crianças que falam integralmente o português do Brasil. É o nível extremo. “Porque uma criança que cresce em Portugal, filha de pais portugueses, que está exposta ao português europeu diariamente, falar português do Brasil de forma intensiva significa uma grande exposição, tempo excessivo no YouTube. Quer dizer que não está a trabalhar a motricidade e que passa muito tempo sozinha a interagir com um aparelho eletrónico.”

A psicóloga antevê potenciais alterações ao nível da socialização e o risco de dificuldades de aprendizagem na hora de entrar no 1.º Ciclo, nomeadamente na leitura, que implica associar sons da fala a letras. “Os fonemas numa variante e noutra são diferentes. E mesmo na escrita, a língua difere muito na construção de frases. É o exemplo do dá-me ou me dá.” Para os casos em que a criança já só fala com o vocabulário e o sotaque típico do português da outra margem do Atlântico, Manuela Cameirão alerta que os pais podem procurar ajuda de um terapeuta da fala. “Mas isso deve acontecer antes de entrar para a escola. A partir dos sete anos, pode ser difícil reverter. E, mesmo querendo, a criança já será muito resistente à intervenção.”

O fenómeno tende a crescer – também já se faz notar entre adolescentes e jovens -, é o mundo do YouTube infantil em ascensão. E unânime, entre os especialistas, é a ideia de que importar algumas palavras do Brasil para a fala não é problemático. Tal como Maria Luís faz. No próximo domingo, a pequena grande fã do Luccas Neto faz cinco anos. Antes disso, a irmã mais nova, que ainda está na barriga da mãe, deve nascer. Mas o entusiasmo maior dos próximos tempos ela não tem dúvidas qual é: “Ir ao ‘show’ do Luccas Neto. Acho que ele vai saltar e cantar muitas músicas”.


 https://www.noticiasmagazine.pt/2021/o-brasil-esta-a-invadir-o-vocabulario-dos-mais-novos/estilos/comportamento/265958/

A MULHER MADURA

 

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

 

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão.

Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

            Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanja pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. E como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

            A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo de repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

            A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

            A adolescente com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e os olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto, as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram na sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo de reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho anterior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena, à tarde acompanhando com o complacente olhar o voo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isso, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta joias. As joias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso e repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

 

 (In: Jornal do Brasil, caderno B, p. 9, dom. 15.09.1985)




SOU GOSTOSA E ASSUMO

 

AILIN ALEIXO

 

                Nem quando tinha 10 anos entrei numa calça jeans 38. Nunca me senti feliz com os peitos reinando absolutos em uma blusa branca sem sutiã. Me sentia uma hipopótama prenha quando teimava em vestir um top minúsculo com a pança exposta à poluição. Jamais deixei de ter pânico praiano no final da primavera. Mas, depois de muita terapia e chuchu refogado, decidi: sou muito mais gostosa do que essas esqueléticas posando de cabide maquiado em capa de revista de moda. Porque, na vida real, gostosura não é ter 1,77 metro e 50 quilos, nem ter sido inflada com 300 mililitros de silicone, sugada com lipoescultura ou esticada com Botox até na pupila. Ser gostosa é decisão.

            Decida que seus culotes, apesar de não serem a coisa mais fofa do mundo, são extermináveis. Faça um tratamento estético e acabe com eles. Decida dar um tapa na cabeça de seu namorado sempre que ele a chamar de “gordinha”, “fofinha” ou qualquer coisa terminada em ‘inha” que cause ira: você é a única pessoa que pode depreciar a si mesma, é bom que fique claro. Decida reclamar menos do seu corpo e aproveitar mais todas as sensações que ele pode lhe proporcionar se você parar de se torturar com cada estria que se instalar na banda direita da sua bunda.

            Burrice é dar valor exagerado ao que é, na essência, detalhe. Tragédia é a fome na África, o assassinato dos bebês-foca, não a falta de elastina no seu glúteo direito. Decida chutar para a estratosfera os padrões de beleza: os peitos da Gisele Bündchen são dela, não seus. A barriga tanquinho da professora de aeróbica na televisão é dela, não sua. E, na real, se ser padrão fosse tão bacana assim, essa mulherada não viveria neurótica, bulímica, anoréxica, com disfunção renal, cerebral, hemorroidal... No fim, todas nós sofremos de prisão de ventre.

            Decida que “osso largo”, “retenção de líquido” e “gases” não são desculpa para não ter a cintura da Jennifer Lopez — você tem outra estrutura, simples assim. Ou prefere se afogar num sorvetão de pistache no final de um dia estressante a encarar uma porção de gelatina e amargar um humor tão ruim quanto as desculpas do Rubinho em final de corrida. Não dá para ser leoa com pelagem de jaguatirica. Mas dá para ser uma leoa deslumbrante.

            Decida que você, e o que existe de melhor em você, não se resume àqueles 2 ou 3 ou 10 quilos de banha que insistem em não sair do seu quadril. Quem acha o contrário deve ser posto sumariamente de quarentena na sua vida. E se for você que pensa assim? De duas, uma: Freud ou Jung. Não, três: pode ser Lacan, também.

            Se você decidir que quer mais é ter a barriga sarada, a bunda dura, o peito empinado e a coxa marmórea, vá em frente. Malhe. Feche a boca. Gaste com cirurgias, mas não se engane pensando que depois disso sua felicidade será plena, porque alegria e auto-estima não vêm de brinde com a lipoaspiração. Lembre-se de que o embrulho do presente acaba sempre indo para o lixo.  Então, para descomplicar e desneurotizar minha existência, decidi que sou gostosa. Compro roupas que valorizam o que tenho de bom e não pago o mico de me vestir feito um manequim de vitrine da Dior: o máximo que conseguiria seria parecer um espantalho fashion louco. Não me abalo mais com comentários testosteronentos e babões diante de corpos fenomenais: eles são visualmente dignos de urros de tesão, mas não dediquei minha vida a ter um daqueles, por isso não posso querer ter um daqueles. Não passo três horas diárias na academia, não tenho personal trainer, não gasto as tardes no shopping passeando com meu cachorrinho e com minhas amigas loiras-saradas que parecem saídas de uma linha de produção de Barbies. Nunca vou ter um corpo daqueles porque isso não é minha prioridade. O prazer que um jantar de risoto de pêra com gorgonzola e uma rubra taça Merlot me proporcionam é muito maior que poder rebolar ferozmente a buzanfa-modelo num show da Tati Quebra-Barraco.

            Hoje, sou gostosa e assumo. Mas continuo odiando qualquer mulher que fica linda de morrer num biquini. Eu decidi ser gostosa, mas não virei a Irmã Dulce. Ainda bem: decidi também que ser boazinha não combina comigo.

 ÉPOCA 28 de AGOSTO 2006






ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DO AMOR DE UMA MÃO SÓ

 

XICO SA

O amor sempre tem uma mão só, mão única, o resto é contramão e, de repente, acidentes, como diria Carl Solomon, meu dadaísta do Bronx predileto.

O amor tem uma mão só. E não estamos falando, amigo, daquela máxima do Woody Allen sobre a masturbação: seria a melhor forma de fazer amor com a pessoa que você mais ama.

Tratamos do amor mesmo, o dos pombinhos, na sua forma mais óbvia e verdadeira. Daí repito: o amor sempre tem uma mão só. Mesmo quando é correspondido, nunca o é por inteiro – sempre um ama mais do que o outro. Eis o grande suspense hitchcockiano da existência.

Daí esta oração para ser lida em voz alta, por você, macho ou fêmea, que se acha injustiçado (a), nós que nem Nossa Senhora desata:

Nossa Senhora dos que Amam Sozinho ou Amam Mais que o Outro, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto querê-la, é por deixar claro, moça que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, perversa, me faz cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora!

Nossa Senhora dos que só pensam nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo???

Não creio, Sr. Albero Moravia, meu guru romano de tantos conselhos amorosos.

É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, nela.

Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência. A santa padroeira que chora sangue na voz serena de Junio Barreto.

Nossa Sra. da Vida Alongada, Nossa Senhora da Yoga que deixa o corpo dela piscando na parte que me toca.

Amor demorado, anjo exterminador da alcova.

Amor por tê-la, rara.

Beijá-la delicadamente, como um católico que dissolve na boca uma hóstia, um evangélico que fala a língua de pentecostes, um judeu ortodoxo, como este aqui passa agora na frente do meu predinho antigo.

Amar por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que se inventou só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homem, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem.

Lua cheia, vida minguante.

Escuto “Le Déserteus”, do velho Boris Vian, ouviste?

Nossa Senhora dos que sentem muito e amam sozinho, rogai por nós que recorremos a vós!

O amor é mesmo uma rua estreita, que mesmo com todo progresso e planejamento urbano de 2046, sempre terá uma mão só. Engarrafada. Sem saída.

 


 

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2012/04/17/oracao-a-nossa-sra-de-quem-ama-sem-ser-correspondido/

 

NINGUÉM É FELIZ PARA SEMPRE

Um dia eu fui solteira. E, como toda boa solteira, saía para me divertir. Frequentava barzinhos, festas com bebida, sorrisos e risadas. Era bom e eu gostava. Até que um dia as coisas mudaram. Virei uma solteira chata. Não gostava mais do som alto, de gente desconhecida esbarrando em mim, de pessoas efusivas demais.

Um dia eu fui solteira. E, como toda boa solteira, de vez em quando batia a vontade de ter alguém. Sabe como é, achava legal ver casais no cinema. Ela com a cabeça encostada no ombro dele, um saco de pipoca para dois, beijinhos e mãos dadas. Sentia vontade de ter aquilo na minha vida. Sentia vontade de ter alguém para abraçar, dormir e acordar junto. Sentia vontade de sair por aí meio sem rumo, de mãos dadas e coração grudado.

Um dia eu fui solteira. Me envolvi com todo tipo de homem que você pode imaginar. E me dei conta de uma coisa: é a gente que atrai os “caras errados”. Por medo, afinal de contas é bem mais fácil se envolver com um loser. Se der errado você vai pensar tudo bem, era um loser. O medo coloca uma venda nos nossos olhos e nos impede de atrair os “caras certos”. Quem são eles? Os não-perdedores. Os não-cafajestes. Os não-comprometidos. Os não-problemáticos. Os que oferecem uma chance, ainda que mínima, de fazer dar certo. Os que lá no fim a gente olha e diz: deu certo o tempo que tinha que dar, ele era legal, mas não rolou. Porque quando o cara é errado ao cubo no final a gente fala: puta que pariu, eu sabia que não ia dar certo, lá no fundo eu sabia que ele era um cretino.

Um dia eu deixei de ser solteira. E foi a melhor coisa que fiz na vida. E foi aí que conheci o homem que sempre quis. Divertido, carinhoso, bonito, inteligente. E que me ouve. E que me entende. E que aceita meus defeitos. E que me faz querer ser uma pessoa melhor. E que cuida dos meus medos. E que me dá força para seguir em frente. E que não ri quando choro. E que tem uma paciência absurda para lidar com minhas crises existenciais. E que é cheiroso, gostoso e amoroso. E que me respeita. Não, ele não é perfeito.

A gente tem a mania de achar que a vida de fulaninha é mais interessante e agitada que a nossa. Não, não é. E o namorado da fulaninha não é mais interessante que o seu. Ele não é nenhum ninja sexual. Ele não é nenhum guru do amor. A vida da fulaninha tem altos e baixos, como a sua. Ninguém vive uma vida de novela: se quebra e se quebra, finalmente encontra um cara legal, luta pra ficar com ele e vive feliz pra sempre. Isso não existe.

Quando eu era solteira achava que um dia ia encontrar o tal cara certo. E que o cara certo ia me fazer feliz. E que a gente ia viver feliz pra sempre. Uma vida Doriana. Com sorrisos, abraços, beijos, viagens e sexo quente. Achava que bastava encontrar o homem dos meus sonhos que tudo estaria resolvido em um passe de mágica. Me enganei.

Quando deixei de ser solteira percebi que me transformei em alguém muito mais feliz. Mas continuo tendo crise existencial, continuo com meus defeitos, continuo com minhas linhas tortas. É claro que melhorei, mas não me curei dos meus males. Ter alguém não resolve tudo. Encontrar o amor da vida não é garantia de ser 100% feliz. Existe o dia a dia, existe a rotina, existe a pasta de dente na pia, existe o tênis no meio do quarto, existe o seu jeito e o jeito dele. Não dá pra esquecer que você e ele foram criados de maneira diferente e, por isso, têm valores, visões e comportamentos diferentes. Não dá pra esquecer que, por mais que combinem e formem um casal próspero e feliz, existem dias ruins, existe briga, batida de porta, problemas, discussão. Cada um tem uma visão sobre a vida e o relacionamento. Cada um tem um gênio.

As pessoas têm necessidades diferentes. E a intimidade faz com que as coisas se tornem mais fáceis e mais difíceis. Por que digo isso? No começo, tudo é sedução e encantamento. Você mastiga de boca fechada, não senta de perna aberta, não arrota, não solta pum, está sempre linda, cheirosa e gostosa. No começo, você acorda antes dele, vai correndo escovar os dentes pra dar o beijo de bom dia. Depois que você casa, continua linda, gostosa e cheirosa. Mas. Mas você e ele acordam com bafo matinal, se abraçam, dão um selinho. Você fica mais à vontade e mais confortável em ser quem é, por isso não quer morrer quando sem querer solta um pum. Antes, ficava vermelha e queria morrer. Agora vocês dois dão uma risada. A intimidade pressupõe a falta de nojo. Porque o outro é gente. E gente tem partes sujas. Imundas. Nojentas. Amar é não ter nojo. É claro que existe o respeito. É claro que existe o bom senso. Não dá pra exagerar. Mas também não dá pra exagerar no photoshop. Ninguém é lindo e legal todo o tempo. Isso não existe. Aliás, existe: na televisão, no cinema, no teatro. Mas acho que você, assim como eu, gosta de relacionamentos reais. O meu relacionamento não é perfeito, nem tem fogos de artifício a cada beijo. Mas ele é real e me faz bem. E é isso que vale, que importa. É isso que eu sempre quis.


http://revistatpm.uol.com.br/blogs/confusoeseconfissoes/2011/11/09/ninguem-e-feliz-pra-sempre.html





MEU FILHO, VOCÊ NÃO MERECE NADA

Eliane Brum



Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um iPad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.






http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html

MAP (4) - OS ARGONAUTAS