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03 julho 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A VISÃO DAS PLANTAS (2)

 


Questão 1

O discurso indireto livre ocorre quando a voz de um dos personagens se mescla à voz do narrador.

Nos trechos abaixo, retirados de A visão das plantas, a única opção em que não se observa o uso do discurso indireto livre é:

a) “Farta da criação, a gata desceu a ladeira e Celestino nunca mais a viu. Ter-se-ia deitado ao ribeiro, com o fim de se matar?”.

b) “Comovia-se ao observar o arranjo das pétalas picotadas – por um anjo? – dos cravos”.

c) “A penumbra quase falava: respira, filho, chegaste”.

d) “Um vestígio de alfazema seca perfumava o mofo. Ou seria cera?”.

e) “As crianças saídas do colégio espreitavam os suspensórios de enxada às costas. Seria aquele o diabo?”.

 

- Texto para a questão 2 -

[...] quero os meus cravos ao vento, faladores, falam todo o dia uns com os outros, como a bicheza fala metida nos nós da madeira, contam histórias uns aos outros que só eu ouço, grandes tristezas, bagatelas, e depois cansam-se, doem-lhes as costas, é quando eu os ajudo, lhes acomodo a cama, digo que vai alta a tarde, que está quase aí a nossa noite, queridos cravos, falam como matracas e caem como meninos, por isso os quero tanto, são mais afoitos que as crianças, cansam-se, os cravos do capitão Celestino, bem-aventurados, só querem é rir e comer e beijar borboletas.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 25.

 

Questão 2

Nesse fragmento de A visão das plantas, um recurso expressivo presente é a:

a) antítese.

b) hipérbole.

c) alegoria.

d) prosopopeia.

e) sinestesia.

 

- Texto para a questão 3 -

Matei dez mulheres, a uma delas cortei os pés. Matei um corvo, para o comer. Raposas, ratazanas. Matei centenas de homens com as minhas mãos e elas não me caíram. Matei os sonhos de um milhar de outros. Queimei cabanas. Um dia, mordi o pescoço dum homem até lhe arrancar as veias para fora. Espetei uma lança no peito de um amigo. Roubei dinheiro. Rebentei o crânio de um albino contra uma rocha. E a seguir esquartejei-o. À hora de adormecer, a mão de minha mãe entrava por mim dentro com a xícara de leite morno, muito doce, e levava-me na mão do sono.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 23-24.

 

Questão 3

O trecho permite afirmar que, no contexto mais amplo de A visão das plantas, os atos passados de Celestino são:

a) confessados a padre Alfredo como meio para obter a redenção espiritual.

b) inventados pelos adultos da vila, que buscavam razões para expulsá-lo.

c) narrados aos vizinhos, como estratégia para mantê-los afastados do jardim.

d) registrados por Manuel, que busca preservar a memória coletiva do século XIX.

e) contados às crianças, não sendo acompanhados de sinais visíveis de remorso.

 

Questão 4

Leia o texto para responder ao que se pede.

As plantas viam-no como um olho de vidro vê a passagem das nuvens. Elas e o seu amigo eram seiva da mesma seiva, da mesma carne sem dó nem piedade. Atrás das costelas, no lugar do coração, o corsário tinha uma planta.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 37.

 

a) No livro A visão das plantas, é estabelecida uma identificação entre o capitão Celestino e as plantas de seu jardim. Em que se baseia essa identificação?

b) De acordo com o dicionário Michaelis, o substantivo amigo pode significar “que é afeiçoado ou entusiasta de; aficionado, admirador, amante”. Considerando o plano geral do romance, é possível afirmar que as plantas viam Celestino como um amigo? Justifique sua resposta.

 

- Textos para a questão 5 -

Texto 1

Os diversos avanços e retrocessos nas negociações entre Rio de Janeiro e Londres pareceram chegar ao final em 7 de novembro de 1831, quando a Assembleia Legislativa aprovou a primeira lei de proibição do tráfico de africanos. [...] A despeito dos esforços britânicos em exigir o cumprimento da lei de 1831, na década subsequente o desembarque clandestino de africanos intensificou-se. Havia uma rede de proteção ao comércio negreiro que contava com a conivência das autoridades responsáveis por sua repressão, e, ainda mais, com a aceitação e ajuda da população local.

ARAÚJO, Carlos Eduardo Moreira de. Fim do tráfico. In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. (org.) Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 232.

 

Texto 2

Antes o porão nos meus tempos. 1833.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 32.

 

Texto 3

No cais, as fisionomias anunciavam outro século, que nunca seria seu.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 36.

 

Questão 5

Responda:

a) Com base na leitura dos textos I e II, explique a razão de Celestino ser referido como pirata ao longo do romance.

b) Os textos II e III estabelecem uma oposição. Aponte-a e, em seguida, explique como ela se relaciona com o desfecho do romance.

 

- Leia o seguinte trecho de A visão das plantas para responder à questão. -

Cavava como uma imposição vinda do fundo da terra, mas sem saber por que o fazia. Caras e esgares, risos e olhares, o brilhante, uma moeda, nada o conduziu nem atormentou. A terra entrou-lhe nos olhos, debaixo das unhas, sujou-lhe abarba, chegou-lhe à boca. Não cavava a sua cova. Cavou pela sua vida, sem pensar em nada, sem sentir o corpo. Respondia a uma força de que desconhecia a origem e lhe tomara conta dos braços. Cavou mais fundo.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 59.

 

Questão 6

A frase que melhor sintetiza o trecho acima é:

a) “Em breve, o homem deixaria de ser homem para ser terra e a terra, engolindo-o, o tornaria seu”.

b) “A partir da terra, revelou-se à noite e ao mar como tendo chegado ao seu destino”.

c) “Ao contrário do que se dizia na vila e lhe assegurava a língua-de-trapos do sacristão, a casa não fora ocupada por um facínora, mas por um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro”.

d) “As mãos, que outrora haviam de ter cheirado a rum e a sangue, cheiravam agora a coalho e a terra cultivada”.

e) “As rosas, os cravos, os abetos, a ameixoeira ainda não sabiam que o seu amigo tinha morrido”.

 

- Texto para a questão 7 -

As mães passaram a pôr as mãos à frente dos olhos dos meninos quando se cruzavam com ele na rua. “Se não comes a sopa, levo-te para a casa do capitão, que te há-de cortar às postas como se fosses uma garoupa”, diziam as avós aos netos. Na casa onde comprava as sementes, vendiam-nas de má vontade. Anda a construir um altar a Judas Escariotes, cruzes, credo, o diabo o carregue. Se ele não fosse tão discreto, tratariam de o correr da terra ou juntar-se-iam ao portão com archotes acesos, obrigando-o a abandonar o burgo, numa madrugada fria. Com o tempo, chegando do mar novos barcos e novas gentes, os rumores foram-se diluindo nas novidades. Pouco falava e estava velho. Caminhava a custo. Ia para cego e não se metia com ninguém.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 27.

 

Questão 7

Com base no trecho, observa-se que os sentimentos dos moradores da vila em relação ao capitão Celestino mudaram ao longo do tempo, já que:

a) a indiferença se transformou em respeito.

b) o entusiasmo se transformou em rejeição.

c) o desprezo se transformou em interesse.

d) a curiosidade se transformou em desconfiança.

e) o medo se transformou em indiferença.

 

- Texto para a questão 8 -

A velha negra nunca desatava a venda da menina holandesa porque o que se ata em vida na morte não se desata.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 79.

 

Questão 8

Assinale a alternativa que melhor representa o fragmento acima, retirado do romance A visão das plantas.

a) “A redenção exige a rememoração integral do passado, sem fazer distinção entre os acontecimentos ou os indivíduos” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 54).

b) “O que acontece aos seres humanos que morreram, nenhum futuro pode reparar. Jamais serão chamados para se tornarem felizes para sempre” (HORKHEIMER, M. Traditionelle und Kritische Theorie. In: LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 49).

c) “[...] o presente ilumina o passado, e o passado iluminado torna-se uma força no presente” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 54).

d) “Quanto à vingança das vítimas do passado, trata-se simplesmente da reparação dos crimes a que foram subjugados e da condenação moral daqueles que os infligiram” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 112).

e) “É evidente que a rememoração das vítimas não é [...] uma lamúria melancólica ou uma meditação mística” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 111).

 

- Textos para a questão 9 -

Texto 1

Os homens despejaram a cal no porão, saco a saco. Os negros viram que um pó caía sobre eles, mas não entenderam o que se passava. Os sacos de cal foram vazados no porão e a porta fechada por Celestino. Ouviram-se gemidos, pedidos de socorro e, passado algum tempo, um silêncio que apaziguou os piratas.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 36.

 

Texto 2

O quintal florido estava calmo. Se ali vivia o diabo, era bom jardineiro. Com as botas nas mãos dadas de Raul, Pedro galgou o muro, com esforço. “Consegues vê-lo? E como é?”, perguntou Luzia, impaciente. Mas, em cima do muro, deixado por um diabrete adivinho, só viu um pires com três cubos de marmelada e três fatias de queijo curado.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 19.

 

Questão 9

Com base na leitura dos trechos, responda:

a) O romance A visão das plantas rejeita o maniqueísmo. Justifique essa afirmação com elementos extraídos dos textos I e II.

b) Cite dois pares de opostos que podemos observar na comparação entre os textos I e II.

 

 

 

 

 

1. c

2. d

3. e

4. a) Tanto Celestino quanto as plantas são indiferentes ao sofrimento alheio e incapazes de mostrar gratidão.

b) Não é possível afirmar isso, já que não se observa qualquer sentimento de afeição das plantas em relação a Celestino. Elas não sentem gratidão pelos cuidados que o capitão lhes dedica nem mostram compaixão diante do adoecimento progressivo do jardineiro.

5. a) No texto I, fica claro que o tráfico negreiro para o Brasil foi proibido em 1831. No entanto, ele continuou ocorrendo ilegalmente, mesmo após essa proibição. A fala de Celestino, que aponta o ano de 1833 como “seu tempo”, sugere que o capitão continuou agindo de forma clandestina nos mares, o que equivale a dizer que ele atuava como pirata.

b) No texto II, vemos que Celestino se refere ao ano de 1833 como “seu tempo”, ou seja, um momento que lhe pertence, por estar relacionado ao auge de sua vida nos mares. Por extensão, podemos entender que o capitão pertence ao século XIX. Em oposição, o texto III afirma que o século XX não pertenceria ao velho pirata. Isso se relaciona ao desfecho do romance, já que, na virada do século, Celestino havia se transformado em assunto de cantigas de pescador e em um herói remoto do qual poucos se lembravam.

6. a

7. e

8. b

9. a) No romance de Djaimilia Pereira de Almeida, vemos representada a complexidade humana em todas as suas contradições. Desse modo, o mesmo homem capaz de cometer crimes terríveis, como matar de forma cruel os cativos que tentaram se rebelar em seu navio (texto I), é aquele que dedica cuidado às plantas e se mostra gentil com as crianças (texto II).

b) Podemos observar os seguintes pares de opostos: morte/vida, crueldade/cuidado.













06 maio 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ (2)

 


- Textos para a questão 1 -

Texto 1

Desviei o olhar, alvejando-o por sobre uma rua em frente, vista por mim em toda a extensão graças a uma aberta na formatura. Olhando-a, pus-me a recordar que, ainda há dias, naquele sulco que se lhe abria pelo eixo em fora, homens sujos cavavam; e que, fizesse o sol mais ardente ou o aguaceiro mais temível, eles cavariam...

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 1660.

 

Texto 2



Questão 1

Ambos os textos – o de Lima Barreto, autor pré-modernista brasileiro, de 1919, e o de Gustave Courbet, pintor realista francês, de 1849 – abordam de forma semelhante o trabalhador braçal. Com base na interpretação dos textos, é possível inferir que:

a) tanto Courbet quanto Lima Barreto idealizam o trabalhador braçal pela pureza e ingenuidade de suas ações.

b) enquanto Courbet elege o trabalhador braçal em sua individualidade na tela, Lima Barreto o aborda de forma coletiva.

c) tanto Courbet quanto Lima Barreto usam suas obras como forma de denúncia da condição do trabalhador braçal na sociedade burguesa.

d) enquanto Courbet aborda o trabalhador braçal coletivamente, Lima Barreto individualiza essa figura em sua descrição.

e) a obra de Courbet é, de certa forma, contrariada pela descrição de Lima Barreto, que retrata o trabalhador braçal como integrado à sociedade.

 

 

- Leia o texto para responder ao que se pede -

Filho de um general titular do Império, podia ser muita coisa; não quis. Era preciso ser doutor, formar-se, exames, pistolões, hipocrisias, solenidades... Um aborrecimento, enfim!...

Não quis; fez-se praticante e foi indo. Foi empregado assíduo e razoável trabalhador. A República veio encontrá-lo quase só na seção, redigindo um decreto do Defensor Perpétuo e, ao lhe avisarem: – “seu” Gonzaga, hoje não se trabalha; o Deodoro, de manhã, proclamou a República no Campo de Santana.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 297.

 

Questão 2

Compreende-se, pela leitura do fragmento, que o personagem M. J. Gonzaga de Sá mantém uma relação com o Império marcada principalmente por:

a) nostalgia.

b) oposição.

c) indiferença.

d) simpatia.

e) adesão.

 

- Texto para as questões 3 e 4 -

Em começo, procuram-no com o fim de manter a integridade do seu pensamento, de fazê-lo produzir, a coberto das primeiras necessidades da vida; mas, o enfado, a depressão mental do ambiente, o afastamento dos seus iguais e o estúpido desdém com que são tratados, tudo isso, aos poucos, lhes vai crestando o viço, a coragem e mesmo o ânimo de estudar. Com os anos, esfriam, não leem mais, embotam-se e desandam a conversar.

Eu me dei com um escriturário que conhecia o zende, o hebraico, além de outros conhecimentos mais ou menos comuns.

Seu pai, que tivera fortuna, mandou-o para Europa muito moço, pelos quatorze anos.

Lá, onde se demorara perto de dez anos, apaixonou-se pela crítica religiosa e estudou com afinco estas antigas línguas sagradas. Perdendo a fortuna, voltou e viu-se, com tão inestimável sabedoria, nas ruas do Rio de Janeiro, sem saber o que fizesse dela.

Nesse tempo, o folhetim estava na moda, e a repetição de umas coisas vulgares da matemática.

O futuro escriturário não dava para o rodapé; declarou-se besta, e fez um concursozinho de amanuense, e foi indo. Ficou como um escolar que sabe geometria a viver numa aldeia de gafanhotos; e, quinze anos depois, veio a morrer, deixando grandes saudades na sua Repartição. Coitado, diziam, tinha tão boa letra!

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 310-322.

 

Questão 3

No trecho, o narrador faz um breve relato sobre o ambiente e um tipo de integrante do funcionalismo público brasileiro durante a Primeira República. Considerando a visão de Lima Barreto a respeito do homem do subúrbio do Rio de Janeiro, desenhada por ele em muitos de seus contos e romances, é possível afirmar que a perspectiva apresentada pelo narrador é:

a) elogiosa a esse funcionário que, bem formado e interessado em se desenvolver, é absorvido pelo ambiente pouco criativo, acabando por anular-se.

b) crítica ao ambiente do funcionalismo público, em que todos, até mesmo os honestos e interessados, sempre se corromperão.

c) satírica em relação à inutilidade da cultura do candidato ao funcionalismo que, mesmo inadequado ao trabalho, consegue uma oportunidade.

d) crítica em relação à pouca importância dada à formação e à cultura do homem que acaba se tornando um amanuense e sendo absorvido pelo ambiente do funcionalismo.

e) entusiasta em relação às possibilidades disponíveis no ambiente do funcionalismo público e ao futuro dos que se dedicam a esse trabalho.

 

Questão 4

O final do trecho pode ser considerado uma marca significativa do estilo de Lima Barreto. De que marca se trata? O que seu uso representa em relação ao universo do funcionalismo público?

 

- Texto para a questão 5 -

– Não imaginas, menino, que tesouro de dedicação há nesse homem. Eu não sei de onde ele o tira e de que maneira argamassou tão grandes sentimentos. Nasceu escravo, uns dias antes de mim; meu pai o libertou na pia, por isso. A mim me acompanha desde os primeiros dias do nascimento. É um irmão de leite. Viu-me nas atitudes mais humildes; apreciou-me em propósitos repugnantes; assistiu ao desmoronamento da grandeza da minha casa familiar; entretanto, não sendo, como parece a todos, destituído de inteligência crítica, sou para ele o mesmo, o mesmíssimo, cuja representação se lhe fez na consciência, no correr dos seus primeiros lustros de vida. Eu não o chego absolutamente a compreender. Acho-o obscuro; mas me deslumbra – é grandioso! Às vezes, confesso, me parece uma subalterna dedicação animal; às vezes, também confesso, me parece um sentimento divino... Eu não sei, mas amo-o.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 851.

 

Questão 5

Gonzaga de Sá revela, no fragmento, o tipo de relação que mantinha desde a infância com um ex-escravizado que tinha sido libertado por seu pai ainda criança. Em relação ao comportamento do amigo, o que mais intriga Gonzaga é:

a) a submissão de suas atitudes.

b) o amor inexplicável que expressa.

c) sua falta de inteligência crítica.

d) sua dedicação quase religiosa.

e) a grandiosidade de sua dedicação.

 

- Texto para a questão 6 -

A felicidade, sensação tão volátil, instável, irredutível de homem a homem é cousa diferente, e não consente média a abranger centenas, milhares e milhões de seres humanos. Imaginas tu que Madame Belasman, de Petrópolis, tem um grande joanete, um defeito hediondo, com o qual sobremaneira sofre; e o operário Felismino, da Mortona, orgulha-se em possuir um filho com talento. Madame Belasman vive acabrunhada com a exuberância de seu joanete. [...] entretanto, Felismino, quando bate rebites, sorri e antegoza o estrondo que uma parcela do seu sangue vai causar na sociedade. [...] Quem é mais feliz – pergunto – Madame Belasman ou o senhor Felismino? E, à vista disso, poderás dizer que todas as damas de Petrópolis são felizes e os operários de fundição são desgraçados? Há média possível para a felicidade das classes? Nós, os modernos, nos vamos esquecendo que essas histórias de classe, de povos, de raças, são tipos de gabinetes, fabricados para as necessidades de certos edifícios lógicos, mas que fora deles desaparecem completamente: – Não são? Não existem.

BARRETO, Lima. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2017, p. 100-101. (fragmento).

 

Questão 6

Sobre o fragmento da obra Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto, assinale a alternativa correta.

a) Apresenta a ideia de que a felicidade varia de pessoa para pessoa e que, por ser um sentimento sólido e estável, uma vez sentida, permanece.

b) Expõe a ideia de que a felicidade é um sentimento que pode ser medido entre as classes sociais e que alcança todos os seres humanos.

c) Compara a felicidade dos homens mais simples com a felicidade das mulheres da classe alta, defendendo que a felicidade depende de fatores divinos.

d) Defende que a felicidade depende da forma como cada pessoa se vê e se relaciona com sua realidade, independentemente de seu lugar social.

 

Questão 7

A nossa emotividade literária só se interessa pelos populares do sertão, unicamente porque são pitorescos e talvez não se possa verificar a verdade de suas criações. No mais é uma continuação do exame de português, uma retórica mais difícil, a se desenvolver por este tema sempre o mesmo: Dona Dulce, moça de Botafogo em Petrópolis, que se casa com o Dr. Frederico. O comendador seu pai não quer porque o tal Dr. Frederico, apesar de doutor, não tem emprego. Dulce vai à superiora do colégio de irmãs. Esta escreve à mulher do ministro, antiga aluna do colégio, que arranja um emprego para o rapaz. Está acabada a história. É preciso não esquecer que Frederico é moço pobre, isto é, o pai tem dinheiro, fazenda ou engenho, mas não pode dar uma mesada grande.

Está aí o grande drama de amor em nossas letras, e o tema de seu ciclo literário.

BARRETO, L. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Disponível em: www.brasiliana.usp.br. Acesso em: 10 ago. 2017.

 

Situado num momento de transição, Lima Barreto produziu uma literatura renovadora em diversos aspectos. No fragmento, esse viés se fundamenta na:

a) releitura da importância do regionalismo.

b) ironia ao folhetim da tradição romântica.

c) desconstrução da formalidade parnasiana.

d) quebra da padronização do gênero narrativo.

e) rejeição à classificação dos estilos de época

 

Questão 8

Na “Advertência”, prólogo do livro, Lima Barreto cita o narrador, tecendo certas considerações acerca do gênero da obra que está encaminhando para publicação:

[...] não me pareceu de rigor a classificação de biografia que o meu amigo Machado lhe deu.

Faltam-lhe, para isso, a rigorosa exatidão de certos dados, a explanação minuciosa de algumas passagens da vida da principal personagem e as datas indispensáveis em trabalho que queira ser classificado de tal forma; e não só por isso, penso assim, como também pelo fato de muito aparecer e, às vezes, sobressair demasiado, a pessoa do autor.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 31-38.

 

Considerando o estilo de Lima Barreto e a recorrente intersecção entre vida e obra no trabalho do autor, qual é o propósito que se identifica na “Advertência” que introduz o livro?

 

- Texto para a questão 9 -

Na linda repartição das delicadas coisas internacionais, fizeram sábias transposições de uma religião para outra, de modo a se estabelecer a equivalência das respectivas autoridades. Foi organizado um quadro, muito bem-feito, bem riscadinho, em que os nomes dos sacerdotes de cada religião foram escritos, respeitando-se a índole ortográfica de suas línguas próprias.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 95.

 

Questão 9

Considerando a manifestação inequívoca de ironia no fragmento, aponte a alternativa em que os termos listados, da forma como foram empregados, podem ser considerados indicativos de tal marca de estilo.

a) “linda”, “delicadas”, “sábias” e “bem riscadinho”.

b) “internacionais”, “transposições”, “autoridades” e “índole”.

c) “repartição”, “religião”, “bem-feito” e “sacerdotes”.

d) “lindas”, “transposições”, “sacerdotes” e “bem riscadinho”.

e) “delicadas”, “respectivas”, “organizado” e “ortográfica”.

 

- Texto para a questão 10 -

Com Vida e morte, o autor conseguiu sintetizar as transformações culturais em curso, relacionando os traços ocultos ou destruídos da antiga cidade colonial aos avanços da técnica, o que resultava na interligação entre os diferentes extratos espaciais e temporais da urbe.

SCHEFFEL, Marcos. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá – Possibilidades éticas e estéticas do romance moderno brasileiro. In: LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Apresentação e notas de Marcos Scheffel. Cotia: Ateliê Editorial, 2023.

 

Questão 10

Ao interpretarmos, à luz das observações de Marcos Scheffel, a estrutura criada por Lima Barreto para contar a vida do amanuense M. J. Gonzaga de Sá – no que se refere ao gênero da narrativa de Augusto Machado –, é possível compreender que:

a) o romance mais comumente produzido no século XIX mantinha ligações com a antiga cidade colonial e, portanto, com a Monarquia, enquanto a obra de Lima Barreto é francamente republicana, daí a subversão total do gênero tradicional.

b) a criação de uma obra cujo gênero é controverso relaciona-se diretamente com o mundo em transformação sintetizado por Lima Barreto por meio da troca de ideias entre personagens de diferentes idades e diferentes origens, na jovem República brasileira.

c) a utilização do lirismo nas descrições dá à obra um tom próximo à prosa poética experimentada por modernistas como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, negando a tradição do romance do século XIX, normalmente associado a enredos mais baseados em relações de causalidade, o que atribui ao livro um caráter republicano.

d) a aproximação da obra a um livro de contos incorpora a habilidade de cronista do autor e afasta a criação de Lima Barreto da adesão de gêneros mais tradicionais e do núcleo temático recorrente nos romances do século XIX.

e) a obra de Lima Barreto se afasta da biografia anunciada na “Advertência” e aproxima-se do romance, o que revela uma adesão do autor à literatura tradicional produzida por autores como José de Alencar e Machado de Assis, associados diretamente à Monarquia.

 

- Texto para a questão 11 -

Considerei também a calma face da Guanabara, ligeiramente crispada, mantendo certo sorriso simpático na conversa que entabulara com a grave austeridade das serras graníticas, naquela hora de efusão e confidência.

Villegagnon boiava na placidez das águas, com seus muros brancos e suas árvores solitárias. Notei então o acordo entre o mar e as serras. O negro costão do Pão de Açúcar dissolvia-se nas mansas ondas da enseada; e da mágoa insondável do mar se fazia a tristeza da Boa-Viagem.

Transmutavam-se naturalmente e tocavam-se amigavelmente.

O mar espelhejante e móvel realçava a majestade e a firmeza da serrania e, em face da sua suntuosidade, por vezes conselheiral, o sorriso complacente do golfo tinha uma segurança divina.

O poeta tinha razão: era verdadeiramente a grandiosa Guanabara que eu via!

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 171.

 

Questão 11

Analise a relação existente entre a descrição apresentada e a imagem que Lima Barreto atribui ao Rio de Janeiro do início do século XX, considerando verbos e adjetivos utilizados pelo autor no excerto.

 

- Texto para a questão 12 -

E, assim, fui sentindo com orgulho que as condições de meu nascimento e o movimento de minha vida se harmonizavam – umas supunham o outro que se continha nelas; e também foi meus avós, desde que se desprenderam de Portugal e da África. Era já o esboço do que havia de ser, de hoje a anos, o homem criação deste lugar. Por isso, já me apoio nas coisas que me cercam, familiarmente, e a paisagem que me rodeia não me é mais inédita: conta-me a história comum da cidade e a longa elegia das dores que ela presenciou nos segmentos de vida que precederam e deram origem à minha.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 199.

 

Questão 12

Explique, com base na leitura do fragmento, as origens do narrador e cite uma das razões pelas quais ele se identifica com a cidade do Rio de Janeiro.

 

 

 

1. c

2. c

3. d

4. Trata-se da ironia. Em suas obras, de forma geral, Lima Barreto usa a ironia para expressar opiniões negativas acerca da máquina da administração nos primeiros anos da República. Na frase final do fragmento, está expressa a opinião do autor sobre a ignorância geral do meio, em que os funcionários, diante da morte de um homem culto com o qual conviveram por quinze anos, lembram-se dele pela beleza da letra, o que revela o sistema de valores que adotam e que a obra caracteriza como insignificante.

5. e

6. d

7. b

8. Lima Barreto, na “Advertência” do início de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, faz um comentário metalinguístico, chamando a atenção do leitor para a classificação de gênero atribuída pelo autor-narrador por ele criado, Augusto Machado. Trata-se de uma elaborada situação de enunciação, na qual o autor cria um narrador que apresenta outro personagem ao mesmo tempo que revela a si mesmo. O trânsito entre os gêneros foi uma característica do trabalho de Lima Barreto, que escreveu contos, crônicas (com as quais manteve-se ao longo da vida, como cronista colaborador em periódicos da imprensa) e romances. Há, na “Advertência”, um convite ao leitor para que observe o engenhoso trabalho de subversão dos gêneros biografia e romance para o que pode ser considerado um livro dividido em “quadros” e repleto de descrições do Rio de Janeiro e de sua população, o que lembra as crônicas do autor. É como se este estivesse exibindo suas habilidades, ao mesmo tempo que questiona o gênero da própria obra. Além disso, a “Advertência” deixa claro que o leitor vai encontrar, nos personagens, reminiscências da biografia do próprio Lima Barreto que é, ao mesmo tempo, Augusto Machado e Gonzaga de Sá.

9.   a

10.   b

11. A Guanabara é apresentada como dona de uma “calma face”, produto do diálogo estabelecido entre o mar e a serra. O primeiro é caracterizado como “espelhejante” e “móvel” e a segunda, como “suntuosa”, “austera” e “conselheiral”. Os verbos que indicam o desenvolvimento dessa espécie de conversa entre dois elementos tão distintos são “transmutar-se” e “tocar-se”, o que sugere um processo de aproximação e possível fusão das características de cada um. Lima Barreto aborda a cidade do Rio de Janeiro em um período de transição entre a Monarquia e a República, uma época de transformações, nem sempre efetivas, de costumes arraigados desde os tempos do Brasil colônia, como, por exemplo, a relação com os negros. Para Gonzaga de Sá, os novos grupos sociais ascendentes pela República não tinham a mesma capacidade dos monarquistas de dialogar com os afrodescendentes. A decepção com as promessas não cumpridas pela República e a constituição de uma sociedade cada vez mais excludente geram certa nostalgia em relação a aspectos do passado. Assim, percebe-se que Lima Barreto está representando um Rio de Janeiro que passa por mudanças complexas, as quais poderiam obter melhor arranjo e conclusão por meio do diálogo entre passado e presente.

12. O texto deixa claras as origens do narrador, Augusto Machado. Trata-se de um jovem mestiço, de 20 anos de idade, cujos avós eram oriundos de Portugal e da África. Augusto se orgulha da semelhança entre sua origem mestiça e a constituição étnica do Rio de Janeiro e, por extensão, do Brasil. O narrador considera que sua história está entrelaçada à da cidade, o que reforça a referida identificação.

 

 

 





04 maio 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: NO SEU PESCOÇO (2)

 


Questão 1

Leia o fragmento para responder.

O sul-africano se remexeu na cadeira. Edward mastigou mais o cachimbo. Então, olhou para Ujunwa da maneira como alguém olha para uma criança que se recusa a ficar quieta na igreja, e disse que não falava como um africanista de Oxford, mas como alguém interessado na verdadeira África, e não na imposição de ideias ocidentais sobre os loci africanos. A zimbabuense, o tanzaniano e a sul-africana branca começaram a balançar a cabeça enquanto Edward falava.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Jumping Monkey Hill. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 118.

 

A cena evidencia um dos principais conflitos temáticos do conto “Jumping Monkey Hill”, ao revelar:

a) a tentativa de uma crítica honesta por parte do organizador do workshop em relação à literatura africana contemporânea.

b) a arrogância intelectual do olhar europeu sobre a produção literária africana e a conivência de participantes africanos com esse discurso.

c) a rejeição da personagem Ujunwa às propostas de um modelo europeu de escrita acadêmica.

d) a valorização da diversidade de vozes africanas dentro de um espaço de escuta coletiva.

e) o embate entre tradição oral africana e cânone literário eurocentrado.

 

- Texto para a questão 2 -

Certa vez, no Chang’s, ele disse ao garçom que tinha ido recentemente a Xangai e que falava um pouco de mandarim. O garçom ficou animado, falou qual era a melhor sopa e depois perguntou: “Você tem namorada em Xangai agora?”. Ele deu um sorriso, sem dizer nada.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 134.

 

Questão 2

A situação retratada no fragmento revela um dos desconfortos vividos pela narradora durante sua experiência de deslocamento nos Estados Unidos. A fala do garçom, ao perguntar se o rapaz tinha uma namorada em Xangai, expressa:

a) a normalização de relações interculturais em ambientes urbanos e globalizados.

b) uma forma sutil de humor que tensiona as diferenças culturais entre clientes e atendentes.

c) uma manifestação de preconceito étnico que associa homens brancos à posse sexual de mulheres asiáticas, revelando exotização e machismo.

d) o incômodo causado pelo ciúme da narradora diante da atitude ambígua do namorado.

e) uma crítica velada à superficialidade das relações afetivas no Ocidente.

 

- Leia o texto e responda -

Josh entrou na cozinha e correu para Tracy, com o rosto iluminado de alegria. “Mamãe!” Tracy abraçou-o, beijou-o e bagunçou seu cabelo. “Você terminou de trabalhar, mamãe?”, perguntou ele, agarrando a mão dela.

“Ainda não, meu amor.” [...]

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Na segunda-feira da semana passada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 97.

 

Questão 3

Com base no trecho, a atitude da personagem Tracy pode ser interpretada como:

a) um reflexo do amor incondicional que sente por sua arte.

b) uma manifestação de descaso e indiferença materna.

c) uma crítica ao desequilíbrio entre a vida profissional e a pessoal.

d) um sinal de sua rebeldia contra os padrões tradicionais de maternidade.

e) uma expressão de seu conflito interno por não conseguir conciliar arte e família.

 

- Texto para a questão 4 -

Ali estavam os mendigos cegos levados pelas mãos por crianças, recitando bênçãos em inglês, iorubá, inglês pidgin, igbo, hausa, quando alguém pingava algum dinheiro em seus pratos.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A embaixada americana. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 141-142.

 

Questão 4

A multiplicidade linguística das bênçãos citadas no fragmento é um exemplo de:

a) diversidade cultural da Nigéria e de suas várias etnias.

b) unificação linguística do país sob o domínio colonial.

c) imposição das línguas locais sobre as culturas africanas tradicionais.

d) tentativa de universalização das tradições africanas pelas línguas dominantes.

e) predominância de línguas locais na vida política da Nigéria.

 

- Texto para a questão 5 -

O homem poderoso sentado no banco de trás não saiu, mas seu motorista sim, examinando os danos, olhando para o corpo estatelado de seu pai pelo canto dos olhos, como se aquela súplica fosse pornográfica, uma performance da qual tinha vergonha de admitir estar gostando.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 133.

 

Questão 5

A cena retrata um acidente envolvendo o pai da narradora. O comportamento do motorista do homem poderoso, que parece sentir prazer contido diante da dor alheia, indica:

a) o impacto emocional de presenciar uma situação trágica sem poder agir.

b) o constrangimento típico de relações sociais marcadas por desigualdade.

c) o incômodo gerado por manifestações públicas de sofrimento físico.

d) a reprodução de gestos cruéis por parte de indivíduos que, embora subordinados, incorporam e expressam a lógica do poder e do desprezo.

e) o medo de que o patrão seja responsabilizado pelo acidente.

 

Questão 6

Leia o texto e responda ao que se pede.

Talvez o homem se perguntasse por que ela não participa- va da intimidade que surgira entre as pessoas da fila. Já que todos tinham acordado cedo – sendo que alguns nem tinham dormido – para chegar à embaixada americana antes do amanhecer; já que todos tinham chegado com dificuldade à fila do visto, desviando dos chicotes dos soldados que estalavam no ar enquanto eram levados para a frente e para trás como uma manada, até  que a fila afinal se formara; já que todos temiam que a embaixada americana pudesse decidir não abrir os portões naquele dia [...].

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A embaixada americana. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 141.

 

O fragmento sugere uma série de tensões vividas pelos personagens na tentativa de acesso à embaixada americana. Ao retratar esse ambiente como cenário de humilhação e resistência, a autora:

a) exalta a solidariedade entre os cidadãos nigerianos diante das dificuldades burocráticas.

b) constrói uma crítica simbólica ao desequilíbrio das relações sociais e políticas entre países como a Nigéria e potências como os Estados Unidos.

c) apresenta o caos urbano típico das cidades africanas em contexto de modernização.

d) denuncia a militarização da embaixada como símbolo da repressão ocidental ao estrangeiro.

e) evidencia o fracasso dos imigrantes que buscam escapar da realidade africana.

 

- Texto para a questão 7 -

Dentro do enorme terreno da cadeia, dois policiais açoitavam alguém deitado no chão sob o pé de musizi. A princípio, eu, com um aperto no peito, achei que fosse Nnamabia, mas não era. Eu conhecia o menino deitado no chão, se contorcendo e gritando a cada golpe de koboko do policial. [...]

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A Cela Um. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 24.

 

Questão 7

O trecho revela a atmosfera opressiva da prisão em que está detido Nnamabia. A cena permite compreender:

a) a rotina disciplinar comum nas instituições penais nigerianas.

b) a impunidade das autoridades diante de erros judiciais cometidos.

c) a maneira como a cultura tradicional nigeriana influencia os métodos policiais.

d) a naturalização da violência institucional e o distanciamento emocional com que os agentes tratam os detentos.

e) a revolta dos presos diante das condições insalubres das prisões africanas.

- Texto para a questão 8 -

“Ebere não está mais conosco; já faz três anos”, respondi em igbo. Fiquei surpreso ao ver as lágrimas que brotaram nos olhos de Ikenna. Ele tinha esquecido o nome dela, mas, de alguma maneira, era capaz de lamentar sua perda; ou, talvez, estivesse lamentando a perda de uma época imensa em possibilidades. [...]

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Fantasmas. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 74.

 

Questão 8

A cena retrata o reencontro entre dois homens afetados pela guerra e pelas ausências. A resposta em igbo e a reação emcionada de Ikenna revelam:

a) a frieza típica das relações masculinas diante do luto.

b) a recusa em aceitar o passado e as perdas que ele impõe.

c) o poder da língua como elo afetivo e cultural que ativa lembranças e reconecta subjetividades marcadas pela história.

d) a dificuldade em estabelecer uma comunicação objetiva após tantos anos de distanciamento.

e) a solidão que acompanha os personagens sobreviventes do conflito e sua relação superficial com os mortos.

 

 

1. b

2. c

3. c

4. a

5. d

6. b

7. d

8. c





ARE YOU OK?

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