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06 novembro 2022

NARRATIVAS MITOLÓGICAS

 Deméter e Perséfone

Embora Deméter tenha tido outros sete filhos, é Perséfone, a filha gerada com Zeus, que tem a ligação mais profunda com a mãe.

Nosso primeiro contato com o mito de Perséfone, também chamada Corê, que significa “a garota”, ocorre no chamado “Hino a Deméter”. Nele ficamos sabendo que Perséfone era a beleza personificada e alegrava a humanidade, então em tempos de abundância permanente. Um belo dia, a garota brincava pelos campos floridos com suas amigas, quando viu uma flor maravilhosa, um espetacular narciso como ela nunca vira antes. Ao abaixar-se para recolhê-lo, a terra se abriu diante dela e fez surgir “o Hospedeiro de Muitos”, que se atira sobre ela.

            Era Hades, senhor do reino dos mortos. Em vão Perséfone gritou e resistiu. Hades agarrou-a e, quando a terra se fechou sobre eles, arrastou-a para as profundezas, sem que ninguém mais ouvisse os gritos da jovem. Apenas Deméter escutava um lamento distante, no qual reconhecia o eco da voz da filha, sem conseguir atinar com o que ocorrera.

Apreensiva por notícias da filha, Deméter, ainda sem saber o que aconteceu, corre em direção ao local onde deixara Perséfone com as amigas lá encontra uma ninfa que a tudo assistira, porém esta não lhe pode dar qualquer informação, pois foi transformada em uma fonte. É então que Deméter vê flutuando, na água desta fonte, o cinto da filha. Algo de terrível havia acontecido.

            Inicia-se, a busca de Deméter pela jovem Perséfone, que dura nove dias e nove noites. Ela percorre o mundo, com tochas acesas nas mãos, “sem comer ambrosia, beber néctar e sem borrifar o corpo com água”, prossegue o hino. E quando Hécate, deusa da Lua e das noites sombrias diz a Deméter que ouvira os lamentos de Perséfone e a aconselha a perguntar a Hélios, deus do Sol, a quem nada escapa do que ocorre sobre a Terra, sobre o destino de Perséfone. Hélios então desfaz o mistério e tenta consolá-la:

            Rainha Deméter, vou dizer-lhe a verdade pois muita piedade me causa vê-la com sua dor por sua filha. Nenhum outro dos deuses imortais se deve culpar, mas apenas o juntador de nuvens Zeus, que a deu a Hades, seu irmão, para ser chamada de esposa. E Hades a subjugou e levou-a chorando alto em seu carro para o reino de névoa e tristeza. No entanto, deusa, cesse seu alto lamento e não mantenha em vão sua raiva: Hades não é marido inadequado, entre os deuses imortais, para sua filha, e é o senhor de todos aqueles entre os quais ele mora.

            Mas nem a solução para o desaparecimento misterioso da jovem e nem as ponderadas palavras do deus do Sol sobre as virtudes de seu novo genro acalmaram a dor e a ira de Deméter. O fato de Zeus haver permitido o rapto, ao invés de consolá-la, revolta-a ainda mais. Ela então decide se despir de sua roupagem divina e abandonar o Olimpo. Sai vagando sem destino pelo mundo, impedindo que os campos brotem e assim ameaçando, silenciosamente, a sobrevivência da humanidade.

            Zeus ordena que a deusa-mensageira Íris vá convencer Deméter a voltar para o Olimpo e reassumir suas funções divinas. Mas é inútil. Deméter, agora estabelecida em Elêusis como babá de um menino, responde a Zeus que só voltará ao Olimpo, e à sua tarefa de alimentar a humanidade, se tiver a filha de volta.

Sem outra escolha para evitar a destruição da humanidade, Zeus manda seu outro fiel mensageiro, Hermes, buscar Perséfone no Hades. O rei das profundezas, aparentemente, não se opõe a isso. Apenas tenta convencer a jovem de que seria um bom marido e oferece a ela o status de soberana absoluta de seu reino, respeitada e temida, com direito a receber para sempre aquilo de que os deuses mais gostavam: ritos e oferendas dos humanos.

A jovem se deixa convencer e manifesta sua concordância, mas Hades, por precaução, faz com que ela coma algumas sementes de romã, pois quem comia algo no Hades ficava obrigado a sempre voltar. Perséfone é então levada até Deméter e o encontro de ambas é multo feliz. Mas quando Deméter pergunta à garota se ela comera algo no Hades, ao ouvir uma resposta positiva sua ira novamente se manifesta. Por sorte, Réia, mãe de Deméter e avó de Perséfone, consegue convencer a deusa da agricultura a ver a filha apenas em algumas épocas do ano, deixando que ela volte ao Hades em outras. Convence-a também a retornar para o Olimpo e reassumir seus deveres em relação à humanidade.

Nasciam assim as estações do ano. Na primavera e no verão, Deméter e Perséfone estavam juntas; no outono e no inverno, a jovem morava no mundo subterrâneo.

 

 

Eros e Psiquê 

O mais conhecido dos filhos de Afrodite é Eros. O “deus do amor” – chamado de Cupido pelos romanos – é o garotinho nu que acompanha Afrodite, “flechando” com as setas do amor os corações até então livres de tal sentimento.

Embora exista referência a um Eros como a força da procriação na formação do universo, o Eros mais presente nos relatos míticos é o Eros filho de Afrodite e apenas dela, pois já teria nascido grávida.

O certo é que todos o dão como o garotinho desobediente, que flecha de amor ou incendeia com sua tocha os corações de quem a mãe lhe ordena, mas que, também, desobediente, muitas vezes age por conta própria.

            E foi a desobediência de Eros que levou à grande crise com Psiquê, princesa mortal, cuja beleza parecia superar a da própria Afrodite.

            Enciumada pela beleza da princesa, Afrodite ordena a Eros que a faça apaixonar-se pelo mais feio dos homens. Ao invés de cumprir tal ordem, Eros apaixona-se por Psiquê – que é vista como representação da alma humana – e a esconde, visitando-a todas as noites, com o trato de ela não indagar sua identidade, muito menos, vê-lo.

            Curiosa, e temendo estar apaixonada por horrenda criatura, Psiquê examina Eros sob a luz de uma lamparina, mas uma gota óleo cai sobre o deus, acordando-o. Contrariado, Eros desaparece, deixando Psiquê desesperada, vagando pelo mundo à procura do ser amado. Nessa busca, ela pede ajuda aos deuses, mas, um a um, eles a negam, pois têm conhecimento da ira de Afrodite contra a jovem que, além de bela demais, lhe “roubara” o filho Eros.

            Chegando ao templo de Afrodite, Psiquê é aprisionada e passa pelas piores e mais duras provas concebidas pela deusa. A força de superação que Psiquê sente e que não a deixa esmorecer vem do amor de Eros, que continua a protegê-la. Ele finalmente consegue que Zeus reconheça seu matrimônio com Psiquê e a liberte da vingança materna. Zeus dá a ambrosia – bebida dos deuses – para a princesa e, assim, faz dela imortal, decretando a eternidade do amor entre Eros e Psiquê.

 

Histórias adaptadas de:



06 julho 2022

POR QUE O SOL ANDA TÃO DEVAGAR?

 

Contam os velhos sábios Karajá que, no início dos tempos, não havia sol, lua ou estrelas para trazer claridade. Tudo era muito escuro. Por causa disso, os Karajá precisavam manter um pequeno braseiro aceso dentro de casa. Mas isso era muito trabalhoso, pois exigia que os homens saíssem para a mata atrás de lenha. Como tudo era escuro e frio, todo mundo sentia uma grande indisposição para ir até lá. Além da preguiça, eles também sentiam muito medo de permanecerem fora de sua hetó, pois os perigos eram muito grandes.

Nesta época, dizem os velhos, a preguiça tomava de todo mundo, mesmo do grande herói do povo Karajá. Este herói, de nome Cananxiuê, morava na casa do pai de sua esposa, como é o costume desse povo. Por isso, sempre ouvia o velho homem lhe dizer:

- Oh, meu genro. você precisa encontrar a luz e trazê-la para todos nós. Você é um herói e como herói tem que resolver este problema que fará muito bem para os Karajá.

- Tá bom meu sogro, um dia eu vou!

Mas o herói não queria saber de levantar-se de sua rede. Como todos os homens do lugar, preferia ficar ali a enfrentar a noite escura e fria da mata. Nem lenha ele queria ir buscar, deixando a tarefa para sua esposa.

Um dia o velho sogro estava muito irritado com Cananxiuê e foi ele mesmo buscar lenha na mata. Como já estava bastante idoso, não enxergava mais direito, e acabou caindo e se machucando todo. Lá do mato, socorrido por outras pessoas, o homem velho berrou com o genro:

- Ô Cananxiuê, você tem que dar um jeito nessa escuridão! Já não aguento mais essa vida!

Não adiantou nada. O herói preguiçoso continuou deitado, cheio de preguiça. Foi então que os animais e a esposa de Cananxiuê se juntaram ao sogro, e começaram a reclamar.

Irritado com tanta gente pegando no seu pé, Cananxiuê decidiu sair pelo mundo à procura da luz do sol. Como estava irritado, decidiu que iria sozinho e nada levaria consigo.

Vendo que o herói nada levava, todo mundo na aldeia ficou desconfiado. Todos achavam que, andando desse jeito, sem levar arma alguma, aquele moço não conseguiria trazer o sol consigo.

Até os animais da floresta começaram a dizer a Cananxiuê:

- Como um homem sozinho pode vencer Theuú? O sol é grande e forte e mãos vazias não irão aguentá-lo.

- Randô é esperta e cheia de fases. Como poderá vencê-la?

- Thainá é valente e ligeira. Ela pisca e se esconde. Como irá encontrá-la?

Cananxiuê nada respondia. Continuava quieto apenas fazendo planos em seu pensamento:

- Se não posso flechar o sol, laçar a lua, amarrar as estrelas, para que usar armas? A minha arma tem que ser a esperteza.

E assim continuou sua jornada. Pelo caminho ia perguntando para todos que encontrava qual seria o paradeiro do sol, da lua e das estrelas. Ninguém sabia direito, até que num dia encontrou alguém que sabia onde eles viviam.

- O sol, a lua e as estrelas estão lá em cima. Eles estão muito bem guardados pelo Ranranresá, o urubu-rei.

- Então, se o urubu-rei que é dono do sol, da lua e das estrelas, é ele que tenho que vencer!

E assim foi, dizem os velhos Karajás.

Canaxiuê bolou um plano para vencer o Ranranserá. Ao chegar num lugar bonito, onde havia uma praia de rio, lugar largo e que desse chance para uma fuga, resolveu que ali seria o espaço ideal para travar sua batalha com o urubu-rei.

Ele deitou-se no chão e avisou a todos os animais que o seguiam: morri!

Para testar se ele estava mesmo morto, as moscas vieram e andaram por cima do corpo estendido no chão. Fizeram barulho perto do ouvido do herói morto e não conseguiram que ele movesse um único músculo. Disseram então:

- Ele está morto. Ele morreu mesmo.

Em seguida veio um grupo de urubus e voaram em círculo sobre o cadáver. Desconfiados, não quiseram arriscar descer onde ele estava. Tempos depois, alguns vieram e bicaram a barriga de Cananxiuê, mas ele não se mexeu. Então disseram entre si:

- Ele está morto. Pode avisar o rei.

Ranranserá sobrevoou o herói. Estava desconfiado, mas, acreditando nas palavras de seus conselheiros, pousou bem no peito do cadáver que, rápido como um raio, agarrou as pernas do urubu-rei e tornou-o seu prisioneiro.

Ao notar que o herói havia conseguido aprisionar o dono do sol, os animais começaram a caçoar do pássaro:

- Este urubu não é de nada. Deixou aprisionar-se de uma forma tão infantil.

- Não pode ser rei alguém que se torna presa de um Karajá!

- Como pode ser dono do sol, da lua e das estrelas alguém tão fácil de agarrar.

Os animais sabiam que agindo daquela forma iriam provocar a ira do urubu-rei e que acabariam conseguindo dele o que queriam.

Passado algum tempo, e já não mais aguentando tamanha gozação, Ranranresá chamou Canaxiuê e lhe propôs satisfazer qualquer vontade do moço por sua liberdade.

- Liberte-me e eu lhe darei o que pedir.

- Irá me dar qualquer coisa?

- Tudo o que quiser, desde que me liberte.

- Você me dá sua palavra, urubu-rei?

- Dou minha palavra.

O herói libertou o urubu-rei, que imediatamente tomou o rumo do céu. Aliviado por estar livre das correntes, a ave voltou ao jovem:

- O que você quer em troca de minha liberdade?

- Quero a luz das estrelas!

O Urubu sumiu, voltando em seguida com a luz das estrelas. Isto, no entanto, não agradou a todos. Queriam uma luz mais forte que a das estrelas.

- Quero que me traga a luz da lua!

Urubu-rei partiu e regressou trazendo apenas a luz da lua consigo. No entanto, essa luz ainda não era suficiente.

- Quero Theuú, o sol. Somente ele tem a luz e o calor que os Karajás precisam.

Urubu-rei foi e voltou com o sol. O sol brilhava forte, e quase queimou tudo em seu caminho. Mas, o Urubu-rei estava muito chateado com os Karajás, e pediu ao sol que passasse bem rápido, sem dar tempo para que ninguém o aproveitasse. E mais uma vez os Karajás foram reclamar com Cananxiuê.

O herói tentou pedir para que o Urubu-rei falasse com o sol. No entanto, o bicho estava com tanta raiva de Cananxiuê que disse a ele que ele mesmo falasse com o sol.

Canaxiuê bolou então um plano para conseguir fazer com que o sol passasse mais devagar. Ficou esperando no topo de uma grande palmeira. Quando o sol estava bem perto da árvore saltou para cima do sol e agarrou sua cabeleira. Ela estava muito quente! Por isso Canaxiuê teve de escorregar até seu pescoço, que ainda estava muito quente, fazendo com que ele escorregasse para sua barriga, e depois para sua cintura, até que chegasse em sua barriga da perna, onde o calor era suportável.

Quando chegou na batata da perna do sol, Cananxiuê se agarrou bem firme, fazendo com que o sol passasse bem devagar, e que os Karajás conseguissem realizar todas as suas tarefas diárias: caçar, pescar, pegar lenha na mata, trançar suas redes, comer… Sem precisar correr com medo do fim do dia.

E quando o sol vai embora e a humanidade fica entregue à noite, os Karajás recebem com alegria a luz de Randô, e podem contar com Thainá mesmo nas noites mais escuras.

 

Glossário

Karajá: Povo que habita o Estado do Tocantins. Sua família linguística pertence ao grande tronco Macro-Jê e incorpora outros grupos indígenas como os Javaé e Xambioá.

Cananxiuê - Herói cultural Karajá. Nesta história, o herói é quem tira o seu povo da escuridão da noite.

Theuú – Sol

Randô – Lua

Thainá - Estrela vespertina

Ranranresá - Urubu-rei. Ave grande, formosa e rara. É um urubu de penas cor do café com leite, arminho no pescoço e pupila branca como se fosse de porcelana. Seu nome foi dado por causa da coroa amarela e vermelha que traz na cabeça como um cristal.

 

Conto adaptado do livro MUNDURUKU, Daniel. Contos indígenas brasileiros, São Paulo: Global, 2005.








4. D       5. B        6. D       7. C        8. A


04 julho 2022

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

 ELES NÃO USAM BLACK-TIE, DE GIANFRANCESCO GUARNIERI

 

Primeira peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não usam black-tie, de 1958, foi encenada pela primeira vez quando o movimento Cinema Novo começava a surgir [...]. No lugar de cenários pomposos e figurinos luxuosos, ficaram apenas os elementos de cena indispensáveis. Ao invés de personagens ricos e nobres, operários e moradores do morro tomaram o palco. Ali, em plenos anos 50, negros eram cidadãos comuns. Pela primeira vez, os conflitos da realidade brasileira ganhavam espaço na caixa cênica.

Eles não usam black-tie situa-se [...] tem como tema a greve, e [...] como pano de fundo um debate sobre as grandes verdades eternas, reflexões universais sobre a frágil condição humana, [...]. É a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes [...].

O pai, Otávio, é operário de carreira, um sonhador, um idealista, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre os seus companheiros, experimentou várias lideranças, algumas prisões, com isso ganha destaque entre os seus transformando-se num dos cabeças do movimento grevista.

O filho, Tião, [...] é criado [...] longe do morro, com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe operária. Hoje adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve [...]. Em segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros [...]. Para Tião, greve é algo utópico. Ele [...] precisa resolver seus problemas de imediato, ou seja, se casar.

Eles não usam black-tie é um texto político e social, sempre atual no qual Gianfracesco Guarnieri criou de um lado, personagens marcantes e populares [...] que nos revelam um mundo alegre, descontraído e aparentemente feliz. Já por outro lado a peça se apresenta forte e densa revelando de maneira real os conflitos que atormentam personagens [...]. Assim, se por um lado mostra um olhar profundo dentro da sociedade brasileira, por outro esse olhar vem embalado por um valor poético materializado na visão romântica do mundo de seus personagens.

Embora, na convencional teoria de dramaturgia teatral não se enquadre essa abordagem, o drama social é de natureza épica e por isso mesmo uma contradição em si mesma. Aqui, novamente Guarnieri quebrou também outra regra essencial, presente nos manuais do “bom drama”: ao invés de trazer personagens “superiores” como protagonistas, ele se utilizou de gente humilde, trabalhadores comuns, para conduzir sua história. [...]

A temática não é política, muito menos panfletária. O que discorre são relações de amor, solidariedade e esperança diante dos percalços de uma vida miserável. Assim, a peça alia temas como greve e vida operária com preocupações e reflexões universais do ser humano. [...]

Eles não usam black-tie é um marco do teatro de temática social. Foi com a encenação de Eles não usam black-tie, que se iniciou uma produção sistemática e crítica de textos dispostos a representar as classes subalternas, com ênfase para a representação do proletariado. Nesse sentido, a peça de Guarnieri insere-se num quadro que se ampliou a partir da década de 1950, quando surgiu uma dramaturgia com preocupações ligadas à representação de uma camada específica da sociedade brasileira e, para além disso, em busca da construção de uma identidade nacional pautada em variedades culturais internas.



Adaptado de: https://www.passeiweb.com/eles_nao_usam_black_tie/




FARSA DE INÊS PEREIRA - GIL VICENTE (TRECHO EM PORTUGUÊS BRASILEIRO)

Sai a mãe. Fica Inês Pereira e o Escudeiro. A jovem começa a cuidar da casa, cantando uma cantiga:

Inês:             Vida de Inês é difícil,

É difícil ser Inês...

Mas agora, casada...

O Escudeiro, vendo Inês Pereira, fica irado... E grita:

Escudeiro:   Você cantou, Senhora Inês Pereira?

Não acredito no que você fez!

Será a primeira e última vez!

Se eu ouvir outra vez você cantar,

Não conseguirá nem mais assoviar...

Inês:             Se assim o quer, meu marido,

Farei o que me é por você pedido,

E demos o caso por esquecido.

Escudeiro:   Acho bom que obedeça.

Sempre assim deve ser que aconteça.

Inês:             Por que ficou bravo, marido?

Escudeiro:   E precisa de motivo?

Digo só uma coisa:

Assim deve ser minha esposa...

Que não me responda, eu digo

Quando o marido fala,

A mulher se cala!

Você não vai falar

Com mulher ou homem que seja;

Nem irá à igreja

Eu já preguei as janelas,

Não porá seu rosto fora delas;

Vai ficar trancada, isolada,

E nem um pio vai reclamar!

Inês:             Ó, Deus? Quantos pecados foram os meus?

Por que razão me mantém nessa prisão?

Escudeiro:   Não há outro jeito

Mantê-la, sem defeito

É você, mulher, a razão...

Que mal existe guardar meu ouro?

Você é meu tesouro!

Em casa não vai mandar

Por nada, nenhum pouco;

Se eu disser: “Isto é um porco”

Com a cabeça baixa vai ter que confirmar.

Só eu posso ordenar!

Não vai você chorar!

Lá na guerra da África,

Poderei eu me tornar cavaleiro.

Falando para o criado:

Escudeiro:    Você deve permanecer aqui, assim;

Vai vigiar por mim

O que faz sua senhora:

Não permita que fique para fora.

Falando para Inês:

Escudeiro:    Você, trabalhe, fica por aqui.




28 maio 2022

AUTOCONHECIMENTO – UMA FERRAMENTA PARA A CONSTRUÇÃO DE PROJETOS

Para investigar

Observe as imagens a seguir. Uma é das ruínas do templo do deus Apolo, em Delfos, na Grécia; a outra é uma ilustração especulativa de todo o Oráculo – em seu auge –, com o templo de Apolo ao centro, feita pelo arquiteto francês Albert Tournaire.




Esse local, cujo apogeu se deu entre os séculos VI e IV a.C., foi visitado por importantes governantes e por cidadãos comuns que buscavam conselhos, tanto para problemas pessoais como para questões políticas. No pátio do templo de Apolo, encontrava-se inscrita a frase “conhece-te a ti mesmo”, vista por todos aqueles que para lá se dirigiam. Foi essa mesma frase que orientou as investigações filosóficas de Sócrates em busca do autoconhecimento e do conhecimento da verdade. No século XX, foi usada, em sua versão latina (temet nosce), como inscrição sobre a porta do Oráculo nos filmes Matrix (1999) e Matrix Revolutions (2003).

Reflita: Qual o sentido dessa frase? Por que estaria presente na entrada de um templo para onde as pessoas se dirigiam em busca de respostas para suas dúvidas? Você a considera válida ainda hoje?

Adquirir autoconhecimento não é uma tarefa simples; requer que sejamos capazes de identificar nossos desejos, nossas limitações, nossos valores. Você acredita que se conhece? Sabe quais são seus pontos fortes? Sabe como se preservar diante de situações difíceis e estressantes? Já refletiu sobre como todos esses elementos são importantes para que possa fazer suas escolhas e determinar os caminhos que quer seguir? Discuta com os colegas e com o professor essas questões.

 Para aprender

·        A construção da identidade

Autoconhecimento e projeto de vida

A construção de um projeto de vida é uma atividade complexa e relaciona-se diretamente ao autoconhecimento. Antes de buscar respostas em fontes externas, é a compreensão de quem você é, do que você deseja, de quais são suas habilidades e seus pontos a serem aperfeiçoados que melhor pode orientá-lo na determinação dos caminhos que quer trilhar.

A reflexão sobre desejos e objetivos direciona o estabelecimento de metas, o desenvolvimento de projetos e a definição de estratégias. Essa prática pode parecer difícil, especialmente quando se pensa em longo prazo. Mas é possível criar estratégias e estabelecer metas a serem atingidas em diferentes momentos.

Você pode planejar a melhor forma de passar seu próximo fim de semana, o que pretende fazer ao final do Ensino Médio e como deseja que esteja sua vida profissional aos 50 anos. Exercitar essa reflexão é um caminho não só para lidar com suas potencialidades e vocações, mas também para identificar possibilidades e estabelecer objetivos.

É claro que você não precisa definir seu futuro profissional agora, nem estabelecer suas metas pessoais para toda a vida, até porque os sonhos, as necessidades e os desejos podem mudar ao longo do tempo, mas, certamente, o autoconhecimento facilitará a sua trajetória. Pense a respeito das questões propostas a seguir. Você tem respostas para todas? Caso não tenha, registre essa incerteza e qual sua provável causa. As respostas são pessoais, e você não precisará compartilhá-las.

O importante é que reflita a respeito das questões.

- Que tipo de atividade você mais gosta de fazer?

- De que tipo de atividade você não gosta?

- Qual seu objetivo pessoal?

- Qual seu objetivo acadêmico?

- Qual seu objetivo profissional?

- Quais são suas maiores qualidades?

- O que você acredita que deve melhorar em você mesmo?

 

Posicionamento de marca. Você sabe o que é?

Você sabia que, assim como os seres humanos buscam o autoconhecimento para desenvolver suas potencialidades, as empresas também se preocupam com a construção de sua identidade e com a definição de seu posicionamento? Em geral, elas também dão importância à forma como desejam ser reconhecidas e buscam a melhor maneira de se conectar com seu público. Uma das estratégias usadas para isso é determinar seu arquétipo de marca, ou seja, a imagem que as define e por meio da qual desejam estabelecer ligação com o público.

 O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung desenvolveu o conceito de arquétipos em 1919. Segundo ele, são conjuntos de imagens primordiais que estão presentes o tempo todo e em todo o lugar e que estão armazenados no inconsciente coletivo. A partir do século XXI, esse conceito passou a ser amplamente aplicado ao marketing, para que as marcas gerassem maiores e melhores conexões com o consumidor. 

Veja, no quadro a seguir, elementos que caracterizam os arquétipos e exemplos de algumas marcas que mostram a intenção de explorar tais arquétipos. Depois, consulte as páginas dessas marcas em rede social e reflita se as publicações, como um todo, cumprem uma estratégia de marketing coerente com o posicionamento das marcas e a construção de sua identidade. Para isso, analise tanto os aspectos verbais quanto os visuais (fotos, desenhos, vídeos) e anote suas conclusões.


Arquétipo

Elementos característicos

Exemplo

O inocente

Pureza, simplicidade e positividade

Dove

O sábio

Conhecimento, aprendizado e evolução constantes

Unicamp

O herói

Esforço, coragem, dedicação, resiliência, perseverança

Nike

O fora da lei

Rebeldia, inquietação, inovação

Harley Davidson

O explorador

Curiosidade, liberdade, felicidade, plenitude, quebra de rotina

Land Rover

O mago

Mistério, imaginação, magia, coragem e criação de ideias disruptivas

Red Bull

A pessoa comum

Praticidade, eficiência, desejo de pertencimento

Havaianas

O amante

Personalização, exclusividade, sensualidade, ousadia, intimidade

Dior

O bobo da corte

Diversão, despreocupação, humor, tranquilidade

M&M’s

O cuidador

Carinho, afeto, cuidado, humanidade

Médicos Sem Fronteiras

O criador

Engenhosidade, criatividade

Lego

O governante

Liderança, persuasão, comunicação, carisma, força, poder, ostentação

Cartier

 




Os textos a seguir destacam como duas marcas decidiram se posicionar diante de seu público em determinado momento de sua história. Leia-os e assista aos vídeos neles indicados. Depois identifique a qual(is) arquétipo(s) você associa cada uma delas, justificando sua resposta.

 

Texto I

Audi apresenta novo posicionamento no Brasil

Vendo seu público envelhecer, a Audi direciona seus esforços na mídia digital para falar com o público jovem e convencê-lo a ter um carro. Saiba mais.

Em um evento reservado em São Paulo a Audi anunciou para a imprensa um pouco dos seus planos para comunicação e marketing nos próximos meses. No ano em que completa 25 anos no Brasil, a marca anunciou um novo posicionamento e prometeu o maior investimento no digital.

A comunicação da Audi será trabalhada em 4 pilares: Brand Entry, New Premium, Etron e Audi Sport. As duas últimas terão um ar mais aspiracional e devem ajudar a alavancar as vendas das duas primeiras e reforçar o compromisso da marca com a inovação tecnológica e o conforto.

“O Parto” conta a história de uma bebê que estabelece uma relação especial com a Audi desde o dia de seu nascimento. [...]

“A inspiração da campanha foi resgatar a ousadia e a criatividade que sempre estiveram no DNA das ações de marketing da empresa desde a sua chegada ao Brasil, há 25 anos, com um filme que reforça a conexão emocional que existe entre a marca e nossos clientes”, afirma Claudio Rawicz, diretor de comunicação da Audi do Brasil.

“Além disso, essa superprodução inteiramente filmada no Brasil reforça a atitude vanguardista presente em todos os veículos da Audi, também na comunicação, pois trata-se de um filme inspirador, inesperado e de puro entretenimento”, complementa Marcio Avolio, gerente de marketing da Audi do Brasil.

Para cuidar do digital, sai a Wunderman e entra a Cubo CC. Marca e agências enfrentam o problema de ver o consumidor de Audi envelhecer, relatado pela própria companhia durante coletiva. A companhia não falou sobre valores, mas prometeu investir de 40 a 45% da verba em digital.

Outro problema encontrado não só pela Audi, mas por todo setor automotivo é o distanciamento do público jovem do desejo de se ter um carro. Apesar disso, a Audi afirmou que acredita que o jovem quer, sim, comprar um carro. Para isso a companhia se posicionará como uma companhia democrática, porém dentro do segmento premium.

FERREIRA, Matheus. Geek publicitário, 25 fev. 2019. Disponível em: http://geekpublicitario.com.br/34912/novo-posicionamento-audi-brasil/. Acesso em: 13 jul. 2020.

 


Texto II

Natura lança novo posicionamento

Marca convoca a sociedade a fazer mais pelo mundo.

A Natura lançou, na semana passada, o novo posicionamento institucional da marca. Na campanha “O Mundo É Mais Bonito Com Você”, ela convida as pessoas a se tornarem agentes de transformação da sociedade.

Entre os princípios que reforça estão o compartilhamento de riqueza, a não realização de testes em animais, a valorização da diversidade, a redução de resíduos, a escolha de ingredientes vegetais e de fontes renováveis, o cuidado com a origem dos produtos e o combate às mudanças climáticas.

“Com base nos pilares que desde sempre norteiam nossa atuação – a beleza livre de estereótipos, o poder das relações e o desenvolvimento sustentável –, queremos fazer um chamado poderoso para o engajamento da nossa rede na construção de um mundo mais bonito, justo e equilibrado”, afirma Andrea Álvares, vice-presidente de marketing, inovação e sustentabilidade da Natura.

A marca, que foi a primeira do setor a oferecer refis de seus produtos, gera e compartilha valor com uma rede com mais de 1,7 milhão de consultoras na América Latina e as mais de 5 mil famílias de comunidades fornecedoras.

O novo posicionamento envolve tanto consumidoras quanto consultoras. “Queremos ouvir o que elas esperam de uma marca de beleza, construindo um diálogo transparente para que, juntas, possamos seguir na vanguarda da inovação e das melhores práticas na indústria de bens de consumo”, afirma Andrea.

Disponível em: https://cosmeticinnovation.com.br/natura-lanca-novo-posicionamento/.Acesso em: 13 jul. 2020.

 


 
 

·        Elementos verbais e não verbais na construção de peças publicitárias

Peças publicitárias, de modo geral, unem diferentes linguagens (verbal, visual, sonora) a fim de transmitir ao público os valores da marca ou instituição e seu posicionamento. Portanto, ao lermos e interpretarmos esses textos, a seguir, devemos considerar todos esses elementos e a forma como se relacionam.

 

Atividade prática

A imagem ao lado foi postada nas redes sociais da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras no dia mundial do refugiado (20 de junho de 2020). Observe-a atentamente, discuta as questões propostas com os colegas e o professor e anote as conclusões.



1. Como os personagens presentes na imagem se associam ao tema da postagem?

2. De que forma o cenário reforça a ideia de que os personagens ali representados encontram-se em situação difícil e necessitam de proteção?

3. Cores, tipos e tamanhos de letras e grafismos são recursos que se somam às imagens e ao texto verbal para compor uma peça publicitária. Na peça que você está analisando, o vermelho é uma cor de destaque. Levante hipóteses que expliquem esse fato.

4. De modo geral, peças publicitárias apresentam textos de caráter injuntivo, ou seja, que buscam estimular o leitor a tomar uma determinada atitude. Por isso, é frequente a presença de verbos no modo imperativo. Nessa peça isso não ocorre. Pode-se afirmar que há, implícito, um pedido a quem vê a imagem? Justifique.

5. A cena dialoga com o texto: há pessoas que necessitam de assistência e proteção.

a) Qual o efeito de sentido causado pelo emprego do termo mais em “enfrentando mais riscos”?

b) Qual o sentido da expressão “mais do que nunca” no contexto?

6. A peça publicitária confirma o arquétipo do cuidador como aquele que identifica os Médicos Sem Fronteiras? Justifique.

MAP (4) - OS ARGONAUTAS