05 março 2024
11 fevereiro 2024
06 novembro 2022
NARRATIVAS MITOLÓGICAS
Deméter e Perséfone
Embora
Deméter tenha tido outros sete filhos, é Perséfone, a filha gerada com Zeus,
que tem a ligação mais profunda com a mãe.
Nosso
primeiro contato com o mito de Perséfone, também chamada Corê, que significa “a
garota”, ocorre no chamado “Hino a Deméter”. Nele ficamos sabendo que Perséfone
era a beleza personificada e alegrava a humanidade, então em tempos de
abundância permanente. Um belo dia, a garota brincava pelos campos floridos com
suas amigas, quando viu uma flor maravilhosa, um espetacular narciso como ela
nunca vira antes. Ao abaixar-se para recolhê-lo, a terra se abriu diante dela e
fez surgir “o Hospedeiro de Muitos”, que se atira sobre ela.
Era Hades, senhor do reino dos
mortos. Em vão Perséfone gritou e resistiu. Hades agarrou-a e, quando a terra
se fechou sobre eles, arrastou-a para as profundezas, sem que ninguém mais
ouvisse os gritos da jovem. Apenas Deméter escutava um lamento distante, no
qual reconhecia o eco da voz da filha, sem conseguir atinar com o que ocorrera.
Apreensiva
por notícias da filha, Deméter, ainda sem saber o que aconteceu, corre em direção
ao local onde deixara Perséfone com as amigas lá encontra uma ninfa que a tudo
assistira, porém esta não lhe pode dar qualquer informação, pois foi
transformada em uma fonte. É então que Deméter vê flutuando, na água desta
fonte, o cinto da filha. Algo de terrível havia acontecido.
Inicia-se, a busca de Deméter pela
jovem Perséfone, que dura nove dias e nove noites. Ela percorre o mundo, com
tochas acesas nas mãos, “sem comer ambrosia, beber néctar e sem borrifar o
corpo com água”, prossegue o hino. E quando Hécate, deusa da Lua e das noites
sombrias diz a Deméter que ouvira os lamentos de Perséfone e a aconselha a
perguntar a Hélios, deus do Sol, a quem nada escapa do que ocorre sobre a
Terra, sobre o destino de Perséfone. Hélios então desfaz o mistério e tenta
consolá-la:
Rainha Deméter, vou dizer-lhe a
verdade pois muita piedade me causa vê-la com sua dor por sua filha. Nenhum
outro dos deuses imortais se deve culpar, mas apenas o juntador de nuvens Zeus,
que a deu a Hades, seu irmão, para ser chamada de esposa. E Hades a subjugou e
levou-a chorando alto em seu carro para o reino de névoa e tristeza. No
entanto, deusa, cesse seu alto lamento e não mantenha em vão sua raiva: Hades
não é marido inadequado, entre os deuses imortais, para sua filha, e é o senhor
de todos aqueles entre os quais ele mora.
Mas nem a solução para o
desaparecimento misterioso da jovem e nem as ponderadas palavras do deus do Sol
sobre as virtudes de seu novo genro acalmaram a dor e a ira de Deméter. O fato
de Zeus haver permitido o rapto, ao invés de consolá-la, revolta-a ainda mais.
Ela então decide se despir de sua roupagem divina e abandonar o Olimpo. Sai
vagando sem destino pelo mundo, impedindo que os campos brotem e assim
ameaçando, silenciosamente, a sobrevivência da humanidade.
Zeus ordena que a deusa-mensageira
Íris vá convencer Deméter a voltar para o Olimpo e reassumir suas funções
divinas. Mas é inútil. Deméter, agora estabelecida em Elêusis como babá de um
menino, responde a Zeus que só voltará ao Olimpo, e à sua tarefa de alimentar a
humanidade, se tiver a filha de volta.
Sem
outra escolha para evitar a destruição da humanidade, Zeus manda seu outro fiel
mensageiro, Hermes, buscar Perséfone no Hades. O rei das profundezas,
aparentemente, não se opõe a isso. Apenas tenta convencer a jovem de que seria
um bom marido e oferece a ela o status de soberana absoluta de seu reino,
respeitada e temida, com direito a receber para sempre aquilo de que os deuses
mais gostavam: ritos e oferendas dos humanos.
A
jovem se deixa convencer e manifesta sua concordância, mas Hades, por
precaução, faz com que ela coma algumas sementes de romã, pois quem comia algo
no Hades ficava obrigado a sempre voltar. Perséfone é então levada até Deméter
e o encontro de ambas é multo feliz. Mas quando Deméter pergunta à garota se
ela comera algo no Hades, ao ouvir uma resposta positiva sua ira novamente se
manifesta. Por sorte, Réia, mãe de Deméter e avó de Perséfone, consegue
convencer a deusa da agricultura a ver a filha apenas em algumas épocas do ano,
deixando que ela volte ao Hades em outras. Convence-a também a retornar para o
Olimpo e reassumir seus deveres em relação à humanidade.
Nasciam
assim as estações do ano. Na primavera e no verão, Deméter e Perséfone estavam
juntas; no outono e no inverno, a jovem morava no mundo subterrâneo.
Eros e Psiquê
O
mais conhecido dos filhos de Afrodite é Eros. O “deus do amor” – chamado de
Cupido pelos romanos – é o garotinho nu que acompanha Afrodite, “flechando” com
as setas do amor os corações até então livres de tal sentimento.
Embora
exista referência a um Eros como a força da procriação na formação do universo,
o Eros mais presente nos relatos míticos é o Eros filho de Afrodite e apenas
dela, pois já teria nascido grávida.
O
certo é que todos o dão como o garotinho desobediente, que flecha de amor ou
incendeia com sua tocha os corações de quem a mãe lhe ordena, mas que, também,
desobediente, muitas vezes age por conta própria.
E foi a desobediência de Eros que
levou à grande crise com Psiquê, princesa mortal, cuja beleza parecia superar a
da própria Afrodite.
Enciumada pela beleza da princesa,
Afrodite ordena a Eros que a faça apaixonar-se pelo mais feio dos homens. Ao
invés de cumprir tal ordem, Eros apaixona-se por Psiquê – que é vista como
representação da alma humana – e a esconde, visitando-a todas as noites, com o
trato de ela não indagar sua identidade, muito menos, vê-lo.
Curiosa, e temendo estar apaixonada por horrenda criatura, Psiquê examina Eros sob a luz de uma lamparina, mas uma gota óleo cai sobre o deus, acordando-o. Contrariado, Eros desaparece, deixando Psiquê desesperada, vagando pelo mundo à procura do ser amado. Nessa busca, ela pede ajuda aos deuses, mas, um a um, eles a negam, pois têm conhecimento da ira de Afrodite contra a jovem que, além de bela demais, lhe “roubara” o filho Eros.
Chegando ao templo de Afrodite,
Psiquê é aprisionada e passa pelas piores e mais duras provas concebidas pela
deusa. A força de superação que Psiquê sente e que não a deixa esmorecer vem do
amor de Eros, que continua a protegê-la. Ele finalmente consegue que Zeus
reconheça seu matrimônio com Psiquê e a liberte da vingança materna. Zeus dá a
ambrosia – bebida dos deuses – para a princesa e, assim, faz dela imortal,
decretando a eternidade do amor entre Eros e Psiquê.
Histórias adaptadas de:
06 julho 2022
POR QUE O SOL ANDA TÃO DEVAGAR?
Contam os velhos sábios Karajá que, no início dos
tempos, não havia sol, lua ou estrelas para trazer claridade. Tudo era muito
escuro. Por causa disso, os Karajá precisavam manter um pequeno braseiro aceso
dentro de casa. Mas isso era muito trabalhoso, pois exigia que os homens
saíssem para a mata atrás de lenha. Como tudo era escuro e frio, todo mundo
sentia uma grande indisposição para ir até lá. Além da preguiça, eles também
sentiam muito medo de permanecerem fora de sua hetó, pois os perigos eram muito
grandes.
Nesta época, dizem os velhos, a preguiça
tomava de todo mundo, mesmo do grande herói do povo Karajá. Este herói, de nome
Cananxiuê, morava
na casa do pai de sua esposa, como é o costume desse povo. Por isso, sempre
ouvia o velho homem lhe dizer:
- Oh, meu genro. você precisa encontrar a luz
e trazê-la para todos nós. Você é um herói e como herói tem que resolver este
problema que fará muito bem para os Karajá.
- Tá bom meu sogro, um dia eu vou!
Mas o herói não queria saber de levantar-se
de sua rede. Como todos os homens do lugar, preferia ficar ali a enfrentar a
noite escura e fria da mata. Nem lenha ele queria ir buscar, deixando a tarefa
para sua esposa.
Um dia o velho sogro estava muito irritado
com Cananxiuê e foi ele mesmo buscar lenha na mata. Como já estava bastante
idoso, não enxergava mais direito, e acabou caindo e se machucando todo. Lá do
mato, socorrido por outras pessoas, o homem velho berrou com o genro:
- Ô Cananxiuê, você tem que dar um jeito
nessa escuridão! Já não aguento mais essa vida!
Não adiantou nada. O herói preguiçoso
continuou deitado, cheio de preguiça. Foi então que os animais e a esposa de
Cananxiuê se juntaram ao sogro, e começaram a reclamar.
Irritado com tanta gente pegando no seu pé,
Cananxiuê decidiu sair pelo mundo à procura da luz do sol. Como estava
irritado, decidiu que iria sozinho e nada levaria consigo.
Vendo que o herói nada levava, todo mundo na
aldeia ficou desconfiado. Todos achavam que, andando desse jeito, sem levar
arma alguma, aquele moço não conseguiria trazer o sol consigo.
Até os animais da floresta começaram a dizer
a Cananxiuê:
- Como um homem sozinho pode vencer Theuú? O sol é grande e
forte e mãos vazias não irão aguentá-lo.
- Randô é esperta e cheia de fases. Como poderá vencê-la?
- Thainá é valente e ligeira. Ela pisca e se esconde. Como irá
encontrá-la?
Cananxiuê nada respondia. Continuava quieto
apenas fazendo planos em seu pensamento:
- Se não posso flechar o sol, laçar a lua,
amarrar as estrelas, para que usar armas? A minha arma tem que ser a esperteza.
E assim continuou sua jornada. Pelo caminho
ia perguntando para todos que encontrava qual seria o paradeiro do sol, da lua
e das estrelas. Ninguém sabia direito, até que num dia encontrou alguém que
sabia onde eles viviam.
- O sol, a lua e as estrelas estão lá em
cima. Eles estão muito bem guardados pelo Ranranresá, o urubu-rei.
- Então, se o urubu-rei que é dono do sol, da
lua e das estrelas, é ele que tenho que vencer!
E assim foi, dizem os velhos Karajás.
Canaxiuê bolou um plano para vencer o
Ranranserá. Ao chegar num lugar bonito, onde havia uma praia de rio, lugar
largo e que desse chance para uma fuga, resolveu que ali seria o espaço ideal
para travar sua batalha com o urubu-rei.
Ele deitou-se no chão e avisou a todos os
animais que o seguiam: morri!
Para testar se ele estava mesmo morto, as
moscas vieram e andaram por cima do corpo estendido no chão. Fizeram barulho
perto do ouvido do herói morto e não conseguiram que ele movesse um único
músculo. Disseram então:
- Ele está morto. Ele morreu mesmo.
Em seguida veio um grupo de urubus e voaram
em círculo sobre o cadáver. Desconfiados, não quiseram arriscar descer onde ele
estava. Tempos depois, alguns vieram e bicaram a barriga de Cananxiuê, mas ele
não se mexeu. Então disseram entre si:
- Ele está morto. Pode avisar o rei.
Ranranserá sobrevoou o herói. Estava
desconfiado, mas, acreditando nas palavras de seus conselheiros, pousou bem no
peito do cadáver que, rápido como um raio, agarrou as pernas do urubu-rei e
tornou-o seu prisioneiro.
Ao notar que o herói havia conseguido
aprisionar o dono do sol, os animais começaram a caçoar do pássaro:
- Este urubu não é de nada. Deixou
aprisionar-se de uma forma tão infantil.
- Não pode ser rei alguém que se torna presa
de um Karajá!
- Como pode ser dono do sol, da lua e das
estrelas alguém tão fácil de agarrar.
Os animais sabiam que agindo daquela forma
iriam provocar a ira do urubu-rei e que acabariam conseguindo dele o que
queriam.
Passado algum tempo, e já não mais aguentando
tamanha gozação, Ranranresá chamou Canaxiuê e lhe propôs satisfazer qualquer
vontade do moço por sua liberdade.
- Liberte-me e eu lhe darei o que pedir.
- Irá me dar qualquer coisa?
- Tudo o que quiser, desde que me liberte.
- Você me dá sua palavra, urubu-rei?
- Dou minha palavra.
O herói libertou o urubu-rei, que
imediatamente tomou o rumo do céu. Aliviado por estar livre das correntes, a
ave voltou ao jovem:
- O que você quer em troca de minha
liberdade?
- Quero a luz das estrelas!
O Urubu sumiu, voltando em seguida com a luz
das estrelas. Isto, no entanto, não agradou a todos. Queriam uma luz mais forte
que a das estrelas.
- Quero que me traga a luz da lua!
Urubu-rei partiu e regressou trazendo apenas
a luz da lua consigo. No entanto, essa luz ainda não era suficiente.
- Quero Theuú, o sol. Somente ele tem a luz e
o calor que os Karajás precisam.
Urubu-rei foi e voltou com o sol. O sol
brilhava forte, e quase queimou tudo em seu caminho. Mas, o Urubu-rei estava
muito chateado com os Karajás, e pediu ao sol que passasse bem rápido, sem dar
tempo para que ninguém o aproveitasse. E mais uma vez os Karajás foram reclamar
com Cananxiuê.
O herói tentou pedir para que o Urubu-rei
falasse com o sol. No entanto, o bicho estava com tanta raiva de Cananxiuê que
disse a ele que ele mesmo falasse com o sol.
Canaxiuê bolou então um plano para conseguir
fazer com que o sol passasse mais devagar. Ficou esperando no topo de uma
grande palmeira. Quando o sol estava bem perto da árvore saltou para cima do
sol e agarrou sua cabeleira. Ela estava muito quente! Por isso Canaxiuê teve de
escorregar até seu pescoço, que ainda estava muito quente, fazendo com que ele
escorregasse para sua barriga, e depois para sua cintura, até que chegasse em
sua barriga da perna, onde o calor era suportável.
Quando chegou na batata da perna do sol,
Cananxiuê se agarrou bem firme, fazendo com que o sol passasse bem devagar, e
que os Karajás conseguissem realizar todas as suas tarefas diárias: caçar,
pescar, pegar lenha na mata, trançar suas redes, comer… Sem precisar correr com
medo do fim do dia.
E quando o sol vai embora e a humanidade fica
entregue à noite, os Karajás recebem com alegria a luz de Randô, e podem contar
com Thainá mesmo nas noites mais escuras.
Glossário
Karajá:
Povo que habita o Estado do Tocantins. Sua família linguística pertence ao
grande tronco Macro-Jê e incorpora outros grupos indígenas como os Javaé e
Xambioá.
Cananxiuê
- Herói cultural Karajá. Nesta história, o herói é quem tira o seu povo da
escuridão da noite.
Theuú
– Sol
Randô
– Lua
Thainá
- Estrela vespertina
Ranranresá
- Urubu-rei. Ave grande, formosa e rara. É um urubu de penas cor do café com
leite, arminho no pescoço e pupila branca como se fosse de porcelana. Seu nome
foi dado por causa da coroa amarela e vermelha que traz na cabeça como um
cristal.
Conto adaptado do livro MUNDURUKU, Daniel. Contos indígenas brasileiros, São Paulo:
Global, 2005.
4. D 5. B 6. D 7.
C 8. A
04 julho 2022
ELES NÃO USAM BLACK-TIE
ELES NÃO USAM BLACK-TIE, DE GIANFRANCESCO GUARNIERI
Primeira peça de Gianfrancesco
Guarnieri, Eles não usam black-tie,
de 1958, foi encenada pela primeira vez quando o movimento Cinema Novo começava
a surgir [...]. No lugar de cenários pomposos e figurinos luxuosos, ficaram
apenas os elementos de cena indispensáveis. Ao invés de personagens ricos e
nobres, operários e moradores do morro tomaram o palco. Ali, em plenos anos 50,
negros eram cidadãos comuns. Pela primeira vez, os conflitos da realidade
brasileira ganhavam espaço na caixa cênica.
Eles
não usam black-tie situa-se
[...] tem como tema a greve, e [...] como pano de fundo um debate sobre as
grandes verdades eternas, reflexões universais sobre a frágil condição humana, [...].
É a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais
completamente opostas e divergentes [...].
O pai, Otávio, é operário de carreira, um
sonhador, um idealista, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um
revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre
os seus companheiros, experimentou várias lideranças, algumas prisões, com isso
ganha destaque entre os seus transformando-se num dos cabeças do movimento
grevista.
O filho, Tião, [...] é criado [...] longe do morro,
com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe
operária. Hoje adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores
conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve [...]. Em
segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e
leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais
preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros [...]. Para
Tião, greve é algo utópico. Ele [...] precisa resolver seus problemas de
imediato, ou seja, se casar.
Eles
não usam black-tie é
um texto político e social, sempre atual no qual Gianfracesco Guarnieri criou
de um lado, personagens marcantes e populares [...] que nos revelam um mundo
alegre, descontraído e aparentemente feliz. Já por outro lado a peça se
apresenta forte e densa revelando de maneira real os conflitos que atormentam
personagens [...]. Assim, se por um lado mostra um olhar profundo dentro da
sociedade brasileira, por outro esse olhar vem embalado por um valor poético
materializado na visão romântica do mundo de seus personagens.
Embora, na convencional teoria de dramaturgia
teatral não se enquadre essa abordagem, o drama social é de natureza épica e por
isso mesmo uma contradição em si mesma. Aqui, novamente Guarnieri quebrou
também outra regra essencial, presente nos manuais do “bom drama”: ao invés de
trazer personagens “superiores” como protagonistas, ele se utilizou de gente
humilde, trabalhadores comuns, para conduzir sua história. [...]
A temática não é política, muito menos
panfletária. O que discorre são relações de amor, solidariedade e esperança
diante dos percalços de uma vida miserável. Assim, a peça alia temas como greve
e vida operária com preocupações e reflexões universais do ser humano. [...]
Eles
não usam black-tie é
um marco do teatro de temática social. Foi com a encenação de Eles não usam black-tie, que se
iniciou uma produção sistemática e crítica de textos dispostos a representar as
classes subalternas, com ênfase para a representação do proletariado. Nesse
sentido, a peça de Guarnieri insere-se num quadro que se ampliou a partir da
década de 1950, quando surgiu uma dramaturgia com preocupações ligadas à
representação de uma camada específica da sociedade brasileira e, para além
disso, em busca da construção de uma identidade nacional pautada em variedades
culturais internas.
Adaptado
de: https://www.passeiweb.com/eles_nao_usam_black_tie/
FARSA DE INÊS PEREIRA - GIL VICENTE (TRECHO EM PORTUGUÊS BRASILEIRO)
Sai a mãe. Fica Inês Pereira e o Escudeiro. A jovem começa a cuidar da casa, cantando uma cantiga:
Inês: Vida de Inês é
difícil,
É
difícil ser Inês...
Mas
agora, casada...
O Escudeiro, vendo Inês Pereira, fica irado... E
grita:
Escudeiro: Você cantou, Senhora Inês Pereira?
Não
acredito no que você fez!
Será
a primeira e última vez!
Se
eu ouvir outra vez você cantar,
Não
conseguirá nem mais assoviar...
Inês: Se assim o quer, meu marido,
Farei o que me é por
você pedido,
E demos o caso por
esquecido.
Escudeiro: Acho bom que obedeça.
Sempre
assim deve ser que aconteça.
Inês: Por que ficou bravo, marido?
Escudeiro: E precisa de motivo?
Digo
só uma coisa:
Assim
deve ser minha esposa...
Que
não me responda, eu digo
Quando
o marido fala,
A
mulher se cala!
Você
não vai falar
Com
mulher ou homem que seja;
Nem
irá à igreja
Eu
já preguei as janelas,
Não
porá seu rosto fora delas;
Vai
ficar trancada, isolada,
E
nem um pio vai reclamar!
Inês: Ó, Deus? Quantos pecados foram os
meus?
Por
que razão me mantém nessa prisão?
Escudeiro: Não há outro jeito
Mantê-la,
sem defeito
É
você, mulher, a razão...
Que
mal existe guardar meu ouro?
Você
é meu tesouro!
Em
casa não vai mandar
Por
nada, nenhum pouco;
Se
eu disser: “Isto é um porco”
Com
a cabeça baixa vai ter que confirmar.
Só
eu posso ordenar!
Não
vai você chorar!
Lá
na guerra da África,
Poderei
eu me tornar cavaleiro.
Falando para o criado:
Escudeiro: Você deve permanecer aqui, assim;
Vai
vigiar por mim
O
que faz sua senhora:
Não
permita que fique para fora.
Falando para Inês:
Escudeiro: Você, trabalhe, fica por aqui.
26 junho 2022
28 maio 2022
AUTOCONHECIMENTO – UMA FERRAMENTA PARA A CONSTRUÇÃO DE PROJETOS
Para investigar
Observe as imagens a seguir. Uma é das
ruínas do templo do deus Apolo, em Delfos, na Grécia; a outra é uma ilustração
especulativa de todo o Oráculo – em seu auge –, com o templo de Apolo ao
centro, feita pelo arquiteto francês Albert Tournaire.
Esse local, cujo apogeu se deu entre os séculos VI e IV a.C., foi visitado por importantes governantes e por cidadãos comuns que buscavam conselhos, tanto para problemas pessoais como para questões políticas. No pátio do templo de Apolo, encontrava-se inscrita a frase “conhece-te a ti mesmo”, vista por todos aqueles que para lá se dirigiam. Foi essa mesma frase que orientou as investigações filosóficas de Sócrates em busca do autoconhecimento e do conhecimento da verdade. No século XX, foi usada, em sua versão latina (temet nosce), como inscrição sobre a porta do Oráculo nos filmes Matrix (1999) e Matrix Revolutions (2003).
Reflita: Qual o sentido
dessa frase? Por que estaria presente na entrada de um templo para onde as
pessoas se dirigiam em busca de respostas para suas dúvidas? Você a considera
válida ainda hoje?
Adquirir autoconhecimento não é uma
tarefa simples; requer que sejamos capazes de identificar nossos desejos, nossas
limitações, nossos valores. Você acredita que se conhece? Sabe quais são seus
pontos fortes? Sabe como se preservar diante de situações difíceis e
estressantes? Já refletiu sobre como todos esses elementos são importantes para
que possa fazer suas escolhas e determinar os caminhos que quer seguir? Discuta
com os colegas e com o professor essas questões.
· A construção da identidade
Autoconhecimento e projeto
de vida
A construção de um projeto
de vida é uma atividade complexa e relaciona-se diretamente ao
autoconhecimento. Antes de buscar respostas em fontes externas, é a compreensão
de quem você é, do que você deseja, de quais são suas habilidades e seus pontos
a serem aperfeiçoados que melhor pode orientá-lo na determinação dos caminhos
que quer trilhar.
A reflexão sobre desejos e
objetivos direciona o estabelecimento de metas, o desenvolvimento de projetos e
a definição de estratégias. Essa prática pode parecer difícil, especialmente
quando se pensa em longo prazo. Mas é possível criar estratégias e estabelecer
metas a serem atingidas em diferentes momentos.
Você pode planejar a melhor
forma de passar seu próximo fim de semana, o que pretende fazer ao final do
Ensino Médio e como deseja que esteja sua vida profissional aos 50 anos. Exercitar
essa reflexão é um caminho não só para lidar com suas potencialidades e vocações,
mas também para identificar possibilidades e estabelecer objetivos.
É claro que você não
precisa definir seu futuro profissional agora, nem estabelecer suas metas
pessoais para toda a vida, até porque os sonhos, as necessidades e os desejos
podem mudar ao longo do tempo, mas, certamente, o autoconhecimento facilitará a
sua trajetória. Pense a respeito das questões propostas a seguir. Você tem
respostas para todas? Caso não tenha, registre essa incerteza e qual sua provável
causa. As respostas são pessoais, e você não precisará compartilhá-las.
O importante é que reflita a respeito das
questões.
- Que tipo de atividade você mais gosta de
fazer?
- De que tipo de atividade você não gosta?
- Qual seu objetivo pessoal?
- Qual seu objetivo acadêmico?
- Qual seu objetivo profissional?
- Quais são suas maiores qualidades?
- O que você acredita que deve melhorar em você
mesmo?
Posicionamento de marca.
Você sabe o que é?
Você sabia que, assim como
os seres humanos buscam o autoconhecimento para desenvolver suas
potencialidades, as empresas também se preocupam com a construção de sua
identidade e com a definição de seu posicionamento? Em geral, elas também dão
importância à forma como desejam ser reconhecidas e buscam a melhor maneira de
se conectar com seu público. Uma das estratégias usadas para isso é determinar seu
arquétipo de marca, ou seja, a imagem que as define e por meio da qual desejam
estabelecer ligação com o público.
Veja, no quadro a seguir, elementos que
caracterizam os arquétipos e exemplos de algumas marcas que mostram a intenção
de explorar tais arquétipos. Depois, consulte as páginas dessas marcas em rede
social e reflita se as publicações, como um todo, cumprem uma estratégia de marketing coerente
com o posicionamento das marcas e a construção de sua identidade. Para isso,
analise tanto os aspectos verbais quanto os visuais (fotos, desenhos, vídeos) e
anote suas conclusões.
|
Arquétipo |
Elementos
característicos |
Exemplo |
|
O
inocente |
Pureza, simplicidade e
positividade |
Dove |
|
O
sábio |
Conhecimento, aprendizado
e evolução constantes |
Unicamp |
|
O
herói |
Esforço, coragem,
dedicação, resiliência, perseverança |
Nike |
|
O
fora da lei |
Rebeldia, inquietação,
inovação |
Harley Davidson |
|
O
explorador |
Curiosidade, liberdade,
felicidade, plenitude, quebra de rotina |
Land Rover |
|
O
mago |
Mistério, imaginação,
magia, coragem e criação de ideias disruptivas |
Red Bull |
|
A
pessoa comum |
Praticidade, eficiência,
desejo de pertencimento |
Havaianas |
|
O
amante |
Personalização,
exclusividade, sensualidade, ousadia, intimidade |
Dior |
|
O
bobo da corte |
Diversão, despreocupação,
humor, tranquilidade |
M&M’s |
|
O
cuidador |
Carinho, afeto, cuidado,
humanidade |
Médicos Sem Fronteiras |
|
O
criador |
Engenhosidade,
criatividade |
Lego |
|
O
governante |
Liderança, persuasão,
comunicação, carisma, força, poder, ostentação |
Cartier |
Os textos a seguir destacam como
duas marcas decidiram se posicionar diante de seu público em determinado
momento de sua história. Leia-os e assista aos vídeos neles indicados. Depois
identifique a qual(is) arquétipo(s) você associa cada uma delas, justificando
sua resposta.
Texto I
Audi apresenta novo
posicionamento no Brasil
Vendo seu público envelhecer, a Audi direciona seus esforços
na mídia digital para falar com o público jovem e convencê-lo a ter um carro.
Saiba mais.
Em um evento reservado
em São Paulo a Audi anunciou para a imprensa um pouco dos seus planos para
comunicação e marketing nos próximos meses. No ano em que completa 25
anos no Brasil, a marca anunciou um novo posicionamento e prometeu o maior
investimento no digital.
A comunicação da Audi
será trabalhada em 4 pilares: Brand Entry, New Premium, Etron e Audi Sport. As duas
últimas terão um ar mais aspiracional e devem ajudar a alavancar as vendas das
duas primeiras e reforçar o compromisso da marca com a inovação tecnológica e o
conforto.
“O Parto” conta a
história de uma bebê que estabelece uma relação especial com a Audi desde o dia
de seu nascimento. [...]
“A inspiração da
campanha foi resgatar a ousadia e a criatividade que sempre estiveram no DNA
das ações de marketing da empresa desde a sua chegada ao Brasil, há
25 anos, com um filme que reforça a conexão emocional que existe entre a marca
e nossos clientes”, afirma Claudio Rawicz, diretor de comunicação da Audi do
Brasil.
“Além disso, essa
superprodução inteiramente filmada no Brasil reforça a atitude vanguardista
presente em todos os veículos da Audi, também na comunicação, pois trata-se de
um filme inspirador, inesperado e de puro entretenimento”, complementa Marcio
Avolio, gerente de marketing da Audi do Brasil.
Para cuidar do digital,
sai a Wunderman e entra a Cubo CC. Marca e agências enfrentam o problema de ver
o consumidor de Audi envelhecer, relatado pela própria companhia durante
coletiva. A companhia não falou sobre valores, mas prometeu investir de 40 a
45% da verba em digital.
Outro problema
encontrado não só pela Audi, mas por todo setor automotivo é o distanciamento
do público jovem do desejo de se ter um carro. Apesar disso, a Audi afirmou que
acredita que o jovem quer, sim, comprar um carro. Para isso a companhia se
posicionará como uma companhia democrática, porém dentro do segmento premium.
FERREIRA, Matheus. Geek publicitário, 25 fev. 2019.
Disponível em: http://geekpublicitario.com.br/34912/novo-posicionamento-audi-brasil/.
Acesso em: 13 jul. 2020.
Texto II
Natura lança novo
posicionamento
Marca convoca a sociedade a fazer mais pelo mundo.
A Natura lançou, na
semana passada, o novo posicionamento institucional da marca. Na campanha “O
Mundo É Mais Bonito Com Você”, ela convida as pessoas a se tornarem agentes de
transformação da sociedade.
Entre os princípios que
reforça estão o compartilhamento de riqueza, a não realização de testes em animais,
a valorização da diversidade, a redução de resíduos, a escolha de ingredientes
vegetais e de fontes renováveis, o cuidado com a origem dos produtos e o
combate às mudanças climáticas.
“Com base nos pilares
que desde sempre norteiam nossa atuação – a beleza livre de estereótipos, o
poder das relações e o desenvolvimento sustentável –, queremos fazer um chamado
poderoso para o engajamento da nossa rede na construção de um mundo mais
bonito, justo e equilibrado”, afirma Andrea Álvares, vice-presidente de marketing, inovação e sustentabilidade da Natura.
A marca, que foi a
primeira do setor a oferecer refis de seus produtos, gera e compartilha valor
com uma rede com mais de 1,7 milhão de consultoras na América Latina e as mais
de 5 mil famílias de comunidades fornecedoras.
O novo posicionamento
envolve tanto consumidoras quanto consultoras. “Queremos ouvir o que elas
esperam de uma marca de beleza, construindo um diálogo transparente para que,
juntas, possamos seguir na vanguarda da inovação e das melhores práticas na
indústria de bens de consumo”, afirma Andrea.
Disponível em: https://cosmeticinnovation.com.br/natura-lanca-novo-posicionamento/.Acesso em: 13 jul. 2020.
· Elementos verbais e não
verbais na construção de peças publicitárias
Peças publicitárias, de modo geral,
unem diferentes linguagens (verbal, visual, sonora) a fim de transmitir ao
público os valores da marca ou instituição e seu posicionamento. Portanto, ao
lermos e interpretarmos esses textos, a seguir, devemos considerar todos esses
elementos e a forma como se relacionam.
Atividade prática
A imagem ao lado foi postada nas redes sociais da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras no dia mundial do refugiado (20 de junho de 2020). Observe-a atentamente, discuta as questões propostas com os colegas e o professor e anote as conclusões.
1. Como os personagens presentes na imagem
se associam ao tema da postagem?
2. De que forma o cenário reforça a ideia
de que os personagens ali representados encontram-se em situação difícil e
necessitam de proteção?
3. Cores, tipos e tamanhos de letras e
grafismos são recursos que se somam às imagens e ao texto verbal para compor
uma peça publicitária. Na peça que você está analisando, o vermelho é uma cor
de destaque. Levante hipóteses que expliquem esse fato.
4. De modo geral, peças publicitárias
apresentam textos de caráter injuntivo, ou seja, que buscam estimular o leitor a
tomar uma determinada atitude. Por isso, é frequente a presença de verbos no
modo imperativo. Nessa peça isso não ocorre. Pode-se afirmar que há, implícito,
um pedido a quem vê a imagem? Justifique.
5. A cena dialoga com o texto: há pessoas
que necessitam de assistência e proteção.
a) Qual o efeito de sentido causado pelo
emprego do termo mais em
“enfrentando mais riscos”?
b) Qual o sentido da expressão “mais do
que nunca” no contexto?
6. A peça publicitária confirma o
arquétipo do cuidador como aquele que identifica os Médicos Sem Fronteiras? Justifique.
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