15 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A PAIXÃO SEGUNDO G. H. (2)

 


QUESTÃO 01

Clarice Lispector é conhecida por sua expressividade devido à introspecção profunda, à linguagem poética, ao uso do fluxo de consciência, à exploração de temas universais e à narrativa subjetiva.

[...] Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação a: ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra – como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 11.

 

No excerto, a base da expressividade usada pela autora se encontra:

a) no distanciamento deliberado da voz narrativa dos conflitos internos, mas que, ao mesmo tempo, transmite certa angústia existencial.

b) no exame filosófico e detalhado para explicar a complexidade da relação com a própria identidade e com o parceiro amoroso da narradora.

c) na narrativa fragmentada, imitando possíveis perturbações psicológicas que refletem traumas antigos em sua vida.

d) no aprofundamento do autoconhecimento da personagem, que enfrenta seus medos e suas incertezas sobre a vida e revela sua luta interna e introspecção.

e) na dinâmica de comunicação interrompida entre os parceiros amorosos, que se manifesta como o principal elemento gerador da expressividade, de maneira que a falta de entendimento mútuo justifica o medo da própria existência.

 

QUESTÃO 02

Clarice Lispector ocupa um lugar destacado na Literatura Brasileira. Em sua obra estão presentes as seguintes características:

a) intimismo, introspecção, temática urbana.

b) temática urbana, folclore, moralidade.

c) subjetividade, temática agrária, religiosidade.

d) psicologismo, regionalismo, ruralismo.

e) tradicionalismo, romantismo, intimismo.

 

QUESTÃO 03

O romance de Clarice Lispector:

a) pode ser considerado uma realização ficcional ilustrativa das propostas teóricas do movimento feminista.

b) é representante autêntico da crítica de costumes, pois nele há uma bem-humorada análise da sociedade urbana em transformação.

c) é marcado pelo uso intensivo da metáfora, pela entrega ao fluxo da consciência e pela ruptura com o enredo factual.

e) tem sempre um forte conteúdo político-social, a partir da denúncia da opressão em que vivem as personagens.

QUESTÃO 04

Para responder às perguntas que seguem, leia com atenção o trecho abaixo.

Então, antes de entender, meu coração embranqueceu como cabelos embranquecem.

De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 45.

 

a) Nos textos de Clarice Lispector, é bastante comum que um evento trivial acabe se tornando uma experiência perturbadora e transformadora para os personagens. No caso do romance A paixão segundo G.H., explique que tipo de preocupações o incidente mencionado no trecho provoca na vida da protagonista.

b) De que maneira a interação com a barata simboliza a jornada introspectiva vivida pela narradora?

 

QUESTÃO 05

Leia o trecho abaixo:

Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.

 

O fragmento, extraído da obra de Clarice Lispector, apresenta:

a) uma reflexão sobre o processo de criação literária.

b) uma postura racional, antissentimental, triste e recorrente na literatura dessa fase.

c) traços visíveis da sensibilidade, característica presente na 2ª fase modernista.

d) a visão da autora, sempre preocupada com o valor da mulher na sociedade.

e) exemplos de neologismo, característica comum na 3ª fase modernista.

 

QUESTÃO 06

Clarice Lispector se dizia uma escritora “sentidora”. O termo se justifica porque Clarice:

I. registrava impressões, ideias e sentimentos, guiando-se pelo fluxo da consciência.

II. sondava a mente das personagens, privilegiando assim a sequência das ações e suas causas.

III. separava com rigor os mundos interno e externo das personagens, a imaginação e a realidade.

 

A análise das afirmativas nos permite afirmar corretamente que:

a) apenas I é verdadeira.

b) apenas II é verdadeira.

c) apenas III é verdadeira.

d) I e II são verdadeiras.

e) I e III são verdadeiras.

 

QUESTÃO 07

Em uma narração, o fluxo de ideias ou de consciência é uma técnica que consiste em reproduzir, de forma contínua e não linear, pensamentos, emoções e impressões de um personagem, os quais guiam a narrativa e o desenvolvimento da história. Esse tipo de técnica é característica marcante de muitas obras de Clarice Lispector, como exemplificado no trecho a seguir, retirado da obra A paixão segundo G.H.

Fiquei quieta. Minha respiração era leve, superficial. Eu tinha agora uma sensação de irremediável. E já sabia que, embora absurdamente, eu só teria ainda chance de sair dali se encarasse frontal e absurdamente que alguma coisa estava sendo irremediável. Eu sabia que tinha de admitir o perigo em que eu estava, mesmo consciente de que era loucura acreditar num perigo inteiramente inexistente. Mas eu tinha de acreditar em mim – a vida toda eu estivera como todo o mundo em perigo – mas agora, para poder sair, eu tinha a responsabilidade alucinada de ter de saber disso.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 49.

 

Com base na leitura atenta do trecho anterior, explique qual é a intenção da autora ao empregar esse tipo de narração em suas obras e por que o interlocutor se mantém envolvido nesse tipo de leitura.

 

QUESTÃO 08

Uma das mais importantes obras da literatura contemporânea é o livro A metamorfose (1915), de Franz Kafka. Nele, o leitor é apresentado a Gregor Samsa, personagem que, logo no início da narrativa, acorda metamorfoseado em um monstruoso inseto, semelhante a uma barata. Apesar de seu esforço para lidar com a situação, a repentina transformação o leva a enfrentar o abandono e a repulsa de sua família, o que culmina em um fim solitário. Por meio desse protagonista-inseto, Kafka tenciona mostrar muito mais que uma transformação física; ele apresenta profundas reflexões internas sobre a natureza humana e a identidade pessoal, como as dificuldades decorrentes das expectativas familiares e sociais, a perda da identidade e o modo como a sociedade ignora e destrói aqueles que não se encaixam nas normas estabelecidas.

Podemos perceber, portanto, um interessante paralelo temático entre a obra de Kafka e o romance A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Sabendo disso, leia o excerto abaixo para responder ao que se pede.

Perdão é um atributo da matéria viva.

– Vê, meu amor, vê como por medo já não consigo mexer nesses elementos primários do laboratório sem logo querer organizar a esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha e o que eu tinha era eu – só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 65.

 

Considerando o trecho lido e as informações a respeito da obra de Franz Kafka, compare a experiência de transformação interna vivida por G.H., em A paixão segundo G.H., com a transformação física de Gregor Samsa. Com base no uso do simbolismo representado pelo inseto, nas duas obras, discuta como as experiências vivenciadas por cada um dos personagens refletem a busca por autoconhecimento e identidade, destacando suas semelhanças e diferenças.

 

 

 

1. D

2. A

3. C

4. O incidente com a barata — um evento trivial e doméstico — quebra a rotina organizada e a visão de mundo da protagonista, G.H. O encontro provoca uma crise existencial, trazendo à tona o medo do inumano e do desconhecido. A barata, ao ser vista de perto, desestabiliza a identidade da narradora, fazendo-a questionar o "paraíso" da sua vida burguesa, confortável e superficial. O incidente provoca, portanto, uma necessidade de encarar sua própria essência desnudada de convenções sociais, levando a uma desorganização de si mesma para uma possível, embora dolorosa, reintegração.

b) A interação com a barata simboliza o confronto com o "outro" e com o que é inumano (o grotesco, o atávico, o absoluto) que reside dentro da própria narradora. No trecho, o grito abafado no peito representa o silêncio interior e o terror diante do "vivo" nojento. O movimento da barata na meia escuridão e a proximidade com o rosto da narradora simbolizam a quebra das barreiras entre o "eu" (humano) e o "não-eu" (a natureza/a barata), forçando G.H. a uma jornada de desconstrução da própria humanidade e à aceitação de uma nova forma de existência, mais primária e crua.

5. E

6. A

7. Clarice Lispector usa o fluxo de ideias para mergulhar na mente dos personagens, revelando emoções e conflitos internos. No trecho apresentado, essa técnica cria tensão emocional, envolvendo o leitor ao fazê-lo sentir e refletir com a personagem. O leitor se mantém atraído pela identificação com as dúvidas e com os medos da personagem, pois são temas universais comuns a todos os seres humanos.

8. No romance A metamorfose, de Franz Kafka, Gregor Samsa se transforma fisicamente em um inseto, que simboliza a perda da identidade e a rejeição social. Essa metamorfose expõe a superficialidade e a hipocrisia das relações humanas, já que, inicialmente, Gregor é o provedor da casa, mas, após sua transformação, ele se torna um fardo ao perder sua utilidade. Em contraste, em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, o encontro de G.H. com a barata provoca uma profunda transformação interna. Nesse caso, a barata é um catalisador para a introspecção, fazendo G.H. enfrentar seus medos e questionar a própria essência. Enquanto Kafka enfatiza a alienação social, Clarice foca na interioridade. A barata, em ambas as obras, representa uma verdade desconfortável sobre a busca por autoconhecimento e identidade.






INTRODUÇÃO À OBRA: A PAIXÃO SEGUNDO G.H. (1)



Introdução

G.H., uma elegante artista visual, encontra uma enorme barata no quarto da empregada. No entanto, o que aparentemente parece ser um acontecimento banal desencadeia um poderoso processo de autoenfrentamento protagonizado por ela, narradora de A paixão segundo G.H., romance de Clarice Lispector publicado em 1964. Diante do inseto, a personagem se depara com suas carências e suas ambições mais íntimas, em uma “aventura” em que se vê confrontada por questões profundas sobre a própria identidade, o vazio do eu e elementos do divino e do demoníaco da personalidade humana. Nesse mergulho introspectivo, em que poucos eventos exteriores acontecem, a angústia com o repulsivo e as mais elevadas aspirações morais e religiosas se conjugam na constituição de uma personagem complexa em uma experiência transformadora. 

Dados biográficos da autora

Chaya Pinkhasivna Lispector, nome de batismo de Clarice Lispector, nasceu em 10 de dezembro de 1920, em Chechelnyk, pequena cidade que faz parte da Ucrânia. Sua família, de judeus russos, fugia da perseguição decorrente da Guerra Civil Russa e emigrou para o Brasil quando Clarice tinha apenas dois meses, estabelecendo-se, inicialmente, em Maceió, Alagoas. Aos sete anos, Clarice mudou-se com a família para o Recife e, mais tarde, para o Rio de Janeiro, onde ela passaria grande parte de sua vida.

Desde jovem, ela demonstrou interesse pela escrita, começando a compor contos e pequenas histórias enquanto estudava no Colégio Pedro II, na capital federal.

Em 1939, Clarice ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Embora estivesse matriculada em Direito, sua verdadeira paixão sempre foi a literatura e o jornalismo; por isso, durante seus anos universitários, trabalhou como redatora na Agência Nacional e depois no jornal A Noite.

Em 1943, Clarice casou-se com Maury Gurgel Valente, um diplomata brasileiro, com quem teve dois filhos, Pedro e Paulo. Por conta da carreira diplomática de Maury, ela viveu em vários países, incluindo Itália, Inglaterra e Estados Unidos.

No mesmo ano de seu casamento, Clarice teve sua estreia literária, com o romance Perto do coração selvagem (1943), aos 23 anos. A obra foi bem recebida e ganhou o Prêmio Graça Aranha. Esse foi apenas o início de uma notável trajetória literária, marcada por livros como A paixão segundo G.H., Água viva (1973) e A hora da estrela (1977). Seu estilo é conhecido por ser introspectivo e poético, frequentemente explorando temas existencialistas e a complexidade das emoções humanas.

Após anos vivendo no exterior, cansada das constantes viagens decorrentes da carreira diplomática de Maury, em 1959, Clarice se divorciou do marido e retornou definitivamente ao Brasil com os dois filhos, fixando residência no Rio de Janeiro. Desde então, ela continuou a criar intensamente, consolidando sua contribuição para a literatura modernista com obras marcadas pela profundidade psicológica e emocional.

Clarice Lispector faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos, por conta de um câncer de ovário. Seu legado literário permanece influente, sendo estudado e admirado não só no Brasil, mas também internacionalmente, com obras que continuam a desafiar e encantar gerações de leitores e escritores. 

Contexto histórico

Clarice Lispector e o Modernismo brasileiro

A primeira metade do século XX, no Brasil, foi marcada por um expressivo movimento artístico, cultural e literário que pregava a ruptura com as tradições e a busca por novas formas de expressão: o Modernismo. Marcado por três principais momentos – primeira fase (ou fase heroica), segunda fase (ou fase da consolidação) e terceira fase (pós-modernista ou Geração de 45) –, o movimento defendia, de maneira geral, a valorização da cultura cotidiana brasileira, a simplificação do discurso artístico e literário, a crítica social, o nacionalismo e a liberdade estética.

Clarice Lispector pertenceu à terceira fase desse movimento e foi uma das autoras de maior destaque de sua geração. Tinha uma escrita considerada bastante inovadora e única, que se afastava, em muito, das principais características do Modernismo. Isso, no entanto, não era objeto de grande preocupação para Clarice, que costumava afirmar: “Não escrevo para agradar ninguém”. Por isso, seus textos apresentavam características como o predomínio da primeira pessoa, o foco no cotidiano e a linguagem poética, reflexiva e inovadora, fundamentada em análises psicológicas e existenciais de seus personagens. 

A introspecção de Clarice

Clarice foi uma autora que transitou entre os mais diversos gêneros literários, como cartas, contos, romances e entrevistas, imputando em suas obras características marcantes, desde a escolha da linguagem até os objetos de análise que se tornavam foco de suas narrações. Ainda que esses atributos a afastassem da maioria dos escritores modernistas de sua geração, alguns autores exerceram influência sobre sua obra, como Lúcio Cardoso, importante escritor brasileiro de estilo intimista, cuja abordagem profundamente psicológica marcou Clarice e dialogou com sua própria escrita.

Uma das maiores marcas da escrita de Clarice é a introspecção, justamente porque a grande preocupação da autora era, na verdade, narrar sensações, e não apenas fatos. É por meio desse tom filosófico, inclusive, que ela apresentou as críticas sociais em sua literatura (como em A hora da estrela).

Sua escrita, portanto, é marcada por profundas reflexões, por meio de mergulhos nos pensamentos e nos sentimentos íntimos de Seus personagens, utilizando, em grande parte, o monólogo interno para revelar as complexidades de suas psiques – recurso que presenciamos em A paixão segundo G.H. Além disso, sua linguagem é poética, rica em metáforas e em simbolismos, que conferem à sua prosa uma característica lírica, ou seja, que captura sutilezas emocionais a partir de uma escolha minuciosa de palavras.

Os temas existenciais são uma constante em sua obra, visto que ela explora questões universais como identidade, solidão e busca por sentido, encontrando profundidade em eventos cotidianos e aparentemente simples. Na obra que é nosso objeto de análise, é exatamente isso o que acontece: a narrativa passa a ser construída quando a protagonista resolve limpar o quarto de sua antiga empregada, mas se depara com uma barata, elemento disparador de toda a reflexão que constitui o cerne de sua narração.

Suas histórias muitas vezes fogem da estrutura linear tradicional, visto que priorizam o tempo psicológico sobre o cronológico a partir de uma abordagem fragmentada dos fatos e das sensações apresentados. Esse estilo de estruturação acaba por refletir, de maneira mais profunda, a interioridade dos personagens, e contribui para a atmosfera singular de suas narrativas. Dessa forma, os personagens de Clarice são complexos e realistas, e convidam o leitor a uma reflexão profunda e pessoal.

Por fim, a ambiguidade é outra característica-chave de sua escrita, pois seus textos oferecem múltiplos significados, frequentemente deixando interpretações em aberto ao explorar os paradoxos e as contradições humanas. 

Entendendo a obra

Como já é de se esperar nas obras de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H., considerada uma das mais importantes obras da literatura brasileira, é um romance marcado pela introspecção e pela complexidade psicológica da personagem principal, G.H.

A narrativa em primeira pessoa gira em torno dessa personagem, uma artista bem-sucedida que vive em uma cobertura luxuosa e que, a partir de um monólogo interior, coloca o interlocutor em contato com as nuances da consciência feminina, o horror e a beleza da existência, além de dilemas existenciais que permeiam a condição humana.

A história tem início quando, à mesa do café da manhã, pensativa sobre a própria vida, a narradora e protagonista da obra resolve colocar em prática aquilo que considera sua vocação, a arrumação, e por isso decide fazer uma limpeza no quartinho de sua antiga empregada, Janair, onde não entrava havia seis meses. Essa decisão surge no contexto de sua desorganização interna, por isso o ato pode ser interpretado como uma tentativa de organizar o ambiente externo em reflexo a uma necessidade de ordem interna. Também pode ser uma maneira de confronto com o desconhecido e com o passado, representado e materializado pelo quarto de sua antiga empregada.

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? [...]

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 10.

 

A narradora acredita que encontrará prazer na atividade de arrumação e conseguirá entender os próprios pensamentos e sentimentos. No entanto, diferente do esperado – “o quarto da empregada devia estar imundo, na sua dupla função de dormida e depósito de trapos, malas velhas, jornais antigos e papéis de embrulho e barbantes inúteis” (p. 32) –, ela se depara com um ambiente extremamente limpo e organizado, o que rompe com suas expectativas: o vazio e a limpeza a incomodam, afinal, se era na arrumação que conseguiria também ordenar seu caos interno, o que haveria de ser arrumado agora?

Não bastasse a surpresa com o que acabara de achar, outro fato inesperado lhe acontece: o encontro com uma barata, a qual, como descrita pela própria narradora, “pela lentidão e grossura, era uma barata muito velha” (p. 45). Ao tentar “interagir” com esse animal, que ela inicialmente despreza, G.H. é levada a uma profunda reflexão sobre a própria vida, suas escolhas, suas relações e o que significa ser humano.

Em uma linguagem poética e densa, com muitas metáforas e simbolismos, Clarice Lispector explora, nessa narrativa, temas relacionados à identidade, à solidão, à alienação e à busca por sentido na vida. Trata-se de uma obra que exige do leitor uma interpretação atenta e sensível para acompanhar o livre fluxo de consciência da personagem: a narrativa flui em uma corrente de pensamentos que revelam as angústias e as epifanias de G.H., culminando em um momento de transformação pessoal que provoca uma reavaliação sobre seus valores e sua compreensão da vida.

Dessa forma, A paixão segundo G.H. é frequentemente interpretada como uma reflexão sobre a condição humana e a busca por autenticidade em um mundo repleto de aparências. A partir de intensa introspecção, Clarice tenta explorar o ser e o não ser, a paixão e a indiferença, por meio de sua protagonista, fazendo da narrativa um estudo profundo e filosófico sobre a existência humana, o que torna a obra atemporal e atual. 

Síntese

A narrativa é organizada em capítulos curtos e não numerados. Cada novo capítulo começa com a última frase do capítulo anterior, de maneira a garantir a continuidade do fluxo de pensamentos.

1º capítulo

A narrativa começa com a protagonista (que também é narradora) G.H. refletindo sobre a própria desorganização pessoal e a perda de algo valioso, que compara a uma terceira perna metafórica que antes a sustentava e dava-lhe equilíbrio, ainda que não fosse necessária. Sentindo-se perdida e com medo, ela deseja se libertar de antigas restrições, questionando a necessidade de encontrar significado no que já viveu. Ela anseia por se entregar ao acaso e expressa a dificuldade de comunicar suas experiências, buscando criar uma linguagem para dar sentido a suas vivências.

2º capítulo

A protagonista está em um momento de introspecção após a partida de sua empregada. Ela reflete sobre sua vida, sua imagem perante os outros e tem a sensação de que sua verdadeira essência permanece um mistério, até mesmo para si mesma. Isso a faz questionar a superficialidade de sua existência, marcada por uma aparente tranquilidade e sucesso social, mas permeada por um vazio interior. Como resposta, tenta buscar, em seu passado, uma tragédia pessoal, um destino maior que vá além do enredo de sua vida cotidiana. Para isso, analisa sua relação com a arte, com os homens e com a própria imagem, revelando uma busca incessante por autenticidade e um desejo de romper com a superficialidade que a aprisiona.

3º capítulo

Toda essa reflexão descrita nos capítulos iniciais é realizada à mesa do café da manhã. Depois desse momento de introspecção, G.H. decide arrumar a casa por conta própria, começando pelo quarto da antiga empregada – ela encontra prazer e propósito na organização, vendo isso como uma vocação. Enquanto fuma e planeja a arrumação, ela observa a área interna do prédio, refletindo sobre a falta de sentido aparente nas coisas cotidianas e como essa falta de sentido pode ser, na verdade, aquilo em que reside o verdadeiro sentido das coisas. A narradora joga seu cigarro pela janela e tem uma percepção vaga de que algo está para acontecer, algo que ela só entenderá mais tarde.

4º capítulo

G.H. entra no quarto da ex-empregada, Janair, após seis meses sem ir àquela parte da casa. Ao abrir a porta, ela se surpreende com a limpeza e a luminosidade do ambiente, que contrasta com suas expectativas de desordem. No quarto, há um desenho na parede,

feito a carvão, representando um homem nu, uma mulher nua e um cão que parecem rígidos e imóveis. G.H. não consegue se lembrar do rosto de Janair e reflete sobre sua relação com ela, sentindo estranhamento e desconforto, além de uma impressão de que Janair a via de maneira crítica. Apesar de planejar a transformação do quarto, ela se sente deslocada, enfrentando um vazio existencial e uma crise interna.

5º capítulo

G.H. continua narrando sua experiência no quarto, que lhe causa repulsa e medo. É em meio a essa confusão de sentimentos que ela se depara com uma barata dentro do guarda-roupa, o que intensifica sua aversão ao ambiente e a faz refletir sobre a presença ancestral e a resistência desses insetos. O susto que toma com a presença do animal a faz tropeçar e cair, de maneira que passa a se sentir presa no quarto, tanto física quanto psicologicamente. Ela experimenta uma profunda sensação de desconforto e medo, associando a barata e o quarto a uma presença hostil e opressiva.

6º capítulo

G.H. enfrenta a barata e sente uma onda de coragem e poder, revelando recursos internos inexplorados. Tomada por ódio, ela tenta matar o inseto fechando a porta do guarda-roupa sobre ele, mas falha em aplicar força suficiente, o que a faz questionar as próprias ações. Apesar disso, experimenta um prazer perturbador, ainda que o inseto permaneça vivo. Ao encarar a barata, uma epifania a impede de prosseguir com a violência por causa da profunda repulsa que sente. Finalmente, ela percebe que nunca viu realmente uma barata, apenas sentiu repulsa, começando a observar seus detalhes, o que levará a uma nova percepção, que é explorada no capítulo seguinte.

7º capítulo

Ainda na presença da barata, G.H. se vê confrontada com a “vida crua”, questiona as próprias esperanças e verdades preexistentes e sente uma conexão assustadora com a natureza primordial e não humana da própria existência. Esse momento a leva a um “quarto desconhecido” dentro de si, um espaço de vastidão e sedução, no qual ela se sente reduzida a seu “irredutível”, encontrando uma nova e inquietante forma de vida e de verdade.

8º capítulo

Ainda diante da barata, G.H. luta para não gritar, temendo revelar uma vulnerabilidade, mas ainda assim busca uma saída de seu quarto interno. Identifica-se com a mulher desenhada na parede, que pode simbolizar a busca dela por identidade. Um silêncio profundo a invade, trazendo clareza e aceitação. A narradora se vê como a barata, seus pedaços e o silêncio, aceitando a própria imperfeição e a continuidade da vida.

9º capítulo

As reflexões de G.H. continuam, agora com foco na percepção do fato de que o mundo não é inerentemente humano; por isso ela questiona a validade da linguagem para descrever a realidade. A personagem anseia recuperar sua antiga vida, mas se vê diante da impossibilidade de retornar à superficialidade, confrontando-se com o inumano e buscando um novo sentido em um mundo desprovido de humanização, onde a barata se torna um símbolo de luxo e a impureza questiona as proibições humanas.

10º capítulo

Nessa parte do romance, os pensamentos de G.H. exploram o “imundo”, algo proibido e primordial. Isso faz que ela tema a “desumanização” e a alegria sem esperança que a experiência que está vivenciando traz. Lutando contra e cedendo à própria transformação, ela perde suas antigas ideias ao encarar o “imundo”, simbolizado pela barata. Aqui, as reflexões de G.H. abordam o medo da entrega ao desconhecido e a metamorfose resultante do abandono de crenças antigas. 

11º capítulo

Por estarem presas na porta, as vísceras da barata começam a emergir. G.H. observa a matéria branca que se espreme para fora do corpo. A barata, segundo a narradora, é feia e brilhante, e o que nela passa a ser exposto é o que G.H. esconde em si. G.H. grita por socorro, mas não consegue se levantar e ir embora. Acaba aceitando – mesmo que não de maneira passiva – o momento presente e a inevitabilidade da vida. 

12º capítulo

G.H. passa de um estado de suspensão no tempo para a percepção de que a vida real está no presente, mesmo que seja um “deserto” sem esperança. Com medo, ela considera abandonar tudo e se conectar com a natureza, mas resiste à ideia de encarar a realidade de maneira crua. Em suas reflexões, busca redenção no presente, mesmo que isso signifique aceitar o “infernal”, e percebe que precisa abandonar até mesmo a beleza humana – a ausência de beleza representada pela barata – para compreender a própria existência. 

13º capítulo

G.H. confronta a insipidez da existência ao observar a barata, refletindo sobre a busca por transcendência que a afasta do “neutro”, antes visto como “nada”, agora reconhecido como a própria vida. A narradora lida com a própria repulsa por essa vida sem qualidades. Em uma encruzilhada moral, questiona se moralidade é apenas agir e sentir de maneira adequada, e percebe estar se libertando dela, sentindo medo e fascínio. Ela não deseja mais agir em relação à barata, pois entende que sua visão de amor está se desfazendo, surgindo uma nova necessidade, um “precisar” neutro e impiedoso. Permite-se ser tocada pelo olhar da barata, renunciando à resistência e lembrando-se de um beijo, no qual o sal de lágrimas simbolizava o amor e a substância insossa e inocente do amado. 

14º capítulo

A protagonista começa a se sentir perturbada com a familiaridade do espaço e com a presença da barata. Ela acende um cigarro e observa a mudança da luz no quarto, percebendo a existência independente do ambiente. Acaba relembrando o período em que decidiu fazer um aborto e o peso dessa resolução. Sentindo-se desconectada e respirando mal, compara o próprio estado ao de um protozoário neutro, especialmente porque o confronto com a barata a faz reconhecer essa característica – essa neutralidade é temida por G.H. Em um momento de angústia, ela clama pela mãe, revelando o peso de ter interrompido uma vida e a sensação de estar em um inferno manso. A menção à mãe parece trazer um alívio momentâneo, como se uma parte grossa e branca fosse libertada em seu interior – assim como a massa visceral que escapa de dentro da barata. 

15º capítulo

Agora, G.H. não pede mais socorro, dominada pelo calor e pela falta de medo. Observa mais uma vez a barata, temendo o que pode acontecer. Está em um estado de isolamento e se sente abandonada, tanto por si mesma quanto pelos outros: acredita que sua crescente perda de humanidade e a intensificação de seu medo a faz ser repulsiva – assim como a barata. Para ela, a barata anula a transcendência, mostrando apenas os fatos de quem verdadeiramente é. Apesar de temer encará-Lo, pede a Deus para não ser abandonada; deseja não estar sozinha nessa jornada de redescoberta em que duvida de sua vida anterior. 

16º capítulo

Em um estado de quase abandono, G.H. enfrenta os próprios medos e se sente desconectada de si mesma, como se tivesse abandonado o corpo que conhecia. Ela pensa sobre a barata, questionando quem a aceitaria em seu estado atual e refletindo sobre sua

busca por amor e necessidade. Apesar disso, no quarto seco, a narradora entende que não pode fugir da realidade de conhecer a si mesma e ao mundo, e isso a faz se questionar sobre quem é o verdadeiro monstro – ela ou a barata? –, sentindo que está prestes a descobrir o que a observa. Por fim, mais uma vez, G.H. expressa o desejo de não ser deixada sozinha e de não ter que tomar decisões difíceis por si própria. Reconhecendo o próprio medo de enfrentar Deus e a verdade final, anseia por uma mão que a guie. 

17º capítulo

G.H. passa a descrever a própria jornada para alcançar um estado de neutralidade a partir do abandono de atributos humanos e do mergulho em suas “entranhas vivas” – um processo que exige coragem e a confronta com o terror de encarar a realidade nua e crua. O neutro aparece como elemento vital, revelando que, antes, ela era guiada pelo demoníaco. Apesar do medo, a narradora encontra alegria nesse estado, libertando-se de sentimentos e experimentando o “gosto do nada”, que define como sua “danação e terror”. Após adormecer envolta em um casaco, ela desperta em um quarto banhado por um sol imóvel e intenso, sentindo-se sufocada e buscando, em vão, uma amplidão que permita respirar.

 18º capítulo

Diante da janela de seu quarto, G.H. passa a refletir sobre a vastidão do mundo ao redor, descrevendo paisagens fantásticas e imaginárias que evocam desertos, civilizações antigas e futuros distantes. Sua jornada introspectiva mistura lembranças, delírios e especulações sobre a existência humana, percebendo o erro e o medo como partes inevitáveis do caminho para encontrar a verdade. As imagens de areia e calor, nesse sentido, simbolizam tanto o vazio quanto o peso da vida, enquanto o quarto se transforma em um refúgio físico e mental, protegendo-a do que considera o insuportável fardo da imensidão e da passagem do tempo. 

19º capítulo

A personagem resolve voltar para o quarto, buscando refúgio. Senta-se na cama e encara uma vez mais a barata, percebendo que agora já tinha mais compreensão sobre o que o animal representava. Dá vazão a um pensamento: nota que o inseto é comestível como uma lagosta, um crustáceo. Apesar do nojo desse pensamento, continua a refletir sobre o que essa barata significa – mansidão e ferocidade –, e entende que viver é questão de vida e morte. Por fim, compara a mansidão e a função feroz da barata à própria ferocidade em viver. 

20º capítulo

G.H. começa declarando que, se há algo a ser dito, precisa ser dito, e por isso resolve revelar que ama, mas só agora está realmente externalizando esse sentimento, afirmando não querer assustar o leitor com seu amor. Antes, G.H. não sabia que o amor estava acontecendo; só após essa experiência transformadora é que se tornou capaz de entender esse sentimento. A narradora diz que gostaria de transmitir a lembrança do que vivera, época em que nem mesmo sabia o que exatamente vivia. A massa branca da barata, que estava à sua frente, é que representava a vida que até o momento desprezara. É então que, de repente, G.H. resolve comer essa “vida”. 

21º capítulo

A narradora explora uma experiência interna intensa, confrontando noções de inferno, dor, prazer e indiferença. G.H. descreve uma visão na qual a dor e o prazer se confundem, e a aceitação cruel da dor se torna um ritual. Ela reflete sobre a ausência de filhos e a própria mortalidade, contrastando-se com a barata, que se reproduz e cumpre seu ciclo natural. G.H. conclui, após sua reflexão, que a essência da humanidade reside na aceitação do destino fatal e na escolha de viver, mesmo em meio ao horror e à alegria indiferente. 

22º capítulo

É nesse estado de aceitação que G.H. busca uma compreensão de Deus por meio de experiências intensas, quase demoníacas: descreve uma jornada pessoal na qual se sente dividida entre o desejo de igualdade com o divino e a tentação de prazeres terrenos. 

23º capítulo

G.H. reflete profundamente sobre a ligação entre sofrimento, sacrifício e a busca por um significado maior na vida. Após um intenso momento de provação, ela percebe que sua “orgia infernal”, marcada por prazer e dor, era, na verdade, uma forma de amor primordial e neutro – um estado além das emoções humanas convencionais. Nesse amor, ela encontra uma conexão com Deus, mas sem a mediação de formas ou preces humanas, descobrindo um significado “neutro”, que se manifesta na simplicidade das coisas vivas, como uma barata. Para alcançar essa compreensão, G.H. precisa abrir mão de valores humanos tradicionais, enfrentando o vazio e o horror de uma existência antes do humano. A experiência é simultaneamente reveladora e avassaladora, pois G.H. percebe que buscava respostas transcendentais, mas essas respostas são tão enigmáticas quanto as perguntas que elas suscitam. Ao final, ela entende que a verdade universal está no ato de “ser”, algo impossível de compreender plenamente pela limitação humana.

24º capítulo

É ao aceitar sua incompreensão que G.H. percebe que a libertação reside. Essa revelação lhe causa um sentimento paradoxal: decepção e compreensão de que a essência da vida pode estar na simplicidade e na matéria. Ela se debate entre a aversão e a atração por essa realidade, reconhecendo que a interpretação desse “tesouro” que acabou de encontrar depende de sua própria perspectiva, podendo ser vista como inferno ou paraíso. 

25º capítulo

G.H. percebe que sempre teve uma relação de amor e ódio com o tédio, pois ele se parece com a “coisa nua”, ou seja, a realidade em sua forma mais pura e sem adornos. A narradora passa a explorar, então, a relação entre esse tédio, o inexpressivo e a criação. Reflete sobre como o tédio, que antes era visto como algo negativo, pode ser uma forma de sentir o “atonal” (o que não é tonal, sem harmonia). Afirma, ainda, sentir atração pelo inexpressivo e entender que a verdadeira tragédia reside na inexorabilidade desse inexpressivo, o qual, quando expresso, pode gerar felicidade. Por fim, G.H. reflete sobre a dificuldade de abandonar a própria humanidade para viver a vida em sua essência mais pura e o medo de perder a humanização construída ao longo do tempo. 

26º capítulo

Apesar do medo de ver a própria humanização por dentro – pois a verdade a ser encontrada poderia destruí-la –, G.H. afirma que é importante encarar a verdade sem medo, mesmo que isso signifique abandonar crenças e expectativas. Isso significa, segundo a narradora, que a verdade é fundamental e que a falta de fé leva à invenção de um futuro idealizado, que impede a vivência do presente. G.H. explora sua jornada em busca da verdade e da aceitação de sua vida presente: para ela, a vida deve ser vivida plenamente no presente, sem promessas futuras. 

27º capítulo

G.H. explora mais a fundo a relação entre o ser humano e uma entidade superior (referida como “Deus”, embora a protagonista ressalve que esse é apenas um nome possível). De acordo com a narradora, nossa conexão com essa entidade e o quanto dela “extraímos” dependem diretamente de nossa necessidade e capacidade de absorção. Para G.H., a revelação do amor e da conexão com o divino está intrinsecamente ligada à nossa carência e pobreza de espírito. Abandonar a esperança e assumir nossa falta é o que nos permite acessar a vida em sua plenitude. 

28º capítulo

Desapegada da necessidade de beleza, G.H. busca por uma apreciação mais profunda e direta da realidade. A narradora reflete sobre a delicadeza das coisas vivas e a dificuldade de percebê-las em sua essência, sem a interferência de sentimentos ou expectativas humanas. Logo, ela rejeita a beleza superficial em favor de uma experiência mais crua e fundamental, buscando o inexpressivo e o material nas coisas. Para G.H., é necessário que haja aceitação de uma nova moral, isenta de entendimentos convencionais. Por fim, resgata a lembrança de uma pessoa do passado que demonstrava delicadeza nas ações cotidianas, destacando a importância dessa delicadeza nas interações com o mundo e as coisas. 

29º capítulo

G.H. continua a rejeitar a beleza superficial, pois deseja transcender a beleza como um fim em si mesmo, buscando uma identidade mais profunda e autêntica. Para G.H., a beleza é, frequentemente, uma conclusão ou um resultado, enquanto a verdadeira essência reside no movimento e na transformação contínua. Esse movimento que faz é com o objetivo de encontrar uma conexão mais profunda com o divino e com a essência primordial do amor. 

30º capítulo

Apesar de toda sua reflexão, G.H. entra em um momento de crise: sente nojo ao olhar para a massa branca da barata e percebe que esse nojo a impede de se conectar com o mundo e consigo mesma. Isso a faz considerar que o erro básico de viver é ter nojo de algo. Pensa, mais uma vez, em comer a massa da barata como um ato de redenção, mas sente repulsa. Após uma luta interna, ela tenta forçar o ato, mas vomita. Em seguida, apesar da aversão, decide, por fim, que deve comer a massa da barata. Sente uma vertigem e, ao retornar, percebe que “alguma coisa se tinha feito”, embora não saiba como. Ela cospe furiosamente a massa branca, tentando se livrar do gosto, mas compreende que está desfazendo o que havia feito. No final, ela se sente indigna do choro que derrama diante da situação, mas as lágrimas a consolam e ela volta a se sentar na cama. 

31º capítulo

G.H. questiona as próprias ações, como a de quase comer a massa de uma barata, e conclui que a humildade dos santos reside em viver de acordo com a própria natureza e espécie. Para chegar a essa conclusão, reflete sobre a natureza da bondade, contrastando a ideia de atos grandiosos com a simples ação de viver. Segundo G.H., viver plenamente é, em si, um ato de bondade para com os outros. Além disso, a narradora também discute a neutralidade de Deus e como isso torna a divindade ainda mais acessível. Ao final, G.H. reflete, mais uma vez, sobre a solidão e a importância da carência, pois levam ao amor e à união. 

32º capítulo

G.H. reflete sobre o que significa “estar viva”, percebendo que esse estado transcende a sensibilidade humana e se aproxima de uma indiferença poderosa e radiante, ligada a uma conexão com o inumano e o neutro. Ela entende que sua jornada exige a destruição do “eu” construído ao longo da vida, um processo de despersonalização que a conduz a uma aceitação plena de sua essência. Para ela, a desistência – o abandono consciente de ilusões, apegos e excessos – é a forma mais elevada de realização humana, revelando um estado puro de ser. A vida, para G.H., é uma busca constante que só encontra sentido no fracasso da linguagem em nomear o indizível, permitindo a verdadeira revelação da condição humana. 

33º capítulo

A busca por um estado de ser que transcende a sensibilidade humana, para G.H., ocorre ao aproximar-se de uma indiferença irradiante e inumana, vista como uma forma de amor neutro. A narradora também reflete sobre a despersonalização como um caminho para a objetivação de si mesma e para o reconhecimento do outro, culminando na aceitação da mudez e do fracasso da linguagem como meios para alcançar o indizível. Para G.H., a deseroização (desconstrução do eu heroico ou idealizado) é apresentada como uma missão secreta da vida, um processo de desconstrução do individual inútil para revelar a verdadeira natureza humana. Nesse sentido, como parte final do romance, é perceptível que G.H. explora a rendição e a aceitação da própria condição humana, descrevendo um processo de desistência da necessidade de controle e força como forma de encontrar alegria e contentamento em sua vulnerabilidade. Ela experimenta uma sensação de confiança e entrega ao desconhecido, sentindo-se parte de algo maior e além de sua compreensão humana. Entende, portanto, que deve haver a aceitação da vida como ela é, sem a necessidade de entendê-la completamente.

 

Análise

Fluxo de consciência

A paixão segundo G.H. é uma obra que transcende a narrativa convencional, de maneira que adentra a complexidade da experiência humana a partir do profundo processo de transformação da protagonista. O romance explora a desconstrução da identidade de G.H., a busca por uma verdade que considera essencial e a confrontação com o abismo da própria existência.

Para facilitar a compreensão da narrativa, iremos agrupar esse grande fluxo de consciência em seis partes, as quais analisaremos em detalhes.

1. Início do desequilíbrio e desconstrução da identidade

A protagonista, G.H., uma escultora da alta sociedade carioca, tem uma existência aparentemente confortável e bem definida. No entanto, sua vida sofre uma reviravolta quando ela se depara com a realidade crua e ordenada do quarto da antiga empregada doméstica, fato que desencadeia uma profunda crise existencial na personagem. Esse fato leva G.H. a questionar os alicerces de sua identidade, construídos em torno de convenções sociais e de expectativas superficiais, e ela sente a necessidade de ir em busca de certa autenticidade que parece ter se perdido em meio às obrigações e aparências de sua vida. Confrontada com a fragilidade de sua identidade, percebe que muito do que acreditava ser era, na verdade, uma construção social que lhe foi imposta ao longo do tempo.

2. A limpeza do quarto

O evento catalisador de todo esse processo de introspecção é a demissão da empregada, Janair. Como G.H. já estava passando por um processo de reflexão sobre a própria vida, decide arrumar o quarto da ex-funcionária para também ordenar os próprios pensamentos. Porém, ao entrar no cômodo, depara-se com um ambiente em estado de extrema limpeza, quase asséptico. A única coisa deixada para trás foi um desenho a carvão na parede: um homem, uma mulher e um cachorro nus. Para além da extrema arrumação do quarto, a imagem também a perturba, e a faz refletir sobre a relação com a própria vida e com a figura da empregada.

Da porta eu via agora um quarto que tinha uma ordem calma e vazia. Na minha casa fresca, aconchegada e úmida, a criada sem me avisar abrira um vazio seco. Tratava-se agora de um aposento todo limpo e vibrante como num hospital de loucos onde se retiram os objetos perigosos.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 36.

3. O encontro

É enquanto explora o quarto para entender o que poderia fazer naquele ambiente que o ponto central da narrativa acontece: o encontro de G.H. com uma barata. O inseto, com sua presença grotesca e repulsiva, provoca na narradora uma crise de identidade, a partir da qual se vê confrontada com a fragilidade das convenções sociais e da linguagem.

De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 45.

 

A barata, elemento central na narrativa, assume um papel simbólico multifacetado. Inicialmente, representa o abjeto, ou seja, aquilo que é repulsivo e marginalizado pela sociedade. Dessa forma, a aversão de G.H. à barata reflete seu desconforto com tudo aquilo que foge de seu controle e de sua compreensão. No entanto, à medida que a protagonista se aproxima da barata, começa a enxergar nela uma representação da própria existência, despida de adornos e de ilusões.

Nesse sentido, a barata passa a simbolizar a alteridade, o outro que é diferente e incompreensível. Ao confrontar o inseto, G.H. também acaba se confrontando com os próprios preconceitos e limitações, percebendo que a verdadeira compreensão só é possível por meio da aceitação da diferença. A barata representa ainda a natureza primordial, a força vital que pulsa em todas as coisas, independentemente de aparência ou valor social.

4. A perda da identidade

Em um momento de epifania e desespero, G.H. esmaga a barata e, em um ato de transgressão e busca por transcendência, ingere a massa branca que sai do inseto. Esse ato grotesco e simbólico representa a destruição de sua identidade pregressa e o confronto com a natureza primordial da existência. Há uma tentativa de superar a dualidade entre o eu e o outro, entre o sujeito e o objeto. Ao ingerir a massa branca, G.H. busca uma união com a barata, com a natureza, com o Universo.

Eu que pensara que a maior prova de transmutação de mim em mim mesma seria botar na boca a massa branca da barata. E que assim me aproximaria do... divino? do que é real? O divino para mim é o real.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 168.

 

A massa branca, por sua vez, simboliza a pureza primordial, a essência da vida antes de ser corrompida pelas convenções sociais e pela linguagem. Ao colocar na boca as entranhas da barata, por mais repulsa que sentisse, G.H. busca uma nova forma de conhecimento, uma compreensão intuitiva que ultrapassa a razão e a lógica. Isso a leva a um estado de êxtase e de horror, a partir do qual ela experimenta a fragilidade das fronteiras entre o eu e o mundo.

5. Construção de um novo sentido

Após a experiência traumática, G.H. tenta, desesperadamente, encontrar um novo sentido para a vida. Ela questiona a validade da linguagem, a natureza da realidade e a possibilidade de alcançar uma compreensão autêntica do mundo. Assim, a protagonista anseia por uma nova forma de expressão que possa capturar a essência de sua experiência transformadora.

[...] Escuta, vou ter que falar porque não sei o que fazer de ter vivido. Pior ainda: não quero o que vi. O que vi arrebenta a minha vida diária. Desculpa eu te dar isto, eu bem queria ter visto coisa melhor. Toma o que vi, livra-me de minha inútil visão, e de meu pecado inútil.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 15.

 

Ao longo da narrativa, há diversos questionamentos acerca da linguagem, e ela é apresentada como uma ferramenta paradoxal. Isso porque, por um lado, é por meio da linguagem que G.H. tenta dar sentido à própria experiência, buscando as palavras certas para descrever suas emoções e seus pensamentos. Por outro lado, essa mesma linguagem se mostra limitada e inadequada para expressar a totalidade da experiência que está vivendo, de modo que não é suficiente para capturar a essência do inefável. Sendo assim, essa consciência da limitação da linguagem a leva a buscar outras formas de comunicação, como o silêncio, o gesto e a intuição.

Ainda, como é de se esperar, por conta do próprio título da obra, G.H. explora, em diversos momentos, o sentimento de paixão, que, no contexto do romance, não se refere apenas ao amor romântico, mas sim a uma experiência intensa e totalizante que envolve sofrimento, êxtase, perda e transformação. A paixão de G.H. é uma jornada de autoconhecimento que a leva a confrontar os próprios limites e a transcender sua identidade pregressa, sendo um sentimento marcado tanto por momentos de angústia e desespero como por momentos de alegria e libertação. Por meio do sofrimento, G.H. aprende a amar a si mesma e ao mundo de maneira mais profunda e autêntica. A paixão se torna, assim, um caminho para a redenção e para a conquista de uma nova forma de ser.

6. Aceitação do neutro

Ao fim da obra, G.H. parece alcançar uma forma de aceitação da inexpressividade e do “neutro” como elementos essenciais da existência. Ela reconhece a importância de transcender as convenções sociais e a linguagem para alcançar uma compreensão mais profunda da realidade. Assim, vislumbra a possibilidade de uma nova forma de comunicação que esteja além das palavras e das emoções.

Fica nítido, portanto, que A paixão segundo G.H. é uma obra complexa e desafiadora, que explora os limites da linguagem, a busca por um sentido autêntico da existência e traz uma profunda reflexão sobre a condição humana. A partir da experiência radical de sua protagonista, Clarice Lispector questiona as convenções sociais, a natureza da identidade e a possibilidade de alcançar uma compreensão profunda do mundo, mostrando ao leitor que a verdadeira transformação só é possível a partir da confrontação com o próprio medo e as limitações, da aceitação da totalidade da existência e da busca incessante pela verdade essencial.

 

Uma obra de representações

Clarice Lispector constrói uma narrativa por meio de muitas metáforas e repleta de simbologias. Cada um dos elementos que aparecem no romance é essencial para o desdobramento da narrativa e para a transformação pessoal da protagonista. Ao mesmo tempo, é por meio desses símbolos que a autora leva o leitor a refletir sobre a própria existência e os limites da percepção humana.

O quarto e sua arrumação

O quarto da empregada é um espaço pequeno e aparentemente insignificante, mas simboliza a área desconhecida e ignorada da vida de G.H. Ao entrar nele, ela é forçada a confrontar partes de si que mantém ocultas. O espaço revela contrastes entre sua vida pública e ordenada e as realidades desorganizadas e reprimidas de seu interior. É como se fosse uma jornada para o inconsciente, um lugar onde o conhecido se torna estranho. Dessa forma, a ânsia de G.H. em arrumar a casa, começando pelo quarto da empregada, simboliza seu desejo de impor ordem e controle sobre o caos e o desconhecido. Esse impulso reflete sua tentativa de manter as próprias inseguranças e o desconforto sob controle.

Em um contexto mais amplo, essa necessidade de organização pode representar a maneira como muitos procuram estruturar as próprias vidas para evitar confrontar aspectos mais sombrios e desordenados da própria natureza. A ordem do quarto, portanto, serve como um espelho para a verdadeira desordem interna de G.H., desafiando-a a confrontar e aceitar a própria complexidade interior.

 

O desenho na parede

O desenho na parede é uma representação silenciosa da presença e da ausência, e pode simbolizar as vidas e as histórias não ouvidas pela protagonista, especialmente relacionadas às pessoas marginalizadas ou subordinadas a G.H., a exemplo de Janair. Ao interagir com o desenho, G.H. começa a questionar sua percepção do mundo e sua posição de privilégio, levando em consideração sua compreensão sobre desigualdade social e empatia.

 

A barata

A barata é um dos elementos mais perturbadores e simbolicamente ricos do livro. De uma perspectiva mais superficial, representa o abjeto, ou seja, aquilo que é geralmente rejeitado e desprezado. Para G.H., a barata retrata um estado de introspecção e autorreflexão. Com o ritual de esmagá-la e consumi-la, G.H. encara o absurdo da condição humana, a fragilidade da vida e a interconexão entre todos os seres.

No entanto, por ser figura central na narrativa, faz-se necessária uma análise um pouco mais aprofundada, pois, de uma perspectiva mais minuciosa, nota-se que possui múltiplas camadas de significados, representando desde o horror e a repulsa até a aceitação e a revelação da vida em sua forma mais crua e essencial. Sendo assim, as formas que esse inseto pode tomar na obra são:

1. Horror e repulsa

- Inicialmente, a barata representa o horror e a repulsa, sentimentos que G.H. sempre nutriu por esse inseto. A narradora descreve seu “arcaico horror por baratas” e como elas são “obsoletas e, no entanto, atuais”.

- A barata é vista como algo “imundo” e “proibido”, evocando uma sensação de aversão física e moral.

2. Confronto com a própria existência

- A barata força G.H. a confrontar a própria existência e a questionar a própria identidade construída ao longo dos anos. Sendo assim, esse inseto se torna um espelho, refletindo aspectos de sua vida que ela preferia ignorar.

- A barata também simboliza a parte mais primitiva e instintiva de sua própria vida, que G.H. havia domesticado e reprimido até então.

3. Desconstrução da identidade

- O inseto representa a desconstrução da identidade de G.H., forçando-a a enfrentar a realidade sem os filtros da cultura e da sociedade.

- A narradora percebe que sua vida era uma “réplica bonita” de construções sociais que lhe foram impostas e que a barata a confronta com a “falta de sentido” de sua existência.

4. Aceitação e transformação

- Ao longo da narrativa, G.H. começa a aceitar a barata e a reconhecer a própria natureza “inumana”. Assim, o animal se torna um símbolo de libertação e de transcendência das limitações humanas.

- A barata também pode representar a vida em sua totalidade, incluindo, de maneira paradoxal, o horror e a beleza, o nojo e o fascínio.

5. O sagrado e o profano

- A barata também simboliza a inversão dos valores tradicionais, de maneira que aquilo que é considerado “imundo” e “profano” se torna sagrado. Isso faz que G.H. questione as dicotomias entre o bem e o mal, o belo e o feio, e busque uma nova compreensão da realidade que transcenda esses dualismos.

 

Relação entre título e enredo

Como vimos, A paixão segundo G.H. narra a experiência de uma mulher da alta sociedade carioca que, ao demitir sua empregada, Janair, depara-se com um mundo novo e perturbador quando entra no quarto de serviço que pertencera à doméstica. A partir de então, vivencia um longo momento de desconstrução de si mesma, confrontando suas certezas e ilusões sobre a vida, a identidade e a realidade do mundo que se coloca à sua frente. Esse processo, descrito ao longo do enredo, relaciona-se com o título em diversas camadas:

- Paixão como sofrimento e êxtase: a palavra “paixão” pode se referir tanto ao sofrimento quanto ao êxtase presentes na experiência da personagem. Ao confrontar a nudez do quarto, o mural enigmático e a presença da barata, ela experimenta repulsa, medo e angústia, mas também uma estranha fascinação e um desejo de se libertar de amarras sociais e existenciais.

- Paixão como desejo e busca: G.H. busca por algo que possa transcender sua vida até então superficial e organizada. A personagem anseia por uma experiência autêntica, mesmo que isso signifique confrontar o horror e o absurdo da existência – simbolizada pela figura da barata.

- Paixão como desconstrução da identidade: a experiência vivida pela protagonista é marcada pela desconstrução de sua identidade social e pessoal. Ao se confrontar com a barata e a massa disforme que sai de seu corpo, G.H. questiona a própria humanidade e busca uma nova forma de ser, que passa pela aceitação do abjeto e do inumano.

- Paixão como revelação: o processo pelo qual G.H. passa é uma revelação sobre a natureza da realidade e da existência. A personagem percebe que a vida é mais do que organização social e convenções humanas, e que a verdadeira paixão está em se entregar ao fluxo caótico e imprevisível do ser.

- Paixão como confronto com o sagrado: é possível perceber, também, um paralelo direto com a narrativa da paixão de Cristo, adicionando profundidade simbólica ao sofrimento e à jornada espiritual vivenciada por G.H. Isso porque, assim como na narrativa bíblica, na qual a “paixão” de Cristo está repleta de dor, entrega e transformação, a experiência de G.H. também se constrói sobre um intenso processo de desconstrução do ego, enfrentamento de medos e um tipo de “morte simbólica”, seguida pelo renascimento em um estado de consciência diferente. Isso ocorre quando G.H. se depara com o abismo do que é viver em sua forma mais essencial e inumana, profundamente conectada a uma ideia de vazio, sacrifício e abandono completo de si mesma – algo que ressoa com a trajetória de entrega de Cristo na cruz. O sofrimento de G.H., portanto, assume uma dimensão quase ritualística, evocando a ideia de que o sacrifício é necessário para se atingir um estado de revelação ou transcendência espiritual. Por fim, esse paralelo também abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre a relação entre o humano e o divino. No texto, G.H. busca incansavelmente por algo que ofereça sentido à sua existência e a coloque face a face com Deus, mas esse Deus se revela de maneira inusitada: não como uma entidade grandiosa e consoladora, mas como o “neutro” – explorado em diversos momentos na narrativa –, o desconhecido e até mesmo o horrível, simbolizado pela barata. Essa descoberta de Deus como um elemento profundamente estranho, mas fundamental, ecoa o mistério do sacrifício e da redenção presente na paixão de Cristo, mas reinterpretada por G.H. em sua radical e íntima perspectiva existencial.

- Paixão segundo G.H.: o título, nesse caso, indica que a paixão é vista pela perspectiva única da protagonista, ou seja, a experiência apresentada é completamente subjetiva e pessoal, e a narradora busca dar sentido ao que vive, mesmo que isso signifique confrontar o absurdo e o incompreensível.

 

Estrutura

O romance é organizado em uma estrutura bastante original. Sem capítulos numerados, a narrativa é ordenada a partir de um recurso técnico particular: a última frase de cada capítulo se repete como a primeira do seguinte, o que acentua a sensação de fluxo de consciência que permeia a história. Sendo assim, no lugar de um enredo tradicional, a narrativa explora os pensamentos da personagem G.H. da maneira que lhes vêm à cabeça – o que resulta em trechos incompletos e transições abruptas entre pensamentos –, focando em sua análise psicológica e nas questões existenciais que ela traz à tona.

De maneira geral, como é característico nas obras de Clarice Lispector, a obra em questão se afasta de uma estrutura linear tradicional ao adotar uma abordagem fragmentada e que prioriza o tempo psicológico da protagonista.

 

Narrador

O foco narrativo da obra se dá em primeira pessoa, centrado na perspectiva íntima da protagonista, G.H. Essa escolha narrativa, bastante característica das obras de Clarice Lispector, é o que permite ao leitor que tenha um contato mais profundo com o fluxo de consciência da personagem, de maneira que se revelam pensamentos, sensações e reflexões com grande intensidade emocional.

Logo, ao explorar temas existenciais e psicológicos por meio da primeira pessoa, o leitor passa a ter acesso a uma narração bastante subjetiva e imersa nos dilemas e nas reflexões da protagonista.

 

Linguagem

A linguagem usada na obra é uma manifestação complexa do estilo introspectivo de Clarice Lispector, que opta por uma narrativa profundamente subjetiva e fragmentada. O texto segue a manifestação do fluxo de consciência da protagonista, com os pensamentos e os sentimentos de G.H. fluindo de maneira livre e contínua. Essa técnica confere à narrativa uma qualidade poética, marcada por parágrafos longos, associações livres e uma estrutura desordenada, que refletem a complexidade da mente da protagonista. Ao romper com a linearidade tradicional, Clarice constrói uma forma de expressão que espelha a subjetividade e o estado psicológico de G.H., demandando do leitor uma interpretação ativa e engajada, que o insere diretamente nas reflexões da personagem.

Além disso, a obra é permeada por metáforas e simbolismos, usando elementos como a barata para evocar temas profundos sobre a vida, a humanidade e o divino. Clarice trabalha com um tom confessional, de modo que a narrativa se assemelha a um diário íntimo, aproximando o leitor da vulnerabilidade e da interioridade de G.H. Frequentemente, a autora também recorre a paradoxos para capturar as complexidades da experiência interna da personagem, destacando as dualidades e conflitos existenciais que surgem ao longo da narrativa.

 

A interlocução constante e seus desdobramentos

Outro elemento importante da linguagem na obra é o uso de interlocuções constantes ao longo da narrativa. G.H. parece se dirigir a um “outro”, um interlocutor cuja identidade varia e nunca é completamente definida. Esse “tu” pode assumir diferentes significados:

1. O leitor: em muitos momentos, G.H. quebra a “quarta parede” e parece se comunicar diretamente com quem lê, quase como se pedisse companhia ou validação para suas reflexões. Essa aparente quebra na estrutura cria uma relação íntima entre texto e leitor, fazendo com que este participe ativamente da jornada existencial da protagonista.

2. Um interlocutor humano específico: há trechos em que G.H. parece direcionar suas palavras a alguém importante em sua vida, como um ex-amante ou outra figura que, em sua subjetividade, possa representar um laço humano significativo.

3. Deus ou o Divino: em outro nível, o “tu” frequentemente assume um caráter transcendente, simbolizando uma tentativa de diálogo com Deus ou com o sagrado. G.H. confessa, questiona e busca respostas para o mistério existencial em uma espécie de oração fragmentada e desesperada.

4. O “eu-outro” interno: por fim, há momentos em que o interlocutor pode ser interpretado como uma projeção de G.H., ou seja, um reflexo de sua própria psique. Essas interlocuções atuam como um espaço para confrontar suas angústias e dilemas, funcionando quase como um autoquestionamento dramatizado ou um debate interno.

Desse modo, percebe-se que a ideia de “segurar a mão” desse interlocutor é recorrente e se traduz como símbolo da necessidade de conexão, seja com outro ser humano, seja com Deus ou consigo mesma. Isso intensifica o tom confessional e relacional da narrativa, ao mesmo tempo em que amplifica o caráter simbólico da relação entre G.H. e esse “outro”.

 

A desconstrução da linguagem e o indizível

Outro aspecto crucial da linguagem na obra está em sua relação com o indizível. Clarice explora os limites da linguagem ao expressar experiências que transcendem as palavras. Os questionamentos filosóficos e existenciais de G.H. frequentemente transportam o leitor para um espaço além do verbal, em que a tentativa de nomear ou explicar a realidade fracassa. Esse “fracasso”, no entanto, não é uma limitação do texto, mas parte essencial do que Clarice busca transmitir: que é só por meio da falha da linguagem que o indizível pode ser vislumbrado. A narrativa, assim, transforma a linguagem em um espaço de busca constante. As palavras não são definitivas, mas ferramentas provisórias, frágeis e fragmentadas, com as quais G.H. tenta capturar o mistério da vida, do sagrado e de si mesma. No entanto, ao mesmo tempo em que busca, ela reconhece que sua missão é retornar com as mãos vazias: a linguagem nunca consegue alcançar plenamente o que ela procura, mas é nesse vazio ou “não-dito” que reside a revelação mais profunda.

 

A despersonalização e a reinvenção do “eu”

O estilo linguístico da obra também reflete o processo de despersonalização vivido por G.H., que se torna um dos eixos centrais da narrativa. A protagonista busca desconstruir sua identidade construída e ultrapassar a noção de individualidade em direção a algo mais amplo e essencial: tornar-se “a mulher de todas as mulheres”, um arquétipo universal que transcende o “eu” limitado. Esse movimento é narrado de maneira fragmentada e dialética, espelhando na linguagem o processo interno de diluição e reconstrução da protagonista. No momento em que G.H. alcança esse estado de despersonalização, a linguagem se transforma ainda mais profundamente. As palavras passam a mergulhar em um estado de “mudez”, de vazio, que se desloca para além do discurso racional, abraçando uma aceitação da condição humana como algo fragmentário e necessariamente inacabado.

O que se percebe, portanto, diante de todas essas camadas, é que linguagem de A paixão segundo G.H. é um dos aspectos mais desafiadores e inovadores da obra, refletindo a complexidade existencial e espiritual da narrativa de Clarice Lispector. Combinando fluxo de consciência, simbolismo, interlocuções e a exploração do indizível, Clarice constrói um texto que não apenas narra a experiência de G.H., mas convida o leitor a habitá-la, desconstruindo e reconstruindo a si mesmo no processo.

 

Tempo e espaço

Tempo

No romance, o tempo é essencialmente psicológico, ou seja, não segue uma linearidade tradicional, mas se desenrola em camadas subjetivas, de maneira a refletir o fluxo de consciência de G.H.

Apesar disso, o tempo cronológico também é percebido, especialmente quando a personagem descreve o início de seu dia – ao se levantar da mesa de café da manhã e se encaminhar para o quarto da empregada –, com a posição do sol vista através da janela do quarto.

No entanto, como a narrativa se passa em um só dia, o tempo é mais sentido que contado, o que acaba destacando os momentos de introspecção e de revelação interna da protagonista. Sendo assim, o tempo cronológico é quase irrelevante quando comparado ao tempo vivido pela personagem, que se dilata e contrai com suas reflexões e seus sentimentos.

 

Espaço

O espaço físico é restrito ao apartamento de G.H., mais especificamente, ao quarto da empregada. Esse espaço, porém, adquire um caráter simbólico e metafórico, visto que o ambiente se transforma em um espaço de revelação e confronto entre a protagonista e a própria existência. Além disso, ao longo da narração, o ambiente é descrito com detalhes que intensificam a sensação de opressão e introspecção. O espaço exterior, além do apartamento, é praticamente ignorado, o que acentua a interioridade da narrativa.






 

INTRODUÇÃO À OBRA: A PAIXÃO SEGUNDO G. H. (2)

  QUESTÃO 01 Clarice Lispector é conhecida por sua expressividade devido à introspecção profunda, à linguagem poética, ao uso do fluxo de ...