07 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: CANÇÃO DE NINAR MENINO GRANDE (2)

 



QUESTÃO 1

No contexto da obra de Conceição Evaristo, o título Canção para ninar menino grande é profundamente simbólico. Qual das alternativas abaixo melhor explica essa simbologia?

a) O título reflete a habilidade de Fio Jasmim em compor músicas que expressam sua virilidade e força, características marcantes de sua personalidade.

b) A expressão “menino grande” aponta para a ideia de que mesmo os adultos, especialmente os homens negros, carregam traumas de infância que necessitam de cuidado e acolhimento.

c) O título sugere que as canções de ninar são exclusivas para crianças, mas, na obra, são usadas para demonstrar a fragilidade emocional de todas as mulheres com as quais Fio se relaciona.

d) O título é uma crítica direta à incapacidade de os homens negros expressarem seus sentimentos por meio da música, limitando-se apenas ao papel de provedores da família.

e) Canção para ninar menino grande simboliza a rejeição de Juventina ao papel de “cuidadora” de Fio, destacando sua independência emocional e afastamento dos homens.

 

QUESTÃO 2

Leia o trecho a seguir, retirado da obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo. 

Fio Jasmim recolheu os presentes oferecidos pelas outras famílias e se encaminhou junto com os dois maquinistas para a pensão em que passariam a noite. Mais tarde, haveria festas na casa de um e de outro, rezas na igrejinha local, em agradecimento a Nossa Senhora da Boa Colheita. E haveria ainda visitas, caso ele quisesse, ao lugar onde as mulheres livres exerciam os seus trabalhos [...]. Seria o príncipe da noite. Não havia ali ninguém para impedir ao moço maquinista o experimento de sua realeza. [...] Fio Jasmim seria o príncipe da noite. Se, naquele dia, quando tinha apenas oito anos de idade, a professora, Dona Celeste, depois de ter contado a história da Cinderela, impediu que ele encarnasse o papel de príncipe, chamando, para o jogo cênico, um menininho loiro, ele agora poderia ser tudo.

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2023. p. 22.

 

Com base no excerto e considerando a complexidade narrativa da obra, analise as afirmações sobre a interação entre tempo e espaço e assinale a alternativa correta. 

a) A narrativa segue uma estrutura temporal estritamente linear, em que os eventos ocorrem em sequência cronológica, sem a interrupção de flashbacks ou digressões que possam alterar a continuidade da história.

b) O espaço na obra é puramente simbólico, sem qualquer ligação direta com a identidade ou o desenvolvimento dos personagens, funcionando apenas como um cenário estático para as interações de Fio Jasmim e suas amantes.

c) A narrativa adota uma construção temporal não linear, usando reminiscências e digressões para expor a influência dos eventos históricos e pessoais no presente dos personagens, ressaltando a continuidade das experiências de opressão e resistência.

d) Os espaços físicos, como as cidades e vilas que Fio Jasmim visita, são selecionados de forma aleatória e não têm impacto significativo na progressão temporal da narrativa ou na construção da identidade das personagens femininas.

e) A obra simplifica a relação entre tempo e espaço, focando exclusivamente as vivências pessoais de Fio Jasmim, sem abordar as implicações sociais e históricas para as personagens femininas afro-brasileiras.

 

QUESTÃO 3

O poema a seguir, intitulado “Vozes-mulheres”, é de autoria de Conceição Evaristo. 

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

 

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

 

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela

 

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e

fome.

 

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

 

A voz de minha filha 

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem –- o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade.

EVARISTO, Conceição. Vozes-mulheres. In: EVARISTO, Conceição. Poemas de recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Male, 2017. p. 24-25.

Nas obras de Conceição Evaristo, são temáticas frequentes a ancestralidade e a memória coletiva. Como a linguagem é usada para expressar a resistência e a identidade cultural no poema “Vozes-mulheres” e no livro Canção para ninar menino grande?

a) Em “Vozes-mulheres”, a linguagem é direta e objetiva para enfatizar a resistência, enquanto em Canção para ninar menino grande é usada uma linguagem simbólica e metafórica para explorar a identidade cultural.

b) “Vozes-mulheres” emprega uma linguagem rica em imagens sensoriais para transmitir a resistência feminina, enquanto Canção para ninar menino grande usa um estilo narrativo linear para abordar a identidade cultural.

c) “Vozes-mulheres” e Canção para ninar menino grande utilizam a linguagem formal e acadêmica para discutir a resistência e a identidade cultural de maneira crítica e analítica.

d) Em “Vozes-mulheres”, a linguagem é fragmentada para refletir a complexidade da identidade cultural, enquanto em Canção para ninar menino grande é exclusivamente contínua para expressar a resistência.

e) Ambas as obras usam a linguagem poética para expressar resistência e identidade cultural, mas “Vozes-mulheres” se concentra na repetição e no ritmo para reforçar a continuidade histórica, enquanto Canção para ninar menino grande utiliza a oralidade combinada à escrita lírica para expressar diversidade cultural.

 

QUESTÃO 4

Leia atentamente o trecho a seguir, extraído da obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo. 

Mas Fio Jasmim, ele próprio, como homem, aprendera que o território macho era outro. Era uma região que se situava a mil milhas de diferença das terras das mulheres. E, como proprietário de uma extensa gleba, o homem ali tinha o dever de dominar as mulheres, de alguma forma. E mais, tinha ainda de desafiar e causar inveja a outros machos. Não sendo de bom tom o derramamento das dores do macho - assim pensava Fio Jasmim –, por isso ele calou qualquer sintoma de mortificação em sua vida.

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2023. p. 129.

 

Com base na leitura do texto, assinale a alternativa que identifica adequadamente como o conceito de escrevivência se manifesta.

a) A autora apresenta uma narrativa desprovida de qualquer conexão com experiências pessoais, mas que tem preocupação em fazer críticas sociais, como a estereotipação que envolve a figura masculina.

b) O foco no passado afasta a obra da ideia de escrevivência.

c) As histórias, na obra, são contadas de forma objetiva e simples, a partir da oralidade, evitando nuances emocionais.

d) O texto destaca a interconexão entre a narrativa, a memória coletiva e a resistência ancestral, exemplificando a presença do conceito de escrevivência.

e) A obra negligencia a importância da tradição oral na transmissão de histórias.

 

QUESTÃO 5

Com base em seus conhecimentos sobre a obra Canção para ninar menino grande, indique V (verdadeiro) ou F (falso) para cada uma das sentenças a seguir e depois marque a alternativa correta.

(x) Fio Jasmim, o jovem maquinista, busca aventuras e novas experiências profissionais, sem o desejo de ter uma residência permanente.

(x) Fio Jasmim está tentando demonstrar sua masculinidade e virilidade para os maquinistas mais velhos, seguindo aquilo que lhe fora ensinado por seu pai e conforme os padrões sociais de sua época.

(x) Neide Paranhos da Silva busca manter sua independência e autonomia, recusando-se a deixar sua cidade natal para continuar seus estudos.

a) F – V – F

b) F – V – V

c) F – F – V

d) V – F – V

e) V – F – F

 

QUESTÃO 6

Texto 1

A mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjetividade; diz-se de bom grado que ela pensa com suas glândulas. O homem esquece soberbamente que sua anatomia também comporta hormônios e testículos. Encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo, que acredita apreender na sua objetividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que específica: um obstáculo, uma prisão. [..] A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. p. 12.

 

Texto 2

Ancorar seu corpo nos corpos de diversas mulheres tinha sido uma lição que Fio Jasmim aprendera com o próprio pai [..]. Fio cresceu ouvindo as proezas do pai. Aprendera com ele que ser homem era ter várias mulheres. E o mais certo era escolher, dentre elas, uma mais certa ainda para o casamento. Cedo, Fio Jasmim começou a buscar avidamente por mulheres, como se o nosso corpo não tivesse outra função, a não ser a de ancoradouro para os homens. [...] A cada encontro, se pensava mais macho e, portanto, mais feliz.

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2023. p. 93-94.

 

Os excertos anteriores trazem discussões e visões diferentes sobre a construção das identidades de gênero e a percepção do corpo da mulher na sociedade. Com base na leitura atenta desses trechos, responda: 

a) De que forma cada um dos textos revela as normas de gênero e as expectativas sociais impostas a homens e mulheres?

b) Refletindo sobre as ideias apresentadas nos trechos, discorra sobre as implicações dessas construções de gênero na autonomia individual e na percepção de identidade que homens e mulheres têm sobre si em Canção para ninar menino grande.

 

QUESTÃO 7

Rosana Paulino (1967) e a arte militante negra

A paulistana da Freguesia do Ó é artista plástica com bacharelado e doutorado pela Universidade de São Paulo e uma das primeiras a despontar no movimento negro. Desde o começo, entendeu o lugar de exceção que ocupava dentro de uma instituição branca e elitista e fez de seu trabalho um lugar de militância. [...]

Em um de suas séries mais conhecidas, Os Bastidores, ela imprimiu fotografias de mulheres de sua família em um tecido branco colocado em bastidores, e bordou grosseiramente com linha preta por cima de suas bocas [...]. São olhos que não podem ver, boca que não pode falar, nem gritar.

 


[...] Sobre essa série, a artista diz:

“Tocaram-me sempre as questões referentes à minha condição de mulher e negra. Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário [..]. Utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido, costurando novos significados, transformando um objeto banal, ridículo, alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam, dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e, principalmente, para sua condição no mundo”

STUQUE, Jessica. 5 mulheres brasileiras que retratam o machismo nas artes visuais. Soul Art, 13 mar. 2018. Disponível em: https:/soulart.org/artes/5-mulheres-brasileiras-que-retratam-o-machismo-nas-artes-visuais. Acesso em 19 nov. 2024.

 

Com base na leitura do texto sobre a obra da artista brasileira Rosana Paulino e na obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo, responda:

a) De que forma o nome do protagonista da obra de Conceição Evaristo, “Fio”, serve como metáfora para sua influência e presença na vida de diferentes mulheres, unindo-as por meio de experiências de amor e sofrimento?

b) Qual relação de sentido pode ser estabelecida entre o nome do protagonista de Canção para ninar menino grande e a obra de Rosana Paulino? 

 

QUESTÃO 8

Texto 1

O lápis e a folha em branco

Affonso Romano Sant’Anna 

– O que é necessário para uma pessoa vir a ser escritor? Pergunta simples. Resposta complexa.

Clarice Lispector, no fabuloso A maçã no escuro, nos diz algo a respeito. Algo não, muito, a respeito disto. E ter a coragem e a competência para ler, mastigar, ruminar esse manual da escrita e da vida que é esse livro, é já um teste para quem se pensa escritor. Verdade é que o bom leitor, o que não quer necessariamente ser escritor, mas se escreve e se inscreve nos livros alheios, esse terá também aí a prova de suas habilidades.

            – O que nos diz Clarice?

            Mais ou menos no meio do romance, o personagem Martim teve um impulso de escrever. Esse impulso, esclareça-se, surge numa progressão de descobertas de sua relação com o mundo: “Como um homem que fecha a porta e sai, e é domingo. Domingo era o descampado de um homem”. Ele já havia iniciado um aprendizado de observar e interpretar o seu entorno. Principiou pelo mais simples, pelo mundo mineral e vegetal. Reaprendeu a ver a natureza dentro e fora de si mesmo: as pedras, os pássaros, as vacas na fazenda. Já reaprendera a ver as roseiras, as abelhas, as samambaias e a surpreender a singularidade pungente e alarmante que cada objeto ou criatura tem. Já se aproximara de seu semelhante, estava descobrindo a mulher e o amor. Portanto, fora um longo trajeto de reelaboração interior articulado com a redescoberta do mundo. [...]

            Como todo ato de criar, escrever (às vezes, até mesmo uma simples carta, relatório ou trabalho escolar) é colocar-se na borda do abismo. Martim “hesitava e mordia a ponta do lápis [...] de novo revirou o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele não teve desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva de que mal escrevesse a primeira palavra e seria tarde demais”.

Ler Clarice, minhas amigas e amigos, é uma das angustiantes e deliciosas responsabilidades da vida intelectual. Lamento não poder reencenar aqui a densidade verbal do que ela segue narrando naquele livro. Seu personagem segue sofrendo para encontrar seu canal de expressão: “tudo o que lhe parecera pronto a ser dito evapora-se, agora que ele queria dizê-lo”. E “de repente se sentiu singelamente acanhado diante do papel branco como se sua tarefa não fosse apenas a de anotar o que já existia, mas a de criar algo a existir”. [...]

Um lápis e um papel e a tremenda solidão e responsabilidade. O abismo. Abismo onde se perder e se reencontrar. Onde outros se perdem e se reencontram através da escrita alheia.

            O romance de Clarice é uma alegoria não só sobre o processo de criação e recriação do indivíduo, mas uma alusão à trajetória de qualquer cultura que queira assumir o embate e a alteridade entre o eu e o outro, entre o eu e o mundo. O leitor visceralmente leitor, que não escritor explícito, aprenderá aí a fazer uma releitura de seu espanto e perplexidade diante da vida. E quem é escritor, quem carece não apenas de embarcar e viajar nas palavras alheias, mas construir, elaborar o seu próprio discurso, esse encontrará aí pistas e trilhas, mas sobretudo consolo de descobrir essa realidade que funciona como desafio: um lápis e uma folha em branco – nunca ninguém teve mais do que isto.

SANT’ANNA, Afonso Romano de. Com Clarice. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

 

Texto 2

Da construção de Becos

Também já afirmei que invento sim e sem o menor pudor. As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são contadas. Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção. Nesse sentido, venho afirmando: nada que está profundidade, é ali que explode a invenção. Nesse sentido, venho afirmando: nada que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira. Ali, busquei escrever a ficção como se estivesse escrevendo a realidade vivida, a verdade. Na base, no fundamento da narrativa de Becos está uma vivência, que foi minha e dos meus. Escrever Becos foi perseguir uma escrevivência. Por isso também busco a primeira narração, a que veio antes da escrita. Busco a voz, a fala de quem conta, para se misturar à minha. Assim nasceu a narrativa de Becos da memória. Primeiro foi o verbo de minha mãe. Ela, D. Joana, me deu o mote: “Vó Rita dormia embolada com ela”. A voz de minha mãe a me trazer lembranças de nossa vivência, em uma favela, que já não existia mais no momento em que se dava aquela narração. “Vó Rita dormia com ela, Vó Rita dormia embolada com ela, Vó Rita dormia embolada com ela...”. A entonação da voz de mãe me jogou no passado, me colocando face a face com meu eu-menina. Fui então para o exercício da escrita. E como lidar com uma memória ora viva, ora esfacelada? Surgiu então o invento para cobrir os vazios de lembranças transfiguradas. Invento que atendia ao meu desejo de que as memórias aparecessem e parecessem inteiras. E quem me ajudou nesse engenho? Maria-Nova. [...]

EVARISTO, Conceição. Becos da Memória [livro eletrônico]. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

 

Transcreva uma passagem do texto de Affonso Romano que se aproxime da ideia de escrevivência, tal como estabelecida por Conceição Evaristo.

 

QUESTÃO 9

Explique por que o trecho transcrito na questão anterior se encaixa na definição de escrevivência.

 

QUESTÃO 10 

Notícias da Educação: Como surgiu o termo “escrevivência”?

Conceição: É uma longa história. Se eu for pensar bem a genealogia do termo, vou para 1994, quando estava ainda fazendo a minha pesquisa de mestrado na PUC. Era um jogo que eu fazia entre a palavra “escrever” e “viver”, “se ver” e culmina com a palavra “escrevivência”. Fica bem um termo histórico. Na verdade, quando eu penso em escrevivência, penso também em um histórico que está fundamentado na fala de mulheres negras escravizadas que tinham de contar suas histórias para a casa-grande. E a escrevivência, não, a escrevivência é um caminho inverso, é um caminho que borra essa imagem do passado, porque é um caminho já trilhado por uma autoria negra, de mulheres principalmente. Isso não impede que outras pessoas também, de outras realidades, de outros grupos sociais e de outros campos para além da literatura experimentem a escrevivência. Mas ele é muito fundamentado nessa autoria de mulheres negras, que já são donas da escrita, borrando essa imagem do passado, das africanas que tinham de contar a história para ninar os da casa-grande.

SANTANA, Tayrine; ZAPPAROLI, Alecsandra. Conceição Evaristo – “A escrevivência serve também para as pessoas pensarem”. Itaú Social, 9 nov. 2020. Disponível em: https:/wwwitausociaLorg.br/noticias/conceicao-evaristo-a-escrevivencia-serve-tambem-para-as-pessoas-pensarem/. Acesso em: 19 nov. 2024.

 

Com base na leitura do texto, faça o que se pede:

a) A escrevivência de Conceição Evaristo refere-se a um modo de escrever que está profundamente enraizado nas experiências vividas. Para ela, a escrevivência vai além da mera escrita; é um ato de resistência e de afirmação de identidade. Sabendo disso e com base no excerto acima, discuta como a escolha da autora em narrar a história de Fio Jasmim a partir da perspectiva das mulheres de sua vida influencia a compreensão do leitor sobre o protagonista e os temas centrais da obra.

b) Essa abordagem narrativa desafia ou reforça as expectativas tradicionais sobre a figura masculina no enredo? Explique.

 

QUESTÃO 11

[Segundo Durkheim] Nascemos no interior de um mundo constituído. A cada geração nos encontramos como uma tabula rasa frente a um conjunto de valores, crenças, normas, modos, usos etc. – que a exemplo dos objetos físicos de seu entorno são impessoais. Destarte, não somos mais que um elemento de um nexo de múltiplas interações. Para que possamos acessar esse vasto conjunto de objetos culturais, e assim desfrutar da condição de ser social, deve-se internalizar um sistema de signos que já está dado. É no curso do processo de socialização, portanto, que estes objetos culturais vão sendo incorporados pelos indivíduos.

VARES, Sidnei Ferreira de. Os fotos e as coisas: Émile Durkheim e a controversa noção de fato social. Ponto e Vírgula, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, n. 20, p. 104-121, segundo semestre 2016. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/31168/21605. Acesso em: 19 nov. 2024.

 

O determinismo social é uma teoria sociológica que sugere que o comportamento e as características dos indivíduos são amplamente determinados por fatores sociais, como a classe social, a cultura, a educação e o ambiente em que vivem. Com base na definição acima, analise como o determinismo social e as experiências de opressão racial e de gênero moldaram a identidade e o comportamento de Fio Jasmim. Em sua resposta, explique como esses fatores contribuem para a reprodução da masculinidade tóxica e das relações de poder entre os personagens.

 

 

1. B

2. C

3. E

4. D

5. A

6. a) No primeiro trecho, Simone de Beauvoir critica a visão reducionista do corpo feminino, percebido como uma prisão que impede uma relação objetiva com o mundo; a mulher, a partir de uma visão patriarcalista, é reduzida a suas funções biológicas, em contraste com a percepção do corpo masculino como neutro e universal. Já no segundo trecho, é ilustrada a socialização masculina tradicional, em que ser homem é sinônimo de ter múltiplas parceiras, o que é ensinado por meio do exemplo paterno. Ou seja, destaca-se a ideia de que a identidade masculina se constrói pela conquista sexual, reforçando estereótipos patriarcais. Como consequência, o corpo feminino é objetificado e visto apenas como um meio para afirmar a masculinidade.

b) A expectativa de afirmação da masculinidade ocorre a partir do controle sobre o corpo feminino, o que implica a limitação da autorreflexão e da complexidade emocional dos homens – como pode ser percebido no personagem de Fio, especialmente no fim do livro. Já para as mulheres, ser vista como “outra” em relação ao homem implica um ciclo de subordinação, fragilidade emocional, estereotipação e falta de autonomia, visto que suas identidades são definidas a partir de um prisma masculino – características que são percebidas nas mulheres que passam pela vida de Fio.

7. a) O nome do protagonista, “Fio”, simboliza sua capacidade de se conectar e de deixar marcas na vida das mulheres que encontra. Assim como um fio que passa por diferentes laçadas, ele une personagens separadas geograficamente por meio de laços de amor e sofrimento, ainda que efêmeros. O nome “Fio” também sugere a continuidade e a influência que ele exerce, tecendo histórias e experiências entrelaçadas. A comparação com o jasmim, uma flor conhecida por sua beleza e sedução, sublinha seu impacto encantador e, ao mesmo tempo, efêmero nas vidas das mulheres.

b) O nome do personagem e a obra de Rosana Paulino compartilham um simbolismo centrado na conexão e na transformação. “Fio” representa a influência e a ligação emocional entre as mulheres que ele toca, semelhante a um fio que une diferentes histórias. Já na obra de Rosana Paulino, o fio simboliza a opressão e o silenciamento das mulheres negras, mas também a resistência e a reapropriação de suas vozes. Ambos os contextos usam o fio para explorar temas de poder e identidade, destacando sua capacidade de unir, transformar e desafiar as narrativas pessoais e sociais.

8. “O romance de Clarice é uma alegoria não só sobre o processo de criação e recriação do indivíduo, mas uma alusão à trajetória de qualquer criatura que queira assumir o embate e a alteridade entre o eu e o outro, entre o eu e o mundo”

9. A ideia de escrevivência desenvolvida por Conceição Evaristo diz respeito ao ato de escrever e viver, isto é, inserir as vivências na escrita e, dessa forma, também vivenciar aquilo que foi escrito e criado. Assim, temos a ideia de um processo de criação e recriação do indivíduo que se relaciona à reflexão sobre a obra de Clarice.

10. a) A narrativa apresenta Fio Jasmim por meio das mulheres de sua vida, revelando sua masculinidade tóxica e os efeitos de suas ações. Essa abordagem destaca temas de opressão e resistência, humanizando Fio enquanto critica suas falhas, alinhando-se, assim, ao conceito de escrevivência de Conceição Evaristo.

b) A história desafia a visão tradicional do homem ao focar as mulheres ao redor de Fio, expondo suas fragilidades e a toxicidade da masculinidade imposta socialmente. Ao mesmo tempo, revela Fio como vítima de papéis de gênero rígidos, promovendo uma reflexão crítica sobre essas expectativas.

11. Fio Jasmim é moldado por um determinismo social que combina opressão racial e de gênero, que influenciam sua identidade e seu comportamento. As experiências de racismo e a educação machista que recebe o levam a reproduzir uma masculinidade tóxica, tratando as mulheres como objetos e afirmando seu valor por meio de conquistas superficiais. Essa dinâmica perpetua relações de poder opressivas, mas a narrativa dá voz às mulheres, desafiando e expondo essas estruturas sociais.





06 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: CANÇÃO DE NINAR MENINO GRANDE (1)


Dados biográficos da autora

Foi no dia 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte (MG), que nasceu aquela que viria a se consagrar como uma das maiores autoras afro-brasileiras contemporâneas: Maria da Conceição Evaristo. Quem hoje tem contato com o sucesso alcançado pela autora talvez não imagine que ela vem de uma família bastante humilde e trabalhadora, com mãe lavadeira, padrasto pedreiro (não conheceu o pai biológico e sobre ele sabe muito pouco, segundo ela própria) e nove irmãos.

Na infância, mais precisamente aos 7 anos de idade, foi morar com seus tios como forma de aliviar a sobrecarga financeira da família. Esse fato foi essencial para sua formação, já que a condição de vida um pouco melhor - comparada a dos irmãos - foi o que lhe deu oportunidade para que se dedicasse mais aos estudos. No entanto, essa nova realidade não foi o suficiente para que pudesse viver apenas no mundo dos livros e dos cadernos; aos 8 anos de idade, teve seu primeiro emprego na área de serviços domésticos, função que exerceu durante muito tempo. Chegou, inclusive, a trocar horas de tarefas domésticas na casa de professores por aulas particulares e livros, pois sempre foi bastante interessada em estudar e aprender. Aliás, os estudos também eram preocupação de sua mãe, que sempre matriculou os filhos em escolas públicas frequentadas pela classe mais abastada de Belo Horizonte, para garantir a todos uma educação de qualidade.

Além dos problemas financeiros, Conceição também enfrentou dificuldades associadas ao racismo e à discriminação social desde muito nova, inclusive na própria escola, onde sempre se destacou por ser uma excelente aluna - o que incomodava não só seus colegas, como também alguns professores. O “problema” não se dava apenas pelo fato de se sobressair academicamente frente a outros colegas brancos e abastados, mas, sim (e principalmente), pela precoce consciência social de menina negra e pobre que não aceitava com passividade as condições às quais era submetida, quebrando assim a expectativa da sociedade. Essa consciência sobre sua situação de negritude no Brasil foi especialmente fomentada por um tio, Osvaldo Catarino Evaristo, com quem conviveu durante a infância e parte da adolescência.

Foram justamente todas essas influencias familiares e educacionais que ajudaram a moldar o caráter questionador de Conceição sobre a situação da vida negra na sociedade brasileira. Não à toa, a partir de seus 17 anos, passou a participar de diversos movimentos sociais de valorização da cultura negra.

Em 1973, com a ajuda de amigos, mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de iniciar sua carreira docente e buscar novas oportunidades. Em meio a inúmeras dificuldades econômicas e sociais, conquistou seu diploma como professora e continuou seus estudos, formando-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, obtendo mestrado em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Conceição Evaristo e, hoje, umas das autoras brasileiras contemporâneas mais importantes e significativas para o país, e sua trajetória de vida, marcada pela superação e pela luta contra a desigualdade, encontra eco em sua obra literária. Não à toa – e muito merecidamente –, já foi prestigiada pelos prêmios mais importantes da literatura brasileira: em 2015, ganhou o Jabuti de Literatura na categoria Contos e Crônicas, por Olhos d’água; em 2017, recebeu diversas premiações: o prêmio Faz a Diferença, categoria Prosa; Prêmio Cláudia, categoria Cultura; e o prêmio de Literatura do Governo do Estado de Minas Gerais. Sua trajetória vitoriosa continuou com a conquista de outros prêmios importantes, como o Premio Juca Pato como intelectual do ano de 2023, e notoriedade mundial, com suas obras sendo traduzidas em diversos países pelo mundo. 

 

Contexto histórico

Breve entendimento sobre a literatura brasileira contemporânea

O período da ditadura militar no Brasil – como todo fato histórico significativo – influenciou profundamente a produção literária do país, que passou a ser classificada como “literatura brasileira contemporânea” a partir da década de 1970. Desde então, a nossa criação literária passou a refletir uma sociedade em transformação, e passamos a ter contato com uma literatura que se debruça sobre temas como política, diversidade cultural, identidade e representatividade, violência urbana, individualismo e, mais recentemente, até mesmo questões relacionadas à globalização, à tecnologia e à mídia digital.

Além disso, houve um fortalecimento da chamada “literatura de periferia” ou “literatura de minoria”, representada por autores como Itamar Vieira Junior (Torto arado, 2019), Jeferson Tenório (O avesso da pele, 2020) e Conceição Evaristo, entre outros. Esses escritores, que antes se encontravam à margem do cânone literário, passaram a ter voz e influência, trazendo novas pontos de vista e temáticas para a literatura brasileira.

Conceição Evaristo, inserida nesse contexto da literatura contemporânea brasileira, desempenha um papel crucial para o cenário nacional ao trazer novas perspectivas, principalmente sobre questões de raça, gênero e classe social em suas obras - assuntos que ficam bastante nítidos em Canção para ninar menino grande, na qual ela aborda experiências afro-brasileiras, destacando as vivências, lutas e resistências das mulheres negras no Brasil, características marcantes da literatura de minoria.

 

A “escrevivência”

Apesar de sempre se referir a afinidade e ao contato com a literatura desde jovem – trabalhando em casas de escritores e vencendo concursos de escrita na escola –, a autora sempre faz questão de relatar, em suas entrevistas, que nem sempre esteve rodeada pelos livros e pela leitura, o que não significa que não esteve imersa, em sua infância e adolescência, em palavras: toda a sua família tinha o habito da “contação de histórias”.  Mas a relação com as narrativas começou a se estreitar mesmo quando, por volta de seus 11 anos, uma de suas tias se tornou servente de uma biblioteca pública em Belo Horizonte: Conceição, então, passou a frequentar intensamente o local, aumentando, cada vez mais, sua frequência de leitura e seu amor pela literatura.

Sua estreia literária aconteceu apenas na década de 1990, aos 40 anos, com a publicação do conto “Ponciá Vicêncio” na coletânea Cadernos negros. No entanto, foi somente com o lançamento de seu primeiro romance, de mesmo título do conto, treze anos mais tarde, que sua voz ganhou mais projeção. Nessa obra, Evaristo já abordava temas como a escravidão, a diáspora africana e a luta por liberdade, explorando a narrativa por meio da perspectiva feminina negra, temática que, inclusive, é bastante frequente em seus trabalhos.

Toda a sua literatura, que ela chama de “escrevivência”, e marcada pela sensibilidade e pelo comprometimento com a representatividade racial e social, assunto constante nas obras da autora, visto que se dedica, justamente, a dar voz às experiências e as perspectivas da comunidade negra no Brasil, em especial, das mulheres negras.

 

Conceição e a literatura contemporânea: “O que me inspira a escrever e a vida”

Para Conceição Evaristo, as experiências de vida estão estreitamente relacionadas a escrita. Isso significa dizer que, segundo a concepção da autora, a realidade social, principalmente daqueles que vivem à margem da sociedade, está intimamente relacionada à produção literária. Foi com base nessa ideia que Conceição criou o termo “escrevivência” – neologismo que parte da junção das palavras “escrever” e “vivência” –, que representa, portanto, esse enraizamento das vivências em sua forma de escrever.

De acordo com a autora, a escrevivência permite registrar as vozes marginalizadas, já que, por meio da escrita, suas experiências ganham destaque e, de certa maneira, contribuem para a quebra de estereótipos criados na sociedade. Além disso, ela não deixa de ser uma forma de resistência e de afirmação da identidade negra e diversa no Brasil.

Nesse sentido, fica claro que Conceição, por meio dessa prática, produz uma literatura que emerge das vivencias pessoais, sociais e históricas e que dá visibilidade a uma comunidade que e, desde sempre, ignorada e negligenciada.

O conceito e imprescindível para o entendimento adequado de suas obras, especialmente por se destacar como a linha condutora de toda a sua produção, inclusive na obra aqui analisada. Portanto, entender o conceito também significa entender as narrativas de Conceição Evaristo.

Para além do significado do termo, é preciso pensar, paralelamente, a escrevivência sob a perspectiva de sua forma, pois, se uma das intenções da autora e solidificar em seu trabalho uma identidade social que sempre esteve a margem na história do país, a análise também deve ser feita considerando a parte estrutural da construção textual. Para isso, Conceição Evaristo se preocupa em produzir um projeto estético no qual a oralidade é peça fundamental: ela deseja criar, ao máximo, um texto que esteja próximo da “gramática do cotidiano”.

Ao integrar a oralidade a sua escrita, a autora mostra ao leitor as diversas formas de se apresentar a Língua Portuguesa, demonstrando que nenhuma delas é superior à outra.

 

Síntese e análise da obra

Síntese

Canção para ninar menino grande é um romance que narra a história de Fio Jasmim e dos diversos envolvimentos amorosos extraconjugais estabelecidos durante suas frequentes viagens. Como maquinista, Fio passava longos períodos fora de casa, distante de sua esposa, Pérola Maria, e dos filhos. O belo e atraente homem, a cada parada em suas viagens a trabalho, em cidades diferentes, envolvia-se com uma nova mulher, mesmo sendo casado desde os 20 anos (no início da narrativa, Fio já tem 44) com Perola Maria. Esses envolvimentos, ocasionalmente, resultavam em filhos ilegítimos. Perola Maria, ciente das infidelidades de Fio, optava por não acreditar na infidelidade de seu marido ou pelo perdão.

O livro, em um primeiro momento, parece ser uma obra que trata de narrativas de mulheres que sofrem com a desilusão amorosa de um relacionamento toxico, mas e também uma obra sobre a solidão e a estereotipação vivenciadas por um homem negro.

A história se inicia com uma narradora em primeira pessoa que resolve trazer um relato que lhe fora contado por uma das “personagens-amantes” do livro: Juventina. Para isso, essa voz anuncia ao leitor que se trata de uma história de amor e que tentara reproduzi-la em suas minúcias.

Além de nos contextualizar brevemente sobre Juventina, a narradora também nos apresenta o personagem Fio Jasmim, o protagonista – e, aqui, há uma mudança de foco  a narrativa, que de primeira passa para terceira pessoa.

Ao longo de dezoito breves capítulos, Conceição Evaristo não só apresenta os relacionamentos de Fio – em um espaço de tempo de 24 anos –, como também conta um pouco da história de vida de cada uma das mulheres seduzidas e depois abandonadas (muitas vezes, grávidas) pelo protagonista.

Pérola Maria, a eleita de Fio Jasmim, apesar de ter conhecimento das traições e dos filhos bastardos do marido, preferia ignorar os fatos – já que, como e dito na obra, seu grande prazer no casamento era ter filhos. Vez ou outra, caia no choro quando alguém lhe contava suas infidelidades, mas, nessas ocasiões, o homem se fazia de arrependido, e meses depois ela aparecia grávida novamente e tudo voltava à normalidade.

Fio se aproveitava de toda essa situação para levar adiante seus inúmeros relacionamentos extraconjugais, dentre os quais nos são apresentados oito, na seguinte ordem:

. Neide Paranhos (de Vale dos Laranjais);

. Angelina Devaneio da Cruz (de Alma das Flores);

· Aurora Correa Liberto (de Vila Azul);

· Antonieta Véritas da Silva (de Remanso Velho);

. Dolores dos Santos (de Ardência Antiga);

. Dalva Amorato (de Aguas Infindas);

. Juventina Maria Perpétua (sua cidade de origem não é citada; sabe-se apenas que Fio era vizinho de sua prima, a qual Juventina passou a visitar com frequência para encontrar o rapaz);

. Eleonora Distinta de Sá (única personagem mulher com a qual Fio Jasmim nunca estabeleceu um caso amoroso e que, portanto, não entra de fato na lista das amantes colecionadas por ele. Mais adiante, será explicitada a devida relação que se sucedeu entre eles).

           

Como já mencionado, cada um dos capítulos se ocupa em contar um pouco da história de vida dessas personagens, revelando suas dores, anseios e frustrações, além de descrever seu envolvimento com Fio Jasmim.

No fim do livro, o que se verifica e uma reflexão em torno do que foi, em parte, a vida de Fio Jasmim: um homem que “colecionou” diversas amantes, mas que, ainda assim, nunca escapou da solidão que sempre o acompanhou. Essa solidão, fruto de suas próprias escolhas e de uma sociedade que o aprisiona em estereótipos, leva o protagonista a uma busca incessante por conexão e afeto, mas ele só encontra relacionamentos superficiais e passageiros.

Breve análise

“Sé de joelhos se lê Conceição Evaristo. Em prece. E eu penso que desde “a raiz do tempo” se previa que Mestre Conceição Evaristo nos haveria de educar a todos com a grandeza de sua mensagem.” Essa declaração de Valter Hugo Mãe – importante e renomado artista e escritor português – resume, de maneira singela e precisa, o que significa ler uma obra de Conceição Evaristo, e é exatamente com essas palavras que o autor nos introduz à leitura de Canção para ninar menino grande.

Originalmente, muitas das personagens mulheres que agora tem sua história explorada foram apenas citadas na edição de 2018. Incomodada com esse fato, a autora decidiu realizar uma revisão e dar voz, ao longo de dezoito breves capítulos, a essas figuras femininas anteriormente não exploradas.

Quem conhece as narrativas de Conceição Evaristo sabe que, recorrentemente, elas apresentam mulheres como protagonistas - sobretudo mulheres negras. Dessa forma, leitores que já tiveram contato com sua obra podem estranhar o fato de que, aqui, tenha-se como figura central um homem, Fio Jasmim. A grande questão, entretanto, é que, apesar de essa figura masculina ocupar o protagonismo no livro, quem realmente tem um papel primordial na história são as mulheres: Fio fala muito pouco, e tudo o que se sabe sobre ele não se dá por meio do próprio, mas, sim, pela perspectiva do que as mulheres-amantes dizem sobre ele. Aliás, não só Fio, como todos os (poucos) homens que aparecem em Canção para ninar menino grande se expressam raramente, e, quando ganham voz, é justamente para elogiar as mulheres ou falar de seu desejo sexual por elas.

A cada capitulo, o leitor esbarra em uma nova mulher, uma nova história de vida, um novo relacionamento de Fio Jasmim e um novo caso de abandono cometido por esse marcante personagem – muitas vezes, também nos deparamos com um novo filho, fruto dessas relações passageiras. Isso porque, a cada cidade-destino de sua viagem, Fio resolve explorar não só o local, como também as mulheres que ali habitam, ainda que seja casado e tenha uma extensa prole com sua esposa, Perola Maria.

Durante sua permanência em cada uma dessas cidades, o protagonista consegue seduzir e cativar as mulheres mais bonitas, mesmo aquelas consideradas impossíveis de serem conquistadas. Aliás, Fio encanta tanto suas amantes quanto os habitantes das cidades, pois é detentor de fascinantes atributos, os quais a autora faz questão de apresentar logo no início da história.

Com o avançar dos capítulos, o leitor toma contato com os relacionamentos de Fio e com um pouco da história de vida dessas mulheres que tem só uma coisa em comum: a paixão por Fio Jasmim. E justamente por isso que o nome do protagonista se torna um elemento importante, ao fazer analogia, literalmente, a um fio, já que ele adentra, atravessa e une a vida das mulheres pelas quais passa. Tem-se, aqui, personagens separadas geograficamente, mas com um vínculo em comum, que é o amor e o sofrimento pelo mesmo homem – embora, para algumas delas, tenha sido um amor breve e passageiro. Ainda sobre o nome, pode-se, inclusive, traçar um paralelo entre os atributos formosos e sedutores do protagonista e as qualidades da flor de jasmim, perfumosa e encantadora.

A narrativa se sucede, portanto, a partir do relato de vida de cada uma dessas personagens e de seu envolvimento com Fio Jasmim, e termina com certa quebra de expectativa: se ao longo da obra constrói-se uma imagem de como a masculinidade toxica afeta profundamente a vida de tantas mulheres, o encerramento mostra como esse mesmo machismo pode ser lesivo ao próprio homem. O que Conceição faz, então, é deixar claro que esse desejo lascivo e insaciável de Fio pelas mulheres é um reflexo de sua criação, ou seja, da imposição feita por seu pai – e pela sociedade – de que ele deveria sempre ser uma figura viril e conquistadora, atitude que também o condena a solidão e a carência.

Logo, o fato de sabermos da história de Fio por meio de outros personagens, como já explicitado anteriormente, e porque ele raramente fala, afinal, segundo a autora, os homens falam muito pouco sobre eles mesmos: existe uma grande dificuldade em se acessar a figura masculina, principalmente por toda a estereotipacao social que existe em torno de sua imagem. Isso tem relação intrínseca com a escrevivência, uma vez que traz a vivência de várias mulheres até mesmo para a construção de Fio, que representa esse “homem real” inacessível e estigmatizado. Não à toa, a suspeita que se instala ao longo da leitura da obra – de que Fio age como resposta a um trauma vivido na infância e à sua criação – confirma-se nos capítulos finais, quando o leitor tem contato com as lagrimas e com o sentimento intenso de solidão que permeia a vida do protagonista.

Dessa forma, e nítido como o livro apresenta vivencias ficcionais completamente baseadas na realidade, naquilo que compõe, de fato, parte da vida de mulheres e homens negros, em suas experiências concretas.

O grande enlevo da obra, portanto, é descobrir essa solidão de Fio. Até então, ele era “apenas” um mulherengo, mas, ao fim, são reveladas sua fragilidade e sua dor. É claro que isso não apaga a crítica à ideologia machista e misógina, parte fundamental da obra construída por Conceição. No entanto, paralelamente, não deixa de colocar luz sobre uma perspectiva que e pouco explorada na literatura e que também “justifica”, de certa forma, ações masculinas que levam aos sofrimentos diversos das mulheres – como os que são relatados em Canção para ninar menino grande.

Sendo assim, não é uma obra tão simples de ser lida quando se consideram seus pormenores; por isso, ao refletir sobre os significados aqui trazidos, e preciso considerar tanto o ponto de vista das mulheres quanto o de Fio: como as mulheres se sentem? E por que Fio faz o que faz? É o que pretendemos destrinchar a seguir.

“Capítulos-personagens”

Canção para ninar menino grande é dividido, em pequenos capítulos que se dedicam a narrar cada um dos envolvimentos do protagonista Fio Jasmim. Não há, no entanto, um padrão de organização seguido pela autora, de maneira que, por exemplo, cada um dos capítulos se dedique a uma história diferente – em geral, é o que acontece, mas não é regra. Para ajudar no melhor entendimento da obra, portanto, vamos dividir, didaticamente, a analise aqui presente por “personagens”. 

Neide Paranhos da Silva

A moradora da cidade de Vale dos Laranjais e o primeiro caso de Fio Jasmim relatado na obra. No entanto, a narradora deixa claro que não se trata do primeiro relacionamento amoroso do rapaz.

Quando conheceu Neide Paranhos da Silva, Fio tinha cerca de 20 anos e a moça acabara de fazer 19. Ele já era noivo de Pérola e estava de casamento marcado; ela era moça virgem e nunca havia se interessado por qualquer outro homem.

Fio Jasmim chegou ao Vale dos Laranjais pela primeira vez em tempo de colheita das laranjas, época em que a cidade estava em festa celebrando a ocasião. Por isso, os moradores gostavam de receber, em meio às comemorações, os passageiros que desembarcavam na estação de trem, incluindo os maquinistas. Nessas ocasiões, a população aguardava os viajantes com cestas repletas de comes, bebes e lembrancinhas diversas, e quem geralmente realizava essa recepção eram as mulheres.

Logo ao chegar à cidade, Fio se deparou com Neide Paranhos, eleita representante de sua família para a recepção aos visitantes. Apesar de a moça não gostar da agitação nem da movimentação que a cidade ganhava, foi disposta a realizar, da melhor maneira possível, seu papel de anfitriã dos visitantes de Vale dos Laranjais. Logo que o rapaz desembarcou na estação, já se sentiu atraído pela presença de Neide.

A moça era de uma família tradicional da região, os Paranhos, detentora de comércio próprio e de terras e composta pela avó, Dona Ismênia, pela mãe, Floripes, pelo pai, Francisco, além de dois irmãos mais velhos e três primas pequenas. Nesse seio familiar, Neide era muito amada e acolhida, tanto e que não tinha interesse em deixar sua casa e sua cidade para estudar, trabalhar ou viver em meio a pessoas estranhas. Além disso, a moça sempre fora bastante reservada, o que explicava o fato de pouco sair de casa e a falta de interesse nos rapazes.

No entanto, a chegada de Fio mudou esse sentimento em Neide: ainda que preservasse o desejo de nunca abandonar seu lar, pela primeira vez sentiu-se atraída por alguém. A afeição foi recíproca, o que levou a um relacionamento amoroso que perdurou por quase um ano. Durante esse período, o jovem sedutor visitou a cidade por mais quatro vezes, ocasiões em que o casal voltou a se encontrar.

Apesar do relacionamento que mantiveram durante esse tempo, Neide sempre suspeitou que Fio fosse casado ou comprometido, mas essa questão nunca importou de verdade a ela. Neide, em sua complexidade e independência, não se prendia aos costumes e convenções da época. Seu desejo de ser mãe, mais forte do que qualquer julgamento social, a impulsionou a buscar a maternidade sem se importar com as consequências ou com o que os outros pensariam. Quando tomou conhecimento de que Fio não retornaria mais ao Vale dos Laranjais, pois havia sido designado para cobrir outra rota no trabalho, Neide não titubeou em pedir ao jovem rapaz que fizesse um filho nela. Fio, inicialmente, hesitou, mas Neide garantiu que dele não queria mais nada a não ser um filho. Segundo a narradora, talvez tenha sido o primogênito de Fio.

A família da moca, por sua vez, não compreendeu o ocorrido quando a gravidez foi oficialmente anunciada por ela: não esperavam que Neide engravidasse fora de um casamento, afinal, sempre fora bastante reservada. Os irmãos não entenderam como aquilo pode acontecer, a mãe entrou em sofrimento profundo e o pai se envergonhou e desejou, como solução, o casamento com o rapaz responsável. Dentre todas as reações de espanto, Vó Ismênia foi a exceção, pois já havia percebido, um tempo antes, o envolvimento do casal.

Neide Paranhos seguiu feliz e em segredo com sua gravidez, e nunca revelou o nome do pai nem mesmo para o filho. A história de Neide, marcada pela força e pela determinação, ecoa a temática do abandono e da solidão na vida das mulheres, presente em toda a obra. Apesar de não se encaixar no papel de vítima, Neide também sofre as consequências da masculinidade tóxica de Fio Jasmim, que a deixa sozinha para criar o filho. Fio Jasmim, por sua vez, foi embora de Vale dos Laranjais sem saber, ao certo, se havia mesmo se tornado pai, e, com o tempo, deixou Neide Paranhos da Silva perdida na vastidão de suas conquistas amorosas.

 

Angelina Devaneio da Cruz

Com a crença profunda de que deveria aproveitar ao máximo seus últimos dias de solteiro, Fio Jasmim se envolveu, às vésperas de seu casamento, com a enfermeira Angelina Devaneio da Cruz, solitária moradora de Alma das Flores. Angelina era a mais velha de sete irmãs – a primeira a conquistar um título de nível superior – e tinha especial carinho por sua irmã mais nova, apelidada de Setimazinha, que tinha sido criada por ela, já que a mãe morrera um tempo depois de seu parto, após ter entrado em profunda depressão.

A personagem é retratada como uma mulher decidida, que usou essa determinação para conquistar seu diploma, e acreditava que dessa mesma forma conquistaria seu almejado marido. Angelina não sabia com quem nem quando iria se casar, mas tinha certeza de que, um dia, o casamento viria.

 


Assim que desembarcou na cidade de Alma das Flores, Fio Jasmim - maquinista que ainda não era conhecido pelos moradores da cidade – foi confundido com o tão aguardado noivo de Angelina: perguntaram-lhe se estava de casamento marcado e o rapaz confirmou, pensando, na verdade, em sua verdadeira noiva, Pérola. A resposta afirmativa foi o que bastou para que se espalhasse pela cidade a história de que Fio era o homem com quem Angelina se casaria. Todos se animaram com a notícia, especialmente a moça, que acreditou, de fato, que o rapaz viera à cidade por ela. Fio, por influência de seus colegas de trabalho, manteve a mentira e se aproveitou da situação e da moça. Aqui, mais uma vez, temos contato com um comportamento de Fio que demonstra sua irresponsabilidade e falta de empatia diante das mulheres com quem se envolvia. Aproveitando-se da ingenuidade e do sonho de Angelina, ele pensou unicamente em satisfazer seus próprios desejos. Durante os cinco dias em que ficaram juntos, o protagonista até sofreu com lampejos de um leve remorso por estar enganando Angelina,

 


 Por sua vez, Angelina acreditava, de maneira intensa, que aquele seria o homem de sua vida, a pessoa com quem finalmente iria se casar. A autora descreve, com sensibilidade, a ilusão e a esperança de Angelina diante do suposto comprometimento com Fio Jasmim, e isso cria uma atmosfera de tragédia iminente.

No entanto, como era de se esperar, Fio partiu, e a separação do casal foi sucedida por grande zombaria por parte do próprio Fio e de seus colegas contra a moça (e contra os habitantes da cidade), enquanto a mulher, solitária novamente, entregou-se a uma tristeza profunda. A zombaria e o descaso de Fio reforçam a crueldade e a insensibilidade do protagonista, evidenciando a sua masculinidade tóxica e a visão completamente objetificada que tinha das mulheres.

A depressão entranhou-se de tal forma na alma de Angelina que seu destino se tornou a morte: ela tirou a própria vida ao se jogar da ribanceira da cidade (tal qual sua mãe fizera pouco tempo depois de dar à luz a Setimazinha). Angelina não aguentou a dor. Sua morte, um reflexo da dor e do desespero causados pelo abandono, é um alerta para as consequências devastadoras da masculinidade tóxica. Mas até mesmo essa dor, quando Fio e seus amigos tomaram conhecimento de sua morte, foi tratada com descaso, sob o pretexto de que “[..] ela parecia mesmo aluada”. Essa frase, dita por Fio, demonstra sua incapacidade de compreender a profundidade do sofrimento de Angelina e sua indiferença em relação à tragédia que causou.

 

Aurora Correa Liberto

 “Ela gostava das pessoas ditas sem juízo, pois desde criança fora reconhecida como tal. Sem juízo, desmiolada, descabeçada, aluada...” É dessa maneira, logo nas primeiras linhas do quarto capítulo, que Conceição Evaristo se refere a Aurora Correa Liberto, moradora de Vila Azul. E tudo porque a garota, ainda que tímida e nada namoradeira, gostava, desde criança, de nadar nua nas águas do rio Naipã, atitude que atraía uma gama de admiradores – de homens a mulheres – até a beira do rio para observá-la, e fazia com que colecionasse um histórico de surras de sua família por não abandonar o costume. É interessante observar, aqui, que Aurora é retratada como uma personagem que não tem preocupações com as convenções sociais, o que contrasta com o conservadorismo de sua família; por isso, de maneira com as convenções sociais, o que contrasta com o conservadorismo de sua família; por isso, de maneira irônica, é apresentada como uma moça “sem juízo” – sente-se livre e despreocupada com os julgamentos que são impostos às mulheres que desafiam as normas sociais.

Aurora nunca quis nada com ninguém, apenas desejava se banhar sem a importuna presença de qualquer outra pessoa. Tanto é que, quando o trem Vapor Azul chegou à cidade, ela pouco se importou. Sua indiferença a qualquer tipo de relacionamento amoroso se manteve, no entanto, até o momento em que se encontrou com Fio à beira do rio. Este, por sua vez, assim que soube da existência da bela moça que gostava de tomar banho pelada, não hesitou em partir ao seu encontro logo que chegou à cidade.

No primeiro dia em que se encontraram, a conexão entre ambos não passou de uma troca de olhares – ainda que, ao encarar o príncipe negro, Aurora tenha tido vontade de chamá-lo para banhar-se no rio com ela. No entanto, Fio não se deu por vencido e, no dia seguinte, “foi convidado para o gozo das águas”. Esse encontro entre Fio e Aurora nas águas do rio Naipã simboliza a união entre a liberdade e o desejo.

Ambos ficaram juntos por dois dias inteiros até o trem da Companhia Ferroviária Nacional partir, levando consigo o protagonista, como de praxe. Dessa vez, entretanto, Fio causou uma pequena confusão antes da partida, pois, inebriado pelos banhos infindos com a moça sem juízo, perdeu a noção do tempo e atrasou em quase um dia a partida do trem. Por ser a primeira vez que esse tipo de situação ocorria na história da CFN, seus colegas de trabalho, sempre companheiros, passaram a tratá-lo com frieza e indiferença durante um bom tempo.

 

Antonieta Véritas da Silva

Dona de posses e mãe de três filhos, Antonieta era conhecida por sua grande beleza e por ser uma mulher bastante reservada, que pouco era vista fora dos limites de sua casa, em Remanso Velho, local para onde a locomotiva de Fio Jasmim seguia. Essas características sobre Antonieta já seriam suficientes para despertar o interesse de Fio pela mulher, mas, como se sentia arrependido por sua irresponsabilidade na última parada, o ajudante de maquinista prometeu não se deixar atrapalhar por nenhum outro corpo-mulher.

A promessa durou pouco, pois a beleza e a reclusão de Antonieta despertaram a curiosidade e o desejo de conquista em Fio Jasmim, que viu nela um novo desafio. Assim, depois de tanto ouvir falar sobre Antonieta Véritas da Silva, um corpo desejado e desconhecido pelos homens do lugar, o protagonista rapidamente se esqueceu de seu erro. No mesmo dia em que desembarcou na cidade, Fio foi até a casa de Antonieta para descobrir, de perto, os encantos da mulher sobre a qual todos comentavam. Essa primeira noite de visita se resumiu apenas a conversas, e nada além disso aconteceu. Ao se despedir, Fio questionou a moça sobre a possibilidade de visitá-la novamente durante sua estadia, e em resposta ela disse que a vontade era dele, e só ele poderia se decidir por esse retorno. Ainda que tenha soado indiferente à presença de Fio com essa fala, Antonieta, mais tarde, em sua cama, ficou sonhando com a possibilidade de, finalmente, dar fim à solidão que a acompanhava há tanto tempo – o que mostra que, apesar de se mostrar indiferente, nutria a esperança de que Fio pudesse lhe oferecer o amor e o companheirismo que lhe faltavam. Mas foi apenas às vésperas de partir que Fio resolveu retornar à casa da mulher, o que acabou sendo a segunda – e última – noite de encontro dos dois.

Embora ambos não tenham mais se encontrado em nenhum outro momento após sua partida – Fio chegava a rever algumas de suas amantes uma ou duas vezes por ano -, o protagonista fez despertar em Antonieta a esperança de que pudesse ser o homem que lhe traria “quietação da dor dos dias sem afeto”. Esse sentimento da personagem apenas deixa claro que até a mais forte das mulheres possui suas fragilidades, e é justamente por causa desse tipo de sentimento que Fio consegue consolidar suas conquistas – e isso reforça sua irresponsabilidade diante desses relacionamentos. Com o avançar da leitura, percebemos que a esperança de Antonieta não se concretizou, já que nunca mais os amantes voltaram a se encontrar. Mais uma vez, Fio despertou a ilusão em uma mulher e a abandonou diante de um futuro que nunca se concretizaria. Apesar disso, o envolvimento gerou frutos: um menino.

Fio descobriu sobre a existência de Jasminzinho apenas sete anos mais tarde, quando uma moradora com quatro filhos, mulher independente e de grandes posses, comprou uma casa em Chegada Feliz, cidade em que Fio Jasmim morava com sua esposa Pérola. O reencontro com o filho de Antonieta marca um momento importante na trajetória de Fio Jasmim, trazendo à tona as consequências de seus atos. 

Dolores dos Santos

A história de vida de Dolores revela as marcas do abandono e da desconfiança que permeiam a vida de muitas mulheres, vítimas de uma sociedade patriarcal que as marginaliza. Dolores é herdeira de grande fortuna deixada pela família e cresceu desconfiada dos homens: fora renegada pelo avô – por ter sido concebida fora do casamento – e abandonada pelo pai antes mesmo de seu nascimento. Mas isso não a impediu de ser bastante namoradeira ao longo da vida, apenas evitando qualquer tipo de relacionamento sério.

Essa aparente contradição acerca dos desejos de Dolores revela a complexidade da personagem, que busca o prazer e a afirmação de si mesma por meio dos relacionamentos, mas, ao mesmo tempo, teme a vulnerabilidade e a dor que eles podem causar.

Durante anos, a moça viveu feliz com sua avó e sua mãe, e, mesmo no período em que o avô era vivo, a presença e o amor das duas mulheres eram o que bastava para ela. Com a perda de sua avó e, após um tempo, de sua mãe, Dolores dos Santos, já adulta, deparou-se completamente abandonada, e teve de lidar sozinha com essa dor, acompanhada apenas do antigo empregado do casarão onde vivia, Sô Damião. Focou, então, nos negócios herdados na cidade de Ardência Antiga: a exploração de terrenos da família que abrigavam pedras preciosas e o comércio da loja de joias.

Foi em um dia de trabalho na joalheria que ela encontrou, pela primeira vez, com Fio Jasmim, que procurava uma joia para presentear sua esposa, Pérola Maria. Mas, ao ser atendido por Dolores, anunciou que viera escolher um presente para a irmã. Por algum motivo, ainda que, de início, não tivesse qualquer tipo de interesse por Dolores, ele acabou mentindo.

A mentira de Fio Jasmim revela sua natureza sedutora e manipuladora, usando de falsidade para conquistar a confiança de Dolores. Ela, com faro apurado para mentiras – especialmente de homens - desconfiou, mas acabou se deixando levar pelos encantos de Fio. Durante os dias seguintes, antes da partida da locomotiva para a cidade seguinte, Nova Ardência, Fio visitou a joalheria todos os dias sob o pretexto de escolher o tal presente para a irmã, e ao longo desse período o envolvimento entre os dois foi aumentando. Dolores, apesar de sua desconfiança inicial, se rendeu aos encantos de Fio, caindo em sua armadilha de sedução. Às vésperas de sua despedida, Dolores finalmente entregou-se aos encantos do rapaz, o que talvez não devesse ter feito, pois, pela primeira vez, mostrava-se verdadeiramente interessada por alguém, e era justamente por uma pessoa que não tinha o menor interesse em firmar compromisso sério com ela.

Ela chegou, inclusive, a ir atrás de Fio em sua parada seguinte – conforme um pedido do próprio rapaz, que lhe deixou um bilhete antes de ir embora pedindo que a moça fosse encontrá-lo. Fio ficou surpreso por Dolores realmente ter ido atrás dele, e por isso se aproveitou da situação. A busca de Dolores por Fio demonstra tanto a intensidade de seus sentimentos quanto a sua vulnerabilidade diante da manipulação do homem. No entanto, o único laço que restou entre os dois, após seus últimos momentos de amor, foram duas filhas gêmeas.

Durante anos, Dolores tentou encontrar Fio Jasmim, chegando a escrever várias cartas para a Companhia em que o homem trabalhava, na esperança de conseguir contatá-lo, pois não queria que suas filhas tivessem o mesmo tipo de criação que ela, que nunca soube quem era seu pai. A moça desejava ao menos uma foto para que as filhas pudessem ter um rosto para associar ao nome conhecido por elas.

A persistência de Dolores em buscar Fio Jasmim revela seu desejo de oferecer às filhas a possibilidade de conhecer suas origens e construir uma identidade completa. A personagem desejava para as filhas uma vida diferente da que tivera - ainda que tivessem sido abandonadas, ao menos teriam um rosto como referência, algo que lhe fez falta durante sua própria infância.

Anos mais tarde, quando já havia perdido as esperanças, Dolores recebeu, de um dos funcionários da empresa, uma foto de Fio Jasmim acompanhado de sua esposa e de seus filhos. Em um ímpeto de ódio, vão descobrir que Pérola Maria era, na verdade, esposa de Fio (como desconfiava) e não sua irmã, considerou matá-la, desejo esse que durou poucos instantes, pois entendeu que a mulher nada tinha a ver com as atitudes do marido. Assim, ela decide que, tão logo suas filhas tomassem mais idade, iria apresentá-las ao pai e aos irmãos. A reação de Dolores ao descobrir a verdade sobre Fio Jasmim é compreensível, mas sua decisão de não se vingar de Pérola Maria demonstra o sentimento de sororidade,

ou seja, apoio, empatia e solidariedade por outra mulher, pois entende que, assim como ela, Pérola Maria também era uma mulher enganada pela masculinidade tóxica de Fio.

 


Dalva Amorato

Dalva, a ruiva. Assim era conhecida a amante de Fio Jasmim em Águas Infindas, cidade na qual ele e os colegas de trabalho precisaram fazer uma parada forçada após deslizamentos atingirem os trilhos do trem em uma tempestade. Fio, na ocasião, acidentou-se ao descer do vagão, e por isso precisou ficar alguns dias no hospital local. Foi durante esse período que conheceu Dalva – embora não se lembrasse dela depois. Uma das primeiras pessoas a visitar o maquinista, a mulher mais rica da cidade ofereceu um quarto particular em sua residência caso fosse necessário mais tempo para o rapaz se recuperar. Não foi preciso: em menos de uma semana Fio já estava dentro da locomotiva, rumo à próxima cidade.

Dalva, uma mulher forte e independente, surge como um contraponto à imagem frágil e submissa de muitas personagens femininas. Ela desafia as convenções sociais e assume o controle de sua própria vida, buscando realização pessoal e profissional. Por não ter namorado, noivo ou marido, Dalva era alvo de muitas especulações dos moradores da cidade, e ninguém sabia ao certo a sua verdadeira história.

Ela crescera na roça e, desde cedo, desejava mudar seu destino. Por isso, com pouco mais de 10 anos de idade, mudou-se para a cidade e arranjou um emprego na casa de uma senhora, onde, quatro anos mais tarde, estabeleceu compromisso sério com o sobrinho da mulher. Foi com esse mesmo rapaz que, tempos depois, Dalva se casou e teve dois filhos.

O desejo dela, no entanto, não era se tornar uma dona de casa; por isso, vinte anos após ter se mudado de cidade pela primeira vez, resolveu repetir o gesto, fazendo as malas e partindo com suas duas crianças. Conceição, aqui, coloca-nos em contato com uma personagem que não se conforma com o papel de esposa e dona de casa, o que pode ser interpretado como uma busca por autonomia, liberdade e realização pessoal, principalmente. Mais uma vez, tem-se uma personagem que rompe com as expectativas sociais tradicionais de gênero, as quais geralmente colocam a mulher no papel de cuidadora e responsável pelo lar.

Era justamente esse o papel que o marido de Dalva esperava que ela exercesse e, por isso, durante o relacionamento, nunca apoiou os desejos que a esposa tinha de estudar e ter uma profissão. Então, diante do abandono, ele nada fez. O que realmente importava para o marido era que ninguém soubesse da história, para que sua reputação não ficasse manchada. A reação do marido de Dalva é um reflexo, em primeiro lugar, da hipocrisia da sociedade da época, que valorizava mais a aparência e o status social em detrimento da felicidade e da realização pessoal das mulheres.

 


Foi exatamente o que ela fez. Escolheu como lar a cidade Dias Felizes, onde passou a trabalhar muito para fazer o curso de Farmácia. Como precisava de algo que lhe desse retorno financeiro rápido, vendeu o corpo sem titubear – se quisesse mudar a sua realidade e a de seus filhos, não tinha muita escolha. Em menos de dois anos, matriculou-se em uma das melhores instituições de ensino da cidade. Como resultado de sua trajetória, Dalva conquistou grande riqueza – fruto de muito trabalho como representante de laboratório - e conseguiu matricular seus filhos no melhor colégio da cidade. A determinação de Dalva em superar as dificuldades e construir uma vida melhor para si e seus filhos é inspiradora, e apenas reforça que as mulheres precisam ser resilientes diante de uma sociedade que as subjuga e estereotipa: apesar das limitações sociais, elas são capazes de alcançar seus objetivos.

Foi nesse momento de sua vida que ela conheceu Fio Jasmim, ainda que ele não se lembrasse dela, pois, ao visitar o rapaz, ele se encontrava pouco consciente.

 


Por acaso do destino – e pelo trabalho exercido por Dalva como representante farmacêutica –,

reencontraram-se novamente na cidade de Grande Infância. Jasmim não se lembrava dela, mas sabia de Sua existência. Desde então, continuaram se esbarrando em diversos outros locais em função dos trabalhos que cada um exercia. Era nesses momentos de reencontro que ambos se entregavam aos prazeres um do outro, e não tardou para que Fio Jasmim a engravidasse – assim como fizera com tantas outras – não somente uma, mas três vezes. Trata-se de uma relação marcada pela paixão e pelo desejo, mas também pela efemeridade e pela falta de compromisso.

Com o tempo, o destino se encarregou de afastá-los, mas estava nos planos de Dalva – assim como nos de Dolores – apresentar seus filhos ao pai, um dia. Essa vontade de apresentar os filhos a Fio Jasmim demonstra a importância da figura paterna na construção da identidade e da história familiar.

Por fim, ao analisar com mais cuidado essa personagem, percebe-se que, de certa forma, ela reúne características das outras mulheres que nos foram apresentadas: a independência de Neide e de Antonieta, a determinação de Angelina, a falta de preocupação com as convenções sociais de Aurora, a preocupação com os filhos e a resiliência de Dolores. São todas mulheres fortes a seu modo; diferentes, mas parecidas. 

Juventina Maria Perpétua

Tina, como era chamada em sua juventude, conheceu Fio Jasmim por acaso, caminhando pelas ruas da cidade onde morava sua prima. Quando seus olhares se cruzaram, “uma desconcertante ardência” lhe queimou as faces, mas não de timidez.

Esse primeiro encontro entre Tina e Fio Jasmim é marcado tanto pela intensidade e pelo desejo quanto pela inocência e pela vulnerabilidade da jovem moça.

Depois desse primeiro encontro, Juventina acabou confessando seus sentimentos pelo tal homem a Floripes, sua prima mais velha, a qual, por sua vez, não poupou comentários sobre quem era o verdadeiro Fio Jasmim: um homem casado que colecionava filhos e amantes por suas andanças. No entanto, isso Fio Jasmim: um homem casado que colecionava filhos e amantes por suas andanças. No entanto, isso não foi o suficiente para frear os sentimentos da jovem Tina – virgem e no auge de seus 17 anos – pelo protagonista comprometido e mulherengo.

Indo contra os conselhos da prima, Tina acabou se envolvendo com o rapaz por anos. Embora Fio nunca tenha se apaixonado pela moça, ela, por sua vez, retribuiu-lhe com um amor que alimentou sozinha durante parte significativa de sua vida. Para Fio Jasmim, a única coisa que importava era a virgindade da moça, mas isso porque se tratava “[..] de um experimento delicioso. Não penetrar Tina fazia parte do jogo sexual dele [..]”. Logo, tudo o que o protagonista tinha a lhe oferecer era o desejo por seu corpo jovem e belo, o que, para Tina, bastava.

A relação entre Tina e Fio Jasmim é marcada pela desigualdade e pela exploração. Fio se aproveita da inocência e da paixão de Tina para satisfazer seus desejos, enquanto ela se entrega completamente, na esperança de ser amada e correspondida. Juventina viveu esse relacionamento não correspondido – de maneira intensa, como se fosse o primeiro encontro - durante mais de trinta anos. Ao longo desse tempo, ela escreveu cartas carregadas de amor e paixão, enquanto Fio nunca lhe ofereceu nada em troca. Até mesmo suas relações sexuais eram incompletas: “Nunca tinha se adentrado na moça. Nunca tinha se dado inteiro para ela. Nem havia perguntado se a forma de prazer que ele oferecia cumpria os desejos dela”.

A falta de reciprocidade e de entrega por parte de Fio Jasmim intensifica o sofrimento de Tina, que se anula em nome de um amor platônico e irreal. Em dado momento, Juventina resolveu deixar Fio, por mais que o amasse. Desejava entender a profundidade desse sentimento que durava tantos anos, e foi só nesse momento que ele descobriu que Tina era uma mulher livre, “[...] tão livre, que se foi”.

Por fim, é importante destacar que, para além do relacionamento que teve com Fio, Juventina é a personagem mais importante para nós, leitores, afinal, é ela a responsável por contar a história do protagonista e por nomear o livro.

 

Eleonora Distinta de Sá

O encontro de Fio com Eleonora se deu em um bar: a moça já estava na sétima garrafa de cerveja após ter perdido um encontro importante com uma amiga que não via há tempos. O olhar do rapaz, aguçado para mulheres, logo a descobriu sozinha quando adentrou o local, e ele prontamente se sentou ao lado dela, apenas à espera da melhor oportunidade para se mostrar “prestativo”, caso assim precisasse – já sabemos qual era a sua real intenção.

Mas, no encontro com Eleonora, Fio Jasmim se depara com uma mulher diferente das outras, marcada pela dor e pela solidão. Diferentemente do esperado pelos leitores - dado o histórico do protagonista –, Fio encontra acolhimento nos olhos tristes de Distinta de Sá.

 


Foi nesse momento que o protagonista, pela primeira vez, descobriu-se um homem triste e solitário, ainda que encontrasse amor e carinho nos braços das mulheres que conquistava. Também foi capaz de entender que era possível ter outro tipo de sentimento e relacionamento com o sexo oposto, sem que isso envolvesse jogos de sedução.

Já Eleonora, traumatizada pela figura masculina – quando jovem, foi flagrada pelo pai beijando a namorada do irmão, e a violência que se seguiu foi suficiente para afastá-la da família –, finalmente pôde ter o acolhimento de um irmão, algo que nunca experimentou. Entre Eleonora e o protagonista, houve um encontro de corações, e ambos descobriram um no outro a fidelidade fraternal que nunca haviam experienciado.

A relação que se estabelece entre os dois personagens representa uma possibilidade de cura – que Fio nem mesmo sabia que precisava - e de superação dos traumas do passado a partir da compreensão mútua.

 

Pérola Maria

A eleita do sedutor Fio Jasmim é retratada como uma mulher completamente submissa às vontades do esposo. Presa a uma visão tradicional e patriarcal de casamento, Pérola Maria aceita as imposições e as infidelidades do marido em nome da manutenção da família e da maternidade. Ela acredita que um bom marido se faz na figura de um homem trabalhador, presente na criação (e na concepção) dos filhos e que trata a esposa com carinho - ainda que colecionasse uma porção de filhos e amantes. Aos olhos dela, Fio era tudo isso.

Por diversas vezes, Pérola ficou sabendo da infidelidade de Fio, fato que, de maneira geral, tratava com certa indiferença, já que seu verdadeiro (e único) prazer era ter filhos. Essa postura diante das traições de Fio Jasmim revela sua anulação como mulher e sua submissão aos desejos e às expectativas masculinas. É claro que, eventualmente, as traições do marido lhe doíam, e isso a fazia sofrer profundamente; mas Fio tomava o cuidado de enchê-la de carinho para que pudesse se esquecer de suas “aventuras” – as quais nunca confirmou, mas também não desmentiu.

A forma como Fio Jasmim manipula Pérola Maria com carinho e afeto demonstra sua habilidade em controlar e manter a esposa submissa às suas vontades. Juntos, Pérola e Jasmim tiveram nove filhos em um casamento que, até o momento em que nos é contada a história, já durava vinte e quatro anos.

Por fim, é importante analisar como Pérola – e todas as mulheres que nos são apresentadas – é submetida a um relacionamento disfuncional marcado por infidelidade, manipulação emocional e desequilíbrio de poder, especialmente em relação aos papéis de gênero dentro da sociedade. Além disso, é explicitada a normalização de comportamentos prejudiciais às mulheres dentro dos relacionamentos. A situação de Pérola é um exemplo de como algumas mulheres podem se encontrar presas em relacionamentos insatisfatórios e abusivos, buscando realização em outros aspectos da vida, como a maternidade, especialmente devido às imposições conservadoras da sociedade.

 

Fio Jasmin

Fio Jasmim é o personagem principal da história de Conceição Evaristo. É um homem mulherengo que trata a figura feminina de maneira completamente objetificada, pois enxerga nela apenas duas grandes funções: satisfazer seus desejos sexuais e gerar sua prole. Esse personagem representa o homem negro aprisionado pelos estereótipos da masculinidade e da virilidade, impostos desde muito cedo por uma sociedade racista e machista.

 


Não bastasse a criação que recebeu, Fio Jasmim também sofria com uma lembrança que o assombrava constantemente. Aos 8 anos de idade, tinha sido impedido pela professora de interpretar o papel de príncipe da Cinderela, sendo substituído por um colega loiro de olhos claros. Sendo preterido pelo menino branco, transformou-se, no decorrer de sua vida, no príncipe negro que recebia conselhos dos mais velhos sobre como reinar por onde se fizesse presente, com o objetivo principal de conquistar e dominar as mulheres: “ele foi construindo seu próprio reino”. 

A experiência de rejeição na infância e os conselhos machistas que recebeu contribuíram para a construção da persona de “príncipe negro” de Fio Jasmim, que usava a sedução e a conquista como forma de afirmação e de poder. No entanto, é preciso ressaltar que, mesmo diante do rastro de desilusões amorosas que deixava em seu caminho, Fio Jasmim sempre acreditou que era um homem bom e correto, o que revela a sua incapacidade de enxergar as consequências de seus atos e o sofrimento que causava às mulheres.

Para completar sua imagem de virilidade, também aprendeu a nunca demonstrar fraqueza – isso era reservado às mulheres. Ele foi instruído pelo pai, desde cedo, que qualquer manifestação de dor ou tristeza devia ser deixada de lado, e que o único sentimento permitido era o de raiva (desde que não fosse contra os mais velhos) – raiva era a demonstração de um menino que havia se tornado homem. Foi necessário encontrar Eleonora, em seus mais de trinta anos de idade, para que Fio Jasmim olhasse para suas próprias dores e percebesse que é um sentimento que também afeta os homens. O encontro com Eleonora marca um ponto de virada na trajetória de Fio Jasmim, que começa a questionar os estereótipos da masculinidade e a se permitir sentir e expressar suas emoções.


Análise da obra 

Fio Jasmin: o fio condutor

Ao ler o título e o primeiro capítulo da obra, o leitor desavisado pode achar que a história está centrada na figura de um homem, o protagonista de toda a narração. No caso, é e não é: como não há de ser diferente, a autora expande as expectativas de seus leitores e, ainda que sejamos conduzidos a acompanhar as aventuras e desventuras amorosas de Fio Jasmim, tendo essa figura masculina como personagem central, quem ganha destaque em parte significativa da obra são as histórias das mulheres pelas quais a vida de Fio se entremeia, especialmente porque a vida desse protagonista é contada a partir da perspectiva delas. Então, no transcorrer dos mais de dezoito capítulos, deparamo-nos com os desejos e sonhos dessas figuras femininas, que contrastam com as percepções masculinas sobre elas e seus corpos. A obra se conecta ao conceito de escrevivência, portanto, ao dar voz às experiências marginalizadas dessas mulheres, revelando suas dores, seus anseios e suas lutas em uma sociedade que as silencia e as oprime.

Sendo assim, pode-se dizer que, em parte, são as histórias dessas várias mulheres que ajudam a compor a vida desse homem. Elas, com suas vozes, experiências e complexidades, tecem a trama da narrativa, visto que revelam a profundidade e as contradições de Fio Jasmim, bem como constroem um painel da condição feminina na sociedade – de subjugação em relação ao homem. Além disso, é preciso destacar que o personagem principal possui um nome bastante sugestivo, afinal, é o fio condutor que liga, de certa forma, as histórias de todas as suas amantes.

Conforme a leitura avança, torna-se perceptível que a autora traz um controvertido protagonista, fruto de um determinismo social que o faz agir de maneira desprezível com as mulheres. Resultado de uma masculinidade tóxica e de um racismo impostos em sua vida desde muito cedo, Fio, ao longo da constituição de suas relações, replica, na vida de suas amantes, os episódios de opressão vividos em sua formação.

Isso porque, não bastasse carregar uma grande desilusão que o persegue desde a infância – a de não ter conseguido, em sua escola, fazer o papel de príncipe, por ser negro, ainda que muito belo -, o atraente rapaz também é fruto do relacionamento entre uma moça de 15 anos e um homem machista na casa dos 60. Como resultado, Fio cria seu próprio reino, no qual ele é o príncipe sedutor pelo qual as mais belas mulheres – todas de nome importante e bem-criadas – apaixonam-se, e onde encontra terreno fértil para reproduzir aquilo que lhe foi ensinado pelo pai ao longo de sua criação: de que ser homem de verdade é colecionar uma longa fila de mulheres e jamais demonstrar dor, fraqueza ou tristeza.

É claro que esse tipo de comportamento reverbera, ainda que em nuances diferentes, na vida de cada uma das figuras femininas iludidas pelo suposto amor de Fio, que se utiliza de seus corpos para satisfazer os próprios desejos e não hesita em abandoná-las para se entregar à próxima paixão, no destino seguinte.

Diante de tudo isso, nós, como leitores, somos colocados em uma posição bastante paradoxal, pois, ao mesmo tempo que é natural nos sentirmos condoídos pelos sofrimentos de cada mulher que passa pela vida de Fio, é também compreensível o sentimento de compaixão pelo protagonista conforme vamos nos apropriando de sua história de vida e de suas dores. Afinal de contas, da mesma maneira que a autora explora as experiências de mulheres atingidas pela desilusão resultante da masculinidade tóxica, explicita os desafios associados aos estereótipos do homem negro que, desde muito cedo, apresentaram-se de maneira impositiva a Fio Jasmim.

 

O título

Conceição Evaristo afirma que, apesar de não ter nenhum “talento” relacionado à música, sente-se muito atraída por esse tipo de produção, e por isso tinha o desejo de construir um processo de escrita que pudesse se confundir com a música. No entanto, quando essa relação se dá por meio da prosa, tem-se uma construção linguística – diferentemente da poesia – que dificulta imputar características que se aproximem da música, como rimas e ritmo.

Mesmo assim, Conceição queria explorar esses recursos e desejava, de alguma maneira, aproximar a obra da música, mas a única forma que conseguiu encontrar para cruzar esses dois elementos foi em termos de conteúdo, criando uma personagem que fizesse uma canção para o seu homem. Desse modo, a personagem Juventina, ao “cantar” a história de Fio Jasmim, materializa essa relação entre prosa e música, dando ritmo e melodia à narrativa através de sua voz e de suas experiências.

Paralelamente, ainda de acordo com a autora, existe uma crença cultural de que a relação de mulheres negras com seus homens ocorre, predominantemente, por meio de certa maternalização, já que são o apoio de seus homens negros, os quais, por sua vez, são submetidos a um determinismo social que prevê a imposição de uma figura masculina estereotipada: viril e forte. Logo, as mulheres estão sempre nessa função de maternalizar e de cuidar – essas funções, presentes em toda a obra, revelam a força e a resiliência das mulheres negras, que assumem esse papel de cuidar e de proteger seus homens mesmo diante das adversidades e das dores que sentem.

Conceição tinha o desejo de englobar todos esses contextos em sua obra, e por isso Juventina cria essa canção: a personagem é capaz de compor uma canção para o homem por quem ela continua apaixonada mesmo após o fim do relacionamento.

Dessa forma, o título Canção para ninar menino grande é profundamente simbólico e está intimamente ligado ao enredo e aos temas centrais da obra.

 

Justificando o título

A escolha do título remete às ideias de cuidado, proteção e afeto normalmente associadas às canções de ninar, que são tradicionalmente cantadas para crianças pequenas. No entanto, ao se referir a um “menino grande”, sugere-se que houve uma inversão ou ampliação desse conceito, indicando que mesmo aqueles que já não são mais crianças precisam de conforto e acolhimento. O “menino grande” do título representa a fragilidade e a vulnerabilidade presentes em todos os seres humanos, independentemente da idade, do gênero ou da etnia.

Logo, o título da obra aponta para a necessidade desse “menino grande”, Fio Jasmim, de se reconectar com sua própria história e com as mulheres que marcaram sua vida, buscando a cura para suas dores e a superação de seus traumas, pois, assim como uma criança, descobre que também precisa de apoio emocional e carinho.

 

Relação com o enredo

No contexto do enredo, o título reflete a relação entre Fio Jasmim e as mulheres com as quais se envolve: quando chegamos ao fim do livro, percebemos que o protagonista escondia muita fragilidade e dor por trás da máscara de homem viril conquistador. As mulheres, portanto, são o suprimento para toda a carência que existia debaixo da máscara galanteadora desse personagem. São justamente elas que entoam a canção que nina e acalenta esse menino grande, o qual, apesar de adulto, carrega feridas emocionais e traumas que remetem à infância. O “menino grande” pode ser interpretado como uma metáfora para aqueles - no caso da obra, os homens negros – que, apesar da maturidade, ainda necessitam de cuidado e enfrentam desafios que exigem força e resiliência. A “canção” que as mulheres entoam para Fio Jasmim, materializada na forma de acolhimento, carinho e afeição, é um símbolo de amor, de perdão e de cura, representando a possibilidade de superação dos traumas e das dores do passado.

Além disso, a “canção”, no título, também pode simbolizar a narrativa em si, que busca dar voz às experiências e às histórias das mulheres, oferecendo-lhes um espaço de expressão e reconhecimento. Toda essa função acaba sendo exercida pela figura de Juventina, a responsável por entoar a canção da vida de Fio Jasmim e de “suas” mulheres. 

 


Assim, o título Canção para ninar menino grande encapsula a essência da obra, que é tanto uma expressão de vulnerabilidade quanto de força, refletindo a complexidade das experiências humanas abordadas por Conceição Evaristo.

Narração

A narração que se apresenta a nós, leitores, ainda que aparente ser simples na leitura, é dotada de certa complexidade na execução, por causa da alternância de focos narrativos, ora em primeira pessoa, ora em terceira pessoa. Trata-se de uma técnica narrativa sofisticada, que visa enriquecer a experiência de leitura ao oferecer uma visão mais completa e envolvente da história e dos personagens. A autora nos traz, portanto, uma abordagem literária que valoriza a complexidade, a profundidade psicológica e o engajamento ativo do leitor, resultando em uma narrativa mais rica e impactante. Em suma, essa alternância de focos contribui para a construção de uma narrativa dinâmica e multifacetada, que aproxima o leitor dos personagens e de suas experiências.

Logo nas primeiras páginas, temos contato com uma narradora-personagem – em primeira pessoa, portanto – que resolve reproduzir uma história que sua amiga Juventina tinha lhe contado. Trata-se da história de Fio Jasmim, protagonista da obra, que coleciona uma lista de amantes (dentre elas, a própria Tina). Justamente por ser a reprodução do que escutou e não do que vivenciou, a narradora demonstra grande preocupação em apresentar os fatos da maneira mais fiel e minuciosa, embora ela já adiante que isso talvez não seja completamente possível.

 


 É dessa forma, então, que temos a obra narrada: por essa voz feminina que procura conduzir a história de maneira acurada a partir daquilo que escutou.

É interessante notar, também, que essa narradora-personagem apresenta alguns traços da própria autora. Em primeiro lugar porque, ainda que exista uma narradora ficcional, sua voz se mistura à da escritora e cidadã Conceição Evaristo. Essa fusão entre a voz da narradora e a voz da autora é uma característica marcante da escrevivência, que busca romper com a distância entre ficção e realidade, dando voz às experiências e às perspectivas das mulheres negras. Trata-se de uma estética que a autora procura imprimir ao texto e, por isso, o leitor fica, muitas vezes, sem saber se a fala é da narradora, da personagem ou da escritora.

Além disso, como já comentado em momento anterior, a obra passou por uma revisão autoral, já que Conceição acreditava que a história original estava incompleta por não ter explorado melhor personagens que considerava importantes.

Quando lemos o primeiro capítulo, portanto, já é possível perceber alguns desses aspectos.  


A narradora também deixa claro que esses “traços de incompletude” existem por outro motivo que ela considera muito relevante.

 


Isso significa, então, que talvez nem mesmo a escrevivência que Conceição Evaristo coloca em prática é capaz de realmente suprir as necessidades que ela sente de transmitir riqueza de detalhes e sensações. A busca pela completude na narrativa é um desafio constante para a escritora, que reconhece a impossibilidade de capturar a totalidade das experiências humanas.

No entanto, se nos fogem detalhes que a autora supostamente não conseguiu explicitar em sua completude, em compensação conseguimos identificar certo tom memorial na narração, precisamente pelo fato de esta se suceder a partir das lembranças que a narradora teve sobre o que Tina havia lhe contado – “De repente me veio à lembrança tudo o que Juventina me contou”. E a narradora garante que esteve atenta - se não na primeira, ao menos na segunda vez que ouviu – a cada detalhe no momento da escuta, em grande esforço para ser fiel aos fatos que iria narrar. Aqui, é preciso destacar que, ainda que a memória, como fonte da narrativa, confira à história um caráter subjetivo e fragmentado, é capaz de também trazer certo tom autêntico e emocional aos relatos – características essenciais da escrevivência de Conceição. 

É quando começa a contar a história, portanto, que a narradora assume o foco de onisciência em terceira pessoa – isto é, que não só observa o desenrolar das ações, mas também sabe o que se passa no íntimo de cada personagem. Passamos, assim, a ter contato com um relato que ultrapassa os relacionamentos amorosos de Fio Jasmim, porque as reflexões do protagonista e, principalmente, das mulheres com as quais se envolve ampliam-se de forma a trazer análises profundas acerca da condição feminina – ainda que não de maneira explícita -, com ênfase na sua objetificação. 

Se essas análises todas acontecem, significa que é impossível dizer que há uma narração completamente centrada no factual; logo, embora a narradora nos diga que tenta ser fiel aos fatos, ela não é completamente imparcial. Especialmente porque quem conta originalmente todas essas histórias é Juventina, uma das amantes que passaram pela vida de Fio. Dessa forma, como garantir que essa narração está isenta de qualquer traço de parcialidade? Nesse sentido, várias razões podem contribuir para esse aspecto:

* Seleção de informações: o narrador escolhe quais eventos, pensamentos e sentimentos dos personagens destacar. Essa seleção pode influenciar a percepção do leitor sobre a história e os personagens. No caso da obra em questão, essa seleção se faz presente a partir do momento em que temos contato apenas com recortes tanto da vida de Fio quanto da vida de suas amantes. Muito provavelmente, esses eventos foram selecionados de acordo com a imagem acerca de cada indivíduo que a narradora (ou quem originalmente conta a história) quis construir. Canção para ninar menino grande, a vida de Fio é apresentada apenas em função de seu relacionamento com as mulheres. Nesse caso, fica bastante claro que, ainda que ele seja o protagonista, são as histórias dessas figuras femininas que ganham destaque.

* Foco da narração: mesmo sendo onisciente, o narrador pode escolher destacar mais certos personagens ou eventos -ao receber mais informações sobre um lado do que sobre outro, a parcialidade está estabelecida. Em Canção para ninar menino grande, a vida de Fio é apresentada apenas em função de seu relacionamento com as mulheres. Nesse caso, fica bastante claro que, ainda que ele seja o protagonista, são as histórias dessas figuras femininas que ganham destaque. 

* Tom e estilo: a maneira como o narrador descreve os eventos ou personagens pode carregar juízos de valor implícitos. O uso de adjetivos, metáforas e outras figuras de linguagem têm a capacidade de influenciar a forma como o leitor percebe a narrativa. Aqui, esses recursos são notadamente presentes e contribuem para que se realce a forma como a mulher é reificada e o modo como Fio reproduz os ideais machistas e racistas que moldaram sua personalidade. 

Como resultado de todo esse processo, o leitor acompanha a construção de um protagonista que se constrói de fora para dentro: a partir do determinismo das ideologias às quais é submetido e das histórias das mulheres que passaram pela vida dele. Essa técnica para a construção do protagonista revela, portanto, a influência do meio social e das relações interpessoais na formação da identidade individual, que, como pudemos perceber, resultou em um “homem paradoxal”: machista e viril, mas frágil.

 

Linguagem

Não é possível falar em linguagem, nas obras de Conceição Evaristo, sem abordar a sua “escrevivência”, que, como já vimos, é uma forma de escrita que valoriza a experiência e a perspectiva das próprias vivências, especialmente das mulheres negras, rompendo com os padrões literários tradicionais e construindo uma narrativa própria e autêntica. Dessa forma, como leitores, entramos em contato com um texto que se preocupa em criar uma identidade cultural tanto por meio do conteúdo quanto da forma. Sendo assim, para que essa identidade possa ser devidamente construída, a linguagem assume papel de destaque.

Conceição acredita que o texto responsável por criar uma identidade cultural é o literário, mais do que o próprio texto de história. Então, se a literatura é um lugar no qual se cria uma identidade nacional, ela precisa ser a mais diversa possível. Para isso, a oralidade se torna peça fundamental da escrita da autora, que se preocupa em construir um projeto estético: quer criar um texto que seja o mais próximo possível da linguagem oral a partir da “gramática do cotidiano”. Ao fazer isso, ela também afirma que a língua portuguesa se apresenta de várias formas, e nenhuma é melhor do que a outra.

Todas essas características são claramente notadas conforme se avança na leitura de Canção para ninar menino grande. Isso significa, então, que a linguagem, no livro, é simples, direta e acessível, mas não deixa de ser rica, potente e poética. As escolhas lexicais e construções sintáticas visam à profundidade emocional de seus personagens, e também para tornar menos complexos - ainda que não isentos de importância - temas como a violência, o racismo, a desigualdade social, a objetificação das mulheres, o machismo e até mesmo o afeto. É preciso destacar que a “simplicidade” da linguagem não a torna menos profunda ou menos capaz de tratar de temas complexos. Pelo contrário, a escrita de Conceição Evaristo demonstra que é possível abordar questões delicadas e profundas com sensibilidade e clareza. Portanto, como a autora é conhecida por seu estilo literário que combina elementos da oralidade a uma escrita lírica e envolvente, sua obra nos expõe a uma linguagem que destaca questões de identidade, memória e resistência, especialmente no contexto da experiência afro-brasileira. 

Ao longo de toda essa construção, são utilizados metáforas e simbolismos para enriquecer a narrativa, o que torna a leitura uma experiência sensorial e emocionalmente impactante. 


Tempo e espaço

Em Canção para ninar menino grande, o tempo e o espaço são elementos que se entremeiam para construir a narrativa e aprofundar os temas abordados. 

Tempo

O tempo, na obra, é fluido e não linear, refletindo a maneira como a memória e a história pessoal se entrelaçam. Essa construção temporal, fragmentada e subjetiva, é também característica da escrevivência, que busca representar a experiência do tempo de forma mais próxima da realidade das mulheres negras, a qual, geralmente, é marcada por rupturas, deslocamentos e cicatrizes do passado. Ele assim se configura porque a autora faz uso de digressões e reminiscências para explorar o passado dos personagens, revelando como eventos históricos e pessoais influenciam o presente – estratégia narrativa bastante comum em suas obras.

A história do livro se inicia com Fio Jasmim na casa dos 44 anos, mas mal nos apresenta o personagem e já faz o primeiro flashback para começar a contar a história do protagonista, levando-nos para vinte e quatro anos antes, quando ainda era noivo da esposa, Pérola, para apresentar sua primeira amante, Neide Paranhos, na cidade de Vale dos Laranjais.

A narração prossegue, temporalmente, conforme Fio também avança em sua coleção de casos extraconjugais. Nós, como leitores, conseguimos compreender a passagem do tempo, portanto, à medida que a narradora nos atualiza sobre a idade de Fio ou sobre um novo filho que teve com Pérola ou em alguma de suas outras relações.

Ainda que a história siga uma progressão temporal crescente, no decorrer da narrativa são feitas interrupções para o rememoramento de certos fatos e acontecimentos, uma estratégia importante, pois só conhecendo o passado de alguns personagens é possível compreender melhor suas atitudes e traços de personalidade. Logo, a não linearidade do tempo reforça a ideia de que o passado não é algo superado, mas, sim, uma ferida aberta que continua a influenciar o presente.

Essa abordagem temporal, portanto, permite uma reflexão profunda sobre a continuidade das experiências de opressão, de resistência e de comportamento às quais os personagens são submetidos, tanto em relação às mulheres quanto em relação a Fio Jasmim. 

Espaço

O espaço, na obra, é igualmente significativo, com uma ambientação que destaca tanto os espaços físicos quanto os simbólicos. É importante ressaltar que, em uma narração, “espaços físicos” e “espaços simbólicos” diferem-se entre si devido à função que exercem na construção de significados dentro de um enredo. Eles podem simplesmente representar o local físico onde se sucedem as ações dos personagens (espaços físicos), como podem trazer significados mais profundos, que não se limitam ao lugar físico onde os eventos ocorrem, mas também carregam significados adicionais que contribuem para o desenvolvimento da trama, dos personagens ou das ideias centrais da obra (espaços simbólicos).

Nesse sentido, quando se analisa a obra, fica bastante claro que os espaços físicos, como as cidades e vilas por onde Fio Jasmim passa, representam o cenário social e cultural em que os personagens estão inseridos, enquanto os espaços simbólicos, como o rio Naipã e a joalheria de Dolores, representam os desejos, os medos e as frustrações dos personagens. Esses espaços são essenciais, também, para ajudar na marcação temporal da história: cada nova cidade na qual Fio desembarca representa uma nova aventura amorosa e, portanto, é sinônimo de mais um período de tempo que se passou.

Os ambientes apresentados ao leitor são as várias cidades e vilas que o trem da Companhia Ferroviária Nacional percorre. Como Fio Jasmim é maquinista do trem Vale Azul, é atribuição de seu trabalho realizar Viagens entre as cidades para transporte de mercadorias. Dessa forma, os leitores também são conduzidos a todos os destinos do protagonista.

Todos esses espaços físicos são mais do que simples cenários; eles são parte integrante da identidade dos personagens e influenciam suas vidas de maneira profunda. Cada cidade visitada por Fio Jasmim representa um microcosmo da sociedade brasileira, com seus valores, seus conflitos e suas contradições. Dessa forma, Vale dos Laranjais, Alma das Flores, Vila Azul, Remanso Velho, Ardência Antiga, Águas Infindas e Chegada Feliz ajudam a moldar a personalidade de cada uma das mulheres, o que se reflete, também, no relacionamento que possuem com Fio, como já analisado anteriormente.

No conjunto, tempo e espaço em Canção para ninar menino grande são usados para criar uma narrativa complexa, que oferece uma visão profunda das experiências e dos desafios enfrentados pelas mulheres plurais e, quase sempre, afro-brasileiras. Portanto, a construção do tempo e do espaço, na obra, contribui para a criação de uma atmosfera densa e significativa, que envolve o leitor e o convida a refletir sobre questões sociais, culturais e existenciais.

 

 





INTRODUÇÃO À OBRA: CANÇÃO DE NINAR MENINO GRANDE (2)

  QUESTÃO 1 No contexto da obra de Conceição Evaristo, o título Canção para ninar menino grande é profundamente simbólico. Qual das alterna...