19 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A VIDA NÃO É ÚTIL (2)

 



QUESTÃO 01

Leia o texto para responder.

Quando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleia, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade – que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições –, foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos os que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade – alguns de nós fazemos parte dela.

KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 9-10. 

a) Em seu texto, Krenak manifesta concordância com o conceito de Homo sapiens. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.

b) A concepção de progresso apresentada pelo autor possui valor positivo ou negativo? Justifique sua resposta.

 

QUESTÃO 02

Leia o trecho a seguir de A vida não é útil e responda aos itens.

[...] O meu povo, assim como outros parentes, tem essa tradição de suspender o céu. Quando ele fica muito perto da terra, há um tipo de humanidade que, por suas experiências culturais, sente essa pressão. Ela é sazonal, aqui nos trópicos essa proximidade se dá na entrada da primavera. Então é preciso dançar e cantar para suspendê-lo, para que as mudanças referentes à saúde da Terra e de todos os seres aconteçam nessa passagem. Quando fazemos o taru ande, esse ritual, é a comunhão com a teia da vida que nos dá potência.

Suspender o céu é ampliar os horizontes de todos, não só dos humanos. Trata-se de uma memória, uma herança cultural do tempo em que nossos ancestrais estavam tão harmonizados com o ritmo da natureza que só precisavam trabalhar algumas horas do dia para proverem tudo que era preciso para viver. Em todo o resto do tempo você podia cantar, dançar, sonhar: o cotidiano era uma extensão do sonho.

KRENAK, Ailton. Sonhos para adiar o fim do mundo. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 45-46.

 

a) No contexto da cultura indígena, qual é o efeito da “suspensão do céu” para a relação do homem com a natureza?

b) Com base nessa concepção, o que provocaria a impressão oposta, a de que o céu estaria “muito perto da terra”?

 

- Texto para a questão 3 -

O que há para ser celebrado no fato de que podemos falar numa live para 3 mil ou 4 mil pessoas por um aparelhinho que é produto de uma civilização que está comendo a Terra para fazer brinquedos? Só que a Terra é um organismo muito maior que nós, muito mais sábio e poderoso, e nós, seu brinquedo mais inútil. A Terra pode nos desligar tirando nosso ar, não precisa nem fazer barulho.

KRENAK, Ailton. A máquina de fazer coisas. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 59-60.

 

QUESTÃO 03

Responda, com base na leitura do texto:

a) De acordo com as concepções expressas pelo autor no livro do qual foi extraído o trecho, que sentido adquire a expressão “brinquedos”, aplicada aos produtos da civilização?

b) Com base nessas mesmas concepções, o que explica a forma como o narrador se refere ao ser humano, considerado por ele o “brinquedo mais inútil” da Terra?

 

QUESTÃO 04

Usando suas próprias palavras, explique a distinção feita pelo autor no trecho a seguir.

[...] Existe, então, uma humanidade que integra um clube seleto que não aceita novos sócios. E uma camada mais rústica e orgânica, uma sub-humanidade, que fica agarrada na Terra. Eu não me sinto parte dessa humanidade. Eu me sinto excluído dela.

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 82. 

 

- Texto para a questão 5 -

Durante milhares de anos, em diferentes culturas, fomos induzidos a imaginar que os humanos podiam agir impunemente sobre o planeta e fomos reduzindo esse organismo maravilhoso a uma esfera composta de elementos que constituem o que chamamos de natureza – essa abstração.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 100.

 

QUESTÃO 05

Com base na leitura dos textos recolhidos em A vida não é útil, explique o que leva o autor a considerar a natureza uma “abstração”.

 

QUESTÃO 06

Leia com atenção e responda aos itens.

[...] a concentração de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar, sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo.

KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 14.

 

a) A expressão “santo graal” alude à imagem mística de um cálice no qual teria sido recolhido o sangue de Cristo, após a crucificação, e que teria a capacidade de promover milagres. Que sentido essa expressão assume no texto?

b) A que se refere o autor no trecho “quando diminuímos o ritmo”? E quem compõe a “casta de humanoides” citada por ele? Como essas duas expressões se relacionam ao sentido geral do texto “Não se come dinheiro”? 

 

- Texto para a questão 7 -

Alguns povos têm um entendimento de que nossos corpos estão relacionados com tudo o que é vida, que os ciclos da Terra são também os ciclos dos nossos corpos. Observamos a terra, o céu e sentimos que não estamos dissociados dos outros seres.

KRENAK, Ailton. Sonhos para adiar o fim do mundo. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 45.

 

QUESTÃO 07

O trecho participa da concepção geral dos textos de A vida é útil, na medida em que:

a) a cultura indígena serve de antídoto para os males da civilização, razão pela qual os povos primitivos devem se manter em estado pré-civilizacional.

b) cabe ao ser humano que vive nas florestas o controle da atividade econômica, para que esta possa servir aos reais interesses da coletividade.

c) a concepção de uma integração entre homem e natureza evidencia que a destruição do planeta é também a autodestruição do homem.

d) afirma a necessidade urgente de uma mudança no conceito de “utilidade”, que envolva o aproveitamento racional e otimizado dos recursos naturais. 

 

QUESTÃO 08

A ciência avançou tanto que as pessoas acham que não precisam mais morrer. Continuamos usando todos os artifícios da tecnologia, da ciência, para endossar a fantasia de que todo mundo vai ter comida, todo mundo vai ter geladeira, todo mundo vai ter leito hospitalar e todo mundo vai morrer mais tarde. Isso é uma falsificação da vida. A ciência e a tecnologia acham que a humanidade não só pode incidir impunemente sobre o planeta como será a última espécie sobrevivente e a única a decolar daqui quando tudo for pelo ralo.

Ailton Krenak. A vida não é útil, 2020. Adaptado.

A situação criticada pelo filósofo e líder indígena Ailton Krenak é fruto de uma visão de mundo decorrente do pensamento moderno, qual seja,

a) o mecanicismo cartesiano.

b) o idealismo hegeliano.

c) o transcendentalismo kantiano.

d) o jusnaturalismo lockiano.

e) o existencialismo sartriano.

 

- Texto para a questão 9 -

Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade e nos alienamos desse organismo de que somos parte, a Terra, passando a pensar que ele é uma coisa e nós, outra, a Terra e a humanidade.

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 83.

 

QUESTÃO 09

Levando em conta os textos presentes em A vida não é útil, é correto afirmar que o trecho expressa um conceito geral:

a) que o autor elabora de forma aprofundada, ao conceber a alienação entre homem e realidade social.

b) desprezado pelo autor, que propõe uma distinção entre os indígenas e outras comunidades.

c) que o autor atribui a crenças ancestrais, transmitidas como verdades desde a infância dos indígenas.

d) do qual discorda o autor, na medida em que defende outra relação do homem com seu entorno.

 

- Texto para a questão 10 -

[...] Aquela orientação de pisar suavemente na terra de forma que, pouco depois de nossa passagem, não seja mais possível rastrear nossas pegadas está se tornando impossível: nossas marcas estão ficando cada vez mais profundas.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 95-96.

 

QUESTÃO 10

De acordo com a afirmação do autor, que atitudes definiriam o “pisar suavemente na terra” e o pisar que deixa marcas “cada vez mais profundas”?

 

 

 

 

1.

a) Não. A expressão Homo sapiens designa o homem moderno; ao pé da letra, o termo significa “homem que pensa”. Para Krenak, não há sabedoria na prática humana de extermínio dos seres à sua volta. O autor afirma que o ser humano é, na verdade, uma “ameba gigante”, isto é, um ser desprovido de vida racional.

b) A concepção de progresso apresentada no trecho é negativa, na medida em que é excludente, isto é, deixa à margem uma parcela considerável da população que não usufrui de seus benefícios.

2. a) A suspensão do céu representa, para os indígenas, o resultado de um esforço – marcado por danças e rituais – no sentido de diminuir a pressão que o céu exerce sobre a Terra. Com essa suspensão, essa pressão é apaziguada e a relação entre homem e natureza volta a ser harmoniosa.

b) A imagem da queda do céu é usada por algumas culturas indígenas para representar o temor de uma pressão muito grande do céu sobre a Terra, correspondente a um período de desarmonia na relação entre homem e natureza, ou seja, um momento de exploração desenfreada das riquezas naturais.

3. a) Para o autor, os produtos elaborados pela civilização resultam de uma atitude de exploração dos recursos naturais, em nome de satisfações superficiais de desejos, suscitados mais por um espírito de consumo do que por reais necessidades humanas. Assim, tais produtos não seriam essenciais para a sobrevivência da espécie, razão pela qual ele os reduz à condição de meros “brinquedos”.

b) Assim como a civilização é responsável pela produção de brinquedos, a Terra é responsável pela criação do homem, que seria, então, seu brinquedo. No entanto, ao desenvolver atividades predatórias, o homem se mostra um brinquedo que não traz nada de efetivamente útil para o planeta.

4. O autor distingue o que chama de “humanidade” do que designa como “sub-humanidade”. A humanidade seria constituída exclusivamente por um “clube seleto” correspondente ao grupo de elites financeiras e políticas do planeta, que “não aceita novos sócios” porque quer manter a concentração de poder em suas mãos. Já a sub-humanidade seria composta por uma parcela “mais rústica e orgânica”, que permaneceria “agarrada na Terra”: seriam aqueles que se ligam mais diretamente à natureza e buscam preservá-la, porque é dela que extraem sua sobrevivência e a ela estão ligados culturalmente, como ocorre, por exemplo, com os povos originários.

5. Em seus textos, Ailton Krenak rejeita a concepção de uma natureza separada do ser humano, como instância exterior a este. Para o autor, homem e natureza formam uma única dimensão, e é isso o que o leva a entender como abstração a existência de uma natureza autônoma.

6. a) No texto, a expressão é usada de forma irônica pelo autor. Ela alude a supostos poderes mágicos que seriam necessários para impedir que a concentração de renda provocasse a implosão da vida no planeta.

b) A diminuição de ritmo da vida cotidiana, a que se refere o trecho, aponta para o período da pandemia de covid-19, que atingiu todo o planeta entre os anos de 2020 e 2023. As medidas de isolamento social, principalmente entre 2020 e 2021, obrigaram uma parte da população mundial a permanecer em casa, o que representou uma desaceleração do ritmo geral da vida. A “casta de humanoides” corresponde à elite financeira do mundo, detentora do controle de grandes corporações financeiras, comerciais e de comunicação. As duas expressões se relacionam diretamente ao sentido geral de “Não se come dinheiro”, na medida em que se trata de um texto que reúne falas do autor produzidas durante a pandemia que dirigem críticas ao comportamento daqueles que só pensam em satisfazer as próprias necessidades de acumulação e de ganho, sem se importar com as consequências dessa prática para o meio ambiente.

7. c

8. a

9. d

10. O pisar suavemente seria definido por uma relação harmoniosa com o meio ambiente, de forma a não esgotar suas riquezas. Já o pisar que deixa marcas “cada vez mais profundas” seria aquele caracterizado pela exploração dessas riquezas de forma desorganizada.




INTRODUÇÃO À OBRA: A VIDA NÃO É ÚTIL (1)



Biografia do autor

Ailton Krenak, escritor que se destaca na luta pela defesa da cultura e da permanência dos povos originários brasileiros. Ailton Krenak nasceu em 1953, às margens do Rio Doce, em Minas Gerais, e tranferiu-se para o estado do Paraná, onde, aos 18 anos de idade, se formou em Jornalismo. Em 4 de setembro de 1987, durante sua participação na Assembleia Nacional Constituinte, proferiu um discurso impactante, enquanto pintava o rosto com um corante extraído do jenipapo. A cor escura contrastava com o terno branco que usava na tribuna. Segue um trecho de seu discurso:

O povo indígena tem um jeito de pensar, tem um jeito de viver. Tem condições fundamentais para sua existência e para a manifestação da sua tradição, da sua vida e da sua cultura que não coloca em risco e nunca colocaram a existência sequer dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais de outros seres humanos. [...].

E hoje nós somos alvo de uma agressão que pretende atingir na essência a nossa fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que ainda é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, que sabe respeitar aqueles que não têm o dinheiro para manter uma campanha incessante de difamação. Que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas. Um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é inimigo dos interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação, e que coloca em risco qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. E os senhores são testemunhas disso. Eu agradeço a presidência desta casa, agradeço os senhores e espero não ter agredido com as minhas palavras os sentimentos dos senhores que se encontram nesta casa.

KRENAK, Ailton. Invocação à Terra. Discurso de Ailton Krenak na Constituinte.

Disponível em: https://selvagemciclo.com.br/2023/wp-content/uploads/

2021/07/CADERNO27_CONSTITUINTE.pdf. Acesso em: 30 jan. 2024.2

 

Em sua fala, Krenak já apontava para as posições que assumiria e defenderia ao longo da vida em sua atuação como palestrante no Brasil e no exterior: a defesa da terra e a busca por respeito pela cultura dos povos originários. Em 1988, ele participou da fundação da União das Nações Indígenas (UNI) e, posteriormente, da Aliança dos Povos da Floresta. Além disso, dedicou-se a inúmeras atividades de divulgação da cultura indígena. Em 2016, recebeu o título de Doutor Honoris Causa (homenagem que se presta a pessoas que se destacam em suas atividades) pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Suas palestras e entrevistas foram reunidas em três livros que contêm o essencial de seu pensamento: Ideias para adiar o fim do mundo (2019), A vida não é útil (2020, ao qual se integra o texto “O amanhã não está à venda”, publicado anteriormente em e-book) e Futuro ancestral (2022) – todos publicados pela Companhia das Letras. 

Contexto histórico

Luto sobre luto

Até alguns anos atrás, o tratamento habitualmente dedicado aos primitivos habitantes do Brasil era generalizado: índios. A denominação é antiga, e, provavelmente, deve ter surgido de alguma confusão dos primeiros invasores europeus, que entenderam ter alcançado terras das Índias orientais. Atualmente, é mais usual o termo indígena, que será adotado neste trabalho. De fato, a definição que o Dicionário Eletrônico Houaiss traz da palavra faz dela um termo mais apropriado: “que ou o que é originário do país, região ou localidade em que se encontra; nativo”. Essa é a situação dos indígenas brasileiros, herdeiros dos habitantes que aqui estavam bem antes de os portugueses avistarem o litoral do território que chamariam de Brasil. Também adotaremos nesta análise a expressão povos originários.

No entanto, é preciso levar em conta o que afirma a escritora e ativista indígena brasileira Cristine Takuá:

Não existem índios, existem Guarani, Pataxó, Krenak, Kaingang, povos diversos. Agora, no dicionário, se você procura a palavra indígena, é o que está dentro de algo, tanto que o contrário de indígena é alienígena, é o que está fora. Então todos somos indígenas se estamos dentro da terra.

TAKUÁ, Cristine. Reflexões de luta e resistências. Revista Campos. Curitiba, UFPR, v. 20, n. 2, p. 105, jul.-dez. 2019.

 

Em outras palavras, embora “indígena” seja uma expressão aceitável, é preciso considerar que ela esconde uma pluralidade de povos, cada um deles com as próprias especificidades culturais. Nesse sentido, é significativo que o nome de Ailton Krenak carregue consigo a sua identidade tribal.

Os Krenak habitam as terras do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Os colonizadores europeus se referiam a eles como botocudos, porque os membros da tribo enfeitavam lábios e orelhas com pequenas peças de madeira chamadas de botoques. No início da colonização, os Krenak enfrentaram o invasor branco com bravura, mas logo se deram conta da superioridade bélica do inimigo. Para compensá-la, agiam com agressividade, fazendo emboscadas, dando preferência por lutas noturnas e ataques pela retaguarda, práticas que valeram a eles a fama de violentos.

Como ocorreu com inúmeras tribos indígenas brasileiras, os Krenak foram vítimas de sucessivas tentativas de redução à servidão, para as quais eram criados reformatórios como a Fazenda Guarani, a poucas horas de Belo Horizonte, que funcionava como verdadeiro “campo de concentração”. O resultado dessas expropriações violentas foi a gradativa redução da área ocupada pela tribo. Dados recolhidos na plataforma Terras Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental, apontam a existência de 343 membros do povo Krenak vivendo em uma área de cerca de 4 mil hectares em Minas Gerais.

A respeito da origem do termo krenak, o próprio autor esclarece, em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo:

O nome krenak é constituído por dois termos: um é a primeira partícula, kre, que significa cabeça, a outra, nak, significa terra. Krenak é a herança que recebemos dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como “cabeça da Terra”, como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem essa profunda comunhão com a terra.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 48.

 

Toda a cultura Krenak é concebida a partir da ligação com o rio Uautu ou Watu – designação deles para o rio Doce. Pode-se considerar que a história do povo Krenak está intimamente ligada a um esforço de defesa dessa terra e da liberdade de se locomover nela, ocupando outros locais e depois retornando ao lugar inicial, como era seu costume. Leia-se, a esse propósito, o depoimento da indígena Maria Julia Krenak:

[...] eles vieram e fomos desapropriados. Eles valorizavam os fazendeiros e nos despacharam para o Guarani. Mas a gente não gostava porque era muito frio, não era igual aqui. Assim, o pessoal ficou triste. Um velho chamado Jacó, morreu. Ficou triste de ficar andando pra lá e pra cá. Depois, voltamos pra cá. Meu pai foi algemado, mas voltou por conta própria. Depois de ganharmos nossas terras, nos apegamos a Deus. Esperamos que isso acabe. Vamos ver se Deus ajuda, porque Deus é o Pai. Eu penso muito na vida, por causa desses meninos, dos nossos filhos e de todos os parentes maltratados e espalhados.

Hoje, estamos aí na luta, queremos reconquistar os nossos direitos, queremos nossa terra de volta, porque a gente não tem tanto espaço quanto os mais velhos tinham para poder caçar e pescar.

KRENAK, Itamar de Souza Ferreira; ALMEIDA, Maria Inês; alunos de Estudos Temáticos de Edição (org.). Uata Hoom. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG; Cipó Voador, 2009. p. 30.

 

Essa ligação com o rio Doce sofreu um rude golpe em 6 de novembro de 2015, com o rompimento da barragem do Fundão, de responsabilidade da mineradora Vale do Rio Doce, que derramou cerca de 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no rio, causando um desastre ambiental e humano sem precedentes, com consequências duradouras em povoações inteiras, incluindo os Krenak. Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak comenta:

[...] O Watu, esse rio que sustentou a nossa vida às margens do rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, numa extensão de seiscentos quilômetros, está todo coberto por um material tóxico que desceu de uma barragem de contenção de resíduos, o que nos deixou órfãos e acompanhando o rio em coma. Faz um ano e meio que esse crime – que não pode ser chamado de acidente – atingiu as nossas vidas de maneira radical, nos colocando na real condição de um mundo que acabou.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 41-42.

 

A visão dramática apresentada pelos Krenak ecoa outras vozes indígenas. Leia-se, por exemplo, este texto de Davi Kopenawa, publicado originalmente em 2010:

A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar de calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xapiri, que descem da montanha para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os malefícios, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 6.

 

No trecho, chama a atenção a expressão “fumaças de epidemia” usada por Kopenawa. Parece premonitório. De fato, em 2020, o mundo conheceria uma epidemia de grandes proporções, causada pelo coronavírus covid-19. Em maio daquele ano, a Assembleia de Resistência Indígena divulgou um texto que expressava as mesmas preocupações que dominavam os textos de Ailton Krenak:

A mãe terra enfrenta dias sombrios. O mundo atravessa sua maior crise social, econômica e política provocada pela pandemia do covid-19 que atinge apenas seres humanos, colocando a humanidade em profunda reflexão e resistência pela preservação da vida. Nós povos indígenas, assim como os brancos também sofremos e somos vitimados por este vírus que já ceifou milhares de vida no planeta.

É hora de refletir sobre o modo de vida que exercemos até os dias atuais, pois as diversas crises ambientais como aquecimento global e o forte desmatamento foram o prenúncio do que estamos vivendo hoje, foram os alertas da mãe terra de que nosso modo de existir necessita ser repensado e por hora nossa solidariedade precisa ser exercida.

ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB). A mãe terra enfrenta dias sombrios. Carta final. Assembleia de Resistência Indígena. 10 maio 2020.

Disponível em: https://apiboficial.org/2020/05/10/carta-final-da-assembleia-de-resiste%cc%82ncia-indigena. Acesso em: 14 dez. 2023.

 

Para Ailton Krenak e seu povo, a pandemia foi vivida como uma tragédia que se sobrepunha a outra, a da devastação de sua própria terra:

Faz algum tempo que nós na aldeia Krenak já estávamos de luto pelo nosso rio Doce. Não imaginava que o mundo nos traria esse outro luto.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 78.

 

O livro

Os textos que fazem parte de A vida não é útil não foram exatamente escritos por Ailton Krenak, mas, sim, reunidos com base em falas, entrevistas e lives realizadas com ele. A seguir, vamos acompanhar a cronologia desses eventos. Após a indicação de cada evento, indicamos, entre parênteses, o título do texto no qual a fala do autor foi aproveitada.

2017

· Novembro: fala de Krenak no evento Plante Rio, no Rio de Janeiro (“Não se come dinheiro”).

2019

· 4/11: entrevista revista Cult (“Não se come dinheiro” e “Sonhos para adiar o fim do mundo”).

2020

· 25/1: entrevista para o jornal Correio (“A máquina de fazer coisas” e “A vida não é útil”).

· 18/3: conversa com o jornal O Lugar (“A vida não é útil”).

· 3/4: entrevista ao jornal Estado de Minas (“O amanhã não está à venda”).

· 6/4: entrevista ao jornal O Globo (“O amanhã não está à venda”).

· 7/4: entrevista ao jornal Expresso, de Lisboa, Portugal (“O amanhã não está à venda”).

· 8/4: live para o site Intercept Brasil (“Não se come dinheiro”).

· 17/4: live com Marcelo Gleiser (“A máquina de fazer coisas”).

· 24/5: live com Sidarta Ribeiro, para o Festival Na Janela, em São Paulo (“Sonhos para adiar o fim do mundo”).

· 6/6: live com Emicida, para o canal GNT (“A máquina de fazer coisas”).

· 9/6: live com os Jornalistas Livres (“A máquina de fazer coisas” e “A vida não é útil”).

 

Os textos reunidos no livro tratam de dois aspectos relacionados, mas de dimensões diferentes. De uma perspectiva mais localizada e imediata, fazem referência ao momento histórico vivido pela humanidade naquele momento, particularmente à pandemia da covid-19. De uma perspectiva mais ampla, trata da crise ambiental e das consequências trágicas da problemática relação que o ser humano vem estabelecendo com a natureza. Para Ailton Krenak, no entanto, esses dois aspectos estão intimamente relacionados, na medida em que é justamente o descaso com o planeta que conduz aos desequilíbrios que produzem as pandemias.

O interesse de Krenak pelo momento presente indica o senso de urgência das reflexões desenvolvidas por ele, explicitado logo no início do texto que dá título ao livro: “Neste momento, estamos sendo desafiados por uma espécie de erosão da vida” (p. 95). Assim, trata-se de se voltar para este momento, mas com a consciência de que essa erosão da vida tem um longo histórico na espécie humana.

A simples enunciação da voz indígena de Krenak já funciona como mecanismo de recusa do silenciamento a que os povos originários vêm sendo relegados ao longo dos séculos. Desde seu discurso na Assembleia Nacional Constituinte, o pensador reafirma a necessidade de dar ouvidos àqueles cujas culturas estão fundadas em relações intrínsecas com a terra. Ailton sabe que não fala de forma isolada. Em paralelo, e atuando no mesmo sentido, muitas outras vozes indígenas se levantam: Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Davi Kopenawa, Lia Minápoty, Graça Graúna, Márcia Wayna Kambeba, Emerson Guarani, Renê Kithãulu, Yaguaré Yamá, Kaka Werá Jecupé, Olívio Jecupé, Julie Dorrico e tantos outros. A eles, se juntam vozes não indígenas, como as de Manuela Carneiro da Cunha, Bruce Albert, Rita Carelli, Betty Mindlin e muitas outras, que compartilham das mesmas preocupações quanto ao futuro e desejam que o usufruto da vida em sua plenitude não seja pautado pelos parâmetros da utilidade, mas pela complexa e insubstituível experiência de viver.

 

Textos

“Não se come dinheiro”

Suspiro de Gaia

Está difícil dormir com tanto fantasma

ao redor

Corpos abandonados em pavilhões

Espíritos de luz projetam raios paralisantes.

A Terra balança levemente os cabelos

devolve no cosmos fagulhas de estrelas.

KRENAK, Ailton. Suspiro de Gaia. Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, p. 83, ago. 2020.

 

Fontes do texto

· Fala no evento Plante Rio, na Fundação Progresso (Rio de Janeiro), em novembro de 2017.

· Entrevista a Amanda Massuela e Bruno Weis (“O tradutor do pensamento mágico”), revista Cult, em 4 nov. 2019.

· Live com Leandro Demori para o site Intercept Brasil, em 8 abr. 2020.

 

Síntese

Na abertura do texto, Ailton Krenak afirma que, ao utilizar o conceito de Homo sapiens, designativo da espécie animal a que pertence o gênero humano, inclui nele ações como a caça esportiva e o extermínio de populações inteiras. Com base nisso, o autor conclui: “somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante” (p. 9). Logo, o texto define mais precisamente a quem se refere a designação: “esse clube exclusivo da humanidade”, que exclui “caiçaras, quilombolas e povos indígenas” (p. 10), relegados à condição de “sub-humanidade” (p. 10). A marginalização desses representantes da espécie é efetuada sob a justificativa do progresso, concebido como a certeza “de que estamos indo para algum lugar” (p. 10).

Para Krenak, a pandemia de coronavírus que atingiu o mundo a partir de 2020 foi “uma manobra fantástica do organismo da Terra” (p. 10), que, assim, desafiou a humanidade a respirar – referência ao fato de o vírus prejudicar sobretudo o aparelho respiratório. O episódio lembrou a todos a fragilidade da espécie humana e sua irresponsável arrogância de acreditar-se capaz de controlar todo o universo ao redor. O homem produz aparatos tecnológicos avançados, mas, no final das contas, depende do simples ato de respirar para sobreviver. O autor exemplifica esse dado com uma referência à economia: embora todos acreditem que “se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos” (p. 12), a verdade é que, se os dirigentes de instituições bancárias fossem trancafiados em um cofre com todo o dinheiro à disposição, morreriam de fome, porque – como lembra o título do texto – “ninguém come dinheiro”  (p. 12). O desenvolvimento tecnológico que degrada a natureza enriquece apenas um punhado de pessoas, que parecem se esquecer de que, sem essa natureza, não haverá o que comer – e essas pessoas não poderão se alimentar de seu dinheiro. Esse punhado de gente necessita de uma humanidade inteira para aterrorizar todos os dias, com ameaças de dissolução dos mercados e de queda nas bolsas de valores do mundo. Mas, se não houver alimento, quem se importará com essas questões financeiras? E, se ninguém se importar, a quem eles aterrorizarão? Alguns deles se dedicam a planejar a construção de estações em outros planetas, em que eles possam viver depois que destruírem o nosso. Krenak supõe que talvez seja melhor deixar que partam para essas estações, porque, desse modo, talvez este planeta possa ser finalmente salvo.

Essa elite financeira mundial determina a condução das políticas nacionais, na medida em que controlam as grandes corporações que, nos tempos atuais, constituem os verdadeiros mecanismos de governança dos países. Contudo, se houver uma saturação dos recursos naturais do planeta, todos sofrerão as consequências: “Um cara que tem trezentos bilhões e eu e você vamos ficar todos na mesma” (p. 16). Mesmo que essas pessoas se instalem em centros de sobrevivência que venham a construir, a verdade é que não poderão se isolar do restante do mundo, porque, para funcionar, tais centros vão requerer uma energia, que também poderá entrar em colapso e ser desligada. Dessa perspectiva, essa elite terá que experimentar “certa igualdade no risco” (p. 17) a que todos estamos expostos com a destruição dos recursos naturais.

A exploração desses recursos é produzida a partir de um vício: o da modernidade. Ela nos faz consumir bens materiais, supostamente capazes de funcionar como extensões de nossos próprios corpos. O consumismo tem o efeito de nos desconectar “do organismo vivo da Terra” (p. 18). Muitos dos que defendem esse consumismo como parte da modernidade – inclusive cientistas – não creem na ideia de que a Terra é um organismo inteligente. Mas a própria realidade trata de confirmar essa hipótese: crises climáticas, por exemplo, são respostas do organismo Terra às agressões que sofre continuamente.

Krenak se coloca entre aqueles que não se identificam com as grandes corporações e as elites financeiras. Para ele, seja vivendo em florestas ou em apartamentos, “precisamos despertar nosso poder interior” (p. 20) e cuidar com atenção de tudo o que consumimos. Alimentos ultraprocessados devem ser substituídos por um consumo mais saudável: cada um deveria cuidar do que planta, para saber exatamente o que come. Iniciativas nesse sentido já estão em andamento, com as hortas domésticas, a agroecologia e a permacultura, formas de cultivo que levam em conta a sustentabilidade e o potencial do meio ambiente. Krenak designa aqueles que se dedicam a essas estratégias como “agentes da micropolítica” (p. 21) e vê nessas iniciativas um grande potencial no sentido de trazer a floresta para a cidade.

Existem desafios que precisam ser vencidos. Um deles é a resistência do agronegócio, que, para Krenak, deve ficar com a conta da degradação planetária (cf. p. 23). Outro desafio é enfrentar a atividade de mineradoras, que continuam a degradar a terra. Mesmo durante a pandemia, quando o mundo inteiro parou, os trens dessas mineradoras continuaram a trafegar febrilmente. Contra essa sanha exploratória, Krenak propõe que olhemos “para o nosso ser interior” (p. 24). Na defesa dessa estratégia, toma como inspiração o poema “O homem, as viagens”, de Carlos Drummond de Andrade (do livro As impurezas do branco, de 1973), e as canções de Milton Nascimento. Drummond e Milton se referem à degradação da natureza em seu local de origem, Minas Gerais – o mesmo de Krenak. Esse lugar sofreu e continua a sofrer a ação deletéria de companhias mineradoras que representam, de modo muito vivo, a degradação do meio ambiente provocada na busca desenfreada pelo lucro.

O texto termina com a reafirmação da ação do organismo vivo da Terra, que se realiza sempre no sentido da vida, caminho esse que pode representar uma alternativa de sobrevivência para todos.

 

Referências

· Wakya Un Manee (Vernon Foster): uma das grandes lideranças indígenas atuais nos Estados Unidos, em atividade desde 1968. Atua como curandeiro e auxilia no desenvolvimento de programas culturais e educacionais.

· 2001, uma odisseia no espaço: longa-metragem de 1968, dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999). Durante uma missão tripulada, os computadores de uma nave espacial começam a se comportar de maneira estranha, assumindo vontade própria e colocando em risco a vida dos astronautas. O filme chama a atenção pela estética ousada, distante da realidade narrativa, com cenas longas e diálogos escassos. Ganhou fama também a trilha sonora com composições de autores clássicos, como Richard Strauss.

· James Lovelock (1919-2022): cientista e ambientalista britânico que desenvolveu a “hipótese de Gaia”, de acordo com a qual os organismos vivos se relacionam com o ambiente inorgânico onde vivem de forma a constituir um sistema autorregulado, com funcionamento semelhante ao de um único organismo vivo.

· Thomas Lovejoy (1941-2021): ambientalista e biólogo estadunidense que se dedicou a estudos sobre a conservação de recursos naturais, incluindo pesquisas sobre a Floresta Amazônica. Lovejoy cunhou o termo “biodiversidade” para se referir à riqueza e à variedade do mundo animal.

· Antonio Nobre (1958-): cientista brasileiro, divulgador da Teoria de Gaia e defensor de estratégias de restauração e preservação da Amazônia.

· Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): considerado um dos maiores nomes da poesia brasileira, sua obra tem um amplo leque temático, no qual se incluem referências à destruição ambiental, notadamente em sua terra natal, Itabira (MG), onde a exploração do minério de ferro trouxe danos ambientais dos quais o poeta já tratava desde os anos 1940.

· Milton Nascimento (1942-): cantor e compositor brasileiro com muitas obras voltadas para a celebração de Minas Gerais.

 

Comentários

O tema fundamental do texto é expresso com clareza pelo autor: “Parece que a ideia de concentração de riqueza chegou a um clímax” (p. 15). Com base nessa constatação, ele busca desenvolver as consequências de tal situação de desigualdade. A primeira delas diz respeito à governança. Segundo o autor, em períodos históricos anteriores, as críticas a respeito da administração pública deveriam ser dirigidas a setores do governo claramente identificados. Contudo, nos tempos atuais, grandes corporações assumiram o controle político, constituindo-se nos verdadeiros centros de decisão sobre a vida no e do planeta. Uma das matrizes dessa concepção pode ter vindo do geógrafo brasileiro Milton Santos, que afirma, em seu livro Por uma outra globalização:

A política agora é feita no mercado. Só que esse mercado globalizado não existe como ator, mas como uma ideologia, um símbolo. Os atores são as empresas globais, que não têm preocupações éticas, nem finalísticas. [...]

[...] mediante o discurso oficial, tais empresas são apresentadas como salvadoras dos lugares e são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e modernidade. Daí a crença de sua indispensabilidade, fator da presente guerra entre lugares e, em muitos casos, de sua atitude de chantagem frente ao poder público, ameaçando ir embora quando não atendidas em seus reclamos. Assim, o poder público passa a ser subordinado, compelido, arrastado.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal. 14. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 67-68.

De acordo com esse pensamento, os governos atuariam em defesa dos interesses dessas grandes empresas, que, na verdade, seriam as verdadeiras dirigentes da vida nacional. Nesse sentido, os interesses particulares dessas empresas apareceriam como políticas de interesse público.

Voltando ao texto de Krenak, a segunda consequência daquela concentração está diretamente ligada à primeira. Assumindo a governança, as grandes empresas seguem seus próprios interesses, tomando decisões que visam atendê-los, sem nenhuma preocupação com os desdobramentos que tais decisões possam ter em populações inteiras. O autor exemplifica com um caso próximo dele: “O lugar onde estou é chamado de Quadrilátero Ferrífero. É de um mau gosto enorme dar um nome desses para um lugar. O que ele quer dizer? Que estamos ferrados. Duas barragens, uma em Mariana e outra em Brumadinho, derramaram ferro em cima da gente” (p. 27). Krenak se refere, aqui, aos episódios de rompimento das barragens do Fundão, na cidade de Mariana, em 5 de novembro de 2015, e do Córrego do Feijão, em Brumadinho, ocorrido em 25 de janeiro de

2019. As duas localidades se situam no estado de Minas Gerais, onde ele reside. Os eventos provocaram a morte de centenas de pessoas e tiveram consequências ambientais de grandes proporções. Assim, a busca pelo lucro, que é a base do funcionamento das empresas capitalistas, acaba por trazer prejuízos inestimáveis a populações inteiras. Elas deveriam estar protegidas pelo poder público, mas, como tenta demonstrar o autor, esse poder está nas mãos dessas mesmas empresas.

A terceira consequência também surge como desdobramento das anteriores. O funcionamento de empreendimentos que degradam o meio ambiente tem como justificativa a produção de bens de consumo que atendam aos anseios de uma parcela da humanidade. O autor designa essa parcela de “clube exclusivo da humanidade” (p. 10), acusando-a de devastar “tudo ao seu redor” (p. 10). Nesse caminho de consumo, essa humanidade relega à condição de “sub-humanidade” (p. 10) todo um contingente variado, que recusa o modelo de progresso proposto: “Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho” (p. 10).

Toda a situação descrita por Krenak se agrava no contexto em que se encontravam as questões que fundamentam o texto: a pandemia de coronavírus, que, em 2020, estava no seu auge. Logo no início do texto, o autor se refere a “esse vírus que está aí agora” (p. 10). A pergunta que se coloca é: como se comporta uma humanidade dividida por suas desigualdades em um contexto pandêmico? Para ele, a condição da elite, da “humanidade”, que se distingue da “sub-humanidade”, perde sentido, na medida em que “tenha que experimentar uma certa igualdade no risco” (p. 17). Isto é: a concepção de elite não faz sentido quando toda a humanidade está ameaçada. Dessa forma, o leitor é conduzido para a proposição que dá título ao texto: de posse de todo o dinheiro que acumulou, o que a elite mundial poderá fazer quando a ação desenfreada das grandes corporações tiver degradado o ambiente a ponto de eliminar o alimento do mundo? Deverá essa elite comer o dinheiro que acumulou?

A capacidade de agir e transformar o meio ambiente conferiu à humanidade uma posição de suposta superioridade, o que conduziu à arrogância de acreditar-se dona do planeta. Na pandemia, um simples e aparentemente insignificante vírus foi capaz de destruir esse poder ao desafiar: “‘Respirem agora, quero ver’” (p. 10-11). A equação é essa: a degradação das riquezas naturais do planeta fundamentou o progresso da humanidade, que, assim, consolidou uma posição de controle sobre esse planeta; no entanto, um vírus desmascarou essa posição de mando, ao expor o homem a uma situação de fragilidade.

Como reagir a essa situação, que parece calamitosa? Krenak aponta para algumas iniciativas: “A agrofloresta e a permacultura mostram aos povos da floresta que existem pessoas nas cidades viabilizando novas alianças, sem aquela ideia de campo de um lado e cidade do outro” (p. 22). A agrofloresta é um sistema de plantio sustentável, capaz de recuperar a vegetação e a vida do solo. A permacultura corresponde a um planejamento de culturas agrícolas de forma a desenvolver uma prática sustentável. São práticas naturais para os povos da floresta citados por Krenak, mas que só recentemente começaram a encontrar eco nos moradores dos centros urbanos.

Na conclusão do texto, Krenak revela: “quando tudo está entrando em parafuso, você tem que ter alguém pra chamar – eu chamo Drummond” (p. 24), referindo-se ao poema “O homem, as viagens”, no qual o poeta mineiro propõe que, depois de colonizar outros

planetas, talvez reste ao ser humano colonizar-se a si mesmo, civilizando-se e humanizando-se. Em seguida, Krenak se refere ao compositor Milton Nascimento, que também canta a destruição das matas e das montanhas de Minas. Assim, criando uma comunidade de atitudes e de ativistas, Krenak imagina que se possa construir uma humanidade capaz de se alimentar de vida, e não de dinheiro.

 

“Sonhos para adiar o fim do mundo”

Identidade indígena

Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!

Mas caio da vida e da morte

E range o armamento contra nós.

Mas enquanto eu tiver o coração aceso

Não morre a indígena em mim

E nem tampouco o compromisso que assumi

Perante os mortos

De caminhar com minha gente passo a passo

E firme, em direção ao sol.

Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro

Carrego o peso da família espoliada

Desacreditada, humilhada

Sem forma, sem brilho, sem fama.

POTIGUARA, Eliane. Identidade indígena. Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, p. 110, ago. 2020.

 

Fontes do texto

· Entrevista a Amanda Massuela e Bruno Weis (“O tradutor do pensamento mágico”), revista Cult, 4 nov. 2019.

· Live com Sidarta Ribeiro, no Festival Na Janela, promovido pela editora Companhia das Letras, em 24 maio 2020.

 

Síntese

O texto inicia pela configuração (já referida no texto anterior) do que seja a “humanidade. Ailton Krenak começa seu raciocínio, nesse caso, pela inclusão dos antepassados humanos dos tempos das cavernas, perguntando-se quais seriam as conexões estabelecidas entre nós e eles que permitem que todos sejam inseridos em um mesmo conceito de humanidade. Citando o estudioso Sidarta Ribeiro, Krenak faz referência à tese de acordo com a qual as pinturas rupestres não seriam necessariamente registros do cotidiano, mas sonhos transportados para as paredes das cavernas. Por essa via, o autor entra no assunto principal do presente texto: o sonho. As imagens das pinturas das cavernas podem corresponder ao entorno dos homens pré-históricos; sendo assim, as imagens dos sonhos atuais devem igualmente refletir o entorno – e, se o fazem, seguramente trazem pesadelos sobre a degradação do meio ambiente. A esse propósito, o autor recorda um pajé da tribo Xavante, que, 40 anos antes, reuniu alguns jovens apadrinhados por ele, entre os quais figurava o próprio Krenak, para lhes contar um sonho no qual o espírito da caça manifestava sua fúria contra o pajé, que não estaria cuidando adequadamente dos espíritos dos bichos, deixando os animais sob os ataques dos homens brancos. Se esse projeto de extermínio fosse continuado, “a terra ficaria desolada” (p. 35) e faltaria alimento para todos. O autor revela ter ouvido o mesmo aviso de outros pajés e confessa que, com o tempo, ele próprio começou a sentir os mesmos temores, ao assistir à invasão da floresta por máquinas, como tratores e motosserras, trazidas pelo branco. Os rios começaram a manifestar a Krenak a sua indignação. As profecias daquele antigo pajé se tornaram realidade com o avanço do agronegócio sobre as terras indígenas.

Krenak considera ainda a esfera mais íntima do sonho, aquela que não diz respeito diretamente ao entorno de uma coletividade, mas ao ambiente mais próximo do sonhador. Os sonhos desse tipo distanciam-se dos anteriores – que podem ser contados em praça pública – porque são revelados apenas às pessoas mais próximas. Nesse sentido, o autor considera que o relato dos sonhos funciona como uma “veiculação de afetos”, um vínculo entre o sonhador e aqueles que o ouvem, uma forma de trazer o universo onírico para a vida real. Para Krenak, esse tipo de relação reforça a “experiência de uma consciência coletiva” (p. 39). Ele garante que traz essa experiência consigo quando é convidado para uma viagem, buscando sempre compartilhá-la com seus ouvintes. Trata-se, segundo diz, de um comportamento próprio da cultura indígena. Assim, todos os indígenas que, como ele, saem pelo mundo para falar, para discursar, para transmitir sua cultura, levam consigo o espírito de todos aqueles que fazem parte dessa mesma cultura.

No entanto, Krenak leva em conta a pluralidade dessa cultura, afirmando, por exemplo, que povos caçadores sonham de forma diferente de povos agricultores. A esse propósito, ele se recorda de uma “história antiga do povo Krenak” (p. 40), em que Deus resolve voltar à terra onde havia deixado os seres humanos que havia criado, mas decide assumir a forma de um tamanduá. Nessa condição, é avistado e apreendido por caçadores, que pretendem comê-lo. Contudo, duas crianças que observavam a cena conseguem evitar que isso aconteça. Deus se mostra a elas, que o auxiliam em sua fuga. Na despedida, as crianças lhe perguntam o que ele achava do povo que havia criado. A resposta tem algo de tragicômico: “Mais ou menos” (p. 41). A história revela a precariedade que os Krenak atribuem à espécie humana, considerada por eles propensa a falhas. Para eles, a humanidade não ocupa uma posição de destaque no planeta; pelo contrário, ela convive com os outros seres vivos em condições de igualdade, razão pela qual seu povo “se filia ao rio, à pedra, às plantas e a outros seres com quem temos afinidade” (p. 42). Nesse ponto, o autor retoma a reflexão inicial, em torno da configuração da humanidade, concluindo que “nós não somos a humanidade que pensamos ser” (p. 42), ou seja, se imaginamos que dominamos o meio, que somos senhores dele, concluímos que temos algo que nos torna especial. Se isso fosse verdade, pondera o autor, não estaríamos hoje discutindo a “destruição da base da vida no planeta” (p. 42). A indiferença com que os homens tratam a destruição do meio e a morte dos próprios homens mostra que não há nada de louvável ou de extraordinário na espécie humana.

Krenak afirma que o século XX explicitou essa relação nociva do homem com seu meio. O número de pessoas que se preocupam com a degradação do ambiente é pequeno, se comparado ao acúmulo de ações humanas no sentido de uma iminente destruição planetária. Krenak dá nome a essa destruição: “Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável” (p. 44). A experiência coletiva da epidemia de covid-19 pode ser entendida como um ponto de mutação. Se, após ela, ocorrer a retomada do mesmo comportamento, isso poderá ser visto como uma crise, um erro. Por outro lado, se o episódio servir como lição, ele poderá ser visto não como crise, mas como um momento de transformação, de reconstrução do “sonho coletivo de mundo” (p. 44). Se conseguirmos remodelar nossa bagagem existencial e preenchê-la com atitudes distintas das tomadas até aqui, teremos pela frente um mundo novo, e a perplexidade que ele poderá nos causar será como aquela referida por Caetano Veloso na canção “Um índio”: surpreenderá pelo óbvio.

Para o autor, essa revelação que pode ser surpreendente será óbvia porque uma nova relação com a biosfera passa por uma nova consciência de nós mesmos e dos nossos próprios corpos. Nesse ponto, Krenak cita os povos que acreditam que o ciclo vital do homem mantém íntima relação com os ciclos da natureza, de tal forma que “sentimos que não estamos dissociados dos outros seres” que habitam o planeta (p. 45). O autor conta que os Krenak têm “essa tradição de suspender o céu” (p. 45): quando o céu está muito perto da terra, é preciso proceder ao ritual do taru ande, constituído por cantos e danças que visam suspendê-lo, para reestabelecer o equilíbrio entre céu e terra. O autor explica o sentido desse gesto de “suspender o céu”: trata-se do resgate do tempo em que se tinha consciência de que era preciso trabalhar apenas algumas horas por dia, que seria o tempo necessário para prover a subsistência. O resto do tempo era dedicado a “cantar, dançar, sonhar” (p. 46) – o que fazia com que o cotidiano fosse “uma extensão do sonho” (p. 46) e os contratos estabelecidos nos sonhos continuassem a vigorar no tempo da vigília. Para realizar esse sonho, teremos que reconfigurar nossos corpos e nossas relações com o mundo. Se conseguirmos isso, conclui o autor, “isso que estamos vivendo hoje não será apenas uma crise, mas uma esperança fantástica, promissora” (p. 47).

 

Referências

· Sidarta Ribeiro (1971-): neurocientista e biólogo brasileiro com atuação em diversas áreas, destacando-se nas pesquisas em torno dos efeitos cognitivos dos sonhos sobre o comportamento humano, expostas no livro O oráculo da noite, de 2019.

· “Um índio”: canção de Caetano Veloso (1942-) presente no álbum Bicho, de 1977. A letra da canção profetiza a chegada de um indígena portador de conceitos que sempre estiveram diante de todos, mas despercebidos: “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos / Surpreenderá a todos não por ser exótico / Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto / Quando terá sido o óbvio”. Esse trecho é citado por Krenak.

 

Comentários

O ponto de partida do texto de Krenak pode ser sintetizado em uma frase: “Essa noção de que a humanidade é predestinada é bobagem” (p. 41). A concepção de predestinação supõe algum tipo de privilégio de que gozaria o ser humano, em virtude de sua inteligência e sua capacidade inventiva. Tais condições funcionariam como uma espécie de aval para que a humanidade explorasse o planeta de forma predatória, submetendo-o a seus caprichos e suas necessidades. Para Krenak, a dissociação entre a vida humana e a natureza atingiu um grau tão profundo que impõe uma radical mudança de comportamento: “Nós podemos habitar este planeta, mas deverá ser de outro jeito” (p. 44).

Uma sugestão de como encontrar esse caminho alternativo está nas orientações dadas pelos sonhos. Krenak cita o neurocientista Sidarta Ribeiro, que, em sua obra O oráculo da noite, em que estuda os sonhos, afirma que “as cenas de caça nas pinturas rupestres podem não estar registrando apenas atividades cotidianas, mas falando de sonhos” (p. 34), ou seja, os homens das cavernas registrariam ali os sonhos que os acometiam a partir do próprio entorno. Esse é o tipo de sonho a que se refere Krenak: aqueles nas quais os sonhadores “se apropriam de recursos para dar conta de si e do seu entorno” (p. 34). Trata-se do sonho que “prepara as pessoas para se relacionarem com o cotidiano” (p. 37). Como se vê, não se trata de conceber o sonho como mecanismo de fuga, mas, sim, como enfrentamento da realidade, uma instituição que permite o conhecimento do mundo. Note-se, a propósito, o quanto esse tipo de estratégia de aquisição de saberes se distancia da consagrada pela cultura branca, ocidental e colonizadora. Na cultura indígena, essa aquisição pode se dar pela via dos sonhos, nos quais verdades universais seriam reveladas e apreendidas pelos seres humanos.

Entre aqueles que permitem o acesso a essas revelações, está o pajé, entidade espiritual de grande importância nos agrupamentos indígenas. Desde os tempos da colonização do Brasil, a imagem do pajé foi alvo de preconceitos e equívocos: representando a religiosidade que os jesuítas tentavam substituir, foi associado a figuras demoníacas. No entanto, para os povos originários, ele evoca a ancestralidade. Conforme já visto, o texto de Krenak traz um exemplo disso no episódio de sua infância em que um “pajé Xavante” (p. 35) relatou um sonho no qual o “espírito da caça” aparecia para lhe repreender por não estar cuidando adequadamente dos “espíritos dos bichos”, que estavam sendo predados pelos homens brancos. Depois de se referir ao sonho do pajé, Krenak comenta: “Na visão daquele pajé, que os jovens foram convocados a partilhar, a terra ficaria desolada” (p. 35). Como o próprio autor constataria, as previsões do velho indígena logo se mostrariam certeiras. A voz do sonho falara a verdade e o autor entende que “o jeito de observar e pensar” (p. 35) dos povos indígenas “poderia abrir uma fresta de entendimento nesse entorno que é o mundo do conhecimento  (p. 35-36), pois eles têm todas as condições para assumir o protagonismo nas discussões em torno da defesa da terra.

 

“A máquina de fazer coisas”

O plano deles era nos arrancar

Nos engolir e integrar

Apagar nossa memória

Mas nenhum vínculo

É tão forte quanto o dos encantados

A ancestralidade

Nos guia de volta

NUNES, Jamille. Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, p. 106, ago. 2020.

 

Fontes do texto

· Entrevista a Fernanda Santana, “Vida sustentável é vaidade pessoal”, Correio, 25 jan. 2020.

· Live “Conversa selvagem” com Marcelo Gleiser, em 17 abr. 2020.

· Live com Emicida para o canal GNT na semana no meio ambiente, em 6 jun. 2020.

· Live com os Jornalistas Livres, em 9 jun. 2020.

 

Síntese

Ailton Krenak começa se referindo às narrativas indígenas (e de outras culturas) que tratam da origem da vida. Segundo essas narrativas, os homens se originaram de diferentes fontes: “tem gente que era peixe, tem gente que era árvore” (p. 51). Um resquício dessa concepção primitiva pode ser verificado na ideia de que a imagem de um povo como “‘nação que fica de pé’” (p. 52) alude às árvores de uma floresta. Essa ideia é explorada pelo autor para refletir sobre a identificação que existe entre os homens e os entes da natureza.

O autor considera que a certeza dessa identificação já se espalhou, conquistando muitas pessoas para a causa da defesa das florestas, envolvendo até mesmo instituições poderosas como o Banco Mundial. No entanto, Krenak ressalva que tais iniciativas não conseguiram frear o problema do desmatamento. Atitudes individuais, ou restritas a ambientes e campos de atuação específicos, não são suficientes para evitar um movimento que possui caráter global. Por outro lado, ele considera que a capacidade humana de realizar uma ação mais coletiva e eficaz ficou demonstrada durante a pandemia de covid-19, na qual todos – “salvo alguns excêntricos” (p. 54) – obedeceram ao comando de distanciamento social. Krenak considera que, se conseguimos realizar essa ação, somos igualmente capazes de nos unirmos para interromper a destruição de rios e de florestas.

Ao se referir à postura generalizada de desprezo pelo meio ambiente, o autor se questiona, com ironia, se a espécie humana não teria vindo de outro planeta, com valores distintos daqueles que fundamentam a vida dos seres da floresta. O texto associa a postura de desinteresse pela vida do planeta ao apego dos seres humanos por técnicas que lhes permitam “atuar sobre a terra, sobre a água, sobre o vento, sobre o fogo” (p. 56), superando a crença antiga de que fenômenos da natureza eram ações de um “poder sobrenatural” (p. 56). Krenak considera que esse tipo de poder não existe, mas apenas o poder natural, isto é, ligado à natureza, e do qual participamos todos. A natureza tem um poder imenso, e, se os indivíduos continuarem o processo de destruição do planeta, o que conseguirão destruir será a própria existência, porque o planeta continuará a existir. Por isso, os homens precisam se desfazer da crença de que podem atuar com superioridade sobre a natureza e tomar consciência da conexão que têm com ela e o com o compromisso de sua preservação.

Distanciando-se dessa conexão, os homens se dedicam a produzir artefatos tecnológicos dos quais se orgulham, tratando-os como manifestação suprema da inteligência e da racionalidade. Essa postura é criticada pelo autor, para quem o maior avanço tecnológico foi o que permitiu enviar homens ao espaço. Trata-se de um recurso extremamente caro, que pode ser usufruído por poucos – como os milionários que tentam produzir suas próprias máquinas de viagem espacial. A tecnologia que permite a estruturação de uma live (como aquelas dos quais o próprio autor participa) também pode impressionar por sua eficácia, mas, na verdade, não é evidência de uma superioridade do homem sobre o planeta, porque, afinal, se a espécie humana usa a sua inteligência para poluir o ambiente, a Terra pode ficar sem o fornecimento do ar que permite o funcionamento dessa mesma inteligência.

A dependência do ser humano para com as máquinas que cria é um comportamento difícil de ser interrompido, pois toda nova geração que surge não admite renunciar aos recursos tecnológicos que lhe trazem conforto, acusando as anteriores de terem gozado deles sem preocupação. O autor afirma que o sistema capitalista produz essa necessidade constante de consumo, de gozo de novos artefatos. Os automóveis elétricos, menos poluidores, serão, segundo o autor, muito caros, acabando por se tornar “um novo objeto de desejo” (p. 61), reativando, assim, o vício de consumo do novo. Ou seja, não é suficiente substituir recursos tecnológicos por outros que continuarão a penalizar “nossa vida no planeta” (p. 62).

O desenvolvimento tecnológico fornece recursos que dão aos seres humanos a impressão de que “não precisam mais morrer” (p. 62), na medida em que a tecnologia cria extensões da vida, dando às pessoas a sensação de estarem fora do ciclo natural, que inclui a morte. Modificar os hábitos de vida inclui, para o autor, a mudança nos “nossos hábitos de nascer e morrer” (p. 63). As pessoas se afastam da natureza e passam a “viver blindadas” (p. 63) para adiar a morte. Recursos tecnológicos que surgem todos os dias criam a falsa impressão de que a espécie humana será a última a desaparecer no planeta, mas Krenak recorda que, na verdade, a humanidade é uma praga ainda pior do que o vírus que assolava o planeta naquele momento.

O autor reconhece a atuação de pessoas que ocupavam posições de liderança e tentaram combater essa escalada autodestrutiva: Chico Mendes, Mahatma Gandhi, Martin Luther King. É preciso considerar essa liderança como representativa do esforço coletivo de preservação do planeta. A esse propósito, ele recorda uma entrevista dada por Gandhi em que afirmava que a Terra fornecia recursos de sobrevivência para todos, desde que o consumismo não instigasse desejos de propriedade que, de fato, só poderiam ser realizados por poucos. A ideia difundida pelo capitalismo de que os recursos naturais podem ser infinitamente renovados é falsa, e a proposição de que quem polui o mundo são os pobres é considerada pelo autor “racista e classista” (p. 66), além de potencialmente perigosa, já que traz a implícita sugestão da eliminação dos pobres, que constituem 80% da população mundial. Para Krenak, deve-se levar em conta o processo de globalização: concebido como estratégia social e econômica de abrangência mundial, exerce influência sobre o cotidiano das pessoas ao estimular o consumo de bens, que gera uma superprodução desenfreada, conduzindo à exaustão dos recursos naturais. Algumas das propostas de renovação desses recursos supõem uma recriação do mesmo modelo econômico, o que, para o autor, constituiria apenas “um mundo velho e canalha fantasiado de novo” (p. 68). Como forma de se opor a isso, Ailton Krenak propõe a “busca de uma espécie de equilíbrio entre o nosso mover-se na Terra e a constante criação do mundo” (p. 69). O uso da expressão “constante” se explica pela crença de que a criação do mundo não se deu com um evento isolado, como o Big Bang, mas “é algo que acontece a cada momento, aqui e agora” (p. 69).

Krenak volta a se referir à cultura indígena ancestral, para a qual existiria “um tempo antes do tempo” (p. 70), sem um ponto de partida definido. Para ele, o tempo humano deve ser concebido segundo a crença de que compartilhamos o planeta com os outros entes que vivem nele e com fé na possibilidade de estabelecermos novas relações com o meio ambiente, o que, segundo afirma, não seria algo possível apenas na mente de pajés ou nos valores dos povos originários. Essa harmonia pode ser construída no nosso próprio tempo e lugar. Na verdade, existem no mundo povos que ficaram de fora do que se considera “balaio civilizatório” (p. 73), que corresponde à sociedade de consumo, e se desenvolveram a partir de uma relação mais harmoniosa com a natureza, o que demonstra que essa opção é possível e viável para todos.

 

Referências

· Sebastião Salgado (1944-2025): fotógrafo brasileiro com atuação voltada principalmente para o registro artístico da vida de populações desassistidas no mundo inteiro. Criador do Instituto Terra, propriedade agrícola voltada para a recuperação ambiental, localizado em Minas Gerais.

· Banco Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU): agência financeira internacional criada em 1944 como instrumento de auxílio econômico para nações atingidas pela Segunda Guerra Mundial. Ocasionalmente, financia projetos na área da preservação ambiental.

· Davi Kopenawa (1956-): xamã e líder político do povo Yanomami. Em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert, escreveu A queda do céu (2010, com tradução brasileira publicada em 2015), livro no qual desenvolve reflexões sobre o pensamento indígena e critica alguns comportamentos da sociedade dos brancos, a quem designa de “povo da mercadoria”.

· Chico Mendes (1944-1988): líder dos seringueiros da Amazônia e defensor do meio ambiente. Sua atuação desagradou a forças políticas poderosas, que tramaram e executaram seu assassinato.

· Mahatma Gandhi (1869-1948): advogado hindu conhecido pela luta anticolonialista e pela postura pacifista que adotava em suas manifestações a favor dos direitos civis. Depois da independência da Índia, foi assassinado por um radical que o considerava responsável pela fraqueza do novo governo.

· Martin Luther King (1929-1968): pastor e ativista político estadunidense que lutou contra o racismo em seu país, o que desagradou as forças conservadoras locais e resultou em seu assassinato.

· David Wallace-Wells (1982-): jornalista estadunidense, autor do livro A terra inabitável (2019), que apresenta um cenário dramático das consequências do aquecimento global e outras agressões à natureza.

· Milton Santos (1926-2001): geógrafo brasileiro que desenvolveu pesquisas e reflexões sobre diversos assuntos, como os efeitos da globalização sobre o planeta.

· Suely Rolnik (1948-): filósofa e psicanalista brasileira, autora de Esferas da insurreição (2018), livro no qual reflete sobre os efeitos da mentalidade colonial-capitalística sobre a sociedade brasileira.

 

Comentários

O título do texto já anuncia seu alvo principal: a tecnologia é a “máquina de fazer coisas”, base de uma cultura que consome, sobretudo, o meio ambiente. Para Krenak, o que leva   o homem a permanecer nessa trajetória de destruição ambiental é a sensação de não pertencimento à natureza. Trata-se de uma impressão injustificada, na medida em que, segundo narrativas indígenas que tratam da origem da vida, as pessoas pertenciam ao reino vegetal e animal “antes de se imaginar humano” (p. 51). Nesse trecho, é significativo o uso da expressão “imaginar”: com ela, Krenak sugere que a condição humana é apenas uma superfície da identificação do ente, que, na sua profundidade, seria igual a outros entes que habitam o planeta. Segundo o pensamento indígena, parte da espécie humana teria perdido a memória dessa origem similar, e esse esquecimento é que conduziria à agressão da natureza. De sua parte, o autor afirma: “Não consigo nos imaginar separados da natureza” (p. 58). As imagens que associam homens a peixes ou árvores não são, para o autor, simples exercícios metafóricos ou poéticos, mas a tradução literal do pensamento indígena sobre a relação entre homem e natureza.

Esse divórcio entre o homem e o meio ambiente no qual vive e do qual depende conduz à devastação, que tem no aquecimento global uma de suas consequências mais dramáticas. Uma das fontes citadas por Krenak em seu texto é o livro A terra inabitável, do jornalista estadunidense David Wallace-Wells, em que ele revela:

É nesse curso que seguimos a passos céleres – para mais de 4 ºC de aquecimento até o ano de 2100. Segundo algumas estimativas, isso significaria que regiões inteiras da África, da Austrália e dos Estados Unidos, partes da América do Sul ao norte da Patagônia e da Ásia ao sul da Sibéria ficariam inabitáveis devido ao calor direto, à desertificação e às inundações.

WALLACE-WELLS, David. A terra inabitável: uma história do futuro. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 15.

 

Diante desse cenário preocupante, Krenak mantém a crença na capacidade de reação da espécie humana: “o que estamos passando é uma espécie de ajuste de foco no qual temos a oportunidade de decidir se queremos ou não apertar o botão da nossa autoextinção” (p. 58), ou seja, trata-se de um momento de resgate da memória humana, para se reconectar com suas origens, com o tempo em que éramos todos peixes e árvores.

O que diferencia o cenário atual de tempos anteriores é a consciência que todos temos do mal que fazemos ao planeta. Krenak cita o exemplo da exploração do combustível fóssil: desde os anos 1990, já se tem conhecimento dos riscos ambientais desse procedimento, mas nenhuma medida eficaz foi tomada no sentido de seu controle ou diminuição substancial. Atualmente, o consumo desenfreado de tudo o que é produzido pela “máquina de fazer coisas” leva a destruição do planeta a níveis de grande risco para a própria humanidade. Para mudar essa situação, só mesmo uma transformação completa de modo de vida. Em seu texto, Krenak se propõe a combater o consumismo, afirmando: “Estamos, todos nós, viciados no novo” (p. 61). Portanto, é fundamental abrir mão do que nos vicia para podermos salvar o planeta e a nós mesmos. Nesse ponto, o pensamento de Krenak se assimila ao do líder indígena Davi Kopenawa, do povo Yanomami, que afirma, no livro A queda do céu, a respeito dos homens brancos:

Por quererem possuir todas as mercadorias, foram tomados de um desejo desmedido. Seu pensamento se esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou-se para todas as outras coisas. Foi com essas palavras da mercadoria que os brancos se puseram a cortar todas as árvores, a maltratar a terra e a sujar os rios.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 407.

 

Contudo, convém esclarecer um aspecto do pensamento de Ailton Krenak que talvez possa passar despercebido. Ele não se coloca contra o progresso ou a tecnologia, mas, sim, a favor de um consumo responsável e seletivo, que não esteja fundamentado na destruição do meio ambiente. O autor sugere que sigamos os exemplos daqueles que ficaram “de fora desse balaio civilizatório” (p. 73) do mundo tecnológico, pessoas que “eventualmente consomem alguma coisa do mundo industrial, mas não são dependentes disso para continuar existindo” (p. 73).

 

“O amanhã não está à venda”

Indignação

Estou na vida

Estou na guerra

Vivendo indignação

Fecho o punho

E vou à luta

Defender esta nação

De vermes e parasitas

Que infestam nosso chão!

BALBINA, Zélia. Indignação. Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, ago, p. 77, 2020.

 

Fontes do texto

· Entrevista a Bertha Maakoroun, “O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise”, jornal Estado de Minas, 3 abr. 2020.

· Entrevista a William Helal Filho, “Voltar ao normal seria como se converter ao negacionismo e aceitar que a Terra é plana”, jornal O Globo, 6 abr. 2020.

· Entrevista a Christiana Martins, “Não sou um pregador do apocalipse. Contra essa pandemia é preciso ter cuidado e depois coragem”, jornal Expresso, Lisboa, Portugal, 7 abr. 2020.

 

Síntese

No contexto da pandemia, Ailton Krenak explicita a condição de isolamento em que vive com a família na aldeia Krenak, na região do médio Rio Doce, em Minas Gerais. Com a aldeia toda na mesma situação, o autor declara que pode caminhar livremente por ali, revelando a dificuldade de fazer um morador de apartamento entender seu confinamento particular, em meio à mata, podendo respirar ar puro enquanto cuida de plantações. Krenak revela que o sentimento de pesar trazido pela pandemia, em função das centenas de mortes, se junta a outro, já experimentado desde algum tempo pela aldeia: o “luto pelo nosso rio Doce” (p. 78). Ele recorda que, quando foi consultado por engenheiros a respeito dos projetos de recuperação do rio com uso de tecnologia, se mostrou cético, dizendo que, para que tal recuperação fosse eficaz, o ideal seria que toda a atividade humana em cerca de 100 quilômetros de cada margem do rio fosse interrompida. Perplexos, os engenheiros disseram que isso seria impossível, porque seria como parar o mundo. Pois foi exatamente o que a pandemia acabou provocando: “E o mundo parou” (p. 79).

Essa paralisação mundial provocada pelo vírus trouxe consigo a ameaça de extinção da espécie humana, risco a que, aparentemente, apenas as tribos indígenas estavam submetidas. Para o autor, a experiência pode nos conduzir a uma reflexão para saber se somos de fato uma humanidade. Embora tenhamos nos acostumado a essa identificação geral, a devastação do planeta conduziu a fossos de desigualdade entre os homens, de tal forma a criar “uma sub-humanidade que vive numa grande miséria, sem chance de sair dela” (p. 80). Krenak se refere a uma declaração de certa autoridade do governo federal da época, para quem a epidemia não teria consequências entre os brasileiros, que estariam acostumados até a mergulhar no esgoto sem consequências sérias para a saúde. A esse respeito, Krenak opina: “É uma mentalidade doente que está dominando o mundo” (p. 80). Para ele, essa mentalidade, que não compreende os desdobramentos de uma exploração irresponsável de recursos naturais, acentua o risco que todo o planeta corre.

Krenak recorda que os seres humanos são as únicas vítimas da pandemia e essa circunstância deveria servir de motivação para uma mudança no modo de vida das sociedades, que deveria começar pela compreensão de que a espécie humana não ocupa nenhuma posição especial no planeta. Os seres humanos sempre assistiram com indiferença à sucessiva extinção de espécies animais, continuando a esgotar os recursos do planeta, agindo de forma ainda mais destruidora que o vírus que ameaçou a todos. As exceções a atitudes assim são os comportamentos assumidos por “aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta” (p. 82), designados pelo autor como “sub-humanidade: caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes” (p. 82). Assim, o autor estabelece uma distinção entre essa “sub-humanidade” e a “humanidade que integra um clube seleto que não aceita novos sócios” (p. 82), constituída por aqueles que ignoram os efeitos de suas ações para a saúde do planeta. Para Krenak, a concepção de uma “humanidade” supôs uma separação em relação à Terra, como se aquela não fizesse parte desta. Ele, no entanto, acredita que “tudo é natureza” (p. 83), não havendo lugar, portanto, para esse divórcio entre o homem e a Terra.

As grandes corporações do mundo são capazes de criar ambientes artificiais que ofereçam proteção e conforto. No entanto, para o autor, o fato de o vírus atacar o sistema respiratório traz lições importantes. Em primeiro lugar, que precisamos respirar – e, quando poluímos o ar, é essa mesma respiração que fica ameaçada. Em segundo lugar, que a tecnologia pode resolver os problemas de poucos, mas não seria possível produzir máquinas de oxigenação para 8 bilhões de pessoas no planeta. Krenak lembra que o oxigênio é fornecido de graça pela natureza, sem intermediação de nenhum aparelho, mas se pergunta o que estamos fazendo com esse presente. A epidemia pode ser vista como a alegoria de uma atitude materna: a mãe Terra pede ao filho que fique em silêncio por um instante.

O autor condena a postura daqueles que simplesmente se conformam com as mortes inevitáveis de pessoas idosas. Para quem assume esse tipo de posição, a economia deve estar acima de tudo – inclusive da dor provocada por essas mortes. Krenak, no entanto, argumenta que, quando o ser humano está em risco, toda atividade humana (como a economia) perde muito de sua importância: “Dizer que a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação” (p. 86). Colocar a economia acima de tudo significa considerar que o ser humano só é útil enquanto é produtivo. Quando para de produzir, o indivíduo se transforma em despesa para o Estado, que efetua pagamentos de aposentadoria por intermédio de instituições previdenciárias. De acordo com essa lógica, o fato de que os maiores grupos de risco da pandemia foram constituídos por pessoas idosas seria algo vantajoso para o sistema, porque eliminaria despesas governamentais, favorecendo a economia.

Um antídoto para esse tipo de postura seria aquela assumida declaradamente pelo próprio autor: a integração com o meio ambiente. Krenak revela que sua ligação com a natureza já o tornou alvo de ridicularização por parte daqueles que não a compreendem, considerando-a mera alienação da realidade, como se ele vivesse em um mundo de sonhos. Mas ele defende sua forma de vida, condenando o que considera uma presunção das pessoas que teimam em programar atividades para depois e vaticinando: “Temos de parar de vender o amanhã” (p. 88). A pandemia nos ensinou a parar e a refletir sobre as ações que precisam ser tomadas agora. Não adianta simplesmente adiar compromissos, porque não se sabe como estaremos no futuro. É preciso olhar à nossa volta, hoje, “para olharmos para o que realmente importa” (p. 89). O autor considera a hipótese temerosa de que a pandemia possa ter ido embora sem provocar nenhuma mudança no coração e no comportamento dos homens. Por isso, acredita que uma “volta à normalidade” após o evento seja negativa, na medida em que acredita que seja necessário transformar essa normalidade, isto é, mudar a maneira como vivemos e nos relacionamos com o planeta.

 

Referências

· Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês, autor de Vigiar e punir (1975), obra na qual, entre outros aspectos, desenvolve uma reflexão a respeito do processo de submissão dos corpos humanos a um processo de otimização produtiva.

· Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): poeta brasileiro já citado anteriormente. Aqui, referido em função da alusão ao poema “cota zero”, do livro Alguma poesia (1930), no qual se refere ao contraste entre movimento e paralisação no ambiente urbano.

· Domenico De Masi (1938-2023): filósofo italiano citado pela autoria de um artigo no qual descreve a situação da Itália durante a pandemia de coronavírus.

· Albert Camus (1913-1960): escritor franco-argelino, autor do romance A peste (1947), ambientado em uma cidade assolada por uma peste, citado tanto por De Masi em seu artigo quanto por Krenak no texto.

 

Comentários

O título do texto já anuncia seu tema: o futuro. Como outras elaboradas no livro, trata-se de uma reflexão construída no contexto da pandemia. O ponto de partida é o isolamento social solicitado por autoridades sanitárias do mundo inteiro. O autor declara sua obediência à determinação: “Parei de andar mundo afora, cancelei compromissos” (p. 77), limitando-se às andanças pelo território de sua tribo, à beira do Rio Doce. A circunstância serve de ponto de partida para algumas reflexões. A primeira delas diz respeito à exiguidade do espaço ocupado pelo povo Krenak, restrito a 4 mil hectares, que, segundo o autor, “deveria ser muito maior se a justiça fosse feita” (p. 78). A segunda reflexão aponta para a importância do rio Doce para a região. No livro Uatu Hoom, há uma apresentação sucinta do valor que o rio Doce tem para os povos originários ali instalados:

[...] o Rio Doce era o Pai Nosso, que fornecia comida e suporte pra nossa vida, ele era nosso Patrimônio. E, por isso, nós não tínhamos limite.

KRENAK, Itamar de Souza Ferreira; ALMEIDA, Maria Inês; alunos de Estudos Temáticos de Edição (org.). Uata Hoom. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG; Cipó Voador, 2009. p. 14.

 

Embora sejam reflexões aparentemente secundárias no texto, ambas possuem desdobramentos importantes. A primeira delas denuncia a situação de marginalidade em que se encontram os descendentes dos primitivos habitantes do Brasil. Mais do que uma questão de exiguidade territorial, trata-se de um processo de esmagamento cultural. Ora, de acordo com o pensamento de Krenak, a mentalidade indígena, tratada com desprezo pelos homens brancos, seria de fundamental importância para o enfrentamento das questões ambientais e climáticas que assolam o planeta.

A segunda reflexão remete ao estado atual do Rio Doce – note-se que a definição do rio transcrita acima é feita com verbos no passado: “era o Pai Nosso”; “fornecia comida e suporte”; “era nosso Patrimônio”. Ainda no livro Uatu Hoom, temos o seguinte registro:

Os córregos secam devido à falta de mata, por causa da pastagem. Há muito gado nessa região. [...] Além disso, o desmatamento provocado pelos posseiros contribuiu para diminuir as nascentes. Depois, o assoreamento [acúmulo de terra, lixo e matéria orgânica no fundo de um rio] foi socando e solando. Por causa disso, a maioria das águas da aldeia é contaminada. [...] Há também muito dejeto no Rio Doce. Consequentemente há muita verminose.

KRENAK, Itamar de Souza Ferreira; ALMEIDA, Maria Inês; alunos de Estudos Temáticos de Edição (org.). Uata Hoom. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG; Cipó Voador, 2009. p. 63.

 

Como se vê, trata-se de uma denúncia a respeito dos efeitos da ação do homem branco, responsável pela pecuária e pela poluição. Em seu livro, Ailton Krenak reafirma o sentimento: “Faz algum tempo que nós na aldeia Krenak já estávamos de luto pelo nosso rio Doce” (p. 78).

O ponto essencial das duas reflexões diz respeito à separação entre homem e natureza: “Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos” (p. 82). Para o pensador, esse descolamento estaria na matriz dos problemas enfrentados pela humanidade, entre os quais inclui a pandemia de coronavírus.

As polêmicas em torno do isolamento social colocaram em evidência um aspecto importante da nossa sociedade: a supremacia das questões econômicas e financeiras sobre a própria existência humana – existência esta que deveria ser a principal justificativa das mesmas questões. O pensamento de Krenak não nos permite concluir que ele recuse práticas econômicas, mas ele parte da perspectiva de que tais práticas deveriam servir ao homem, e não fazer com que as pessoas sirvam a projetos e sistemas financeiros. Depreende-se que colocar a saúde humana em segundo plano é colocar a vida em segundo plano.

A supremacia da dimensão econômica conduz à consideração de que os seres humanos devem dedicar sua vida exclusivamente à produção, à fabricação – deve-se transformar, portanto, em uma “máquina de fazer coisas”, já indicada em texto anterior. Fazendo referência à obra Vigiar e punir, do pensador francês Michel Foucault, Krenak afirma que a “sociedade de mercado em que vivemos só considera o ser humano útil quando está produzindo” (p. 87). Segundo essa perspectiva, o ser humano que perde sua capacidade produtiva deixa de ser relevante. Convém recordar que, entre os principais grupos atingidos pelo vírus da covid-19 estavam os idosos, considerados improdutivos. Essa circunstância levou a um raciocínio macabro, referido por Krenak:

O que conhecemos como Previdência, que existe em todos os países com economia de mercado, tem um custo. Os governos estão achando que, se morressem todas as pessoas que representam gastos, seria ótimo. Isso significa dizer: pode deixar morrer os que integram grupos de risco.

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 87.

 

O pensamento que serve de justificativa para estratégias administrativas que promovem a morte é definido como necropolítica, conceito elaborado pelo pensador Achille Mbembe e definido como o conjunto de “formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte”. Não se trata de mera abstração: em seu texto, Krenak faz referência a falas de governantes que afirmaram que o vírus não atingiria os brasileiros, porque estes nadam em esgotos sem que nada lhes aconteça, e ainda que, sendo a morte um processo natural para pessoas idosas, deveriam ser encaradas com naturalidade as mortes causadas pelo vírus. São posturas reveladoras da necropolítica.

Na conclusão de seu texto, Krenak se refere a um artigo do pensador italiano Domenico De Masi, publicado na Folha de S.Paulo, no qual o autor trata da situação de Roma durante a pandemia. De Masi cita o romance A Peste, do escritor franco-argelino Albert Camus. Publicado em 1947, o livro trata de uma epidemia que atinge a cidade de Oran, na Argélia. Em seu artigo, De Masi cita uma reflexão do protagonista do romance, Bernard Rieux: “a peste pode vir e ir embora sem que o coração do homem seja modificado”. O trecho é retomado por Krenak para explicitar uma de suas preocupações frente aos desdobramentos da pandemia: que ela não provoque nenhuma modificação substancial na maneira como o ser humano se relaciona com o planeta. A partir desse temor, Krenak questiona um desejo generalizado, naquele momento, em que se vislumbrava o fim das restrições impostas pela pandemia: a volta à normalidade. Ele afirma: “Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro” (p. 91). Para ele, trata-se de reelaborar a relação do homem com seu presente, para que possamos reaver a esperança em um futuro.

O amanhã que não está à venda, aludido no título, diz respeito, assim, às possibilidades de futuro de que trata o texto. De um lado, o amanhã daqueles que desejam vivê-lo, mas que, para isso, devem enfrentar, além da própria epidemia, a disposição de alguns governos para a morte. De outro lado, o amanhã da humanidade como um todo, que, para ser promissor, deve se realizar a partir de uma outra normalidade.

 

“A vida não é útil”

O tempo

Quanto tempo esperar para ver o que os nossos antepassados [viram?

Quanto tempo esperar?

Quanto tempo será?

Som dos rios e pássaros

Resplandecer na mata iluminada

Crianças brincando com peixes nas águas limpas às margens [limpas das matas

Quanto tempo será?

KEREXU, Juliana. O tempo. Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, p. 89, ago. 2020.

 

Fontes do texto

· Entrevista a Fernanda Santana, “‘Vida sustentável é vaidade pessoal’, diz Ailton Krenak”, Correio, 25 jan. 2020.

· Conversa “Como adiar o fim do mundo”, O Lugar, 18 mar. 2020.

· Live com Jornalistas Livres, 9 jun. 2020.

 

Síntese

O texto começa definindo o momento presente como “uma espécie de erosão da vida” (p. 95). Os homens, criadores de recursos tecnológicos cada vez mais avançados, são consumidos por eles. Crianças já nascem consumindo “produtos de higiene, fraldas, tecidos, materiais” (p. 96), objetos de consumo cuja fabricação já impõe um processo de depredação sobre a natureza. O autor se refere a uma planta que ganhou de presente, que, “um dia, do meio para o final da tarde” (p. 97), teve as folhas comidas por formigas. A cena lhe parece uma imagem perfeita daquilo que os seres humanos fazem com a Terra: eles a comem. O desejo de consumo é infinito, mas os recursos naturais com os quais esses bens serão produzidos são finitos. Krenak reconhece que a afirmação de que o planeta está chegando ao fim pode parecer apocalíptica para muitas pessoas, mas lembra que um dos episódios da religião dos brancos trata da reação de Deus à maneira como os homens sujavam o mundo: com o envio de um dilúvio destruidor. Outro mundo foi criado, mas a mesma humanidade o ocupou e voltou a sujá-lo.

A destruição do planeta é sentida de perto pelos povos da floresta, que não encontram mais as espécies que compartilhavam com eles o mesmo espaço: “O mundo ao redor deles está sumindo” (p. 99).

Esses povos sentem o fluir da vida na sua integração com a floresta. O autor considera que, durante milênios, o homem se acostumou a viver na Terra como se esta fosse “uma esfera composta de elementos que constituem o que chamamos de natureza – essa abstração” (p. 100). Essa mentalidade produz uma relação distanciada entre os seres humanos e o planeta. Na escola, os estudantes aprendem a agir sobre o mundo, mas sempre entendendo-o como algo separado deles. Para o autor, o aprendizado atual faz do aluno um receptáculo de informações, sem que se desenvolva o espírito crítico. O aluno aprende na escola que o mundo é algo separado dele, e, na vida adulta, reproduz esse pensamento, continuando a degradar o meio em que vive, como se não tivesse nada a ver com ele.

O autor considera que a pandemia de covid-19 pode levar os pais a repensar a forma como participam da transmissão do conhecimento aos filhos. A vida moderna anulou a noção de um saber ancestral, transmitido de geração a geração, transformando os aprendizes em “ciborgues” (p. 102). A falta desse contato com a ancestralidade afasta os indivíduos da integração com a natureza. Até mesmo a propagação atual da ideia de sustentabilidade, para o autor, pode ser mais uma mistificação se não trouxer mudanças comportamentais efetivas, isto é, se não descontinuar a tendência ao consumo desenfreado de recursos naturais. Para Krenak, o risco da propaganda em torno da sustentabilidade é a difusão da ideia de que o planeta pode ser renovado: “vocês, certamente, vão escutar um bioquímico ou um engenheiro espertalhão dizendo que tem uma startup que vai jogar um negócio na água, derreter o plástico e resolver tudo” (p. 105). Por essa perspectiva, que o autor considera uma “pilantragem” (p. 105), todos podem ter a impressão de que não há nenhum problema em continuar a se alimentar do planeta. O consumo cotidiano é algo que já naturalizamos, e nem pensamos mais “de onde vem o que consumimos” (p. 106). Apenas diante de grandes catástrofes é que essa reflexão começa a surgir com mais força.

Krenak recorda o episódio do estouro de uma barragem de contenção de rejeitos de mineração em Brumadinho (MG), ocorrido em 2019, que provocou a morte de centenas de pessoas e a necessidade de remoção de povoados inteiros. Ele afirma, contudo, que os Krenak optaram por continuar no mesmo lugar, à margem esquerda do rio Doce: “Sabemos que esse lugar foi profundamente afetado, virou um abismo, mas estamos dentro dele e não vamos sair” (p. 107). O resgate de pessoas busca reabilitar suas vidas em outro lugar, onde cada um poderá “seguir operante na vida” (p. 108). Mas isso parte de um pressuposto que Krenak questiona: a pretensa utilidade da vida. Para ele, “a vida não tem utilidade nenhuma” (p. 108). A vida é fruição, e muitos teimam em querer reduzi-la a uma “coreografia ridícula e utilitária” (p. 108). As biografias dos grandes homens mostram o que eles fizeram de útil. Mas o que importa é “ser radicalmente vivos” (p. 109), isto é, viver a vida simplesmente, sem conferir a ela nenhum caráter utilitário. Essa vida sem utilidade pressupõe o usufruto dos recursos naturais no sentido da própria vida, sem querer encontrar formas de tornar tais recursos úteis. A pressão para produzir coisas úteis conduz ao desespero existencial e, por vezes, ao suicídio. O utilitarismo conduz à miséria, à fome e à violência. Não é o destino natural de ninguém a experiência de tragédias e sofrimentos coletivos.

A espiritualidade dos povos primitivos permite a eles encararem Estes índios vivem mui descansados, não têm cuidado de coisa a vida sem essa carga utilitária, conduzindo o indivíduo a uma vivência de “silêncio interior” (p. 112). Para os brancos, essa postura corresponde a um “viver à toa” (p. 113), porque, para eles, viver é trabalhar para realizar algo que tenha utilidade – e, com esse pensamento em mente, passam a vida a escravizar-se a si mesmos. Os brancos olham para os indígenas e os veem como cheios de preguiça, refratários à civilização, quando, na verdade, o comportamento dos povos originários segue essa concepção não utilitária da vida. Para os brancos, a civilização é parte do destino humano, como uma etapa que aguardasse a evolução de todos os povos. Mas o que a civilização traz para o humano, de fato? As cidades construídas são “como um implante sobre o corpo da Terra” (p. 114), um corpo que deveria ser respeitado em sua integridade. Assim agem os indígenas, que enxergam na Terra a sua Mãe, não como expressão poética, mas como concepção existencial.

Por fim, Krenak se refere ao que considera ser um esquecimento dos brancos. Eles já viveram como os povos primitivos, mas saíram desse meio e o esqueceram. Assim, “quando a gente se reencontra, há uma espécie de ira por termos permanecido fiéis a um caminho aqui na Terra que eles não conseguiram manter” (p. 115). As mudanças que ocorrem no clima mostram que esses povos primitivos têm muito a ensinar, a compartilhar. E eles querem fazer isso porque as ameaças advindas da ação humana atingem todo o planeta. No momento em que produz sua fala, Krenak reconhece que seu povo atravessa um deserto e, aos pretendem retirá-los desse lugar, ele afirma que é preciso enfrentar o deserto e atravessá-lo.

 

Referências

· Brumadinho: referência ao trágico episódio do rompimento da barragem da mineradora Vale do Rio Doce, localizada no município de Brumadinho, em Minas Gerais, em 25 de janeiro de 2019, que provocou a morte de 270 pessoas.

· Bento Rodrigues: alusão a outro acidente, semelhante ao de Brumadinho, mas anterior a este, ocorrido em 5 de novembro de 2015, no subdistrito de Bento Rodrigues, que pertence ao município de Mariana, também em Minas Gerais. O episódio causou danos ambientais de grandes proporções.

· Tibete: referência à invasão do território do Tibete por forças militares da China, em 1950. A contestação do domínio chinês sobre o Tibete vem sendo liderada por Tenzin Gyatso (1935-), o 14º Dalai-Lama, linhagem de líderes religiosos do budismo tibetano.

 

Comentários

No imaginário social brasileiro, consolidou-se uma imagem do indígena elaborada pela mentalidade ocidental dos colonizadores de muitas épocas. Segundo essa imagem, o primitivo habitante do Brasil manifestaria um comportamento avesso ao trabalho, mostrando-se preguiçoso. Leia-se, por exemplo, o que diz o cronista português Pero de Magalhães Gândavo, escrevendo no século XVI:

Estes índios vivem mui cansados, não tem cuidado de coisa alguma se não comer e beber e matar gente; e por isso são mui gordos em extremo.

GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980. p. 57.

 

No século XIX, essa concepção ainda estava presente, como podemos ver nas palavras que o pesquisador alemão Von Martius, em visita ao Brasil, usou para se referir ao indígena:

Permanecendo em grau inferior da humanidade, moralmente, ainda na infância, a civilização não o altera, nenhum exemplo o excita e nada o impulsiona para um nobre desenvolvimento progressivo.

VON MARTIUS, Carl F. P. O estado do direito entre os autóctones do Brasil. Tradução Alberto Lofgren. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1982. p. 11.

 

Parte dessa construção equivocada está relacionada à resistência dos povos originários à escravidão a que os colonizadores queriam submetê-los. No texto de Ailton Krenak, temos outra explicação para esse suposto comportamento. Para o autor, o homem branco “não consegue conviver com a ideia de viver à toa no mundo” (p. 113), usufruindo a vida, sem reduzi-la a um movimento constante no sentido da produção e do consumo. Os indígenas rejeitam essa prática, razão pela qual os homens brancos “ficam horrorizados com isso, e dizem que somos preguiçosos, que não queremos nos civilizar” (p. 113).

De acordo com o pensamento branco – que o autor taxa de “vazio” (p. 113) –, a existência humana se reduz a produzir e consumir, atitudes que confeririam utilidade a ela. Krenak mostra que essa convicção faz com que os brancos deixem rastros na Terra desde o momento em que nascem, com o consumo de “produtos de higiene, fraldas, tecidos” (p. 96). Em contraposição às pesadas marcas deixadas pelos brancos, o pensador afirma que os indígenas deixam marcas leves, porque não se dedicam diariamente a consumir o planeta. A destruição provocada por essas práticas não é imediatamente percebida pelos habitantes da cidade: estes obtêm tudo de que necessitam em supermercados, farmácias e outros locais, onde os produtos que consomem podem ser encontrados com facilidade, bastando estender as mãos e apanhá-los. Já entre os indígenas, a realidade é bem diferente: eles precisam caçar para obter sua comida; precisam buscar na floresta as ervas com as quais elaboram seus medicamentos. Por isso, são esses povos que se ressentem mais imediatamente da escassez de recursos naturais, na medida em que eles assistem à destruição da natureza em seu próprio espaço.

Para Krenak, a construção dessa mentalidade de utilitarismo de produção e consumo começa já na escola, que ele entende ser um instrumento de reprodução de ideias preconcebidas, sem que se dê oportunidade aos alunos de construir uma visão crítica a respeito do próprio comportamento – e da própria instituição escolar. Mas Krenak não exime os pais de responsabilidade nesse processo: “Os pais renunciaram a um direito, que deveria ser inalienável, de transmitir o que aprenderam” (p. 102). Dessa forma, os jovens perdem a noção de ancestralidade, que seria essencial para entenderem as próprias origens. Supõe-se, a partir do pensamento de Krenak, que, para ele, sem esse tipo de transmissão de conhecimento, as crianças e os jovens desenvolvem um espírito imediatista, de vida exclusivamente no presente – sem referências do passado e sem preocupações com o futuro.

No livro escrito em parceria com Bruce Albert, A queda do céu, o xamã yanomami Davi Kopenawa conta sua própria experiência: “No começo, quando eu era bem jovem, nunca ouvi os brancos falarem em proteger a natureza. Foi muito mais tarde, quando fiquei bravo e comecei a discursar contra os garimpeiros e suas epidemias, que essas novas palavras chegaram de repente aos meus ouvidos” – expressões que Kopenawa define como “palavras da ecologia”. Assim como Kopenawa, Ailton Krenak também não aceita que essas “palavras de ecologia” sejam apenas isso, palavras, sem que se transformem em ação efetiva. Mas Krenak vai ainda mais longe em sua crítica. Para ele, “a ideia de sustentabilidade [é] uma vaidade pessoal” (p. 103). Essa postura de Krenak indica um aspecto fundamental de seu pensamento: a tendência ao questionamento constante, mesmo das decisões que parecem corretas e justas – e daí vem o caráter iluminador de seus textos. Krenak esclarece sua posição: práticas de sustentabilidade, quando tomadas isoladamente, satisfazem apenas o ego de quem as pratica, mas não exercem efeitos consistentes e duradouros. Se tal comportamento ecológico se limita a essa dimensão particular, é, para ele, apenas manifestação de “egoísmo” (p. 104), pois a degradação da natureza exige que todos assumam posturas protecionistas, sem as quais não haverá salvação, nem individual, nem coletiva.

Como alternativa de vida, Krenak propõe “desacelerar nosso uso de recursos naturais” (p. 97). Isso significa diminuir a ânsia de produção e consumo que fundamentam o mundo ocidental. O autor recorda que, na tradição bíblica, existe o episódio da Arca de Noé, que pode ser entendido como um momento em que Deus determinou uma desaceleração da vida humana, tendo em vista um ressurgimento em outras bases. Se, para o pensamento branco ocidental, a utilidade da vida consiste em produzir e consumir, o que o texto de Krenak sugere é a prática de uma vida desprovida dessa utilidade, para dirigir a potência humana para o que realmente interessa na existência: a fruição da vida.

 

Estilo

Durante a pandemia de covid-19, foi decretado o isolamento social. Nessas circunstâncias, alguns mecanismos foram criados para permitir a conexão entre as pessoas, mesmo que a distância. Professores e palestrantes recorreram às lives, transmissões ao vivo de áudio e vídeo feitas por intermédio da internet. Jornalistas também usaram esse tipo de comunicação a distância para realizar suas entrevistas. Os textos que compõem o livro A vida não é útil foram organizados a partir de transcrições de lives e entrevistas de Ailton Krenak. Uma das marcas mais fortes do estilo dos textos é definida em função da forma como foram produzidos: trata-se da oralidade.

Contudo, as circunstâncias históricas explicam apenas em parte a adoção da oralidade como marca discursiva. Na verdade, as raízes dessa estratégia se encontram na cultura indígena, na qual a comunicação e a transmissão orais são bastante comuns. De uma perspectiva eurocêntrica, o letramento é um item essencial da cultura, o que acaba por acarretar um processo de silenciamento de povos e culturas cuja transmissão de saber é feita por meio da oralidade.

Outro recurso ocasionalmente explorado pelo autor é a ironia, quando, por exemplo, ele satiriza a presunção humana de superioridade sobre outros entes do planeta: “Ora, se a principal marca dos humanos é se distinguir do resto da vida terrestre, isso nos aproxima mais da ficção científica que defendo que os humanos que estão habitando a Terra não são daqui” (p. 55).

Mas o aspecto fundamental da estratégia expositiva de Krenak é o desapego pela retórica acadêmica. Seu estilo se distancia do texto teórico de caráter ensaístico, com desenvolvimento argumentativo mais cerrado e repleto de citações. E essa opção também é proposital: Krenak quer, justamente, colocar-se como voz dissonante, desconstruindo conceitos estabelecidos – como se nota, por exemplo, na forma como se refere às iniciativas isoladas de sustentabilidade, em “A vida não é útil” (p. 103-104). Dessa forma, ele questiona as posições assumidas por governos e sociedades administradas por brancos e propõe que se dê voz aos povos originários








 

INTRODUÇÃO À OBRA: A VIDA NÃO É ÚTIL (2)

  QUESTÃO 01 Leia o texto para responder. Quando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens , me refiro a uma imensidão de sere...