Dados biográficos da
autora
Foi no dia 29 de novembro de 1946, em Belo
Horizonte (MG), que nasceu aquela que viria a se consagrar como uma das maiores
autoras afro-brasileiras contemporâneas: Maria da Conceição Evaristo. Quem hoje
tem contato com o sucesso alcançado pela autora talvez não imagine que ela vem
de uma família bastante humilde e trabalhadora, com mãe lavadeira, padrasto
pedreiro (não conheceu o pai biológico e sobre ele sabe muito pouco, segundo
ela própria) e nove irmãos.
Na infância, mais precisamente aos 7
anos de idade, foi morar com seus tios como forma de aliviar a sobrecarga
financeira da família. Esse fato foi essencial para sua formação, já que a
condição de vida um pouco melhor - comparada a dos irmãos - foi o que lhe deu
oportunidade para que se dedicasse mais aos estudos. No entanto, essa nova
realidade não foi o suficiente para que pudesse viver apenas no mundo dos
livros e dos cadernos; aos 8 anos de idade, teve seu primeiro emprego na área
de serviços domésticos, função que exerceu durante muito tempo. Chegou,
inclusive, a trocar horas de tarefas domésticas na casa de professores por
aulas particulares e livros, pois sempre foi bastante interessada em estudar e
aprender. Aliás, os estudos também eram preocupação de sua mãe, que sempre matriculou
os filhos em escolas públicas frequentadas pela classe mais abastada de Belo
Horizonte, para garantir a todos uma educação de qualidade.
Além dos problemas financeiros, Conceição
também enfrentou dificuldades associadas ao racismo e à discriminação social
desde muito nova, inclusive na própria escola, onde sempre se destacou por ser uma
excelente aluna - o que incomodava não só seus colegas, como também alguns
professores. O “problema” não se dava apenas pelo fato de se sobressair
academicamente frente a outros colegas brancos e abastados, mas, sim (e
principalmente), pela precoce consciência social de menina negra e pobre que
não aceitava com passividade as condições às quais era submetida, quebrando
assim a expectativa da sociedade. Essa consciência sobre sua situação de
negritude no Brasil foi especialmente fomentada por um tio, Osvaldo Catarino
Evaristo, com quem conviveu durante a infância e parte da adolescência.
Foram justamente todas essas
influencias familiares e educacionais que ajudaram a moldar o caráter questionador
de Conceição sobre a situação da vida negra na sociedade brasileira. Não à toa,
a partir de seus 17 anos, passou a participar de diversos movimentos sociais de
valorização da cultura negra.
Em 1973, com a ajuda de amigos,
mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de iniciar sua carreira docente e buscar
novas oportunidades. Em meio a inúmeras dificuldades econômicas e sociais,
conquistou seu diploma como professora e continuou seus estudos, formando-se em
Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, obtendo mestrado em
Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e
doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.
Conceição Evaristo e, hoje, umas das
autoras brasileiras contemporâneas mais importantes e significativas para o
país, e sua trajetória de vida, marcada pela superação e pela luta contra a desigualdade,
encontra eco em sua obra literária. Não à toa – e muito merecidamente –, já foi
prestigiada pelos prêmios mais importantes da literatura brasileira: em 2015,
ganhou o Jabuti de Literatura na categoria Contos e Crônicas, por Olhos d’água; em 2017, recebeu diversas
premiações: o prêmio Faz a Diferença, categoria Prosa; Prêmio Cláudia,
categoria Cultura; e o prêmio de Literatura do Governo do Estado de Minas
Gerais. Sua trajetória vitoriosa continuou com a conquista de outros prêmios importantes,
como o Premio Juca Pato como intelectual do ano de 2023, e notoriedade mundial,
com suas obras sendo traduzidas em diversos países pelo mundo.
Contexto histórico
Breve entendimento sobre
a literatura brasileira contemporânea
O período da ditadura militar no
Brasil – como todo fato histórico significativo – influenciou profundamente a produção
literária do país, que passou a ser classificada como “literatura brasileira contemporânea”
a partir da década de 1970. Desde então, a nossa criação literária passou a
refletir uma sociedade em transformação, e passamos a ter contato com uma
literatura que se debruça sobre temas como política, diversidade cultural,
identidade e representatividade, violência urbana, individualismo e, mais
recentemente, até mesmo questões relacionadas à globalização, à tecnologia e à
mídia digital.
Além disso, houve um fortalecimento
da chamada “literatura de periferia” ou “literatura de minoria”, representada
por autores como Itamar Vieira Junior (Torto
arado, 2019), Jeferson Tenório (O
avesso da pele, 2020) e Conceição Evaristo, entre outros. Esses escritores,
que antes se encontravam à margem do cânone literário, passaram a ter voz e
influência, trazendo novas pontos de vista e temáticas para a literatura
brasileira.
Conceição Evaristo, inserida nesse contexto
da literatura contemporânea brasileira, desempenha um papel crucial para o
cenário nacional ao trazer novas perspectivas, principalmente sobre questões de
raça, gênero e classe social em suas obras - assuntos que ficam bastante nítidos
em Canção para ninar menino grande,
na qual ela aborda experiências afro-brasileiras, destacando as vivências,
lutas e resistências das mulheres negras no Brasil, características marcantes
da literatura de minoria.
A “escrevivência”
Apesar de sempre se referir a
afinidade e ao contato com a literatura desde jovem – trabalhando em casas de
escritores e vencendo concursos de escrita na escola –, a autora sempre faz
questão de relatar, em suas entrevistas, que nem sempre esteve rodeada pelos
livros e pela leitura, o que não significa que não esteve imersa, em sua infância
e adolescência, em palavras: toda a sua família tinha o habito da “contação de histórias”.
Mas a relação com as narrativas começou
a se estreitar mesmo quando, por volta de seus 11 anos, uma de suas tias se
tornou servente de uma biblioteca pública em Belo Horizonte: Conceição, então,
passou a frequentar intensamente o local, aumentando, cada vez mais, sua
frequência de leitura e seu amor pela literatura.
Sua estreia literária aconteceu
apenas na década de 1990, aos 40 anos, com a publicação do conto “Ponciá Vicêncio”
na coletânea Cadernos negros. No entanto, foi somente com o lançamento de seu primeiro
romance, de mesmo título do conto, treze anos mais tarde, que sua voz ganhou
mais projeção. Nessa obra, Evaristo já abordava temas como a escravidão, a diáspora
africana e a luta por liberdade, explorando a narrativa por meio da perspectiva
feminina negra, temática que, inclusive, é bastante frequente em seus
trabalhos.
Toda a sua literatura, que ela chama
de “escrevivência”, e marcada pela sensibilidade e pelo comprometimento com a
representatividade racial e social, assunto constante nas obras da autora,
visto que se dedica, justamente, a dar voz às experiências e as perspectivas da
comunidade negra no Brasil, em especial, das mulheres negras.
Conceição e a
literatura contemporânea: “O que me inspira a escrever e a vida”
Para Conceição Evaristo, as experiências
de vida estão estreitamente relacionadas a escrita. Isso significa dizer que,
segundo a concepção da autora, a realidade social, principalmente daqueles que
vivem à margem da sociedade, está intimamente relacionada à produção literária.
Foi com base nessa ideia que Conceição criou o termo “escrevivência” – neologismo
que parte da junção das palavras “escrever” e “vivência” –, que representa,
portanto, esse enraizamento das vivências em sua forma de escrever.
De acordo com a autora, a escrevivência
permite registrar as vozes marginalizadas, já que, por meio da escrita, suas experiências
ganham destaque e, de certa maneira, contribuem para a quebra de estereótipos
criados na sociedade. Além disso, ela não deixa de ser uma forma de resistência
e de afirmação da identidade negra e diversa no Brasil.
Nesse sentido, fica claro que
Conceição, por meio dessa prática, produz uma literatura que emerge das vivencias
pessoais, sociais e históricas e que dá visibilidade a uma comunidade que e,
desde sempre, ignorada e negligenciada.
O conceito e imprescindível para o
entendimento adequado de suas obras, especialmente por se destacar como a linha
condutora de toda a sua produção, inclusive na obra aqui analisada. Portanto, entender
o conceito também significa entender as narrativas de Conceição Evaristo.
Para além do significado do termo, é
preciso pensar, paralelamente, a escrevivência sob a perspectiva de sua forma,
pois, se uma das intenções da autora e solidificar em seu trabalho uma
identidade social que sempre esteve a margem na história do país, a análise também
deve ser feita considerando a parte estrutural da construção textual. Para
isso, Conceição Evaristo se preocupa em produzir um projeto estético no qual a
oralidade é peça fundamental: ela deseja criar, ao máximo, um texto que esteja próximo
da “gramática do cotidiano”.
Ao integrar a oralidade a sua
escrita, a autora mostra ao leitor as diversas formas de se apresentar a Língua
Portuguesa, demonstrando que nenhuma delas é superior à outra.
Síntese e análise da
obra
Síntese
Canção
para ninar menino grande é um romance que narra a história de Fio Jasmim e
dos diversos envolvimentos amorosos extraconjugais estabelecidos durante suas
frequentes viagens. Como maquinista, Fio passava longos períodos fora de casa,
distante de sua esposa, Pérola Maria, e dos filhos. O belo e atraente homem, a
cada parada em suas viagens a trabalho, em cidades diferentes, envolvia-se com
uma nova mulher, mesmo sendo casado desde os 20 anos (no início da narrativa,
Fio já tem 44) com Perola Maria. Esses envolvimentos, ocasionalmente,
resultavam em filhos ilegítimos. Perola Maria, ciente das infidelidades de Fio,
optava por não acreditar na infidelidade de seu marido ou pelo perdão.
O livro, em um primeiro momento, parece ser
uma obra que trata de narrativas de mulheres que sofrem com a desilusão amorosa
de um relacionamento toxico, mas e também uma obra sobre a solidão e a estereotipação
vivenciadas por um homem negro.
A história se inicia com uma
narradora em primeira pessoa que resolve trazer um relato que lhe fora contado
por uma das “personagens-amantes” do livro: Juventina. Para isso, essa voz
anuncia ao leitor que se trata de uma história de amor e que tentara
reproduzi-la em suas minúcias.
Além de nos contextualizar
brevemente sobre Juventina, a narradora também nos apresenta o personagem Fio
Jasmim, o protagonista – e, aqui, há uma mudança de foco a narrativa, que de primeira passa para
terceira pessoa.
Ao longo de dezoito breves capítulos,
Conceição Evaristo não só apresenta os relacionamentos de Fio – em um espaço de
tempo de 24 anos –, como também conta um pouco da história de vida de cada uma das
mulheres seduzidas e depois abandonadas (muitas vezes, grávidas) pelo protagonista.
Pérola Maria, a eleita de Fio
Jasmim, apesar de ter conhecimento das traições e dos filhos bastardos do marido,
preferia ignorar os fatos – já que, como e dito na obra, seu grande prazer no
casamento era ter filhos. Vez ou outra, caia no choro quando alguém lhe contava
suas infidelidades, mas, nessas ocasiões, o homem se fazia de arrependido, e
meses depois ela aparecia grávida novamente e tudo voltava à normalidade.
Fio se aproveitava de toda essa situação
para levar adiante seus inúmeros relacionamentos extraconjugais, dentre os
quais nos são apresentados oito, na seguinte ordem:
.
Neide Paranhos (de Vale dos Laranjais);
.
Angelina Devaneio da Cruz (de Alma das Flores);
·
Aurora Correa Liberto (de Vila Azul);
·
Antonieta Véritas da Silva (de Remanso Velho);
.
Dolores dos Santos (de Ardência Antiga);
.
Dalva Amorato (de Aguas Infindas);
.
Juventina Maria Perpétua (sua cidade de origem não é citada; sabe-se apenas que
Fio era vizinho de sua prima, a qual Juventina passou a visitar com frequência
para encontrar o rapaz);
.
Eleonora Distinta de Sá (única personagem mulher com a qual Fio Jasmim nunca
estabeleceu um caso amoroso e que, portanto, não entra de fato na lista das
amantes colecionadas por ele. Mais adiante, será explicitada a devida relação
que se sucedeu entre eles).
Como
já mencionado, cada um dos capítulos se ocupa em contar um pouco da história de
vida dessas personagens, revelando suas dores, anseios e frustrações, além de
descrever seu envolvimento com Fio Jasmim.
No fim do livro, o que se verifica e
uma reflexão em torno do que foi, em parte, a vida de Fio Jasmim: um homem que “colecionou”
diversas amantes, mas que, ainda assim, nunca escapou da solidão que sempre o
acompanhou. Essa solidão, fruto de suas próprias escolhas e de uma sociedade que
o aprisiona em estereótipos, leva o protagonista a uma busca incessante por conexão
e afeto, mas ele só encontra relacionamentos superficiais e passageiros.
Breve análise
“Sé de joelhos se lê Conceição
Evaristo. Em prece. E eu penso que desde “a raiz do tempo” se previa que Mestre
Conceição Evaristo nos haveria de educar a todos com a grandeza de sua
mensagem.” Essa declaração de Valter Hugo Mãe – importante e renomado artista e
escritor português – resume, de maneira singela e precisa, o que significa ler
uma obra de Conceição Evaristo, e é exatamente com essas palavras que o autor
nos introduz à leitura de Canção para
ninar menino grande.
Originalmente, muitas das
personagens mulheres que agora tem sua história explorada foram apenas citadas
na edição de 2018. Incomodada com esse fato, a autora decidiu realizar uma revisão
e dar voz, ao longo de dezoito breves capítulos, a essas figuras femininas
anteriormente não exploradas.
Quem conhece as narrativas de Conceição
Evaristo sabe que, recorrentemente, elas apresentam mulheres como protagonistas
- sobretudo mulheres negras. Dessa forma, leitores que já tiveram contato com
sua obra podem estranhar o fato de que, aqui, tenha-se como figura central um
homem, Fio Jasmim. A grande questão, entretanto, é que, apesar de essa figura
masculina ocupar o protagonismo no livro, quem realmente tem um papel
primordial na história são as mulheres: Fio fala muito pouco, e tudo o que se
sabe sobre ele não se dá por meio do próprio, mas, sim, pela perspectiva do que
as mulheres-amantes dizem sobre ele. Aliás, não só Fio, como todos os (poucos)
homens que aparecem em Canção para ninar
menino grande se expressam raramente, e, quando ganham voz, é justamente
para elogiar as mulheres ou falar de seu desejo sexual por elas.
A cada capitulo, o leitor esbarra em
uma nova mulher, uma nova história de vida, um novo relacionamento de Fio
Jasmim e um novo caso de abandono cometido por esse marcante personagem – muitas
vezes, também nos deparamos com um novo filho, fruto dessas relações
passageiras. Isso porque, a cada cidade-destino de sua viagem, Fio resolve
explorar não só o local, como também as mulheres que ali habitam, ainda que
seja casado e tenha uma extensa prole com sua esposa, Perola Maria.
Durante sua permanência em cada uma
dessas cidades, o protagonista consegue seduzir e cativar as mulheres mais
bonitas, mesmo aquelas consideradas impossíveis de serem conquistadas. Aliás,
Fio encanta tanto suas amantes quanto os habitantes das cidades, pois é
detentor de fascinantes atributos, os quais a autora faz questão de apresentar
logo no início da história.
Com o avançar dos capítulos, o
leitor toma contato com os relacionamentos de Fio e com um pouco da história de
vida dessas mulheres que tem só uma coisa em comum: a paixão por Fio Jasmim. E justamente
por isso que o nome do protagonista se torna um elemento importante, ao fazer
analogia, literalmente, a um fio, já que ele adentra, atravessa e une a vida
das mulheres pelas quais passa. Tem-se, aqui, personagens separadas
geograficamente, mas com um vínculo em comum, que é o amor e o sofrimento pelo
mesmo homem – embora, para algumas delas, tenha sido um amor breve e
passageiro. Ainda sobre o nome, pode-se, inclusive, traçar um paralelo entre os
atributos formosos e sedutores do protagonista e as qualidades da flor de
jasmim, perfumosa e encantadora.
A narrativa se sucede, portanto, a
partir do relato de vida de cada uma dessas personagens e de seu envolvimento
com Fio Jasmim, e termina com certa quebra de expectativa: se ao longo da obra constrói-se
uma imagem de como a masculinidade toxica afeta profundamente a vida de tantas mulheres,
o encerramento mostra como esse mesmo machismo pode ser lesivo ao próprio
homem. O que Conceição faz, então, é deixar claro que esse desejo lascivo e
insaciável de Fio pelas mulheres é um reflexo de sua criação, ou seja, da
imposição feita por seu pai – e pela sociedade – de que ele deveria sempre ser
uma figura viril e conquistadora, atitude que também o condena a solidão e a carência.
Logo, o fato de sabermos da história
de Fio por meio de outros personagens, como já explicitado anteriormente, e
porque ele raramente fala, afinal, segundo a autora, os homens falam muito
pouco sobre eles mesmos: existe uma grande dificuldade em se acessar a figura
masculina, principalmente por toda a estereotipacao social que existe em torno
de sua imagem. Isso tem relação intrínseca com a escrevivência, uma vez que
traz a vivência de várias mulheres até mesmo para a construção de Fio, que representa
esse “homem real” inacessível e estigmatizado. Não à toa, a suspeita que se
instala ao longo da leitura da obra – de que Fio age como resposta a um trauma
vivido na infância e à sua criação – confirma-se nos capítulos finais, quando o
leitor tem contato com as lagrimas e com o sentimento intenso de solidão que
permeia a vida do protagonista.
Dessa forma, e nítido como o livro
apresenta vivencias ficcionais completamente baseadas na realidade, naquilo que
compõe, de fato, parte da vida de mulheres e homens negros, em suas experiências
concretas.
O grande enlevo da obra, portanto, é
descobrir essa solidão de Fio. Até então, ele era “apenas” um mulherengo, mas,
ao fim, são reveladas sua fragilidade e sua dor. É claro que isso não apaga a
crítica à ideologia machista e misógina, parte fundamental da obra construída
por Conceição. No entanto, paralelamente, não deixa de colocar luz sobre uma
perspectiva que e pouco explorada na literatura e que também “justifica”, de
certa forma, ações masculinas que levam aos sofrimentos diversos das mulheres –
como os que são relatados em Canção para
ninar menino grande.
Sendo assim, não é uma obra tão
simples de ser lida quando se consideram seus pormenores; por isso, ao refletir
sobre os significados aqui trazidos, e preciso considerar tanto o ponto de
vista das mulheres quanto o de Fio: como as mulheres se sentem? E por que Fio
faz o que faz? É o que pretendemos destrinchar a seguir.
“Capítulos-personagens”
Canção para ninar
menino grande
é dividido, em pequenos capítulos que se dedicam a narrar cada um dos
envolvimentos do protagonista Fio Jasmim. Não há, no entanto, um padrão de organização
seguido pela autora, de maneira que, por exemplo, cada um dos capítulos se
dedique a uma história diferente – em geral, é o que acontece, mas não é regra.
Para ajudar no melhor entendimento da obra, portanto, vamos dividir, didaticamente,
a analise aqui presente por “personagens”.
Neide Paranhos da
Silva
A
moradora da cidade de Vale dos Laranjais e o primeiro caso de Fio Jasmim
relatado na obra. No entanto, a narradora deixa claro que não se trata do
primeiro relacionamento amoroso do rapaz.
Quando
conheceu Neide Paranhos da Silva, Fio tinha cerca de 20 anos e a moça acabara
de fazer 19. Ele já era noivo de Pérola e estava de casamento marcado; ela era
moça virgem e nunca havia se interessado por qualquer outro homem.
Fio
Jasmim chegou ao Vale dos Laranjais pela primeira vez em tempo de colheita das
laranjas, época em que a cidade estava em festa celebrando a ocasião. Por isso,
os moradores gostavam de receber, em meio às comemorações, os passageiros que
desembarcavam na estação de trem, incluindo os maquinistas. Nessas ocasiões, a
população aguardava os viajantes com cestas repletas de comes, bebes e
lembrancinhas diversas, e quem geralmente realizava essa recepção eram as
mulheres.
Logo
ao chegar à cidade, Fio se deparou com Neide Paranhos, eleita representante de
sua família para a recepção aos visitantes. Apesar de a moça não gostar da
agitação nem da movimentação que a cidade ganhava, foi disposta a realizar, da
melhor maneira possível, seu papel de anfitriã dos visitantes de Vale dos
Laranjais. Logo que o rapaz desembarcou na estação, já se sentiu atraído pela
presença de Neide.
A
moça era de uma família tradicional da região, os Paranhos, detentora de comércio
próprio e de terras e composta pela avó, Dona Ismênia, pela mãe, Floripes, pelo
pai, Francisco, além de dois irmãos mais velhos e três primas pequenas. Nesse
seio familiar, Neide era muito amada e acolhida, tanto e que não tinha
interesse em deixar sua casa e sua cidade para estudar, trabalhar ou viver em
meio a pessoas estranhas. Além disso, a moça sempre fora bastante reservada, o
que explicava o fato de pouco sair de casa e a falta de interesse nos rapazes.
No
entanto, a chegada de Fio mudou esse sentimento em Neide: ainda que preservasse
o desejo de nunca abandonar seu lar, pela primeira vez sentiu-se atraída por alguém.
A afeição foi recíproca, o que levou a um relacionamento amoroso que perdurou
por quase um ano. Durante esse período, o jovem sedutor visitou a cidade por
mais quatro vezes, ocasiões em que o casal voltou a se encontrar.
Apesar
do relacionamento que mantiveram durante esse tempo, Neide sempre suspeitou que
Fio fosse casado ou comprometido, mas essa questão nunca importou de verdade a
ela. Neide, em sua complexidade e independência, não se prendia aos costumes e
convenções da época. Seu desejo de ser mãe, mais forte do que qualquer
julgamento social, a impulsionou a buscar a maternidade sem se importar com as consequências
ou com o que os outros pensariam. Quando tomou conhecimento de que Fio não
retornaria mais ao Vale dos Laranjais, pois havia sido designado para cobrir
outra rota no trabalho, Neide não titubeou em pedir ao jovem rapaz que fizesse
um filho nela. Fio, inicialmente, hesitou, mas Neide garantiu que dele não
queria mais nada a não ser um filho. Segundo a narradora, talvez tenha sido o
primogênito de Fio.
A
família da moca, por sua vez, não compreendeu o ocorrido quando a gravidez foi
oficialmente anunciada por ela: não esperavam que Neide engravidasse fora de um
casamento, afinal, sempre fora bastante reservada. Os irmãos não entenderam
como aquilo pode acontecer, a mãe entrou em sofrimento profundo e o pai se
envergonhou e desejou, como solução, o casamento com o rapaz responsável.
Dentre todas as reações de espanto, Vó Ismênia foi a exceção, pois já havia
percebido, um tempo antes, o envolvimento do casal.
Neide
Paranhos seguiu feliz e em segredo com sua gravidez, e nunca revelou o nome do
pai nem mesmo para o filho. A história de Neide, marcada pela força e pela
determinação, ecoa a temática do abandono e da solidão na vida das mulheres,
presente em toda a obra. Apesar de não se encaixar no papel de vítima, Neide
também sofre as consequências da masculinidade tóxica de Fio Jasmim, que a
deixa sozinha para criar o filho. Fio Jasmim, por sua vez, foi embora de Vale
dos Laranjais sem saber, ao certo, se havia mesmo se tornado pai, e, com o
tempo, deixou Neide Paranhos da Silva perdida na vastidão de suas conquistas
amorosas.
Angelina Devaneio da
Cruz
Com
a crença profunda de que deveria aproveitar ao máximo seus últimos dias de
solteiro, Fio Jasmim se envolveu, às vésperas de seu casamento, com a
enfermeira Angelina Devaneio da Cruz, solitária moradora de Alma das Flores.
Angelina era a mais velha de sete irmãs – a primeira a conquistar um título de
nível superior – e tinha especial carinho por sua irmã mais nova, apelidada de
Setimazinha, que tinha sido criada por ela, já que a mãe morrera um tempo
depois de seu parto, após ter entrado em profunda depressão.
A
personagem é retratada como uma mulher decidida, que usou essa determinação
para conquistar seu diploma, e acreditava que dessa mesma forma conquistaria
seu almejado marido. Angelina não sabia com quem nem quando iria se casar, mas
tinha certeza de que, um dia, o casamento viria.

Assim
que desembarcou na cidade de Alma das Flores, Fio Jasmim - maquinista que ainda
não era conhecido pelos moradores da cidade – foi confundido com o tão
aguardado noivo de Angelina: perguntaram-lhe se estava de casamento marcado e o
rapaz confirmou, pensando, na verdade, em sua verdadeira noiva, Pérola. A
resposta afirmativa foi o que bastou para que se espalhasse pela cidade a história
de que Fio era o homem com quem Angelina se casaria. Todos se animaram com a
notícia, especialmente a moça, que acreditou, de fato, que o rapaz viera à
cidade por ela. Fio, por influência de seus colegas de trabalho, manteve a
mentira e se aproveitou da situação e da moça. Aqui, mais uma vez, temos
contato com um comportamento de Fio que demonstra sua irresponsabilidade e
falta de empatia diante das mulheres com quem se envolvia. Aproveitando-se da
ingenuidade e do sonho de Angelina, ele pensou unicamente em satisfazer seus
próprios desejos. Durante os cinco dias em que ficaram juntos, o protagonista
até sofreu com lampejos de um leve remorso por estar enganando Angelina,

Por
sua vez, Angelina acreditava, de maneira intensa, que aquele seria o homem de
sua vida, a pessoa com quem finalmente iria se casar. A autora descreve, com sensibilidade,
a ilusão e a esperança de Angelina diante do suposto comprometimento com Fio
Jasmim, e isso cria uma atmosfera de tragédia iminente.
No
entanto, como era de se esperar, Fio partiu, e a separação do casal foi
sucedida por grande zombaria por parte do próprio Fio e de seus colegas contra
a moça (e contra os habitantes da cidade), enquanto a mulher, solitária
novamente, entregou-se a uma tristeza profunda. A zombaria e o descaso de Fio reforçam
a crueldade e a insensibilidade do protagonista, evidenciando a sua
masculinidade tóxica e a visão completamente objetificada que tinha das
mulheres.
A
depressão entranhou-se de tal forma na alma de Angelina que seu destino se
tornou a morte: ela tirou a própria vida ao se jogar da ribanceira da cidade
(tal qual sua mãe fizera pouco tempo depois de dar à luz a Setimazinha).
Angelina não aguentou a dor. Sua morte, um reflexo da dor e do desespero
causados pelo abandono, é um alerta para as consequências devastadoras da
masculinidade tóxica. Mas até mesmo essa dor, quando Fio e seus amigos tomaram
conhecimento de sua morte, foi tratada com descaso, sob o pretexto de que “[..]
ela parecia mesmo aluada”. Essa frase, dita por Fio, demonstra sua incapacidade
de compreender a profundidade do sofrimento de Angelina e sua indiferença em
relação à tragédia que causou.
Aurora Correa Liberto
“Ela gostava das pessoas ditas sem juízo, pois
desde criança fora reconhecida como tal. Sem juízo, desmiolada, descabeçada,
aluada...” É dessa maneira, logo nas primeiras linhas do quarto capítulo, que Conceição
Evaristo se refere a Aurora Correa Liberto, moradora de Vila Azul. E tudo
porque a garota, ainda que tímida e nada namoradeira, gostava, desde criança,
de nadar nua nas águas do rio Naipã, atitude que atraía uma gama de admiradores
– de homens a mulheres – até a beira do rio para observá-la, e fazia com que
colecionasse um histórico de surras de sua família por não abandonar o costume.
É interessante observar, aqui, que Aurora é retratada como uma personagem que
não tem preocupações com as convenções sociais, o que contrasta com o
conservadorismo de sua família; por isso, de maneira com as convenções sociais,
o que contrasta com o conservadorismo de sua família; por isso, de maneira irônica,
é apresentada como uma moça “sem juízo” – sente-se livre e despreocupada com os
julgamentos que são impostos às mulheres que desafiam as normas sociais.
Aurora
nunca quis nada com ninguém, apenas desejava se banhar sem a importuna presença
de qualquer outra pessoa. Tanto é que, quando o trem Vapor Azul chegou à
cidade, ela pouco se importou. Sua indiferença a qualquer tipo de
relacionamento amoroso se manteve, no entanto, até o momento em que se
encontrou com Fio à beira do rio. Este, por sua vez, assim que soube da
existência da bela moça que gostava de tomar banho pelada, não hesitou em
partir ao seu encontro logo que chegou à cidade.
No
primeiro dia em que se encontraram, a conexão entre ambos não passou de uma
troca de olhares – ainda que, ao encarar o príncipe negro, Aurora tenha tido
vontade de chamá-lo para banhar-se no rio com ela. No entanto, Fio não se deu
por vencido e, no dia seguinte, “foi convidado para o gozo das águas”. Esse
encontro entre Fio e Aurora nas águas do rio Naipã simboliza a união entre a
liberdade e o desejo.
Ambos
ficaram juntos por dois dias inteiros até o trem da Companhia Ferroviária
Nacional partir, levando consigo o protagonista, como de praxe. Dessa vez,
entretanto, Fio causou uma pequena confusão antes da partida, pois, inebriado
pelos banhos infindos com a moça sem juízo, perdeu a noção do tempo e atrasou
em quase um dia a partida do trem. Por ser a primeira vez que esse tipo de
situação ocorria na história da CFN, seus colegas de trabalho, sempre
companheiros, passaram a tratá-lo com frieza e indiferença durante um bom
tempo.
Antonieta Véritas da
Silva
Dona
de posses e mãe de três filhos, Antonieta era conhecida por sua grande beleza e
por ser uma mulher bastante reservada, que pouco era vista fora dos limites de
sua casa, em Remanso Velho, local para onde a locomotiva de Fio Jasmim seguia.
Essas características sobre Antonieta já seriam suficientes para despertar o
interesse de Fio pela mulher, mas, como se sentia arrependido por sua irresponsabilidade
na última parada, o ajudante de maquinista prometeu não se deixar atrapalhar
por nenhum outro corpo-mulher.
A
promessa durou pouco, pois a beleza e a reclusão de Antonieta despertaram a
curiosidade e o desejo de conquista em Fio Jasmim, que viu nela um novo
desafio. Assim, depois de tanto ouvir falar sobre Antonieta Véritas da Silva,
um corpo desejado e desconhecido pelos homens do lugar, o protagonista rapidamente
se esqueceu de seu erro. No mesmo dia em que desembarcou na cidade, Fio foi até
a casa de Antonieta para descobrir, de perto, os encantos da mulher sobre a
qual todos comentavam. Essa primeira noite de visita se resumiu apenas a
conversas, e nada além disso aconteceu. Ao se despedir, Fio questionou a moça
sobre a possibilidade de visitá-la novamente durante sua estadia, e em resposta
ela disse que a vontade era dele, e só ele poderia se decidir por esse retorno.
Ainda que tenha soado indiferente à presença de Fio com essa fala, Antonieta,
mais tarde, em sua cama, ficou sonhando com a possibilidade de, finalmente, dar
fim à solidão que a acompanhava há tanto tempo – o que mostra que, apesar de se
mostrar indiferente, nutria a esperança de que Fio pudesse lhe oferecer o amor
e o companheirismo que lhe faltavam. Mas foi apenas às vésperas de partir que
Fio resolveu retornar à casa da mulher, o que acabou sendo a segunda – e última
– noite de encontro dos dois.
Embora
ambos não tenham mais se encontrado em nenhum outro momento após sua partida –
Fio chegava a rever algumas de suas amantes uma ou duas vezes por ano -, o
protagonista fez despertar em Antonieta a esperança de que pudesse ser o homem
que lhe traria “quietação da dor dos dias sem afeto”. Esse sentimento da
personagem apenas deixa claro que até a mais forte das mulheres possui suas fragilidades,
e é justamente por causa desse tipo de sentimento que Fio consegue consolidar
suas conquistas – e isso reforça sua irresponsabilidade diante desses
relacionamentos. Com o avançar da leitura, percebemos que a esperança de
Antonieta não se concretizou, já que nunca mais os amantes voltaram a se
encontrar. Mais uma vez, Fio despertou a ilusão em uma mulher e a abandonou
diante de um futuro que nunca se concretizaria. Apesar disso, o envolvimento
gerou frutos: um menino.
Fio
descobriu sobre a existência de Jasminzinho apenas sete anos mais tarde, quando
uma moradora com quatro filhos, mulher independente e de grandes posses,
comprou uma casa em Chegada Feliz, cidade em que Fio Jasmim morava com sua
esposa Pérola. O reencontro com o filho de Antonieta marca um momento
importante na trajetória de Fio Jasmim, trazendo à tona as consequências de
seus atos.
Dolores dos Santos
A
história de vida de Dolores revela as marcas do abandono e da desconfiança que
permeiam a vida de muitas mulheres, vítimas de uma sociedade patriarcal que as
marginaliza. Dolores é herdeira de grande fortuna deixada pela família e
cresceu desconfiada dos homens: fora renegada pelo avô – por ter sido concebida
fora do casamento – e abandonada pelo pai antes mesmo de seu nascimento. Mas
isso não a impediu de ser bastante namoradeira ao longo da vida, apenas
evitando qualquer tipo de relacionamento sério.
Essa
aparente contradição acerca dos desejos de Dolores revela a complexidade da
personagem, que busca o prazer e a afirmação de si mesma por meio dos
relacionamentos, mas, ao mesmo tempo, teme a vulnerabilidade e a dor que eles
podem causar.
Durante
anos, a moça viveu feliz com sua avó e sua mãe, e, mesmo no período em que o
avô era vivo, a presença e o amor das duas mulheres eram o que bastava para
ela. Com a perda de sua avó e, após um tempo, de sua mãe, Dolores dos Santos,
já adulta, deparou-se completamente abandonada, e teve de lidar sozinha com
essa dor, acompanhada apenas do antigo empregado do casarão onde vivia, Sô Damião.
Focou, então, nos negócios herdados na cidade de Ardência Antiga: a exploração
de terrenos da família que abrigavam pedras preciosas e o comércio da loja de
joias.
Foi
em um dia de trabalho na joalheria que ela encontrou, pela primeira vez, com
Fio Jasmim, que procurava uma joia para presentear sua esposa, Pérola Maria.
Mas, ao ser atendido por Dolores, anunciou que viera escolher um presente para
a irmã. Por algum motivo, ainda que, de início, não tivesse qualquer tipo de
interesse por Dolores, ele acabou mentindo.
A
mentira de Fio Jasmim revela sua natureza sedutora e manipuladora, usando de
falsidade para conquistar a confiança de Dolores. Ela, com faro apurado para
mentiras – especialmente de homens - desconfiou, mas acabou se deixando levar
pelos encantos de Fio. Durante os dias seguintes, antes da partida da locomotiva
para a cidade seguinte, Nova Ardência, Fio visitou a joalheria todos os dias
sob o pretexto de escolher o tal presente para a irmã, e ao longo desse período
o envolvimento entre os dois foi aumentando. Dolores, apesar de sua
desconfiança inicial, se rendeu aos encantos de Fio, caindo em sua armadilha de
sedução. Às vésperas de sua despedida, Dolores finalmente entregou-se aos
encantos do rapaz, o que talvez não devesse ter feito, pois, pela primeira vez,
mostrava-se verdadeiramente interessada por alguém, e era justamente por uma
pessoa que não tinha o menor interesse em firmar compromisso sério com ela.
Ela
chegou, inclusive, a ir atrás de Fio em sua parada seguinte – conforme um
pedido do próprio rapaz, que lhe deixou um bilhete antes de ir embora pedindo
que a moça fosse encontrá-lo. Fio ficou surpreso por Dolores realmente ter ido
atrás dele, e por isso se aproveitou da situação. A busca de Dolores por Fio demonstra
tanto a intensidade de seus sentimentos quanto a sua vulnerabilidade diante da
manipulação do homem. No entanto, o único laço que restou entre os dois, após
seus últimos momentos de amor, foram duas filhas gêmeas.
Durante
anos, Dolores tentou encontrar Fio Jasmim, chegando a escrever várias cartas
para a Companhia em que o homem trabalhava, na esperança de conseguir
contatá-lo, pois não queria que suas filhas tivessem o mesmo tipo de criação
que ela, que nunca soube quem era seu pai. A moça desejava ao menos uma foto
para que as filhas pudessem ter um rosto para associar ao nome conhecido por
elas.
A
persistência de Dolores em buscar Fio Jasmim revela seu desejo de oferecer às
filhas a possibilidade de conhecer suas origens e construir uma identidade
completa. A personagem desejava para as filhas uma vida diferente da que tivera
- ainda que tivessem sido abandonadas, ao menos teriam um rosto como
referência, algo que lhe fez falta durante sua própria infância.
Anos
mais tarde, quando já havia perdido as esperanças, Dolores recebeu, de um dos
funcionários da empresa, uma foto de Fio Jasmim acompanhado de sua esposa e de
seus filhos. Em um ímpeto de ódio, vão descobrir que Pérola Maria era, na
verdade, esposa de Fio (como desconfiava) e não sua irmã, considerou matá-la,
desejo esse que durou poucos instantes, pois entendeu que a mulher nada tinha a
ver com as atitudes do marido. Assim, ela decide que, tão logo suas filhas
tomassem mais idade, iria apresentá-las ao pai e aos irmãos. A reação de
Dolores ao descobrir a verdade sobre Fio Jasmim é compreensível, mas sua
decisão de não se vingar de Pérola Maria demonstra o sentimento de sororidade,
ou
seja, apoio, empatia e solidariedade por outra mulher, pois entende que, assim
como ela, Pérola Maria também era uma mulher enganada pela masculinidade tóxica
de Fio.
Dalva Amorato
Dalva,
a ruiva. Assim era conhecida a amante de Fio Jasmim em Águas Infindas, cidade
na qual ele e os colegas de trabalho precisaram fazer uma parada forçada após
deslizamentos atingirem os trilhos do trem em uma tempestade. Fio, na ocasião,
acidentou-se ao descer do vagão, e por isso precisou ficar alguns dias no
hospital local. Foi durante esse período que conheceu Dalva – embora não se
lembrasse dela depois. Uma das primeiras pessoas a visitar o maquinista, a
mulher mais rica da cidade ofereceu um quarto particular em sua residência caso
fosse necessário mais tempo para o rapaz se recuperar. Não foi preciso: em
menos de uma semana Fio já estava dentro da locomotiva, rumo à próxima cidade.
Dalva,
uma mulher forte e independente, surge como um contraponto à imagem frágil e
submissa de muitas personagens femininas. Ela desafia as convenções sociais e
assume o controle de sua própria vida, buscando realização pessoal e
profissional. Por não ter namorado, noivo ou marido, Dalva era alvo de muitas
especulações dos moradores da cidade, e ninguém sabia ao certo a sua verdadeira
história.
Ela
crescera na roça e, desde cedo, desejava mudar seu destino. Por isso, com pouco
mais de 10 anos de idade, mudou-se para a cidade e arranjou um emprego na casa
de uma senhora, onde, quatro anos mais tarde, estabeleceu compromisso sério com
o sobrinho da mulher. Foi com esse mesmo rapaz que, tempos depois, Dalva se
casou e teve dois filhos.
O
desejo dela, no entanto, não era se tornar uma dona de casa; por isso, vinte
anos após ter se mudado de cidade pela primeira vez, resolveu repetir o gesto,
fazendo as malas e partindo com suas duas crianças. Conceição, aqui, coloca-nos
em contato com uma personagem que não se conforma com o papel de esposa e dona
de casa, o que pode ser interpretado como uma busca por autonomia, liberdade e
realização pessoal, principalmente. Mais uma vez, tem-se uma personagem que
rompe com as expectativas sociais tradicionais de gênero, as quais geralmente
colocam a mulher no papel de cuidadora e responsável pelo lar.
Era
justamente esse o papel que o marido de Dalva esperava que ela exercesse e, por
isso, durante o relacionamento, nunca apoiou os desejos que a esposa tinha de
estudar e ter uma profissão. Então, diante do abandono, ele nada fez. O que
realmente importava para o marido era que ninguém soubesse da história, para
que sua reputação não ficasse manchada. A reação do marido de Dalva é um
reflexo, em primeiro lugar, da hipocrisia da sociedade da época, que valorizava
mais a aparência e o status social em detrimento da felicidade e da realização
pessoal das mulheres.

Foi
exatamente o que ela fez. Escolheu como lar a cidade Dias Felizes, onde passou
a trabalhar muito para fazer o curso de Farmácia. Como precisava de algo que
lhe desse retorno financeiro rápido, vendeu o corpo sem titubear – se quisesse
mudar a sua realidade e a de seus filhos, não tinha muita escolha. Em menos de
dois anos, matriculou-se em uma das melhores instituições de ensino da cidade. Como
resultado de sua trajetória, Dalva conquistou grande riqueza – fruto de muito
trabalho como representante de laboratório - e conseguiu matricular seus filhos
no melhor colégio da cidade. A determinação de Dalva em superar as dificuldades
e construir uma vida melhor para si e seus filhos é inspiradora, e apenas
reforça que as mulheres precisam ser resilientes diante de uma sociedade que as
subjuga e estereotipa: apesar das limitações sociais, elas são capazes de
alcançar seus objetivos.
Foi
nesse momento de sua vida que ela conheceu Fio Jasmim, ainda que ele não se
lembrasse dela, pois, ao visitar o rapaz, ele se encontrava pouco consciente.
Por
acaso do destino – e pelo trabalho exercido por Dalva como representante
farmacêutica –,
reencontraram-se
novamente na cidade de Grande Infância. Jasmim não se lembrava dela, mas sabia
de Sua existência. Desde então, continuaram se esbarrando em diversos outros
locais em função dos trabalhos que cada um exercia. Era nesses momentos de
reencontro que ambos se entregavam aos prazeres um do outro, e não tardou para
que Fio Jasmim a engravidasse – assim como fizera com tantas outras – não
somente uma, mas três vezes. Trata-se de uma relação marcada pela paixão e pelo
desejo, mas também pela efemeridade e pela falta de compromisso.
Com
o tempo, o destino se encarregou de afastá-los, mas estava nos planos de Dalva –
assim como nos de Dolores – apresentar seus filhos ao pai, um dia. Essa vontade
de apresentar os filhos a Fio Jasmim demonstra a importância da figura paterna
na construção da identidade e da história familiar.
Por
fim, ao analisar com mais cuidado essa personagem, percebe-se que, de certa
forma, ela reúne características das outras mulheres que nos foram
apresentadas: a independência de Neide e de Antonieta, a determinação de
Angelina, a falta de preocupação com as convenções sociais de Aurora, a preocupação
com os filhos e a resiliência de Dolores. São todas mulheres fortes a seu modo;
diferentes, mas parecidas.
Juventina Maria
Perpétua
Tina,
como era chamada em sua juventude, conheceu Fio Jasmim por acaso, caminhando
pelas ruas da cidade onde morava sua prima. Quando seus olhares se cruzaram,
“uma desconcertante ardência” lhe queimou as faces, mas não de timidez.
Esse
primeiro encontro entre Tina e Fio Jasmim é marcado tanto pela intensidade e
pelo desejo quanto pela inocência e pela vulnerabilidade da jovem moça.
Depois
desse primeiro encontro, Juventina acabou confessando seus sentimentos pelo tal
homem a Floripes, sua prima mais velha, a qual, por sua vez, não poupou
comentários sobre quem era o verdadeiro Fio Jasmim: um homem casado que
colecionava filhos e amantes por suas andanças. No entanto, isso Fio Jasmim: um
homem casado que colecionava filhos e amantes por suas andanças. No entanto,
isso não foi o suficiente para frear os sentimentos da jovem Tina – virgem e no
auge de seus 17 anos – pelo protagonista comprometido e mulherengo.
Indo
contra os conselhos da prima, Tina acabou se envolvendo com o rapaz por anos.
Embora Fio nunca tenha se apaixonado pela moça, ela, por sua vez, retribuiu-lhe
com um amor que alimentou sozinha durante parte significativa de sua vida. Para
Fio Jasmim, a única coisa que importava era a virgindade da moça, mas isso
porque se tratava “[..] de um experimento delicioso. Não penetrar Tina fazia
parte do jogo sexual dele [..]”. Logo, tudo o que o protagonista tinha a lhe
oferecer era o desejo por seu corpo jovem e belo, o que, para Tina, bastava.
A
relação entre Tina e Fio Jasmim é marcada pela desigualdade e pela exploração.
Fio se aproveita da inocência e da paixão de Tina para satisfazer seus desejos,
enquanto ela se entrega completamente, na esperança de ser amada e
correspondida. Juventina viveu esse relacionamento não correspondido – de maneira
intensa, como se fosse o primeiro encontro - durante mais de trinta anos. Ao
longo desse tempo, ela escreveu cartas carregadas de amor e paixão, enquanto
Fio nunca lhe ofereceu nada em troca. Até mesmo suas relações sexuais eram
incompletas: “Nunca tinha se adentrado na moça. Nunca tinha se dado inteiro
para ela. Nem havia perguntado se a forma de prazer que ele oferecia cumpria os
desejos dela”.
A
falta de reciprocidade e de entrega por parte de Fio Jasmim intensifica o
sofrimento de Tina, que se anula em nome de um amor platônico e irreal. Em dado
momento, Juventina resolveu deixar Fio, por mais que o amasse. Desejava
entender a profundidade desse sentimento que durava tantos anos, e foi só nesse
momento que ele descobriu que Tina era uma mulher livre, “[...] tão livre, que
se foi”.
Por
fim, é importante destacar que, para além do relacionamento que teve com Fio,
Juventina é a personagem mais importante para nós, leitores, afinal, é ela a
responsável por contar a história do protagonista e por nomear o livro.
Eleonora Distinta de
Sá
O
encontro de Fio com Eleonora se deu em um bar: a moça já estava na sétima
garrafa de cerveja após ter perdido um encontro importante com uma amiga que
não via há tempos. O olhar do rapaz, aguçado para mulheres, logo a descobriu
sozinha quando adentrou o local, e ele prontamente se sentou ao lado dela,
apenas à espera da melhor oportunidade para se mostrar “prestativo”, caso assim
precisasse – já sabemos qual era a sua real intenção.
Mas,
no encontro com Eleonora, Fio Jasmim se depara com uma mulher diferente das
outras, marcada pela dor e pela solidão. Diferentemente do esperado pelos
leitores - dado o histórico do protagonista –, Fio encontra acolhimento nos
olhos tristes de Distinta de Sá.
Foi
nesse momento que o protagonista, pela primeira vez, descobriu-se um homem
triste e solitário, ainda que encontrasse amor e carinho nos braços das
mulheres que conquistava. Também foi capaz de entender que era possível ter
outro tipo de sentimento e relacionamento com o sexo oposto, sem que isso
envolvesse jogos de sedução.
Já
Eleonora, traumatizada pela figura masculina – quando jovem, foi flagrada pelo
pai beijando a namorada do irmão, e a violência que se seguiu foi suficiente
para afastá-la da família –, finalmente pôde ter o acolhimento de um irmão,
algo que nunca experimentou. Entre Eleonora e o protagonista, houve um encontro
de corações, e ambos descobriram um no outro a fidelidade fraternal que nunca
haviam experienciado.
A
relação que se estabelece entre os dois personagens representa uma
possibilidade de cura – que Fio nem mesmo sabia que precisava - e de superação
dos traumas do passado a partir da compreensão mútua.
Pérola Maria
A
eleita do sedutor Fio Jasmim é retratada como uma mulher completamente submissa
às vontades do esposo. Presa a uma visão tradicional e patriarcal de casamento,
Pérola Maria aceita as imposições e as infidelidades do marido em nome da
manutenção da família e da maternidade. Ela acredita que um bom marido se faz
na figura de um homem trabalhador, presente na criação (e na concepção) dos
filhos e que trata a esposa com carinho - ainda que colecionasse uma porção de
filhos e amantes. Aos olhos dela, Fio era tudo isso.
Por
diversas vezes, Pérola ficou sabendo da infidelidade de Fio, fato que, de
maneira geral, tratava com certa indiferença, já que seu verdadeiro (e único)
prazer era ter filhos. Essa postura diante das traições de Fio Jasmim revela
sua anulação como mulher e sua submissão aos desejos e às expectativas
masculinas. É claro que, eventualmente, as traições do marido lhe doíam, e isso
a fazia sofrer profundamente; mas Fio tomava o cuidado de enchê-la de carinho
para que pudesse se esquecer de suas “aventuras” – as quais nunca confirmou,
mas também não desmentiu.
A
forma como Fio Jasmim manipula Pérola Maria com carinho e afeto demonstra sua
habilidade em controlar e manter a esposa submissa às suas vontades. Juntos,
Pérola e Jasmim tiveram nove filhos em um casamento que, até o momento em que
nos é contada a história, já durava vinte e quatro anos.
Por
fim, é importante analisar como Pérola – e todas as mulheres que nos são apresentadas
– é submetida a um relacionamento disfuncional marcado por infidelidade,
manipulação emocional e desequilíbrio de poder, especialmente em relação aos
papéis de gênero dentro da sociedade. Além disso, é explicitada a normalização
de comportamentos prejudiciais às mulheres dentro dos relacionamentos. A situação
de Pérola é um exemplo de como algumas mulheres podem se encontrar presas em relacionamentos
insatisfatórios e abusivos, buscando realização em outros aspectos da vida,
como a maternidade, especialmente devido às imposições conservadoras da
sociedade.
Fio Jasmin
Fio
Jasmim é o personagem principal da história de Conceição Evaristo. É um homem
mulherengo que trata a figura feminina de maneira completamente objetificada,
pois enxerga nela apenas duas grandes funções: satisfazer seus desejos sexuais
e gerar sua prole. Esse personagem representa o homem negro aprisionado pelos
estereótipos da masculinidade e da virilidade, impostos desde muito cedo por
uma sociedade racista e machista.
Não
bastasse a criação que recebeu, Fio Jasmim também sofria com uma lembrança que
o assombrava constantemente. Aos 8 anos de idade, tinha sido impedido pela
professora de interpretar o papel de príncipe da Cinderela, sendo substituído
por um colega loiro de olhos claros. Sendo preterido pelo menino branco,
transformou-se, no decorrer de sua vida, no príncipe negro que recebia
conselhos dos mais velhos sobre como reinar por onde se fizesse presente, com o
objetivo principal de conquistar e dominar as mulheres: “ele foi construindo
seu próprio reino”.
A
experiência de rejeição na infância e os conselhos machistas que recebeu
contribuíram para a construção da persona de “príncipe negro” de Fio Jasmim,
que usava a sedução e a conquista como forma de afirmação e de poder. No
entanto, é preciso ressaltar que, mesmo diante do rastro de desilusões amorosas
que deixava em seu caminho, Fio Jasmim sempre acreditou que era um homem bom e
correto, o que revela a sua incapacidade de enxergar as consequências de seus
atos e o sofrimento que causava às mulheres.
Para
completar sua imagem de virilidade, também aprendeu a nunca demonstrar fraqueza
– isso era reservado às mulheres. Ele foi instruído pelo pai, desde cedo, que
qualquer manifestação de dor ou tristeza devia ser deixada de lado, e que o
único sentimento permitido era o de raiva (desde que não fosse contra os mais
velhos) – raiva era a demonstração de um menino que havia se tornado homem. Foi
necessário encontrar Eleonora, em seus mais de trinta anos de idade, para que
Fio Jasmim olhasse para suas próprias dores e percebesse que é um sentimento
que também afeta os homens. O encontro com Eleonora marca um ponto de virada na
trajetória de Fio Jasmim, que começa a questionar os estereótipos da
masculinidade e a se permitir sentir e expressar suas emoções.
Análise da obra
Fio Jasmin: o fio
condutor
Ao
ler o título e o primeiro capítulo da obra, o leitor desavisado pode achar que
a história está centrada na figura de um homem, o protagonista de toda a
narração. No caso, é e não é: como não há de ser diferente, a autora expande as
expectativas de seus leitores e, ainda que sejamos conduzidos a acompanhar as
aventuras e desventuras amorosas de Fio Jasmim, tendo essa figura masculina
como personagem central, quem ganha destaque em parte significativa da obra são
as histórias das mulheres pelas quais a vida de Fio se entremeia, especialmente
porque a vida desse protagonista é contada a partir da perspectiva delas.
Então, no transcorrer dos mais de dezoito capítulos, deparamo-nos com os
desejos e sonhos dessas figuras femininas, que contrastam com as percepções
masculinas sobre elas e seus corpos. A obra se conecta ao conceito de
escrevivência, portanto, ao dar voz às experiências marginalizadas dessas
mulheres, revelando suas dores, seus anseios e suas lutas em uma sociedade que as
silencia e as oprime.
Sendo
assim, pode-se dizer que, em parte, são as histórias dessas várias mulheres que
ajudam a compor a vida desse homem. Elas, com suas vozes, experiências e
complexidades, tecem a trama da narrativa, visto que revelam a profundidade e
as contradições de Fio Jasmim, bem como constroem um painel da condição
feminina na sociedade – de subjugação em relação ao homem. Além disso, é
preciso destacar que o personagem principal possui um nome bastante sugestivo,
afinal, é o fio condutor que liga, de certa forma, as histórias de todas as
suas amantes.
Conforme
a leitura avança, torna-se perceptível que a autora traz um controvertido
protagonista, fruto de um determinismo social que o faz agir de maneira
desprezível com as mulheres. Resultado de uma masculinidade tóxica e de um
racismo impostos em sua vida desde muito cedo, Fio, ao longo da constituição de
suas relações, replica, na vida de suas amantes, os episódios de opressão
vividos em sua formação.
Isso
porque, não bastasse carregar uma grande desilusão que o persegue desde a
infância – a de não ter conseguido, em sua escola, fazer o papel de príncipe,
por ser negro, ainda que muito belo -, o atraente rapaz também é fruto do
relacionamento entre uma moça de 15 anos e um homem machista na casa dos 60.
Como resultado, Fio cria seu próprio reino, no qual ele é o príncipe sedutor
pelo qual as mais belas mulheres – todas de nome importante e bem-criadas – apaixonam-se,
e onde encontra terreno fértil para reproduzir aquilo que lhe foi ensinado pelo
pai ao longo de sua criação: de que ser homem de verdade é colecionar uma longa
fila de mulheres e jamais demonstrar dor, fraqueza ou tristeza.
É
claro que esse tipo de comportamento reverbera, ainda que em nuances
diferentes, na vida de cada uma das figuras femininas iludidas pelo suposto
amor de Fio, que se utiliza de seus corpos para satisfazer os próprios desejos
e não hesita em abandoná-las para se entregar à próxima paixão, no destino
seguinte.
Diante
de tudo isso, nós, como leitores, somos colocados em uma posição bastante
paradoxal, pois, ao mesmo tempo que é natural nos sentirmos condoídos pelos
sofrimentos de cada mulher que passa pela vida de Fio, é também compreensível o
sentimento de compaixão pelo protagonista conforme vamos nos apropriando de sua
história de vida e de suas dores. Afinal de contas, da mesma maneira que a
autora explora as experiências de mulheres atingidas pela desilusão resultante
da masculinidade tóxica, explicita os desafios associados aos estereótipos do
homem negro que, desde muito cedo, apresentaram-se de maneira impositiva a Fio
Jasmim.
O
título
Conceição
Evaristo afirma que, apesar de não ter nenhum “talento” relacionado à música,
sente-se muito atraída por esse tipo de produção, e por isso tinha o desejo de
construir um processo de escrita que pudesse se confundir com a música. No
entanto, quando essa relação se dá por meio da prosa, tem-se uma construção
linguística – diferentemente da poesia – que dificulta imputar características
que se aproximem da música, como rimas e ritmo.
Mesmo
assim, Conceição queria explorar esses recursos e desejava, de alguma maneira,
aproximar a obra da música, mas a única forma que conseguiu encontrar para
cruzar esses dois elementos foi em termos de conteúdo, criando uma personagem
que fizesse uma canção para o seu homem. Desse modo, a personagem Juventina, ao
“cantar” a história de Fio Jasmim, materializa essa relação entre prosa e música,
dando ritmo e melodia à narrativa através de sua voz e de suas experiências.
Paralelamente,
ainda de acordo com a autora, existe uma crença cultural de que a relação de
mulheres negras com seus homens ocorre, predominantemente, por meio de certa
maternalização, já que são o apoio de seus homens negros, os quais, por sua
vez, são submetidos a um determinismo social que prevê a imposição de uma
figura masculina estereotipada: viril e forte. Logo, as mulheres estão sempre nessa
função de maternalizar e de cuidar – essas funções, presentes em toda a obra,
revelam a força e a resiliência das mulheres negras, que assumem esse papel de
cuidar e de proteger seus homens mesmo diante das adversidades e das dores que
sentem.
Conceição
tinha o desejo de englobar todos esses contextos em sua obra, e por isso
Juventina cria essa canção: a personagem é capaz de compor uma canção para o
homem por quem ela continua apaixonada mesmo após o fim do relacionamento.
Dessa
forma, o título Canção para ninar menino
grande é profundamente simbólico e está intimamente ligado ao enredo e aos
temas centrais da obra.
Justificando o título
A
escolha do título remete às ideias de cuidado, proteção e afeto normalmente
associadas às canções de ninar, que são tradicionalmente cantadas para crianças
pequenas. No entanto, ao se referir a um “menino grande”, sugere-se que houve
uma inversão ou ampliação desse conceito, indicando que mesmo aqueles que já
não são mais crianças precisam de conforto e acolhimento. O “menino grande” do
título representa a fragilidade e a vulnerabilidade presentes em todos os seres
humanos, independentemente da idade, do gênero ou da etnia.
Logo,
o título da obra aponta para a necessidade desse “menino grande”, Fio Jasmim,
de se reconectar com sua própria história e com as mulheres que marcaram sua
vida, buscando a cura para suas dores e a superação de seus traumas, pois,
assim como uma criança, descobre que também precisa de apoio emocional e
carinho.
Relação com o enredo
No
contexto do enredo, o título reflete a relação entre Fio Jasmim e as mulheres
com as quais se envolve: quando chegamos ao fim do livro, percebemos que o
protagonista escondia muita fragilidade e dor por trás da máscara de homem
viril conquistador. As mulheres, portanto, são o suprimento para toda a
carência que existia debaixo da máscara galanteadora desse personagem. São
justamente elas que entoam a canção que nina e acalenta esse menino grande, o
qual, apesar de adulto, carrega feridas emocionais e traumas que remetem à
infância. O “menino grande” pode ser interpretado como uma metáfora para
aqueles - no caso da obra, os homens negros – que, apesar da maturidade, ainda necessitam
de cuidado e enfrentam desafios que exigem força e resiliência. A “canção” que
as mulheres entoam para Fio Jasmim, materializada na forma de acolhimento,
carinho e afeição, é um símbolo de amor, de perdão e de cura, representando a
possibilidade de superação dos traumas e das dores do passado.
Além
disso, a “canção”, no título, também pode simbolizar a narrativa em si, que
busca dar voz às experiências e às histórias das mulheres, oferecendo-lhes um
espaço de expressão e reconhecimento. Toda essa função acaba sendo exercida
pela figura de Juventina, a responsável por entoar a canção da vida de Fio
Jasmim e de “suas” mulheres.
Assim,
o título Canção para ninar menino grande
encapsula a essência da obra, que é tanto uma expressão de vulnerabilidade
quanto de força, refletindo a complexidade das experiências humanas abordadas
por Conceição Evaristo.
Narração
A
narração que se apresenta a nós, leitores, ainda que aparente ser simples na
leitura, é dotada de certa complexidade na execução, por causa da alternância
de focos narrativos, ora em primeira pessoa, ora em terceira pessoa. Trata-se
de uma técnica narrativa sofisticada, que visa enriquecer a experiência de
leitura ao oferecer uma visão mais completa e envolvente da história e dos
personagens. A autora nos traz, portanto, uma abordagem literária que valoriza
a complexidade, a profundidade psicológica e o engajamento ativo do leitor,
resultando em uma narrativa mais rica e impactante. Em suma, essa alternância
de focos contribui para a construção de uma narrativa dinâmica e multifacetada,
que aproxima o leitor dos personagens e de suas experiências.
Logo
nas primeiras páginas, temos contato com uma narradora-personagem – em primeira
pessoa, portanto – que resolve reproduzir uma história que sua amiga Juventina
tinha lhe contado. Trata-se da história de Fio Jasmim, protagonista da obra,
que coleciona uma lista de amantes (dentre elas, a própria Tina). Justamente
por ser a reprodução do que escutou e não do que vivenciou, a narradora
demonstra grande preocupação em apresentar os fatos da maneira mais fiel e
minuciosa, embora ela já adiante que isso talvez não seja completamente
possível.
É
dessa forma, então, que temos a obra narrada: por essa voz feminina que procura
conduzir a história de maneira acurada a partir daquilo que escutou.É
interessante notar, também, que essa narradora-personagem apresenta alguns
traços da própria autora. Em primeiro lugar porque, ainda que exista uma
narradora ficcional, sua voz se mistura à da escritora e cidadã Conceição
Evaristo. Essa fusão entre a voz da narradora e a voz da autora é uma característica
marcante da escrevivência, que busca romper com a distância entre ficção e
realidade, dando voz às experiências e às perspectivas das mulheres negras.
Trata-se de uma estética que a autora procura imprimir ao texto e, por isso, o
leitor fica, muitas vezes, sem saber se a fala é da narradora, da personagem ou
da escritora.
Além
disso, como já comentado em momento anterior, a obra passou por uma revisão
autoral, já que Conceição acreditava que a história original estava incompleta
por não ter explorado melhor personagens que considerava importantes.
Quando
lemos o primeiro capítulo, portanto, já é possível perceber alguns desses
aspectos.
A
narradora também deixa claro que esses “traços de incompletude” existem por
outro motivo que ela considera muito relevante.
Isso
significa, então, que talvez nem mesmo a escrevivência que Conceição Evaristo
coloca em prática é capaz de realmente suprir as necessidades que ela sente de
transmitir riqueza de detalhes e sensações. A busca pela completude na narrativa
é um desafio constante para a escritora, que reconhece a impossibilidade de
capturar a totalidade das experiências humanas.
No
entanto, se nos fogem detalhes que a autora supostamente não conseguiu
explicitar em sua completude, em compensação conseguimos identificar certo tom
memorial na narração, precisamente pelo fato de esta se suceder a partir das
lembranças que a narradora teve sobre o que Tina havia lhe contado – “De
repente me veio à lembrança tudo o que Juventina me contou”. E a narradora
garante que esteve atenta - se não na primeira, ao menos na segunda vez que
ouviu – a cada detalhe no momento da escuta, em grande esforço para ser fiel
aos fatos que iria narrar. Aqui, é preciso destacar que, ainda que a memória,
como fonte da narrativa, confira à história um caráter subjetivo e fragmentado,
é capaz de também trazer certo tom autêntico e emocional aos relatos –
características essenciais da escrevivência de Conceição.
É
quando começa a contar a história, portanto, que a narradora assume o foco de
onisciência em terceira pessoa – isto é, que não só observa o desenrolar das
ações, mas também sabe o que se passa no íntimo de cada personagem. Passamos,
assim, a ter contato com um relato que ultrapassa os relacionamentos amorosos
de Fio Jasmim, porque as reflexões do protagonista e, principalmente, das
mulheres com as quais se envolve ampliam-se de forma a trazer análises
profundas acerca da condição feminina – ainda que não de maneira explícita -,
com ênfase na sua objetificação.
Se
essas análises todas acontecem, significa que é impossível dizer que há uma
narração completamente centrada no factual; logo, embora a narradora nos diga
que tenta ser fiel aos fatos, ela não é completamente imparcial. Especialmente
porque quem conta originalmente todas essas histórias é Juventina, uma das
amantes que passaram pela vida de Fio. Dessa forma, como garantir que essa narração
está isenta de qualquer traço de parcialidade? Nesse sentido, várias razões
podem contribuir para esse aspecto:
*
Seleção de informações: o narrador
escolhe quais eventos, pensamentos e sentimentos dos personagens destacar. Essa
seleção pode influenciar a percepção do leitor sobre a história e os personagens.
No caso da obra em questão, essa seleção se faz presente a partir do momento em
que temos contato apenas com recortes tanto da vida de Fio quanto da vida de
suas amantes. Muito provavelmente, esses eventos foram selecionados de acordo
com a imagem acerca de cada indivíduo que a narradora (ou quem originalmente conta
a história) quis construir. Canção para
ninar menino grande, a vida de Fio é apresentada apenas em função de seu
relacionamento com as mulheres. Nesse caso, fica bastante claro que, ainda que
ele seja o protagonista, são as histórias dessas figuras femininas que ganham
destaque.
* Foco da narração: mesmo sendo
onisciente, o narrador pode escolher destacar mais certos personagens ou
eventos -ao receber mais informações sobre um lado do que sobre outro, a parcialidade
está estabelecida. Em Canção para ninar
menino grande, a vida de Fio é apresentada apenas em função de seu
relacionamento com as mulheres. Nesse caso, fica bastante claro que, ainda que
ele seja o protagonista, são as histórias dessas figuras femininas que ganham
destaque.
* Tom e estilo: a maneira como o
narrador descreve os eventos ou personagens pode carregar juízos de valor
implícitos. O uso de adjetivos, metáforas e outras figuras de linguagem têm a
capacidade de influenciar a forma como o leitor percebe a narrativa. Aqui,
esses recursos são notadamente presentes e contribuem para que se realce a
forma como a mulher é reificada e o modo como Fio reproduz os ideais machistas
e racistas que moldaram sua personalidade.
Como
resultado de todo esse processo, o leitor acompanha a construção de um
protagonista que se constrói de fora para dentro: a partir do determinismo das
ideologias às quais é submetido e das histórias das mulheres que passaram pela
vida dele. Essa técnica para a construção do protagonista revela, portanto, a
influência do meio social e das relações interpessoais na formação da
identidade individual, que, como pudemos perceber, resultou em um “homem
paradoxal”: machista e viril, mas frágil.
Linguagem
Não
é possível falar em linguagem, nas obras de Conceição Evaristo, sem abordar a
sua “escrevivência”, que, como já vimos, é uma forma de escrita que valoriza a
experiência e a perspectiva das próprias vivências, especialmente das mulheres
negras, rompendo com os padrões literários tradicionais e construindo uma
narrativa própria e autêntica. Dessa forma, como leitores, entramos em contato
com um texto que se preocupa em criar uma identidade cultural tanto por meio do
conteúdo quanto da forma. Sendo assim, para que essa identidade possa ser
devidamente construída, a linguagem assume papel de destaque.
Conceição
acredita que o texto responsável por criar uma identidade cultural é o
literário, mais do que o próprio texto de história. Então, se a literatura é um
lugar no qual se cria uma identidade nacional, ela precisa ser a mais diversa
possível. Para isso, a oralidade se torna peça fundamental da escrita da
autora, que se preocupa em construir um projeto estético: quer criar um texto
que seja o mais próximo possível da linguagem oral a partir da “gramática do
cotidiano”. Ao fazer isso, ela também afirma que a língua portuguesa se
apresenta de várias formas, e nenhuma é melhor do que a outra.
Todas
essas características são claramente notadas conforme se avança na leitura de Canção para ninar menino grande. Isso
significa, então, que a linguagem, no livro, é simples, direta e acessível, mas
não deixa de ser rica, potente e poética. As escolhas lexicais e construções
sintáticas visam à profundidade emocional de seus personagens, e também para
tornar menos complexos - ainda que não isentos de importância - temas como a
violência, o racismo, a desigualdade social, a objetificação das mulheres, o machismo
e até mesmo o afeto. É preciso destacar que a “simplicidade” da linguagem não a
torna menos profunda ou menos capaz de tratar de temas complexos. Pelo
contrário, a escrita de Conceição Evaristo demonstra que é possível abordar
questões delicadas e profundas com sensibilidade e clareza. Portanto, como a
autora é conhecida por seu estilo literário que combina elementos da oralidade
a uma escrita lírica e envolvente, sua obra nos expõe a uma linguagem que
destaca questões de identidade, memória e resistência, especialmente no
contexto da experiência afro-brasileira.
Ao
longo de toda essa construção, são utilizados metáforas e simbolismos para
enriquecer a narrativa, o que torna a leitura uma experiência sensorial e
emocionalmente impactante.
Tempo e espaço
Em
Canção para ninar menino grande, o
tempo e o espaço são elementos que se entremeiam para construir a narrativa e
aprofundar os temas abordados.
Tempo
O
tempo, na obra, é fluido e não linear, refletindo a maneira como a memória e a
história pessoal se entrelaçam. Essa construção temporal, fragmentada e
subjetiva, é também característica da escrevivência, que busca representar a
experiência do tempo de forma mais próxima da realidade das mulheres negras, a
qual, geralmente, é marcada por rupturas, deslocamentos e cicatrizes do
passado. Ele assim se configura porque a autora faz uso de digressões e
reminiscências para explorar o passado dos personagens, revelando como eventos
históricos e pessoais influenciam o presente – estratégia narrativa bastante
comum em suas obras.
A
história do livro se inicia com Fio Jasmim na casa dos 44 anos, mas mal nos
apresenta o personagem e já faz o primeiro flashback
para começar a contar a história do protagonista, levando-nos para vinte e quatro
anos antes, quando ainda era noivo da esposa, Pérola, para apresentar sua
primeira amante, Neide Paranhos, na cidade de Vale dos Laranjais.
A
narração prossegue, temporalmente, conforme Fio também avança em sua coleção de
casos extraconjugais. Nós, como leitores, conseguimos compreender a passagem do
tempo, portanto, à medida que a narradora nos atualiza sobre a idade de Fio ou
sobre um novo filho que teve com Pérola ou em alguma de suas outras relações.
Ainda
que a história siga uma progressão temporal crescente, no decorrer da narrativa
são feitas interrupções para o rememoramento de certos fatos e acontecimentos,
uma estratégia importante, pois só conhecendo o passado de alguns personagens é
possível compreender melhor suas atitudes e traços de personalidade. Logo, a
não linearidade do tempo reforça a ideia de que o passado não é algo superado,
mas, sim, uma ferida aberta que continua a influenciar o presente.
Essa
abordagem temporal, portanto, permite uma reflexão profunda sobre a
continuidade das experiências de opressão, de resistência e de comportamento às
quais os personagens são submetidos, tanto em relação às mulheres quanto em
relação a Fio Jasmim.
Espaço
O
espaço, na obra, é igualmente significativo, com uma ambientação que destaca
tanto os espaços físicos quanto os simbólicos. É importante ressaltar que, em
uma narração, “espaços físicos” e “espaços simbólicos” diferem-se entre si
devido à função que exercem na construção de significados dentro de um enredo.
Eles podem simplesmente representar o local físico onde se sucedem as ações dos
personagens (espaços físicos), como podem trazer significados mais profundos,
que não se limitam ao lugar físico onde os eventos ocorrem, mas também carregam
significados adicionais que contribuem para o desenvolvimento da trama, dos
personagens ou das ideias centrais da obra (espaços simbólicos).
Nesse
sentido, quando se analisa a obra, fica bastante claro que os espaços físicos,
como as cidades e vilas por onde Fio Jasmim passa, representam o cenário social
e cultural em que os personagens estão inseridos, enquanto os espaços
simbólicos, como o rio Naipã e a joalheria de Dolores, representam os desejos,
os medos e as frustrações dos personagens. Esses espaços são essenciais,
também, para ajudar na marcação temporal da história: cada nova cidade na qual
Fio desembarca representa uma nova aventura amorosa e, portanto, é sinônimo de
mais um período de tempo que se passou.
Os
ambientes apresentados ao leitor são as várias cidades e vilas que o trem da
Companhia Ferroviária Nacional percorre. Como Fio Jasmim é maquinista do trem
Vale Azul, é atribuição de seu trabalho realizar Viagens entre as cidades para
transporte de mercadorias. Dessa forma, os leitores também são conduzidos a
todos os destinos do protagonista.
Todos
esses espaços físicos são mais do que simples cenários; eles são parte
integrante da identidade dos personagens e influenciam suas vidas de maneira
profunda. Cada cidade visitada por Fio Jasmim representa um microcosmo da
sociedade brasileira, com seus valores, seus conflitos e suas contradições. Dessa
forma, Vale dos Laranjais, Alma das Flores, Vila Azul, Remanso Velho, Ardência
Antiga, Águas Infindas e Chegada Feliz ajudam a moldar a personalidade de cada
uma das mulheres, o que se reflete, também, no relacionamento que possuem com
Fio, como já analisado anteriormente.
No
conjunto, tempo e espaço em Canção para
ninar menino grande são usados para criar uma narrativa complexa, que
oferece uma visão profunda das experiências e dos desafios enfrentados pelas
mulheres plurais e, quase sempre, afro-brasileiras. Portanto, a construção do
tempo e do espaço, na obra, contribui para a criação de uma atmosfera densa e
significativa, que envolve o leitor e o convida a refletir sobre questões
sociais, culturais e existenciais.