05 março 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: CAMINHO DE PEDRAS (1)

 


Introdução

Caminho de pedras, publicado em 1937, é uma narrativa que explora dois aspectos não excludentes: de um lado, as dificuldades da militância comunista na cidade de Fortaleza nos anos 1930; de outro, a vida de Noemi, uma jovem simples, trabalhadora e forte, disposta a enfrentar todos os preconceitos sociais em nome de seus sentimentos. O primeiro aspecto tem um viés coletivo, social; o segundo explora a individualidade encantadora e complexa de Noemi, que vivencia os dilemas do amor e da luta política. Caminho de pedras tem uma linguagem clara e precisa, que encanta pela maneira com que descreve a realidade, bem como o mundo interior dos personagens, revelando seus sonhos, medos e esperanças. A obra confirma a habilidade de Rachel de Queiroz, autora que é o exemplo concreto da força de um talento que se apresentou precocemente, de forma inquestionável e poderosa, e que permanece admirável até os dias de hoje.

 

Biografia da autora

Biblioteca e sertão

Nascida em Fortaleza, Ceará, em 1910, em uma família tradicional, Rachel de Queiroz desde cedo teve contato com a excelente biblioteca de casa, onde se deleitava com obras de grandes autores como Machado de Assis e Eça de Queirós, além de autores europeus, principalmente franceses. Já na infância, a menina teve forte contato com o sertão, pois sua família tinha uma fazenda na região de Quixadá, a cerca de 160 quilômetros da capital.

 

Sucesso nacional

Rachel começou a colaborar na imprensa cearense com apenas 17 anos. Aos 19, escreveu, a lápis e deitada de bruços na cama, o romance O Quinze, publicado em 1930, que a consagrou no cenário cultural brasileiro. Importantes intelectuais da época, como Mário de Andrade e Augusto Frederico Schmidt, saudaram o livro com entusiasmo; alguns, como Graciliano Ramos, chegaram a duvidar que tivesse sido escrito por uma mulher. O sucesso do livro rendeu a Rachel de Queiroz o prestigiado prêmio da Fundação Graça Aranha, em 1931, no Rio de Janeiro. Na capital carioca, ela teve contato com membros do Partido Comunista. Nessa época, se iniciou sua ferrenha oposição a Getúlio Vargas, que seguiria firme vida afora e orientaria muitas de suas posições políticas posteriores. 

Comunismo e trotskismo

De volta a Fortaleza, Rachel de Queiroz se engajou na militância política, ajudando a fundar o Partido Comunista cearense. Em 1932, no entanto, sua experiência com o comunismo foi marcada por conflitos e desilusões, pois um comitê de censura exigiu alterações em seu segundo romance, João Miguel. Recusando-se a comprometer sua liberdade artística, ela rompeu com o partido e publicou a obra, aproximando-se do trotskismo – uma dissidência marxista contrária ao poder de Stalin na União Soviética.

Em 1933, nasceu sua filha Clotilde, que viria a falecer com apenas um ano e meio de idade. Tanto a dor do luto quanto a experiência na militância política devem ter servido de inspiração para a composição de Caminho de pedras, publicado em 1937, mesmo ano em que Rachel de Queiroz foi presa por três meses em Fortaleza, acusada de subversão. Em 1939, separou-se do marido e lançou seu terceiro romance, As três Marias. Com a notícia do assassinato de Trotsky, em 1940, ela se afastou da esquerda política.

Grande cronista e influência política

Em 1940, Rachel de Queiroz passou a viver com o médico Oyama de Macedo, uma união que duraria mais de quatro décadas. Morando no Rio de Janeiro, ela escrevia crônicas em grandes jornais e na revista O Cruzeiro, publicação de enorme sucesso. Rachel foi uma cronista notável, com textos bem-humorados e uma fluidez que lembra conversas casuais, mas apresentam, ao mesmo tempo, um uso econômico e preciso das palavras, elaboradas com grande efeito estético. Rachel também se tornou uma mulher influente, mantendo proximidade com importantes líderes políticos. Ela chegou a recusar o convite do presidente Jânio Quadros para assumir o Ministério da Educação, e era íntima do marechal Castello Branco, o primeiro presidente da ditadura militar. Ela, que tinha sido comunista, aderiu abertamente ao governo do amigo, pois alegava que João Goulart, o presidente deposto, era a continuidade do getulismo – que ela abominava. Em entrevistas, Rachel fazia questão de ressaltar sua reserva aos presidentes militares que sucederam a Castello Branco. 

Primeira mulher na Academia Brasileira de Letras

A consagração literária de Rachel de Queiroz talvez tenha evidenciado o descompasso histórico da ausência de mulheres na Academia Brasileira de Letras. Em 1977, sem fazer campanha e isolando-se na fazenda em Quixadá, ela foi eleita para uma cadeira na instituição. Seu ingresso foi um acontecimento que ganhou grande destaque na imprensa à época. 

Teatro, literatura Infantil, adaptações para TV

Além de sua vasta produção de crônicas, Rachel explorou outros gêneros literários, escrevendo duas peças de teatro e diversos livros infantis. Ela retornou ao romance em 1975, com Dôra, Doralina, e em 1992, quando já contava 82 anos de idade, com Memorial de Maria Moura, obra que alcançou grande sucesso e foi adaptada como minissérie pela TV Globo, ampliando ainda mais seu alcance e reconhecimento.

Rachel de Queiroz faleceu em 2003, prestes a completar 93 anos.

 

Caminho de pedras: contexto histórico

O romance Caminho de pedras foi escrito e publicado em um momento de grande agitação no Brasil. O país tinha passado por uma relevante transformação em 1930 com a suplantação da chamada República Velha por Getúlio Vargas, em um movimento que atendia às demandas de novos atores sociais por participação política, principalmente as camadas médias urbanas e o movimento tenentista. Eram tempos de intensa polarização política. Frentes populares de esquerda fundaram a Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento que se opunha às forças fascistas reunidas em torno da Ação Integralista Brasileira (AIB). A ANL contava com o apoio do Partido Comunista Brasileiro, agremiação que, desde a sua fundação, em 1922, passava longos períodos na ilegalidade. Em 1935, foi deflagrada a Intentona Comunista, tentativa de golpe de Estado que visava depor Getúlio. Prisões, exílios e perseguições políticas se tornaram comuns, culminando na instauração do Estado Novo em 1937, uma ditadura que se estenderia até 1945.

 

Segunda geração modernista: Neorrealismo regionalista

Caminho de pedras insere-se na chamada segunda geração do Modernismo brasileiro, um movimento literário que sucedeu o ímpeto iconoclasta iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922. Nos anos 1930, os escritores voltaram seu olhar para a temática social, procurando fazer da literatura uma ferramenta de denúncia, divulgação e conscientização dos problemas nacionais. Para tanto, orientaram-se por um impulso realista, afastando-se dos experimentalismos estéticos da primeira fase modernista, ou seja, deixaram de lado maiores arroubos de imaginação (como aqueles que marcaram as narrativas vanguardistas) em favor de uma descrição crítica e analítica da realidade brasileira. Na prosa de ficção, os autores retomaram procedimentos narrativos mais tradicionais, buscando contar histórias envolventes e acessíveis ao grande público. Isso não quer dizer que desprezassem por completo as conquistas do Modernismo, pois assimilaram a espontaneidade linguística que incorporou a maneira brasileira de se expressar, com seus coloquialismos e suas falas populares.

A segunda geração modernista agrupou prosadores muito inspirados, que formariam uma constelação conhecida como Geração de 1930. Esses autores realizaram um feito expressivo: uniram sucesso de público (foram verdadeiros best-sellers) e prestígio junto à crítica literária. Vários escritores nordestinos tiveram destaque nessa geração, compondo o que ficou conhecido como Neorrealismo Regionalista Nordestino, que aprofundou o mencionado impulso realista de denúncia social aliado a uma análise profunda das individualidades psicológicas dos personagens. Nomes hoje clássicos da nossa literatura protagonizaram esse momento, como Graciliano Ramos, autor de Vidas secas; José Lins do Rego, com Menino de engenho e Fogo morto; Jorge Amado, um dos escritores de maior sucesso da literatura brasileira, autor de obras de forte viés ideológico, como Jubiabá e Capitães da Areia; e Rachel de Queiroz, que, como já mencionado, ainda muito jovem encantou os leitores com a qualidade de O Quinze e de seus romances posteriores. Cabe mencionar ainda autores da região Sul que também seguiram por caminhos similares: Erico Verissimo e Dyonélio Machado.

Além da tendência de exposição crítica da realidade nacional, a segunda geração modernista apresentou escritores que exploraram narrativas de viés introspectivo, como Lúcio Cardoso, o que demonstra a diversidade e a riqueza desse período literário.

 

Síntese do enredo

Capítulo 1

Roberto sentou-se melancolicamente à mesa de um café na cidade de Fortaleza, à espera de um homem. Embora fosse sua cidade, tudo lhe parecia alheio, estranho, depois de dez anos de ausência. Enquanto tomava um sorvete, ele observava duas moças sentadas defronte, principalmente uma delas, que era risonha, viva, mas quando ficava séria assumia olhos vagos e um ar de tristeza. Roberto já se cansava de esperar, quando o homem lhe tocou o ombro. Era um pedreiro, que atuara como delegado do Bloco Operário, uma organização clandestina de trabalhadores no Rio de Janeiro. Roberto lhe entregou uma carta de apresentação, que o homem leu com dificuldade. Explicou que deixara o Rio de Janeiro porque já estava muito visado pela polícia, e que vinha na esperança de trabalhar no jornalismo. O operário prometeu apresentar-lhe outros companheiros à noite, e Roberto retornou para a modesta pensão, onde se estirou prazerosamente em uma rede, depois de tantos anos deitando-se em camas duras no Sudeste. 

Capítulo 2

Na salinha apertada de uma casa pobre, Roberto foi apresentado a um pequeno grupo de operários. Ele vinha refundar as bases de uma organização proletária e estava ansioso por unir-se fraternalmente àquela gente simples, mas os trabalhadores logo desconfiaram das origens burguesas do moço, bem como do papel de líder intelectual que ele vinha desempenhar no grupo. Enquanto Roberto se sentia constrangido diante da inesperada hostilidade, os homens debatiam calorosamente se deveriam ou não confiar em um membro advindo de uma classe social superior. Apenas um rapaz demonstrava simpatia. Depois que a polêmica serenou, as tarefas foram distribuídas, mas Roberto deixou o local intrigado com a desconfiança que encontrara. 

Capítulo 3

Na saída da reunião, o rapaz abordou Roberto: era Filipe, um modesto “guarda-livros”, tido como intelectual entre os trabalhadores. Roberto externou sua decepção com o grupo, mas Filipe explicou que a desconfiança era natural naqueles trabalhadores que já haviam desenvolvido certo nível de consciência de classe. Apesar disso, o jovem admitiu fissuras internas e disputas de ego no movimento proletário. Ambos tomaram o trem juntos e, ao se despedirem, Filipe ressaltou que, embora também fosse visto como “intelectual”, ele morava “nas areias”, na periferia pobre da cidade, onde não havia asfalto nem transporte público. Roberto inquietou-se com aquela fala enigmática. 

Capítulo 4

Filipe caminhava na rua de areia, ladeada de casas pobres, observando o movimento dos vizinhos. Ele morava com a mãe, dona de uma pequena venda ao lado de um beco. Por ali passou Angelita, uma costureira, velha amiga de olhos claros (“pareciam feitos de água, de vidro transparente”), a quem Filipe convidou a voltar para o movimento operário. Ela aceitou imediatamente, mesmo lembrando a fome que passou com os filhos no tempo em que Assis, seu marido, fora preso e espancado por participar de greves. Desde que fora libertado, ele se negava a participar de qualquer movimento político. Filipe admirou a firmeza de caráter da amiga, e também a beleza dos olhos dela. 

Capítulo 5

Roberto conversava com as duas moças que vira no café ao chegar a Fortaleza. Desde aquele dia ele tinha notado Noemi, a morena, mas sabia que ela era casada e tinha um filho. Ela, por sua vez, reparava no jeito “fugitivo” dele, na maneira como interrompia a comunicação, isolando-se. Ao se despedirem, em frente ao trabalho dela, o moço não escondeu o interesse em conversar mais vezes. Noemi era funcionária de uma Fotografia, onde retocava as imagens tiradas por seu patrão, seu Benevides, um homem com jeito de artista e olhar malicioso, que sempre elogiava as curvas adolescentes das meninas que fotografava. 

Capítulo 6

Roberto encontrou na praça do Ferreira um grupo de jovens intelectuais comunistas. Eles riam e faziam piada, comentando que Paulino, um deles, almejava a revolução apenas para conquistar as belas mulheres que via nos cartazes de cinema ou andando faceiras pela praça. As melhores garotas sempre ficavam com os burgueses, com os homens que tinham dinheiro. Roberto, incomodado, advertiu que a conversa dava a impressão de que as mulheres existiam apenas para o prazer dos homens. Apesar do alerta, a rodinha de jovens ficou sonhando com a utopia de um tempo em que o interesse financeiro não interferisse nas relações entre homens e mulheres. 

Capítulo 7

Roberto encontrou-se com João Jaques, o marido de Noemi, em uma roda de amigos. Enquanto os homens discutiam política, ele se entregava às lembranças da moça, da alegria e da beleza dela, mas também de tudo que os separava: o marido, o filho, os deveres. Para sua surpresa, João Jaques o convidou para jantar em casa, onde foi recebido com muita simpatia por Noemi e por Guri, o filho pequeno do casal, a quem Roberto agradou fazendo brincadeiras. Embora reinasse um clima de amizade familiar, ele não conseguia esquecer que aquela esposa dedicada e mãe amorosa era também a funcionária da Fotografia que tanto lhe interessava. Simultaneamente, outra família também se reunia em torno de uma mesa: a de Angelita, a costureira, que contava ao marido sobre o convite para voltar ao movimento operário. Mas Assis, que sofrera na cadeia, alegou que não era mais “besta” para se envolver com política. Angelita ficou desapontada com a covardia do marido. 

Capítulo 8

Em uma reunião tensa do grupo comunista, ficou evidente a divisão entre os “Gravatas”, como eram chamados os intelectuais, e os “Tamancos”, os operários, que apontavam a origem burguesa dos primeiros, acusando-os de sempre ambicionar a liderança do movimento. Em conversa com Roberto enquanto voltavam para casa, Filipe percebeu o interesse do amigo por Noemi, informando que João Jaques, o marido dela, havia sido expulso da organização no Rio de Janeiro. Ao chegar em casa, Filipe refletiu sobre as motivações que levavam pessoas como ele e Roberto a se engajarem na luta dos trabalhadores, os quais, na prática, eram muito diferentes da imagem idealizada nos livros de propaganda política. Em sua opinião, o amigo Roberto penava por ter saído “direto dos livros de Rousseau para a fábrica”. 

Capítulo 9

Tarde da noite, ao sair de uma reunião política, a mente de Noemi fervilhava com histórias “de mulheres heroicas, livres e valentes”. Sua alma se sentia livre e, ao mesmo tempo, consciente das injustiças que castigavam os mais fracos. Ela recordava seus anseios juvenis de viagens, pensando em como o casamento havia frustrado aqueles impulsos de vitalidade e ousadia. Enlevada por essas reflexões, ela tocou o braço de Roberto, que retribuiu o gesto de afeto. Ao chegar em casa, encontrou o marido contrariado, diante de uma garrafa de cachaça e várias pontas de cigarro. Ele não queria que ela se engajasse em organizações políticas, uma fonte de decepções. Além disso, insinuou que o interesse dela ia além da política, pois envolvia também sentimentos por Roberto. A discussão foi dura, e ela adormeceu perturbada, reconhecendo o quanto tudo lhe parecia, de fato, novo e diferente. 

Capítulo 10

Ao chegar à casa de Noemi, Roberto recebeu a notícia de que ela estava doente, acamada. João Jaques, solícito, convidou-o a visitá-la no quarto. Roberto se angustiava de amor ao lado dela, enquanto o marido a amparava do outro lado da cama. Mesmo debilitada, Noemi percebeu o “ar tenso e passional” que pairava no ambiente. 

Capítulo 11

Já recuperada, Noemi conversava com Roberto em um café. Ele expunha a tensão em que ficara com a doença dela, mas ela achou que ele estava exagerando aquele envolvimento emocional. Roberto rispidamente se levantou e foi embora. Aturdida com aquilo, Noemi encontrou Filipe, que comentou a tendência do amigo em dissimular sentimentos para conquistar as mulheres. Ela se perturbou, mas defendeu Roberto. 

Capítulo 12

Vários militantes circulavam pela praça da estação ao fim da tarde, quando os ferroviários deixavam o trabalho. Um comício se iniciou, com discursos inflamados contra a exploração dos trabalhadores. Uma mulher discursava revoltada contra a prisão do marido, apenas um “operário idealista”, quando a polícia irrompeu de súbito. Todos fugiram assustados, um homem ferido ficou sangrando no chão. Roberto foi preso. 

Capítulo 13

Após o comício, Noemi chegou desesperada em sua casa. João Jaques a esperava, nervoso; ele atribuiu o fracasso do movimento a Roberto. Noemi reagiu, chamando o marido de covarde. Ele rebateu: “Você o que quer é encobrir com capa de revolução muita coisa ordinária”. 

Capítulo 14

Oito dias depois do comício, Filipe anunciou a Noemi que Roberto fora solto e a visitaria naquela noite. O marido não estava em casa. Houve intensa emoção, e Roberto exigiu que se revelasse tudo a João Jaques, chegando a insinuar que ela enganava a ambos. Ela implorou por compreensão e reafirmou seu amor. Ao se despedirem, quando seus rostos se aproximavam para o beijo tão esperado, perceberam o vulto do marido chegando. João Jaques os cumprimentou, entrou em casa e se fechou em um silêncio angustiado. Noemi, porém, não teve coragem de revelar tudo ao marido. 

Capítulo 15

No dia seguinte, João Jaques acordou com aspecto distante e gestos evasivos, enquanto o Guri, do quintal, soltava gritos de entusiasmo por ter matado uma cobra de duas cabeças. A alegria e a inocência da criança aproximaram pai e mãe em uma mesma risada. À mesa do café, repetindo gestos cotidianos e familiares, tomada por intensa paz, Noemi decidiu não perturbar aquela harmonia com as atribulações da noite anterior. 

Capítulo 16

Ao saírem de uma reunião política, Roberto e Noemi caminhavam juntos. Ele se sentia injustiçado por Noemi não ter rompido com o marido, mas ela chorou, alegando a dificuldade de terminar o casamento com um homem dedicado, bom pai e bom marido. Roberto insistiu para que ela o acompanhasse até seu quarto na pensão, onde enfim se beijaram ardorosamente; mas, ao se despedirem, ele demonstrou rancor pela hesitação da moça. Já sozinha, ela refletia sobre como o amor, depois de assumido por eles, tornou-se tenso, dominado por uma vontade bruta de se encontrarem. 

Capítulo 17

A chegada de um delegado comunista do Rio de Janeiro deu início a uma fase de intenso trabalho político, com muitos relatórios e atividades. Após mais uma reunião, Noemi convidou Roberto e Filipe para um café em sua casa. João Jaques sentou-se também à mesa, mas ficou indiferente, distante, e logo decidiu ir embora. Os outros dois rapazes o acompanharam, enquanto Noemi deitou-se em sua cama sem conseguir dormir, pois ficava assustada quando via João Jaques e Roberto juntos. 

Capítulo 18

“Depois da hora febril do amor”, Roberto e Noemi estavam entrelaçados na cama. Enquanto ele dormia, ela refletia sobre a noite anterior, quando estivera na mesma posição com outro homem, seu marido. Sentia de maneira poderosa que agora “o outro” era João Jaques, e aquela derradeira união física não tivera nenhum envolvimento de alma. “– Você está vendo que até isso é inútil?”, dissera ela ao marido, após o impulso que os levara à cama ter se dissipado. 

Capítulo 19

Durante cinco dias, Noemi não falou com João Jaques; viveram na mesma casa como estranhos. No quinto dia, Roberto foi até lá e revelou a João Jaques que amava Noemi, e que uma solução era necessária. João Jaques afirmou que partiria, mas levaria o filho consigo. Desesperada, Noemi apelou ao Guri, assustando o menino ao dizer que o pai o afastaria dela. Indignado, João Jaques pôs o chapéu e saiu. 

Capítulo 20

Ao chegar do trabalho no dia seguinte, Noemi recebeu de Guri a notícia de que o pai fizera as malas e partira. Noemi foi tomada por um susto e pelas lembranças de João Jaques. Diante da partida irrevogável, ela se enterneceu e sentiu saudades do marido. 

Capítulo 21

O relacionamento de Noemi e Roberto se tornou alvo de comentários entre os militantes, que, de forma geral, condenavam a moça. Na Fotografia, onde ela trabalhava, as coisas também mudaram: Guiomar, sua amiga solteira, passou a evitá-la. Tempos depois, Seu Benevides a despediu, alegando que a clientela, sabendo da separação, se incomodava com sua presença. Depois de residir em uma pensão familiar com o filho, Noemi foi morar com Roberto, e a relação deles entrou em uma rotina de trabalhos intensos. 

Capítulo 22

Noemi conversava com Filipe sobre a possibilidade de um emprego e o convidou para jantar em casa, na companhia de Roberto. O agora chefe da casa refletiu sobre como, pouco tempo antes, era ele quem se sentava como convidado à mesa de Noemi. Durante o jantar, a comadre, uma senhora que trabalhava para eles, entregou uma carta de João Jaques endereçada ao Guri. O menino ficou radiante com as notícias do pai, pedindo que a carta fosse lida e relida. Entre os adultos, a carta soava como uma vitória de João Jaques, que invadia com a sua presença o novo lar do casal. 

Capítulo 23

Noemi foi visitar um antigo amigo que estava muito doente, com tuberculose. Ela e Roberto se dispuseram a arrecadar dinheiro para ajudá-lo. Cinco dias depois, indo entregar o que haviam conseguido, Noemi recebeu a notícia do falecimento do amigo. Ela foi então tomada de intensa aflição com a morte, com medo de que Roberto morresse, com a ideia de que não tinha familiares consigo na cidade – a mãe, já idosa, vivia no Acre (onde Noemi tinha nascido) cuidando dos netos. 

Capítulo 24

Em um café, Roberto conversava com Filipe, alertando-o sobre o perigo de ser preso. Insistentemente, sugeria que Filipe assumisse um posto na inspetoria da organização em Russas, no interior do estado. Filipe titubeou, lembrando-se das conversas afetuosas com Angelita, em que a camaradagem se perfumava “com uma aragem de sexo”, mas concluiu que isso não deveria esmorecê-lo. Decidiu que partiria para o interior. 

Capítulo 25

O Guri ardia em febre. A comadre e Roberto asseguravam que toda criança às vezes tem febre, mas Noemi ficou inquieta, exigindo que o companheiro trouxesse um médico. O doutor era simpatizante da causa operária e atendia os militantes gratuitamente. Ele notou certa gravidade na doença, e a mãe, em seu íntimo, exigia que a ciência curasse imediatamente seu filho. Após uma série de terríveis convulsões, em que “um tremor violento agitava a criança, os bracinhos se sacudiam, tiritando, os olhinhos se envesgavam, cegos, a boca se torcia num esforço mudo e apavorante”, o menino faleceu. Noemi, dilacerada pela dor e pela ternura, vestiu o filho morto, colocando os bracinhos inertes em volta de seu pescoço, na tentativa de um último abraço. 

Capítulo 26

Filipe convidou Noemi para visitar Angelita. Ele queria se despedir antes de partir para o interior, e acreditava que a amiga precisava se distrair da dor do luto. No entanto, ao ver os filhos de Angelita brincando saudáveis na rua, Noemi ficou profundamente abalada. Em seu íntimo, revoltou-se com aquela explosão de vida e de alegria, enquanto seu filho estava morto. Voltou para casa desesperada, com ar de demência, e se atirou na cama em um choro convulso e atormentado. Horas depois, quando Roberto chegou, encontrou-a exausta, soluçando de vez em quando o nome do Guri. 

Capítulo 27

Um ano depois, Noemi subia vagarosamente a ladeira do Gasômetro. Estava cansada, os pés doíam. Reconheceu em um muro uma pixação feita por Roberto: “Liberdade para...”, mas o nome se apagara. Ela estava sozinha, todos haviam partido: João Jaques, Guri, Filipe e outros militantes. Roberto também: ele fora preso em uma madrugada enquanto enfiavam panfletos debaixo das portas das casas. Ela também fora presa, mas logo foi solta, pois estava grávida e não tinha antecedentes criminais. Diziam que o companheiro fora enviado para uma colônia penal em uma ilha do Sul. Ela se desesperou, sozinha, sem dinheiro e sem emprego, até conseguir colocação como costureira. Passava os dias curvada sobre a máquina, enquanto o filho de Roberto crescia em seu ventre. Subindo a ladeira, pisou em falso em uma pedra solta e sentiu o filho se mexer. Ela pôs a mão na barriga, exclamando enternecida: “Mais devagar, companheiro!”. E voltou a subir lentamente a ladeira.

 

Análise do enredo

Militância comunista

Caminho de pedras retrata a vida e as relações de um grupo de militantes de esquerda. É possível ligá-los ao comunismo, apesar de a obra não mencionar em nenhum momento essa corrente política. Contudo, o romance está longe de idealizar os personagens ou a ideologia comunista. Tampouco se dedica a minúcias na descrição da miséria social, como foi comum em outras obras da Geração de 1930. Em vez de atribuir características heroicas aos militantes, Rachel de Queiroz opta por expor as dificuldades enfrentadas pelo movimento, suas dissidências internas e as mesquinhas disputas de ego que permeiam suas relações.

Todos se tinham envolvido na discussão, todos gritavam. Só Roberto, magoado, intimidado, calava-se. Aquela gente repetia apaixonadamente chapas sonoras, tais como as havia lido nos livros de divulgação. Mas, debaixo daqueles “burguês”, “revolução”, “classe”, debaixo de toda aquela gíria decorada, palpitava o calor apaixonado de convicções violentas, havia ódio, cólera e desejo de desforra.

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 16.

 

O trecho mostra o quanto era superficial o uso do vocabulário comunista pelo grupo, o que pode estar relacionado tanto à incipiência da conscientização política em Fortaleza quanto à deficiente escolarização dos proletários que compunham o movimento.

Além do caráter precário no uso dos conceitos políticos, o movimento é cindido por desconfianças mútuas e ambições de mando, inclusive entre os operários. Apesar dos conflitos internos, há também entre os militantes a consciência de que seu grupo era numericamente diminuto e que deveriam buscar resolutamente a união, visto que havia ainda uma enorme massa de trabalhadores a ser trazida para o movimento político.

A questão do envolvimento dos jovens intelectuais com os ideais do comunismo recebe um tratamento irônico na cena em que eles discutem sobre as moças que passavam faceiras e indiferentes pela praça. Ansiosos por relacionamentos amorosos, eles atribuem a indiferença feminina ao fato de que eram pobres. Acreditavam que as “melhores mulheres” se interessavam apenas pelo dinheiro dos burgueses. Roberto chegou a advertir que aquelas ideias reduziam as mulheres ao papel de mero objeto de prazer dos homens. Movidos pelos ideais igualitários de uma sociedade sem distinções sociais, os jovens não deixam de expressar egoísmo individualista ao associar as mulheres ao mero usufruto do prazer masculino. Isso se confirma com o alerta dado ao grupo por Samuel, um militante judeu, pois aquele assunto estava despertando neles o desejo sexual, o que os obrigaria a apelar para as prostitutas que atuavam nos becos da cidade: “— Meninos, vamos pensar em outra coisa, falar em política. Senão daqui a pouco estamos aí por esses becos, gastando os últimos vinténs...”. Essa fala evidencia o contraste entre o discurso revolucionário e a realidade dos jovens, que, apesar de suas aspirações por um mundo mais justo, ainda se deixam levar por impulsos e comportamentos que perpetuam desigualdades e injustiças.

 

Gravatas X Tamancos: intelectuais e proletários

As relações entre os militantes são fortemente abaladas pelas diferenças sociais e culturais entre intelectuais e proletários. Já na chegada de Roberto a Fortaleza, é possível perceber o caráter dessa distinção, pois o homem que o recebe demonstra dificuldade em ler uma simples carta de apresentação, evidenciando o contraste entre o mundo letrado do intelectual e a realidade dos trabalhadores. Na primeira reunião do partido, Roberto se decepciona com a recepção fria e desconfiada dos operários, que o veem como um intruso de classe superior. Um preto alto chamado Vinte-e-Um lidera a desconfiança, questionando as motivações e a sinceridade de Roberto e alegando que os operários tinham “de andar com os seus pés”. O rapaz se defendia ao afirmar que era apenas um jornalista pobre e explorado, que há tempos desertara da burguesia.

Apesar das afirmações de Roberto, intelectuais e operários têm, de fato, comportamentos diferentes. A distinção se dá inclusive na troca de denominações jocosas: os primeiros são chamados de “Gravatas”, enquanto os demais são os “Tamancos”. Os intelectuais andavam em bandos e “eram ruidosos e alegres como estudantes”. Os operários militantes não tinham tempo para ficar conversando em rodinhas de amigos, estavam sempre exaustos devido ao trabalho extenuante, e o pouco tempo de folga que tinham era ocupado pelas tarefas do sindicato e pela conscientização política dos “camaradas inconscientes”. Essa divisão se reflete até mesmo nas instruções do partido, que proibia intelectuais e operários de serem vistos juntos na rua, a fim de evitar suspeitas.

A hostilidade dos operários militantes, porém, não se baseia apenas em preconceito. Filipe explica a Roberto que essa desconfiança é natural entre aqueles que tiveram contato com as ideologias políticas, revelando consciência de classe e um receio de serem manipulados ou traídos por aqueles que não compartilhavam de sua realidade.

Os trabalhadores se inquietam com o desejo dos intelectuais em controlar o movimento, desconfiando das razões que levaram esses pequeno-burgueses a se interessar pela luta de uma classe que não era a deles. Em uma reunião tensa, Luís de Souza, um dos trabalhadores, expressa essa desconfiança de forma direta e contundente, acusando os intelectuais de afetarem grande sacrifício pelos operários, os quais deveriam “agradecer a esmola, de joelhos”, e entregar-lhes de mão beijada o controle do movimento.

Para angariar a simpatia dos trabalhadores, alguns dos jovens intelectuais de origem burguesa chegam a adotar comportamentos operários, vestindo roupas surradas e agindo de modo mais simples. Roberto, por sua vez, atribui seu interesse em lutar pelos trabalhadores a um “impulso sentimental” que o arrastou. Para Filipe, era justamente o sentimentalismo do amigo que provocava a ingenuidade de acreditar que os trabalhadores o acolheriam de braços abertos. A realidade era muito mais complexa do que isso: “Tinha pensado em ser herói e receber aclamações – e era tratado como um intrometido e o que recebia era pontapés...” [...]. “Literato cuida que operário sai direto dos livros de Rousseau para a fábrica...”.

Possivelmente influenciada por sua experiência pessoal com os comunistas que tentaram censurar sua obra, Rachel de Queiroz se distancia do que se poderia chamar de romance proletário típico, aquele que idealiza e promove ideais revolucionários. Caminho de pedras não se detém na descrição crua e direta da miséria social, mencionando-a apenas de passagem. A utopia comunista de uma sociedade igualitária, como vimos, é por vezes evocada de forma irônica, por jovens que a associam à conquista de mulheres. A relação entre intelectuais e operários também não é retratada como uma troca harmoniosa de saberes, em que a classe letrada iluminaria os trabalhadores com os conceitos do marxismo.

Apesar disso, a narrativa claramente fica do lado dos militantes, mostrando-os como indivíduos interessantes, admiráveis, cheios de humanidade e dotados de um sincero impulso de lutar por um mundo melhor. Mesmo com fragilidades e contradições, eles são retratados com empatia e respeito, revelando a complexidade da luta política e a força do idealismo que os move. Essa abordagem, que foge do maniqueísmo e da idealização, confere à obra uma profundidade e uma autenticidade que a distinguem de outros romances da época.

 

Espaço público x espaço privado

Os espaços no romance Caminho de pedras são claramente delimitados. A trama se passa em Fortaleza, capital do Ceará. A atividade política dos militantes é subversiva, ilegal. A vigilância do Estado é grande, e há o perigo sempre iminente de prisão. As reuniões políticas acontecem em ambientes privados, nas casas de militantes, procurando não atrair a atenção dos vizinhos.

Ao mesmo tempo, a incursão política em espaços públicos não deixa de ser necessária, pois é preciso arregimentar novos membros para o partido. A praça, como locus público por excelência, deveria acolher a todos os estratos sociais; é ali o espaço de encontro, onde homens e mulheres trocam flertes e olhares. No entanto, quando utilizada para a conscientização política, a praça é um ambiente ameaçador, que requer atenção e cuidado. Os intelectuais se reúnem ali em animadas rodas de conversa, enquanto os trabalhadores transitam indo ou voltando do trabalho. O evento mais radical se deu com a realização de um comício em que vários operários expuseram sua revolta contra as condições de vida e contra a arbitrariedade do Estado, que mantinha presos trabalhadores politizados. O clamor de uma mulher pela libertação do marido preso ilustra a brutalidade da repressão política: ela alegava inflamadamente que o marido não era ladrão para ser mantido preso, deixando a família desamparada e passando fome.

O comício foi dispersado pela aparição repentina das forças repressoras do Estado, que resultou na morte de um homem negro.

A atividade política no espaço público, além dos comícios e abordagens pessoais, se dava por meio da disseminação dos ideais de liberdade em mensagens subversivas: pichações em muros, cartazes pregados nos postes, boletins e panfletos passados por debaixo das portas. Noemi e Roberto, em uma dessas ações noturnas, foram surpreendidos pela repressão.

Continuaram andando, trabalhando. De súbito, ouviram um ranger de freios e desembocou na esquina um automóvel escuro, de luzes apagadas, silencioso. Os dois se encostaram à parede, com coração na boca. Roberto ainda estirou a mão para Noemi, para lhe tomar o pacote de boletins. Ela, porém, segurou o embrulho com mais força; não houve jeito de entregar.

Três homens saltaram do automóvel, cercaram-nos. Um deles trazia o revólver na mão. Seguraram, um o braço de Noemi, outro, o de Roberto. E o terceiro, o do revólver, tomou silenciosamente o pacote que eles agarravam entre si. Empurraram o casal para o automóvel.

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 174.

 

Se a atuação política de esquerda se dava de forma clandestina, o mesmo se poderia dizer em relação à ação do Estado, cujas forças de repressão agiam sem qualquer forma de identificação explícita, como viaturas ou fardamentos, reforçando o clima de medo e insegurança que permeava a vida dos militantes. Os policiais também parecem agir na surdina.

 

Noemi: heroína em modo menor

Duas narrativas

Dois aspectos se sobressaem na narrativa de Caminho de pedras: de um lado, a dimensão coletiva e política, que retrata os percalços da consolidação do movimento comunista em Fortaleza; de outro, a dimensão pessoal, íntima, que envolve a relação amorosa entre Noemi e Roberto. Não se pode dizer que são duas facetas excludentes. A maestria romanesca de Rachel de Queiroz entrelaça essas duas dimensões de modo que uma não se afasta da outra. A relação amorosa está completamente imbricada na trama política, o que pode ser ilustrado pelo episódio da prisão dos amantes, que se dá em meio à divulgação clandestina de boletins comunistas. Surpreendido pelos policiais, o casal está encostado a um muro, e entre eles o material de divulgação, prova concreta que os incriminava e, ao mesmo tempo, os unia em um mesmo ideal. 

Contato libertador com o comunismo

O contato de Noemi com a utopia comunista foi uma experiência profunda e transformadora. Ela se sentiu renovada, olhando sua trajetória de vida, e mesmo seu casamento com João Jaques, sob uma nova perspectiva. A experiência vivenciada em uma reunião política assumiu ares místicos, uma “revelação” que a libertou de sua consciência habitual, deixando-a “embriagada” com a força da trajetória de homens e mulheres que lutavam por uma vida nova, distante dos padrões pequeno-burgueses. O contato com essas ideias fez com que Noemi reavaliasse vários momentos de sua vida, que o preconceito e o moralismo condenavam como pecado, mas que agora lhe pareciam legítimos impulsos de justiça e de vitalidade juvenil: o episódio de infância em que se revoltou contra o pai que açoitara um “moleque ladrão de níqueis”; sua vontade de viajar, conhecer lugares distantes, outras paisagens e outros idiomas; o forte impulso de solidariedade, que unia em um mesmo amor as mais diferentes pessoas. Tudo isso o casamento viera decepcionar, era como se todos esses sentimentos e sonhos tivessem as asas cortadas. A “disciplina doméstica”, a “cama comum” e os “compromissos com alguém” representam as amarras que impediam Noemi de viver plenamente e de buscar sua felicidade e sua própria autonomia. 

O trabalho estafante

As ideias políticas fervilhavam na mente de Noemi, contrastando violentamente com a dura realidade de seu trabalho no ateliê de fotografia. Ali, ela retocava os retratos, a maior parte deles relacionados ao universo pequeno-burguês de casamentos, formaturas e primeiras comunhões. Ela contava com o apreço do patrão, Seu Benevides.

A responsabilidade de Noemi com seus compromissos profissionais faz com que ela não se ausente da dura rotina de trabalho, mesmo quando teve de velar toda a noite ao lado do filho adoentado. Seu papel de mãe zelosa e dedicada à casa nunca é questionado pela narrativa, e contrasta com a imagem da mulher revolucionária que emerge em seus momentos de reflexão política, revelando sua complexidade, bem como os desafios enfrentados pelas mulheres da época. 

Atração por Roberto

Foi em um café próximo ao ateliê que Noemi conheceu Roberto. De início, foram apenas trocas de olhares, mas o rapaz conseguiu se aproximar dela por meio de Guiomar, outra funcionária da Fotografia. A atração entre ambos foi imediata, embora Noemi tenha logo esclarecido que era casada, fato que Roberto já conhecia.

O relacionamento entre ambos não se deu por mero impulso libidinoso, sensual. Trata-se de uma relação amorosa complexa, pois Noemi admirava e respeitava seu marido João Jaques, o que lhe causou intensos conflitos. Roberto, de certa maneira, estava ligado às experiências de libertação que ela vivenciava nas reuniões políticas, onde ele esclarecia conceitos políticos e contava narrativas de heróis idealistas que se sacrificaram pelo povo.

Quando Roberto visitou a casa de Noemi a convite de João Jaques, ficou intrigado com a maneira como ela se comportava no ambiente doméstico. Ela agia como uma senhora acolhedora, a típica mãe de família, servindo sopa ao convidado sem deixar de dar a devida atenção conjugal ao marido e ao filho. Essa dualidade entre a mulher engajada politicamente e a esposa e mãe dedicada criava um enigma que fascinava Roberto, intensificando ainda mais a complexidade de seus sentimentos por ela.

 

Amor problemático

Depois de ter sido solto da prisão por ter participado do comício, Roberto foi visitar Noemi. O marido havia saído. Foi a primeira vez que confessaram o sentimento que nutriam. Contudo, a declaração é bastante diferente dos estereótipos românticos de exaltação amorosa.

Noemi curvou de novo a cabeça, submetendo-se. Não fora assim que ela sonhara a confissão. Esperava arrebatamento, beijos, lágrimas. E nada disso acontecera. Sentia uma espécie de tristeza, nenhum alvoroço, nenhuma alegria, somente aquela constatação irresistível. Parecia-lhe que nada tinha com aquilo, que apenas tomava conhecimento do que sucedia. Deve ser assim que se comete um crime: com essa força irresistível arrastando, fazendo agir, e essa lucidez melancólica e impotente constatando.

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 96.

 

Diante daquela “constatação irresistível” que os unia, o moço, de maneira mesquinha e quase infantil, exigiu que ela rompesse imediatamente seu casamento. Ela, porém, negaceia, pedindo tempo para comunicar sua decisão a João Jaques.

Noemi não é uma heroína romântica, nos moldes de quem se entrega arrebatadamente a uma aventura amorosa. Mas não deixa de ser heroína, pois enfrenta as rígidas convenções sociais dos anos 1930 em nome de sentimentos profundos e genuínos, os quais não a ligavam mais ao marido. Seu amor verdadeiro agora era Roberto. Essa “constatação” obrigou-a a afastar-se de João Jaques, para evitar a hipocrisia de uma relação vazia de emoção. Foi uma decisão sofrida, sem nenhuma atitude triunfante ou vingativa; ela sentiu-se triste por fazer João Jaques sofrer, ele que era ótimo pai, muito zeloso com o Guri.

João Jaques, por sua vez, embora fosse dado a leituras comunistas, negava-se resolutamente a se envolver na luta partidária. Sua reação ao perceber que o envolvimento político da esposa talvez escondesse interesse amoroso por Roberto foi marcada mais pela mágoa e pelo desespero do que pela ameaçadora violência. Ele chegou a convidar Roberto para visitar Noemi quando ela ficou doente, o que gerou um clima tenso de passionalidade entre os homens, que olhavam ciumentos para a convalescente deitada na cama entre eles. Diante do afastamento cada vez mais crescente de Noemi, João Jaques tentou, em uma última atitude de desespero, reacender a paixão, agarrando-se ao corpo da esposa, que a princípio resistiu, mas depois se entregou.

Quando enfim, junto com Roberto, ela conseguiu comunicar a decisão de separação, João Jaques quis levar consigo o filho. Noemi se desesperou, apelou para o Guri, que não quis separar-se da mãe. Após a partida do marido, em pensamentos Noemi se dirige a ele de maneira enternecida, como quem nutre admiração e carinhoso apego: “Tolice, João Jaques, não fui culpada. Não tive intenção de lhe envergonhar nem de lhe rebaixar. Tenho muita pena, uma pena horrível, que estraga tudo. E saudade”. A complexidade de sentimentos e a ausência de maniqueísmos conferem ainda mais profundidade psicológica e realismo a Noemi.

 

O novo cotidiano

Morando com Roberto, a vida de Noemi não se diferenciava muito da rotina de sua vida conjugal anterior. Ao receberem o amigo Filipe para jantar, Roberto não pôde evitar o pensamento de que, tempos antes, era ele o convidado à mesa de Noemi. Contudo, se com o ex-marido as almas pareciam afastadas, com Roberto havia maior comunhão de sonhos e interesses, especialmente os políticos.

Essa rotina, semelhante à de um casal pequeno-burguês, foi abruptamente interrompida pela doença repentina de Guri. Se aos olhos da sociedade Noemi continuava a ser a “divorciada”, alvo de comentários maldosos feitos até mesmo pelos companheiros militantes, nunca seu papel de mãe dedicada e zelosa é colocado em dúvida pela narrativa. Ela se desespera com a febre do filho, com a ineficácia do tratamento médico, e chega às raias da mais intensa dor maternal quando o pequeno falece após terríveis convulsões.

Atordoada pelo luto, a mãe dilacerada só teve uma explosão de desespero dias depois, ao visitar Angelita e se deparar com a cena dos filhos da amiga brincando alegremente na rua.

 

A ladeira do Gasômetro

O último capítulo aborda a caminhada de Noemi, que subia cansada a ladeira do Gasômetro. Um ano havia se passado. Enquanto parava para tomar ar, lembrava-se de tudo. Os amigos militantes haviam se dispersado, Filipe estava adoentado numa cidade do interior e Roberto estava preso, sem paradeiro conhecido, apenas uma vaga informação de que ele havia sido enviado para uma colônia penal em uma ilha do Sul.

Após enfrentar dificuldades e incertezas, Noemi conseguiu um emprego como costureira, passando seus dias debruçada sobre a máquina. Apesar do contexto pouco animador, ela não se entrega ao desânimo: sua subida pela ladeira simboliza sua persistência e força interior, mesmo diante das adversidades, para um movimento de ascensão, firme em seu caminho ladeira acima. Embora esse desfecho não seja carregado de um otimismo franco, ressalta-se aqui o caráter decidido de Noemi, uma verdadeira guerreira que, apesar de tudo, encontra forças para sorrir ao acariciar a barriga onde crescia o filho de Roberto.

Assim, Noemi representa uma vida destituída de qualquer luxo ou exaltação heroica. No desfecho da narrativa, ela mora de favor na casa da mãe de um militante, mas não se deixa abater. Impulsionada pela força do amor maternal e pelo amor por Roberto, ela segue caminhando resoluta, chamando seu feto de “companheiro”, denominação comum entre os militantes de esquerda. Portanto, apesar de todas as pedras no caminho, Noemi demonstra determinação em continuar a luta, transmitindo ao futuro filho o legado de indignação perante as injustiças e a perseverança na busca por seus sonhos.

 

Estilo

Rachel de Queiroz é uma escritora de estilo simples, sem ornamentações ou floreios linguísticos. O efeito estético de sua linguagem se dá pela exatidão da palavra àquilo que designa, como se não houvesse outra forma mais direta e eficiente de dizê-lo.

Esquisito, o amor. Parece uma luta, a gente parece inimigos. Vontade de possuir, de mandar, de dominar. Desconfiança. Fiscalizando, esmiuçando nuanças de voz, entonações, olhares. Tudo fica intoxicado, doentio. Entre Roberto e ela já não havia mais hiatos de paz, de amizade, de camaradagem serena. Foi-se embora isso tudo, assim que se disseram as primeiras palavras de amor. Hoje era só aquela tensão, aquela necessidade recíproca e angustiosa de se verem, aquela força bruta que a atirava para os braços dele com os lábios trêmulos e o coração quase parando.

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 111.

 

No trecho acima, o narrador em terceira pessoa adere à interioridade de Noemi para expor as aflições implicadas no sentimento amoroso, apontando para a contradição envolvida no ato de querer bem uma pessoa e, ao mesmo tempo, ser tomado pelo impulso de apossar-se do ser amado de maneira mesquinha e egoísta.

Rachel de Queiroz demonstra grande habilidade na condução da narrativa, alternando momentos de tensão com descrições agudas do ambiente, expondo pormenores que enriquecem as cenas com um realismo dinâmico e envolvente.

Pediu um gelado. A mulata dos sorvetes tinha os cabelos platinados. As unhas dela, segurando o copo, reluziam de verniz vermelho – parecia que usava as pedras dos anéis nas pontas dos dedos.

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 7.

 

Essa cena pertence ao primeiro capítulo, em que Roberto espera um homem que o integraria ao incipiente movimento comunista em Fortaleza. O leitor, ao mesmo tempo, tem contato com a expectativa do encontro, mas também de certo modo acompanha o olhar do personagem, que repara na moça que serve o sorvete em um café do centro da cidade.

 

Narrador

Caminho de pedras apresenta um narrador em terceira pessoa onisciente. Não há nenhum tipo de diálogo com o leitor ou discussão metalinguística no romance. O narrador é, portanto, bastante discreto, não chama a atenção sobre si ao apresentar os eventos e o mundo interior dos personagens. Os diálogos são precisos, carregados de intensidade, mesmo quando parecem tratar de assuntos desimportantes:

– Você nasceu no Acre?

Sim, lá tinha nascido, brincado em menina, lá tinha amado e casado.

– Mas João Jaques não é de lá?

– Não, João Jaques foi ao Acre numa aventura, passou dois anos pelo Norte...

E Noemi riu com certa amargura:

– Foi cumprir sina de cearense; buscar desgraça no Norte.

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 150-151.

 

O narrador faz uso habilidoso da alternância de vozes em discurso direto (as que são antecedidas por travessão). Mas dinamiza o processo ao apresentar a primeira resposta de Noemi por meio do discurso indireto livre. Nesse procedimento, as falas e os pensamentos dos personagens são apresentados sem uma delimitação clara com a voz do narrador, criando um efeito de intimidade e introspecção. É o que acontece no trecho: “Sim, lá tinha nascido, brincado em menina, lá tinha amado e casado”. A fala é atribuível à Noemi, mas não vem demarcada por sinais gráficos. Acresce que os verbos são em terceira pessoa, uma das marcas dessa forma de representar as vozes dos personagens. Se a fala de Noemi fosse apresentada em discurso direto, ela diria: “Sim, lá eu nasci, brinquei em menina, lá eu amei e casei”.

Há ainda, em Caminho de pedras, alguns poucos parágrafos em que se nota um curioso e raro recurso estilístico, que certos autores, como Nilce Santanna Martins, em Introdução à estilística, chamam de discurso direto livre. Trata-se de apresentar as falas dos personagens como no discurso direto; porém, diferentemente deste, sem a presença de sinais gráficos indicativos de fala (como travessão, aspas ou dois-pontos), nem verbos de elocução (que também anunciam a fala do personagem, como “dizer”, “responder”, “falar” etc.). Além disso, o narrador em terceira pessoa parece desaparecer durante a fala do personagem, o que provoca uma aproximação radical de suas vozes.

Veja-se, como exemplo desse recurso, dois parágrafos do último capítulo, em que se apresentam os lamentos de Noemi após a prisão de Roberto, quando os dois espalhavam boletins políticos pela madrugada de Fortaleza:

Companheiro, para que você se arriscou? Não pensava como eu ia ficar abandonada, de mãos vazias, perdida e sozinha na cidade?

Companheiro, companheiro, para que não me deixou só naquela noite? De que valeu sua companhia uma vez, se depois o carregaram, e me deixaram sozinha de todo? Para que essa sua mania errada de proteção?

QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 172.

 

O pensamento apresentado sem dúvida é de Noemi, que usa, inclusive, verbos e pronomes em primeira pessoa – uma das características do discurso direto. Contudo, como mencionado, ele não vem antecedido de nenhuma marca textual indicativa da fala da personagem, como verbos de elocução ou sinais gráficos. Trata-se, como explicado, de uma rara ocorrência de discurso direto livre.

 

Tempo e espaço

O enredo de Caminho de pedras se desenrola nos anos 1930 (mais ou menos na época em que o romance foi escrito) e abarca cerca de um ano na vida dos personagens, desde o momento em que Roberto chega a Fortaleza até sua prisão e transferência para uma colônia penal no Sul.

O espaço abrangido pela narrativa se concentra na cidade de Fortaleza, capital do Ceará. Como vimos, há muitas cenas em espaços públicos (marcados pela estrita vigilância do Estado) e outras em ambientes privados, como as casas em que Noemi viveu e, também, as casas simples onde os militantes se reuniam para discutir política.

 

Personagens

Um dos grandes talentos de Rachel de Queiroz é a habilidade em construir personagens envolventes e verossímeis, dotados de profundidade psicológica e riqueza na representação de perspectivas sociais. A autora vai além dos estereótipos, construindo figuras complexas e multifacetadas que se debatem com dilemas morais, desejos conflitantes e as pressões de um contexto social e político turbulento. 

Noemi

Noemi, a protagonista, é uma jovem morena de olhos vivos que trabalha em um ateliê de fotografia. Nascida no Acre, é casada com João Jaques e mãe de um pequeno a quem chamam carinhosamente de “Guri”. Ela se entusiasma com as ideias de liberdade e justiça social apresentadas em reuniões políticas, e essa nova perspectiva a leva a questionar sua vida e seu casamento, despertando nela um desejo de autenticidade e emancipação. Ela se apaixona e se envolve amorosamente com o militante Roberto. Sofre com o desafio de romper com o marido, que a respeitava e era ótimo pai, mas é coerente com seus sentimentos, pois no íntimo sabia que não o amava mais. Não aceita a hipocrisia de manter um casamento sem amor e decide enfrentar o preconceito social contra a separação, indo morar com Roberto. Padece extrema dor quando o amado filho morre. Termina o enredo solitária, morando de favor na casa de militantes e trabalhando duro como costureira. Na última cena, ela sobe penosamente uma ladeira, sorrindo comovida para a barriga onde crescia o filho de Roberto. 

Roberto

Roberto é um jovem militante de esquerda que, depois de dez anos no Rio de Janeiro, volta a Fortaleza com a missão de reorganizar o movimento operário local. Sua função é conscientizar os proletários com as teorias de esquerda, buscando mobilizá-los para a luta por seus direitos. Atua no jornalismo e sofre com a hostilidade dos operários contra suas origens burguesas. É alto, com certo ar triste, e exige que Noemi rompa de imediato o relacionamento com o marido, demonstrando um idealismo que, por vezes, se choca com a realidade e as complexidades das relações humanas. É preso e supostamente enviado para uma ilha no Sul. 

Filipe

Filipe é um jovem militante de origem pobre e tido como intelectual pelos operários, porque tinha algum estudo e trabalhava como “guarda-livros”, ou seja, realizava as escriturações contábeis de uma empresa. Mostra-se equilibrado e racional ao analisar com lucidez as ações e as motivações de Roberto, a quem julgava um tanto inocente por idealizar os trabalhadores. Mora com a mãe em uma área pobre da cidade e nutre certa atração pela amiga Angelita. 

João Jaques

Marido de Noemi, João Jaques é um jovem bonito e dado a leituras comunistas. Segundo Filipe, fora expulso do movimento operário no Rio de Janeiro por “sabotagem, relaxamento e Literatura...”, revelando sua falta de comprometimento com a causa e sua tendência à passividade. É desiludido com a militância política e tenta dissuadir Noemi do engajamento na organização dos trabalhadores. Em uma atitude desesperada, ao perceber o distanciamento da esposa, chega a forçar uma relação sexual com Noemi, que se sente violentada. Parte para o Rio de Janeiro quando a esposa rompe o casamento. 

Angelita e Assis

Costureira, velha amiga de Filipe, Angelita tem olhos verdes bonitos e mãos maltratadas pelo trabalho incessante. Apresenta firmeza de caráter ao aceitar prontamente o convite do amigo para engajar-se na luta política. Assis, seu marido, é desiludido com a militância, pois foi preso, duramente espancado pela polícia, enquanto a esposa e os filhos passavam fome. 

Seu Benevides

Patrão de Noemi no ateliê fotográfico, tem jeito de artista. Demonstra hipocrisia ao despedir Noemi alegando o moralismo da clientela, enquanto ele próprio elogiava maliciosamente o corpo das adolescentes que fotografava. Essa atitude evidencia a dupla moral da sociedade da época, que condena o comportamento de Noemi, mas tolera o assédio e a exploração das mulheres por homens em posição de poder. 

Guiomar

Colega de trabalho de Noemi, Guiomar é uma moça solteira e amargurada por não ter encontrado o amor. Invejava veladamente a amiga, ao mesmo tempo que condenava o adultério. Sente-se triunfante e um tanto envergonhada com a demissão de Noemi.







04 março 2026

BIOGRAFIA (3)

 

Clarice Lispector, uma entrevistadora de almas

 

A autora de A paixão segundo G.H., Água viva e de outras obras-primas da literatura brasileira, Clarice Lispector é, ao lado de Guimarães Rosa e Machado de Assis, nossa literata mais estudada nas universidades. Juntamente com Caio Fernando Abreu e Martha Medeiros, talvez também suba no pódio na categoria presença em redes sociais (embora muitas das citações a ela atribuídas não sejam de sua autoria). Tantos trabalhos acadêmicos e tamanha popularidade na internet são apenas dois indicativos da abrangência e da atualidade da obra da escritora.

            O que muitos não sabem é que a ucraniana trazida para o Brasil ainda bebê, que incendiou sua casa ao esquecer um cigarro aceso ao ir dormir e participou de um Congresso Internacional de Bruxaria em Bogotá, também foi uma grande entrevistadora, tendo realizado entrevistas memoráveis, verdadeiros exemplos para grandes jornalistas.

A atuação de Clarice na imprensa começou em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial. Enquanto repórteres se debruçavam sobre o sangue que jorrava do conflito que se desdobrava além do Atlântico, a literata se dedicava a pequenas notas, entrevistas e perfis sobre os mais variados temas, navegando da moda feminina à cultura brasileira. Um de seus grandes talentos, no entanto, se revelou, quando Clarice pegou um bloquinho de anotações, escreveu algumas perguntas é buscou personalidades para entrevistar, ou melhor, para conversar.

O volume mais extenso da obra de Clarice Lispector como entrevistadora foi produzido no final dos anos 1960. Para a revista Manchete, entre maio de 1968 e outubro de 1969, a escritora assinou a coluna Diálogos possíveis com Clarice Lispector, totalizando 59 conversas. Para a Fatos e Fotos/Gente, foram 24, feitas entre dezembro de 1976 e outubro de 1977, dois meses antes de seu falecimento, em 9 dezembro do mesmo ano.

Para além de um diálogo seco entre uma jornalista e sua fonte, as entrevistas de Clarice Lispector eram uma conversa íntima entre duas pessoas sobre temas caros ao ser humano, desbravavam o insólito e tocavam em pontos dos quais o jornalismo convencional não se aproximava. Num ambiente em que as entrevistas iam se tornando tão automáticas e sem vida, feitas com base em manuais de redação, Clarice desbravava o que estava sob a superfície de seus entrevistados Era como se ela mergulhasse na alma do seu interlocutor e explorasse suas profundezas [...]

Clarice ultrapassou o nível do bate-papo enfiando o dedo nas feridas de quem estava entrevistando. Ao conversar com o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino, por exemplo, a entrevistadora fez um questionamento metafísico inesperado e recebeu uma resposta tão inesperada quanto:

- Você quereria ter outras vidas? Era o meu sonho ter várias. Numa eu seria só mãe, em outra vida eu só escreveria, eu outra eu só amava.

- Sou um homem de muitos amores – isto é, de muitos interesses – e para tão longos amores, tão curta é a vida. Não há ninguém que consiga no tempo de uma vida, esgotar todas as suas possibilidades. Se me fossem dadas outras e outras vidas, gostaria de ser: a) filósofo profissional; b) romancista; c) marido de Clarice Lispector, a quem me dedicaria com veludosa e insone dedicação.

 

A escritores, músicos e cientistas, Clarice perguntou o que muitas vezes não é questionado: “Quem é você?”, “Qual a coisa mais importante do mundo?”, “O que é o amor?”. As respostas eram sempre uma surpresa. De Fernando Sabino, ouviu que “Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro”. O poeta Pablo Neruda foi mais direto e apenas falou, curto e grosso, “O amor é o amor”. E Chico Buarque respondeu que não sabia e emendou: “E você?”. Clarice finalizou: “Nem eu”. [...]

Em suas conversas, nada era previsível. Prova disso é seu diálogo com Vinicius de Moraes, no qual ela pediu para o poeta escrever um poema naquele instante e no improviso. E ele escreveu [...].

 

 


ADAPTADO DE: VERRUMO, M. História Bizarra da Literatura Brasileira. São Paulo : Planeta, 2017. p. 249-253

INTRODUÇÃO À OBRA: CAMINHO DE PEDRAS (1)

  Introdução Caminho de pedras , publicado em 1937, é uma narrativa que explora dois aspectos não excludentes: de um lado, as dificuldades d...