G.H.,
uma elegante artista visual, encontra uma enorme barata no quarto da empregada.
No entanto, o que aparentemente parece ser um acontecimento banal desencadeia
um poderoso processo de autoenfrentamento protagonizado por ela, narradora de A paixão segundo G.H., romance de
Clarice Lispector publicado em 1964. Diante do inseto, a personagem se depara
com suas carências e suas ambições mais íntimas, em uma “aventura” em que se vê
confrontada por questões profundas sobre a própria identidade, o vazio do eu e
elementos do divino e do demoníaco da personalidade humana. Nesse mergulho
introspectivo, em que poucos eventos exteriores acontecem, a angústia com o
repulsivo e as mais elevadas aspirações morais e religiosas se conjugam na
constituição de uma personagem complexa em uma experiência transformadora.
Dados biográficos da
autora
Chaya
Pinkhasivna Lispector, nome de batismo de Clarice Lispector, nasceu em 10 de
dezembro de 1920, em Chechelnyk, pequena cidade que faz parte da Ucrânia. Sua
família, de judeus russos, fugia da perseguição decorrente da Guerra Civil
Russa e emigrou para o Brasil quando Clarice tinha apenas dois meses, estabelecendo-se,
inicialmente, em Maceió, Alagoas. Aos sete anos, Clarice mudou-se com a família
para o Recife e, mais tarde, para o Rio de Janeiro, onde ela passaria grande
parte de sua vida.
Desde
jovem, ela demonstrou interesse pela escrita, começando a compor contos e
pequenas histórias enquanto estudava no Colégio Pedro II, na capital federal.
Em
1939, Clarice ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ). Embora estivesse matriculada em Direito, sua verdadeira
paixão sempre foi a literatura e o jornalismo; por isso, durante seus anos
universitários, trabalhou como redatora na Agência Nacional e depois no jornal A Noite.
Em
1943, Clarice casou-se com Maury Gurgel Valente, um diplomata brasileiro, com
quem teve dois filhos, Pedro e Paulo. Por conta da carreira diplomática de Maury,
ela viveu em vários países, incluindo Itália, Inglaterra e Estados Unidos.
No
mesmo ano de seu casamento, Clarice teve sua estreia literária, com o romance Perto do coração selvagem (1943), aos 23
anos. A obra foi bem recebida e ganhou o Prêmio Graça Aranha. Esse foi apenas o
início de uma notável trajetória literária, marcada por livros como A paixão segundo G.H., Água viva (1973) e A hora da estrela (1977). Seu estilo é conhecido por ser
introspectivo e poético, frequentemente explorando temas existencialistas e a
complexidade das emoções humanas.
Após
anos vivendo no exterior, cansada das constantes viagens decorrentes da
carreira diplomática de Maury, em 1959, Clarice se divorciou do marido e
retornou definitivamente ao Brasil com os dois filhos, fixando residência no
Rio de Janeiro. Desde então, ela continuou a criar intensamente, consolidando
sua contribuição para a literatura modernista com obras marcadas pela
profundidade psicológica e emocional.
Clarice
Lispector faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos,
por conta de um câncer de ovário. Seu legado literário permanece influente,
sendo estudado e admirado não só no Brasil, mas também internacionalmente, com
obras que continuam a desafiar e encantar gerações de leitores e escritores.
Contexto histórico
Clarice Lispector e o
Modernismo brasileiro
A
primeira metade do século XX, no Brasil, foi marcada por um expressivo
movimento artístico, cultural e literário que pregava a ruptura com as
tradições e a busca por novas formas de expressão: o Modernismo. Marcado por
três principais momentos – primeira fase (ou fase heroica), segunda fase (ou
fase da consolidação) e terceira fase (pós-modernista ou Geração de 45) –, o
movimento defendia, de maneira geral, a valorização da cultura cotidiana brasileira,
a simplificação do discurso artístico e literário, a crítica social, o
nacionalismo e a liberdade estética.
Clarice
Lispector pertenceu à terceira fase desse movimento e foi uma das autoras de
maior destaque de sua geração. Tinha uma escrita considerada bastante inovadora
e única, que se afastava, em muito, das principais características do
Modernismo. Isso, no entanto, não era objeto de grande preocupação para
Clarice, que costumava afirmar: “Não escrevo para agradar ninguém”. Por isso,
seus textos apresentavam características como o predomínio da primeira pessoa,
o foco no cotidiano e a linguagem poética, reflexiva e inovadora, fundamentada
em análises psicológicas e existenciais de seus personagens.
A introspecção de
Clarice
Clarice
foi uma autora que transitou entre os mais diversos gêneros literários, como
cartas, contos, romances e entrevistas, imputando em suas obras características
marcantes, desde a escolha da linguagem até os objetos de análise que se
tornavam foco de suas narrações. Ainda que esses atributos a afastassem da
maioria dos escritores modernistas de sua geração, alguns autores exerceram
influência sobre sua obra, como Lúcio Cardoso, importante escritor brasileiro
de estilo intimista, cuja abordagem profundamente psicológica marcou Clarice e
dialogou com sua própria escrita.
Uma
das maiores marcas da escrita de Clarice é a introspecção, justamente porque a
grande preocupação da autora era, na verdade, narrar sensações, e não apenas
fatos. É por meio desse tom filosófico, inclusive, que ela apresentou as
críticas sociais em sua literatura (como em A hora da estrela).
Sua
escrita, portanto, é marcada por profundas reflexões, por meio de mergulhos nos
pensamentos e nos sentimentos íntimos de Seus personagens, utilizando, em
grande parte, o monólogo interno para revelar as complexidades de suas psiques
– recurso que presenciamos em A paixão
segundo G.H. Além disso, sua linguagem é poética, rica em metáforas e em
simbolismos, que conferem à sua prosa uma característica lírica, ou seja, que
captura sutilezas emocionais a partir de uma escolha minuciosa de palavras.
Os
temas existenciais são uma constante em sua obra, visto que ela explora
questões universais como identidade, solidão e busca por sentido, encontrando
profundidade em eventos cotidianos e aparentemente simples. Na obra que é nosso
objeto de análise, é exatamente isso o que acontece: a narrativa passa a ser
construída quando a protagonista resolve limpar o quarto de sua antiga empregada,
mas se depara com uma barata, elemento disparador de toda a reflexão que
constitui o cerne de sua narração.
Suas
histórias muitas vezes fogem da estrutura linear tradicional, visto que
priorizam o tempo psicológico sobre o cronológico a partir de uma abordagem
fragmentada dos fatos e das sensações apresentados. Esse estilo de estruturação
acaba por refletir, de maneira mais profunda, a interioridade dos personagens,
e contribui para a atmosfera singular de suas narrativas. Dessa forma, os
personagens de Clarice são complexos e realistas, e convidam o leitor a uma reflexão
profunda e pessoal.
Por
fim, a ambiguidade é outra característica-chave de sua escrita, pois seus
textos oferecem múltiplos significados, frequentemente deixando interpretações
em aberto ao explorar os paradoxos e as contradições humanas.
Entendendo a obra
Como
já é de se esperar nas obras de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H., considerada uma das mais importantes obras
da literatura brasileira, é um romance marcado pela introspecção e pela
complexidade psicológica da personagem principal, G.H.
A
narrativa em primeira pessoa gira em torno dessa personagem, uma artista
bem-sucedida que vive em uma cobertura luxuosa e que, a partir de um monólogo
interior, coloca o interlocutor em contato com as nuances da consciência
feminina, o horror e a beleza da existência, além de dilemas existenciais que
permeiam a condição humana.
A
história tem início quando, à mesa do café da manhã, pensativa sobre a própria
vida, a narradora e protagonista da obra resolve colocar em prática aquilo que
considera sua vocação, a arrumação, e por isso decide fazer uma limpeza no
quartinho de sua antiga empregada, Janair, onde não entrava havia seis meses.
Essa decisão surge no contexto de sua desorganização interna, por isso o ato
pode ser interpretado como uma tentativa de organizar o ambiente externo em
reflexo a uma necessidade de ordem interna. Também pode ser uma maneira de
confronto com o desconhecido e com o passado, representado e materializado pelo
quarto de sua antiga empregada.
Perdi alguma coisa
que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim
como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me
impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira
perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que
nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso
caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era
ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer
precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não
precisava? [...]
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro:
Rocco, 2020. p. 10.
A
narradora acredita que encontrará prazer na atividade de arrumação e conseguirá
entender os próprios pensamentos e sentimentos. No entanto, diferente do
esperado – “o quarto da empregada devia estar imundo, na sua dupla função de
dormida e depósito de trapos, malas velhas, jornais antigos e papéis de
embrulho e barbantes inúteis” (p. 32) –, ela se depara com um ambiente
extremamente limpo e organizado, o que rompe com suas expectativas: o vazio e a
limpeza a incomodam, afinal, se era na arrumação que conseguiria também ordenar
seu caos interno, o que haveria de ser arrumado agora?
Não
bastasse a surpresa com o que acabara de achar, outro fato inesperado lhe
acontece: o encontro com uma barata, a qual, como descrita pela própria
narradora, “pela lentidão e grossura, era uma barata muito velha” (p. 45). Ao tentar
“interagir” com esse animal, que ela inicialmente despreza, G.H. é levada a uma
profunda reflexão sobre a própria vida, suas escolhas, suas relações e o que significa
ser humano.
Em
uma linguagem poética e densa, com muitas metáforas e simbolismos, Clarice Lispector
explora, nessa narrativa, temas relacionados à identidade, à solidão, à
alienação e à busca por sentido na vida. Trata-se de uma obra que exige do
leitor uma interpretação atenta e sensível para acompanhar o livre fluxo de
consciência da personagem: a narrativa flui em uma corrente de pensamentos que revelam
as angústias e as epifanias de G.H., culminando em um momento de transformação
pessoal que provoca uma reavaliação sobre seus valores e sua compreensão da
vida.
Dessa
forma, A paixão segundo G.H. é
frequentemente interpretada como uma reflexão sobre a condição humana e a busca
por autenticidade em um mundo repleto de aparências. A partir de intensa
introspecção, Clarice tenta explorar o ser e o não ser, a paixão e a
indiferença, por meio de sua protagonista, fazendo da narrativa um estudo
profundo e filosófico sobre a existência humana, o que torna a obra atemporal e
atual.
Síntese
A
narrativa é organizada em capítulos curtos e não numerados. Cada novo capítulo
começa com a última frase do capítulo anterior, de maneira a garantir a
continuidade do fluxo de pensamentos.
1º capítulo
A
narrativa começa com a protagonista (que também é narradora) G.H. refletindo
sobre a própria desorganização pessoal e a perda de algo valioso, que compara a
uma terceira perna metafórica que antes a sustentava e dava-lhe equilíbrio,
ainda que não fosse necessária. Sentindo-se perdida e com medo, ela deseja se
libertar de antigas restrições, questionando a necessidade de encontrar significado
no que já viveu. Ela anseia por se entregar ao acaso e expressa a dificuldade
de comunicar suas experiências, buscando criar uma linguagem para dar sentido a
suas vivências.
2º capítulo
A
protagonista está em um momento de introspecção após a partida de sua
empregada. Ela reflete sobre sua vida, sua imagem perante os outros e tem a
sensação de que sua verdadeira essência permanece um mistério, até mesmo para
si mesma. Isso a faz questionar a superficialidade de sua existência, marcada
por uma aparente tranquilidade e sucesso social, mas permeada por um vazio
interior. Como resposta, tenta buscar, em seu passado, uma tragédia pessoal, um
destino maior que vá além do enredo de sua vida cotidiana. Para isso, analisa
sua relação com a arte, com os homens e com a própria imagem, revelando uma
busca incessante por autenticidade e um desejo de romper com a superficialidade
que a aprisiona.
3º capítulo
Toda
essa reflexão descrita nos capítulos iniciais é realizada à mesa do café da
manhã. Depois desse momento de introspecção, G.H. decide arrumar a casa por
conta própria, começando pelo quarto da antiga empregada – ela encontra prazer
e propósito na organização, vendo isso como uma vocação. Enquanto fuma e planeja
a arrumação, ela observa a área interna do prédio, refletindo sobre a falta de
sentido aparente nas coisas cotidianas e como essa falta de sentido pode ser,
na verdade, aquilo em que reside o verdadeiro sentido das coisas. A narradora
joga seu cigarro pela janela e tem uma percepção vaga de que algo está para
acontecer, algo que ela só entenderá mais tarde.
4º capítulo
G.H.
entra no quarto da ex-empregada, Janair, após seis meses sem ir àquela parte da
casa. Ao abrir a porta, ela se surpreende com a limpeza e a luminosidade do
ambiente, que contrasta com suas expectativas de desordem. No quarto, há um
desenho na parede,
feito
a carvão, representando um homem nu, uma mulher nua e um cão que parecem
rígidos e imóveis. G.H. não consegue se lembrar do rosto de Janair e reflete
sobre sua relação com ela, sentindo estranhamento e desconforto, além de uma
impressão de que Janair a via de maneira crítica. Apesar de planejar a
transformação do quarto, ela se sente deslocada, enfrentando um vazio
existencial e uma crise interna.
5º
capítulo
G.H.
continua narrando sua experiência no quarto, que lhe causa repulsa e medo. É em
meio a essa confusão de sentimentos que ela se depara com uma barata dentro do
guarda-roupa, o que intensifica sua aversão ao ambiente e a faz refletir sobre
a presença ancestral e a resistência desses insetos. O susto que toma com a presença
do animal a faz tropeçar e cair, de maneira que passa a se sentir presa no
quarto, tanto física quanto psicologicamente. Ela experimenta uma profunda sensação
de desconforto e medo, associando a barata e o quarto a uma presença hostil e
opressiva.
6º capítulo
G.H.
enfrenta a barata e sente uma onda de coragem e poder, revelando recursos
internos inexplorados. Tomada por ódio, ela tenta matar o inseto fechando a
porta do guarda-roupa sobre ele, mas falha em aplicar força suficiente, o que a
faz questionar as próprias ações. Apesar disso, experimenta um prazer
perturbador, ainda que o inseto permaneça vivo. Ao encarar a barata, uma
epifania a impede de prosseguir com a violência por causa da profunda repulsa
que sente. Finalmente, ela percebe que nunca viu realmente uma barata, apenas
sentiu repulsa, começando a observar seus detalhes, o que levará a uma nova
percepção, que é explorada no capítulo seguinte.
7º capítulo
Ainda
na presença da barata, G.H. se vê confrontada com a “vida crua”, questiona as
próprias esperanças e verdades preexistentes e sente uma conexão assustadora
com a natureza primordial e não humana da própria existência. Esse momento a
leva a um “quarto desconhecido” dentro de si, um espaço de vastidão e sedução,
no qual ela se sente reduzida a seu “irredutível”, encontrando uma nova e
inquietante forma de vida e de verdade.
8º capítulo
Ainda
diante da barata, G.H. luta para não gritar, temendo revelar uma
vulnerabilidade, mas ainda assim busca uma saída de seu quarto interno. Identifica-se
com a mulher desenhada na parede, que pode simbolizar a busca dela por
identidade. Um silêncio profundo a invade, trazendo clareza e aceitação. A
narradora se vê como a barata, seus pedaços e o silêncio, aceitando a própria
imperfeição e a continuidade da vida.
9º capítulo
As
reflexões de G.H. continuam, agora com foco na percepção do fato de que o mundo
não é inerentemente humano; por isso ela questiona a validade da linguagem para
descrever a realidade. A personagem anseia recuperar sua antiga vida, mas se vê
diante da impossibilidade de retornar à superficialidade, confrontando-se com o
inumano e buscando um novo sentido em um mundo desprovido de humanização, onde
a barata se torna um símbolo de luxo e a impureza questiona as proibições
humanas.
10º capítulo
Nessa
parte do romance, os pensamentos de G.H. exploram o “imundo”, algo proibido e
primordial. Isso faz que ela tema a “desumanização” e a alegria sem esperança
que a experiência que está vivenciando traz. Lutando contra e cedendo à própria
transformação, ela perde suas antigas ideias ao encarar o “imundo”, simbolizado
pela barata. Aqui, as reflexões de G.H. abordam o medo da entrega ao
desconhecido e a metamorfose resultante do abandono de crenças antigas.
11º capítulo
Por
estarem presas na porta, as vísceras da barata começam a emergir. G.H. observa
a matéria branca que se espreme para fora do corpo. A barata, segundo a
narradora, é feia e brilhante, e o que nela passa a ser exposto é o que G.H.
esconde em si. G.H. grita por socorro, mas não consegue se levantar e ir
embora. Acaba aceitando – mesmo que não de maneira passiva – o momento presente
e a inevitabilidade da vida.
12º capítulo
G.H.
passa de um estado de suspensão no tempo para a percepção de que a vida real
está no presente, mesmo que seja um “deserto” sem esperança. Com medo, ela
considera abandonar tudo e se conectar com a natureza, mas resiste à ideia de
encarar a realidade de maneira crua. Em suas reflexões, busca redenção no presente,
mesmo que isso signifique aceitar o “infernal”, e percebe que precisa abandonar
até mesmo a beleza humana – a ausência de beleza representada pela barata –
para compreender a própria existência.
13º capítulo
G.H.
confronta a insipidez da existência ao observar a barata, refletindo sobre a
busca por transcendência que a afasta do “neutro”, antes visto como “nada”,
agora reconhecido como a própria vida. A narradora lida com a própria repulsa
por essa vida sem qualidades. Em uma encruzilhada moral, questiona se
moralidade é apenas agir e sentir de maneira adequada, e percebe estar se libertando
dela, sentindo medo e fascínio. Ela não deseja mais agir em relação à barata,
pois entende que sua visão de amor está se desfazendo, surgindo uma nova
necessidade, um “precisar” neutro e impiedoso. Permite-se ser tocada pelo olhar
da barata, renunciando à resistência e lembrando-se de um beijo, no qual o sal
de lágrimas simbolizava o amor e a substância insossa e inocente do amado.
14º
capítulo
A
protagonista começa a se sentir perturbada com a familiaridade do espaço e com
a presença da barata. Ela acende um cigarro e observa a mudança da luz no
quarto, percebendo a existência independente do ambiente. Acaba relembrando o
período em que decidiu fazer um aborto e o peso dessa resolução. Sentindo-se
desconectada e respirando mal, compara o próprio estado ao de um protozoário neutro,
especialmente porque o confronto com a barata a faz reconhecer essa
característica – essa neutralidade é temida por G.H. Em um momento de angústia,
ela clama pela mãe, revelando o peso de ter interrompido uma vida e a sensação
de estar em um inferno manso. A menção à mãe parece trazer um alívio
momentâneo, como se uma parte grossa e branca fosse libertada em seu interior –
assim como a massa visceral que escapa de dentro da barata.
15º capítulo
Agora,
G.H. não pede mais socorro, dominada pelo calor e pela falta de medo. Observa
mais uma vez a barata, temendo o que pode acontecer. Está em um estado de
isolamento e se sente abandonada, tanto por si mesma quanto pelos outros:
acredita que sua crescente perda de humanidade e a intensificação de seu medo a
faz ser repulsiva – assim como a barata. Para ela, a barata anula a transcendência,
mostrando apenas os fatos de quem verdadeiramente é. Apesar de temer encará-Lo,
pede a Deus para não ser abandonada; deseja não estar sozinha nessa jornada de
redescoberta em que duvida de sua vida anterior.
16º capítulo
Em
um estado de quase abandono, G.H. enfrenta os próprios medos e se sente
desconectada de si mesma, como se tivesse abandonado o corpo que conhecia. Ela
pensa sobre a barata, questionando quem a aceitaria em seu estado atual e
refletindo sobre sua
busca
por amor e necessidade. Apesar disso, no quarto seco, a narradora entende que
não pode fugir da realidade de conhecer a si mesma e ao mundo, e isso a faz se
questionar sobre quem é o verdadeiro monstro – ela ou a barata? –, sentindo que
está prestes a descobrir o que a observa. Por fim, mais uma vez, G.H. expressa o
desejo de não ser deixada sozinha e de não ter que tomar decisões difíceis por
si própria. Reconhecendo o próprio medo de enfrentar Deus e a verdade final,
anseia por uma mão que a guie.
17º capítulo
G.H.
passa a descrever a própria jornada para alcançar um estado de neutralidade a
partir do abandono de atributos humanos e do mergulho em suas “entranhas vivas”
– um processo que exige coragem e a confronta com o terror de encarar a
realidade nua e crua. O neutro aparece como elemento vital, revelando que,
antes, ela era guiada pelo demoníaco. Apesar do medo, a narradora encontra
alegria nesse estado, libertando-se de sentimentos e experimentando o “gosto do
nada”, que define como sua “danação e terror”. Após adormecer envolta em um
casaco, ela desperta em um quarto banhado por um sol imóvel e intenso,
sentindo-se sufocada e buscando, em vão, uma amplidão que permita respirar.
18º capítulo
Diante
da janela de seu quarto, G.H. passa a refletir sobre a vastidão do mundo ao
redor, descrevendo paisagens fantásticas e imaginárias que evocam desertos, civilizações
antigas e futuros distantes. Sua jornada introspectiva mistura lembranças,
delírios e especulações sobre a existência humana, percebendo o erro e o medo como
partes inevitáveis do caminho para encontrar a verdade. As imagens de areia e
calor, nesse sentido, simbolizam tanto o vazio quanto o peso da vida, enquanto
o quarto se transforma em um refúgio físico e mental, protegendo-a do que
considera o insuportável fardo da imensidão e da passagem do tempo.
19º capítulo
A
personagem resolve voltar para o quarto, buscando refúgio. Senta-se na cama e
encara uma vez mais a barata, percebendo que agora já tinha mais compreensão sobre
o que o animal representava. Dá vazão a um pensamento: nota que o inseto é
comestível como uma lagosta, um crustáceo. Apesar do nojo desse pensamento, continua
a refletir sobre o que essa barata significa – mansidão e ferocidade –, e
entende que viver é questão de vida e morte. Por fim, compara a mansidão e a
função feroz da barata à própria ferocidade em viver.
20º capítulo
G.H.
começa declarando que, se há algo a ser dito, precisa ser dito, e por isso
resolve revelar que ama, mas só agora está realmente externalizando esse
sentimento, afirmando não querer assustar o leitor com seu amor. Antes, G.H. não
sabia que o amor estava acontecendo; só após essa experiência transformadora é
que se tornou capaz de entender esse sentimento. A narradora diz que gostaria
de transmitir a lembrança do que vivera, época em que nem mesmo sabia o que
exatamente vivia. A massa branca da barata, que estava à sua frente, é que
representava a vida que até o momento desprezara. É então que, de repente, G.H.
resolve comer essa “vida”.
21º capítulo
A
narradora explora uma experiência interna intensa, confrontando noções de
inferno, dor, prazer e indiferença. G.H. descreve uma visão na qual a dor e o
prazer se confundem, e a aceitação cruel da dor se torna um ritual. Ela reflete
sobre a ausência de filhos e a própria mortalidade, contrastando-se com a
barata, que se reproduz e cumpre seu ciclo natural. G.H. conclui, após sua
reflexão, que a essência da humanidade reside na aceitação do destino fatal e
na escolha de viver, mesmo em meio ao horror e à alegria indiferente.
22º capítulo
É
nesse estado de aceitação que G.H. busca uma compreensão de Deus por meio de
experiências intensas, quase demoníacas: descreve uma jornada pessoal na qual
se sente dividida entre o desejo de igualdade com o divino e a tentação de
prazeres terrenos.
23º capítulo
G.H.
reflete profundamente sobre a ligação entre sofrimento, sacrifício e a busca
por um significado maior na vida. Após um intenso momento de provação, ela
percebe que sua “orgia infernal”, marcada por prazer e dor, era, na verdade,
uma forma de amor primordial e neutro – um estado além das emoções humanas convencionais.
Nesse amor, ela encontra uma conexão com Deus, mas sem a mediação de formas ou
preces humanas, descobrindo um significado “neutro”, que se manifesta na
simplicidade das coisas vivas, como uma barata. Para alcançar essa compreensão,
G.H. precisa abrir mão de valores humanos tradicionais, enfrentando o vazio e o
horror de uma existência antes do humano. A experiência é simultaneamente
reveladora e avassaladora, pois G.H. percebe que buscava respostas
transcendentais, mas essas respostas são tão enigmáticas quanto as perguntas
que elas suscitam. Ao final, ela entende que a verdade universal está no ato de
“ser”, algo impossível de compreender plenamente pela limitação humana.
24º capítulo
É
ao aceitar sua incompreensão que G.H. percebe que a libertação reside. Essa
revelação lhe causa um sentimento paradoxal: decepção e compreensão de que a
essência da vida pode estar na simplicidade e na matéria. Ela se debate entre a
aversão e a atração por essa realidade, reconhecendo que a interpretação desse
“tesouro” que acabou de encontrar depende de sua própria perspectiva, podendo
ser vista como inferno ou paraíso.
25º capítulo
G.H.
percebe que sempre teve uma relação de amor e ódio com o tédio, pois ele se
parece com a “coisa nua”, ou seja, a realidade em sua forma mais pura e sem adornos.
A narradora passa a explorar, então, a relação entre esse tédio, o inexpressivo
e a criação. Reflete sobre como o tédio, que antes era visto como algo
negativo, pode ser uma forma de sentir o “atonal” (o que não é tonal, sem harmonia).
Afirma, ainda, sentir atração pelo inexpressivo e entender que a verdadeira
tragédia reside na inexorabilidade desse inexpressivo, o qual, quando expresso,
pode gerar felicidade. Por fim, G.H. reflete sobre a dificuldade de abandonar a
própria humanidade para viver a vida em sua essência mais pura e o medo de
perder a humanização construída ao longo do tempo.
26º capítulo
Apesar
do medo de ver a própria humanização por dentro – pois a verdade a ser
encontrada poderia destruí-la –, G.H. afirma que é importante encarar a verdade
sem medo, mesmo que isso signifique abandonar crenças e expectativas. Isso
significa, segundo a narradora, que a verdade é fundamental e que a falta de fé
leva à invenção de um futuro idealizado, que impede a vivência do presente.
G.H. explora sua jornada em busca da verdade e da aceitação de sua vida presente:
para ela, a vida deve ser vivida plenamente no presente, sem promessas futuras.
27º capítulo
G.H.
explora mais a fundo a relação entre o ser humano e uma entidade superior
(referida como “Deus”, embora a protagonista ressalve que esse é apenas um nome
possível). De acordo com a narradora, nossa conexão com essa entidade e o
quanto dela “extraímos” dependem diretamente de nossa necessidade e capacidade
de absorção. Para G.H., a revelação do amor e da conexão com o divino está
intrinsecamente ligada à nossa carência e pobreza de espírito. Abandonar a
esperança e assumir nossa falta é o que nos permite acessar a vida em sua
plenitude.
28º capítulo
Desapegada
da necessidade de beleza, G.H. busca por uma apreciação mais profunda e direta
da realidade. A narradora reflete sobre a delicadeza das coisas vivas e a
dificuldade de percebê-las em sua essência, sem a interferência de sentimentos
ou expectativas humanas. Logo, ela rejeita a beleza superficial em favor de uma
experiência mais crua e fundamental, buscando o inexpressivo e o material nas coisas.
Para G.H., é necessário que haja aceitação de uma nova moral, isenta de
entendimentos convencionais. Por fim, resgata a lembrança de uma pessoa do
passado que demonstrava delicadeza nas ações cotidianas, destacando a
importância dessa delicadeza nas interações com o mundo e as coisas.
29º capítulo
G.H.
continua a rejeitar a beleza superficial, pois deseja transcender a beleza como
um fim em si mesmo, buscando uma identidade mais profunda e autêntica. Para
G.H., a beleza é, frequentemente, uma conclusão ou um resultado, enquanto a
verdadeira essência reside no movimento e na transformação contínua. Esse movimento
que faz é com o objetivo de encontrar uma conexão mais profunda com o divino e
com a essência primordial do amor.
30º capítulo
Apesar
de toda sua reflexão, G.H. entra em um momento de crise: sente nojo ao olhar
para a massa branca da barata e percebe que esse nojo a impede de se conectar
com o mundo e consigo mesma. Isso a faz considerar que o erro básico de viver é
ter nojo de algo. Pensa, mais uma vez, em comer a massa da barata como um ato
de redenção, mas sente repulsa. Após uma luta interna, ela tenta forçar o ato,
mas vomita. Em seguida, apesar da aversão, decide, por fim, que deve comer a
massa da barata. Sente uma vertigem e, ao retornar, percebe que “alguma coisa
se tinha feito”, embora não saiba como. Ela cospe furiosamente a massa branca,
tentando se livrar do gosto, mas compreende que está desfazendo o que havia
feito. No final, ela se sente indigna do choro que derrama diante da situação,
mas as lágrimas a consolam e ela volta a se sentar na cama.
31º capítulo
G.H.
questiona as próprias ações, como a de quase comer a massa de uma barata, e
conclui que a humildade dos santos reside em viver de acordo com a própria
natureza e espécie. Para chegar a essa conclusão, reflete sobre a natureza da
bondade, contrastando a ideia de atos grandiosos com a simples ação de viver.
Segundo G.H., viver plenamente é, em si, um ato de bondade para com os outros.
Além disso, a narradora também discute a neutralidade de Deus e como isso torna
a divindade ainda mais acessível. Ao final, G.H. reflete, mais uma vez, sobre a
solidão e a importância da carência, pois levam ao amor e à união.
32º capítulo
G.H.
reflete sobre o que significa “estar viva”, percebendo que esse estado
transcende a sensibilidade humana e se aproxima de uma indiferença poderosa e
radiante, ligada a uma conexão com o inumano e o neutro. Ela entende que sua jornada
exige a destruição do “eu” construído ao longo da vida, um processo de
despersonalização que a conduz a uma aceitação plena de sua essência. Para ela,
a desistência – o abandono consciente de ilusões, apegos e excessos – é a forma
mais elevada de realização humana, revelando um estado puro de ser. A vida,
para G.H., é uma busca constante que só encontra sentido no fracasso da
linguagem em nomear o indizível, permitindo a verdadeira revelação da condição
humana.
33º capítulo
A
busca por um estado de ser que transcende a sensibilidade humana, para G.H.,
ocorre ao aproximar-se de uma indiferença irradiante e inumana, vista como uma
forma de amor neutro. A narradora também reflete sobre a despersonalização como
um caminho para a objetivação de si mesma e para o reconhecimento do outro,
culminando na aceitação da mudez e do fracasso da linguagem como meios para
alcançar o indizível. Para G.H., a deseroização (desconstrução do eu heroico ou
idealizado) é apresentada como uma missão secreta da vida, um processo de
desconstrução do individual inútil para revelar a verdadeira natureza humana.
Nesse sentido, como parte final do romance, é perceptível que G.H. explora a
rendição e a aceitação da própria condição humana, descrevendo um processo de
desistência da necessidade de controle e força como forma de encontrar alegria e
contentamento em sua vulnerabilidade. Ela experimenta uma sensação de confiança
e entrega ao desconhecido, sentindo-se parte de algo maior e além de sua compreensão
humana. Entende, portanto, que deve haver a aceitação da vida como ela é, sem a
necessidade de entendê-la completamente.
Análise
Fluxo de consciência
A paixão segundo G.H. é uma obra que
transcende a narrativa convencional, de maneira que adentra a complexidade da
experiência humana a partir do profundo processo de transformação da protagonista.
O romance explora a desconstrução da identidade de G.H., a busca por uma
verdade que considera essencial e a confrontação com o abismo da própria
existência.
Para
facilitar a compreensão da narrativa, iremos agrupar esse grande fluxo de
consciência em seis partes, as quais analisaremos em detalhes.
1. Início do
desequilíbrio e desconstrução da identidade
A
protagonista, G.H., uma escultora da alta sociedade carioca, tem uma existência
aparentemente confortável e bem definida. No entanto, sua vida sofre uma
reviravolta quando ela se depara com a realidade crua e ordenada do quarto da
antiga empregada doméstica, fato que desencadeia uma profunda crise existencial
na personagem. Esse fato leva G.H. a questionar os alicerces de sua identidade,
construídos em torno de convenções sociais e de expectativas superficiais, e
ela sente a necessidade de ir em busca de certa autenticidade que parece ter se
perdido em meio às obrigações e aparências de sua vida. Confrontada com a
fragilidade de sua identidade, percebe que muito do que acreditava ser era, na
verdade, uma construção social que lhe foi imposta ao longo do tempo.
2. A limpeza do
quarto
O
evento catalisador de todo esse processo de introspecção é a demissão da
empregada, Janair. Como G.H. já estava passando por um processo de reflexão
sobre a própria vida, decide arrumar o quarto da ex-funcionária para também
ordenar os próprios pensamentos. Porém, ao entrar no cômodo, depara-se com um
ambiente em estado de extrema limpeza, quase asséptico. A única coisa deixada
para trás foi um desenho a carvão na parede: um homem, uma mulher e um cachorro
nus. Para além da extrema arrumação do quarto, a imagem também a perturba, e a
faz refletir sobre a relação com a própria vida e com a figura da empregada.
Da porta eu via agora
um quarto que tinha uma ordem calma e vazia. Na minha casa fresca, aconchegada
e úmida, a criada sem me avisar abrira um vazio seco. Tratava-se agora de um
aposento todo limpo e vibrante como num hospital de loucos onde se retiram os
objetos perigosos.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro:
Rocco, 2020. p. 36.
3. O encontro
É
enquanto explora o quarto para entender o que poderia fazer naquele ambiente
que o ponto central da narrativa acontece: o encontro de G.H. com uma barata. O
inseto, com sua presença grotesca e repulsiva, provoca na narradora uma crise
de identidade, a partir da qual se vê confrontada com a fragilidade das
convenções sociais e da linguagem.
De encontro ao rosto
que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão,
movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio
contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro
do peito.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro:
Rocco, 2020. p. 45.
A
barata, elemento central na narrativa, assume um papel simbólico multifacetado.
Inicialmente, representa o abjeto, ou seja, aquilo que é repulsivo e
marginalizado pela sociedade. Dessa forma, a aversão de G.H. à barata reflete
seu desconforto com tudo aquilo que foge de seu controle e de sua compreensão.
No entanto, à medida que a protagonista se aproxima da barata, começa a enxergar
nela uma representação da própria existência, despida de adornos e de ilusões.
Nesse
sentido, a barata passa a simbolizar a alteridade, o outro que é diferente e
incompreensível. Ao confrontar o inseto, G.H. também acaba se confrontando com
os próprios preconceitos e limitações, percebendo que a verdadeira compreensão
só é possível por meio da aceitação da diferença. A barata representa ainda a
natureza primordial, a força vital que pulsa em todas as coisas, independentemente
de aparência ou valor social.
4. A perda da
identidade
Em
um momento de epifania e desespero, G.H. esmaga a barata e, em um ato de
transgressão e busca por transcendência, ingere a massa branca que sai do
inseto. Esse ato grotesco e simbólico representa a destruição de sua identidade
pregressa e o confronto com a natureza primordial da existência. Há uma
tentativa de superar a dualidade entre o eu e o outro, entre o sujeito e o
objeto. Ao ingerir a massa branca, G.H. busca uma união com a barata, com a natureza,
com o Universo.
Eu que pensara que a
maior prova de transmutação de mim em mim mesma seria botar na boca a massa
branca da barata. E que assim me aproximaria do... divino? do que é real? O
divino para mim é o real.
LISPECTOR, Clarice. A
paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 168.
A
massa branca, por sua vez, simboliza a pureza primordial, a essência da vida
antes de ser corrompida pelas convenções sociais e pela linguagem. Ao colocar
na boca as entranhas da barata, por mais repulsa que sentisse, G.H. busca uma
nova forma de conhecimento, uma compreensão intuitiva que ultrapassa a razão e
a lógica. Isso a leva a um estado de êxtase e de horror, a partir do qual ela experimenta
a fragilidade das fronteiras entre o eu e o mundo.
5. Construção de um
novo sentido
Após
a experiência traumática, G.H. tenta, desesperadamente, encontrar um novo
sentido para a vida. Ela questiona a validade da linguagem, a natureza da
realidade e a possibilidade de alcançar uma compreensão autêntica do mundo.
Assim, a protagonista anseia por uma nova forma de expressão que possa capturar
a essência de sua experiência transformadora.
[...] Escuta, vou ter
que falar porque não sei o que fazer de ter vivido. Pior ainda: não quero o
que vi. O que vi arrebenta a minha vida diária. Desculpa eu te dar isto, eu
bem queria ter visto coisa melhor. Toma o que vi, livra-me de minha inútil visão,
e de meu pecado inútil.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro:
Rocco, 2020. p. 15.
Ao
longo da narrativa, há diversos questionamentos acerca da linguagem, e ela é
apresentada como uma ferramenta paradoxal. Isso porque, por um lado, é por meio
da linguagem que G.H. tenta dar sentido à própria experiência, buscando as
palavras certas para descrever suas emoções e seus pensamentos. Por outro lado,
essa mesma linguagem se mostra limitada e inadequada para expressar a
totalidade da experiência que está vivendo, de modo que não é suficiente para
capturar a essência do inefável. Sendo assim, essa consciência da limitação da
linguagem a leva a buscar outras formas de comunicação, como o silêncio, o
gesto e a intuição.
Ainda,
como é de se esperar, por conta do próprio título da obra, G.H. explora, em
diversos momentos, o sentimento de paixão, que, no contexto do romance, não se
refere apenas ao amor romântico, mas sim a uma experiência intensa e
totalizante que envolve sofrimento, êxtase, perda e transformação. A paixão de
G.H. é uma jornada de autoconhecimento que a leva a confrontar os próprios limites
e a transcender sua identidade pregressa, sendo um sentimento marcado tanto por
momentos de angústia e desespero como por momentos de alegria e libertação. Por
meio do sofrimento, G.H. aprende a amar a si mesma e ao mundo de maneira mais profunda
e autêntica. A paixão se torna, assim, um caminho para a redenção e para a
conquista de uma nova forma de ser.
6. Aceitação do
neutro
Ao
fim da obra, G.H. parece alcançar uma forma de aceitação da inexpressividade e
do “neutro” como elementos essenciais da existência. Ela reconhece a importância
de transcender as convenções sociais e a linguagem para alcançar uma
compreensão mais profunda da realidade. Assim, vislumbra a possibilidade de uma
nova forma de comunicação que esteja além das palavras e das emoções.
Fica
nítido, portanto, que A paixão segundo
G.H. é uma obra complexa e desafiadora, que explora os limites da
linguagem, a busca por um sentido autêntico da existência e traz uma profunda reflexão
sobre a condição humana. A partir da experiência radical de sua protagonista,
Clarice Lispector questiona as convenções sociais, a natureza da identidade e a
possibilidade de alcançar uma compreensão profunda do mundo, mostrando ao
leitor que a verdadeira transformação só é possível a partir da confrontação
com o próprio medo e as limitações, da aceitação da totalidade da existência e
da busca incessante pela verdade essencial.
Uma obra de representações
Clarice
Lispector constrói uma narrativa por meio de muitas metáforas e repleta de
simbologias. Cada um dos elementos que aparecem no romance é essencial para o
desdobramento da narrativa e para a transformação pessoal da protagonista. Ao
mesmo tempo, é por meio desses símbolos que a autora leva o leitor a refletir
sobre a própria existência e os limites da percepção humana.
O quarto e sua
arrumação
O
quarto da empregada é um espaço pequeno e aparentemente insignificante, mas
simboliza a área desconhecida e ignorada da vida de G.H. Ao entrar nele, ela é
forçada a confrontar partes de si que mantém ocultas. O espaço revela
contrastes entre sua vida pública e ordenada e as realidades desorganizadas e
reprimidas de seu interior. É como se fosse uma jornada para o inconsciente, um
lugar onde o conhecido se torna estranho. Dessa forma, a ânsia de G.H. em
arrumar a casa, começando pelo quarto da empregada, simboliza seu desejo de
impor ordem e controle sobre o caos e o desconhecido. Esse impulso reflete sua tentativa
de manter as próprias inseguranças e o desconforto sob controle.
Em
um contexto mais amplo, essa necessidade de organização pode representar a
maneira como muitos procuram estruturar as próprias vidas para evitar confrontar
aspectos mais sombrios e desordenados da própria natureza. A ordem do quarto,
portanto, serve como um espelho para a verdadeira desordem interna de G.H., desafiando-a
a confrontar e aceitar a própria complexidade interior.
O desenho na parede
O
desenho na parede é uma representação silenciosa da presença e da ausência, e
pode simbolizar as vidas e as histórias não ouvidas pela protagonista,
especialmente relacionadas às pessoas marginalizadas ou subordinadas a G.H., a exemplo
de Janair. Ao interagir
com o desenho, G.H. começa a questionar sua percepção do mundo e sua posição de
privilégio, levando em consideração sua compreensão sobre desigualdade social e
empatia.
A barata
A
barata é um dos elementos mais perturbadores e simbolicamente ricos do livro.
De uma perspectiva mais superficial, representa o abjeto, ou seja, aquilo que é
geralmente rejeitado e desprezado. Para G.H., a barata retrata um estado de
introspecção e autorreflexão. Com o ritual de esmagá-la e consumi-la, G.H.
encara o absurdo da condição humana, a fragilidade da vida e a interconexão
entre todos os seres.
No
entanto, por ser figura central na narrativa, faz-se necessária uma análise um
pouco mais aprofundada, pois, de uma perspectiva mais minuciosa, nota-se que
possui múltiplas camadas de significados, representando desde o horror e a
repulsa até a aceitação e a revelação da vida em sua forma mais crua e
essencial. Sendo assim, as formas que esse inseto pode tomar na obra são:
1. Horror e repulsa
-
Inicialmente, a barata representa o horror e a repulsa, sentimentos que G.H.
sempre nutriu por esse inseto. A narradora descreve seu “arcaico horror por
baratas” e como elas são “obsoletas e, no entanto, atuais”.
-
A barata é vista como algo “imundo” e “proibido”, evocando uma sensação de
aversão física e moral.
2. Confronto com a
própria existência
-
A barata força G.H. a confrontar a própria existência e a questionar a própria
identidade construída ao longo dos anos. Sendo assim, esse inseto se torna um
espelho, refletindo aspectos de sua vida que ela preferia ignorar.
-
A barata também simboliza a parte mais primitiva e instintiva de sua própria
vida, que G.H. havia domesticado e reprimido até então.
3. Desconstrução da
identidade
-
O inseto representa a desconstrução da identidade de G.H., forçando-a a
enfrentar a realidade sem os filtros da cultura e da sociedade.
-
A narradora percebe que sua vida era uma “réplica bonita” de construções
sociais que lhe foram impostas e que a barata a confronta com a “falta de
sentido” de sua existência.
4. Aceitação e
transformação
-
Ao longo da narrativa, G.H. começa a aceitar a barata e a reconhecer a própria
natureza “inumana”. Assim, o animal se torna um símbolo de libertação e de
transcendência das limitações humanas.
-
A barata também pode representar a vida em sua totalidade, incluindo, de
maneira paradoxal, o horror e a beleza, o nojo e o fascínio.
5. O sagrado e o
profano
-
A barata também simboliza a inversão dos valores tradicionais, de maneira que
aquilo que é considerado “imundo” e “profano” se torna sagrado. Isso faz que
G.H. questione as dicotomias entre o bem e o mal, o belo e o feio, e busque uma
nova compreensão da realidade que transcenda esses dualismos.
Relação entre título
e enredo
Como
vimos, A paixão segundo G.H. narra a
experiência de uma mulher da alta sociedade carioca que, ao demitir sua
empregada, Janair, depara-se com um mundo novo e perturbador quando entra no
quarto de serviço que pertencera à doméstica. A partir de então, vivencia um
longo momento de desconstrução de si mesma, confrontando suas certezas e
ilusões sobre a vida, a identidade e a realidade do mundo que se coloca à sua
frente. Esse processo, descrito ao longo do enredo, relaciona-se com o título
em diversas camadas:
-
Paixão como sofrimento e êxtase: a palavra “paixão” pode se referir tanto ao
sofrimento quanto ao êxtase presentes na experiência da personagem. Ao
confrontar a nudez do quarto, o mural enigmático e a presença da barata, ela
experimenta repulsa, medo e angústia, mas também uma estranha fascinação e um
desejo de se libertar de amarras sociais e existenciais.
-
Paixão como desejo e busca: G.H. busca por algo que possa transcender sua vida
até então superficial e organizada. A personagem anseia por uma experiência
autêntica, mesmo que isso signifique confrontar o horror e o absurdo da existência
– simbolizada pela figura da barata.
-
Paixão como desconstrução da identidade: a experiência vivida pela protagonista
é marcada pela desconstrução de sua identidade social e pessoal. Ao se
confrontar com a barata e a massa disforme que sai de seu corpo, G.H. questiona
a própria humanidade e busca uma nova forma de ser, que passa pela aceitação do
abjeto e do inumano.
-
Paixão como revelação: o processo pelo qual G.H. passa é uma revelação sobre a
natureza da realidade e da existência. A personagem percebe que a vida é mais
do que organização social e convenções humanas, e que a verdadeira paixão está em
se entregar ao fluxo caótico e imprevisível do ser.
-
Paixão como confronto com o sagrado: é possível perceber, também, um paralelo
direto com a narrativa da paixão de Cristo, adicionando profundidade simbólica
ao sofrimento e à jornada espiritual vivenciada por G.H. Isso porque, assim como
na narrativa bíblica, na qual a “paixão” de Cristo está repleta de dor, entrega
e transformação, a experiência de G.H. também se constrói sobre um intenso
processo de desconstrução do ego, enfrentamento de medos e um tipo de “morte simbólica”,
seguida pelo renascimento em um estado de consciência diferente. Isso ocorre
quando G.H. se depara com o abismo do que é viver em sua forma mais essencial e
inumana, profundamente conectada a uma ideia de vazio, sacrifício e abandono
completo de si mesma – algo que ressoa com a trajetória de entrega de Cristo na
cruz. O sofrimento de G.H., portanto, assume uma dimensão quase ritualística,
evocando a ideia de que o sacrifício é necessário para se atingir um estado de
revelação ou transcendência espiritual. Por fim, esse paralelo também abre
espaço para uma reflexão mais ampla sobre a relação entre o humano e o divino.
No texto, G.H. busca incansavelmente por algo que ofereça sentido à sua existência
e a coloque face a face com Deus, mas esse Deus se revela de maneira inusitada:
não como uma entidade grandiosa e consoladora, mas como o “neutro” – explorado
em diversos momentos na narrativa –, o desconhecido e até mesmo o horrível,
simbolizado pela barata. Essa descoberta de Deus como um elemento profundamente
estranho, mas fundamental, ecoa o mistério do sacrifício e da redenção presente
na paixão de Cristo, mas reinterpretada por G.H. em sua radical e íntima
perspectiva existencial.
-
Paixão segundo G.H.: o título, nesse caso, indica que a paixão é vista pela
perspectiva única da protagonista, ou seja, a experiência apresentada é
completamente subjetiva e pessoal, e a narradora busca dar sentido ao que vive,
mesmo que isso signifique confrontar o absurdo e o incompreensível.
Estrutura
O
romance é organizado em uma estrutura bastante original. Sem capítulos
numerados, a narrativa é ordenada a partir de um recurso técnico particular: a
última frase de cada capítulo se repete como a primeira do seguinte, o que
acentua a sensação de fluxo de consciência que permeia a história. Sendo assim,
no lugar de um enredo tradicional, a narrativa explora os pensamentos da
personagem G.H. da maneira que lhes vêm à cabeça – o que resulta em trechos
incompletos e transições abruptas entre pensamentos –, focando em sua análise
psicológica e nas questões existenciais que ela traz à tona.
De
maneira geral, como é característico nas obras de Clarice Lispector, a obra em
questão se afasta de uma estrutura linear tradicional ao adotar uma abordagem
fragmentada e que prioriza o tempo psicológico da protagonista.
Narrador
O
foco narrativo da obra se dá em primeira pessoa, centrado na perspectiva íntima
da protagonista, G.H. Essa escolha narrativa, bastante característica das obras
de Clarice Lispector, é o que permite ao leitor que tenha um contato mais
profundo com o fluxo de consciência da personagem, de maneira que se revelam
pensamentos, sensações e reflexões com grande intensidade emocional.
Logo,
ao explorar temas existenciais e psicológicos por meio da primeira pessoa, o
leitor passa a ter acesso a uma narração bastante subjetiva e imersa nos
dilemas e nas reflexões da protagonista.
Linguagem
A
linguagem usada na obra é uma manifestação complexa do estilo introspectivo de
Clarice Lispector, que opta por uma narrativa profundamente subjetiva e fragmentada.
O texto segue a manifestação do fluxo de consciência da protagonista, com os
pensamentos e os sentimentos de G.H. fluindo de maneira livre e contínua. Essa
técnica confere à narrativa uma qualidade poética, marcada por parágrafos
longos, associações livres e uma estrutura desordenada, que refletem a
complexidade da mente da protagonista. Ao romper com a linearidade tradicional,
Clarice constrói uma forma de expressão que espelha a subjetividade e o estado psicológico
de G.H., demandando do leitor uma interpretação ativa e engajada, que o insere
diretamente nas reflexões da personagem.
Além
disso, a obra é permeada por metáforas e simbolismos, usando elementos como a
barata para evocar temas profundos sobre a vida, a humanidade e o divino.
Clarice trabalha com um tom confessional, de modo que a narrativa se assemelha
a um diário íntimo, aproximando o leitor da vulnerabilidade e da interioridade
de G.H. Frequentemente, a autora também recorre a paradoxos para capturar as
complexidades da experiência interna da personagem, destacando as dualidades e
conflitos existenciais que surgem ao longo da narrativa.
A interlocução
constante e seus desdobramentos
Outro
elemento importante da linguagem na obra é o uso de interlocuções constantes ao
longo da narrativa. G.H. parece se dirigir a um “outro”, um interlocutor cuja
identidade varia e nunca é completamente definida. Esse “tu” pode assumir
diferentes significados:
1.
O leitor: em muitos momentos, G.H. quebra a “quarta parede” e parece se
comunicar diretamente com quem lê, quase como se pedisse companhia ou validação
para suas reflexões. Essa aparente quebra na estrutura cria uma relação íntima
entre texto e leitor, fazendo com que este participe ativamente da jornada existencial
da protagonista.
2.
Um interlocutor humano específico: há trechos em que G.H. parece direcionar
suas palavras a alguém importante em sua vida, como um ex-amante ou outra
figura que, em sua subjetividade, possa representar um laço humano
significativo.
3.
Deus ou o Divino: em outro nível, o “tu” frequentemente assume um caráter
transcendente, simbolizando uma tentativa de diálogo com Deus ou com o sagrado.
G.H. confessa, questiona e busca respostas para o mistério existencial em uma
espécie de oração fragmentada e desesperada.
4.
O “eu-outro” interno: por fim, há momentos em que o interlocutor pode ser
interpretado como uma projeção de G.H., ou seja, um reflexo de sua própria
psique. Essas interlocuções atuam como um espaço para confrontar suas angústias
e dilemas, funcionando quase como um autoquestionamento dramatizado ou um
debate interno.
Desse
modo, percebe-se que a ideia de “segurar a mão” desse interlocutor é recorrente
e se traduz como símbolo da necessidade de conexão, seja com outro ser humano,
seja com Deus ou consigo mesma. Isso intensifica o tom confessional e
relacional da narrativa, ao mesmo tempo em que amplifica o caráter simbólico da
relação entre G.H. e esse “outro”.
A desconstrução da
linguagem e o indizível
Outro
aspecto crucial da linguagem na obra está em sua relação com o indizível.
Clarice explora os limites da linguagem ao expressar experiências que transcendem
as palavras. Os questionamentos filosóficos e existenciais de G.H.
frequentemente transportam o leitor para um espaço além do verbal, em que a
tentativa de nomear ou explicar a realidade fracassa. Esse “fracasso”, no entanto,
não é uma limitação do texto, mas parte essencial do que Clarice busca
transmitir: que é só por meio da falha da linguagem que o indizível pode ser
vislumbrado. A narrativa, assim, transforma a linguagem em um espaço de busca
constante. As palavras não são definitivas, mas ferramentas provisórias,
frágeis e fragmentadas, com as quais G.H. tenta capturar o mistério da vida, do
sagrado e de si mesma. No entanto, ao mesmo tempo em que busca, ela reconhece
que sua missão é retornar com as mãos vazias: a linguagem nunca consegue alcançar
plenamente o que ela procura, mas é nesse vazio ou “não-dito” que reside a
revelação mais profunda.
A despersonalização e
a reinvenção do “eu”
O
estilo linguístico da obra também reflete o processo de despersonalização
vivido por G.H., que se torna um dos eixos centrais da narrativa. A
protagonista busca desconstruir sua identidade construída e ultrapassar a noção
de individualidade em direção a algo mais amplo e essencial: tornar-se “a
mulher de todas as mulheres”, um arquétipo universal que transcende o “eu”
limitado. Esse movimento é narrado de maneira fragmentada e dialética, espelhando
na linguagem o processo interno de diluição e reconstrução da protagonista. No
momento em que G.H. alcança esse estado de despersonalização, a linguagem se
transforma ainda mais profundamente. As palavras passam a mergulhar em um estado
de “mudez”, de vazio, que se desloca para além do discurso racional, abraçando
uma aceitação da condição humana como algo fragmentário e necessariamente
inacabado.
O
que se percebe, portanto, diante de todas essas camadas, é que linguagem de A paixão segundo G.H. é um dos aspectos
mais desafiadores e inovadores da obra, refletindo a complexidade existencial e
espiritual da narrativa de Clarice Lispector. Combinando fluxo de consciência,
simbolismo, interlocuções e a exploração do indizível, Clarice constrói um texto
que não apenas narra a experiência de G.H., mas convida o leitor a habitá-la,
desconstruindo e reconstruindo a si mesmo no processo.
Tempo e espaço
Tempo
No
romance, o tempo é essencialmente psicológico, ou seja, não segue uma
linearidade tradicional, mas se desenrola em camadas subjetivas, de maneira a
refletir o fluxo de consciência de G.H.
Apesar
disso, o tempo cronológico também é percebido, especialmente quando a
personagem descreve o início de seu dia – ao se levantar da mesa de café da
manhã e se encaminhar para o quarto da empregada –, com a posição do sol vista
através da janela do quarto.
No
entanto, como a narrativa se passa em um só dia, o tempo é mais sentido que
contado, o que acaba destacando os momentos de introspecção e de revelação
interna da protagonista. Sendo assim, o tempo cronológico é quase irrelevante
quando comparado ao tempo vivido pela personagem, que se dilata e contrai com
suas reflexões e seus sentimentos.
Espaço
O
espaço físico é restrito ao apartamento de G.H., mais especificamente, ao
quarto da empregada. Esse espaço, porém, adquire um caráter simbólico e
metafórico, visto que o ambiente se transforma em um espaço de revelação e
confronto entre a protagonista e a própria existência. Além disso, ao longo da
narração, o ambiente é descrito com detalhes que intensificam a sensação de
opressão e introspecção. O espaço exterior, além do apartamento, é praticamente
ignorado, o que acentua a interioridade da narrativa.