Introdução
Nos
últimos anos, a literatura portuguesa tem presenciado o surgimento de uma nova
geração de autores negros que, embora tenham sido criados em Portugal, possuem
laços com as antigas colônias do país na África. Suas obras têm ampliado os
horizontes da literatura lusófona ao abordar temas como o racismo e ao oferecer
perspectivas diversas sobre o colonialismo e o pós-colonialismo. Essas
narrativas têm desafiado a ideia de uma identidade portuguesa homogênea –
branca e com raízes exclusivamente europeias –, sendo um lembrete de que homens
e mulheres negros participaram e participam da história do país e de sua
sociedade.
Entre
os nomes de destaque dessa nova geração estão Kalaf Epalanga (Angola, 1978-),
autor de Também os brancos sabem dançar;
Yara Monteiro (Angola, 1979-), que escreveu Essa
dama bate bué!; Gisela Casimiro (Guiné-Bissau, 1984-), autora do livro de
poemas Erosão.
A autora
Djaimilia
Pereira de Almeida nasceu em 1982, na cidade de Luanda, Angola. Filha de mãe
angolana e pai português, mudou-se ainda criança para Portugal com sua família.
Licenciada em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, concluiu o
doutorado em Teoria Literária pela Universidade de Lisboa e atualmente é
professora da New York University, onde aborda temas como a diáspora africana.
No
campo da ficção, Djaimilia estreou com o livro Esse cabelo (2015), que explora questões sobre raça e feminismo ao
narrar a relação de uma menina com seus cabelos crespos. Desde então, publicou Luanda, Lisboa, Paraíso (2018), A visão das plantas (2019), As Telefones (2020), Os gestos (2021), Maremoto (2021) e Três
histórias de esquecimento (2021). Grande parte dessas narrativas explora
temas como a imigração, a identidade e a experiência de estar dividido entre
dois mundos: o de Portugal e o dos países que foram colônias lusas.
Ao me debruçar sobre
a literatura na minha língua, deparo com um retrato, de séculos, de pessoas
negras como caricaturas, como elementos decorativos: risíveis, planas, muitas
vezes sexualizadas, seres exóticos. Relegadas à condição de personagens vazios
e estereotipados, pessoas negras são raras no cânone português e são
representadas como seres humanos desprovidos de individualidade.
ALMEIDA,
Djaimilia Pereira de. O que é ser uma
escritora negra hoje, de acordo comigo. São Paulo: Companhia das Letras,
2023. p. 41.
A
obra de Djaimilia tem sido amplamente reconhecida pelo público e pela crítica,
com traduções em vários países. Além disso, a autora conquistou importantes
prêmios literários, como o Oceanos, que elegeu Luanda, Lisboa, Paraíso como o melhor romance de 2019.
Uma mulher negra que
escreve
No
ensaio O que é ser uma escritora negra
hoje, de acordo comigo (2023), Djaimilia Pereira de Almeida reflete sobre
seu ofício como escritora. Segundo ela, seu maior privilégio é o tempo em que
nasceu, pois, caso tivesse nascido algumas décadas antes, seu “destino seria,
com sorte, a cozinha, a vassoura, a roça”
Djaimilia
relata que seu pai, um homem branco, não gostava de que ela se visse como uma
pessoa negra. Sua cor de pele era tratada como tabu dentro de casa e, por isso,
a autora cresceu sem refletir muito sobre essa questão. Foi apenas por meio da
escrita e da publicação de seus livros que sua compreensão se transformou.
“Escrevendo, entendi-me negra” , “Nunca mais me odiei. Nunca mais tive vergonha
de ser quem eu sou”.
A
escritora também percebeu que a cor de sua pele cria uma série de expectativas
sobre como ela deve se portar e quais temas deve abordar. Esperam que ela adote
certas posições e sirva de instrumento para a causa antirracista. Com
frequência, sente-se tratada como um produto da moda, que deve atender aos
interesses de um mercado editorial ávido por publicar escritores negros, vistos
como um “subgrupo exótico dentro dos escritores do mundo”.
Nesse
contexto, aquilo que ela deseja escrever, o que sua imaginação pede, corre um risco
constante de ficar em segundo plano. Por isso, ela é enfática ao recusar o
rótulo de escritora negra, que considera
uma estratégia mercadológica. No entanto, orgulha-se em afirmar que é uma mulher negra que escreve, afinal, sua
identidade e sua experiência de mundo são inseparáveis do seu gênero, da cor de
sua pele e de seu ofício.
O livro
Em
uma entrevista concedida à escritora brasileira Stephanie Borges, Djaimilia
Pereira de Almeida afirmou que, entre os livros que escreveu, A visão das plantas é o seu favorito.
Diferentemente de suas obras anteriores, que trazem protagonistas negros e
contemporâneos, nesse livro encontramos um homem branco que, no século XIX,
atuou como um violento capitão de navios negreiros. Dado esse contexto, os
leitores podem criar expectativas de que a autora, enquanto mulher negra, tenha
utilizado sua escrita como forma de reparação ou acerto de contas contra esse
personagem, que simboliza os algozes de seus ancestrais angolanos. No entanto,
Djaimilia escolheu o caminho oposto, construindo uma narrativa que recusa as
certezas fáceis e os desfechos didáticos, explorando a complexidade da condição
humana, em todas as suas possibilidades e contradições.
Epígrafe: o ponto de
partida
Na
epígrafe de A visão das plantas, há um trecho do livro Os pescadores, do autor português Raul Brandão. Publicada em 1923, essa
obra híbrida assemelha-se às narrativas de viagem e é repleta de lembranças do
próprio autor, que misturou memória e imaginação para compor seu texto. Entre
os personagens dessa narrativa, aparece brevemente a figura de Celestino,
que tendo começado a
vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de
que ainda hoje me não lembro sem inveja. Falava pouco. Sorria sempre numa satisfação
interior, completa, perfeita, com uma cara de páscoas rosada e inocente,
enquadrada pela barba de passa-piolho toda branca. A sua vida anterior fora
misteriosa e feroz. De uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara
uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil.
Outras coisas piores se diziam do capitão Celestino... Mas o que eu sei com
exactidão a seu respeito é que para alporques de cravos não havia outro no
mundo. Todo o dia um fio de água escorrendo por condutos invisíveis de que só ele
sabia o segredo, caía pingue-que-pingue nos alegretes caiados de branco; todo o
dia o velho corsário, com mãos delicadas de mulher, tratava embevecido as flores
cultivadas como filhas. E acabou assim a vida mondando e podando, sem uma dúvida
na consciência tranquila...
BRANDÃO,
Raul. Os pescadores. In: ALMEIDA,
Djaimilia Pereira de. A visão das plantas.
São Paulo: Todavia, 2021.
Em
diversas entrevistas, Djaimilia Pereira de Almeida relata que entrou em contato
com o livro de Brandão aos 18 anos e ficou fascinada pela imagem desse personagem,
um capitão de navios negreiros já idoso e afastado de seu ofício, sobre o qual
se contavam histórias terríveis de violência, mas que terminou a vida sem remorsos,
dedicando-se ao cultivo de um belo jardim.
Djaimilia
ficou intrigada com a possibilidade humana – e, portanto, filosófica – que a
existência de Celestino sugeria: a ideia de que nem todo crime resulta,
necessariamente, em sentimento de culpa e em castigo. Quase duas décadas e
muitas releituras depois, a autora decidiu criar uma história para aquele velho
capitão, mencionado apenas de passagem em Os
pescadores. Assim nasceu o protagonista de A visão das plantas.
Síntese da obra
O
livro A visão das plantas é composto
de 25 capítulos sem numeração ou título. Por isso, nesta seção, para facilitar
a análise, os capítulos serão numerados e identificados por suas respectivas
páginas.
A
edição tomada como base é a publicada pela editora Todavia.
Capítulo 1 (páginas 9 a 11)
Idoso,
capitão Celestino retornou à vila litorânea de sua infância e à sua antiga
casa, já inabitada, onde tudo estava diferente e, ao mesmo tempo, permanecia
igual. Pó e mofo estavam em todas as partes. A hera cobria tudo, de modo que a
casa se confundia com o quintal abandonado. A sala de jantar, a pequena sala,
os dois quartos, a cozinha e a despensa haviam sofrido com a passagem do tempo
e com a maresia, que transformaram a casa em um amontoado de pedra, madeira e
cal, sem humanidade. Mesmo assim, era a companhia de que Celestino precisava em
seus últimos dias. Sem merecer, ele havia encontrado nessa casa uma sepultura
onde enterrar seu coração.
Capítulo 2 (páginas 11 a 15)
O
retorno ao lar de sua infância e a ausência das pessoas com quem conviveu não
provocaram qualquer traço de emoção em Celestino. Nos primeiros meses depois da
chegada, ele organizou a casa, livrou-se dos móveis com caruncho e ateou fogo
às roupas de cama e às vestimentas das
mulheres da família que haviam vivido com ele. Restavam poucos objetos: duas
cadeiras, um camiseiro, uma mesa, quadros de seus antepassados e uma cama de
ferro branco, sobre a qual sua mãe morreu. No quintal, tomado por ervas daninhas,
as plantas haviam se alastrado desordenadamente e invadido tudo, como se
tivessem a missão de apagar todas as memórias dos seres que haviam vivido
naquele lugar. Foi ali que Celestino encontrou um propósito: sabendo-se a
caminho da cegueira e da morte, decidiu ser consolado pelos tons e aromas das
plantas. Empenhou-se em construir um jardim e seus cuidados fizeram com que a
vida regressasse na forma de pequenos animais, como minhocas e insetos, que
encontrava ao mexer na terra.
Capítulo 3 (páginas 16 a 21)
Padre
Alfredo, pároco da vila, fez uma visita a Celestino e se surpreendeu com a
beleza do jardim. Ele, que viera convencer o capitão a se confessar, calou-se
diante do perfume dos frutos e das flores.
Celestino foi amistoso com o visitante e falou sem parar sobre os cuidados que
dispensava às plantas, como se elas fossem os amores de sua vida. Tudo no
ambiente destoava da figura sombria do pirata.
Quando
as pessoas o viam passar, em suas caminhadas pela vila, pensavam nas aventuras
que ele havia vivido e espalhavam histórias aterrorizantes sobre seu passado.
Por sua vez, ele procurava manter distância de todos e, quando se sentia
observado através das sebes, urrava e fazia ameaças. Sua casa passou a ser
vista como mal-assombrada e o espantalho que ergueu no jardim para afastar os
olhares curiosos contribuiu para aumentar o temor dos vizinhos, os quais
fantasiavam que o pirata havia erguido um altar para o diabo e que à noite, com
o rosto coberto de sangue, usava outra língua, que identificavam como a dos
negros africanos com quem Celestino tivera contato.
O
velho corsário sorria apenas para as crianças, pois via nelas representações da
perfeição, da permanência e da vitalidade. Elas, por sua vez, sentiam um misto
de curiosidade e medo e, em suas brincadeiras, imitavam o capitão, simulando um
tapa-olhos com as próprias mãos e recriando as aventuras do pirata. Para três –
Raul, Pedro e Luiza –, Celestino passou a deixar, no muro de sua casa, cubos de
marmelada e fatias de queijo curado.
Quase
um ano após o retorno, padre Alfredo continuou visitando o velho pirata, sem
obter qualquer confissão ou fazer perguntas sobre seu passado. Percebeu que o
capitão se confundia, trocava nomes, caminhando aos poucos para a loucura, uma
forma de remediar o sofrimento daquela vida que se apagava. O padre talvez fosse
o único a pensar que Celestino não era um facínora, mas, sim, um jardineiro
ocupado em preparar o próprio enterro.
Capítulo 4 (páginas 22 a 26)
As
crianças passaram a frequentar a casa de Celestino, que, orgulhoso, contava
histórias de seu passado. Elas escutavam com curiosidade e entusiasmo. O velho
pirata falou de seu pai, Nuno, também capitão de navios, que morreu em
alto-mar, e dos medos que sentia quando menino.
Contou
também sobre uma viagem ao continente africano, durante a qual adoeceu, vagando
só e febril, até encontrar um grupo de holandeses que planejava a caça de um
grande crocodilo, cuja venda renderia ao grupo substancial quantia. Entre eles havia
uma menina, que se encarregou de seus cuidados. Apesar da ajuda recebida,
depois de alguns dias, Celestino matou todos os homens do grupo e deixou a
menina vendada e amarrada ao tronco de uma árvore.
Vinde a mim, meninos,
a mim que degolei gargantas e durmo o sono dos justos. Quereis saber o que
matei? Matei macacos e cavalos. Serpentes, vespas, um elefante. Um crocodilo do
tamanho de uma jangada: cortei-o em cinco partes, enquanto me ri da fortuna que
o colosso me renderia. Matei dez mulheres, a uma delas cortei os pés. Matei um
corvo, para o comer. Raposas, ratazanas. Matei centenas de homens com as minhas
mãos e elas não me caíram. Matei os sonhos de um milhar de outros. Queimei cabanas.
Um dia, mordi o pescoço dum homem até lhe arrancar as veias para fora. Espetei
uma lança no peito de um amigo. Roubei dinheiro. Rebentei o crânio de um albino
contra uma rocha. E a seguir esquartejei-o. À hora de adormecer, a mão de minha
mãe entrava por mim dentro com a xícara de leite morno, muito doce, e levava-me
na mão do sono.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia,
2021. p. 23-24.
Em
seguida, Celestino passou a narrar para as crianças seu cuidado com as plantas.
Ele desejava que seus cravos ficassem ao vento, brincando, e, quando se
cansassem de tanto tagarelar, o capitão lhes diria que já era tarde, os
acomodaria e falaria com eles carinhosamente, como uma mãe que se dirige aos
filhos pequenos.
Capítulo 5 (páginas 27 e 28)
Dois
anos se passaram sem que alguém se aproximasse do portão de Celestino. Na loja
de sementes, ele era atendido com má vontade. As mulheres cobriam os olhos dos
filhos quando cruzavam com o velho
pirata. As avós usavam seu nome para fazer ameaças aos netos caso eles não se
comportassem. Já as crianças ficavam divididas. Consideravam a possibilidade de
ele ser o diabo, mas também viam seus cuidados e sua paciência com as flores.
Talvez disfarçasse, mas o fato é que ele parecia desinteressante para um pirata.
Celestino não se metia com ninguém, falava pouco, caminhava com dificuldade.
Não fosse isso, tantos eram os boatos sobre seu vínculo com o demônio, teriam
expulsado o capitão da vila. Mas, com o passar do tempo e a chegada de novas
pessoas, sua presença deixou de chamar a atenção. Apenas o perfume de seu
jardim ainda despertava o desejo e a curiosidade da vizinhança.
Capítulo 6 (páginas 29 e 30)
Nesse
capítulo, acontece uma ruptura da narrativa em terceira pessoa, com uma
sequência de fragmentos na voz de Celestino. São lembranças de seu passado no mar,
pedaços de pesadelos recorrentes com imagens de luz, sangue e ratos, listas com
afazeres para executar, comentários sobre seu cotidiano. Ele conta que foi a
Leiria, de onde trouxe uma tulipa; fala dos cravos, do procedimento para secar
as rosas, da perda de duas dálias, de uma noite no riacho, do chá com padre
Alfredo e do bolo inglês que recebeu da vizinha.
Capítulo 7 (páginas 31 e 32)
Na
parte de trás da casa, onde estavam o poço e a vinha, tudo foi se deteriorando
pela falta de cuidado de seu morador, cada vez mais debilitado. O jardim em
frente, no entanto, continuava vistoso. Era um contraste, como se a casa fosse
um molar reluzente por fora e
apodrecido por dentro.
Na
sequência, mais uma vez a narrativa em terceira pessoa é interrompida por
fragmentos na voz de Celestino a respeito de suas lembranças, de seus pesadelos
e de seu cotidiano. Ele fala das imagens de luz e sangue, recorda de suas
navegações e de uma cena de violência. Refere-se ao ano de 1833 como o seu
tempo. Agora já não suporta o cheiro do mar. Imagina-se agredindo padre
Alfredo. Diz que perdeu um dente no jardim.
Capítulo 8 (páginas 33 e 34)
Sentado
na escuridão, Celestino observava um vento brando que vinha da serra e chegava
à plantação de carvalhos e aos choupos. Aos poucos, o vento tomou o vale, como
se saísse das profundezas da terra. Os carvalhos, movimentados pela aragem,
pareciam falar alguma coisa. O som do vento nas folhas lembrava o som do mar e seu
ritmo se assemelhava ao da maré. Quando se concentrava, Celestino conseguia
sentir que seu coração e as folhas entravam no mesmo compasso.
O
velho pirata, agora em terra, revelava ao mar que havia chegado ao seu destino.
Deu um ultimato ao vento: sentia-se pronto para o enfrentamento, caso o viesse
buscar. Agora tinha uma casa da qual não estava disposto a abrir mão. Entendia
que era tarde para voltar atrás e corrigir os crimes que cometera. O vento não
respondeu. Continuou em seu trabalho de agitar as folhas, em um ir e vir cadenciado.
Celestino entendeu, por fim, que a Natureza não se comove, não se afeta. Ele
tinha liberdade para morrer, amar e ser amado pelas plantas, que pertenciam a
ele e, ao mesmo tempo, eram ele.
Capítulo 9 (páginas 35 a 37)
As
plantas cultivadas por Celestino não sentiam gratidão pelos cuidados do
jardineiro. Eram indiferentes ao amor que ele lhes dedicava. Não sofriam com
sua ausência, nada esperavam dele, não julgavam suas ações. Caso ele morresse,
elas receberiam a alforria e tomariam a casa. Também não lamentavam a morte dos
escravizados que Celestino mandara sufocar com cal, no porão do navio negreiro.
As plantas e Celestino eram feitos da mesma matéria, incapazes de sentir
piedade.
Capítulo 10 (páginas 38 e 39)
A
essa altura, os moradores da vila haviam perdido todo o interesse em Celestino,
que desfrutou do estado de anonimato, de poder caminhar pelas ruas sem que
viessem às portas das lojas para vê-lo passar. Os tempos eram outros e o novo
século nunca pertenceria a ele. Celestino estava ligado ao passado, era um
fantasma que já não colocava medo em ninguém. Padre Alfredo continuou tentando
fazer com que o capitão se confessasse, dizia que não era tarde para isso, mas
o pirata manteve sua recusa, pois não tinha nada para dizer. E completou
refletindo sobre o tempo da maturação das ameixas, do florescimento das
sardinheiras, do desaparecimento de uma cicatriz, do fim do mar, que já
completaria cem anos. Esses eram tempos definidos, ao contrário daquele
referido pelo padre. Afinal, como estipular quando é tarde para alguma coisa?
Capítulo 11 (páginas 40 e 41)
Este
capítulo retoma o discurso em primeira pessoa, com um apanhado de pensamentos e
lembranças de Celestino. Negando ter esganado a menina holandesa, ele se refere
mais uma vez à imagem de sangue e luz. Pensa em Júlio, companheiro dos tempos
de navegação, e em Saraiva, que havia morrido afogado. Acreditava ter visto Leal
no cais, transportando sacas de farinha, mas esse homem já havia morrido há
décadas, quando o capitão era ainda criança. Comenta os gritos dos moços à
porta da igreja sobre a chegada do novo século. Aquela era outra morte e era
como se ele já não estivesse ali. Havia entrado no mar recentemente, mas sentiu
que o puxavam para baixo. Percebeu a degradação da água e que ele, nascido
peixe, via que tudo havia se transformado em ratos.
Capítulo 12 (páginas 42 a 44)
Na
vila, alguns ainda sentiam medo de Celestino e apressavam o passo ao passar em
frente à casa do velho pirata. Outros, curiosos, espreitavam através das sebes
e sentiam que ali estava a vida que recusaram: as aventuras, as viagens, a
violência. Ao mesmo tempo que amava as flores, Celestino tinha impulsos de
violência. Desejava usar sua navalha ao ver os meninos pela rua ou pegar a
pistola e atirar em padre Alfredo pelas costas, quando o sacerdote ia embora de
sua casa, depois de ter feito um sermão sobre a caridade, que enchia o capitão
de tédio e o afastava a contragosto dos cuidados com o jardim. Ali, cada flor e
cada fruto eram como uma espécie de duplo dos mortos que havia deixado pelo
caminho. Eles ofereciam o silêncio, não o aborreciam com perguntas e olhares
culposos. Pois o passado, na visão das plantas, era como a gosma que as lesmas
deixam nas paredes e que, depois de seca, torna-se apenas uma linha. Talvez o
mar também fosse uma espécie de caixão incapaz de ver, ouvir ou falar. Como os
elementos da natureza, Celestino não sentia saudade ou medo. Identificava-se
com as plantas do quintal e seus dedos deformados iam ganhando a forma de
raízes.
Capítulo 13 (páginas 45 a 47)
O
episódio descrito nesse capítulo pode ser tanto um delírio de Celestino quanto
um flashback de quando se perdeu na
floresta africana e encontrou o grupo de holandeses.
Febril,
estava sozinho, em meio à mata fechada, onde havia se perdido. Desconhecia a
língua da terra, conhecia apenas a do mar. Toda a Natureza o chamava para que
se rendesse e se transformasse em planta. A floresta parecia ter vontade
própria e era como se ela tivesse a missão de fazê-lo se perder. O capitão
escutava chiados, mas não sabia se os sons vinham das ondas, dos animais ou de
sua própria cabeça. O ambiente era hostil, povoado por cobras e aranhas, mas
Celestino prosseguiu, abrindo caminho com um facão, em direção ao interior da
floresta, onde viviam animais que nunca haviam encontrado um ser humano.
O
pirata tinha deixado de ser gente. Era agora uma planta e seguia sem memória,
sem medo e sem arrependimentos sobre o sofrimento que provocara nos outros ao
longo da vida.
Capítulo 14 (páginas 48 a 51)
Esse
capítulo se compõe de fragmentos. O primeiro fala dos pais de Celestino: a mãe,
que teve uma vida servil, e o pai, que morrera em um naufrágio, seguindo o
mesmo destino de outros antepassados. Na casa, havia um camiseiro feito com
mogno trazido do Pará. A madeira vinda do Brasil tinha seguido a mesma rota que
os homens e as mulheres aprisionados nos navios negreiros, mas os troncos
tinham a vantagem de viajarem deitados, algo que era negado aos escravizados. A
mãe de Celestino havia encomendado a mobília sem saber que aquela madeira se
relacionava ao mundo de seu filho. Enquanto trabalhava, o carpinteiro que
construiu o camiseiro se perguntava como havia vivido aquela árvore que tinha
diante de si. No futuro, a madeira encerada e brilhante faria um reflexo que
alcançaria um retrato na parede, no qual se via o capitão Nuno ainda jovem. O
segundo fragmento retorna à floresta onde Celestino se perdeu. Depois de dias,
ele encontrou um acampamento abandonado. Estava febril, com braços e pernas
sangrando, as gengivas inflamadas. Acabou perdendo a consciência.
Por
fim, o capítulo encerra com trechos em primeira pessoa. Celestino se recorda da
mãe, que acordava e batia manteiga. Lembra-se da madrugada mais feliz de sua
vida, a noite em que, junto dos companheiros, comemorou com música e um assado,
quando à sua volta estavam os corpos de vinte e três pessoas negras. Fala de um
cego que pedia dinheiro à porta da igreja; sentia nojo desse homem e queria
enforcá-lo. Disse que, se fosse padeiro, envenenaria uma fornada de pão. Teve
novas visões de sangue e luz. Comentou que foi à praia no domingo observar a chegada
dos barcos. Mulheres esperavam a volta dos maridos, que haviam morrido em
alto-mar. Por ele ninguém havia esperado, com exceção dos cravos de seu jardim.
Capítulo 15 (páginas 52 e 53)
As
crianças começaram a visitar Celestino nos fins de tarde para observar os
filhotes de morcegos que aprendiam a sobrevoar o quintal, ensinados por suas
mães. Elas ficavam ansiosas, como se os morcegos fossem atacá-las. O velho pirata
também sentia medo. Imaginava que os animais poderiam avançar em direção a ele
e arrancar seus olhos. Mas os pequenos morcegos e suas mães não se davam conta da
presença deles. Por volta das oito da noite, quando a escuridão já havia
avançado, as mães-morcego encerravam sua lição de voo, as crianças voltavam
para suas casas e Celestino seguia com sua rotina.
Foi
naquele período que o capitão viu, pela primeira vez, a menina holandesa, morta
há muito tempo. Após o jantar, enquanto observava as brasas na lareira,
identificou sua figura em meio às chamas. Por um momento, quis tocar as
labaredas e acariciar o rosto da criança. Lembrou-se das cantigas que ela
entoava quando ele estava febril, músicas que lhe interessavam mais que a
própria menina, cujo choro o aborrecia.
Capítulo 16 (páginas 54 a 57)
Às
vezes, Celestino se embebedava. Nesses dias, acendia uma fogueira às margens do
riacho onde havia nadado quando menino e passava a noite deitado lá. A proximidade
da água não fazia com que recordasse dos seus tempos de viagens em alto-mar,
pois sua cabeça estava mergulhada em esquecimento. Suas mãos ainda eram as
mesmas que haviam cometido atrocidades, mas seu corpo, depois de ter chegado à
terra firme, parecia não saber mais onde estava ou para onde ir. Certa noite,
atirou-se nu ao riacho de águas geladas e sentiu que o lodo o puxava para o
fundo. Não guardava remorso ou saudade, mas sentiu-se sozinho, pois já não
tinha ninguém. Escutou então um choro de criança, mas não sabia se era um
delírio ou se algum dos meninos da vila o espreitava. Temeu que fosse alguém
com a intenção de botar fogo em seu jardim. Saiu do riacho, mas o choro havia
parado. Perguntou-se se aquele som vinha da menina holandesa. Ali a Natureza
era outra, diferente da floresta na qual se perdera, mas também o desprezava. A
despeito de seus cuidados e de seu amor pelas plantas, elas não se importavam
com ele. Ao amanhecer, Celestino emergia da neblina, que trazia ao jardim os
cheiros e os sons do mar. Era o momento em que se lembrava de sua infância à
beira-mar, quando brincava de marinheiro. Agora, no fim da vida, ele brincava
de jardineiro.
O
capítulo termina com fragmentos na voz de Celestino. São imagens desconexas, um
mosaico do que ele vê, lembra e sente.
Esta noite choveram navalhas. O medo nos
bigodes. Choupos e cravos no poço.
—
Sangue e luz. Ou o
outro na vala. O céu sobre a minha cabeça. O burgo aceso até à Lua.
—
Hoje janelas abertas. O nevoeiro resmunga.
Era arrancar-lhe a cauda.
—
Cadeiras, uma mesinha. Fui-me às encostas.
Sinos toda a noite.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia,
2021. p. 56-57.
Capítulo 17 (páginas 58 a 60)
Enquanto
trabalhava no jardim, Celestino pensou ver algo brilhante na terra. Cavou em
busca do brilho, que fugia. Nesse momento, uma espécie de loucura percorreu
suas ideias e seu corpo. Cavou sem parar, cada vez mais fundo, sem pensar ou
sentir qualquer coisa. Era como se tivesse fome e dependesse daquele ato para
se manter vivo. O quintal estava mergulhado em um nevoeiro.
Celestino
havia enlouquecido, deixava de ser um homem. Não sentia saudade, não carregava
mágoas, arrependimentos ou lembranças. Mesmo assim chorou. Finalmente, seu
corpo tombou, exausto. Acolhido pela terra, olhou para as estrelas e adormeceu.
Quando despertou, o jardim continuava igual, apenas a terra revolvida. Já era
dia, perdera a noção do tempo. Sentiu medo e foi para a cama, com as ideias
confusas.
Capítulo 18 (páginas 61 e 62)
Na
manhã seguinte, Celestino acordou mais velho e mais cego. Seu corpo se
deteriorara: os pés estavam inchados, as pernas cheias de varizes, tinha uma
corcunda e a pele do pescoço estava flácida. Pela primeira vez depois de muito
tempo olhou-se no espelho. Passou a mão no rosto e se arrepiou com a aspereza
dos pelos. Decidiu cortar a barba, que havia mantido durante toda a vida.
Barbeou-se com cuidado, pois suas mãos tremiam. Assustou-se ao ver seu rosto,
mas não lamentou. Não colocou a pala que tapava um de seus olhos. Foi ao
quintal, onde uma chuva forte dobrava as pétalas das flores. Sem a barba e sem
a pala sobre o olho, sentia o frio e o vento de modo distinto. Do topo dos
degraus que levavam ao jardim, teve um momento ao leme pela última vez na vida.
Capítulo 19 (páginas 63 a 65)
Celestino
ficou vários dias doente e acamado. Enquanto isso, as vizinhas lhe traziam
comida, um médico o visitava e o padre continuava com suas tentativas inúteis
de fazê-lo se confessar. Recuperou-se motivado pela necessidade de cuidar do
jardim, que continuava tão viçoso quanto antes.
Na
época das festas de São João, uma grande fogueira foi acesa na praia. Celestino
compareceu, acompanhado de Manuel, um primo do falecido caseiro Amadeu. No
entanto, o velho homem se sentiu deslocado. Foi embora assustado e acabou
caindo em um beco, onde Manuel o encontrou horas depois. Celestino implorou
para que o rapaz o levasse para casa.
Nos
dias seguintes, seu corpo e sua mente definharam ainda mais. Já não enxergava
quase nada. Reconhecia as plantas pelo tato e cantava para elas. Pensava que o
fato de florescerem era uma resposta aos cuidados que recebiam. Enterrou junto
ao limoeiro os fios da barba que raspara. Era uma forma de, após a morte,
seguir seu próprio rastro e encontrar o caminho de volta às flores do jardim quando
sentisse falta delas. Trabalhou apressado, olhando por cima do ombro como se,
em vez da barba, estivesse enterrando um saco de moedas, e então não se livrou
do medo de que fosse roubado. Continuou a cuidar do jardim em seu amanhecer diário,
cada dia de um jeito, de modo que jamais se entediava.
Capítulo 20 (páginas 66 a 68)
No
Natal, Celestino recebeu de padre Alfredo um peixe, que acabou apodrecendo
sobre a mesa. Assustou-se com o cheiro da morte que invadira a casa e abriu as
janelas, aflito.
Raul,
Pedro e Luzia ainda o visitavam para ouvir sobre os tempos de pirataria.
Celestino sentia prazer no interesse que as crianças demonstravam em suas
histórias. Um dia, tirou a camisa e mostrou aos pequenos suas tatuagens e a
grande cicatriz nas costas, o que os impressionou. Inventou histórias
violentas, nas quais sempre levava vantagem. Dizia que havia matado centenas de
homens com as próprias mãos e que, apesar disso, elas estavam intactas. No entanto,
dessa vez percebeu o choque das crianças com sua narrativa e a repulsa que seu
corpo velho provocava. Sentiu-se embaraçado e deixou de enxergar os pequenos à
sua frente. Ensimesmado, pensou em sua decrepitude e em como seria mais nobre
ter morrido ainda jovem. O mar, que havia permitido seu regresso à terra, zombava
dele, tornando-o motivo de curiosidade para os outros.
Era
agora um homem domesticado. Ficou cismado ao perceber que as flores o mantinham
aprisionado. Pensou ter erguido no jardim um pequeno mundo, mas a verdade é que
havia sido escravizado, de livre e espontânea vontade, pelas plantas. No
passado, essa constatação teria sido suficiente para que ele arrancasse todas
as plantas pela raiz, mas agora temia mais pela vida delas que pela sua
própria.
Quando
voltou a si, expulsou as crianças. Mas, como já não guardava memórias, pouco
depois não sabia dizer quem o havia visitado naquele dia.
Capítulo 21 (páginas 69 a 73)
A
memória de Celestino se esvaía e ele passou a ter visões de uma velha negra. À
noite, sonâmbulo, encontrava com ela na cozinha, preparando-lhe comida.
Sentavam-se à mesa, ela o observava comer, depois o limpava e o levava de volta
à cama. Também tinha delírios nos quais padre Alfredo aparecia em uma versão
mais jovem, às vezes criança. Nessas visões, o sacerdote nem sempre vestia a batina
e não tentava mais arrancar uma confissão. Os dois permaneciam em silêncio,
ouvindo os estalos na lareira. Pensava então que a casa estava em chamas e
tentava estrangular esse Alfredo imaginário e sem corpo. Em algumas noites era
acordado por barulhos na casa e encontrava outras figuras, como um negro e a
viúva de um pescador. Às vezes, despertava fora de sua cama, sujo e arranhado,
com a cozinha ou a despensa revirada.
As
crianças já não o visitavam e Celestino não conseguia mais cuidar da casa nem
do jardim. Aos poucos, seu envelhecimento se estendia ao espaço que habitava.
Tudo estava desleixado, tosco, as flores haviam desbotado do mesmo modo que as
tatuagens que cobriam o corpo do capitão. Deixou de usar a pala e estava cada
dia mais afastado da consciência. Aos poucos, o pirata se igualava a uma planta.
Seu consolo era a presença da menina holandesa, a quem via como uma neta.
Abraçado a ela, o velho pirata adormecia.
Capítulo 22 (páginas 74 a 77)
A
velha negra passou a aparecer de dia e de noite, e Celestino a via como um
amparo diante da morte próxima. Ela parecia saber tudo sobre ele, talvez porque
o capitão tivesse revelado muito de si às suas vítimas. Era para ele uma
presença segura, que lhe fazia comida, cuidava de seus cabelos e da barba que
já não existia, fazia-lhe companhia, cantava em seu ouvido, aquecia-o durante o
sono. Sem perceber, ao se aproximar da velha negra, Celestino fazia amizade com
a própria morte. Estava esquecido de tudo, saía por dias à procura da velha, que
andava a seu lado todo o tempo. Estava perdido de si mesmo, chamava seu próprio
nome, mas nada encontrava. Então sentia desespero e a velha negra o acolhia
como se ele fosse um menino, colocava-o em seu colo e depois o deitava na cama.
Enfraquecido e derrotado, ele se entregava a esse cuidado, ainda que lhe desse
medo. Depois de cobrir o corpo do velho pirata, a mulher voltava à cozinha. O
fim de sua vida era mais uma vez adiado, já que a morte, quando quer, trabalha
com paciência.
Capítulo 23 (páginas 78 e 79)
Em
alguns dias, Celestino via a velha negra e a menina holandesa juntas. Perto da
lareira, a idosa catava piolhos dos cabelos da menina, penteava-a e arrumava a
venda que lhe cobria os olhos. Nenhuma das duas guardava qualquer mágoa em
relação a Celestino, e ele gostava dessas companhias que o acompanhavam ao
longo do dia em seus afazeres e cuidavam dele. A menina estava sempre com a venda,
pois aquilo que havia sido atado em vida não podia ser desatado na morte.
Celestino, sem poder ver os olhos da criança, não conseguia saber nada sobre
ela nem se curar. Às vezes, a velha e a menina passavam semanas ou meses sem
aparecer e, então, sem aviso, voltavam.
O
velho capitão ainda recebia alguns vizinhos, que lhe traziam notícias de fora.
Porém, os transeuntes já não o observavam escondidos pelas sebes. Agora era ele
que, solitário, procurava os sons que vinham da rua.
Da
mesma forma que o jardim, o pirata já não era mais o mesmo e logo deixaria a
vida. Pouco a pouco, ele desaparecia e, com isso, desvanecia-se o mundo ao seu
redor. Um dia, a terra o engoliria e ele passaria a pertencer a ela. Enquanto
isso, a morte seguia disfarçada de mulher e de menina, adiando o momento final
de Celestino.
Capítulo 24 (páginas 80 a 82)
Celestino
ficou sentado no quintal enquanto uma gata dava à luz sua ninhada. Estava
ansioso, como se estivesse à espera do nascimento de um filho seu. Nas semanas
seguintes ao parto, os gatinhos buscavam a mãe, que ficava cada dia mais
arisca. Um dia, ela foi embora, deixando os filhotes. Pouco depois, os gatinhos
já crescidos também seguiram seu caminho. Novamente, ficaram apenas Celestino e
seu jardim, onde o espantalho parecia dançar com o vento. Enquanto isso, o
capitão encaminhava-se para a morte, com seu corpo cada vez mais frágil.
Uma
noite, o homem despertou com barulhos na despensa, que encontrou vazia. Em sua
mente, viu o porão de seu velho navio, os cadáveres sufocados pela cal, os
corpos jogados ao mar, incluindo o da velha negra, que já não o visitava.
Depois disso, o velho pirata pegou uma caixa de farinha e espalhou o pó branco
sobre as plantas, enquanto dizia à morte que ela já podia buscá-lo.
Capítulo 25 (páginas 83 a 85)
Celestino
já não sabia mais falar ou andar. Aos poucos deixava de pertencer a este mundo.
Enquanto isso, as plantas do jardim passavam a ser as jardineiras do
jardineiro. Àquela altura, os que haviam testemunhado seu regresso tinham
morrido. Ele não era conhecido como o velho que ainda vivia na casa da rua dos
choupos, mas havia se tornado um herói remoto, tema de cantigas de pescadores.
Às
vésperas de sua morte, o jovem Manuel veio buscá-lo para ver o mar. Ali, o
capitão avistou a menina holandesa caminhando em direção a ele. Quando já havia
anoitecido, voltaram para casa, o rapaz acendeu a lareira, deitou o velho
pirata na cama e saiu. Aquela noite de inverno foi a última de sua vida. Morreu
sem qualquer dúvida ou remorso na consciência.
Na
manhã seguinte, padre Alfredo veio benzer o corpo. Quando deixava a casa, olhou
com cobiça as plantas do jardim, que ainda não haviam se dado conta da morte de
Celestino. Com certa inveja, pensou que suas mãos piedosas eram incapazes de
manter as plantas vivas.
Características da
obra
Em
A visão das plantas encontramos um narrador onisciente, ou seja, capaz de
acessar os pensamentos e os sentimentos dos personagens. No entanto, em quatro
ocasiões, encontramos trechos em primeira pessoa, na voz do próprio Celestino.
São fragmentos que não chegam a constituir uma narrativa, mas compõem uma espécie
de colagem de pesadelos, delírios, lembranças, afazeres, desejos e situações
cotidianas vividas pelo capitão.
Não esganei a holandesa. Sete, oito aninhos,
mas os pescoços não têm idade.
—
A bolha de sangue e muita luz. Sai-me da boca
e ali fico.
—
Que será feito do Júlio?
Era bom com a faca. Ainda nos rimos uma vez a sacar rolhas às garrafas. Foi no
dia em que se afogou o Saraiva. Afogou porque era estúpido.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia,
2021. p. 40.
Em
alguns momentos, a narrativa também se vale do discurso indireto livre, recurso
que aproxima o leitor das reações dos personagens, como no exemplo a seguir.
O espantalho que
assustara a vizinha assustava Celestino. Quem seria aquele rei sem reino,
sempre em pé no nabal, abanando-se, emproado, chocalhando colheres de sopa em
xícaras de lata? Dias a fio, trancado em casa, temia os sons vindos do outro lado
das sebes. Que lhe queriam? Quem eram? Que caminho era aquele, do outro lado,
ali tão perto?
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia,
2021. p. 83-84.
No
trecho, o discurso do narrador e os pensamentos do protagonista se misturam,
não havendo uma fronteira rígida entre eles. Por meio do discurso indireto
livre, é possível acessar o pensamento de Celestino, que se mostra confuso e
angustiado enquanto levanta questões para as quais aparentemente não encontra
resposta.
Quanto
à linguagem utilizada, temos uma
prosa extremamente poética, que usa metáforas com frequência, criando imagens
visualmente complexas e inusitadas, como vemos no trecho a seguir.
Andava como quem se
quer dissolver em tudo, esperando encontrar o ponto onde a Natureza se cansaria
de o ver pedir-lhe que o absorvesse. Cortou mato como se rasgasse um longo
lençol.
Naqueles caminhos por
onde homem nenhum andara, destruindo a tecelagem de Deus com a tesoura que eram
as suas pernas, sem bússola ou sentido de orientação que o auxiliasse, não lhe acudiam
as agonias daqueles que abandonara à sua mercê, nem o olhar de sua mãe
despedindo-se do rapaz que fora.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia,
2021. p. 46.
Além
disso, há o uso abundante da prosopopeia, já que em diversas passagens da
narrativa espaços, animais e plantas aparecem personificados. Logo no primeiro
capítulo, a casa de Celestino e os objetos dentro dela recebem características
usualmente atribuídas aos seres humanos. Do mesmo modo, as plantas do jardim
são frequentemente apresentadas como seres munidos de intenção, capazes de
desprezar e dominar.
Sobre
o tempo da narrativa, encontramos
muitas indefinições, o que contribui para aproximar o leitor da sensação de
nebulosidade na qual progressivamente mergulha a consciência de Celestino. O
que temos são breves pistas, por meio das quais sabemos que a história se dá
entre o final do século XIX e a virada para o século XX.
No cais, as
fisionomias anunciavam outro século, que nunca seria seu. Como seriam os
sobrolhos, as pestanas do século XX?
Quem lhe dera vê-los.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia,
2021. p. 38.
Em
oposição ao século XX, que não pertenceria a Celestino, é citada outra data, o
ano de 1833. O velho pirata se refere a ela como “meus tempos”, o que sugere
ter sido esse momento seu auge como capitão de navios. Esse é um dado
interessante, já que o tráfico negreiro para o Brasil, rota que Celestino
cumpria, foi proibido em 1831. Depois dessa data, os tumbeiros continuaram cruzando
o Atlântico de forma ilegal, o que ajuda a esclarecer por que o protagonista é
referido diversas vezes como “pirata”.
Quanto
ao período que transcorre entre o retorno de Celestino à casa de sua família e
sua morte, não é possível um cálculo preciso. Sabemos apenas que se trata de um
recorte de alguns anos, mas não muitos, já que Raul, Pedro e Luzia, as crianças
que o visitavam, ainda não tinham saído da infância no fim da narrativa.
Em
relação ao espaço, apesar de
Portugal não ser referido em nenhum momento, sabemos se tratar desse país, já
que a cidade portuguesa de Leiria é citada. Quanto à localização da casa,
apesar de haver indícios, não há um endereço preciso. É possível que Djaimilia
tenha criado um local fictício, chamado “rua dos choupos”, localizado à
beira-mar. Mas também é possível que a autora tenha feito referência à Rua dos
Choupos, localizada na cidade portuguesa de Caldas da Rainha (distrito de
Leiria), a poucos minutos da praia de Salir do Porto.
A
maior parte da ação se passa no espaço da casa, principalmente no jardim de
Celestino. Em algumas poucas ocasiões, o personagem circula pela vila, entra na
igreja de padre Alfredo ou vai à praia. Outros espaços que aparecem, por meio
das lembranças de Celestino, são a floresta africana na qual se perdeu (onde
conheceu a menina holandesa) e o navio negreiro (de onde foi jogado o corpo da
velha negra).
Comentários sobre o
enredo
Visões sobre Celestino
O
retorno de Celestino à sua casa provocou diferentes reações nos moradores da
vila. Alguns lojistas o atendiam com má vontade, as mães buscavam afastá-lo de
seus filhos e os vizinhos espreitavam através das sebes, imaginando que no
jardim do velho homem se realizavam maldades e rituais satânicos. As crianças,
ao mesmo tempo fascinadas e horrorizadas com suas histórias de pirataria, visitavam
o capitão para escutar suas narrativas. Uma delas, Raul – em referência ao
escritor Raul Brandão –, desejava ter um roseiral como o de Celestino. Enquanto
isso, alguns adultos fantasiavam sobre o passado misterioso do velho pirata e
pensavam na vida de aventuras que não tinham vivido.
No
entanto, o passar dos anos e a chegada de novidades fizeram com que a
comunidade fosse perdendo o interesse em Celestino. Ele se portava de forma
discreta, não se metia com ninguém, vivendo a maior parte do tempo recluso em
seu jardim. Se não despertou simpatias, ao menos conseguiu alguma proximidade com
as vizinhas, que levavam comida para ele nos momentos de doença. Já não
provocava tanto medo ou curiosidade, e acabou esquecido. Alguns inclusive
pensavam que estava morto e se lembravam dele apenas como um herói de tempos
remotos, motivo de cantigas de pescador. Assim, ainda que não tenha sido concretamente
expulso da vila, como alguns desejavam, o velho corsário acabou sendo deixado à
margem e tratado como um elemento externo ao grupo: ora um homem exótico, ora
um ser mítico. Suas ações no passado são tratadas como se não estivessem
conectadas à história de toda aquela sociedade.
Essa
desconexão entre os habitantes da vila e Celestino, representante de um passado
violento, ligado ao Império e ao tráfico negreiro, aponta para um aspecto
relevante sobre a história de Portugal. Nos últimos anos, a historiografia
portuguesa tem discutido sobre o silenciamento que caracterizou, e ainda
caracteriza, muitos dos discursos a respeito do passado nacional. Por isso, na
seção a seguir, será apresentado um breve panorama da história portuguesa ao
longo do século XX e serão tecidas algumas reflexões de como a memória do
colonialismo e do neocolonialismo foi mobilizada nesse período. Tais
informações nos auxiliarão a desenvolver a hipótese que será trabalhada mais à
frente: a de que Celestino pode ser lido como uma alegoria do Império colonial
português.
Portugal: Império e (des)memória
Em
Portugal, desde as Grandes Navegações, consolidou-se uma identidade nacional
apoiada tanto em um destino mítico voltado para a grandeza quanto na imagem da
conquista do mar e dos domínios ultramarinos. Mesmo o longo período de
decadência vivido nas últimas décadas do século XVI não foi suficiente para
esgotar essa identidade; pelo contrário, quanto maior a crise, mais o discurso
oficial buscou reforçá-la.
Entre
1933 e 1974, Portugal viveu as décadas do Estado Novo, período marcado pelos
governos de António de Oliveira Salazar e de Marcello Caetano. Tratava-se de um
regime conservador, católico e de traços fascistas, cuja Constituição, redigida
em 1932, desenhou um regime corporativo segundo o modelo instalado por Benito
Mussolini na Itália. As greves foram proibidas, a imprensa e as obras de arte foram
censuradas e qualquer demonstração de descontentamento podia ser reprimida pela
Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a Pide, que atuou implacavelmente
entre 1954 e 1968.
Foram
décadas de atraso social e econômico, durante as quais o Estado buscou manter o
país congelado em uma imagem do passado: agrária, apoiada na tradição e ligada
às glórias do Império e aos feitos de seus heróis. Naquele momento, essa imagem
do Império foi mobilizada para justificar a permanência do domínio sobre as
colônias africanas. Prova disso é a publicação do Acto Colonial, em 1933, que
afirmava:
É essência orgânica
da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar
domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se
compreendam, exercendo também a influência moral [...].
Disponível
em: https://www.parlamento.pt/parlamento/documents/acto_colonial.pdf. Acesso
em: 7 nov. 2024.
Nos
anos 1960, a fragilidade da ditadura de Salazar ficou evidente com os
crescentes questionamentos ao neocolonialismo e o início das lutas pela
independência nas colônias africanas de Portugal. Em 1961, as guerrilhas
anticoloniais se organizaram em Angola; em 1962, foi a vez de Guiné-Bissau; em
1964, de Moçambique. Diante desse quadro, Salazar foi intransigente e buscou
manter o domínio colonial a todo custo. Para tanto, foi preciso deslocar
consideráveis recursos do orçamento do Estado para os esforços de guerra, e
milhares de portugueses foram convocados para o serviço militar nas províncias ultramarinas.
Na
década de 1970, já durante o governo de Marcello Caetano, Portugal viveu uma
grave crise agrícola, com diminuição na oferta de alimentos e escassez de mão
de obra no campo e em setores modernos da economia. Além disso, os salários
eram muito mais baixos que em outros países da Europa. Por isso, mesmo que a imagem
de Portugal no exterior passasse a impressão de um regime estável, internamente
os descontentamentos se ampliavam. Enquanto entre os civis cresciam as emigrações,
entre os militares aumentavam as deserções e as divergências sobre como
enfrentar a guerra colonial. Parte dos oficiais defendia uma saída violenta,
mas havia aqueles que argumentavam em prol de uma saída pacífica, já que a disputa
colonial, além de exaurir as finanças do Estado, havia se transformado, àquela
altura, em um esforço inútil, do qual Portugal apenas poderia sair derrotado.
Em
1973, membros das Forças Armadas começaram a conspirar contra o governo com a
intenção de promover um golpe de Estado pacífico. Finalmente, em 25 de abril de
1974, uma sublevação militar com apoio popular colocou fim à ditadura em
Portugal. A senha para o início do levante foi a canção “Grândola, Vila
Morena”, música popular de José Afonso na qual se afirma o poder do povo. Sem oferecer
resistência, o regime que controlava Portugal há décadas sucumbiu. No dia
seguinte, uma multidão saiu às ruas comemorando a tão sonhada promessa de
liberdade – os cravos, símbolos da revolução portuguesa, estavam por toda
parte.
Infelizmente,
à parte o mérito inquestionável de ter colocado fim ao Estado Novo de forma
praticamente pacífica, a Revolução dos Cravos pouco alcançou no sentido de
abrir caminhos para uma sociedade portuguesa menos desigual e mais aberta a
questionar e denunciar os crimes cometidos no passado, no contexto do
colonialismo e do neocolonialismo. Ainda hoje persiste um imaginário baseado na
tese do lusotropicalismo5, reforçado durante o período salazarista, em que se
coloca em evidência um passado glorioso ligado ao Império e ao mar, ao mesmo
tempo que se busca silenciar o lado perverso do processo colonial, ou seja, a
escravidão, o racismo e o domínio cultural
e econômico sobre os povos subjugados.
Felizmente,
o debate a respeito das tensões entre memória e esquecimento sobre o
colonialismo e a escravidão tem alcançado diferentes esferas; antes mais
restrito aos intelectuais e aos artistas, no ano de 2024 chegou ao governo
português. No dia 23 de abril do referido ano, pela primeira vez na história,
um presidente português admitiu os crimes cometidos durante os séculos de
colonização e de tráfico negreiro. Em um discurso, o presidente Marcelo Rebelo de
Sousa, além de afirmar que o país tem responsabilidade pelos erros do passado,
sugeriu reparações.
Celestino: uma alegoria do Império colonial português
O
romance de Djaimilia Pereira de Almeida é, acima de tudo, uma história sobre o
esquecimento e a necessidade de lembrar. No plano geral do romance, o capitão
Celestino funciona como alegoria do Império português colonial e escravista. Os
diversos esquecimentos que o atravessam dialogam com o silencio histórico que
tem caracterizado a história de Portugal.
Em
seu jardim, Celestino buscou reproduzir um pequeno império, no qual as plantas
eram as cativas. No entanto, por meio de uma rebelião simbólica, o jardim se
tornou senhor do jardineiro. Para conter a natureza, o velho pirata espalhou
farinha sobre as flores – uma tentativa falha de mimetizar o episódio em que
sufocara com cal os escravizados que haviam se rebelado em seu navio –, mas em vão:
agora ele pertencia às plantas e com elas se identificava.
As
plantas com quem Celestino conviveu no fim da vida não julgavam nem lhe faziam
perguntas. A elas pouco importavam os crimes cometidos pelas mãos que as
regavam. Eram indiferentes, não demonstravam gratidão pelos cuidados que
recebiam nem se comoviam diante do adoecimento progressivo do jardineiro. Enquanto
isso, Celestino mergulhava no esquecimento e se desprendia de características
que o associavam à imagem de pirata: o cheiro de mar passou a ser insuportável
para ele, deixou de usar a pala de couro, raspou a barba. Mais que isso, perdeu
o orgulho que as histórias de corso lhe traziam, como revela sua reação ao
contar, pela última vez, suas aventuras para as crianças: em vez da postura presunçosa,
sentiu-se constrangido diante dos pequenos, que miravam seu velho corpo com
espanto.
Além
disso, o protagonista abandona, junto da memória, sua condição humana. Se desde
o início estava identificado com a casa, compartilhando com ela as marcas
deixadas pelo tempo e pela maresia, no decorrer da narrativa observamos um
espelhamento ocorrer entre Celestino e as plantas do jardim. Assim, a narrativa
nos informa que, atrás de suas costelas, ele tinha uma planta no lugar do
coração. Seus dedos estavam tortos e deformados como as raízes das árvores.
Como uma planta faminta, o velho pirata cavou um grande buraco no jardim, em
busca de alimento nas profundezas da terra. Como uma planta, ele não foi movido
por pensamentos e emoções, não tomou consciência de seu próprio corpo ou da passagem
do tempo. Também como uma planta, não sentiu piedade por suas vítimas e não
carregou qualquer dúvida ou remorso em sua consciência.
Isso
não significa que Celestino ignorasse a violência de seus atos, apenas entendia
que não era possível desfazê-los. Ao mesmo tempo, a presença dos fantasmas de
suas vítimas simboliza um passado que insiste em se fazer presente, mesmo que
de forma silenciosa, em uma
terra de homens do
mar cujas histórias terríveis circulavam pelo tempo até que, como o nevoeiro
cerrado que vinha da praia pela manhã, se confundiam com a matéria de que eram
feitas as casas, os quartos, as vestes, as pessoas, o sono.
ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia,
2021. p. 27-28.
Dessa
forma, se não é possível julgar os algozes do passado, como a narrativa sugere,
é possível recuperar a memória das vítimas, fazê-las presentes e ouvir seus ecos
fantasmagóricos, em um possível caminho para a reparação.
Os opostos
complementares
Em
A visão das plantas são estabelecidos
alguns pares de opostos que, no plano narrativo, traduzem a complexidade humana
representada por Celestino. É importante observar que, longe de demarcarem
contradições, esses opostos podem se misturar, a ponto de não ser possível
distingui-los. Isso reforça a necessidade de uma leitura atenta, que rejeite
simplificações maniqueístas ou moralizantes. Além disso, a mescla dos opostos
contribui para criar uma atmosfera de indefinição e nebulosidade, assim como a
que experimenta o protagonista no fim de sua vida.
Terra e mar
Enquanto
a terra é o espaço em que a vida ressurge, por meio das plantas cultivadas no
jardim de Celestino, o mar serve como um túmulo, incapaz de ouvir, ver ou falar,
recebendo os corpos de muitos cativos mortos na travessia do Atlântico e
guardando os segredos das atrocidades cometidas pelo velho pirata.
Além
disso, no capítulo 10, o capitão afirma que o mar findou há quase cem anos, o
que simbolicamente parece associado à progressiva proibição do tráfico
negreiro, iniciada nas primeiras décadas do século XIX. Curiosamente, esse
espaço, tão ligado à identidade e ao passado português, glorificado em diversos
momentos, é aqui associado à imagem da morte, da crueldade e do silenciamento a
respeito da escravidão.
Sangue e luz
O
sangue e a luz são elementos recorrentes nos sonhos e nos delírios do velho
corsário. O sangue faz referência à violência e às mortes associadas ao tráfico
negreiro, enquanto a luz, essencial para o crescimento das plantas, simboliza a
vida que floresce.
Passado e presente
No
romance, Celestino incorpora os símbolos do passado colonial, patriarcal e
escravista de Portugal. Como ele mesmo afirma em certo ponto, sua história se
conecta a 1833. Nessa data, o tráfico negreiro já havia sido proibido por lei
no Brasil, mas continuava acontecendo de forma clandestina, caracterizando-se
como prática de pirataria. Entretanto, no presente da narrativa, já no final do
século XIX, o tráfico atlântico de pessoas havia sido completamente
interrompido. Assim, o capitão experimenta não apenas a proximidade de sua morte
física, mas também uma morte simbólica, pois não se sente parte do século que
se anuncia; ao contrário, refere-se a ele como “outra morte”, sugerindo que,
embora o século XX fosse trazer novas tragédias humanas, a era do tráfico
negreiro, da qual Celestino foi um representante, finalmente terminava.
Céu e inferno
É
nesse par de opostos que encontramos a maior indefinição. Já no segundo
capítulo, há uma referência a Deus, que estaria assistindo a tudo ao lado do
diabo. No episódio em que Celestino se perde, a floresta é apresentada como o
estômago de Deus, que poderia devorá-lo e, ao mesmo tempo, se comporta como um espectador
passivo diante do desespero vivido pelo pirata. Por fim, diante da insistência
do padre em obter uma confissão, o capitão compara Deus a um caroço cheio de
veneno e bolor.
Além
disso, há certa ironia no nome de Celestino, que significa “aquele que pertence
ao céu”. Ora, o céu, além de ser o local onde se encontram os corpos celestes,
é a morada de Deus e o destino das almas virtuosas, algo distante do passado do
velho pirata. Ademais, em dois episódios, vemos o capitão dizer às crianças
“Vinde a mim”, uma referência à fala de Jesus Cristo: “Deixem vir a mim as crianças
e não as impeçam, pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a
elas” (Mateus, 19:14). Ao mesmo tempo, Celestino é associado ao diabo quando,
ainda recém-chegado, desperta o medo e a desconfiança dos moradores da vila.
Ironicamente, nesse momento padre Alfredo afirma que, se era verdade que ali vivia
o demônio, então ele era um bom jardineiro.
Em
resumo, A visão das plantas não
trabalha com uma imagem de Deus que salva ou pune, o que é coerente com o
conjunto de valores articulado pelo romance. Além disso, a associação de Celestino
ao paraíso celeste, a Jesus Cristo e ao diabo reforça seu caráter complexo e
dual.
Personagens
Capitão Celestino
Para
os vizinhos, a figura de Celestino é cercada de mistérios. O mesmo vale para o
leitor, que tem apenas vislumbres de seu passado. Entramos em contato com sua
vida pregressa nos breves momentos em que ele narra sua história para as
crianças que o visitam. Sabemos que nasceu na casa à qual retorna e onde
semeará seu jardim, que cresceu na companhia da mãe e das tias e que nunca conheceu
o pai, também capitão de navios, morto no mar. Começou a trabalhar no
transporte de pessoas escravizadas ainda na juventude, fazendo a rota do
continente africano ao Brasil. E, de acordo com seu próprio relato, roubou,
agrediu e matou ao longo da vida sem sentir qualquer espécie de remorso.
De
sua aparência, somos informados de que é um homem velho, de porte esguio e
rosto fechado, que veste um sobretudo cinzento e usa um chapéu alto de feltro.
Tem o tronco tatuado, as maçãs do rosto cortadas por dois veios paralelos, um nariz
pontiagudo, dentes cariados, um olho pequeno e muito claro, o outro coberto por
uma pala de couro negro, sobrancelhas fartas, barba comprida e branca. No
entanto, com o passar da narrativa, observamos algumas transformações físicas
que acompanham sua deterioração mental: seus pés incham, as pernas se cobrem de
varizes, passa a ter uma corcunda e a barriga aumentada. Além disso, abre mão
da barba e da pala – dois elementos bastante característicos dos piratas. É
como se esse homem – e tudo o que ele significou – fosse sendo, aos poucos,
apagado. Desse modo, o personagem pode ser lido como uma alegoria do Império
português, não apenas por seu vínculo com o passado e com o escravismo, mas
também por seu presente de decadência.
Outra
leitura possível, que se associa à anterior, é a compreensão de Celestino como
uma espécie de dom Sebastião às avessas. O mito do sebastianismo surgiu após o
desaparecimento do rei dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. A
esperança de que o rei retornaria em meio a um nevoeiro para salvar Portugal se
infiltrou na memória coletiva do país e foi sendo resgatada constantemente,
especialmente em momentos nos quais, diante da necessidade de fortalecer o
discurso nacionalista, buscou-se reafirmar o passado glorioso português. Em A visão das plantas, a imagem do nevoeiro
é mobilizada em diversos momentos. No entanto, enquanto o retorno de dom
Sebastião era desejado como esperança da redenção portuguesa, a volta de
Celestino coloca em evidência um passado que a sociedade gostaria de ocultar.
As crianças
Raul,
Pedro e Luzia são as três crianças que estabelecem vínculo com Celestino.
Inicialmente, assim como os demais vizinhos, eles espiavam a casa através das
sebes, cheios de curiosidade. Raul desejava ter um roseiral bonito como o do
velho corsário. O capitão, ciente desses pequenos observadores, passou a
deixar, em cima do muro, cubos de marmelada e fatias de queijo curado, que as
crianças sempre comiam.
Aos
poucos os três passaram a visitar o velho pirata para ouvir suas histórias.
Eles se sentavam no chão enquanto Celestino contava sobre suas viagens e os
animais, as flores e os frutos que encontrara pelo caminho. As crianças riam,
animadas e atentas, o que tornava o momento prazeroso para o capitão.
Elas
também apareciam em alguns fins de tarde para observar as lições de voo que as
fêmeas dos morcegos davam a seus filhotes. Ficavam em estado de alerta, o
coração acelerado, como se fossem ser atacadas pelos animais. Por volta das
oito da noite, quando escurecia e os morcegos paravam a aula, as crianças iam
embora para suas casas.
Com
o passar dos anos, no entanto, o olhar dos três para o capitão se modificou. Ao
espanto que sempre sentiram diante de suas histórias de pirata, somou-se o
pasmo com seu corpo de velho. Essa constatação perturbou Celestino, que
expulsou os pequenos visitantes. Depois disso, eles não o visitaram mais.
Padre Alfredo
O
pároco da vila foi a primeira pessoa a visitar Celestino. No jardim, o perfume
das flores acabou silenciando o sermão que ele havia preparado para o capitão.
Inicialmente, padre Alfredo se intimidava com a figura do velho pirata, mas
logo se convenceu de que aquele homem não era um facínora, e, sim, alguém que
pouco a pouco perdia a lucidez e caminhava para a morte. O pároco passou então
a ser uma visita frequente e, pela voz de Celestino, o leitor é informado de
que tomavam chá juntos e que, em um Natal, Alfredo o presenteou com um peixe.
Até os últimos dias da vida de Celestino, o padre tentou convencê-lo a se
confessar, sem sucesso. Quando o capitão morreu, padre Alfredo foi trazido pelo
médico para benzer o corpo, o qual encontrou sereno. Ao ir embora da casa, admirou
mais uma vez o jardim com cobiça, pensando que, em suas mãos piedosas, as
plantas sempre acabavam morrendo.
Capitão Nuno
Pai
de Celestino, esse personagem aparece somente por meio das lembranças e dos
relatos do protagonista. Também foi capitão de navios, mas morreu jovem em um
naufrágio, quando o filho ainda era muito pequeno. Tinha um nariz grande, olhos
vazios, a pele muito branca e uma postura febril. Havia sido uma criança como
muitas, que brincava e sonhava com bruxas. Tinha sobrevivido, quando pequeno, a
uma pneumonia. Ficou feliz com o nascimento dos filhos, mas também sentiu medo
de não ter meios para criá-los. Usava um cordão de ouro, que foi herdado por
Celestino.
A mãe
Em
nenhum momento da narrativa essa personagem é nomeada. Assim como capitão Nuno,
ela aparece somente nas lembranças e nos relatos do filho. Viúva desde jovem,
dedicava-se aos cuidados domésticos. Usava um vestido abotoado até o pescoço,
tinha as mãos frias e calejadas. Servil, continha seu desgosto pela vida de
sonhos abandonados. Depois que Celestino saiu de casa, seu único visitante
ocasional era padre Alfredo, que, anos mais tarde, se referiria a ela como uma
“santa senhora”. Já o sacristão diria que, assim como o velho pirata, a mãe
também não era boa. Para Celestino, ela era a imagem que, em sua imaginação,
trazia-lhe uma xícara de leite morno e o ajudava a adormecer. Morreu sem ter
notícias do filho.
A menina holandesa
Criança
de aproximadamente 8 anos de idade que cuidou de Celestino quando ele se perdeu
em uma floresta africana. Febril e desorientado, o capitão foi acolhido por um
grupo de holandeses e a menina se encarregou de sua alimentação, sua higiene e
seu conforto. Esse grupo de homens planejava a caça de um grande crocodilo,
cuja venda renderia ao grupo substancial quantia. Celestino, interessado no
crocodilo, acabou degolando os holandeses e deixou a menina vendada e amarrada
a um tronco de árvore. A caminho da morte e já senil, o velho pirata passou a
ter visões com a criança. Na primeira vez, ela surgiu em meio às chamas da
lareira, com seus cabelos ruivos misturados ao fogo. Depois, passou a ser uma
presença constante na casa. Como uma neta, aninhava-se ao capitão durante as
noites. Mesmo depois da morte, permaneceu com a venda sobre os olhos. Em nenhum
momento da narrativa a personagem é nomeada.
A velha negra
Outra
personagem feminina sem nome. Foi vítima de Celestino e teve seu corpo jogado
em alto-mar pelo capitão. Assim como ocorreu com a menina holandesa, o velho
pirata passou a ter visões nas quais a velha negra lhe aparecia, cozinhava e
fazia-lhe companhia. Usava uma saia florida, avental branco, os cabelos
amarrados em uma trança, tinha as unhas limpas e uma cicatriz na maçã do rosto.
Manuel
Primo
do falecido caseiro Amadeu, que no passado cuidou da casa onde morava
Celestino, esse personagem aparece em momentos pontuais ao longo da narrativa,
como na noite de São João, na qual leva o capitão para os festejos. Também é a
última pessoa a estar com Celestino, na véspera de sua morte, ocasião em que o leva
para ver o mar, não apenas movido pela caridade, mas porque desejava estar
próximo de um pirata de verdade.