18 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: MORANGOS MOFADOS (2)

 


QUESTÃO 01

1. Considere os seguintes contos de Morangos mofados:

1. “Pera, uva ou maçã?”

2. “Diálogo”

3. “Aqueles dois”

4. “Terça-feira gorda”

5. “O dia que Júpiter encontrou Saturno”

6. “Além do ponto”

 

Os temas da homofobia, da busca existencial e da dificuldade de comunicação são centrais, respectivamente, nos contos referidos pelos números:

a) 4, 6 e 2.

b) 3, 1 e 4.

c) 1, 2 e 5.

d) 5, 6 e 3.

 

QUESTÃO 02

No conto “Diálogo”, coloca-se em destaque:

a) o poder de informação implícito na troca de ideias entre os dois falantes.

b) a dimensão monológica, que funde os indivíduos que estabelecem a conversação.

c) o esforço de cada enunciador no sentido de persuadir o outro de suas opiniões pessoais.

d) a busca de estabelecimento de parâmetros para o código de comunicação entre os personagens.

 

- Textos para a questão 3 -

Texto I

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. [...]

ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 41. 

Texto II

[...] mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca.

ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 44.

 

QUESTÃO 03

Os trechos transcritos correspondem ao início e ao fim do conto “Além do ponto”, de Morangos mofados. O recurso da repetição, nesses casos, cria o efeito de:

a) continuidade e ruptura.

b) intensidade e frequência.

c) constância e alternância.

d) instabilidade e desequilíbrio.

 

- Texto para a questão 4 -

Terça-feira gorda

Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

ABREU, Caio Fernando. Terça-feira gorda. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 54.

 

QUESTÃO 04

a) O teor crítico do conto “Terça-feira gorda” está na adoção de imagens estereotipadas de homossexuais nos papéis protagonistas. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.

b) Analise o sentido que a expressão “por acaso” assume no trecho.

 

- Texto para a questão 5 -

Pera, uva ou maçã?

Rói as unhas no momento em que abro a porta, a bolsa comprimida contra os seios. Como sempre, penso, ao deixá-la passar, cabeça baixa, para sentar-se no mesmo lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre. Fecho a porta, caminho até a poltrona à sua frente, sento, cruzo as pernas, tendo antes o cuidado de suspender as calças para que não se formem aquelas desagradáveis bolsas nos joelhos. Espero algum tempo. Ela não diz nada. Parece olhar fixamente as minhas meias. Tiro devagar os cigarros do bolso esquerdo do paletó, apanho um com a ponta dos dedos, sem tirar o maço do bolso, e fico batendo o filtro no braço da poltrona enquanto procuro o isqueiro no bolso pequeno da calça. Antes de acendê-lo, penso mais uma vez que não deveria usar esses isqueiros plásticos descartáveis. Alguém me disse que não-são-degradáveis-e-que--eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica. Não consigo lembrar quem, quando, nem onde ou por quê. Rodo o isqueiro maligno entre os dedos, depois acendo o cigarro. [...]

ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 113.

 

QUESTÃO 05

Responda às questões.

a) Nos contos de Caio Fernando Abreu, há alusões explícitas ou implícitas a outros gêneros textuais, como os roteiros de cinema ou de teatro. Você concorda com essa afirmação? Ela pode ser aplicada ao trecho transcrito? Justifique sua resposta.

b) Nesse trecho, há um conjunto de palavras separadas umas das outras por traços: “não-são-degradáveis-e-que-eu-deve-ria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica”. Explique o uso de traços nesse fragmento.

 

- Texto para a questão 6 -

O dia que Júpiter encontrou Saturno

– Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada ao meu lado, olhando de perfil.

– Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.

– Vamos nos ver?

– No teu chá. No meu chá.

ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 141-142.

 

QUESTÃO 06

a) A última linha do trecho sugere um encontro entre os personagens, que viria a acontecer em condições especiais. Explique essas condições.

b) Que relação se estabelece entre o encontro definido no trecho e o conto como um todo?

 

- Texto para a questão 7 -

Aqueles dois

Não chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um a menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de arquitetura.

ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 145-146.

 

QUESTÃO 07

O trecho revela que os protagonistas do conto:

a) coincidem intimamente ao assumirem os próprios sentimentos, mas não conseguem exteriorizá-los de forma a realizar a união amorosa.

b) logo se percebem apaixonados um pelo outro, enfrentando a reação dos colegas de trabalho, representantes de uma postura social mais conservadora.

c) não identificam de imediato a natureza dos sentimentos que os une, ao contrário das pessoas de seu entorno, que logo passam a tratá-los de maneira estigmatizada.

d) reagem, por meio da expressão livre dos seus sentimentos, à posição de marginalização social que lhes é imposta pelos colegas de trabalho.

 

 

QUESTÃO 08

Observe as imagens, leia o texto a seguir e responda à questão.

 


(Life Magazine. The Kiss at Times Square. Fotografia de Alfred Eisenstaedt. Dia da Vitória em 1945.)

 


Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O que, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O que, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

Adaptado de: ABREU, C. F. Terça-feira gorda. In: ABREU, C. F. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 51.)

 

A obra Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu, caracteriza-se por conter:

a) discussões referentes à alta cultura, com destaque para a incorporação de formas literárias tradicionais.

b) referências à guerrilha dos anos 60, em sintonia com o contexto político da época.

c) artifícios narrativos modernos, tais como a desindividuação nominal e diálogos dinâmicos.

d) cenas de forte violência sexual, responsáveis, inclusive, pela má recepção crítica da obra do autor.

e) personagens com nomes fortes a fim de reforçar a presença da violência nos contos.

 

- Texto para a questão 9 -

Diálogo

A: Você é meu companheiro.

B: Hein?

A: Você é meu companheiro, eu disse.

B: O quê?

A: Eu disse que você é meu companheiro.

B: O que é que você quer dizer com isso?

A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.

B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.

A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranoico.

ABREU, Caio Fernando. Diálogo. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 17.

 

QUESTÃO 09

Responda às questões.

a) O livro Morangos mofados foi publicado originalmente em 1982. Naquele momento, a expressão “companheiro” apresentava sentidos específicos, tanto no âmbito das relações sociais quanto nas relações íntimas. Explicite esses sentidos.

b) Em cada um desses casos, o que justifica a impressão manifesta por um dos interlocutores, de que o outro estaria sendo “paranoico”? Como essa impressão se relaciona com a atmosfera geral do livro de Caio Fernando Abreu?

 

- Texto para a questão 10 -

Além do ponto

[...] não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, tudo o que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar [...].

ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 42.

 

QUESTÃO 10

Responda ao que se pede.

a) Um dos recursos presentes na narrativa moderna é a fragmentação, entendida como a condução não linear do discurso literário. Como esse recurso aparece no fragmento?

b) No trecho, também se nota uma concepção fragmentária do personagem. Indique como esse aspecto se evidencia no texto.

 

QUESTÃO 11

Na cultura brasileira, o Carnaval é concebido como um espaço de transgressão, de alegria exuberante. Em que medida o conto “Terça-feira gorda” reproduz essa impressão geral? 

 

- Texto para a questão 12 -

Pera, uva ou maçã?

[...] – Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão bonitas e tão vermelhas que pedi um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada e daí eu pensei assim se comprar essas ameixas agora vou ter que voltar a pé para casa mas que importa volto a pé mesmo pode ser até que acorde um pouco e aquela coisa lá longe volte pra perto de mim e então eu vinha caminhando devagarinho as ameixas eu não conseguia parar de comer sabe já tinha comido acho que umas seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um caixão de defunto do sobrado amarelo na esquina certo acho que era um caixão cheio quer dizer com defunto dentro porque ia saindo e não entrando certo e foi bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu tropecei no caixão e as ameixas todas caíram assim paf! na calçada e foi aí que eu reparei naquelas pessoas todas de preto e óculos escuros e lenços no nariz e uma porrada de coroas de flores devia ser um defunto muito rico certo e aquele carro fúnebre ali parado e só aí eu entendi que era um velório. [...]

ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 117.

 

QUESTÃO 12

a) Levando em conta o percurso figurativo do texto, indique as imagens contrastantes presentes nele.

b) Considerando o enredo como um todo, explique como a imagem das ameixas se relaciona ao título do conto.

 

- Textos para a questão 13 -

Texto I

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodca, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de junco junto à janela. [...]

ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 137.

 

Texto II

Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. [...]

ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 143.

 

QUESTÃO 13

Os trechos reproduzidos sugerem um desencontro. Essa circunstância se relaciona ao título do conto na medida em que:

a) a narrativa sugere que o encontro em questão pode ter ocorrido em uma dimensão alternativa.

b) o encontro entre os personagens só ocorreria em uma nova confluência de astros.

c) os planetas aludidos servem de metáfora para os personagens que se encontram.

d) demarca uma ocorrência única, que serve de moldura para a história de um grande amor.

 

- Texto para a questão 14 -

Aqueles dois

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica psiquiátrica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos nas janelas, a camisa branca de um e a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai! alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 154.

QUESTÃO 14

a) O desfecho do conto “Aqueles dois” indica que, a despeito de diferentes formas de pensamento, os destinos dos protagonistas e dos seus colegas de repartição são semelhantes. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.

b) O uso da expressão “Ai-ai!” denuncia certo comportamento por parte de quem a utiliza. Indique esse comportamento.

 

 

 

1. a

2. d

3. b

4. a) Não. O estereótipo do homossexual corresponde a caricaturas idealizadas pelo preconceito de pessoas não homossexuais, que, no conto, são os agressores dos dois homens, que são livres para demonstrar seus afetos. O trecho “Eu era apenas um corpo [...] de homem gostando de outro corpo” confirma essa liberdade em relação ao desejo.

b) O conto “Terça-feira gorda” trata do envolvimento amoroso entre dois indivíduos. Na narrativa, o fato de serem ambos do mesmo gênero é apenas uma circunstância, na medida em que o essencial, nesse encontro, é a atração física que sentem um pelo outro. A expressão “por acaso” é usada para reafirmar a casualidade dessa coincidência de gêneros.

5. a) Sim, a afirmação é pertinente, inclusive no que diz respeito ao trecho transcrito. Nele, temos a definição de atitudes dos personagens, como gestos e posicionamentos, o que corresponde às orientações que constam de roteiros teatrais ou cinematográficos (as rubricas).

b) O uso de traços para separar as palavras serve, no conto, para tornar o conjunto uma síntese da fala dos ecologistas, que condenam o hábito do médico de utilizar “isqueiros plásticos descartáveis”. Nesse sentido, a referência feita é carregada de ironia, evidenciando o desprezo do enunciador por esse tipo de postura.

6. a) No trecho, os personagens comprometem-se a se encontrar em seus respectivos chás. Os chás referidos, ayahuasca e datura, são substâncias alucinógenas, o que é confirmado no trecho pela forma como cada personagem verá o outro depois de sorver o chá: “ver você egípcia” e “ver você tuaregue”.

b) O conto traz um diálogo entre um rapaz e uma moça. No entanto, a narrativa sugere que esse diálogo se deu em uma dimensão diferente da realidade vivida por cada um deles. Assim, o próprio diálogo ocorre em uma condição de suspensão da realidade, o que remete ao efeito produzido pelo consumo dos chás referidos.

7. c

8. c

9. a) Nas relações sociais, a expressão “companheiro” remetia a um parceiro ideológico, sendo um tratamento comum entre pessoas que se posicionavam à esquerda no espectro político. Nas relações íntimas, ainda é um termo usual para se referir a um(a) parceiro(a) amoroso(a), sem necessária união formal, via casamento, por exemplo.

b) No âmbito social, a “paranoia”, naquele período, se justificava pela perseguição sofrida, à época, por todos aqueles que se manifestavam contrários às orientações do governo militar, o que era comum entre militantes de esquerda. No âmbito das relações íntimas, o uso da expressão “companheiro” insinuava uma relação homoafetiva, o que ia contra a moral conservadora e preconceituosa. O uso da expressão “paranoico” se relaciona a outras narrativas do livro na medida em que, em seu conjunto, esses textos recuperam o clima de medo que então se vivia no país, além da busca pela liberdade de expansão dos próprios sentimentos, independentemente de questões de gênero e afetividade.

10. a) No texto, a fragmentação narrativa se mostra nas idas e vindas provocadas pelas impressões que o enunciador tem do mundo que o cerca e da situação que vive, como se revela no trecho final: “Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça [...] tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente”.

b) A fragmentação do personagem, no trecho, se mostra na apresentação de um enunciador dividido entre o que é e o que quer parecer que é: “e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, [...] pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, [...] talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era”.

11. Como o título indica, o conto se passa no último dia das festas carnavalescas. No enredo, dois homens se encontram e trocam carícias durante um baile de carnaval. Essa atitude pode ser considerada transgressora, na medida em que se opõe ao pensamento do período e desperta o preconceito daqueles que representam o pensamento conservador. Em seu desfecho, a narrativa contrasta a alegria carnavalesca com a tristeza trágica da violência física sofrida pelos dois protagonistas.

12. a) O texto estabelece uma relação de oposição entre as ameixas “tão bonitas e tão vermelhas”, que remetem a uma ideia de vigor e vitalidade, e as “pessoas todas de preto e óculos escuros”, que simbolizam a morte, associada ao velório do qual participam.

b) O título do conto alude a uma brincadeira infantil, na qual uma pessoa tinha seus olhos vendados por outra, que, apontando sucessivamente para outros participantes da brincadeira, solicitava que a pessoa escolhesse um deles e, em seguida, uma das frutas, que representavam uma aproximação física gradativa: pera para aperto de mão, uva para abraço e maçã para beijo na boca. A ameixa representaria um degrau a mais nessa escala, o que sugeriria uma relação mais íntima – um beijo de língua, por exemplo.

13. a

14. a) A afirmação não é procedente. Raul e Saul foram demitidos da repartição em função do preconceito dos colegas a respeito da natureza da relação que mantinham entre si. O primeiro parágrafo do trecho mostra que eles se retiram do lugar “mais altos e mais altivos”, isto é, tranquilos em relação a quem são. O segundo parágrafo mostra o que acontece com os colegas de repartição, que, depois de sua atitude preconceituosa e excludente, experimentam uma infelicidade permanente.

b) Trata-se de uma atitude que expressa uma postura de estigmatização e de preconceito quanto à homoafetividade.




INTRODUÇÃO À OBRA: MORANGOS MOFADOS (1)

 


Introdução

O autor

Caio Fernando Abreu nasceu em 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão, uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Em 1967, passou a frequentar a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nos cursos de Letras e de Artes Cênicas, mas não chegou a concluir nenhum deles, pois logo passou a se dedicar ao jornalismo, escrevendo artigos em veículos de grande circulação na época, como as revistas Manchete e Veja e os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de São Paulo, entre outros.

Desde a juventude, manifestou pensamentos e ideais de inconformismo em relação às culturas hegemônicas. Assumidamente gay, em um período em que as orientações homoafetivas não eram declaradas por causa do preconceito, sempre se opôs às opressões e às imposições sociais, em uma época em que atitudes e posturas mais livres e libertárias eram alvo de perseguição política por parte dos órgãos policiais da ditadura civil-militar, instaurada no Brasil em 1964. No início da década de 1970, viveu dois anos exilado na Europa, onde exerceu diversos ofícios.

Iniciou a publicação de sua obra ficcional em 1970, com os contos de Inventário do irremediável (posteriormente rebatizado de Inventário ir-Remediável), o romance Limite branco e alguns textos teatrais. Na mesma década, publicou O ovo apunhalado (1975) e Pedras de Calcutá (1977). Mas o reconhecimento de público e de crítica seria definitivo com a publicação de Morangos mofados, em 1982. Desde então, o escritor ganhou destaque como um dos grandes representantes de sua geração, com obras como o volume de contos Os dragões não conhecem o paraíso (1988) e o romance Onde andará Dulce Veiga (1990).

Em 1994, transferiu-se para a França, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros, mas retornou ao Brasil no mesmo ano, ao descobrir que estava vivendo com o HIV. Ele faleceu em 25 de fevereiro de 1996, em Porto Alegre, aos 47 anos.

 

Contexto histórico

O Brasil em que Caio Fernando Abreu escreveu os contos de Morangos mofados era um país impactado pelo golpe militar de 1964. Em dezembro de 1968, a decretação do Ato Institucional n. 5 acentuou os rigores da ditadura e os poderes da censura, que afetou diretamente os profissionais do jornalismo e os artistas. Aqueles que se opunham ao regime passaram a ser perseguidos e a sofrer sanções estéticas e econômicas.

A oposição à ditadura se manifestava de diferentes formas. No campo político-partidário, qualquer voz contrária ao regime sofria silenciamento, especialmente após 1968, quando o Congresso foi fechado. Fora do universo da política institucional, cresceu o movimento da contracultura, que questionava e contestava os padrões de comportamento consagrados, principalmente sobre os costumes e a moralidade instituída. Os participantes do movimento não se utilizavam das convenções políticas e dos posicionamentos da esquerda mais tradicional, e tentavam encontrar outras formas de lutar. A arte se mostrou um terreno propício para as manifestações de seus pensamentos.

Durante a década de 1970, enquanto Caio Fernando Abreu publicava seus primeiros textos e tentava sobreviver em meio às perseguições do regime, a ditadura conheceu seu momento de maior rigor, no governo de Garrastazu Médici (1969-1974), e observou o início de sua derrocada, já no período de governo de Ernesto Geisel (1974-1979). No fim dessa década, teve início o processo de abertura política que, lentamente, levaria o país à democracia. Um marco dessa abertura foi a promulgação da Lei da Anistia, em 1979, que restabeleceu diretos individuais e permitiu o retorno ao país dos exilados políticos. E, embora o marco final do regime militar seja o ano de 1985, quando terminou o mandato do último presidente militar, João Figueiredo, o fato é que a vitória definitiva da democracia só viria com as eleições diretas para presidência, em 1990.

A longa duração do processo de abertura permite levantar a hipótese de que ele tenha sido uma estratégia de sobrevivência do regime, em vez de uma gradual derrocada da ditadura. No início dos anos 1980, quando Caio publicou Morangos mofados, as tensões provocadas pela ditadura ainda se mostravam bastante presentes. Uma de suas manifestações era o esgotamento das alternativas políticas que se apresentavam para o país naquele momento: para uma parcela considerável da população, as soluções políticas fornecidas pela esquerda tradicional não representavam alternativas confiáveis. Uma síntese desse esgotamento está em um dos contos de Morangos mofados, “Os sobreviventes”:

[...] Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? [...]

ABREU, Caio Fernando. Os sobreviventes. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 21.1

 

Além da sensação generalizada de falta de perspectivas, havia ainda a herança deixada pela ditadura, sob a forma de violência disseminada a grupos LGBTQIA+, que se acentuou em uma sociedade que já era opressora e preconceituosa. Não se pode dizer que esta seja uma especificidade brasileira, já que as perseguições aos homossexuais ocorreram no mundo inteiro. O termo “homofobia”, por exemplo, foi criado nos anos 1990, na Europa, para designar esse tipo de preconceito, que, além de não respeitar a orientação sexual de cada indivíduo, busca atingi-lo fisicamente. O discurso de ódio proveniente dessa concepção trata a homossexualidade como algo pervertido, deformado moralmente. Esse é o contexto que coloca o Brasil ainda hoje, infelizmente, em primeiro lugar entre os países com maior número de assassinatos de indivíduos da população LGBTQIA+, contabilizando uma morte a cada 29 horas.

Nos anos 1980, o HIV se espalhou rapidamente pelo mundo, fazendo muitas vítimas entre homossexuais, e isso fortaleceu o preconceito em relação à comunidade LGBTQIA+. Inicialmente, a aids – sigla em inglês para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida –, que é uma manifestação do HIV, foi chamada de câncer gay (designação preconceituosa), acentuando a intolerância. Nas primeiras décadas do século XXI, as organizações de defesa dos direitos da população LGBTQIA+ conheceram alguns avanços, como a criminalização da homofobia, mas isso ainda não foi suficiente para cessar a violência contra essa comunidade no Brasil.

No período da publicação dos contos de Morangos mofados, deve-se notar que os ares democráticos respirados a partir do processo de abertura não seriam capazes, por exemplo, de evitar a perseguição aos que não exibiam o comportamento heteronormativo hegemônico esperado, como os protagonistas dos contos “Terça-feira gorda” ou “Aqueles dois”. Ao mesmo tempo, movimentos de organização de grupos homossexuais se articulavam de forma cada vez mais consistente, para fazer chegar suas reivindicações a toda a sociedade, por meio de jornais e revistas que serviam de porta-vozes desses grupos. O Movimento de Libertação Homossexual no Brasil, por exemplo, surgiu em 1975.

 

A temática da homoafetividade na literatura

Nos anos 1970, o cenário cultural brasileiro viveu um fenômeno editorial que ficou conhecido como boom do conto. Foi uma época de grande proliferação de autores que se dedicaram às narrativas curtas, como Rubem Fonseca, Domingos Pellegrini Jr., Sérgio Sant’Anna, Roberto Drummond, entre muitos outros. Esses autores abordavam em suas obras, sobretudo, temáticas sociais e se arriscavam em experiências formais. Caio Fernando Abreu se inscreve nesse contexto, tendo seu nome associado à temática da homoafetividade, embora seus contos alcancem maior amplitude, como veremos nos contos selecionados de Morangos mofados.

A temática LGBTQIA+ tem um longo histórico na literatura brasileira, anterior à criação da sigla que a representa. O tema apareceu ainda no século XIX, no âmbito da estética realista-naturalista, em obras como O Ateneu (1888), de Raul Pompeia, e O Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha. Durante a Belle Époque brasileira, entre os séculos XIX e XX, o cronista João do Rio foi considerado homossexual, o que o tornou vítima de perseguições. Já no século XX, Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas (1956), apresentou as inquietações do narrador Riobaldo diante dos sentimentos que nutria pelo amigo Diadorim. A escritora Cassandra Rios foi uma das primeiras a escrever sobre a temática lésbica em nossa literatura, com grande sucesso de público, em sua longa carreira, entre os anos 1950 e 1980. Mas a grande expansão do tema ocorreu, de fato, nas últimas décadas do século XX, com autores como o próprio Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan (Em nome do desejo, 1983), Jean-Claude Bernardet (Aquele rapaz, 1990), Silviano Santiago (De cócoras, 1999), entre outros.

O tema continua a ser abordado neste século XXI por autores como Angélica de Freitas (Um útero é do tamanho de um punho, 2012); João Gilberto Noll (Berkeley em Bellagio, 2012); Joca Reiners Terron (Do fundo do poço se vê a lua, 2010); Alexandre Vidal Porto (Sérgio Y. vai à América, 2012); Carol Bensimon (Todos nós adorávamos caubóis, 2013); João Silvério Trevisan (Pai, pai, 2017); e Natália Borges Polesso (Amora, 2017).

Convém ainda citar duas antologias: O amor com olhos de adeus: antologia do conto gay brasileiro (1995), organizado por José Carlos Honório, e Entre nós: contos sobre homossexualidade (2007), organizado por Luiz Ruffato. Nesta última antologia, aparecem nomes como Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Hilda Hilst, entre outros.

Também é importante mencionar as edições voltadas para o público infantojuvenil, como Duas mamães (2021), de Carol Campos; Como nascer de duas mães (2021), de Karen Mentone; Olívia tem dois papais (2010), de Márcia Leite; e Meus dois pais (2010), de Walcyr Carrasco.

Na esteira das lutas LGBTQIA+ no país, com conquistas de direitos institucionais e de representatividade em espaços da sociedade, os movimentos LGBTQIA+ continuam buscando a inclusão e a ampliação da diversidade na representação de personagens LGBTQIA+ na literatura. Um levantamento realizado pela revista Cult revela que, no período entre 2005 e 20143, as obras de ficção publicadas ainda apontavam para a pouca representatividade de personagens LGBTQIA+, com 8,3%, contra 85,7% de heterossexuais. Isto é: quando a temática LGBTQIA+ aparece na literatura, ela está tentando desfazer um desequilíbrio histórico, e não estabelecer um domínio. Afinal, se temas como o amor, a existência humana ou a vida das pessoas ao redor do mundo são recorrentes na literatura até hoje, é natural, portanto, que todos os seres humanos, independentemente de sua orientação sexual e afetiva, devam ser representados, não apenas na literatura, como em todas as artes.

 

A obra de Caio Fernando Abreu

Caio Fernando Abreu é geralmente inserido na tradição literária da narrativa intimista ou psicológica, na esteira de Clarice Lispector, Osman Lins (ambos autores dos textos que servem de epígrafe para Morangos mofados) e Lygia Fagundes Telles. Essa classificação se confirma em alguns aspectos da obra do autor. Seus personagens, por exemplo, experimentam uma constante sensação de solidão, mesmo estando mergulhados no burburinho da cidade grande. Além disso, lidam, por vezes, com as incertezas e as desilusões da experiência amorosa. Essas circunstâncias conduzem as narrativas para um sentido de introspecção reflexiva e melancólica. No entanto, essa classificação não representa o cancelamento da perspectiva social. Pelo contrário, na obra de Caio, o contexto social aparece de maneira intensa.

Em 1982, quando Caio publicou Morangos mofados, o período mais violento da ditadura já tinha passado, e o regime começava a ser analisado em estudos sociológicos, políticos e históricos e nas artes. A censura ainda vigorava, mas agia com menor intensidade, ou, ao menos, era constantemente denunciada. O livro de Caio foi um dos primeiros a adotar uma perspectiva mais intimista para avaliar os efeitos da repressão dos anos anteriores no pensamento, na vida e no comportamento das pessoas. A conclusão era carregada de pessimismo: em seus textos, o escritor aponta para a impotência diante do inimigo poderoso e o fracasso de projetos políticos libertários. Além disso, o livro não se refere apenas à violência institucionalizada e transformada em mecanismo de exercício de poder pelo Estado, mas também às agressões físicas e morais oriundas de diversos setores da sociedade, manifestadas em falas e gestos preconceituosos.

Originalmente, Morangos mofados foi lançado como parte da coleção Cantadas Literárias, da editora Brasiliense, voltada para o público juvenil, que reunia obras experimentais ou temas considerados ousados. Faziam parte da coleção livros como Porco com asas: diário sexo-político de dois adolescentes (1981), de Marco Radice e Lidia Ravera; Tanto faz (1981), de Reinaldo Moraes; Feliz ano velho (1982), de Marcelo Rubens Paiva; e A teus pés (1982), de Ana Cristina César.

 

O livro

Divisão

Os contos de Morangos mofados estão distribuídos em três partes, assim denominadas:

I – “O mofo”, com nove contos;

II – “Os morangos”, com oito;

III – “Morangos mofados”, com um conto de mesmo título.

Na parte “O mofo”, estão reunidas narrativas mais carregadas e pessimistas, com narradores e personagens desesperançados e melancólicos. A própria imagem do mofo remete a um processo de decomposição e talvez possa ser entendida como uma alusão ao fim das utopias, isto é, algo que perde o viço que tinha anteriormente, como projetos que se desfazem. Trata-se de um estado de espírito traduzido pelo músico John Lennon (1940-1980) em um famoso verso da canção God: “o sonho acabou”. O mesmo sentimento está presente no livro de Caio, na melancolia de alguns personagens. Dos seis contos selecionados, três estão nessa primeira parte. Em uma visão geral, confirmam essa atmosfera de indefinição existencial: “Diálogo” aponta para a dificuldade de comunicação entre as pessoas; “Além do ponto” mostra um homem em uma busca desesperada por acolhimento; “Terça-feira gorda” narra a história violenta da agressão a um casal homossexual. São narrativas que mostram não apenas indivíduos perdidos, mas uma sociedade apodrecida e mofada.

A segunda parte, “Os morangos”, apresenta algumas diferenças em relação à primeira, que são anunciadas já no conto de abertura, “Transformações”. De fato, predominam nessa parte narrativas que se abrem para perspectivas de futuro mais otimistas, ou, ao menos, nas quais se nota certo alívio em relação à opressão. Embora o tom melancólico ainda esteja presente e a impressão de falência de projetos políticos persista, a esperança e o amor, mesmo que idealizado ou platônico, se fazem notar, talvez como repercussão do encerramento do período mais duro da ditadura civil-militar brasileira. Essa impressão é reforçada pela imagem dos morangos, que remetem a sensações de vitalidade e saúde. Não deixa de ser sintomático, aliás, que pertença a essa segunda parte o conto mais explicitamente erótico e com temática mais assumidamente homoafetiva, “Sargento Garcia” – que está fora da seleção –, o qual narra a história de um rapaz que descobre a própria sexualidade. A despeito da indefinição quanto ao futuro, trata-se de uma narrativa de autoconhecimento, o que é sempre enriquecedor.

Quanto aos contos selecionados que estão nessa segunda parte, temos: “Pera, uva ou maçã?”, em que uma paciente vivencia um processo de reconhecimento dos próprios desejos; “O dia que Júpiter encontrou Saturno”, em que uma perspectiva de encontro futuro pauta o tempo presente de um casal; e “Aqueles dois”, conto em que, embora se verifique a mesma atmosfera repressiva de “Terça-feira gorda”, traz protagonistas que encaram com altivez o olhar preconceituoso dos que os cercam.

A imagem dos morangos remete ainda, ao final do romance A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, declaradamente uma das maiores inspirações de Caio Fernando Abreu:

E agora – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas – mas eu também?!

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.

Sim.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981. p. 104.

 

Não é apenas a referência aos morangos que estabelece a intertextualidade, nesse caso. A última palavra usada no último conto do livro de Caio também é “Sim” (p. 167). Ou seja, é possível afirmar o diálogo com o texto clariceano. No entanto, ele comporta algumas diferenças marcantes. Em A hora da estrela, o narrador, Rodrigo S.M., é um intelectual de classe média. A alusão aos morangos, então, pode ser entendida como uma reação de negação à morte da protagonista do romance, a nordestina Macabea. Se é assim, Rodrigo

S.M. parece dar as costas para a realidade que Macabea simboliza, optando pela tranquilidade e pelo bem-estar burguês, metaforizados na lembrança dos morangos. Os personagens dos contos de Caio, por sua vez, não se encontram em situação cômoda ou de acomodamento diante da realidade que os cerca. Daí, talvez, venha a inserção da imagem do mofo decadente junto à imagem benfazeja dos morangos.

Embora o conto “Morangos mofados” não conste da seleção, convém fazer um registro dessa única narrativa da terceira parte. O título não confirma o otimismo apresentado na segunda etapa, na medida em que, aparentemente, o mofo contaminou os morangos, ou seja, a desilusão venceu a esperança. De fato, o protagonista dessa narrativa vive um período de perturbação existencial, marcado pela solidão e por uma sensação de que o fim do mundo estaria próximo, traduzida no constante gosto de morangos mofados que sente na boca. No entanto, no desfecho do conto, esse gosto desaparece, e o trecho final reafirma a crença em uma transformação:

Abriu os dedos. Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos.

Achava que sim.

Que sim.

Sim.

ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 167.

 

Dedicatórias e epígrafes

Caio Fernando Abreu dedicou Morangos mofados à memória de algumas pessoas que morreram. O autor alude a alguns de seus amigos, mas nomeia quatro pessoas:

- John Lennon (1940-1980): músico inglês assassinado com quatro tiros em frente ao edifício onde morava, em Nova York. O assassino tinha recebido um autógrafo de John poucas horas antes. Desde os tempos de sua banda The Beatles, Lennon sintetizava os sonhos de paz e amor propagados por toda uma geração de jovens nos anos 1960. Seu verso já mencionado, “o sonho acabou”, serviu de senha para a declaração do fim das utopias, e sua morte representou essa desilusão. Seu assassinato serve de mote para a união do casal do conto “O dia que Júpiter encontrou Saturno”.

- Elis Regina (1945-1982): cantora brasileira, do Rio Grande do Sul, que alcançou projeção nacional a partir dos anos 1960. Morreu após complicações provocadas pelo uso de cocaína e álcool. Ela assumiu posições firmes no combate à ditadura, nos anos 1980, e traduzia em suas interpretações o clima político do país, oscilando entre a melancolia e a esperança.

- Henrique do Valle (1958-1981): poeta carioca, foi vítima de uma overdose aos 22 anos de idade. Vivenciou a perseguição política de seus familiares durante a ditadura civil-militar, experiência que deixou sequelas em sua arte e em sua vida. Como veremos, alguns de seus versos são citados no conto “O dia que Júpiter encontrou Saturno”.

- Rômulo Coutinho de Azevedo (1949-1980): militante estudantil no período da ditadura, formou-se em Medicina, destacando-se em tratamentos alternativos. Morreu em um acidente aéreo.

Entre as pessoas vivas (e outras sobre as quais não há informações precisas), além de, mais uma vez, referir-se aos amigos, Caio menciona:

- Caetano Veloso (1942-): músico baiano, um dos mais importantes do país, que exerceu grande influência sobre artistas de períodos seguintes, principalmente entre aqueles que, como Caio Fernando Abreu, recusavam-se a seguir os padrões comportamentais vigentes e buscavam novas formas de expressar sua insatisfação e sua rebeldia.

- Maria Clara Jorge (Cacaia): foi namorada de Caio Fernando Abreu.

- Sônia Maria Barbosa (Sônia de Oxum Apará) não há informações concretas sobre Sônia, mas, pela menção a Oxum Opará (divindade dos rios e das cachoeiras), infere-se que se trata de pessoa ligada ao candomblé.

Além dessas dedicatórias gerais, que aparecem no início do volume, cada um dos contos de Morangos mofados traz uma dedicatória específica. Elas são endereçadas a amigos, vivos e mortos, que, em seu conjunto, instituem uma comunidade que talvez expresse o desejo do autor de construir um antídoto para o mofo.

O livro também está repleto de epígrafes e fragmentos de textos, geralmente de outros escritores, que são apresentados antes das narrativas. Duas delas aparecem logo após as dedicatórias, no início do volume: são trechos de obras de Clarice Lispector e de Osman Lins. Ambos refletem sobre a tarefa de escrever, apontando para uma dimensão metalinguística, que, nos contos de Morangos mofados, permanece implícita. Em nenhum deles a análise sobre a escrita é abordada diretamente. Mas a reflexão em torno da ação de escrever e do esforço para manter o estilo integrado ao assunto de que trata a narrativa é uma preocupação constante.

Além das epígrafes iniciais, outras três compõem cada uma das três partes do livro. Em “O mofo”, os trechos contemplados são do escritor espanhol Federico García Lorca e do poeta brasileiro Henrique do Valle, mencionado na dedicatória. García Lorca (1898-1936) foi assassinado durante a Guerra Civil espanhola por suas posições políticas de esquerda, mas acredita-se que ele pode ter sido vítima de homofobia. Podemos afirmar que Caio se refere a esses poetas pois ambos são artistas que entraram em confronto com sistemas opressores. De fato, as duas citações remetem ao sofrimento e ao medo, sensações que estão entranhadas nas narrativas apresentadas na primeira parte do livro de Caio, em contos marcados pela melancolia. Entre os contos selecionados, essa atmosfera sombria aparece na forma de estranhamento na comunicação em “Diálogo”; de sentimento de solidão em “Além do ponto”; e de homofobia em “Terça-feira gorda”.

A segunda parte, “Os morangos”, apresenta epígrafes retiradas de obras do poeta português Fernando Pessoa e, mais uma vez, de um poema de Henrique do Valle. Este último faz referência direta a morangos: “Quem conhece Deus / sente as coisas internas / e é amigo dos morangos / que nunca morrem”, enquanto o verso de Pessoa expressa o desejo de prazer: “Dá-me mais vinho, porque a vida é nada”. As duas epígrafes celebram a possibilidade de encontrar alegria em um mundo no qual “a vida é nada” e que talvez só exista entre “as coisas internas”. Tais sentimentos são coerentes com as narrativas reunidas na segunda parte do livro, que apontam para uma perspectiva mais esperançosa, quando comparadas aos contos da primeira. Entre os contos selecionados, o sentimento de esperança na busca do amor aparece em “Pera, uva ou maçã?”; a esperança aponta para a possibilidade de um encontro amoroso em alguma dimensão da existência em “O dia que Júpiter encontrou Saturno”; e a esperança é narrada com a vitória do afeto sobre o preconceito em “Aqueles dois”, alinhando-se, assim, com o tom das epígrafes escolhidas.

A epígrafe da terceira parte do livro, “Morangos mofados”, é um trecho da canção “Strawberry Fields Forever”, de John Lennon e Paul McCartney. Como o autor dá ao livro o mesmo título do conto, pode-se pensar em uma relação entre a canção e o livro como um todo. O trecho transcrito na epígrafe corresponde aos versos iniciais da música, em que recebemos um convite à tranquilidade: “Deixe-me levá-lo comigo / porque estou indo para os campos de morango / nada é real, e não há nada com que se preocupar / campos de morango para sempre”. Assim, o projeto de conferir ao livro um tom mais otimista parece ter sido arquitetado desde o momento da organização e distribuição dos contos entre as três partes.

 

Os contos não selecionados

Para completar a análise, é interessante fazer uma ligeira alusão aos contos que não entraram na seleção.

Parte I – “O mofo”

Na primeira parte, “O mofo”, temos contos mais herméticos, de aspecto analítico mais complexo.

“Os sobreviventes”

Um narrador masculino relata a fala de uma interlocutora feminina, que funciona como metonímia da crise de uma geração. A mulher cita uma boa quantidade de referências culturais, mas que resultaram em um estado de desorientação generalizada.

“O dia que Urano entrou em Escorpião”

Quatro jovens estão encerrados em um apartamento, e, sem dinheiro para aproveitar a noite de sábado, experimentam uma sensação de pasmaceira. Um deles anuncia a condição astrológica que dá título ao conto, afirmando que Urano estava entrando em Escorpião, o que parece ser, para ele, algo de grande importância. Sem conseguir atrair a atenção dos outros, ameaça saltar pela janela. Os amigos se unem para evitar o gesto extremo.

“Pela passagem de uma grande dor”

Sozinho em seu apartamento, o protagonista, Lui, experimenta uma sensação de letargia, provavelmente associada ao uso de drogas durante o dia. Uma amiga liga para ele e o diálogo telefônico que travam constitui a parte substancial da narrativa. Ela o convida para sair, mas Lui confessa seu cansaço e sua indisposição. A explicação para ela querer se encontrar com ele aparece em uma fala repentina: “Vou tirar amanhã” (p. 38). A fala fica sem esclarecimento, mas o leitor é levado a pensar na hipótese de que a amiga faria um aborto, o que explicaria o estado de nervosismo dela. No entanto, a fala permanece inexplicada, porque a conversa chega ao fim sem esclarecer esse ponto e sem que Lui conseguisse vencer a preguiça.

“Os companheiros”

Narrativa marcada pela indefinição. O próprio narrador declara que o relato direto faria com que os fatos perdessem o sentido. Dessa forma, o leitor capta algumas informações esparsas, por exemplo, o fato de a ação ocorrer em uma casa inexplicavelmente rodeada de morcegos. Os personagens também são nomeados de forma incompleta: O De Camisa Xadrez, a Médica Curandeira, o Jornalista Cartomante, o Ator Bufão, a Moreninha Brejeira. Todos se encontram em uma casa, envoltos em pensamentos pessoais que não apresentam nenhuma alternativa existencial. O único evento registrado no conto é o sopro inesperado de um vento frio, que não chega a abalar as pessoas que estão dentro da casa, nem os morcegos que esvoaçam fora dela.

“Eu, tu, ele”

O narrador se dirige a alguém para falar de uma pessoa pela qual ambos se encontram apaixonados. Os dados fornecidos permitem ler o texto como a história de um triângulo amoroso homoafetivo. Mas a narrativa é permeável a outro tipo de leitura, talvez mais complexa, que sugere que as três dimensões referidas são componentes de um mesmo indivíduo, correspondente a três instâncias psíquicas definidas pela teoria freudiana: o id (instintos básicos), o superego (valores sociais) e o ego (interação de ambos).

“Luz e sombra”

O narrador é um indivíduo preso em seus próprios pensamentos. O ambiente se assemelha a uma prisão, já que, diariamente, alguém deixa mantimentos, água e cigarros para ele. No entanto, trata-se de uma metáfora para as migalhas que a sociedade reserva aos marginalizados. O narrador busca um sentido para o que acontece à sua volta e para os próprios sentimentos. Nos intervalos de suas reflexões, entrega-se ao sono e sonha que a casa é assolada por morcegos que entram pelas frestas do telhado. Também imagina ver, pela janela, alguém dançando fora da casa – imagem que talvez seja um reflexo de seu próprio desejo de liberdade.

 

Parte II – “Os morangos”

A seguir, mencionamos os contos não selecionados da segunda parte, “Os morangos”, que apresentam linhas narrativas mais definidas.

“Transformações”

O narrador passa dias, meses e anos envolto no dilema de ser visitado por certa entidade, que, na verdade, é ele mesmo, e que promove uma transformação pessoal, manifesta em uma vida social mais intensa, que apenas mascara a intimidade dilacerada que realmente o constituía. Depois desse tempo, ele se encontra com Outra Pessoa, que toca de leve em seu ombro. A troca de olhares entre eles permite uma identificação imediata, e ele sente que se tinha “desinvisibilizado”, isto é, passado pela transformação de se aceitar, sem máscaras.

“Sargento Garcia”

Conto narrado em terceira pessoa. O protagonista, Hermes, se apresenta para o serviço militar e é recebido por um raivoso sargento, Garcia, que o humilha na frente de todos, determinando que ele respondesse a todas as perguntas concluindo suas respostas com “meu sargento” e fazendo comentários jocosos sobre seu corpo jovem e delicado de rapaz de 17 anos. No fim das perguntas, no entanto, elogia a opção do narrador de se dedicar aos estudos, toma-o como exemplo diante dos outros e dispensa-o do serviço militar. No caminho para casa, Hermes é abordado pelo sargento, que oferece uma carona e se insinua sexualmente para o rapaz. Ambos se dirigem a um local conhecido de Garcia, onde Hermes tem sua primeira experiência sexual. Em seguida, retira-se do local e toma uma condução de volta para casa, sentindo que algo nele havia despertado.

“Fotografias”

Duas histórias narradas em primeira pessoa. Duas mulheres que se apresentam. Uma delas é Gladys, “loura trintona e gostosa”, uma secretária que se entrega a homens ocasionalmente, mas aguarda ansiosa a chegada de seu Grande Descobridor, síntese do amor verdadeiro e definitivo, cuja chegada fora confirmada por uma cigana. A outra é Liége, “morena e magrinha”, moça puritana, que busca se manter alheia e distante de tudo que possa se referir à sexualidade, pois desenvolveu uma aversão acentuada depois que foi assediada por um Estudante que lhe deixou marcas físicas e psicológicas. Após o ocorrido, tomara muitos banhos e, nos dias que se seguiram, o terror de estar grávida só tinha se dissipado com a chegada da menstruação, que ela recebeu como uma benção. Uma cigana tinha lhe dito que o amor se aproximava. Assim, Liége vive a mesma expectativa de Gladys.

“Natureza viva”

O narrador descreve os gestos de um protagonista que se encontra diante de um homem por quem está apaixonado. Ao longo do conto, conhecemos as angústias e as dúvidas do personagem principal, que hesita em começar a falar tudo o que deseja para seu interlocutor. Essas dúvidas parecem dizer respeito aos reais sentimentos que o interlocutor tem pelo protagonista. O conto termina anunciando o início da fala do protagonista da narrativa.

“Caixinha de música”

Uma mulher acorda no meio da noite e se depara com o companheiro ao seu lado, sentado na beira da cama, as grandes costas brancas arcadas, tendo nas mãos uma caixinha de música de onde sai a melodia, mais ligeira ou mais lenta, ao sabor do movimento que ele imprime. Ele começa a contar um sonho que teve, no qual penetrava no interior de uma árvore, encontrando ali um ambiente bucólico. No sonho, retornava ao lugar no dia seguinte e notava que, na verdade, eram duas árvores, um salgueiro e uma primavera. Mas o ambiente já não tinha nada de agradável, como no dia anterior. Retornando ao local no terceiro dia, encontrou o salgueiro morto, assassinado pela primavera. A mulher pergunta se, para ele, o sonho é uma revelação de que ela o consome. Sem responder, ele avança sobre ela e a sufoca com suas próprias mãos.

Parte III – “Morangos mofados”

Para finalizar os comentários sobre as narrativas não selecionadas, a seguir, temos uma breve síntese do único conto da terceira e última parte, que tem o mesmo nome do livro.

“Morangos mofados”

Conto narrado em terceira pessoa. Um homem procura seu médico para exames de rotina, mas revela que vinha sentindo na boca um gosto de “morangos mofando”. O médico afirma que a saúde do paciente está ótima, e não dá grande importância a essa última informação. Um tempo depois, o homem desperta ao amanhecer e, ao observar as ruas vazias, imagina que talvez alguém tivesse, finalmente, apertado o botão e destruído tudo. No entanto, logo reconhece tratar-se de uma fantasia, mas sente que dela brota algo como “uma luz, um vento, uma onda”. O sol nasce e o protagonista se dá conta de que o gosto de morangos mofados havia desaparecido de sua boca. Observando alguns canteiros de cimento próximos, pergunta-se se seria possível plantar morangos ali, respondendo que sim.

 

Análise dos contos selecionados

 “Diálogo”

Síntese

O conto, de apenas duas páginas, apresenta um diálogo entre dois personagens não nomeados e designados apenas como A e B, que alternam frases desencontradas. O eixo da conversa é o rótulo para definir a relação que existe entre eles. A fala que aciona o diálogo é uma afirmação de A, que classifica B como seu “companheiro”. A classificação parece perturbar o interlocutor, que não demonstra assimilá-la completamente. Os personagens trocam frases curtas, por vezes truncadas, repletas de perguntas, interjeições e expressões fáticas, destinadas apenas a reafirmar a interação entre os falantes. O diálogo não chega a um desfecho definido; pelo contrário, ao fim dele, permanece a mesma dúvida a respeito da classificação a ser dada à relação entre os personagens – mas, agora, de forma invertida, já que é B quem afirma que A é seu companheiro.

Comentários

A estrutura do conto permite aproximá-lo do gênero dramático: personagens que trocam falas entre si, sem a intervenção de uma voz narrativa marcante. De fato, o texto foi originalmente escrito como parte de uma peça teatral de Caio Fernando Abreu. Intitulada “Diálogos”, a peça reunia cinco diálogos, sempre entre personagens designados pelas letras “A” e “B”.

A palavra “companheiro”, que serve de eixo para o diálogo entre A e B, é carregada de sentidos implícitos. Uma das hipóteses a respeito de sua etimologia a considera originária da expressão latina companis, que alude àquele que compartilha o pão com outra pessoa. Nesse sentido, ela se associa a sentimentos como parceria, divisão, cumplicidade. Essa carga positiva torna estranha a hesitação dos personagens – A no início e B no final – em assumir essa condição. O personagem B expressa essa oscilação por duas vezes: “Tem alguma coisa atrás, eu sei”; “Tem alguma coisa atrás, você não vê?”.

Para compreender essa prevenção, é necessário atentar para outros sentidos que a palavra assume, principalmente no contexto dos anos 1970, no Brasil. A expressão era utilizada para se referir a indivíduos que partilhavam dos mesmos ideais políticos, quase sempre ligados a posturas de esquerda, sendo muito comum entre aqueles que recorreram à luta armada como forma de combate à ditadura militar. Assim, a precaução dos personagens no uso do tratamento expressaria o temor de algum rótulo que, naqueles tempos de ditadura e de perseguição política, poderia representar um perigo real, capaz de provocar a paranoia que A nota em B. Além disso, a palavra companheiro também era usada como forma de tratamento entre casais. Esse segundo sentido também explicaria o temor do uso da expressão pelos dois personagens, em tempos de perseguição a homossexuais. Portanto, a pluralidade de sentidos do termo faz com que as perguntas trocadas entre eles não expressem exatamente uma incapacidade de entender o que dizem, mas, ao contrário, a capacidade de atribuir vários significados ao que é dito – alguns dos quais carregados de tensão e risco.

O diálogo é truncado, ou seja, repleto de frases fragmentadas, o que serve bem ao propósito de evidenciar uma dificuldade de comunicação entre os personagens – seja porque ambos não conseguem definir os termos de sua relação, seja porque, como vimos, sintam algum temor em rotulá-la. A sucessão de enunciados interrogativos sugere que as respostas oferecidas não são suficientes ou adequadas, e serve ainda para demarcar certa imprecisão na relação entre os personagens. Além disso, por vezes, esses enunciados obedecem apenas a uma função fática, isto é, de reforço do canal de comunicação, como em “Hein?” e “O quê?”.

A insuficiência ou impossibilidade de diálogo é reforçada pela estrutura circular do texto. Ele começa e termina com as mesmas falas:

A: Você é meu companheiro.

B: Hein? [início] [...]

B: Você é meu companheiro.

A: Hein? [final]

ABREU, Caio Fernando. Diálogo. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 17-18.

 

Contudo, essa mesma estrutura circular aponta para um aspecto inusitado da narrativa. Nota-se que, no trecho anterior, as falas são as mesmas, mas seus enunciadores são trocados: a afirmativa inicial, “Você é meu companheiro”, feita por A, é repetida por B no final. A interjeição do início, “Hein?”, expressa por B, pertence a A no final do conto. Há ainda outra afirmação repetida no conto, igualmente expressa por diferentes enunciadores: “No começo era claro”, dita na primeira vez por A, é retomada por B logo a seguir. Essas ocorrências de frases repetidas com enunciadores trocados permitem levar uma hipótese tentadora: mesmo em meio à incompletude (frases fragmentadas, função fática), os personagens parecem se completar de alguma forma. Isto é: se há dúvidas e temores, eles são partilhados por ambos.

 

“Além do ponto”

Síntese

Narrado em primeira pessoa, o conto mostra a caminhada angustiante do protagonista em direção à casa de um amigo, que ocorre sob a chuva, sem que ele carregue um guarda-chuva – que ele confessa perder seguidamente, deixando pelos bares que frequenta –, o que acrescenta à pressa o incômodo das roupas molhadas. A ideia de tomar um táxi chega a passar por sua cabeça, mas o fato de o local do encontro ser próximo, além da necessidade de economizar dinheiro, leva-o a optar pela caminhada. Carrega consigo uma garrafa de conhaque e um maço de cigarros no bolso – que, a essa altura, já está molhado.

Enquanto caminha, o narrador imagina o encontro que terá. Haverá discos, som de sax e vozes roucas. O frio é grande, e ele pensa em abrir a garrafa de conhaque para se esquentar um pouco, mas não quer chegar bêbado à casa, para não passar a impressão de alguém que bebe com frequência. Preocupa-se com o fato de que, ao chegar a pé, quando poderia ter optado pelo táxi, talvez transmita uma ideia de dificuldade financeira. Essa é apenas mais uma das muitas impressões que ele tenta evitar, mas o fato é que são circunstâncias efetivas de sua vida: ele realmente anda bebendo, insone e sem dinheiro. Pensa em interromper a caminhada, voltar para um lugar quente ou permanecer em uma esquina qualquer. Mas insiste, prevendo a chegada na casa, onde será recebido ao som de sax e “quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela”. Continua seu trajeto, certo de que já passou do ponto de voltar atrás.

Imagina que, ao chegar, o amigo dirá que ele está muito molhado, mas sem nenhuma perplexidade na voz, apenas como uma constatação. Ele se sente esperado, sente-se até chamado pelo amigo, que o puxa para a casa como por um fio invisível. Quando chegar, o amigo lhe oferecerá roupas secas e acariciará suas mãos, para aquecê-las, limpará a lama de suas roupas. Sabe que o amigo o espera, porque se sente chamado por ele. Sente-se estilhaçado, e sabe que o amigo vai reunir seus pedaços e recompô-lo. Mas continua em frente, porque sente que esse é seu destino naquele momento: chegar até a casa, bater na porta escura, ser recebido pelo amigo. Por fim, chega à casa e bate à porta. Ninguém atende, e ele continua a bater desesperadamente. O protagonista chega a pensar que tudo parece não ter passado de um engano. Mesmo assim, continua a bater na porta “que não abre nunca”.

Comentários

No conto, um indivíduo busca obsessivamente um outro. O homem que é buscado aparece apenas nas referências que o enunciador faz sobre ele, sem que se materialize em uma presença física. Assim, o que importa, sobretudo, é perceber as nuances desse buscador e de sua busca.

Comecemos pela construção da imagem desse buscador. O espaço da ação corrobora essa busca. Embora haja referências à casa do amigo como um lugar de acolhimento e recepção afetuosa, essa percepção é apenas uma possibilidade que não chega a se efetivar. O espaço dominante é aquele vivenciado pelo narrador: a cidade fria e molhada pela chuva. Ou seja, o protagonista partiu de um local inóspito e se dirigiu a outro, onde ficou batendo à porta. Nessa circunstância, o protagonista se coloca como um deslocado, um sem-lugar – condição que o aproxima de tantos outros personagens marginalizados que povoam as narrativas do autor. Além disso, as coordenadas temporais também não são fornecidas com precisão: em dado momento, o narrador se refere à oferta de conforto que poderia receber do amigo como “essas coisas do inverno”, para, em seguida, afirmar que “nem era inverno”. Portanto, falta a esse protagonista uma localização espacial ou temporal, o que reforça a sensação de deslocamento a que nos referimos.

A ausência de nomes, tanto do narrador, quanto do amigo, reforça a condição marginalizada. Assim como ocorre em outros textos do autor, os personagens não têm seus nomes referidos. Em “Além do ponto”, essa ausência aponta para a sensação de deslocamento: a busca do enunciador passa pelo autorreconhecimento de sua própria identidade. Enquanto imagina como seria o encontro com o amigo, evidencia a vontade de criar uma imagem de si, sem correspondência com a realidade: “talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era”. Esse esforço para parecer diferente define seus gestos na narrativa: tentar esconder o hálito de bebida, a falta de dinheiro, as dificuldades para dormir e o descuido com a higiene. A única alternativa parece ser encontrar o amigo, o que, aparentemente, permitiria a ele a reconstrução de sua identidade. Mas, para que isso se efetivasse, seria necessário que o amigo assumisse uma dedicação exclusiva ao enunciador: “porque era a mim que ele chamava, porque era a mim que ele escolhia, porque era para mim e só para mim que ele abriria a sua porta”. É como se ele caminhasse conduzido pela vontade do outro. Ele mesmo confessa: “tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas” – e, como indica o título do conto, ele está além desse ponto. Assim, ele já age de forma prospectiva, isto é, aguardando que o amigo o receba, resolva seus problemas e reconstrua sua identidade: “os pedaços de mim todos misturados que ele disporia sem pressa, como quem brinca com um quebra-cabeça”.

Os elementos de que tratamos até aqui dizem respeito ao protagonista, esse indivíduo que está em busca de algo. Mas e quanto à sua busca, seu amigo, especificamente? Na sequência da citação anterior, em que imagina que o amigo recomporia sua identidade como um quebra-cabeças, o narrador levanta algumas hipóteses sobre o desenho que resultaria dessa montagem: “para formar que castelo, que bosque, que verme ou deus, eu não sabia, mas ia indo pela chuva porque esse era meu único sentido, meu único destino: bater naquela porta escura onde eu batia agora”. Esse personagem em trânsito experimenta uma busca no sentido da reconstrução do eu. As hipóteses das imagens que esse quebra-cabeça poderia formar são bastante sugestivas: o “castelo” reforça a presunção do narrador de ser uma espécie de príncipe, na medida em que supõe que o amigo, ao escolhê-lo e abrir suas portas exclusivamente para ele, dedica-lhe um tratamento digno de rei. O “bosque”, por sua vez, figura o labirinto que poderia resultar da reconstrução de sua identidade. Já a imagem do “verme” remete a algo pequenino, insignificante, desprezível, como se esse indivíduo buscasse conhecer sua face mais humana, material, carnal – o que teria relação com o tom francamente sexual que ele dá às expectativas que mantém na jornada à casa do amigo. Nesse sentido, sua trajetória pode ser definida como uma busca pessoal, uma busca por si mesmo, sendo esse seu “único sentido” e seu “único destino”. Se levarmos adiante essa leitura, o amigo pode ser considerado apenas uma projeção do próprio narrador, e a “porta escura” que ele encontra no fim de sua jornada representa a impossibilidade de um autoconhecimento pleno ou satisfatório. Afinal de contas, convém não esquecer que toda a expectativa pelo encontro com o amigo foi criada pelo próprio narrador, na medida em que esse amigo nunca aparece na narrativa. Por fim, o narrador levanta ainda uma última hipótese de formação de imagem no quebra-cabeça: “deus”. De fato, não se pode descartar a possibilidade de haver uma dimensão mística nessa busca a que ele se dedica.

Seja como for, o próprio narrador considera a ousadia de seu gesto: “ele me chamava, eu me atrevia”. Seu atrevimento corresponde à coragem de encarar o universo desconhecido de sua própria identidade, seja como ser que ama outro e busca ser amado, seja como alguém que busca amar a si mesmo, para além do ponto em que os preconceitos tentam imobilizá-lo em uma identidade única.

 

“Terça-feira gorda”

Síntese

O conto começa já no meio de uma ação – “De repente”– em que o narrador observa um homem dançando e indo em sua direção. Ele corresponde aos gestos que indicam o desejo de aproximação. O homem que se aproxima usa “uma tanga vermelha e branca” e o narrador não vê nada mais além dele, embora estejam em um salão ruidoso e lotado. Imagina que conhece o homem de algum lugar, mas não se preocupa em vasculhar a memória para chegar a uma conclusão. Apenas aguarda que o outro se aproxime.

Quando isso acontece, o homem lhe oferece “duas bolinhas” retiradas de um “envelope metálico”. O narrador hesita, porque quer preservar sua lucidez, mas acaba por aceitar a oferta. Os dois começam a dançar juntos, seus pelos e suores se misturando. O narrador pensa que a boca do outro lembra um figo maduro. Em meio ao barulho, os dois confessam o desejo mútuo de posse física e revelam a necessidade que sentem de que aquilo aconteça imediatamente. Retiram-se do lugar, entre empurrões e chistes das pessoas, que dão gritinhos provocativos, chamando-os de “Veados”.

Dirigem-se à praia. O desconhecido lhe oferece cocaína, consumida ali mesmo, e lhe diz que tinha a sensação de conhecê-lo de algum lugar, ou talvez da sua própria imaginação. O narrador diz que a dúvida não tem importância. Os dois se beijam, desnudam-se e, abraçados, rolam pela praia até atingir a beira do mar, cuja água lava seus corpos suados. Fazem amor em meio à “fosforescência das ondas do mar”.

De repente, surgem muitos homens, que cercam o casal. O narrador estende a mão para o companheiro, em vão. São cercados e agredidos. A última imagem que tem do parceiro é a de um “figo muito maduro” que cai “até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos”.

Comentários

A opção pela voz narrativa em primeira pessoa ocorre muitas vezes nos textos de Caio Fernando Abreu. Em “Terça-feira gorda”, esse recurso serve bem ao caráter testemunhal: um narrador que relata a experiência traumática que viveu, na qual assistiu à morte de uma pessoa. A impressão de que o texto se desenvolve como uma fala do narrador é reforçada pelo coloquialismo do estilo, em que se nota a frequente anteposição do pronome, como em: “Me olhava”, “me estendeu”, “Nos empurravam” e “Te conheço”.

O título do conto remete ao fim das festas de carnaval, dia de liberalidade exacerbada, de desregramento absoluto – talvez venha desse excesso o qualificativo “gorda”, que recupera a versão francesa do evento, designado Mardi Gras – em tradução literal, “terça-feira gorda”. A imagem consolidada da identidade brasileira está intimamente relacionada ao carnaval e à confraternização que se expressa na dança, na música e na própria festa, repleta de corpos fantasiados e suados que se esbarram, como ocorre com os protagonistas do conto. Essa liberalidade resgata até mesmo um sentido medieval do carnaval, que supunha uma subversão das relações hierárquicas dominantes na sociedade. A trajetória dos protagonistas do conto reafirma o exercício da liberdade: retiram-se do espaço restrito do salão para a amplitude da praia, onde podem se entregar livremente aos seus desejos.

Contudo, esse clima libertário sofre uma interrupção súbita – como parece antecipar a expressão “De repente” que inicia o conto. Embora o título e o evento do carnaval sugiram liberdade, a narrativa a desmente. O uso de fantasias carnavalescas nas quais os indivíduos apontam uma mudança de gênero, com mulheres fantasiadas de homens e vice-versa, é tolerado, mas não a manifestação explícita do desejo entre dois homens. O tempo da liberdade é tão fugaz quanto o carnaval e logo encontra seu término, tão repentinamente como começou. O casal transa na praia, espaço intermediário entre terra e mar, entre estabilidade e instabilidade, o que sugere um equilíbrio tenso, que pode ser rompido a qualquer momento. De fato, tudo termina violentamente após os excessos da terça-feira gorda, na Quarta-Feira de Cinzas.

Mais uma vez, os personagens não apresentam nomes. Nesse conto, essa ausência funciona como reforço da liberdade amorosa. O encontro ocorre entre duas pessoas que não se preocupam em se apresentar uma à outra: “Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse”. O que vale é o encontro em si e o que ele significa: ele é concebido como um ato de interação, de mescla: “Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam”. Em outro momento, o narrador o define como “o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro”. Nessa passagem, o texto remete a um dos mitos narrados pelo filósofo grego Platão em O banquete. De acordo com o mito, os seres humanos teriam sido criados em pares unificados e fundidos, formados tanto por indivíduos de gêneros diferentes quanto por casais de homens e casais de mulheres. Sentindo-se ameaçado em seu poder, Zeus determinou a separação entre os membros dos pares, que foram condenados a buscar sua outra metade eternamente. Essa tendência à busca da completude está explícita no conto, tanto da parte do narrador, “Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares”, quanto de seu interlocutor, “Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo”. Isto é: trata-se de um encontro que realiza um desejo íntimo que já existia, uma busca que parece terminar.

A própria linguagem gestual dos personagens sugere o desejo de aproximação. Ambos estão interessados apenas na entrega física, “apenas um corpo que por acaso era de um homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de um homem também”. Desse modo, fogem do estereótipo de encontro amoroso entre almas apaixonadas, próprio de narrativas românticas. Nesse sentido, o texto amplia seu significado: o tema não se restringe à relação homoafetiva, incorporando a questão do lugar ocupado pelo desejo nas relações humanas. A exposição franca desse desejo manifesta-se de forma simbólica no fato de os dois personagens não esconderem seus rostos, “Foi então que percebi que não usávamos máscara”, mostrando-se um ao outro sem pudores, “uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha”. É a verdade referida nessa última citação que choca os que os circundam: a expressão franca e plena do desejo. Se imaginarmos que a festa carnavalesca privilegia o uso de máscaras, perceberemos toda a dimensão dessa postura desmascarada assumida pelos parceiros. No conto, as máscaras carnavalescas não são apenas fantasias, mas, simbolicamente, são meios encontrados pela sociedade para esconder seus próprios desejos. O que os dois homens querem é escapar desse esconderijo.

Para isso, procuram um lugar onde esse desejo possa ser extravasado. O salão não é esse lugar. Ali, ouvem expressões como “Veados”, “ai-ai”, “olha as loucas”. A perseguição verbal é acompanhada de gestos, e seus corpos amalgamados sofrem juntos os efeitos das agressões: “Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com o meu corpo”. No entanto, assim como os protagonistas, seus perseguidores também sairão do salão em sua busca. A mesma ausência de nomes que se nota na designação dos protagonistas também ocorre entre seus agressores, o que sugere que a atitude preconceituosa e agressiva está disseminada na sociedade. No conto, essa raiva se manifesta no gesto homicida perpetrado pelos perseguidores do casal. Ambos pagam pela ousadia de retirar suas máscaras; um deles, com a própria vida.

 

“Pera, uva ou maçã?”

Síntese

O narrador, em primeira pessoa, é um psicólogo/psiquiatra que recebe uma paciente em seu consultório. A moça chega, sentando-se “no mesmo lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre”. Por alguns instantes, ela não diz nada, limitando-se a observar fixamente as meias do médico. Ele tira lentamente um cigarro do bolso, pitando-o por alguns instantes, enquanto procura o isqueiro. Trata-se de um isqueiro descartável, e nesse momento ele se recorda dos avisos de amigos, que lhe dizem que aquele uso é antiecológico. A moça, por fim, se manifesta, dizendo que ele está com as meias trocadas. Ele pensa que a atitude dela foge um pouco do comportamento habitual. Geralmente, ela se mantém calada, até que ele pergunta, com cuidado, em que ela está pensando, e só então, após um suspiro, ela começa a dizer alguma coisa. Dessa vez, no entanto, não há suspiro.

Sem olhar para as próprias meias, para constatar o que ela disse, ele pergunta se o fato de ele estar com as meias trocadas a incomoda. Ela se limita a contrair os ombros, erguendo-os quase até à altura das orelhas, soltando-os em seguida, devagar, “como se fizesse uma massagem em si mesma”. Ela diz que não se incomoda nem um pouco com as meias dele.

Ele dá mais uma tragada no cigarro e ajusta os óculos sobre o nariz, pensando que esse ajuste deveria ser feito de maneira mais técnica, como um profissional. Um pouco de cinza do cigarro cai sobre as calças, e ele molha a ponta dos dedos para recolhê-la. Ele continua aguardando uma resposta para a pergunta que fez, se o fato de ele estar com as meias trocadas a incomoda, e repete a questão. Ela, então, declara que, dessa vez, não está disposta a perder tempo com aquele tipo de diálogo que eles sempre mantêm. E acrescenta: “Eu, eu aposto nas ameixas”. Ele não compreende a afirmação e ela não a esclarece, limitando-se a apanhar um cigarro na bolsa. Ele chega a estender o isqueiro, mas ela acende o cigarro com um palito de fósforo.

Ela revela: “É que aconteceu uma coisa”. E mais: “Uma coisa muito importante”. Ele descruza as pernas, tentando enxergar as próprias meias, para ver quais modelos está usando. A moça novamente se entrega ao silêncio, até que ele insiste em saber qual é a importância do que aconteceu. Ela conta que, quando se dirigia ao consultório, logo na esquina, tropeçou em um caixão de defunto que saía de um sobrado amarelo. Mas se recorda que há um acontecimento anterior que precisa ser registrado: ela comprou um quilo de ameixas, e as trazia consigo nas mãos quando tropeçou no caixão. Mas há ainda algo anterior a essa compra: “Antes, ontem, eu dormi até quase as três horas da tarde de hoje”, só sendo despertada pela mãe para que fosse ao consultório. Durante sua fala, ela apaga o cigarro que tinha nas mãos, e em seguida apanha outro do maço. Mantém-no entre os dedos e, ao acendê-lo, o faz pelo lado errado, queimando o filtro. Como reação, solta um palavrão, e o médico pensa que ela nunca disse um palavrão ali.

Ela retoma a história que quer contar. No caminho para o consultório, vinha tonta, porque tinha dormido muito. Viu uma barraca de frutas e comprou um quilo de ameixas, porque apreciou sua cor avermelhada, forte. Diz que vinha pensando em algumas coisas, mas, quando o médico lhe pergunta em que coisas pensava, ela não sabe responder: “Tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo, lá longe de mim”. Acrescenta que se trata de uma sensação já duradoura, que a acompanha desde muito tempo. Continua sua história. Comprou as ameixas com o dinheiro reservado para a condução de volta, mas não se importou, optando por retornar a pé para casa. Quando dobrou a esquina, vinha saindo um caixão de defunto do sobrado. Ela não o viu e tropeçou nele. Só então percebeu que se tratava de um caixão de defunto e que as pessoas participavam de um velório. Mas não fixou muito sua atenção nisso. Apenas recolheu as ameixas que haviam caído e se dirigiu ao consultório, sem olhar para trás. Lembra-se ainda que as pessoas a observavam enquanto recolhia as ameixas.

Ela apaga o cigarro. Faltam 15 minutos para o fim da seção. Ele acende outro. O médico percebe que ela toca alguma coisa por sobre o couro da bolsa. Ele imagina que ela vá retirar dali mais um cigarro, mas ela não chega a abrir a bolsa.

Ele pergunta a ela em que está pensando. Ela ri – e nunca riu antes. Ela conta que pensa em uma brincadeira antiga. Ao dizer isso, retira das mãos o objeto que vem apalpando na bolsa, mas esconde-o na palma da mão. Continua a falar da brincadeira.

[...] Uma pessoa tapa os olhos da gente com um lenço, depois aponta para outra pessoa e pergunta se você quer pera, uva ou maçã. Pera é um aperto de mão. Uva, um abraço. Maçã é um beijo na boca. – Ri de novo. E me olha enviesada. – Só que a gente dá um jeitinho de falar com a pessoa que pergunta e daí, quando ela aponta alguém que a gente tá a fim, dá um puxão disfarçado no lenço. Então a gente pede: maçã. [...]– Foi a primeira vez que eu beijei de língua.

ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 118-119.

 

Enquanto fala, recolhe o objeto que tem na mão, colocando-o junto ao seio. O médico repara que os ombros estão baixos e os olhos brilhantes, como se ela estivesse prestes a chorar. Subitamente, ela endireita o corpo e pergunta quanto tempo falta para o término da consulta. Faltam 5 minutos. Ela cantarola uma canção, que declara não saber se existe ou se acabou de ser inventada por ela própria. Mantém o objeto grudado ao seu corpo, esfregando-o na blusa. O médico se pergunta o que ela tem nas mãos, mas sem grande interesse pela resposta.

Antes de se retirar, ela diz que aposta nas ameixas. Afirma que pensou nisso, enquanto caminhava para o consultório. Fita-o com um brilho nos olhos que não tinha demonstrado antes nem por tanto tempo como nesse momento. Ela reafirma sua aposta nas ameixas e declara sua crença de que, quando alguma coisa precisa ser feita, não importa que seja proibida. Ela se levanta e esfrega o objeto na blusa, e só aí ele percebe que se trata de uma ameixa. Deixa-a sobre a mesa, e diz que é um presente para ele. Deseja “Feliz Ano-Novo” e vai embora.

O médico fica entregue aos seus pensamentos a respeito dela. A primeira coisa que lhe ocorre é que estão ainda em setembro, cedo demais para desejar feliz ano novo a quem quer que seja. Caminha até a mesa, toca a ameixa, brilhante e estufada, no desejo do sumo amarelo escapar de sua prisão vermelha. Toma a decisão de ligar para os pais da moça, aconselhando nova internação. Contudo, diz para si mesmo que, antes disso, precisa observar a cor das suas meias. Mas não tem tempo de fazer isso, porque o próximo cliente já começa a bater na porta.

Comentários

O conto apresenta um diálogo entre um médico psicanalista e sua paciente durante uma sessão de análise. Trata-se de um encontro que se repete com frequência, “segundas e quintas, dezessete horas: como sempre”, e sua duração parece ter algum peso, ao menos da perspectiva do narrador, que a todo momento faz menção à passagem do tempo: “Geralmente um cigarro dura entre cinco e dez minutos”; “Eu olho o relógio suíço, passaram-se quinze minutos”; “Olho o relógio, faltam quinze minutos”; por fim, o relógio continua a comandar o período das sessões: “Não há tempo. A secretária começa a bater na porta, chegou o próximo cliente”. Já para a paciente, o registro temporal se dá de maneira um pouco diferente. Ao relatar o evento que constituirá o tema central da sessão, ela não obedece a linearidade:  “– Quando dobrei a rua, daquele sobrado amarelo da esquina ia saindo um enterro. – Tira outro cigarro da bolsa. – Não, não foi assim. Antes, eu tinha comprado um quilo de ameixas”. Essa confusão temporal adquire um sentido especial na narrativa, na medida em que há uma diferença entre a forma como a personagem se refere ao passado e como vivencia eventos do presente. Quando se recorda de um episódio de sua infância ou adolescência, ela o faz com precisão, em um relato pautado pela objetividade. Já as referências ao presente ou aos eventos imediatamente anteriores à sessão são marcadas pela imprecisão e por uma carga mais acentuada de subjetividade. Isso ocorre porque a experiência vivida no passado vai ter repercussão nesses eventos do presente de uma forma que, para a paciente, ainda não é plenamente compreensível.

A voz narrativa, em primeira pessoa, traduz as sensações e as impressões do médico. No entanto, ele parece querer retirar de si qualquer atenção do leitor, para fazê-lo concentrar-se na paciente. Logo no início, por exemplo, ele acende um cigarro com um desses “isqueiros plásticos descartáveis”, comentando a seguir: “Alguém me disse que não-são-degradáveis-e-que-eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica. Não consigo lembrar quem, quando, nem onde ou por quê”. Como se pode notar, ele trata com ironia as preocupações ecológicas que, naquele momento, começavam a ocupar os debates sociais, o que denuncia uma postura pouco empática em relação a esse tema. Um detalhe que acontece no momento imediatamente posterior sugere uma postura diferente, pois, quando a paciente nota que o médico está com as meias trocadas, ao entrar no consultório, é possível inferir que talvez esse médico não seja pouco simpático a causas ambientais, já que a sua despreocupação ecológica é fruto de uma distração que

parece ser uma marca do seu comportamento, como revela a pouca atenção com as próprias meias. No entanto, sua resposta à observação da paciente sobre suas meias parece algo simples, para um psicanalisa: “– E isso te incomoda?”. Ou seja: para alguém desligado do mundo e concentrado apenas em seus afazeres profissionais, ele revela um incômodo. E talvez sequer essa concentração seja, de fato, muito grande. Recusando-se a olhar para as próprias meias, para constatar a troca, fica imaginando que pares estaria usando, chegando a movimentar-se na cadeira de forma a tentar enxergá-los e pondo-se a conjecturar consigo mesmo: “Talvez a verde-musgo com losangos cinzentos? E no outro pé a cinza com debruns vermelhos?”. Note-se que ele desenvolve todas essas voltas de pensamento enquanto a paciente já deu início à sessão, expondo as inquietações que a trazem ali. Em resumo: a atenção cuidadosa que o narrador dedica aos próprios gestos revela ao leitor certa insegurança, ao colocar em dúvida quem, afinal, está sendo efetivamente analisado ali.

Sobre a paciente que está na sessão de psicanálise, logo nas primeiras linhas, o narrador nos informa que se senta “no mesmo lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre”. No entanto, outras observações feitas pelo narrador apontam para o ineditismo de algumas atitudes da moça: “Desta vez, porém, não suspira”; “Ela nunca disse um palavrão antes, penso”; “Ela nunca riu antes, penso”; “Nunca ela me olhou tanto tempo de frente, antes”; “Ela nunca se levantou sem que eu dissesse bem-por-hoje-é-só antes”. Esse conjunto de atitudes inesperadas contagiam o próprio médico: “Eu levanto também, sem ter planejado. Isso nunca me aconteceu antes”. O leitor se dá conta, desse modo, que está diante de um evento que, embora se repita com frequência definida, traz algo de inusitado.

O médico também nota algo na linguagem corporal da paciente: “Agora seus ombros estão um tanto baixos demais, quase curvos, côncavos. Os olhos brilham menos, começam a ficar meio enevoados. Acho que vai chorar, procuro com os olhos a caixa de lenços de papel”. Embora ele não diga que se trata de algo inédito no comportamento da paciente, o fato de ter chamado sua atenção indica que esses gestos não são comuns a ela. Há algo de especial nessa consulta. Entre seus eventos inéditos, está certo estado de espírito da paciente:

– Sei lá, que eu ando. Muito triste. Uma merda, tudo isso. Mas não importa, não me interrompa agora. Deixa eu falar, por favor, deixa eu falar. Tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo, lá longe de mim.

ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 117.

 

Note-se que a revelação que ela faz é precedida de uma solicitação para não ser interrompida, para que ela possa falar o que deseja, o que sugere que o que ela tem a dizer não é algo banal, podendo também ser inserido na lista de atitudes inéditas que ela

tem na consulta. Essa “coisa” que “continua dormindo” quando ela acorda parece constituir sua essência, sendo a expressão “lá longe” o meio encontrado por ela para se referir a algo que, na verdade, está localizado em uma dimensão profunda dentro de si.

Logo após a confissão, “Tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo”, a paciente faz referência a ameixas: “Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão bonitas e tão vermelhas que pedi um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada”. Essa fala vem de alguém que se sente desamparada e vê, em um gesto extremo, “pedi um quilo e era minha última grana”, uma forma de compensar esse desamparo, ou, ao menos, de conviver com ele. Mas o que essas ameixas podem significar na narrativa? Para buscar uma resposta para essa pergunta, é necessário atentar para a recordação infantil que a jovem traz à tona durante a sessão: na brincadeira

“Pera, uva ou maçã?” cada uma das frutas referidas tem um significado específico no jogo, de forma a provocar uma aproximação gradativa: pera se limitaria a um aperto de mão; uva, um abraço; e maçã, um beijo na boca. A brincadeira, embora restrita aos limites da infância, possui uma característica de descoberta sexual. De acordo com o Dicionário de símbolos, “a pera é um símbolo tipicamente erótico, pleno de sensualidade”, o que “se deve ao seu sabor doce, à abundância do seu suco, mas também à sua forma, que evoca algo de feminino”, enquanto a uva remete à alegria do vinho, que, por sua vez, funciona como símbolo de conhecimento, de ressurgimento. Mas, das três frutas apresentadas na brincadeira, a maçã é aquela que mais se aproxima da expressão do desejo sensual, em referência à história do pecado original que aparece na Bíblia, segundo convenção interpretativa.

Que papel desempenha a imagem da ameixa nesse contexto? Ainda de acordo com o Dicionário de símbolos, “seu fruto é, às vezes, nos sonhos, de significação erótica, e traz um desejo de gozo sexual”. Contudo, mais importante que isso é o sentido que a referência a essa fruta adquire na narrativa. A referência à brincadeira sugere saudade e desejo de reviver a experiência infantil da aproximação amorosa. A ameixa representaria uma continuidade da brincadeira, um degrau a mais na proximidade física, o que remete ao ato sexual. Convém recordar que a paciente se sentiu atraída pelas ameixas, “tão bonitas e tão vermelhas”, e as adquiriu à custa de algum sacrifício – “era minha última grana”. A passagem tem continuidade: enquanto se dirigia ao consultório sorvendo as ameixas, a paciente tropeçou em um caixão de defunto que era retirado de uma casa. As pessoas que assistiam ao velório ficaram perplexas, observando a cena, enquanto a paciente se pôs a apanhar uma por uma. Esse interesse revela a obsessão pelas ameixas, o que, no contexto da narrativa, sugere que a imagem das frutas sintetiza o desejo sexual latente experimentado pela paciente.

[...] – Eu quero, certo? Eu preciso continuar apostando nas ameixas. Não sei se devo, também não sei se posso, se é. Permitido? Sei lá, acho que também não sei o que é dever ou poder, mas agora estou sabendo de um jeito muito claro o que é precisar, certo? E quando a gente precisa, não importa que seja proibido. [...]

ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 119.

 

O mote da sessão parece ser constituído pelos desejos sexuais da paciente. No fim do encontro, ela se despede de seu analista, desejando um “Feliz Ano-Novo”. Não se trata dos votos convencionais de final de ano, já que o conto se passa no início de setembro. Os votos da paciente acompanham um presente que ela deixa ao analista: uma ameixa. O gesto pode representar um pedido para que ele atenda às necessidades a que ela, mesmo que alegoricamente, se referiu na sessão. Quando ela se prepara para entregar a ameixa ao analista, recorda-se da brincadeira infantil, o que pode sugerir que ela pensa nele para ir além dos limites da maçã. Ou pode ser apenas uma despedida de alguém que se prepara para descobrir, sozinha, um meio de satisfazer seus desejos.

 

“O dia que Júpiter encontrou Saturno”

Síntese

O conto se passa em uma festa. Uma das protagonistas é uma moça que decidiu interromper sua solidão numa noite de sábado. Ao chegar à festa, a primeira pessoa que vê é um “moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada”. Tão bonito que ela, tímida, desvia o rosto e o olhar. Senta-se em uma cadeira de junco perto da janela, lugar que conquista devagar porque a movimentação das pessoas é intensa. As pessoas se levantam o tempo todo para se encontrar em um dos quartos da casa, para consumir “carreiras e baseados”.

Com suavidade, para não chamar a atenção, ela se volta à janela e observa a noite de São Paulo. Mas o céu não é o costumeiro; está tão límpido e claro, “com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. O moço se aproxima, sem que ela note. O som barulhento do rock dá lugar a uma melodia cantada por John Lennon. Na cabeça dela, ecoam cinco tiros. Quando se volta, tem os olhos endurecidos, e eles se fixam nos olhos endurecidos do rapaz, que, por sua vez, olha fixamente para ela. Ele a toca no ombro, e ela compreende de imediato aquela aproximação.

Começa então um diálogo entre eles, durante o qual o narrador em terceira pessoa está ausente e as falas ocorrem todas em discurso direto. O diálogo é entremeado de rubricas em itálico, que indicam “Silêncio”, como uma marcação de cena teatral ou cinematográfica. É impossível atribuir com certeza a fala a um ou outro interlocutor. Eles começam a tratar dos astros, identificando-se por esse interesse comum. A esse propósito, um deles cita versos do poeta gaúcho Henrique do Valle, nos quais se encontra uma referência a Júpiter. O mesmo enunciador que cita os versos afirma que o poeta “vai se matar em fevereiro” e, depois, quando é questionado sobre como pode saber disso, responde dizendo que sabe muitas coisas, e pode ensinar a saber, embora não saiba sentir; o outro responde que poderia ensiná-lo a sentir, embora nem sempre consiga compreender os próprios sentimentos. No entanto, ambos declaram que é difícil para eles aprenderem alguma coisa, porque ambos morreram com cinco tiros nas costas e saíram de seus corpos. Um deles afirma ter a sensação de já estar voltando.

Nesse momento, o diálogo se torna ainda mais vago. Os interlocutores trocam confissões a respeito de lembranças das vidas que tiveram, como “saias coloridas, flores no cabelo”, “trança [que] chegava até a cintura”, “guizos”, “fitas”. Transmitem ainda impressões sobre a passagem do tempo, tais como “O sol já foi embora” e “A estrada escureceu”. Falam de seus respectivos signos, entre os quais percebem conexões. Comentam sobre seus diferentes destinos: um deles vai a Paris, o outro, a Natal. Prometem mutuamente o envio de cartões. Declaram que escreverão cartas, embora admitam que não serão enviadas. Dizem que observarão Júpiter e Saturno e se lembrarão um do outro. Um deles comenta que, quando essas lembranças ocorrerem, ficará sem saber se aquele diálogo terá sido “um encontro ou uma despedida. Falam de encontros e desencontros, que podem ou não ocorrer. Rejeitam a possibilidade de dormirem juntos, alegando que “não é preciso”. E, por fim, despedem-se com um beijo: “– Me beija. // – Te beijo.”.

Depois do diálogo, a narrativa retorna ao foco de terceira pessoa. Dessa vez, contudo, diferente do trecho inicial, o protagonismo está com o rapaz. A moça é a última pessoa que ele vê ao sair. Acha-a tão bonita que chega a baixar os olhos. Desce pelo elevador com a chave do carro nas mãos. Os ruídos de festas nos outros apartamentos, que o elevador colhe em sua descida, fazem com que ele ria sozinho, como quase sempre faz. Recorda-se da moça junto à janela. Pensa que é sábado, que precisa ir embora porque tem que fazer as malas e porque o telefone toca sem parar.

Com movimentos lentos, para não chamar a atenção de ninguém, abre a porta do elevador, atravessa o saguão e sai para a rua. Sente o vento no rosto, apoia-se no poste e olha o céu. Um céu incomum para a cidade de São Paulo, “com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos”. Da janela, a moça grita alguma coisa, que ele não ouve. À distância, ela parece um fantoche manipulado por alguém. Um carro freia atrás dele, com um rádio de onde sai uma música da Rita Lee. Ele tem a impressão de ouvir “cinco tiros”. Dali, não consegue ver os olhos da moça. Nem ela pode ver os dele. Ela desaparece da janela, enquanto ele atravessa a avenida sem olhar para trás. 

Comentários

Em muitos de seus contos, Caio Fernando Abreu faz referência a outras artes, como música, teatro, cinema e pintura. Em “O dia que Júpiter encontrou Saturno”, a intertextualidade está incorporada à própria estrutura do texto. Ele é constituído, em sua maior parte, de um diálogo entre o casal de protagonistas, entremeado de rubricas que trazem sempre a mesma informação – “silêncio” –, elementos que permitem aproximar o conto do texto teatral ou cinematográfico. Deste último, ainda guarda outras duas referências, como a presença de dois planos distintos: o que abre o conto, com a chegada de uma jovem a uma festa, e o que o encerra, sob a perspectiva do rapaz, que abandona a mesma festa. Em outro momento, há referência ao termo roteiro, que serve como designação do texto cinematográfico: “– E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros”. Note-se que essa intertextualidade não está apenas na forma, mas auxilia nos sentidos que a narrativa assume. De fato, ela apresenta um encontro vivenciado de forma semelhante, mas de perspectivas distintas – por isso os dois planos e a alusão a diferentes roteiros possíveis. No encontro, tão importante quanto o que é dito entre eles, como mostra a sucessão de diálogos, é o que não é dito, o que explica as rubricas que indicam momentos de silêncio. Ao descrever um dos personagens, o narrador o assemelha a um “óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida”. O pintor Gregório Gruber foi um expoente da pintura figurativa que reaparecia no cenário artístico nos anos 1970. Para se ter uma ideia mais nítida da comparação feita no texto de Caio Fernando Abreu, basta visitar o site do artista, disponível em: gregoriogruber.com.br (aba “Anos 1970”). A mesma solidão que se verifica nas figuras representadas por Gruber em meio à paisagem urbana pode ser encontrada nos protagonistas do conto de Caio.

Há ainda a alusão a um poeta “que vai morrer”, autor de versos que são declamados por um dos personagens e transcritos na narrativa: “desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra”. Em nota, o leitor é informado de que esses versos pertencem ao poema “Vazio na carne”, de Henrique do Valle, mas nada mais é esclarecido a respeito desse autor. José Henrique Goulart do Valle (1958-1981) era sobrinho de João Goulart, o presidente deposto pelo golpe militar, em 31 de março de 1964. Nesse dia, o sítio do presidente foi alvo de um ataque com muitos tiros. O episódio foi presenciado pelo menino, então com 5 anos, que se escondeu com a mãe e o irmão sob uma cama. No dia seguinte, todos foram levados pelas forças da repressão e, pouco tempo depois, foram expatriados. O episódio e a experiência do exílio exerceram grande influência sobre a mente do menino e sobre a obra do poeta, que sofreria com crises psiquiátricas por toda a vida, até morrer de overdose, aos 22 anos de idade. A alusão ao poeta não é gratuita: o conto apresenta alguns ingredientes presentes em sua poesia, como a violência consubstanciada em disparos de arma de fogo e o desencontro amoroso, que é o tema do poema referido. Por fim, o pano de fundo do conto é o mesmo que acompanhou Henrique do Valle em sua vida: a sociedade opressiva do regime militar.

Os protagonistas do conto, referidos apenas como “ele” e “ela”, compõem um par que se encontra casualmente em uma festa. É um encontro de opostos: ela é pouco afeita a noitadas, e aquela ocasião foi uma opção para escapar da solidão, “só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso”. Já ele é frequentador mais habitual da noite paulistana e se retira da festa “porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar”. Os dois trocam olhares furtivos, quase imperceptíveis um para o outro, e essa fugaz manifestação de interesse mútuo serve de mote ao conto, na medida em que evidencia pontos de contato entre seres que se mostram antagônicos apenas na superfície – no fundo, não importa o gênero de cada um, masculino ou feminino, ambos se identificam e se complementam no que sentem, razão pela qual a narrativa é duplicada: os parágrafos iniciais, que têm a mulher como protagonista, se repetem ponto a ponto nos parágrafos finais, centrados no homem. Além disso, a respeito de cada um deles, o narrador informa que é “discretamente infeliz”, o que mostra nova conexão. A solidão parece ser outro componente comum, porque é assim que ela permanece na festa, e é assim que ele se retira dela.

O que não fica claro é se o encontro entre os protagonistas efetivamente aconteceu. A leitura dos parágrafos iniciais sugere que sim: “Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos do moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro”. O toque físico dá concretude à cena, mas convém notar que ela ocorre quando os olhos da moça se voltam “para dentro”, o que sugere que pode se tratar de um encontro possível, imaginado, mas não necessariamente real. O que segue, portanto, pode ser apenas um dos “roteiros” hipotéticos que conduziria as vidas dos personagens, como de todos os indivíduos – roteiro para cuja modificação bastaria “uma palavra ou um gesto”.

Mas a maior coincidência a unir os dois jovens diz respeito a uma experiência coletiva, não restrita às suas vivências pessoais. Trata-se do assassinato do músico John Lennon, ocorrido em dezembro de 1980. A referência ao episódio aparece por duas vezes na narrativa. Na primeira delas, surge como lembrança para a moça: “E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every day, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros”. Na segunda ocorrência, os tiros aparecem nas recordações do rapaz, precedidos da alusão a uma música de Rita Lee, “Baila comigo”: “De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando ‘se Deus quiser, um dia acabo voando’. Na cabeça dele soaram cinco tiros”.

Convém observar que as duas ocorrências de morte vêm asso ciadas a versos que expressam felicidade e satisfação existencial. A primeira delas remete à canção “Beautiful Boy”, quase uma canção de ninar que o artista fez para seu filho Sean Lennon. Nela, surgem versos como “Feche seus olhos / Não tenha medo / O monstro se foi”, além daqueles que são citados no conto: “A cada dia, de toda forma / As coisas ficam cada vez melhores”. A segunda remete ao trecho da música de Rita Lee, que convida para a dança e que, no fragmento citado, “se Deus quiser, um dia acabo voando”, sugere uma atmosfera de transformação e realização. Nos dois casos, portanto, temos a promessa de experiências revitalizadoras, seja longe do monstro, seja acima do chão. Essas referências intertextuais instituem uma experiência de recomeço, de reinvenção, de reconstrução. O encontro entre os dois protagonistas do conto talvez tenha ocorrido de forma lúdica, onírica, mas surge como um evento possível, mesmo que seja em outra dimensão existencial.

O título do conto, aliás, anuncia um encontro que está prestes a acontecer no “céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos”. A conjunção dos dois planetas ocorre uma vez a cada 20 anos. De acordo com concepções astrológicas, das quais Caio Fernando Abreu era adepto, esse encontro cósmico reúne dois movimentos contrários: expansão, representado por Júpiter, e contração, associado a Saturno. A conjunção de energias poderosas e contrárias emana um grande poder de realização, isto é, um crescimento que se dá na medida das possibilidades. Uma promessa de concretização, que acompanha Júpiter, mas que pode enfrentar obstáculos, sintetizados em Saturno.

O encontro narrado em “O dia que Júpiter encontrou Saturno” pode ter ocorrido apenas em uma dimensão distinta daquela em que vivem os dois protagonistas, mas se apresenta como algo plausível, que talvez esteja no horizonte dos personagens. Essa possibilidade dá ao conto um final esperançoso: haverá o dia em que se dará um encontro transformador para eles. 

“Aqueles dois”

Síntese

O conto é dividido em partes numeradas.

1. Raul e Saul se conhecem em uma firma, na qual começam a trabalhar ao mesmo tempo. As mesas ficam lado a lado e o lugar é – como um deles chamaria depois – um “deserto de almas”. Ambos percebem de imediato a identificação que tinham um com o outro, embora parecessem muito diferentes. Raul é mais velho, com 31 anos, e vem de um casamento de três anos que não lhe deu filhos nem felicidade; gosta de música e, às vezes, quando bebe, toca violão e canta boleros. Saul tem 29 anos e vem de um longo noivado que chegou ao fim; frequentou sem concluir um curso de Arquitetura, e daí vem sua paixão por desenhos, “rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas”. No início, o contato se limita aos cumprimentos convencionais, mas, aos poucos, vão se conhecendo e se compreendendo.

2. Ambos são solitários. Raul vem do norte, e Saul, do sul, imigrantes como muitos naquela cidade. Na firma, os empregados têm sempre algum parente no lugar, um tio, uma mulher, uma mãe; eles, não. Mas têm alguma coisa: Raul tem um telefone alugado, um toca-discos, um sabiá chamado Carlos Gardel. Saul mora em um quarto de pensão, onde, na parede, há uma reprodução de um quadro de Van Gogh – Quarto em Ales –, que lhe lembra o próprio cômodo em que vive e sempre o inspira a desenhar. São bonitos, os dois, a ponto de chamarem a atenção das mulheres na repartição. Raul é moreno, um pouco mais alto e definido que Saul, que parece mais frágil, com seus cabelos claros encaracolados. Quando estão juntos, parecem ainda mais bonitos.

3. No início, encontram-se quando vão apanhar um cafezinho, trocam palavras banais e voltam para as suas mesas, ambos tímidos. Até o dia em que Saul chega atrasado, com barba por fazer. Raul lhe pergunta o que aconteceu, e o colega confessa ter ficado até tarde assistindo a Infâmia, com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, um filme antigo que, segundo ele, ninguém conhece. Raul desmente a informação, dizendo que aprecia muito o filme. Passam o restante do dia trocando impressões sobre as cenas. A partir de então, filmes passam a ser o assunto de suas conversas. Quando os narram um ao outro, também revelam sonhos, projetos. As moças da repartição vivem inventando saídas, festas, discotecas para as quais são convidados, mas se esquivam. Uma vez, aceitam o convite. Mas preferem a companhia um do outro. Raul toca violão e canta “Tu me acostumbraste”; Saul bebe demais e vomita no banheiro. No caminho até os táxis que os levarão aos lugares onde moram, trocam as últimas confidências. Pela primeira vez, Raul fala do casamento desfeito e Saul, de seu noivado antigo. No dia seguinte, de ressaca, Saul falta. E Raul fica um pouco perdido no lugar, tomando café e fumando mais do que o normal, enquanto cantarola, quase sem perceber, “Tu me acostumbraste”.

4. Durante os finais de semana, Raul e Saul ficam ansiosos pela chegada da segunda-feira. Depois de experimentar essa sensação durante muito tempo, Raul dá o número de seu telefone a Saul, dizendo que ele pode ligar, se precisar de alguma coisa. Saul liga logo no primeiro domingo depois do almoço, perguntando o que o outro está fazendo. Raul o convida para ir ao seu apartamento quitinete. Jantam juntos a comida que a empregada deixou pronta no sábado. Desde o primeiro encontro, tinham se passado seis meses. Naquela noite, Raul canta boleros e eles jogam buraco, até Saul ir embora, por volta das 9 da noite. No dia seguinte, não tocam no assunto, mas conversam bastante. E isso passa a ser o normal entre eles. As moças da repartição começam a cochichar a respeito da amizade que crescia tanto. Um dia, almoçam juntos na pensão de Saul, que faz questão que o amigo suba ao seu quarto, para ver seus desenhos. Certa vez, Raul entra clandestinamente à noite na pensão, para que assistam juntos ao filme Vagas estrelas da Ursa na televisão de Saul. Mas pouco veem do filme, porque não param de conversar. Raul pergunta se Saul não se sente oprimido naquele quarto tão acanhado; o outro responde que já está acostumado. Desde então, encontram-se todos os domingos no apartamento de Raul. Certa noite de chuva, Saul dorme no sofá. No dia seguinte, chegam à repartição ambos com os cabelos molhados. As moças não falam com eles. Os funcionários, quase todos barrigudos, trocam olhares insinuantes. Mas eles não notam nem os comentários destes, nem o silêncio daquelas. Quando saem do trabalho, vão assistir juntos ao último filme de Jane Fonda.

5. Nos primeiros dias da primavera (setembro, portanto), Saul faz aniversário e ganha do amigo a gaiola com o sabiá Carlos Gardel. No início do verão (dezembro, talvez), é a vez de Raul fazer aniversário; Saul lhe dá a reprodução que tinha feito do quadro de Van Gogh. Mas entre um aniversário e outro, algo acontece. A mãe de Raul morre, e ele precisa ficar uma semana fora. Nesse tempo, Saul se sente perdido na firma e no quarto da pensão. Chega a sonhar com as pessoas da repartição: todas vestidas de preto, com uma expressão acusadora, com exceção de Raul, que está vestido de branco e o acolhe amistosamente. No final de uma tarde de sexta, Raul retorna à cidade e liga para Saul na repartição, pedindo para que fosse vê-lo. Raul deixou a barba crescer. Fala muito da mãe para o amigo, dizendo que poderia ter sido mais legal com ela. Quando Saul já está de saída, Raul começa a chorar. Os dois se abraçam longamente. Ficam muito tempo assim. Saul acaricia a barba de Raul, e este passa os dedos pelos caracóis de seus cabelos. Quando se afastam, trocam “palavras grandes”, dizendo que não têm mais ninguém no mundo, a não ser um ao outro. Apertam as mãos com força, e Saul vai embora. Naquela noite, sente-se tão só que quase liga para o amigo.

6. No fim do ano, os dois recusam convites dos colegas de repartição para passarem as festas juntos. Raul presenteia Saul com uma reprodução do Nascimento de Vênus, que substitui o quarto de Van Gogh na parede do quarto de pensão, e Saul dá a Raul um disco de Dalva de Oliveira. Na passagem do ano, erguem um brinde à amizade na quitinete de Raul. Ficam bêbados. Saul despe-se e diz que dormirá nu. Raul comenta que o amigo tem o corpo bonito, e recebe de volta o mesmo elogio. Raul dorme na cama atrás do guarda-roupa e Saul, no sofá. Mas um consegue ver a brasa do cigarro do outro quase a noite inteira. De manhã, Saul vai embora sem se despedir, porque não quer que o outro note suas olheiras. No início de janeiro, quando planejam viajar juntos nas férias que se aproximam, são chamados pelo chefe. Ele lhes mostra as cartas anônimas que vem recebendo, assinadas por “Um Atento Guardião da Moral”, tratando da relação íntima dos dois. Raul fica indignado, mas o chefe os demite. Esvaziam as mesas sem olhar um para o outro. Descem juntos pelo elevador, em silêncio. Na calçada, chamam um único táxi, e Raul abre a porta para Saul entrar. Das janelas, os colegas de repartição lançam gritinhos provocativos, que não são ouvidos, porque o táxi já virara a esquina. O sol queima forte a repartição e “quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram”.

Comentários

O título do conto assume a perspectiva da sociedade que manifesta preconceitos contra a homoafetividade. De fato, referir-se aos dois amigos como “aqueles dois” expressa um tom pejorativo, na medida em que o termo “aqueles” busca segregar e estabelecer distância moral entre os enunciadores e os que demonstram um comportamento considerado condenável, e o termo “dois” reduz os indivíduos a um número, retirando deles a identidade e a individualidade. Mas o conto traz um subtítulo, “História de aparente mediocridade e repressão”, que funciona como resposta ao título e ao tratamento diminuidor que ele expressa, pois aponta para a mediocridade cultural e social do grupo que marginaliza os dois amigos: cultural, na medida em que os colegas estão alheios às referências a filmes, músicas e pinturas trocadas entre eles, e social, porque não aceitam a manifestação de afeto que não condiz com os valores do mesmo grupo. A “repressão” anuncia a punição que recairá sobre os protagonistas, com a atitude dos colegas de trabalho que resultará na demissão da dupla.

A apresentação de Raul e Saul pelo narrador parece acompanhar também a perspectiva dos colegas de trabalho, concentrando-se no aspecto físico de ambos, que atrai a atenção principalmente das moças do lugar:

Eram dois moços bonitos, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos [...]. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum deles tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papeis oito horas por dia.

ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 147.

 

Mas, na verdade, a narrativa também traz dados íntimos sobre pensamentos e gostos de Raul e Saul, indo além da aparência captada pelos colegas de trabalho. Para ambos, o lugar era um “deserto de almas”, e, talvez por isso, suas próprias almas não eram captadas ali – a não ser, é claro, entre eles mesmos.

Assim, para além do aspecto físico, Raul e Saul encontram semelhanças de gosto e situação pessoal: as famílias de ambos viviam em lugares distantes, e, ao contrário dos colegas, eles não tinham nenhum laço com a cidade. Essa circunstância os colocava na condição de solitários, mas também os preservava de qualquer vigilância familiar em torno da vida íntima de cada um. Além disso, ambos vinham de relacionamentos fracassados. O que os aproximou foi justamente uma percepção íntima das semelhanças mútuas, o que se manifestou no fato de “terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto”.

O desfecho do conto, com Raul e Saul se retirando “mais altos e mais altivos” do edifício onde trabalhavam, aponta para um final de afirmação da resistência contra o preconceito e a exclusão. Se a ação agressiva resultou na morte do personagem de “Terça-feira gorda”, aqui ela cai no vazio, sem conseguir impedir que os dois amigos continuem seu caminho juntos. Ao contrário, o conto anuncia que “todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram”. Assim, o final feliz convencional é exposto com o sinal trocado: os preconceituosos não conhecem a felicidade. Esse encerramento esperançoso confirma os versos da epígrafe de Walt Whitman, retirados do poema “So Long!”, no qual o poeta estadunidense anuncia um futuro mais luminoso, com o triunfo da justiça, da liberdade e da igualdade:

Eu anuncio a estreita afeição, declaro que ela será ilimitada e sem reservas

Digo que ainda encontrarás o amigo que estavas procurando.

WHITMAN, Walt. So long. In: O livro de ouro da poesia dos Estados Unidos. Trad. Oswaldino Marques. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. p. 73.

 

No conto, Raul e Saul realizam o que o poeta preconiza.

Por fim, é preciso tratar das referências intertextuais do conto. Na parede da pensão onde mora, Saul tem uma reprodução de Van Gogh, “aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas manchadas do assoalho”. Trata-se de Quarto em Arles, pintado em 1889.

Essa tela de Van Gogh é usada para traduzir a solidão e a busca de tranquilidade que atingem os dois protagonistas do conto. Para reforçar o compartilhamento dessas impressões, Saul presenteia o amigo com a reprodução que tinha em seu quarto. Raul retribuiria o presente, oferecendo ao amigo uma cópia de Nascimento de Vênus (1485-1486), do renascentista italiano Sandro Botticelli. Sabe-se que Vênus era a deusa do amor, o que pode funcionar como uma sugestão do afeto que une os dois amigos. Note-se que Saul colocaria a tela no mesmo lugar onde antes estava o quadro de Van Gogh, como se substituísse a solidão pelo amor em sua vida.

O mesmo afeto está expresso nas canções referidas no conto. Raul tocava violão e apreciava sobretudo boleros. A paixão por músicas de acentuado teor sentimental o levou a batizar seu sabiá de Carlos Gardel, nome de um dos maiores cantores de tango da história. Em uma festa, Raul canta “Tu me acostumbraste”, do cubano Francisco Manuel Domínguez (1927-2014), cuja letra explicita os sentimentos que unem os dois amigos: “Você me acostumou a todas essas coisas / [...] / Sutil chegaste a mim como uma tentação / Enchendo meu coração de inquietação” – sendo esses dois últimos versos reproduzidos no conto, correspondendo ao trecho preferido de Saul. Outras canções referidas no conto são: “Perfidia”, “La barca”, “Contigo en la distancia”, “El día que me quieras”, “Noche de ronda” e “Nossas vidas”. Em seu conjunto, elas projetam uma verdadeira trajetória do relacionamento amoroso: desejo, desencanto, distância, expectativa pela realização e separação – sempre de forma melancólica.

O interesse comum de Saul e Raul volta-se também para a produção cinematográfica. O conto se refere a alguns filmes, o primeiro dos quais é Infâmia, de 1961, que tem como protagonistas duas professoras acusadas de manterem um relacionamento homoafetivo – o que remete diretamente ao que acontece com os protagonistas. No conto, o interesse pelo filme vai ser a senha inicial para a aproximação entre eles, que descobrem, então, gostos semelhantes. A descoberta dessa familiaridade os leva a assistirem juntos a Vagas estrelas da Ursa, filme de 1965, dirigido por Luchin o Visconti, que tem como tema a tentativa de uma mulher de homenagear o pai, morto em Auschwitz – pano de fundo que remete à violência também experimentada pela sociedade repressora em que vivem Raul e Saul.

 

Estilo

O primeiro conto do livro já anuncia uma das marcas do estilo de Caio Fernando Abreu: a presença de diálogos – notável de forma marcante nos contos “O dia que Júpiter encontrou Saturno”, “Pera, uva ou maçã”, “Terça-feira gorda” e “Aqueles dois”. Essa recorrência talvez se deva à vocação teatral do autor, mas certamente está relacionada ao seu esforço de produzir uma linguagem coloquial, com uso eventual de termos chulos ou vulgares. No entanto, o autor não abandona por completo o registro da norma-padrão, como se verifica no trecho a seguir, em “Além do ponto”:

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falto dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso.

ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 41.

 

Assim, Caio produz um texto límpido, claro, em que a subjetividade se faz presente de forma intensa. Essa é a base do aspecto mais importante de seu estilo: o lirismo, a poeticidade das imagens. Note-se que essa visão lírica recai sobre uma realidade violenta.

Veja-se, por exemplo, o que ocorre no final de “Terça-feira gorda”: uma cena de assassinato é traduzida em imagens poéticas, entre as quais se sobressai a do figo que se desfaz.

Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.

ABREU, Caio Fernando. Terça-feira gorda. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 57.

 

O trecho é bastante representativo do estilo de Caio Fernando Abreu. Nele, encontram-se elementos como a violência, “pedaços sangrentos”; referências mais poéticas, “Plêiades”, reunidas a imagens inusitadas e coloquiais, “feito uma raquete de tênis”; a perspectiva subjetiva, “eu conseguia ver três imagens se sobrepondo”; o destaque dado à sensualidade, “o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção”, e à relação amorosa, que acaba por fazer o lirismo prevalecer sobre as ações grotescas dos agressores. É assim que seu estilo responde às condições sociais em que se enquadra, pautadas pela opressão do regime militar e pela acentuação de mecanismos repressores, que cresciam rapidamente em uma sociedade cada vez mais conservadora. Não se pode negar que passagens como a que transcrevemos, bem como o estilo do autor, provoquem certo efeito de estranhamento no leitor. O propósito desse efeito é fazer o leitor notar o que há de verdadeiramente estranho no mundo em que vive: não a liberdade, mas a agressão; não o amor, mas a morte.

Por fim, é importante ressaltar o uso da intertextualidade como mecanismo expressivo. Nas narrativas de Morangos mofados, as inúmeras referências a canções populares, filmes e artes plásticas compõem um conjunto que emoldura as narrativas, permitindo localizá-las no tempo e no espaço: anos 1970, em grandes centros urbanos. Além disso, servem como marca caracterizadora de uma geração que compartilha os mesmos gostos e os mesmos hábitos de consumo cultural. Isso amplia o leque das narrativas, mostrando o poder representativo dos personagens e das situações recriadas ficcionalmente.



INTRODUÇÃO À OBRA: MORANGOS MOFADOS (2)

  QUESTÃO 01 1. Considere os seguintes contos de Morangos mofados: 1. “Pera, uva ou maçã?” 2. “Diálogo” 3. “Aqueles dois” 4. “Terça-feira go...