18 novembro 2021

FIGURAS DE LINGUAGEM II

 Metáfora

A metáfora representa uma comparação de palavras com significados diferentes e cujo termo comparativo fica subentendido na frase.

Exemplo: A vida é uma nuvem que voa. (A vida é como uma nuvem que voa.)

Uso da metáfora em "meu amor é uma caravana de rosas vagando num deserto inefável"

 

Comparação

Chamada de comparação explícita, ao contrário da metáfora, neste caso são utilizados conectivos de comparação (como, assim, tal qual).

Exemplo: Seus olhos são como jabuticabas.

Uso da comparação por meio do conectivo "como": "o amor é como uma flor" e "o amor é como o motor do carro"


Onomatopeia

Onomatopeia é a inserção de palavras no discurso que imitam sons.

Exemplo: Não aguento o tic-tac desse relógio.

 


No primeiro e último quadrinho temos o uso da onomatopeia com "Bum, Bum, Bum" e "Buááá...; Buááá...". O primeiro expressa o som do tambor, e o segundo, o choro do cebolinha

 

Assonância

A assonância é a repetição de sons vocálicos.

Exemplo:

"O que o vago e incógnito desejo

de ser eu mesmo de meu ser me deu." (Fernando Pessoa)

Na tirinha acima, o uso da assonância é expresso pela repetição das vogais "a" em: "massa", "salga", "amassa"

 

 Aliteração

A aliteração é a repetição de sons consonantais.

Exemplo: O rato roeu a roupa do rei de Roma.



Uso da aliteração em "O rato roeu a roupa do rei de Roma" é notado pela repetição dos sons de “r”.

 

Personificação

A personificação ou prosopopeia é a atribuição de qualidades e sentimentos humanos aos seres irracionais.

Exemplo: O jardim olhava as crianças sem dizer nada.


A personificação é expressa na última parte do quadrinho onde o Zé Lelé afirma que o espelho está olhando para ele. Assim, utilizou-se uma caraterística dos seres vivos (olhar) em um ser inanimado (o espelho).

 

Disponível em: https://www.todamateria.com.br/figuras-de-linguagem/ Acesso em 07 abr. 2021.

FIGURAS DE LINGUAGEM I

Metonímia

A metonímia é a transposição de significados considerando parte pelo todo, autor pela obra.

Exemplo: Costumava ler Shakespeare. (Costumava ler as obras de Shakespeare.)




Uso da metonímia que substitui o vocábulo boi por “cabeças de gado”.


Hipérbole

A hipérbole corresponde ao exagero intencional na expressão.

Exemplo: Quase morri de estudar.

 

A expressão “morrendo de inveja” é uma hipérbole


Eufemismo

O eufemismo é utilizado para suavizar o discurso.

Exemplo: Entregou a alma a Deus.

Acima, a frase informa a morte de alguém.

Na charge acima, a explicação de fofoqueira é usada para suavizar o discurso


Ironia

A ironia é a representação do contrário daquilo que se afirma.

Exemplo: É tão inteligente que não acerta nada.

 


Nota-se o uso da ironia, uma vez que o personagem está zangado com a pessoa e utilizou o termo "inteligente" de maneira irônica

 

Antítese

A antítese é o uso de termos que têm sentidos opostos.

Exemplo: Toda guerra finaliza por onde devia ter começado: a paz.


Uso da antítese expressa pelos termos que têm sentidos opostos: positivo, negativo; mal, bem; paz e guerra

Disponível em: https://www.todamateria.com.br/figuras-de-linguagem/ Acesso em 03 mar. 2021.


AO NASCER DO DIA

 

Idalina pulava da cama, acendia o fogo, preparava o chimarrão – sem mate. João não era gente. A maleta de amostras no ombro, ele corria para a estação. Com o apito do trem, eu estalava os dedos e agradava os três cachorrões. Batia na porta da cozinha, só duas vezes, não acordar os meninos.

Idalina abria a porta e prendia os cachorros. Seguíamos apressados para o arvoredo. Eu estendia a capa na grama orvalhada. A fumaça branca na sua boquinha pintada trazia até ali o quente aconchego da cama. Os cães gemiam e arrastavam a corrente, nem a voz da dona os aquietava.

 Em tantos meses o encontro à luz indecisa do bosque. Quando entrou na loja, não me alegrei de vê-la. Fingindo examinar a chita de bolinhas azuis, contou que, preparado o chimarrão e partido o mascate, voltara para a cama. Ouviu o sinal na porta da cozinha. Não duas. Cinco batidas fortes, sem que latissem os cachorros. Não era eu, o coração lhe dizia, assim mesmo prendeu uma fita no cabelo.

Entreabriu a janela: o cunhado José. Tendo-nos surpreendido, iria denunciá-la ao irmão. Bem na hora em que o outro não estava? Eu também quero. José, ele é teu irmão. Você quer o velho Orides e para mim nada? Se não quiser, olhe que eu conto. Espere um pouco que volto.

- Ah, sua ingrata – eu disse – com você não precisa pedir duas vezes?

Idalina saiu da janela. José colocou-se diante da porta. Atirou sobre ele a água da chaleira, queimando-lhe a mão. Berrando, ao se afastar, que contaria tudo ao irmão. Melhor eu não aparecesse até novo recado.

Três semanas passaram. João nas suas viagens. Da mulher não recebi notícia. Rondava o bangalô à distância, o latido dos malditos cães. Insinuava-me por entre as árvores, à espera de algum aviso. Cabeceando de sono, de repente uma gritaria:

- Acudam, bandido. Me acudam!

Na porta, o homem de braço cruzado.

- João, que houve? Que foi?

Ergueu a mão vermelha. Perguntei se foi com o punhal.

- Ele era um ladrão.

Escutei ganidos no capão e corri até lá. Era o irmão, rodeado pelos cachorros, que lambiam as suas feridas. Rosnaram contra mim, observei de longe o quadro. Pelo chão, vestígios de grande luta. Não pude ver se os dedos estavam queimados.

João no mesmo lugar.

- Que houve, João? Onde está Idalina?

Um vizinho, que ouviu o grito dos meninos, surgia com o sargento. Às perguntas, João sacudiu a cabeça.

Já sabia o que achei no quarto: a mulher nua e morta com sete facadas. Antes dos outros, vasculhei as gavetas. Ali debaixo do colchão a carta anônima.

Passamos com a mulher no lençol sujo de sangue. Ele virou o rosto, mas não chorou. Gemia que esfolara um ladrão. Foi conduzido de braço amarrado para a cadeia. O sargento, a balançar a ponta da corda, explicava que João, muito chegado ao mano José e não tendo vícios, só podia estar louco. 

 

Fonte: TREVISAN, Dalton. Cemitério de elefantes. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira , 1975. p. 43. Disponível em: http://tecendolinguagensemrede.blogspot.com/2013/03/tema-contos-de-enigma-ou-suspense-8-ano.html.




COORDENAÇÃO E SUBORDINAÇÃO I

 EXERCÍCIO 01

Represente, graficamente, a relação entre as orações seguintes e classifique-as em coordenadas, subordinadas ou principais. Observe os modelos.

 




a) Cheguei, entrei, saí, e ninguém percebeu.

b) Saí, quando ele chegou, e não voltei.

c) Quando chegamos, ele já tinha saído.

d) Quero que você conheça os fatos e proponha uma solução

e) Espero que você venha e desejo que tudo corra bem.

 

EXERCÍCIO 02

Leia o trecho a seguir:

"O meu fito¹ na vida foi apossar-me das terras de São Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas brenhas² a pomicultura³ e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular. "

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1986

¹ objetivo                      ² matas               ³ árvores frutíferas

 

a) Complete o diagrama a seguir, separando as orações no trecho

(1) O meu fito na vida foi

(2)

(3)

(4) plantar algodão

(5) plantar mamona

(6)

(7)

(8) adquirir um rebanho bovino regular

 

b) A relação entre a oração (1) e as demais orações é de:

(   ) coordenação                               (   ) subordinação

c) A relação entre a orações (2) até (8) de:

(   ) coordenação                               (   ) subordinação

 

EXERCÍCIO 03

Leia o trecho da música:

Bye bye, Brasil

Oi coração
Não dá prá falar muito não
Espera passar o avião
Assim que o inverno passar
Eu acho que vou te buscar
Aqui tá fazendo calor
Deu pane no ventilador
Já tem fliperama em Macau
Tomei a costeira em Belém do Pará
Puseram uma usina no mar
Talvez fique ruim prá pescar
Meu amor

BUARQUE, Chico; MENESCAL, Roberto. Bye bye, Brasil. In; Chico Buarque. Vida. CD. Phillips, 1993

 

Escolha as palavras que completam a informação:

Na música, percebe-se que a coordenação / subordinação é utilizada para narrar os acontecimentos na vida da pessoa. As ações são narradas sem nenhuma palavra de conexão, por isso são chamadas de sindéticas / assindéticas. Mantendo a ideia do texto, se adicionarmos conjunções entre os últimos versos, as orações serão do tipo explicativas / aditivas.

 

EXERCÍCIO 04

Transforme os períodos simples a seguir, transformando-os em orações substantivas. Em seguida, classifique cada uma delas.

a) Tenho receio de pessoas fofoqueiras.

b) Demonstrou vontade de fuga.

c) Minha esperança é o seu retorno ao Rio.

d) A solução seria a redução das verbas.

e) Realizou seu desejo: uma viagem ao Canadá

 

EXERCÍCIO 05

Assinale a alternativa em que está destacada uma oração coordenada explicativa.

a) Peço que te cales.

b) O homem é um animal que pensa.

c) Ele não esperava que a mãe o perdoasse.

d) Levei-a até o taxi, que ela precisa ir agora.

e) É necessário que estudes.

 

EXERCÍCIO 06

Leia:

I. Todos os brasileiros que desejam ingressar na Força Aérea Brasileira devem gastar longas horas de estudo e dedicação.

II. Todos os brasileiros, que desejam ingressar na Força Aérea Brasileira, devem gastar longas horas de estudo e dedicação.

 

Marque a alternativa correta.

 a) A frase I possibilita a conclusão de que todos os brasileiros, indiscriminadamente, desejam ingressar na Força Aérea Brasileira.

b) As frases I e II estão em desconformidade com as normas gramaticais em relação às Orações Subordinadas Adjetivas.

c) A frase I, por conter Oração Subordinada Adjetiva Restritiva, não apresenta vírgulas. Esse fato está em conformidade com as normas gramaticais.

d) A frase II, por conter Oração Subordinada Adjetiva Restritiva, apresenta vírgulas. Esse fato está em conformidade com as normas gramaticais.

 

EXERCÍCIO 07

Observe as orações destacadas e assinale a alternativa que apresenta a incorreta classificação.

a) Não deixe de estudar, pois isso se tornará um prejuízo. > Or. Coord. Explicativa.

b) Ela ia de um lado a outro da sala e parecia inquieta demais. > Or. Coord. Aditiva

c) O Brasil é um país rico; grande parte do seu povo, todavia, vive em condição miserável. > Or. Coord. Adversativa

d) Nossos atletas não jogaram muito bem, nem conseguiram vencer o campeonato. > Or. Coord. Conclusiva

e) Ele demonstrou ser extremamente teimoso; não tem, pois, condição de trabalhar com o público. > Or. Coord. Conclusiva

TEXTOS MULTIMODAIS

QUESTÃO 1

Observe a imagem abaixo.

 


 Disponível em: https://images.app.goo.gl/DitVMjwJzp25yHKm6 Acesso em: 5 maio 2021

Responda:

a) Você já tinha visto esse tipo de texto? Em caso afirmativo, em que lugar(es)?

b) Observando os símbolos contidos na imagem, você consegue dizer o que eles significam?

c) Sabe dizer para que serve esse conjunto de símbolos e palavras contidos na imagem?

d) Há algumas palavras e letras na figura. O que você acha que elas querem dizer?

QUESTÃO 2

Agora observe estas imagens.

 



 Disponível em: https://images.app.goo.gl/qRrPZNYFg6Zjvuck9 Acesso em: 5 maio 2021

Disponível em: https://images.app.goo.gl/r7ekwASm2kt5D3ym9 Acesso em: 5 maio 2021

 

O que é possível perceber?


QUESTÃO 3

O texto a seguir é um cartaz de uma peça de teatro.

 


 Disponível em: https://images.app.goo.gl/JgfWaij5P3DL18GYA Acesso em: 5 maio 2021


Responda às questões.

a) Você sabe como se chama o artista gráfico que idealiza cartazes?

b) Observando as informações fornecidas, qual é a finalidade de cartazes desse tipo?

c) Quando você escolhe uma peça ou um filme para assistir, sem nenhuma informação ou recomendação, o cartaz pode ser decisivo em sua escolha. Por quê?










A expressão 100% algodão indica a composição do material; da esquerda para a direita, os símbolos usados querem dizer: a temperatura máxima da água para lavagem convencional; a proibição de usar alvejantes; não secar em tambor; a temperatura ideal de passagem (média, até 150 ºC); a recomendação de não lavar a seco.

Essa linguagem é comumente usada em diversos países e que, por meio da leitura dos símbolos, é possível saber como devem ser os processos para lavar, secar e passar os tecidos, ainda que não se saiba ler o texto verbal que os acompanha.

a) A pessoa que desenha ou projeta cartazes é o cartazista.

b) Esse é um cartaz que promove a divulgação da exibição de uma peça e fornece dados imprescindíveis para o público, tais como data, horário e local das apresentações; foto; companhia responsável; local de venda dos ingressos; além de quem apoia e produz o evento.

c) Ouça as opiniões e explicações de seus alunos e converse com eles a respeito dos elementos que lhes chamam a atenção nos cartazes.

ATRÁS DO ESPESSO VÉU


Disse adeus aos pais e, montada no camelo, partiu com a longa caravana na qual seguiam seus bens e as grandes arcas do dote. Atravessaram desertos, atravessaram montanhas.  Chegando afinal à terra do futuro esposo, eis que ele saiu de casa e veio andando ao seu encontro.

“Este é aquele com quem viverás para sempre”, disse o chefe da caravana à mulher.  Então ela pegou a ponta do espesso véu que trazia enrolado na cabeça, e com ele cobriu o rosto, sem que nem se vissem os olhos. Assim permaneceria dali em diante. Para que jamais soubesse o que havia escolhido, aquele que a escolhera sem conhecê-la.

COLASANTI, Marina. Atrás do espesso véu. In: ____. Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 47.




[1] ATRÁS DO ESPESSO VÉU

O título do conto já se nos apresenta como um aperitivo para a expectativa, aguçando-nos a curiosidade, a fim de buscarmos solucionar o enigma, o mistério, o desconhecido: o que será que há “atrás do espesso véu”?

O uso do advérbio “atrás”, determina que algo ou alguém não se encontra às claras, oculta-se à espera de ser desvendado. O determinante “espesso” conferirá características que reforçarão a ideia do que mais se esconde.

Detendo-nos, ainda, no determinado “véu”, em sua concretude, ele nos remeterá ao plano imaginativo e ao cultural, possibilitando-nos conjecturas: o quê ou quem estaria atrás de um véu? em que contexto social? quando? onde? e quanto à espessura? O porquê já se construíra como o primeiro enigma, os demais reforçam-lhe o vigor. O enigma se alicerçará, a partir da ótica do “oculto”, do “não visível”, tanto no plano externo, quanto no interno: atrás de um véu espesso, pouco pode ser visto, sob o ponto de vista daquele ou daquilo que se oculta (interno): há uma ideia de fechamento para o mundo a ser percebido (mundo exterior). Entretanto, ao se fechar atrás de um espesso véu, algo ou alguém impossibilita ao mundo externo a visão. Nega-se, portanto, a relação sensorial do visível.

 

[2] DISSE ADEUS AOS PAIS

O verbo, “disse” tem por função identificar o narrador. Mas o fato dessa estrutura não apresentar sujeito determinado, este também se oculta, aumenta ainda mais a expectativa do leitor. Por outro lado, o substantivo “adeus” confere ao texto, a ideia de partida, de despedida. Essa despedida propõe a ruptura do convívio familiar: um filho ou uma filha deixa a casa paterna - “aos pais”.

 

[3] E, Montada No Camelo, Partiu Com A Longa Caravana

A oração reduzida de particípio, intercalada, colocada entre vírgulas e deslocada, possibilita-nos a resolução do primeiro mistério (ou oculto) do texto: “montada” refere-se a uma mulher. Nessa mesma estrutura define-se, também, a situação espacial, pois o substantivo “camelo” designa um mamífero cujo habitat natural é o deserto: outro oculto desfeito.

Na oração coordenada, o substantivo “caravana” confirma a relação espacial já mencionada. Longa não é a caravana, mas a viagem, a distância a ser percorrida. “Partiu” comprova o “adeus” de [2]: uma mulher que deixa a casa paterna e parte, em caravana, para um destino.

 

[4] NA QUAL SEGUIAM SEUS BENS E AS GRANDES ARCAS DO DOTE

O código sociocultural, apenas enunciado em [3], agora se concretiza no sujeito composto da oração adjetiva: “seus bens e as grandes arcas do dote”. A princípio, o substantivo “bens” expressa os pertences pessoais (“seus” – pronome possessivo); “as grandes arcas do dote” configuram aquilo que passa a pertencer a ela, por doação, a estender-se a alguém que, provavelmente, a receberá, outro mistério a desvendar-se.

Depreende-se a possibilidade de um contrato matrimonial – índice comum na sociedade patriarcal do Oriente. Contrapõe-se, ainda, à ideia de “bens”, em proporção inferior, a ideia do “dote”: não há referências específicas quanto ao espaço ocupado pelos “bens” (arcas, talvez?). Entretanto, nota-se que o dote vai em “grandes arcas”. Muito maior é o que vai ser doado, oferecido; menor o que é daquela que o leva.

 

[5] ATRAVESSARAM DESERTOS, ATRAVESSARAM MONTANHA

A gradação, estabelecida pelas coordenadas assindéticas e pela repetição do verbo, intensifica não só a ideia de lentidão da caravana de camelos, mas também da continuidade mantida pela própria rotina do viajar nas paragens orientais. Contudo, percebemos a oposição que se registra a partir dos substantivos “desertos” e “montanhas” que nos remete à ideia de duração da viagem: muito tempo gasto para percorrer a distância.

 

[6] CHEGANDO AFINAL À TERRA DO FUTURO ESPOSO

A reduzida de gerúndio, marcada pela presença do verbo chegar, dá-nos a finalização do percurso. O adjunto adverbial de lugar resolve outro mistério: o objetivo da viagem. Configura-se pelo casamento a realizar-se, confirmada pela expressão “futuro esposo”. Cabe ainda ressaltar a palavra denotativa de situação – “afinal” – que nos reporta à ideia de finalmente, pela chegada; e de enfim sós, pelo encontro daqueles que irão contrair núpcias.

O código sociocultural consolida-se ainda mais: no Oriente, é a mulher que vai ao encontro do homem.

 

[7] EIS QUE ELE SAIU DE CASA E VEIO ANDANDO AO SEU ENCONTRO

Seu efeito é o de revelação: “eis”, palavra que denota designação. O que está designado é o que está determinado por imposição: revela-se o marido; o novo contexto a ser vivenciado.

Interessante observar que o sair de casa para ele é diferente do sair de casa para ela. Da mesma forma, “veio andando” para ele é diferente do percurso para ela, tanto no tempo, quanto na distância e, principalmente, no que se refere ao contexto do homem e ao da mulher no Oriente. “Veio andando” sugere cautela, certa expectativa que produz um andar mais lento. A função da locução verbal confirma-se, assim, retardando o processo de encontro. Partimos do princípio de que quem espera anseia pelo esperado e quer tê-lo mais rapidamente. Ambos eram desconhecidos. Há, aqui, a presença do encontro para o desvendar do desconhecido: o visível.

 

[8] “ESTE É AQUELE COM QUEM VIVERÁS PARA SEMPRE”

Abre-se a frase com aspas, indicativo de discurso direto. “Este” determina a aproximação do que estava longe (“aquele”). A distância é anulada pela presença do verbo em sua forma presente. Determina-se, portanto, a presença masculina e o vaticínio confirma-se a seguir: com quem viverás para sempre. Reforça-se o papel do destino e nega-se a possibilidade do livre arbítrio.

Apresenta, também, o discurso autoritário, característica de uma sociedade patriarcal, na qual a hierarquia sempre coloca a mulher em posição de inferioridade e obediência. O uso da 2ª pessoa do singular (tu) também confirma a aproximação com o imperativo dos dogmas cristãos.

 

[9] DISSE O CHEFE DA CARAVANA À MULHER

A forma verbal “disse” comprova o discurso direto. Mais uma vez, constata-se a posição da mulher nesta sociedade: o pai a entrega a um homem, um acordo estabelecido pelas partes masculinas: a mulher é apenas o objeto comerciado.

 

[10] ENTÃO ELA PEGOU A PONTA DO ESPESSO VÉU QUE TRAZIA ENROLADO NA CABEÇA

“Então” é comum às narrativas orais, tendo como finalidade dar continuidade à narração. Entretanto, a partir dessa palavra, a ação que se segue passa, pela primeira vez, a ser assumida pela personagem feminina. Interessante observar que o uso do pronome pessoal reto – “ela” –, na função de sujeito do verbo “pegou”, determina o agente, mas não o nomeia. Falta, ao conto, o nomear das personagens. O oculto vem se alastrando: sujeitos determinados, ocultos. Em [9], o sujeito modifica-se, deixa de ser pronome, contudo não é também nomeado.

O relevante, sem dúvida, é o deslocamento da ação para a personagem feminina “ela” que, ao pegar “a ponta do espesso véu que trazia enrolado na cabeça”, desvenda mais um oculto: o véu pertence a ela e era usado para enrolar a cabeça. A espessura do véu torna-se pertinente à função por ele desempenhada: proteger contra o sol, o frio e o vento que são inerentes ao deserto, região por onde viaja a caravana.

Parte do enigma já se nos apresenta desfeito; todavia, há, ainda, algo a ser esclarecido: por que será que “ela pegou a ponta do espesso véu”? o que ela pretende fazer com ele? O mistério ressurge e mantém a expectativa.

 

[11] E COM ELE COBRIU O ROSTO

Eis a resposta para a dúvida surgida em [10]: para cobrir o rosto, ela retira o véu que enrolava a cabeça. O véu deixa de ter sua função de proteção para assumir outra. Uma nova questão firma-se, completando o mistério anterior: por que cobrir o rosto com o véu espesso? Define-se o clímax da narrativa, constituindo-se, assim, no código narrativo.

Sabemos que, no Oriente, a mulher só descobre o rosto para o marido. Como a mulher encontrava-se diante daquele que seria o seu futuro esposo, provavelmente, num ato instintivo e também cultural, ela cobre seu rosto para que ele não a visse antes do casamento.

 

[12] SEM QUE NEM SE VISSEM OS OLHOS

Pertinente observar a estruturação. A estrutura tem a sua finalidade bem definida: não eram apenas os olhos a serem escondidos, como é do hábito das mulheres orientais esconderem, vedarem; o rosto todo deveria ser coberto, para não ser visto, e, consequentemente, os olhos, que normalmente ficam descobertos, também seriam ocultados. Ver os olhos e ver através deles é penetrar na alma, perceber o mundo interior daquele que é observado: os olhos são o espelho da alma.

O desvendar não mais no plano externo do leitor, mas no plano interno da narrativa, o dos personagens. Levando-se em consideração que “sem que” é locução conjuntiva condicional, depreende-se daqui a condição que será estabelecida por ela: nem os olhos, nem todo o rosto poderão ser vistos. A reação da personagem feminina possibilita-nos uma reflexão mais profunda: da mesma forma que ela saiu para o desconhecido (sem ter a visão daquele para quem fora determinada), assim também nega a ele a possibilidade de perceber-lhe a alma.

 

[13] ASSIM PERMANECERIA DALI EM DIANTE

A decisão tomada pela mulher seria mantida e continuada. Dois adjuntos adverbiais – o primeiro, de modo; o segundo, de tempo – reforçam a atitude e confirmam a determinação e, talvez, o único domínio que ela poderia ter sobre a situação que lhe fora imposta: o rosto, especialmente os olhos, jamais seriam descobertos. Aquele a quem ela se destinara, por contrato matrimonial, não a teria com a alma, não a mediria através do olhar. Fechava-se ela para ele.

 

[14] PARA QUE JAMAIS SOUBESSE O QUE HAVIA ESCOLHIDO

Nessa estrutura, iniciada pela locução conjuntiva que expressa finalidade, seguida do advérbio jamais, há a reiteração do que já fora exposto em [13]. Contudo, o verbo “soubesse”, transitivo direto, vem completado pelo demonstrativo “o”, trazendo-nos uma particularidade: “o” equivale a aquilo, reforçando a ideia de objeto, de mercadoria, confirmada pelo verbo principal da oração adjetiva – “escolhido” – cujo sentido também transita para um “que” (pronome relativo), reiterando a mesma ideia do demonstrativo “o”.

 

[15] Aquele Que A Escolhera Sem Conhecê-La

Inicia-se com o demonstrativo “aquele”, que se refere ao futuro esposo. Em sua função é o que mais se distancia, como já foi dito anteriormente. O distanciamento dele é confirmado em relação a ela. Por cobrir-se com o espesso véu para sempre, ela o afastará de sua intimidade: o enigma agora será vivido por ele.

Há, nessa unidade, uma inversão: ela passa a ser o grande enigma para ele, além de estabelecer as regras do jogo amoroso, se é que o mesmo será realizado. Percebemos, ainda, o poder da mulher, apesar da narrativa acontecer num contexto masculino. Ela usa de sua arma mais poderosa, a sensualidade, porém encoberta. Conhecê-la, vislumbrá-la, só a ela caberia o direito de determinar o momento. O corpo pode vir a pertencer-lhe, mas jamais a alma.

Num plano social, em que a mulher se vê subjugada, oprimida, desrespeitada, só lhe cabe uma resposta: negar-se ao mundo que lhe impõe as regras, não permitindo que este mundo a veja, abstendo-se também de vê-lo.


MAP (4) - OS ARGONAUTAS