O fato
O
fato narrado, seja real ou imaginário, é elemento essencial da narração: se não
há um acontecimento, não há narração. Ao narrar os fatos, empregamos muitos
verbos que indicam ações. Veja:
Luciana acordou
cedo e, enquanto tomava o café da manhã, leu o jornal. Depois
disso, chamou um táxi e dirigiu-se
ao aeroporto, onde tomou um avião para o Rio de Janeiro.
Observe
que, normalmente, os fatos narrados aparecem em ordem cronológica (geralmente
do passado para o presente). Primeiro ela acordou, leu o jornal e tomou café;
depois tomou um táxi, em seguida dirigiu-se ao aeroporto e, finalmente, tomou o
avião.
Os personagens
Os
fatos narrados sempre se referem aos personagens, que são os seres que praticam
ou recebem as ações narradas. Numa narração, o número de personagens é
variável: tanto pode haver um único personagem como vários. Quando há muitos
personagens, os mais importantes são chamados de personagens principais
e os restantes de personagens secundários.
O narrador
O
narrador é quem conta os fatos. Há histórias em que o narrador também é um
personagem (narrador em primeira pessoa). E há histórias em que ele não
participa: é apenas um observador dos fatos (narrador em terceira pessoa).
É
importante você distinguir o narrador do autor. O autor é a
pessoa que escreveu a história; portanto ele pertence ao mundo real. Já o
narrador é, geralmente, uma criação do autor e pertence, portanto, ao mundo da
ficção. O narrador é o dono da voz, é o falante, é quem
“conversa” com o leitor.
Você
poderá ler uma história de um autor que já morreu há muitos anos, mas no
momento em que está lendo a história, o narrador está bem vivo lhe contando os
fatos.
O cenário
O
cenário, ou espaço, é o local onde se desenrolam os fatos narrados. Pode ser um
ambiente pequeno e bem definido (a sala de uma casa, o interior de um elevador
ou de um avião) ou um lugar amplo, sem definição clara do ambiente (um
continente, um país, um oceano). Você já deve ter lido histórias em que o
narrador situa na Europa, por exemplo, sem definir exatamente em que lugar da
Europa ele ocorreu.
Além
disso, a história pode ser ambientada num único cenário (a história inteira
ocorre num único lugar) ou acontecer em vários cenários diferentes.
O tempo
As ações dos personagens não acontecem todas
ao mesmo tempo: elas se sucedem umas às outras.
O
tempo nas narrações pode ser definido ou vago. Certamente, você já ouviu
histórias que começam mais ou menos assim: “Numa quarta-feira do mês de janeiro
de 1997, Heloísa tomou um avião para o Recife. Lá chegando...” (tempo
definido).
Outras
narrações podem começar assim: “Há muito tempo, na longínqua Grécia...” (tempo
indefinido). As narrativas dos contos de fada costumam se desenvolver num
espaço de tempo bastante vago, indefinido. Geralmente elas começam por “Era uma
vez...”.
O conflito
Agora,
que você já sabe o que é narrador, personagem, espaço e tempo,
vamos falar sobre o elemento mais importante da narração: o conflito.
Pense
nas histórias de filmes, novelas, desenhos de TV, peças de teatro. Pense nos
vilões, nos “bandidos”, nos inimigos que estão sempre criando problemas para o
“mocinho”. E, então, nosso herói reage enfrentando as dificuldades criadas
pelos vilões. Essa disputa, essa luta que se estabelece entre as duas partes, é
o que chamamos de conflito.
Vamos
tomar como exemplo a clássica história de Romeu e Julieta, do escritor inglês
William Shakespeare, escrita em 1594: Romeu e Julieta são dois adolescentes que
se amam, sonham em viver juntos. Mas logo se estabelece o conflito: como suas
famílias são inimigas, eles não podem realizar seu sonho. O final você conhece:
Julieta toma um tranqüilizante e parece morta; Romeu, acreditando ter perdido a
sua amada, se suicida. Julieta acorda e, ao perceber Romeu morto, também se
mata.
A
partir da história e Romeu e Julieta, podemos dizer que, na seqüência dos
fatos, ao viver um conflito, os personagens têm suas vidas alteradas.
A narração
Uma
história é sempre o relato de um acontecimento (pode ser a ida a um show ou a um jogo, o passeio do feriado,
o caso de amor entre um príncipe e uma princesa etc.). Quem relata a historia é
sempre o narrador, que pode participar ou não dos fatos relatados.
O
acontecimento é vivido por personagens (você e seus amigos, um turista e
uma aeromoça, um príncipe e uma princesa etc.), num determinado local (o cenário)
e num determinado espaço de tempo.
O
tipo de composição que apresenta essas características é chamado de narração.
Vamos
ler, agora, um texto narrativo de Stanislaw Ponte Preta.
A estranha passageira
- O senhor sabe? É a
primeira vez que eu viajo de avião. Estou com zero hora de vôo - e riu
nervosinha, coitada.
Depois
pediu que eu me sentasse ao seu lado, pois me achava muito calmo e isto iria
fazer-lhe bem. Lá se ia a oportunidade de ler o romance policial que eu
comprara no aeroporto, para me distrair na viagem. Suspirei e fiz o bacano
respondendo que estava às suas ordens.
Madama
entrou no avião sobraçando um monte de embrulhos, que segurava
desajeitadamente. Gorda como era, custou a se encaixar na poltrona e arrumar
todos aqueles pacotes. Depois não sabia como amarrar o cinto e ou tive que
realizar essa operação em sua farta cintura.
Afinal
estava ali pronta para viajar. Os outros passageiros estavam já se divertindo
às minhas custas, a zombar do meu embaraço ante as perguntas que aquela senhora
me fazia aos berros, como se estivesse em sua casa, entre pessoas íntimas. A
coisa foi ficando ridícula:
-
Para que esse saquinho aí? - foi a pergunta que fez, num tom de voz que parecia
que ela estava no Rio e eu em São Paulo.
-
É para a senhora usar em caso de necessidade - respondi baixinho. Tenho certeza
de que ninguém ouviu minha resposta, mas todos adivinharam qual foi porque ela
arregalou os olhos e exclamou:
-
Uai... as necessidades neste saquinho? No avião não tem banheiro?
Alguns
passageiros riram, outros - por fineza - fingiram ignorar o lamentável equívoco
da incômoda passageira de primeira viagem. Mas ela era um azougue (embora com
tantas carnes parecesse mais um açougue) e não parava de badalar. Olhava para
trás, olhava para cima, mexia na poltrona e quase levou um tombo, quando puxou
a alavanca e empurrou o encosto com força, caindo para trás e esparramando
embrulhos para todos os lados.
O
comandante já esquentara os motores e a aeronave estava parada, esperando
ordens para ganhar a pista de decolagem. Percebi que minha vizinha de banco
apertava os olhos e lia qualquer coisa. Logo veio a pergunta:
-
Quem é essa tal de emergência que tem uma porta só pra ela?
Expliquei
que emergência não era ninguém, a porta é que era de emergência, isto é, em
caso de necessidade, saía-se por ela.
Madama sossegou e os outros passageiros já
estavam conformados com o término do “show”. Mesmo os que mais se divertiam com
ele resolveram abrir jornais, revistas ou se acomodaram para tirar uma pestana
durante a viagem.
Foi
quando madama deu o último vexame. Olhou pela janela (ela pedira para ficar do
lado da janela para ver a paisagem) e gritou:
-
Puxa Vida!!!
Todos
olharam para ela, inclusive eu. Madama apontou para a janela e disse:
-
Olha lá embaixo.
Eu
olhei. E ela acrescentou: - Como nós estamos voando alto, moço. Olha só... o
pessoal lá embaixo até parece formiga.
Suspirei
e lasquei:
-
Minha senhora, aquilo são formigas mesmo. O avião ainda não levantou vôo.
PONTE PRETA, Stanislaw. O melhor de Stanislaw Ponte Preta. 3. ed.
Rio de Janeiro: J. Olympio, 1988. p. 130-131
Responda no seu caderno:
1. O narrador participa dos acontecimentos ou
é um mero observador?
2. O texto fornece algumas características do
narrador. Defina como é o seu comportamento.
3. Qual é o cenário dessa narrativa?
4. Caracterize a passageira.
5. As atitudes da passageira impediram o
narrador de realizar o que tinha planejado. O que ele deixou de fazer?
6. Por ser gorda, a passageira enfrentou
algumas dificuldades. Cite uma delas.
7. Emergência também é um personagem da
história? Explique.
8. Escreva duas passagens do texto que
demonstram que a mulher falava alto.