17 novembro 2021

MEU FILHO, VOCÊ NÃO MERECE NADA

Eliane Brum



Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um iPad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.






http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html

HOMENS TRANSAM DA MANEIRA QUE COMEM

             Não sou de analisar um homem pelo jeito que fala, anda ou se porta entre amigos depois de duas doses de uísque. Para mim, a maneira mais acurada de saber quem é o cidadão, lá debaixo do verniz social, é observar como age durante uma refeição. É incrível como a maneira que alguém se comporta à mesa — quando está com fome e não consegue cumprir totalmente as etiquetas — é a mesma que se comporta na cama.

Passei um bom tempo achando essa minha mania bizarra e sem fundamento. Mas não é: comer e transar são, em muitos pontos, correlatos.  O alimento é diretamente ligado ao tipo de prazer/necessidade mais básica do ser humano, e a maneira que se lida com ele é a mesma que se lida com outros prazeres primais.

Os apressados, por exemplo: misturam, numa garfada só, a salada, o arroz, o feijão e o bife. Não sentem gosto de nada, só querem sentir-se saciados o quanto antes.

Nojentinhos cutucam todas as porções com se quisessem se certificar de que não encontrarão nada que empesteie seu paladar. Colocam ínfimas quantidades de comida no garfo e mastigam como se tivessem uma barata viva na boca. Ressentem-se de praticar essa atividade tão vil, não-civilizada, e assim, nivelarem-se ao resto da humanidade.

Gulosos leem cada linha do menu como se tivessem a sua frente o quinto segredo de Fátima. Tudo os atrai e, invariavelmente, pedem mais do que conseguem dar conta. Empaturram-se e largam tudo semi-comido.

Chatos, por mais que encham o saco do garçom averiguando cada ínfimo detalhe da receita, sempre reclamarão do que pediram. Sempre dirão que não é assim que se faz. SEMPRE colocarão defeito: só assim se sentem bem, importantes.

Gente inapetente faz parte do reino vegeto-sexual.

Quem gosta em drive-thru tem ejaculação precoce.

Comer em praça de alimentação sem PRECISAR é o equivalente a armar uma suruba: o que se quer é quantidade e agitação. Qualidade é o de menos.

Os melhores amantes cheiram tudo. Dão pequenas mordidas para perceber as texturas, sabores para, se for o caso, abocanhar o pedaço todo. Tomam o tempo que for necessário na escolha porque isso diminui a chance de arrependimento. São seletivos. Perguntam. Comem devagar o bastante para não queimar a boca e rápido o suficiente para não esfriar a comida. Não dão escândalo quando algo sai errado: vão até o fim, com parcimônia e discrição, e  nunca mais retornam. Quando gostam de verdade, não tem pudores em raspar o prato. Não dispensam a sobremesa e o café, porque aprenderam que pressa só leva à azia.

Restaurantes podem ser bem eróticos.



 

FICHA LIMPA DO AMOR

 

A partir de poucos dados você abre sua vida, achando que a chegada do amor dispensa qualquer cautela

 

 

 

Quando você vai comprar um carro usado, chama um mecânico de confiança para dar uma geral e ver se ele está em boas condições; se se trata de um apartamento, procura conversar com os porteiros, saber se existem problemas no prédio, se a paz reina entre os moradores, e quando vai contratar uma doméstica, além de exigir que tenha carteira de trabalho, ainda telefona aos últimos empregos para indagar detalhes, tipo se tem bom gênio, se é cuidadosa, honesta, asseada, e a última, clássica: E “por que ela saiu de sua casa?”. Perguntas, vamos admitir, da maior indiscrição, mas perfeitamente cabíveis; afinal, é alguém que você não conhece e com quem vai conviver.

Aí um dia você acha graça em um homem e deixa que ele não só entre em sua casa como se instale em sua cama e em seu coração. Não sabe bem de quem se trata – ele passou dois anos na Europa, fazendo um vago curso de cinema –, mas, pela maneira como se veste, pelos amigos que tem e as simpatias pelo mesmo partido político, só pode ser gente fina. A partir desses dados, abre para ele sua vida, achando que a chegada do amor é um tal acontecimento que dispensa qualquer cautela.

Quanto aos homens, a situação também é grave; se ela é gostosa, segundo o padrão particular de cada um, é o que basta – e depois reclamam.

Mas um belo dia cada um começa a se mostrar como é, e nesse ponto as mulheres, mais dissimuladas que os homens, oferecem uma surpresa por minuto.

Aquela que era tão doce, suave, bem-humorada e resolvida escondeu o que verdadeiramente é: dominadora, prepotente e ciumenta. No começo, ele acha graça e até gosta de ter uma mulher tão apaixonada que tem ciúmes. Mas um dia, numa festa, quando ele está conversando com um amigo e os dois sérios, ela imagina que estão falando de mulher; se estão às gargalhadas, devem estar falando de mulher também, claro. Em qualquer dos casos, as consequências podem ser dramáticas: se ela chega e diz “que engraçado, na hora em que eu chego o assunto acaba” ou “de que vocês estavam rindo?” – e eles estavam falando de mulher, claro –, o normal é ela ficar emburrada e voltar para casa sem dizer uma palavra. E quem aguenta uma mulher assim?

E ele? Por mais charmoso que seja, quando se conheceram estava sem emprego, dormindo na casa de um amigo – por uns tempos. Foi, aos poucos, se instalando naquele apartamento tão simpático, com aquela mulher que é um doce. Como trabalhar não é seu forte e cinema é uma profissão delicada, continuam assim por meses; afinal, estão se dando bem, ele vai ao supermercado, faz uma massinha quando ela chega do trabalho (ela, que é carente, finge que não percebe e esquece sempre um dinheirinho no cinzeiro). Afinal, ficar sem emprego acontece com qualquer um e, como é uma situação temporária, pra que mudar as coisas?

Por tudo isso e muito mais, antes de começar um namoro cada um dos interessados tem o direito, ou melhor, a obrigação de procurar saber como foi com os ex do outro, as qualidades e os defeitos – e sobretudo, como foi a separação –, para avaliar se vai valer a pena o investimento emocional.

Mas talvez seja melhor não; se isso acontecesse, acabariam os casais neste mundo.

O jeito é mesmo correr o risco.

 

 


 

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/37252-ficha-limpa-no-amor.shtml

 

ESTAR SOZINHA NÃO É SOLIDÃO

 

Quem tem medo de ficar só não se dá a chance de descobrir as delícias de um encontro consigo mesma

MARCIA TIBURI

 

         Fundei há anos o MDS, Movimento em Defesa da Solidão, com o objetivo de tornar o ‘estar só’ um direito humano. Eu que gosto tanto de ficar sozinha, imaginei que a minha demanda encontraria eco em um mundo onde estar junto é sempre possível, nem que seja virtualmente. O MDS tem um líder e um membro, eu mesma. Não aceita parceiros, mas respeita apoiadores e simpatizantes, que podem fundar seus movimentos desde que não queiram se reunir ao meu. Ajudam se mantendo longe. O MDS não presta serviços nem publica manifestos, não pode promover um Disk-Solidão, um telefonema estragaria a sua revolução. Seu lema é até bem antipático: “Me deixa!” Faço passeatas diárias com minha bandeira transparente: o MDS tem que ser invisível, pois quanto mais se mostra mais se contradiz. (Vou parar de falar antes que se espalhe a notícia, acabando com a luta pelo “estar só é bom demais”.)

         Adoro e preciso estar só, por isso escrevo. Não é um espírito de eremita que me anima, também gosto muito de estar junto da minha filha e de amigos e dos meus alunos. Fui casada por dez anos e agora tenho um namorado, que (por acaso?) mora a mais de dois mil quilômetros de distância. Eu o vejo uma vez por semana ou menos. Gostaria de ficar mais com ele, porque, entre suas tantas virtudes, está o respeito pelo meu “estar só”. Já fui muito feliz por não namorar ninguém e curtir o nada em volta, onde eu mesma me distribuía bem. Mas ainda estou mais para o Zaratustra de Nietzsche, que se retirava para as montanhas para isolar-se e voltava para contar as novidades. “Estar junto” sem temperar com “estar só” é tão ruim quanto “estar só” sem saber o que é “estar junto”.

         Ah, gosto das pessoas, mas para mim basta saber delas, amá-las de longe, encontrar raramente. Tenho amigos que amo, gosto de escrever para eles, de ligar às vezes. Saio pouco, só compareço a festas obrigatórias (aquelas às quais, se eu não for, meus amigos vão ficar chateados), detesto ir (e não vou) à casa das pessoas, prefiro que venham à minha e convido poucos. (Ah, quer me ver em pânico? Me convide para ir a uma danceteria.) Quem inventou que o ser humano é um animal gregário estava certo, mas foi parcial. Somos o animal que também se desagrega, se desgarra, que deseja desincumbir-se do outro, quieto num canto, sem conversa. Para uns a solidão é o incômodo de estar só. Prefiro pensar na festa de estar só. A solidão é um descanso necessário e, bem aproveitada, um belo encontro. E com licença que hoje é sábado e eu vou beber uma taça de vinho comigo e entrar na madrugada escrevendo.




 

FAZER 30 ANOS

 

Affonso Romano de Sant'Anna


            Quatro pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.

            Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.

            Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

            Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

            Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.

            Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.

            Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.

            Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.

            Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.

            Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.

            Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.




DESCALÇA

 Levante-se, e levante-se novamente até que as ovelhas se tornem leões.”

Quando é que a gente sabe que está na hora de “deixar partir”, hein? De deixar pra lá, deixar estar, aceitar um estado de coisas, chorar o que tiver pra chorar e começar do zero de novo?

Às vezes a gente escolhe é a atitude errada. E acha que tudo depende é da nossa vontade de fazer dar certo, de brigar pra dar certo, de batalhar... Mas às vezes ficar insistindo e batendo naquela mesma velha tecla só faz é roubar tempo e energia da gente. Só faz é impedir que a gente veja e trabalhe pelo surgimento de um novo caminho, de novas descobertas, de novas escolhas...Numa busca, procurar encontrar não é o suficiente. É preciso procurar encontrar NO LUGAR CERTO. Quem busca prata onde só há lataria, nunca conseguirá encontrar outra coisa além de frustração.

E isso nem é pessimismo. É sobriedade.  E é dentro da gente mesmo que às vezes a gente precisa reunir forças pra permitir que o mundo siga... porque ele já seguiria. Por ele mesmo. Ainda que sem a gente.

É que às vezes é bem difícil manter a energia positiva. A gente se indigna e amaldiçoa o universo e perde um pouco aquela perspectiva maior de que nem sempre coincidem, com os nossos próprios desígnios, os desígnios de Deus. E aí você até pode pensar “lá vem a Elenita com esse papo de crente de novo”, mas... Quantas e quantas vezes na sua vida você não achava que perdia e Deus mandava o maior de todos os presentes pra você?

É que às vezes é bem difícil continuar acreditando quando a gente perde. Mas é por isso que é justamente nesses momentos que a nossa fé precisa ser maior.

Dói. E vai doer um pouquinho ainda. Mas a gente recomeça.

E isso nem é pessimismo. É sobriedade. É vontade de aceitar que a gente não tem controle sobre tudo (e às vezes tem controle sobre nada), mas nem por isso vai perder a fé que nos mantém acreditando.

Se eu não tivesse levado todas as quedas que já levei, não seria a mulher que sou hoje. E eu gosto da mulher que sou hoje. 

Que essas quedas que eu tomo agora me constituam numa mulher melhor no futuro. É este o meu desejo (Amém).

 

Algumas pessoas vão dizer que é fraqueza. Que eu deveria insistir, e processar, e tentar levar para o judiciário a questão em que a banca foi absurdamente equivocada... “O salário é muito bom”. Mas o que eu faço com os sinais que tenho recebido? A maioria me diz que meu caminho não é lá. É o amigo que me deixa na mão, o outro amigo que me trai, a batida do carro no instante que decido enviar o documento, o problema com o banco, a grosseria que deveria ser gentileza porque indicada pelo cuidado distante... Quando é que a gente sabe que já deu? Quando é que a gente sabe que está na hora de parar? E prosseguir?

Acho que a gente nunca sabe. Mas então me lembro daquele trechinho no livro...

“Tudo é um entre um milhão de caminhos. Portanto, você deve sempre manter em mente que um caminho não é mais do que um caminho; se achar que não deve segui-lo, não deve permanecer nele, sob nenhuma circunstância. Qualquer caminho não passa de um caminho, e não há afronta, para si nem para os outros, em largá-lo, se é isso o que seu coração lhe manda fazer. Mas sua decisão de continuar no caminho ou largá-lo deve ser isenta de medo ou de ambição. Olhe bem para cada caminho com rigor e cautela. Experimente-o tantas vezes quanto achar necessário. Depois, pergunte-se, e só a si, uma coisa: esse caminho tem coração? Se tiver, o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração e o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece”.

Acho que é isso... Acho que é isso. Parti.




02 novembro 2021

NEOLOGISMO I

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MAP (4) - OS ARGONAUTAS