18 setembro 2022

AVALIAÇÃO BIMESTRAL 3 - 9º ANO 2022

QUESTÃO 01

Texto para a questão a seguir.

            No livro “1984”, de George Orwell, é retratado um futuro distópico em que um Estado totalitário controla e manipula toda forma de registro histórico e contemporâneo, a fim de moldar a opinião pública a favor dos governantes. Nesse sentido, a narrativa foca na trajetória de Winston, um funcionário do contraditório Ministério da Verdade que diariamente analisa e altera notícias e conteúdos midiáticos para favorecer a imagem do Partido e formar a população através de tal ótica. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Orwell pode ser relacionada ao mundo cibernético do século XXI: gradativamente, os algoritmos e sistemas de inteligência artificial corroboram para a restrição de informações disponíveis e para a influência comportamental do público, preso em uma grande bolha sociocultural. [...]

            Por conseguinte, presencia-se um forte poder de influência desses algoritmos no comportamento da coletividade cibernética: ao observar somente o que lhe interessa e o que foi escolhido para ele, o indivíduo tende a continuar consumindo as mesmas coisas e fechar os olhos para a diversidade de opções disponíveis. Em um episódio da série televisiva Black Mirror, por exemplo, um aplicativo pareava pessoas para relacionamentos com base em estatísticas e restringia as possibilidades para apenas as que a máquina indicava – tornando o usuário passivo na escolha. Paralelamente, esse é o objetivo da indústria cultural para os pensadores da Escola de Frankfurt: produzir conteúdos a partir do padrão de gosto do público, para direcioná-lo, torná-lo homogêneo e, logo, facilmente atingível. [...]

            Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual. Para a conscientização da população brasileira a respeito do problema, urge que o Ministério de Educação e Cultura (MEC) crie, por meio de verbas governamentais, campanhas publicitárias nas redes sociais que detalhem o funcionamento dos algoritmos inteligentes nessas ferramentas e advirtam os internautas do perigo da alienação, sugerindo ao interlocutor criar o hábito de buscar informações de fontes variadas e manter em mente o filtro a que ele é submetido. Somente assim será possível combater a passividade de muitos dos que utilizam a internet no país e, ademais, estourar a bolha que, da mesma forma que o Ministério da Verdade construiu em Winston de “1984”, as novas tecnologias estão construindo nos cidadãos do século XXI. 

Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/03/19/enem-2018-leia-redacoes-nota-mil.ghtml.

 

O texto anterior é uma redação produzida com o tema “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Como toda dissertação, o autor determinou um ponto de vista e construiu o texto em defesa de seus argumentos. No parágrafo introdutório, o redator apresentou as possíveis consequências da manipulação de dados. Tais efeitos seriam

a) a ausência de informação e o controle comportamental.

b) a precariedade de informação e o controle total de comportamento.

c) a restrição informacional e a influência no comportamento da população.

d) a fluidez nas informações e o raciocínio limitado.

e) o acesso à informação e o desenvolvimento do senso crítico.

 

 

QUESTÃO 02

Releia o trecho:

“Nesse sentido, a narrativa foca na trajetória de Winston, um funcionário do contraditório Ministério da Verdade que diariamente analisa e altera notícias e conteúdos midiáticos para favorecer a imagem do Partido e formar a população através de tal ótica.”

A partir da flexão do adjetivo, em destaque, pode-se entender que

a) quando o termo caracteriza substantivos com gêneros diferentes, o adjetivo deve ser flexionado no masculino e no plural.

b) há informalidade, uma vez que o adjetivo deveria concordar com o substantivo “notícias”.

c) o adjetivo caracteriza um sujeito oculto na oração, por isso é flexionado no masculino.

d) não se trata de um adjetivo de fato, já que o termo tem como origem a palavra mídia.

e) o correto seria mencionar tanto a expressão “midiáticas” quanto “midiáticos” para caracterizar “notícias” e “conteúdos”, respectivamente.

 

QUESTÃO 03

Releia o trecho:

“Por conseguinte, presencia-se um forte poder de influência desses algoritmos no comportamento da coletividade cibernética: ao observar somente o que lhe interessa e o que foi escolhido para ele, o indivíduo tende a continuar consumindo as mesmas coisas e fechar os olhos para a diversidade de opções disponíveis.”

Em relação à regência do verbo “presenciar”, é correto afirmar que ele é

a) transitivo direto e seu complemento seria a expressão “no comportamento”.

b) intransitivo, portanto, não possui complemento verbal.

c) um verbo de ligação e apresenta apenas um predicativo do sujeito.

d) transitivo indireto, já que seu complemento é preposicionado.

e) transitivo direto e seu complemento seria a expressão “um forte poder de influência”.

 

QUESTÃO 04

Uma das competências exigidas nas redações feitas para o Enem é a proposta de intervenção. Trata-se do momento em que o redator demonstra a capacidade de refletir sobre determinados problemas e, a partir deles, propor soluções. Os vestibulandos, para construir a intervenção, idealizam: o agente interventor, o instrumento para modificar o problema, a ação do agente e o objetivo da intervenção. Na proposta do autor, no último parágrafo do texto, o instrumento que viabiliza a intervenção no problema indicado é

a) o Ministério de Educação e Cultura.

b) o emprego de verbas governamentais.

c) a busca pela informação.

d) o estouro da “bolha social”.

e) a construção de novos cidadãos do século XXI.

 

QUESTÃO 05

Releia o trecho:

“Somente assim será possível combater a passividade de muitos dos que utilizam a internet no país e, ademais, estourar a bolha que, da mesma forma que o Ministério da Verdade construiu em Winston de “1984”, as novas tecnologias estão construindo nos cidadãos do século XXI.”

Ao trocar o verbo “combater” pelo substantivo “combate”, é correto afirmar que

a) não haveria necessidade do acento grave, já que o verbo não é regido por crase.

b) o acento grave seria facultativo, pois pode-se seguir a regência do verbo ou do nome.

c) a crase passaria a ser obrigatória, em razão da regência do substantivo.

d) não é possível fazer a troca do verbo pelo substantivo, tendo em vista que a frase ficaria informal.

e) não se usaria a crase, pois haveria dois objetos indiretos.

 

 

QUESTÃO 06

Leia Texto para a questão a seguir.

 

“Ainda há histórias para contar” no universo Breaking Bad, diz Vince Gilligan 

Vince Gilligan, o criador de Breaking Bad e Better Call Saul, acha que esse universo ficcional ainda não se esgotou – mas deve passar pelo menos algum tempo afastado dele mesmo assim.

            Em conversa com o Deadline, o roteirista contou que está trabalhando em um projeto "totalmente diferente do que fez antes", mas não descartou voltar a Breaking Bad no futuro.

            “Ainda há histórias para contar [neste universo], mas quando digo que estou fazendo algo diferente, não é para provar algo para o mundo. É para provar algo para mim”, esclareceu ele.

            Colega de Gilligan em Better Call Saul, Peter Gould deu resposta semelhante: “Eu amo esses personagens e este mundo. Talvez um dia possamos voltar – mas, pessoalmente, quero tirar uma folga disso e tentar algo diferente”.

            Além do derivado focado no personagem de Bob Odenkirk, Breaking Bad já originou também o filme El Camino, que acompanha a jornada de Jesse Pinkman (Aaron Paul) depois da série original.

            A sexta e última temporada de Better Call Saul contará com 13 episódios divididos em duas partes: os sete primeiros começam a ser exibidos em 19 de abril, e os seis últimos em 11 de julho. 

Disponível em: https://www.omelete.com.br/breaking-bad/vince-gilligan-mais-historias.

 

O texto apresenta dois objetivos claros, um presente na primeira parte da notícia e outro, ao final. As intenções textuais são

a) detalhar a saída do criador da série e explicar os motivos que o levaram a essa decisão.

b) demonstrar que a série foi renovada e que haverá mudanças no elenco.

c) chamar a atenção para o esgotamento dos criadores da série e alertar sobre o cansaço mental.

d) revelar o afastamento dos criadores da série e divulgar a última temporada.

e) cativar o público ao informar o fim da série e demonstrar apoio à saída de seus criadores.

 

 

QUESTÃO 07

Releia o título da notícia:

“‘Ainda histórias para contar’ no universo Breaking Bad, diz Vince Gilligan”

Em relação ao núcleo oracional destacado no trecho anterior, pode-se afirmar que

a) o sujeito da oração é simples.

b) houve indeterminação do agente verbal.

c) existem dois núcleos na composição do sujeito.

d) no caso em questão, o sujeito é inexistente.

e) ocorreu uma elipse, ou seja, apagamento do sujeito.

 

 

QUESTÃO 08

Releia o título da notícia:

“‘Ainda histórias para contar’ no universo Breaking Bad, diz Vince Gilligan”

Caso houvesse a necessidade de alterar o verbo em destaque por um correspondente, mantendo a formalidade do texto, o indicado seria:

a) existem

b) ocorrem

c) acontecem

d) tem

e) aparecem

 

QUESTÃO 09

A placa de aviso reproduzida a seguir apresenta um desvio de concordância nominal.

 

A placa não está de acordo com a norma-padrão, pois

a) não deveria ser utilizado um artigo antes do substantivo.

b) o adjetivo “necessário” deveria ter sido usado no feminino.

c) o substantivo “necessário” não deveria sofrer flexão de gênero.

d) o adjetivo “necessário” pertence ao gênero neutro, e, portanto, deveria estar no feminino.

e) “necessário” é verbo e sofre flexão em número e pessoa, mas não em gênero.

 

QUESTÃO 10

Leia o fragmento do texto a seguir. Nele, discute-se a produção de lixo no Brasil. 

De todo o resíduo produzido em 2018, 72,7 milhões de toneladas______ coletadas, uma alta de 1,66% em comparação com 2017, mas 6,3 milhões de toneladas de resíduos nem sequer foram recolhidas junto aos locais de geração. Mesmo com uma melhora na cobertura da coleta, ainda há um contingente considerável de pessoas que não são alcançadas por serviços de coleta: um em cada 12 brasileiros não _______ coleta regular de lixo na porta de casa. 

Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2019/11/epoca-negocios-producao-de-lixo-no-brasil-cresce-mais-que-capacidade-para-lidar-com-residuos.html.

 

Para preencher adequadamente as lacunas verbais no trecho anterior, os verbos mais adequados, seguindo as regras de concordância verbal, são:

a) "foi" e "tem", respectivamente.

b) "foram" e "têm", respectivamente.

c) "foram" e "tem", respectivamente.

d) "foi" e "têm", respectivamente.

e) "tem" e "foi", respectivamente. 

AVALIAÇÃO BIMESTRAL 3 - 7º ANO 2022

QUESTÃO 01

Imagem para a questão a seguir.

Glossário

Contraventor: aquele que infringe leis ou regulamentos; infrator, transgressor.

 

As tirinhas baseiam a sua construção na quebra de expectativa que conduz ao riso e à reflexão. Uma quebra de expectativa presente na tirinha consiste no fato de

a) o animal ser capaz de se expressar oralmente.

b) a tirinha reproduzir fielmente a linguagem jornalística.

c) o tom de certeza comum ao jornal ser desconstruído.

d) o leitor ter de preencher o entendimento da tirinha.

 

QUESTÃO 02

De forma simplista, define-se o sujeito como aquele que pratica a ação. Na tirinha, a oração “Supostos contraventores teriam sido detidos por prováveis suspeitas” desmente essa definição, pois

a) constitui uma situação em que a oração não tem sujeito.

b) houve concordância entre a locução verbal e o sujeito.

c) ocorre indeterminação do agente da ação de deter.

d) o sujeito se coloca como paciente da ação de ser detido.

 

QUESTÃO 03

                            

A língua portuguesa não contempla o uso da locução prepositiva “a nível de”. Sem prejuízo de sentido, ela poderia ser substituída por:

a) por causa de.

b) apesar de.

c) de acordo com.

d) a respeito de.

 

QUESTÃO 04

No último quadrinho, as palavras “para” e “de” cumprem o mesmo propósito na organização textual, porque

a) conectam outras palavras.

b) completam o sentido do enunciado.

c) substituem palavras já mencionadas.

d) expressam circunstâncias ao verbo.

 

 

QUESTÃO 05

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino

que carregava água na peneira.

 

A mãe disse que carregar água na peneira

era o mesmo que roubar um vento e

sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

 

A mãe disse que era o mesmo

que catar espinhos na água.

O mesmo que criar peixes no bolso.

 

O menino era ligado em despropósitos.

Quis montar os alicerces

de uma casa sobre orvalhos.

 

A mãe reparou que o menino

gostava mais do vazio, do que do cheio.

Falava que vazios são maiores e até infinitos.

 

Com o tempo descobriu que

escrever seria o mesmo

que carregar água na peneira.

 

No escrever o menino viu

que era capaz de ser noviça,

monge ou mendigo ao mesmo tempo.

 

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.

Até fez uma pedra dar flor.

 

A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!

Você vai carregar água na peneira a vida toda.

 

Você vai encher os vazios

com as suas peraltagens,

e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos! 

(BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. p. 114.)

 

No poema de Manoel de Barros, mais especificamente no verso “até fez uma pedra dar flor” (v. 24), a relação do poeta com a representação da realidade pode ser entendida como 

a) cópia.  

b) negação.   

c) releitura. 

d) aceitação.

 

 

QUESTÃO 06

Quando estudamos os pronomes pessoais, aprendemos que os retos, basicamente, funcionam como sujeito e que os oblíquos não atuam como sujeito. A respeito disso, o pronome “ele”, nos versos transcritos acima,

a) desrespeita as normas gramaticais, pois o pronome reto está deslocado de sua função.

b) demonstra inovação linguística, pois o pronome reto deixa de atuar como sujeito.

c) é analisado como oblíquo tônico, pois não atua como sujeito e é antecedido por preposição.

d) obedece às normas gramaticais, pois permanece pronome reto mesmo não sendo sujeito.

 

 

QUESTÃO 07

Caso o verso “Tenho um livro sobre águas e meninos.” fosse escrito com a presença do adjetivo “misterioso” na caracterização dos substantivos, obteríamos, segundo a norma-padrão, a seguinte redação:

a) Tenho um livro sobre águas e meninos misteriosos.

b) Tenho um livro sobre misteriosos águas e meninos.

c) Tenho um livro sobre águas e meninos misteriosas.

d) Tenho um livro sobre águas misteriosas e meninos.

 

QUESTÃO 08

O predicado nominal contribui, na organização textual, para a caracterização do sujeito. Um exemplo desse tipo de recurso está presente em:

a) “sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.” (v. 6)

b) “Quis montar os alicerces” (v. 11)

c) “que era capaz de ser noviça,” (v. 20)

d) “A mãe reparava o menino com ternura.” (v. 25)

 

QUESTÃO 09

Ao longo dos estudos da sintaxe, veremos que a preposição exerce papel relevante na introdução de diversos termos da oração. O termo introduzido por uma preposição com valor de causa está sublinhado em:

a) “Gostei mais de um menino” (v. 2)

b) “O menino era ligado em despropósitos.” (v. 10)

c) “A mãe reparava o menino com ternura.” (v. 25)

d) “e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!” (v. 30)

 

QUESTÃO 10

A regra que exige a acentuação do substantivo “despropósitos” repete-se em

a) possível.

b) tímpano.

c) cafézinho.

d) ambíguo.

06 julho 2022

POR QUE O SOL ANDA TÃO DEVAGAR?

 

Contam os velhos sábios Karajá que, no início dos tempos, não havia sol, lua ou estrelas para trazer claridade. Tudo era muito escuro. Por causa disso, os Karajá precisavam manter um pequeno braseiro aceso dentro de casa. Mas isso era muito trabalhoso, pois exigia que os homens saíssem para a mata atrás de lenha. Como tudo era escuro e frio, todo mundo sentia uma grande indisposição para ir até lá. Além da preguiça, eles também sentiam muito medo de permanecerem fora de sua hetó, pois os perigos eram muito grandes.

Nesta época, dizem os velhos, a preguiça tomava de todo mundo, mesmo do grande herói do povo Karajá. Este herói, de nome Cananxiuê, morava na casa do pai de sua esposa, como é o costume desse povo. Por isso, sempre ouvia o velho homem lhe dizer:

- Oh, meu genro. você precisa encontrar a luz e trazê-la para todos nós. Você é um herói e como herói tem que resolver este problema que fará muito bem para os Karajá.

- Tá bom meu sogro, um dia eu vou!

Mas o herói não queria saber de levantar-se de sua rede. Como todos os homens do lugar, preferia ficar ali a enfrentar a noite escura e fria da mata. Nem lenha ele queria ir buscar, deixando a tarefa para sua esposa.

Um dia o velho sogro estava muito irritado com Cananxiuê e foi ele mesmo buscar lenha na mata. Como já estava bastante idoso, não enxergava mais direito, e acabou caindo e se machucando todo. Lá do mato, socorrido por outras pessoas, o homem velho berrou com o genro:

- Ô Cananxiuê, você tem que dar um jeito nessa escuridão! Já não aguento mais essa vida!

Não adiantou nada. O herói preguiçoso continuou deitado, cheio de preguiça. Foi então que os animais e a esposa de Cananxiuê se juntaram ao sogro, e começaram a reclamar.

Irritado com tanta gente pegando no seu pé, Cananxiuê decidiu sair pelo mundo à procura da luz do sol. Como estava irritado, decidiu que iria sozinho e nada levaria consigo.

Vendo que o herói nada levava, todo mundo na aldeia ficou desconfiado. Todos achavam que, andando desse jeito, sem levar arma alguma, aquele moço não conseguiria trazer o sol consigo.

Até os animais da floresta começaram a dizer a Cananxiuê:

- Como um homem sozinho pode vencer Theuú? O sol é grande e forte e mãos vazias não irão aguentá-lo.

- Randô é esperta e cheia de fases. Como poderá vencê-la?

- Thainá é valente e ligeira. Ela pisca e se esconde. Como irá encontrá-la?

Cananxiuê nada respondia. Continuava quieto apenas fazendo planos em seu pensamento:

- Se não posso flechar o sol, laçar a lua, amarrar as estrelas, para que usar armas? A minha arma tem que ser a esperteza.

E assim continuou sua jornada. Pelo caminho ia perguntando para todos que encontrava qual seria o paradeiro do sol, da lua e das estrelas. Ninguém sabia direito, até que num dia encontrou alguém que sabia onde eles viviam.

- O sol, a lua e as estrelas estão lá em cima. Eles estão muito bem guardados pelo Ranranresá, o urubu-rei.

- Então, se o urubu-rei que é dono do sol, da lua e das estrelas, é ele que tenho que vencer!

E assim foi, dizem os velhos Karajás.

Canaxiuê bolou um plano para vencer o Ranranserá. Ao chegar num lugar bonito, onde havia uma praia de rio, lugar largo e que desse chance para uma fuga, resolveu que ali seria o espaço ideal para travar sua batalha com o urubu-rei.

Ele deitou-se no chão e avisou a todos os animais que o seguiam: morri!

Para testar se ele estava mesmo morto, as moscas vieram e andaram por cima do corpo estendido no chão. Fizeram barulho perto do ouvido do herói morto e não conseguiram que ele movesse um único músculo. Disseram então:

- Ele está morto. Ele morreu mesmo.

Em seguida veio um grupo de urubus e voaram em círculo sobre o cadáver. Desconfiados, não quiseram arriscar descer onde ele estava. Tempos depois, alguns vieram e bicaram a barriga de Cananxiuê, mas ele não se mexeu. Então disseram entre si:

- Ele está morto. Pode avisar o rei.

Ranranserá sobrevoou o herói. Estava desconfiado, mas, acreditando nas palavras de seus conselheiros, pousou bem no peito do cadáver que, rápido como um raio, agarrou as pernas do urubu-rei e tornou-o seu prisioneiro.

Ao notar que o herói havia conseguido aprisionar o dono do sol, os animais começaram a caçoar do pássaro:

- Este urubu não é de nada. Deixou aprisionar-se de uma forma tão infantil.

- Não pode ser rei alguém que se torna presa de um Karajá!

- Como pode ser dono do sol, da lua e das estrelas alguém tão fácil de agarrar.

Os animais sabiam que agindo daquela forma iriam provocar a ira do urubu-rei e que acabariam conseguindo dele o que queriam.

Passado algum tempo, e já não mais aguentando tamanha gozação, Ranranresá chamou Canaxiuê e lhe propôs satisfazer qualquer vontade do moço por sua liberdade.

- Liberte-me e eu lhe darei o que pedir.

- Irá me dar qualquer coisa?

- Tudo o que quiser, desde que me liberte.

- Você me dá sua palavra, urubu-rei?

- Dou minha palavra.

O herói libertou o urubu-rei, que imediatamente tomou o rumo do céu. Aliviado por estar livre das correntes, a ave voltou ao jovem:

- O que você quer em troca de minha liberdade?

- Quero a luz das estrelas!

O Urubu sumiu, voltando em seguida com a luz das estrelas. Isto, no entanto, não agradou a todos. Queriam uma luz mais forte que a das estrelas.

- Quero que me traga a luz da lua!

Urubu-rei partiu e regressou trazendo apenas a luz da lua consigo. No entanto, essa luz ainda não era suficiente.

- Quero Theuú, o sol. Somente ele tem a luz e o calor que os Karajás precisam.

Urubu-rei foi e voltou com o sol. O sol brilhava forte, e quase queimou tudo em seu caminho. Mas, o Urubu-rei estava muito chateado com os Karajás, e pediu ao sol que passasse bem rápido, sem dar tempo para que ninguém o aproveitasse. E mais uma vez os Karajás foram reclamar com Cananxiuê.

O herói tentou pedir para que o Urubu-rei falasse com o sol. No entanto, o bicho estava com tanta raiva de Cananxiuê que disse a ele que ele mesmo falasse com o sol.

Canaxiuê bolou então um plano para conseguir fazer com que o sol passasse mais devagar. Ficou esperando no topo de uma grande palmeira. Quando o sol estava bem perto da árvore saltou para cima do sol e agarrou sua cabeleira. Ela estava muito quente! Por isso Canaxiuê teve de escorregar até seu pescoço, que ainda estava muito quente, fazendo com que ele escorregasse para sua barriga, e depois para sua cintura, até que chegasse em sua barriga da perna, onde o calor era suportável.

Quando chegou na batata da perna do sol, Cananxiuê se agarrou bem firme, fazendo com que o sol passasse bem devagar, e que os Karajás conseguissem realizar todas as suas tarefas diárias: caçar, pescar, pegar lenha na mata, trançar suas redes, comer… Sem precisar correr com medo do fim do dia.

E quando o sol vai embora e a humanidade fica entregue à noite, os Karajás recebem com alegria a luz de Randô, e podem contar com Thainá mesmo nas noites mais escuras.

 

Glossário

Karajá: Povo que habita o Estado do Tocantins. Sua família linguística pertence ao grande tronco Macro-Jê e incorpora outros grupos indígenas como os Javaé e Xambioá.

Cananxiuê - Herói cultural Karajá. Nesta história, o herói é quem tira o seu povo da escuridão da noite.

Theuú – Sol

Randô – Lua

Thainá - Estrela vespertina

Ranranresá - Urubu-rei. Ave grande, formosa e rara. É um urubu de penas cor do café com leite, arminho no pescoço e pupila branca como se fosse de porcelana. Seu nome foi dado por causa da coroa amarela e vermelha que traz na cabeça como um cristal.

 

Conto adaptado do livro MUNDURUKU, Daniel. Contos indígenas brasileiros, São Paulo: Global, 2005.








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04 julho 2022

ELES NÃO USAM BLACK-TIE

 ELES NÃO USAM BLACK-TIE, DE GIANFRANCESCO GUARNIERI

 

Primeira peça de Gianfrancesco Guarnieri, Eles não usam black-tie, de 1958, foi encenada pela primeira vez quando o movimento Cinema Novo começava a surgir [...]. No lugar de cenários pomposos e figurinos luxuosos, ficaram apenas os elementos de cena indispensáveis. Ao invés de personagens ricos e nobres, operários e moradores do morro tomaram o palco. Ali, em plenos anos 50, negros eram cidadãos comuns. Pela primeira vez, os conflitos da realidade brasileira ganhavam espaço na caixa cênica.

Eles não usam black-tie situa-se [...] tem como tema a greve, e [...] como pano de fundo um debate sobre as grandes verdades eternas, reflexões universais sobre a frágil condição humana, [...]. É a história de um choque entre pai e filho com posições ideológicas e morais completamente opostas e divergentes [...].

O pai, Otávio, é operário de carreira, um sonhador, um idealista, leitor de autores socialistas e, ao mesmo tempo um revolucionário por convicção e consciente de suas lutas. Forte e corajoso entre os seus companheiros, experimentou várias lideranças, algumas prisões, com isso ganha destaque entre os seus transformando-se num dos cabeças do movimento grevista.

O filho, Tião, [...] é criado [...] longe do morro, com os padrinhos, sem conviver com esse mundo de luta e reivindicação da classe operária. Hoje adulto e morando no morro com os pais, vive um dos maiores conflitos de sua vida. Em primeiro lugar não quer aderir à greve [...]. Em segundo lugar pretende se casar com Maria, moça simples, porém determinada e leal ao seu povo, e está esperando um filho seu. Desta forma, Tião está mais preocupado com o seu futuro do que com a luta de seus companheiros [...]. Para Tião, greve é algo utópico. Ele [...] precisa resolver seus problemas de imediato, ou seja, se casar.

Eles não usam black-tie é um texto político e social, sempre atual no qual Gianfracesco Guarnieri criou de um lado, personagens marcantes e populares [...] que nos revelam um mundo alegre, descontraído e aparentemente feliz. Já por outro lado a peça se apresenta forte e densa revelando de maneira real os conflitos que atormentam personagens [...]. Assim, se por um lado mostra um olhar profundo dentro da sociedade brasileira, por outro esse olhar vem embalado por um valor poético materializado na visão romântica do mundo de seus personagens.

Embora, na convencional teoria de dramaturgia teatral não se enquadre essa abordagem, o drama social é de natureza épica e por isso mesmo uma contradição em si mesma. Aqui, novamente Guarnieri quebrou também outra regra essencial, presente nos manuais do “bom drama”: ao invés de trazer personagens “superiores” como protagonistas, ele se utilizou de gente humilde, trabalhadores comuns, para conduzir sua história. [...]

A temática não é política, muito menos panfletária. O que discorre são relações de amor, solidariedade e esperança diante dos percalços de uma vida miserável. Assim, a peça alia temas como greve e vida operária com preocupações e reflexões universais do ser humano. [...]

Eles não usam black-tie é um marco do teatro de temática social. Foi com a encenação de Eles não usam black-tie, que se iniciou uma produção sistemática e crítica de textos dispostos a representar as classes subalternas, com ênfase para a representação do proletariado. Nesse sentido, a peça de Guarnieri insere-se num quadro que se ampliou a partir da década de 1950, quando surgiu uma dramaturgia com preocupações ligadas à representação de uma camada específica da sociedade brasileira e, para além disso, em busca da construção de uma identidade nacional pautada em variedades culturais internas.



Adaptado de: https://www.passeiweb.com/eles_nao_usam_black_tie/




FARSA DE INÊS PEREIRA - GIL VICENTE (TRECHO EM PORTUGUÊS BRASILEIRO)

Sai a mãe. Fica Inês Pereira e o Escudeiro. A jovem começa a cuidar da casa, cantando uma cantiga:

Inês:             Vida de Inês é difícil,

É difícil ser Inês...

Mas agora, casada...

O Escudeiro, vendo Inês Pereira, fica irado... E grita:

Escudeiro:   Você cantou, Senhora Inês Pereira?

Não acredito no que você fez!

Será a primeira e última vez!

Se eu ouvir outra vez você cantar,

Não conseguirá nem mais assoviar...

Inês:             Se assim o quer, meu marido,

Farei o que me é por você pedido,

E demos o caso por esquecido.

Escudeiro:   Acho bom que obedeça.

Sempre assim deve ser que aconteça.

Inês:             Por que ficou bravo, marido?

Escudeiro:   E precisa de motivo?

Digo só uma coisa:

Assim deve ser minha esposa...

Que não me responda, eu digo

Quando o marido fala,

A mulher se cala!

Você não vai falar

Com mulher ou homem que seja;

Nem irá à igreja

Eu já preguei as janelas,

Não porá seu rosto fora delas;

Vai ficar trancada, isolada,

E nem um pio vai reclamar!

Inês:             Ó, Deus? Quantos pecados foram os meus?

Por que razão me mantém nessa prisão?

Escudeiro:   Não há outro jeito

Mantê-la, sem defeito

É você, mulher, a razão...

Que mal existe guardar meu ouro?

Você é meu tesouro!

Em casa não vai mandar

Por nada, nenhum pouco;

Se eu disser: “Isto é um porco”

Com a cabeça baixa vai ter que confirmar.

Só eu posso ordenar!

Não vai você chorar!

Lá na guerra da África,

Poderei eu me tornar cavaleiro.

Falando para o criado:

Escudeiro:    Você deve permanecer aqui, assim;

Vai vigiar por mim

O que faz sua senhora:

Não permita que fique para fora.

Falando para Inês:

Escudeiro:    Você, trabalhe, fica por aqui.




MAP (4) - OS ARGONAUTAS