03 julho 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A VISÃO DAS PLANTAS (2)

 


Questão 1

O discurso indireto livre ocorre quando a voz de um dos personagens se mescla à voz do narrador.

Nos trechos abaixo, retirados de A visão das plantas, a única opção em que não se observa o uso do discurso indireto livre é:

a) “Farta da criação, a gata desceu a ladeira e Celestino nunca mais a viu. Ter-se-ia deitado ao ribeiro, com o fim de se matar?”.

b) “Comovia-se ao observar o arranjo das pétalas picotadas – por um anjo? – dos cravos”.

c) “A penumbra quase falava: respira, filho, chegaste”.

d) “Um vestígio de alfazema seca perfumava o mofo. Ou seria cera?”.

e) “As crianças saídas do colégio espreitavam os suspensórios de enxada às costas. Seria aquele o diabo?”.

 

- Texto para a questão 2 -

[...] quero os meus cravos ao vento, faladores, falam todo o dia uns com os outros, como a bicheza fala metida nos nós da madeira, contam histórias uns aos outros que só eu ouço, grandes tristezas, bagatelas, e depois cansam-se, doem-lhes as costas, é quando eu os ajudo, lhes acomodo a cama, digo que vai alta a tarde, que está quase aí a nossa noite, queridos cravos, falam como matracas e caem como meninos, por isso os quero tanto, são mais afoitos que as crianças, cansam-se, os cravos do capitão Celestino, bem-aventurados, só querem é rir e comer e beijar borboletas.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 25.

 

Questão 2

Nesse fragmento de A visão das plantas, um recurso expressivo presente é a:

a) antítese.

b) hipérbole.

c) alegoria.

d) prosopopeia.

e) sinestesia.

 

- Texto para a questão 3 -

Matei dez mulheres, a uma delas cortei os pés. Matei um corvo, para o comer. Raposas, ratazanas. Matei centenas de homens com as minhas mãos e elas não me caíram. Matei os sonhos de um milhar de outros. Queimei cabanas. Um dia, mordi o pescoço dum homem até lhe arrancar as veias para fora. Espetei uma lança no peito de um amigo. Roubei dinheiro. Rebentei o crânio de um albino contra uma rocha. E a seguir esquartejei-o. À hora de adormecer, a mão de minha mãe entrava por mim dentro com a xícara de leite morno, muito doce, e levava-me na mão do sono.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 23-24.

 

Questão 3

O trecho permite afirmar que, no contexto mais amplo de A visão das plantas, os atos passados de Celestino são:

a) confessados a padre Alfredo como meio para obter a redenção espiritual.

b) inventados pelos adultos da vila, que buscavam razões para expulsá-lo.

c) narrados aos vizinhos, como estratégia para mantê-los afastados do jardim.

d) registrados por Manuel, que busca preservar a memória coletiva do século XIX.

e) contados às crianças, não sendo acompanhados de sinais visíveis de remorso.

 

Questão 4

Leia o texto para responder ao que se pede.

As plantas viam-no como um olho de vidro vê a passagem das nuvens. Elas e o seu amigo eram seiva da mesma seiva, da mesma carne sem dó nem piedade. Atrás das costelas, no lugar do coração, o corsário tinha uma planta.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 37.

 

a) No livro A visão das plantas, é estabelecida uma identificação entre o capitão Celestino e as plantas de seu jardim. Em que se baseia essa identificação?

b) De acordo com o dicionário Michaelis, o substantivo amigo pode significar “que é afeiçoado ou entusiasta de; aficionado, admirador, amante”. Considerando o plano geral do romance, é possível afirmar que as plantas viam Celestino como um amigo? Justifique sua resposta.

 

- Textos para a questão 5 -

Texto 1

Os diversos avanços e retrocessos nas negociações entre Rio de Janeiro e Londres pareceram chegar ao final em 7 de novembro de 1831, quando a Assembleia Legislativa aprovou a primeira lei de proibição do tráfico de africanos. [...] A despeito dos esforços britânicos em exigir o cumprimento da lei de 1831, na década subsequente o desembarque clandestino de africanos intensificou-se. Havia uma rede de proteção ao comércio negreiro que contava com a conivência das autoridades responsáveis por sua repressão,

e, ainda mais, com a aceitação e ajuda da população local.

ARAÚJO, Carlos Eduardo Moreira de. Fim do tráfico. In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. (org.) Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 232.

 

Texto 2

Antes o porão nos meus tempos. 1833.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 32.

 

Texto 3

No cais, as fisionomias anunciavam outro século, que nunca seria seu.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 36.

 

Questão 5

Responda:

a) Com base na leitura dos textos I e II, explique a razão de Celestino ser referido como pirata ao longo do romance.

b) Os textos II e III estabelecem uma oposição. Aponte-a e, em seguida, explique como ela se relaciona com o desfecho do romance.

 

- Leia o seguinte trecho de A visão das plantas para responder à questão. -

Cavava como uma imposição vinda do fundo da terra, mas sem saber por que o fazia. Caras e esgares, risos e olhares, o brilhante, uma moeda, nada o conduziu nem atormentou. A terra entrou-lhe nos olhos, debaixo das unhas, sujou-lhe abarba, chegou-lhe à boca. Não cavava a sua cova. Cavou pela sua vida, sem pensar em nada, sem sentir o corpo. Respondia a uma força de que desconhecia a origem e lhe tomara conta dos braços. Cavou mais fundo.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 59.

 

Questão 6

A frase que melhor sintetiza o trecho acima é:

a) “Em breve, o homem deixaria de ser homem para ser terra e a terra, engolindo-o, o tornaria seu”.

b) “A partir da terra, revelou-se à noite e ao mar como tendo chegado ao seu destino”.

c) “Ao contrário do que se dizia na vila e lhe assegurava a língua-de-trapos do sacristão, a casa não fora ocupada por um facínora, mas por um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro”.

d) “As mãos, que outrora haviam de ter cheirado a rum e a sangue, cheiravam agora a coalho e a terra cultivada”.

e) “As rosas, os cravos, os abetos, a ameixoeira ainda não sabiam que o seu amigo tinha morrido”.

 

- Texto para a questão 7 -

As mães passaram a pôr as mãos à frente dos olhos dos meninos quando se cruzavam com ele na rua. “Se não comes a sopa, levo-te para a casa do capitão, que te há-de cortar às postas como se fosses uma garoupa”, diziam as avós aos netos. Na casa onde comprava as sementes, vendiam-nas de má vontade. Anda a construir um altar a Judas Escariotes, cruzes, credo, o diabo o carregue. Se ele não fosse tão discreto, tratariam de o correr da terra ou juntar-se-iam ao portão com archotes acesos, obrigando-o a abandonar o burgo, numa madrugada fria. Com o tempo, chegando do mar novos barcos e novas gentes, os rumores foram-se diluindo nas novidades. Pouco falava e estava velho. Caminhava a custo. Ia para cego e não se metia com ninguém.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 27.

 

Questão 7

Com base no trecho, observa-se que os sentimentos dos moradores da vila em relação ao capitão Celestino mudaram ao longo do tempo, já que:

a) a indiferença se transformou em respeito.

b) o entusiasmo se transformou em rejeição.

c) o desprezo se transformou em interesse.

d) a curiosidade se transformou em desconfiança.

e) o medo se transformou em indiferença.

 

- Texto para a questão 8 -

A velha negra nunca desatava a venda da menina holandesa porque o que se ata em vida na morte não se desata.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 79.

 

Questão 8

Assinale a alternativa que melhor representa o fragmento acima, retirado do romance A visão das plantas.

a) “A redenção exige a rememoração integral do passado, sem fazer distinção entre os acontecimentos ou os indivíduos” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 54).

b) “O que acontece aos seres humanos que morreram, nenhum futuro pode reparar. Jamais serão chamados para se tornarem felizes para sempre” (HORKHEIMER, M. Traditionelle und Kritische Theorie. In: LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 49).

c) “[...] o presente ilumina o passado, e o passado iluminado torna-se uma força no presente” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 54).

d) “Quanto à vingança das vítimas do passado, trata-se simplesmente da reparação dos crimes a que foram subjugados e da condenação moral daqueles que os infligiram” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 112).

e) “É evidente que a rememoração das vítimas não é [...] uma lamúria melancólica ou uma meditação mística” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 111).

 

- Textos para a questão 9 -

Texto 1

Os homens despejaram a cal no porão, saco a saco. Os negros viram que um pó caía sobre eles, mas não entenderam o que se passava. Os sacos de cal foram vazados no porão e a porta fechada por Celestino. Ouviram-se gemidos, pedidos de socorro e, passado algum tempo, um silêncio que apaziguou os piratas.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 36.

 

Texto 2

O quintal florido estava calmo. Se ali vivia o diabo, era bom jardineiro. Com as botas nas mãos dadas de Raul, Pedro galgou o muro, com esforço. “Consegues vê-lo? E como é?”, perguntou Luzia, impaciente. Mas, em cima do muro, deixado por um diabrete adivinho, só viu um pires com três cubos de marmelada e três fatias de queijo curado.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 19.

 

Questão 9

Com base na leitura dos trechos, responda:

a) O romance A visão das plantas rejeita o maniqueísmo. Justifique essa afirmação com elementos extraídos dos textos I e II.

b) Cite dois pares de opostos que podemos observar na comparação entre os textos I e II.

 

 

 

 

 

1. c

2. d

3. e

4. a) Tanto Celestino quanto as plantas são indiferentes ao sofrimento alheio e incapazes de mostrar gratidão.

b) Não é possível afirmar isso, já que não se observa qualquer sentimento de afeição das plantas em relação a Celestino. Elas não sentem gratidão pelos cuidados que o capitão lhes dedica nem mostram compaixão diante do adoecimento progressivo do jardineiro.

5. a) No texto I, fica claro que o tráfico negreiro para o Brasil foi proibido em 1831. No entanto, ele continuou ocorrendo ilegalmente, mesmo após essa proibição. A fala de Celestino, que aponta o ano de 1833 como “seu tempo”, sugere que o capitão continuou agindo de forma clandestina nos mares, o que equivale a dizer que ele atuava como pirata.

b) No texto II, vemos que Celestino se refere ao ano de 1833 como “seu tempo”, ou seja, um momento que lhe pertence, por estar relacionado ao auge de sua vida nos mares. Por extensão, podemos entender que o capitão pertence ao século XIX. Em oposição, o texto III afirma que o século XX não pertenceria ao velho pirata. Isso se relaciona ao desfecho do romance, já que, na virada do século, Celestino havia se transformado em assunto de cantigas de pescador e em um herói remoto do qual poucos se lembravam.

6. a

7. e

8. b

9. a) No romance de Djaimilia Pereira de Almeida, vemos representada a complexidade humana em todas as suas contradições. Desse modo, o mesmo homem capaz de cometer crimes terríveis, como matar de forma cruel os cativos que tentaram se rebelar em seu navio (texto I), é aquele que dedica cuidado às plantas e se mostra gentil com as crianças (texto II).

b) Podemos observar os seguintes pares de opostos: morte/vida, crueldade/cuidado.













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