29 outubro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: CANÇÕES ESCOLHIDAS (2)


 

Questão 1

Canto das três raças

Ninguém ouviu

Um soluçar de dor

No canto do Brasil

 

Um lamento triste

Sempre ecoou

Desde que o índio guerreiro

Foi pro cativeiro

E de lá cantou

 

Negro entoou

Um canto de revolta pelos ares

No Quilombo dos Palmares

Onde se refugiou

 

Fora a luta dos Inconfidentes

Pela quebra das correntes

Nada adiantou

 

E de guerra em paz

De paz em guerra

Todo o povo dessa terra

Quando pode cantar

Canta de dor

“Canto das três raças” (1976), disponível em: https://www.letras.mus.br/clara-nunes/83169. Acesso em 29 de agosto de 2024.

 

Analise a canção “Canto das três raças” e assinale a alternativa CORRETA.

a) Celebra a harmonia e a pacificação entre as etnias no Brasil, uma vez que os conflitos históricos foram todos resolvidos.

b) Denuncia a perpetuação de estruturas sociais injustas no Brasil, criticando a falta de repercussão e mudança após as lutas de resistência.

c) Enaltece a figura do índio guerreiro exclusivamente, ignorando as contribuições das demais raças na formação da identidade brasileira.

d) Apresenta uma visão otimista da história brasileira, sugerindo que as batalhas dos povos oprimidos sempre resultam em vitórias significativas.

e) Narra de forma neutra e imparcial os eventos históricos do Brasil, sem emitir juízo de valor sobre as injustiças sociais.

 

Questão 2

Ainda com base na letra de “Canto das três raças”, transcrita anteriormente, responda ao que se pede.

a) Os versos “E de guerra em paz / De paz em guerra” se estruturam pela combinação de duas figuras de linguagem. Aponte-as e explique como elas são construídas no texto.

b) Além da dor presente no “Canto das três raças”, que outro sentimento esse canto provocou? Justifique sua resposta com um trecho da canção.

 

Questão 3

Referências críticas à escravidão, presentes em “Canto das três raças”, também aparecem na seguinte canção de Paulo César Pinheiro:

a) “Viagem”.

b) “Evangelho”.

c) “Vento bravo”.

d) “Desenredo”.

e) “Estrela da terra”.

 

- Texto para as questões 4 a 6 –

Analise a letra da canção “Pesadelo”, composta por Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, que integrou o disco Cicatrizes, do grupo MPB4.

Quando um muro separa uma ponte une

Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra, alguém vem me solta

Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte, olha o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

 

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo o troco

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro

Olha o velho, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós, olha aí!

 

Questão 4

Considerando que a canção foi composta em 1972, durante a ditadura militar,

a) identifique qual é o protagonista chamado de “você” na letra da canção.

b) cite duas reivindicações apresentadas na letra da canção.

c) justifique os títulos dados ao disco e à canção.

 

Questão 5

Que verso da canção faz referência explícita ao sentimento de vingança do eu lírico?

a) “Quando um muro separa uma ponte une”.

b) “Você vem me agarra, alguém vem me solta”.

c) “Que medo você tem de nós, olha aí”.

d) “De repente olha eu de novo”.

e) “Perturbando a paz, exigindo o troco”.

 

Questão 6 

Do ponto de vista temático, qual outra canção de Paulo César Pinheiro mais se aproxima de “Pesadelo”?

a) “Mordaça”.

b) “Navio fantasma”.

c) “Vontade de chorar”.

d) “Cordilheira”.

e) “Na volta que o mundo dá”.

 

- Texto para as questões 7 a 9 -

Tudo o que mais nos uniu separou,

Tudo que tudo exigiu renegou,

Da mesma forma que quis, recusou,

O que torna essa luta impossível e passiva.

 

O mesmo alento que nos conduziu debandou,

Tudo que tudo assumiu desandou,

Tudo que se construiu desabou,

O que faz invencível a ação negativa.

 

É provável que o tempo faça a ilusão recuar,

Pois tudo é instável e irregular,

E, de repente, o furor volta,

O interior todo se revolta

E faz nossa força se agigantar.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 169.

 

Questão 7

Nos versos extraídos de “Mordaça”, há uma mensagem de esperança que fica mais clara no trecho:

a) “Tudo o que mais nos uniu separou”.

b) “O que torna essa luta impossível e passiva”.

c) “O mesmo alento que nos conduziu debandou”.

d) “Pois tudo é instável e irregular”.

e) “E faz nossa força se agigantar”.

 

Questão 8

A repetição do pronome “tudo”, no início de alguns versos, indica:

a) o poder praticamente absoluto do regime ditatorial brasileiro.

b) a generalidade das transformações negativas para a sociedade.

c) a falta de união e de capacidade de construção das pessoas.

d) o medo de a sociedade permanecer estagnada para sempre.

e) a impossibilidade de lutar contra os desejos individuais.

 

Questão 9

O jogo de oposições presente nos três primeiros versos de “Mordaça” também ocorre em:

a) Por toda terra que passo, / Me espanta tudo o que vejo. (“Desenredo”)

b) Existe uma luz que é uma guia / Fincada no azul da amplidão. (“Estrela da terra”)

c) Foi dando uma coisa em meu peito, / Um aperto difícil da gente explicar […]. (“Na volta que o mundo dá”)

d) De madrugada eu acordo / Sangrando canções de veneno. (“Navio fantasma”)

e) Se maior se faz, mais se arruína, / Se mais quer servir, mais nos domina. (“Evangelho”)

 

- Texto para a questão 10 -

Eu quero ter a sensação das cordilheiras,

Desabando sobre as flores

Inocentes e rasteiras.

Eu quero ver a procissão dos suicidas,

Caminhando para a morte

Pelo bem de nossas vidas.

Eu quero crer na solução dos evangelhos,

Obrigando os nossos moços

Ao poder dos nossos velhos.

Eu quero ler o coração dos comandantes,

Condenando os seus soldados

Pela orgia dos farsantes.

Eu quero apenas ser cruel naturalmente

E descobrir onde o mal nasce

E destruir sua semente.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 201-202.

 

Questão 10

Em “Cordilheira”, os versos “Eu quero crer na solução dos evangelhos” e “E descobrir onde o mal nasce” podem ser interpretados de uma perspectiva religiosa. Também pode ser entendido dessa maneira o trecho:

a) “Cravada no meu coração” (“Estrela da terra”).

b) “E a felicidade amordace essa dor secular” (“Mordaça”).

c) “Eu por fora estou cicatrizando” (“Velho arvoredo”).

d) “Olha, quantas aves brancas” (“Viagem”).

e) “Se mais deuses há, mais são profanos” (“Evangelho”).

 

Questão 11

Leia a estrofe a seguir, extraída da canção “O dia em que o morro descer e não for carnaval”, e responda ao que se pede.

No dia em que o morro descer e não for carnaval,

Não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral,

E cada uma ala da escola será uma quadrilha,

A evolução já vai ser de guerrilha,

Que a alegoria é um tremendo arsenal.

 

O tema do enredo vai ser a Cidade Partida,

No dia em que o couro comer na avenida,

Se o morro descer e não for carnaval.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 178.

 

a) Aponte quatro expressões empregadas no texto que remetem explicitamente aos desfiles de escolas de samba.

b) Explique, com base no contexto da canção, o verso “No dia em que o couro comer na avenida”.

 

 

 

1. d

2. a) As figuras são a antítese e o quiasmo. A antítese é construída pela proximidade entre duas palavras de sentido oposto: “guerra” e “paz”. O quiasmo ocorre pela repetição invertida, em que o termo que está no início do verso vai para o final (“guerra”) e o que está no final vem para o início (“paz”).

b) O verso “Um canto de revolta pelos ares”, entoado pelos negros “No Quilombo dos Palmares”, deixa claro que o canto, além da dor, traz a revolta, a raiva e a indignação pela exploração sofrida pelas três raças.

3. c

4. a) O uso de “você” na letra da canção remete a censores, agentes da repressão, dirigentes políticos identificados com a ditadura civil-militar.

b) Entre as reivindicações presentes na letra da canção, é possível citar: liberdade de expressão e fim da censura (“corta um verso, eu escrevo outro”); fim das prisões arbitrárias (“Você vem me agarra, alguém vem me solta”); fim da tortura e do assassinato de presos políticos (“Você me prende vivo, eu escapo morto”); retratação (“De repente olha eu de novo / Perturbando a paz, exigindo o troco”);

democratização (“E se a força é tua ela um dia é nossa”).

c) O título da canção (“Pesadelo”) pode referir-se ao caráter ditatorial do regime e à sensação aflitiva de viver sob o autoritarismo. Se tomado pela perspectiva do próprio regime, o substantivo “pesadelo” pode também representar a resistência de parte da sociedade que não aceita passivamente viver sob a ditadura. O título do disco (Cicatrizes) representa as marcas e os traumas causados pela ação repressiva, como o exílio, a censura e a tortura.

5. e

6. a

7. e

8. b

9. e

10. e

11. a) Podem ser citadas as expressões: “ensaio geral”, “ala da escola”, “evolução”, “alegoria”, “enredo” e “avenida”.

b) Trata-se de uma referência ao momento em que as pessoas do morro, cansadas das injustiças sociais e econômicas, resolvem agir com violência, provocando uma guerra civil.







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