Questão
1
Canto
das três raças
Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou
E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor
“Canto das três raças” (1976), disponível
em: https://www.letras.mus.br/clara-nunes/83169. Acesso em 29 de agosto de
2024.
Analise a canção “Canto das três raças” e
assinale a alternativa CORRETA.
a) Celebra a harmonia e a pacificação
entre as etnias no Brasil, uma vez que os conflitos históricos foram todos
resolvidos.
b) Denuncia a perpetuação de estruturas
sociais injustas no Brasil, criticando a falta de repercussão e mudança após as
lutas de resistência.
c) Enaltece a figura do índio guerreiro
exclusivamente, ignorando as contribuições das demais raças na formação da identidade
brasileira.
d) Apresenta uma visão otimista da
história brasileira, sugerindo que as batalhas dos povos oprimidos sempre
resultam em vitórias significativas.
e) Narra de forma neutra e imparcial os
eventos históricos do Brasil, sem emitir juízo de valor sobre as injustiças
sociais.
Questão
2
Ainda com base na letra de “Canto das três
raças”, transcrita anteriormente, responda ao que se pede.
a) Os versos “E de guerra em paz / De paz
em guerra” se estruturam pela combinação de duas figuras de linguagem. Aponte-as
e explique como elas são construídas no texto.
b) Além da dor presente no “Canto das três
raças”, que outro sentimento esse canto provocou? Justifique sua resposta com
um trecho da canção.
Questão
3
Referências críticas à escravidão,
presentes em “Canto das três raças”, também aparecem na seguinte canção de
Paulo César Pinheiro:
a) “Viagem”.
b) “Evangelho”.
c) “Vento bravo”.
d) “Desenredo”.
e) “Estrela da terra”.
-
Texto para as questões 4 a 6 –
Analise a letra da canção “Pesadelo”,
composta por Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, que integrou o disco
Cicatrizes, do grupo MPB4.
Quando um muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olha o dia de
ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí
Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo o troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí!
Questão
4
Considerando que a canção foi composta em
1972, durante a ditadura militar,
a) identifique qual é o protagonista
chamado de “você” na letra da canção.
b) cite duas reivindicações apresentadas
na letra da canção.
c) justifique os títulos dados ao disco e
à canção.
Questão
5
Que verso da canção faz referência
explícita ao sentimento de vingança do eu lírico?
a) “Quando um muro separa uma ponte une”.
b) “Você vem me agarra, alguém vem me
solta”.
c) “Que medo você tem de nós, olha aí”.
d) “De repente olha eu de novo”.
e) “Perturbando a paz, exigindo o troco”.
Questão 6
Do ponto de vista temático, qual outra
canção de Paulo César Pinheiro mais se aproxima de “Pesadelo”?
a) “Mordaça”.
b) “Navio fantasma”.
c) “Vontade de chorar”.
d) “Cordilheira”.
e) “Na volta que o mundo dá”.
-
Texto para as questões 7 a 9 -
Tudo o que mais nos uniu separou,
Tudo que tudo exigiu renegou,
Da mesma forma que quis, recusou,
O que torna essa luta impossível e
passiva.
O mesmo alento que nos conduziu debandou,
Tudo que tudo assumiu desandou,
Tudo que se construiu desabou,
O que faz invencível a ação negativa.
É provável que o tempo faça a ilusão
recuar,
Pois tudo é instável e irregular,
E, de repente, o furor volta,
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar.
PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo:
Leya, 2010. p. 169.
Questão
7
Nos versos extraídos de “Mordaça”, há uma
mensagem de esperança que fica mais clara no trecho:
a) “Tudo o que mais nos uniu separou”.
b) “O que torna essa luta impossível e
passiva”.
c) “O mesmo alento que nos conduziu
debandou”.
d) “Pois tudo é instável e irregular”.
e) “E faz nossa força se agigantar”.
Questão
8
A repetição do pronome “tudo”, no início
de alguns versos, indica:
a) o poder praticamente absoluto do regime
ditatorial brasileiro.
b) a generalidade das transformações
negativas para a sociedade.
c) a falta de união e de capacidade de
construção das pessoas.
d) o medo de a sociedade permanecer
estagnada para sempre.
e) a impossibilidade de lutar contra os
desejos individuais.
Questão
9
O jogo de oposições presente nos três
primeiros versos de “Mordaça” também ocorre em:
a) Por toda terra que passo, / Me espanta
tudo o que vejo. (“Desenredo”)
b) Existe uma luz que é uma guia / Fincada
no azul da amplidão. (“Estrela da terra”)
c) Foi dando uma coisa em meu peito, / Um
aperto difícil da gente explicar […]. (“Na volta que o mundo dá”)
d) De madrugada eu acordo / Sangrando
canções de veneno. (“Navio fantasma”)
e) Se maior se faz, mais se arruína, / Se
mais quer servir, mais nos domina. (“Evangelho”)
-
Texto para a questão 10 -
Eu quero ter a sensação das cordilheiras,
Desabando sobre as flores
Inocentes e rasteiras.
Eu quero ver a procissão dos suicidas,
Caminhando para a morte
Pelo bem de nossas vidas.
Eu quero crer na solução dos evangelhos,
Obrigando os nossos moços
Ao poder dos nossos velhos.
Eu quero ler o coração dos comandantes,
Condenando os seus soldados
Pela orgia dos farsantes.
Eu quero apenas ser cruel naturalmente
E descobrir onde o mal nasce
E destruir sua semente.
PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo:
Leya, 2010. p. 201-202.
Questão
10
Em “Cordilheira”, os versos “Eu quero crer
na solução dos evangelhos” e “E descobrir onde o mal nasce” podem ser
interpretados de uma perspectiva religiosa. Também pode ser entendido dessa
maneira o trecho:
a) “Cravada no meu coração” (“Estrela da
terra”).
b) “E a felicidade amordace essa dor
secular” (“Mordaça”).
c) “Eu por fora estou cicatrizando”
(“Velho arvoredo”).
d) “Olha, quantas aves brancas”
(“Viagem”).
e) “Se mais deuses há, mais são profanos”
(“Evangelho”).
Questão
11
Leia a estrofe a seguir, extraída da
canção “O dia em que o morro descer e não for carnaval”, e responda ao que se
pede.
No dia em que o morro descer e não for
carnaval,
Não vai nem dar tempo de ter o ensaio
geral,
E cada uma ala da escola será uma
quadrilha,
A evolução já vai ser de guerrilha,
Que a alegoria é um tremendo arsenal.
O tema do enredo vai ser a Cidade Partida,
No dia em que o couro comer na avenida,
Se o morro descer e não for carnaval.
PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo:
Leya, 2010. p. 178.
a) Aponte quatro expressões empregadas no
texto que remetem explicitamente aos desfiles de escolas de samba.
b) Explique, com base no contexto da
canção, o verso “No dia em que o couro comer na avenida”.
1. d
2. a) As figuras são a antítese e o quiasmo. A antítese é
construída pela proximidade entre duas palavras de sentido oposto: “guerra” e “paz”.
O quiasmo ocorre pela repetição invertida, em que o termo que está no início do
verso vai para o final (“guerra”) e o que está no final vem para o início
(“paz”).
b) O verso “Um canto de revolta pelos ares”, entoado pelos
negros “No Quilombo dos Palmares”, deixa claro que o canto, além da dor, traz a
revolta, a raiva e a indignação pela exploração sofrida pelas três raças.
3. c
4. a) O uso de “você” na letra da canção remete a censores,
agentes da repressão, dirigentes políticos identificados com a ditadura civil-militar.
b) Entre as reivindicações presentes na letra da canção, é
possível citar: liberdade de expressão e fim da censura (“corta um verso, eu escrevo
outro”); fim das prisões arbitrárias (“Você vem me agarra, alguém vem me
solta”); fim da tortura e do assassinato de presos políticos (“Você me prende
vivo, eu escapo morto”); retratação (“De repente olha eu de novo / Perturbando
a paz, exigindo o troco”);
democratização (“E se a força é tua ela um dia é nossa”).
c) O título da canção (“Pesadelo”) pode referir-se ao caráter
ditatorial do regime e à sensação aflitiva de viver sob o autoritarismo. Se tomado
pela perspectiva do próprio regime, o substantivo “pesadelo” pode também
representar a resistência de parte da sociedade que não aceita passivamente
viver sob a ditadura. O título do disco (Cicatrizes) representa as marcas e os
traumas causados pela ação repressiva, como o exílio, a censura e a tortura.
5. e
6. a
7. e
8. b
9. e
10. e
11. a) Podem ser citadas as expressões: “ensaio geral”, “ala da
escola”, “evolução”, “alegoria”, “enredo” e “avenida”.
b) Trata-se de uma referência ao momento em que as pessoas do morro,
cansadas das injustiças sociais e econômicas, resolvem agir com violência,
provocando uma guerra civil.

