Introdução
O autor
Gabriel García Márquez nasceu em 6 de
março de 1927 na cidade de Aracataca, no interior da Colômbia. Depois de passar
parte da infância em sua cidade natal, na casa dos avós maternos, foi para
Barranquilla para efetuar os estudos básicos. Em 1947, mudou-se para a capital
do país, Bogotá, para cursar Direito. No entanto, não chegou a concluir o curso,
logo se voltando para a carreira das letras, publicando seus primeiros textos
no jornal El Espectador e, em
paralelo, desenvolvendo uma carreira de jornalista e repórter. Em 1962, atuou
como correspondente em Nova York, mas sua condição de filiado ao Partido
Comunista e sua ligação com o líder cubano Fidel Castro fizeram dele alvo de investigações
da CIA (Central Intelligence Agency),
razão pela qual não conseguiu um visto de permanência nos Estados Unidos. Na
década de 1960, acusado de colaborar com a guerrilha colombiana, o escritor
exilou-se no México, onde escreveu o romance que o tornaria famoso em todo o
mundo: Cem anos de solidão, publicado
em 1967 e reconhecido como a obra latino-americana mais importante do século
XX, cuja narrativa acompanha a história da família Buendía na cidade fictícia
de Macondo. Alguns anos depois, foi recebido nos Estados Unidos para receber o
título de Doutor Honoris Causa pela
Universidade de Colúmbia. Em 1982, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, a
consagração definitiva de seu talento. Faleceu na Cidade do México, em 2014.
O gênero conto
As diferenças formais entre romance, conto
e novela não foram jamais estabelecidas com exatidão. Para complicar mais essa
questão, a tendência da arte moderna é abandonar qualquer rigor na distinção
formal. Mesmo assim, é possível estabelecer algumas linhas gerais para nortear
o gênero do conto na literatura.
O material narrativo é circunscrito
principalmente a um episódio fundamental, do qual são retirados efeitos e
desdobramentos que podem, eventualmente, ter significação em toda uma vida. Por
isso, o conto é mais propício para captar o caráter fragmentário da existência humana,
na qual determinados eventos adquirem grande significado com base na atmosfera
psicológica em que são vivenciados.
Não se pode afirmar que, por sua dimensão
mais extensa, o romance seja mais profundo que o conto, mas este último deve
retirar sua profundidade da capacidade de seleção e de síntese do autor. Essa
economia de meios narrativos faz com que a palavra tenha uma importância muito
grande no conto. Ela deve conter toda e qualquer sugestão desejada pelo autor.
Finalmente, pode-se considerar que o
momento de clímax, no conto, tende a ser colocado no final da narrativa (em
comparação com o romance, por exemplo, que, pode apresentá-lo em uma etapa
anterior). Na obra de Gabriel García Márquez, como veremos, quase sempre o
final traz uma dimensão misteriosa, de difícil decifração, por vezes provocando
no leitor o desejo de retomar a narrativa em busca de pistas esclarecedoras.
Os funerais da Mamãe Grande: os contos em seu tempo
Em muitas narrativas de Os funerais da Mamãe Grande, há
referências a conflitos armados na Colômbia. Um exemplo impactante do clima de
intolerância no país pode ser percebido no conto “Um dia desses”, no qual se
estabelece um conflito surdo entre um prefeito com dores e o dentista que o
atende e o acusa de violência contra a população. O fato de o título do conto
remeter a um episódio de aparência banal, que poderia ter ocorrido em um dia
qualquer, evidencia o quanto tais conflitos estavam arraigados na sociedade
local à época. Essa tensão possuía raízes na política regional, que opunha correntes
ideológicas distintas, mas a violência tinha causas ainda mais profundas,
enraizadas nas intensas desigualdades sociais do país, o que é mostrado no
livro por intermédio da convivência entre pobres e ricos, presente em
praticamente todas as narrativas.
Deve-se levar em conta, ainda, a condição
de país agrário exportador que a Colômbia ostentava. A produção agrícola (que,
no livro, consistia basicamente em bananas) era explorada sobretudo por
companhias estrangeiras, como a estadunidense United Fruit
Company.
Em dezembro de 1928, revoltados com as condições em que viviam e a péssima
remuneração que recebiam, trabalhadores da empresa entraram em greve e foram
massacrados por tropas colombianas. Em sua autobiografia, Viver para contar, Gabriel García Márquez rememora o episódio, que
teria ocorrido em Aracataca, sua terra natal:
Eu
conhecia o episódio como se o tivesse vivido, depois de ter ouvido meu avô
contá-lo e repeti-lo mil e uma vezes desde que tive memória: o militar lendo o
decreto que declarava que os peões em greve eram oficialmente uma quadrilha de
malfeitores; os três mil homens, mulheres e crianças imóveis debaixo de um sol
bárbaro depois que o oficial deu a todos um prazo de cinco minutos para
esvaziar a praça; a ordem de fogo, o repicar das rajadas de cuspidas
incandescentes, a multidão encurralada pelo pânico enquanto ia sendo diminuída
palmo a palmo, pelas tesouras metódicas e insaciáveis da metralha.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Viver para contar. Trad.
Eric Nepomuceno. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 18.
Esse ambiente social tenso impregnou os
romances do autor. Em seus contos, ele aparece de maneira um pouco mais difusa,
mas com muita contundência. Talvez isso se deva ao fato de que, para o escritor,
“o conto é uma flecha no centro do alvo”, o que faria com que o quadro social
fosse explorado de forma mais sintética e direta. Essa explicação do autor,
aliás, cabe bem no conceito do gênero conto, que, como vimos, caracteriza-se
pela extensão reduzida, provocada pela condensação da trama, e pela presença de
um único núcleo dramático, mais comumente.
García Márquez sempre foi um praticante da
narrativa curta. Seus contos podem ser agrupados em três fases principais, de
épocas distintas: a primeira delas é constituída pelas publicações no jornal El Espectador, de Bogotá, e ocupa a
primeira metade dos anos 1950; a segunda compreende os contos de Os funerais da Mamãe Grande, escritos no
início da década de 1960; e, por fim, a terceira fase é formada pelas
narrativas reunidas em A incrível
história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada, escritas entre o final
dos anos 1960 e o início da década seguinte.
O livro Os funerais da Mamãe Grande foi publicado pela primeira vez em
1962, pela Editorial Sudamericana, de Buenos Aires. Para quem já teve contato
com a obra mais famosa do escritor, Cem
anos de solidão (1967), é curioso observar que alguns personagens e situações
desenvolvidos no romance já estavam presentes nos contos do livro anterior. A
edição em espanhol consultada para esta análise fornece a mesma data para todos
os contos do livro: 1962. No entanto, outras fontes consultadas fornecem datas
diversas, que variam entre 1959 e 1961 – com exceção do conto “Um dia depois de
sábado”, com o qual o escritor venceu um concurso literário em 1954.
Os
contos
“A sesta da terça-feira”
Síntese
Um trem saiu de um povoado levando entre
os passageiros uma mãe e sua filha, personagens não nomeadas, solitárias no
vagão de terceira classe. A menina tinha doze anos e a mãe parecia mais velha do
que realmente era. Traziam poucas coisas consigo e vestiam luto. Em certo ponto
da viagem, a menina foi ao banheiro e, na volta, ambas retiraram alguns
alimentos da sacola que traziam e se puseram a comer. Quando se aproximaram de
seu destino, a mãe ordenou à filha que calçasse os sapatos e se penteasse.
Elas chegaram ao povoado em pleno momento
da sesta, o descanso após o almoço. As duas desceram do trem e se dirigiram à casa
paroquial. Foram atendidas por uma mulher, irmã do padre, e pediram para falar
com ele. Ele hesitou em interromper seu descanso, mas, depois de alguma
insistência da mulher, acabou por atendê-la. A mulher pediu a ele a chave do
cemitério para que pudesse visitar o túmulo de seu filho, Carlos Centeno Ayala.
O padre não o identificou a princípio, mas a mulher esclareceu que se tratava
de um ladrão que havia sido morto na cidade na semana anterior.
Tudo ocorrera a poucas quadras dali,
quando Rebeca, uma viúva que morava sozinha em uma casa repleta de objetos,
ouvira o barulho de alguém forçando a porta. Armara-se de um revólver velho e,
mirando na altura da fechadura, atirara. Ouvira um gemido do lado de fora: “Ai,
minha mãe” (p. 16). Em seguida, o assaltante morrera. Não era conhecido no
povoado. O padre quis saber da mãe por que não havia orientado melhor seu
filho. A mulher se limitou a responder que ele era um bom homem e que sempre se
sacrificara pela família, destruindo o próprio físico em lutas de boxe para
levar algum dinheiro para casa.
O padre entregou as chaves e pediu a elas
que, na volta, deixassem-nas debaixo da porta. Notou então que algumas pessoas
na rua observavam tudo. A irmã comentou: “Eles souberam” (p. 18). Sem
compreender bem a situação, a mulher deu a mão à filha “e saiu para a rua” (p.
18).
Comentários
Escrito em 1958, “A sesta da terça-feira”
era considerado pelo próprio autor seu melhor conto. Uma curiosidade: a
história da viúva que acertou um homem que tentava abrir a porta de sua casa realmente
aconteceu na cidade natal do autor, Aracataca, conforme ele relata em sua
autobiografia Viver para contar, na
qual até mesmo o pungente detalhe das últimas palavras do homem atingido pelo tiro
é recordado pelo autor.
A “sesta” referida no título é um hábito
comum em culturas de origem ibérica. O autor, na mesma autobiografia referida,
esclarece: “Os armazéns, as repartições públicas, as escolas, fechavam ao meio-dia
e não tornavam a abrir até um pouco antes das três”. Quanto ao dia da semana,
“terça-feira”, convém lembrar um ditado popular espanhol que diz: “em martes, ni te cases ni te embarques ni
de tua família te apartes” (na terça-feira, não se case, não embarque nem se
separe de sua família). O ditado aponta para a crença de que a terça-feira
seria um dia de azar. De fato, o conto apresenta uma atmosfera marcada pela dor
e pela morte.
O período histórico a que corresponde a
ação do conto foi marcado pela Guerra Civil que assolou o país entre 1946 e
1958. Embora não haja nenhuma referência direta ao fato, a atmosfera de desolação
que predomina no ambiente reflete um tempo de miséria e de falta de
perspectivas. Durante a viagem de trem que leva mãe e filha ao povoado onde
está enterrado Carlos Centeno, o cenário marcado por plantações de bananas
alude sutilmente à presença da United
Fruit Company, empresa estadunidense que explorou a produção e o comércio
de frutas tropicais na região. Essa alusão, mesmo que discreta, permite
estabelecer uma conexão entre essa presença e a desolação, sugerindo que a
pobreza da população seria resultado da atuação imperialista.
A pobreza das personagens é referida a
todo momento: mãe e filha viajam em um “vagão pobre, de terceira classe” (p.
9), levando consigo apenas “uma sacola de plástico com coisas de comer e um ramo
de flores embrulhado em papel jornal” (p. 10), vestindo “um luto rigoroso e pobre”
(p. 10). O próprio trem reitera essa pobreza, com seu odor de “couro cru” e seu
“ar estancado” (p. 10). Pelo caminho, ele passa por “espaços sem plantação” e
“roseiras empoeiradas” (p. 9), o que generaliza a miséria das personagens.
Também Carlos Centeno apresentava o mesmo estado de pobreza no momento de sua
morte: “vestia uma blusa de flanela de listras coloridas, uma calça ordinária
com uma corda em lugar do cinto, e estava descalço” (p. 16).
O povoado a que se dirigem as duas
protagonistas não é nomeado diretamente. No entanto, alguns elementos da
paisagem são comuns a outras narrativas de Gabriel García Márquez: agência
telegráfica, hotel pequeno, estação ferroviária, bar com salão de bilhar e amendoeiras
espalhadas pelas ruas. Nessas narrativas, aparecem diversas alusões ao espaço
que serviria de cenário para a obra mais famosa do autor, Cem anos de solidão, a fictícia cidade de Macondo. Seja como for, o
que se destaca nesse espaço é a desolação, explicada ainda pela condição
climática: “O povoado flutuava no calor” (p. 12).
Nesse lugar, vive uma população para a
qual a chegada das duas mulheres constitui objeto de interesse e curiosidade.
Para observá-las saindo da casa paroquial, reuniram-se “grupos debaixo das amendoeiras”
(p. 18). Os representantes dessa população, no conto, são o padre e a viúva
Rebeca. O religioso se comporta de maneira formal, limitando-se a cumprir os
requisitos legais necessários para atender ao pedido da mulher de visitar o
cemitério, com o preenchimento de um formulário. Em certo momento, evidencia
sua fé, ao afirmar: “A vontade de Deus é inescrutável” (p. 17). No entanto, pronuncia
essa afirmação “sem muita convicção” (p. 17), o que comprova sua condição de
mero burocrata da fé. O comportamento da viúva Rebeca, por sua vez, evidencia
uma personalidade intempestiva e amedrontada: ela reage com um tiro fatal a uma
tentativa de roubo em sua casa. Uma curiosidade: a arma usada por ela era “um revólver
arcaico que ninguém havia disparado desde os tempos do coronel Aureliano Buendía”
(p. 15), que vem a ser um dos principais personagens da obra Cem anos de solidão, publicada anos
depois de Os funerais da Mamãe Grande,
como já visto. Aliás, no conto, sua reação é atribuída a “um terror
desenvolvido nela por 28 anos de solidão” (p. 15), o que ecoa o título do
romance.
Portanto, a população local é marcada pela
superficialidade da fé e pelo destempero provocado pelo medo. Uma postura bem
diferente é apresentada pelas duas estranhas que chegam ao lugar, a mãe e a
filha que protagonizam o conto. Da filha, nota-se o comportamento subserviente
às determinações maternas. Mas a personalidade (e a personagem) mais
impressionante da narrativa é a mãe. No trem, ela se postava “com a coluna
vertebral firmemente apoiada contra o espaldar do assento” (p. 10), em uma
demonstração de dignidade que ela transmite à filha, ao orientar como ela deveria
agir quando chegassem ao povoado: “Depois, mesmo que esteja morrendo de sede,
não tome água em lugar nenhum. Principalmente, não vá chorar” (p. 11). A essa
manifestação de honradez, acrescenta-se uma “tenacidade repousada” (p. 13), que
a faz permanecer de pé ao entrar na casa paroquial e responder de forma “rápida
e firme” (p. 13), “sem vacilação, com detalhes precisos, como se estivesse
lendo” (p. 15), às interpelações e perguntas do padre e de sua irmã. A mulher
não demonstra nada do temor nem da superficialidade demonstrados pelos
habitantes locais.
Também é preciso fazer referência a
Carlos, seu filho, o ladrão assassinado pela viúva Rebeca. Diante das circunstâncias
da morte do filho, a mulher afirma que ele era “um homem muito bom” (p. 16), a
quem ensinara “que nunca roubasse nada que fizesse falta a alguém para comer”
(p. 17). Aqui se apresenta a chave para a compreensão da atitude de Carlos: no
conto, ele é concebido como uma vítima da injustiça social. Seu crime se
limitou à tentativa de roubo para suprir as próprias necessidades. A casa da
qual se aproximou era “cheia de cacarecos” (p. 15), o que pode tê-lo feito
supor certa fartura, sem saber que se tratava de uma fidalguia decadente. O que
ele pretendia roubar certamente não faria falta à viúva – razão pela qual ele
aparece, na narrativa, como alguém obediente à mãe. Não por acaso, é para ela
que se volta seu último pensamento: “Ai, minha mãe” (p. 16).
A cena final do conto, com a mãe pegando a
filha pela mão e saindo para a rua, reafirma a personalidade tenaz da mulher.
Sabendo-se observada pela população local, que via nela a responsável por um
ladrão, dispõe-se a enfrentar os olhares acusadores com a mesma dignidade que
demonstrou desde o primeiro momento. O final aberto transfere para o leitor a
conclusão da narrativa: como reagiria a população diante da mãe do ladrão e de
sua dignidade inabalável?
“Um dia desses”
Síntese
Em uma segunda-feira, o dentista Escovar
preparava instrumentos em seu consultório para proceder a certos ajustes em um
dente de ouro. Começou às seis horas e, às oito, fez uma pausa para observar a
paisagem da janela, onde reparou em “dois urubus pensativos que se secavam ao
sol na cerca da casa vizinha” (p. 21). De repente, foi interrompido pelo filho
de 11 anos, que anunciou que o alcaide (prefeito) estava ali e queria extrair
um dente. O Sr. Escovar mandou dizer que não estava. O menino levou o recado,
mas retornou com a tréplica; o alcaide o ouvira e sabia que estava ali. O dentista
não respondeu, e o menino se retirou, mas voltou logo depois com uma ameaça do
alcaide: se não fosse atendido, daria um tiro no dentista. O Sr. Escovar abriu
uma gaveta onde estava guardado um revólver e determinou ao filho que o alcaide
entrasse.
O alcaide entrou e cumprimentou cerimoniosamente o dentista, que notou no homem o rosto inchado, a barba por fazer e uma expressão desolada de noites maldormidas. Desistindo de qualquer gesto de violência, o doutor o examinou e disse que seria preciso operar sem anestesia, porque havia um abscesso. O alcaide se conformou e se preparou para sofrer. Ao iniciar a operação, o dentista avisou: “O senhor vai nos pagar agora vinte mortos, tenente” (p. 24). Depois do procedimento, o alcaide deixou cair algumas lágrimas. Ao se despedir, solicitou ao dentista que lhe mandasse a conta. Quando o médico quis saber se deveria enviá-la a ele ou ao município, a resposta foi uma pérola: “Dá no mesmo” (p. 24).
Comentários
Escrito em 1962, o conto se relaciona a um
dos muitos conflitos armados que sacudiram a história colombiana. García
Márquez retrata, em suas memórias, os distúrbios ocorridos em Bogotá depois do
assassinato de um popular líder político, ocorrido em 9 de abril de 1948, que
deu início a um período que ficaria conhecido como La Violencia e opôs apoiadores de dois partidos distintos, o
Liberal e o Conservador.
A perspectiva adotada pelo conto
distancia-se da abordagem histórica mais documental e rigorosa, optando por
trilhar os caminhos da ironia e da comédia. O título já denuncia essa opção, na
medida em que sugere um evento banal, ocorrido em um dia qualquer da semana. No
entanto, a violência está presente: o prefeito ameaça dar um tiro no dentista,
se não for atendido; o dentista, por sua vez, abre a gaveta na qual guarda um
revólver. Além disso, a displicência com que o filho do dentista informa a
ameaça feita pelo prefeito aponta para uma naturalização da violência, que se
mostra integrada ao cotidiano, sem surpresas.
Os personagens do conto representam forças
sociais antagônicas. De um lado, há um “dentista sem título” (p. 20), isto é,
que exerce a profissão sem um atestado formal de estudo. No conto, ele funciona
como metonímia da população mais pobre e explorada, o que se nota pelo estado
de seu local de trabalho: “Era um consultório pobre” (p. 23). Do outro lado, a
figura do alcaide é a encarnação do poder político.
Quando se preparava para trabalhar, o
dentista viu os dois urubus ao sol pela janela. Talvez a imagem fosse um
presságio da visita que receberia, pois, de fato, o alcaide traz consigo uma
carga negativa e mórbida. Ao tratar de seu dente, o dentista lhe diz “O senhor vai
nos pagar agora vinte mortos, tenente” (p. 24), uma ameaça irônica com gosto de
vingança. Note-se, inclusive, que não é o narrador que revela a presença do
abscesso que impede a anestesia e aumenta o sofrimento do prefeito, mas, sim, o
próprio dentista. Essa circunstância permite levantar a suspeita de que talvez
não houvesse abscesso algum e o dentista queria apenas causar ainda mais dor ao
prefeito. Durante a preparação do material cirúrgico, o dentista não olha para
o alcaide, como a manifestar seu desprezo pessoal por ele; o paciente, por sua
vez, não o perde de vista, gesto que simboliza o poder exercido por meio da
vigilância constante sobre o cidadão, notadamente quando se trata de um
adversário político. O ódio contido do Sr. Escovar tem razão de ser: o fato de
o alcaide declarar que a conta da consulta poderia ser enviada a ele ou ao município
sugere a prática da apropriação do bem público. Se considerarmos o título do
conto, é plausível supor que tal prática era um evento tão banal quanto uma
extração dentária.
Além disso, ao perceber a hesitação do
prático em atendê-lo, o alcaide manda um recado ameaçador por intermédio do
filho do dentista: “Ele disse que se você não tirar o dente ele lhe dá um tiro”
(p. 22). O Sr. Escovar limita-se a abrir uma gaveta de sua mesa, onde se
encontrava um revólver, e pede ao filho que permita a entrada do alcaide. Sua
atitude corajosa mostra a disposição de enfrentamento, mas o fato de ter
desistido de um confronto, menos do que medo, revela a piedade que sente, ao
perceber o semblante sofrido do paciente: “O dentista viu em seus olhos murchos
muitas noites de desespero” (p. 23). Por isso, fechou a gaveta e se dispôs a
atendê-lo.
Essa postura o diferencia do alcaide, que
não parece ter demonstrado nenhuma piedade pelas vítimas de sua violência, as
“vinte mortes” de que o dentista o acusa responsável. Assim, esses dois homens diferentes
se encontram quase em situação de duelo, cada um com suas armas: tanto o
bisturi de um quanto o poder exercido pelo outro são instrumentos que carregam
em si potenciais de violência e de morte. Trata-se de uma metáfora
surpreendente do clima de guerra civil que parecia dominar o país desde sempre.
“Nesta terra não há ladrões”
Síntese
O jovem Dámaso chegou em casa ao amanhecer
com um saco contendo três bolas de bilhar. Revelou a Ana, sua companheira, que havia
entrado no salão de bilhar local com a intenção de roubar o dinheiro do caixa,
mas nada havia encontrado e, para não sair de mãos vazias, subtraíra as bolas.
No dia seguinte, quando acordaram, perceberam que o povoado só falava no roubo.
Ana, que sustentava a casa passando roupas, saiu para entregar algumas
encomendas e aproveitou para saber dos detalhes. Dizia-se que o ladrão havia roubado
três bolas de bilhar e duzentos pesos da caixa registradora. Ao retornar à
casa, a mulher acusou Dámaso de esconder dela o dinheiro do salão, mas ele
desmentiu a notícia, reafirmando que não tinha encontrado dinheiro no local.
Ana descobriu também que a polícia procurava um forasteiro que havia chegado à
cidade no dia anterior e estava sendo acusado pelo crime. A população estava convencida
de que só poderia ser alguém de fora, já que naquela terra não havia ladrões.
Na mesma noite, depois de se arrumar com
esmero, Dámaso foi ao cinema. Alguns policiais irromperam na sala de projeção e
prenderam um rapaz negro que estava sentado ao fundo. Era o forasteiro acusado
do roubo. Ao retornar para casa naquela noite, Dámaso abriu um buraco sob sua
cama e enterrou o saco onde estavam as bolas de bilhar.
Na segunda-feira, o salão de bilhar
reabriu. Na falta de sua principal atração, o proprietário, Sr. Roque,
distribuiu baralhos pelas mesas, oferecendo carteado enquanto as novas bolas
que havia encomendado não chegavam. Dámaso, que era frequentador do lugar,
soube de detalhes do roubo e perguntou se o dinheiro havia sido encontrado com
o acusado, mas o Sr. Roque respondeu negativamente. Naquela tarde, ao voltar
para casa, Dámaso trazia um plano que lhe permitiria ganhar dinheiro: percorrer
as cidades vizinhas roubando bolas de bilhar de uma para vender em outra. Para dar
início a esse projeto, pediu dinheiro a Ana, mas ela se recusou a lhe entregar
a quantia, que estava reservada para o pagamento do aluguel do quarto em que
viviam. Furioso com essa atitude, Dámaso disse que iria embora e não voltaria
mais. Acostumada com esses rompantes do companheiro, Ana não o levou a sério.
Dámaso passou o dia no salão de bilhar,
onde os fregueses se dedicavam a assistir à transmissão de jogos de beisebol
pela televisão. À noite, ele se dirigiu a um salão de baile, que servia também como
prostíbulo. Uma moça o levou até seu quarto, onde havia um bebê dormindo. Os
dois passaram a noite juntos. Quando ele acordou, ela havia saído e voltou com
a notícia de que toda a população estava no porto aguardando o desembarque do
homem acusado de roubo. Mas acrescentou que sabia que não tinha sido o negro, porque
o rapaz tinha passado a noite com sua colega Glória. Dámaso se dirigiu ao
porto, onde reencontrou Ana. Os dois se reconciliaram. A lancha partiu, levando
o acusado.
Em casa, Dámaso contou que, em conversa
com o Sr. Roque, este lhe havia dito que o custo de novas bolas de bilhar era
muito elevado e, portanto, ele não mais ofereceria a atração, que era a única
diversão dos homens do lugar. Percebendo o estado de melancolia em que estava o
companheiro, Ana sugeriu que ele devolvesse as bolas. Ela retirou as bolas do
buraco onde estavam e as colocou em um baú, para aguardar o melhor momento de
fazer a devolução.
Passaram-se alguns dias. Certa noite, Dámaso chegou em casa bêbado, foi até o baú e retirou o saco com as bolas. Ana tentou impedi-lo de sair naquele estado, mas ele reagiu com violência e partiu. Dirigiu-se ao salão de bilhar, onde penetrou da mesma forma que havia feito anteriormente. No entanto, foi flagrado pelo Sr. Roque, que quis saber dos duzentos pesos. Damásio disse que não tinha encontrado nada na caixa registradora, e o proprietário se dispôs a chamar o alcaide para que ele contasse aquela história, acrescentando: “Tinha duzentos pesos – disse. – E agora vão arrancá-los de sua pele, porque você é ainda mais burro do que ladrão” (p. 63).
Comentários
O título do conto é retirado da fala de
uma personagem que afirma para Ana que o autor do roubo teria que ser
necessariamente um forasteiro: “Nesta terra não há ladrões. Todo mundo conhece todo
mundo” (p. 33). A afirmação evidencia um sentimento de comunidade, de confiança
mútua. No entanto, essa suposição é negada ao longo do enredo. O tratamento que
o jovem Dámaso dedica a Ana, mulher mais velha que o sustenta, é marcado por
gestos de violência: “Ajoelhado sobre ela na cama, Dámaso lhe batera até fazê-la
sangrar” (p. 50). Há também uma clara manifestação de racismo, na atribuição da
autoria do roubo a um “negro monumental” (p. 37), versão aceita sem discussões
por toda a população. Por fim, deve-se notar a pasmaceira generalizada,
manifesta em um comodismo que parece ser um traço de comportamento local:
momentos de trabalho convivem com intervalos de disponibilidade, diversão e
preguiça. Convém acrescentar que esse comportamento está relacionado também a
dois outros aspectos: a simplicidade e o calor. Como exemplo da primeira,
pode-se notar a vida no povoado, simplória e desprovida de atrativos, e, ainda,
o espaço onde vive o casal de protagonistas: “O quarto fazia parte de uma
galeria de casas iguais e independentes, com um pátio comum atravessado por
arames de secar roupa” (p. 30). Quanto ao calor, ele é onipresente, como em todas
as narrativas do volume: “Tudo estava paralisado no calor do meio-dia” (p. 33).
Outro aspecto a ser salientado é a
presença de imigrantes, como os turcos vendedores de tecido e o próprio
forasteiro negro. Ainda nessa linha, deve-se levar em conta a marca da cultura
mexicana como referência. O filme exibido no cinema local é estrelado por Cantinflas
(1911-1993), ator mexicano que se destacou no gênero cômico; a música escolhida
por Dámaso no salão de bilhar é um “corrido
mexicano” (p. 40); e, por fim, o aprumo do protagonista faz com que ele seja
chamado mais de uma vez de “Jorge Negrete” (p. 36 e 45), alusão a um cantor do
México dos anos 1950, ídolo que fazia sucesso sobretudo entre o público
feminino.
A narrativa apresenta uma curiosa precisão
na definição de marcos temporais, o que não é comum no livro. O roubo ao salão
de bilhar ocorre em uma “noite de junho” (p. 37) e a devolução das bolas de bilhar
por Dámaso é ainda mais precisa, ocorrendo “na noite de 20 de agosto – dois
meses depois do assalto” (p. 53). Contudo, coexistindo com essa exatidão, temos
também imagens imprecisas e líricas, como em “pesava sobre o cinema sem teto o
silêncio das estrelas” (p. 37) e “uma praça que se esvaziava, como quem perde
sangue” (p. 44). Além disso, há algo de misterioso na aparição de um gato no momento
em que Dámaso entra no salão para devolver as bolas: “O animal olhou-o sem
mistério através da luz. Dámaso continuou enfocando-o até que se lembrou, com
um ligeiro calafrio, que nunca o vira no salão durante o dia. Moveu a lanterna
para a frente dizendo: ‘Xô’, mas o animal permaneceu impassível. Então houve
uma espécie de detonação silenciosa dentro de sua cabeça e o gato desapareceu
por completo de sua memória” (p. 61). Esse súbito aparecimento e subsequente
desaparecimento do gato remete ao realismo fantástico de que Gabriel García
Márquez se tornou um dos principais representantes na literatura
latino-americana.
Quanto aos personagens, ganha destaque a
figura de Dámaso, porque a narrativa acompanha de perto seus passos. Trata-se
de um homem jovem e sedutor, que submete a seus caprichos tanto a companheira
permanente, Ana, quanto aquela com quem mantém encontros casuais. Ana é
dezessete anos mais velha do que ele e, embora se submeta a seus caprichos, também
sabe exercer controle e comando, seja por sustentá-lo, seja por dirigir suas
ações, como quando orienta Damaso sobre a necessidade de discrição após o roubo
cometido por ele: “é melhor que você não saia. Espere primeiro que eu dê uma
voltinha por lá, como quem não quer nada” (p. 32). As seguidas preocupações que
manifesta para com Dámaso dão uma medida de seu amor por ele, incondicional a
ponto de suportar suas aventuras amorosas, seus projetos mirabolantes e suas
atitudes violentas. Ela se conformava com isso por ser portadora daquela “suave
eficácia da gente acostumada à realidade” (p. 31). A realidade de Ana é sua
paixão por Dámaso.
O desfecho do conto traz certas dúvidas: o
leitor pode se questionar sobre a existência efetiva do dinheiro na caixa registradora
do salão de bilhar. Um ladrão teria entrado antes de Dámaso e roubado os
duzentos pesos? Ou é uma invenção do Sr. Roque, por alguma razão não revelada?
Tais questões assumem grande importância na estrutura geral do livro: trata-se
do momento em que a imaginação, a possibilidade de uma realidade alternativa,
disputa espaço com uma verdade que se mostra entre outras possíveis. É interessante
observar ainda que, ao ouvir a versão da culpa de um forasteiro, Dámaso a achou
tão verossímil, que “por um momento suspeitou dele com uma convicção sincera”
(p. 35), mesmo sendo ele próprio o autor do roubo. Supõe-se, assim, que as
mentiras podem ser construídas de forma tão convincente que chegam a superar
uma verdade conhecida. Essa sugestão não vale apenas para este conto – nem
apenas para a literatura.
“A prodigiosa tarde de Baltazar”
Síntese
O marceneiro Baltazar tinha suspendido
temporariamente seu trabalho de carpintaria para construir uma gaiola
encomendada pelo menino Pepe Montiel. Ao concluir a tarefa, sua esposa, Úrsula,
aconselhou-o a descansar e fazer a barba antes de ir até a casa da rica família
Montiel para entregar a obra. Baltazar deitou-se na rede, mas teve que
abandoná-la várias vezes para atender à curiosidade dos passantes que queriam
ver a gaiola, já considerada a mais bela do mundo. Antes de sair, conversou com
a esposa sobre o pagamento que exigiria. Por insistência dela, chegaram ao
valor de 60 pesos, bastante elevado para uma gaiola, mas levaram em conta o
tempo dedicado ao trabalho e a riqueza da família à qual ela se destinava.
O médico local, Doutor Octavio Giraldo,
ouviu falar da gaiola e foi à casa do marceneiro para fazer-lhe uma proposta
por ela. Sua esposa era paralítica e tinha paixão por aves. Baltazar disse que
a gaiola já estava vendida, porque fora encomendada. Ao saber o preço pedido
por ela, o médico desistiu de comprá-la.
José Montiel, o pai de Pepe, não era tão
rico quanto aparentava e gostaria de ser. Ele desconhecia a encomenda que o
filho fizera e certamente não estaria disposto a pagar nada pela gaiola. Por
isso, quando Baltazar chegou com o artefato, o casal se recusou a aceitá-lo e
repreendeu o filho Pepe, que se pôs a chorar. Por piedade do menino, Baltazar
deu a gaiola como presente, a despeito dos protestos de José Montiel, que não
admitia que ninguém desse ordens em sua casa. Baltazar entregou a gaiola ao
menino Pepe e se retirou.
Úrsula o esperava em casa com um jantar especial de comemoração pelo grande negócio que iria realizar, mas ele se dirigiu ao salão de bilhar, onde foi celebrado pelos amigos, entusiasmados com o feito realizado por ele, de arrancar tanto dinheiro das mãos de José Montiel. Feliz com a recepção, Baltazar se dispôs a pagar bebida para todos. Depois, dirigiu-se ao salão de danças, onde cometeu mais gastos. Para cobri-los, teve que deixar o relógio como garantia de pagamento. Embriagado, não conseguiu voltar para casa e se deitou em uma calçada. Seus sapatos foram roubados, mas ele se recusou a acordar. Quando amanheceu, as mulheres que se dirigiam à missa das cinco horas imaginaram que ele estava morto.
Comentários
Como nos demais contos da obra, essa
narrativa se passa em um clima de calor extremo: “Era a primeira semana de
abril e o calor parecia menos suportável pelo silvo das cigarras” (p. 69). O
clima parece favorecer a acentuação das emoções e a exacerbação das atitudes.
Tudo no conto parece grandioso e exagerado. A gaiola construída por Baltazar
tem proporções admiráveis, aproximando-se de uma obra de arte, como sugere o
médico que deseja comprá-la: “Nem é preciso botar pássaros nela [...]. Bastará
pendurá-la entre as árvores para que cante sozinha” (p. 70). O próprio Baltazar
tem um comportamento que foge ao seu cotidiano, embebedando-se pela primeira
vez na vida. Também o Sr. Chepe Montiel reage de forma destemperada ao que
considera um abuso do filho e uma ingenuidade de Baltazar: “– Estúpido –
gritava. – Leve essa porcaria. Era só o que faltava, um qualquer vindo dar
ordens dentro da minha casa. Porra!” (p. 76).
Já a atitude de Baltazar de oferecer a
gaiola ao menino Pepe não é sinal de exacerbação, mas de grandeza. Com essa
postura, ele, que é apenas “um qualquer”, supera, aos olhos de todos, a
arrogância e a prepotência de Chepe Montiel. Essa inversão de papéis é
significativa e funciona como uma espécie de vingança social, como demonstra a reação
dos amigos de Baltazar ao comemorarem com ele a suposta venda da gaiola. Seu
nome remete a um dos reis magos que levaram presentes ao Cristo recém-nascido,
simbologia que é reforçada pelo fato de o personagem bíblico ser
costumeiramente representado como um homem negro, o que reforça a condição de
marginalização do protagonista do conto.
A atitude de Baltazar é insuportável para
Chepe Montiel porque ela o desmascara em sua impotência. A recusa em pagar pela
gaiola expõe o que ele teima esconder: a decadência financeira. Por outro lado,
a tranquilidade com que o marceneiro faz a vontade de seu filho o destitui de
qualquer imagem de superioridade que ele poderia insistir em manter sem ter as
bases econômicas para isso. Chepe trata mulher e filho com a violência do
patriarca, enquanto Baltazar dedica a ambos um tratamento respeitoso, próprio
de “um qualquer”. Aos olhos de todos, que ignoravam que a gaiola havia sido
dada e não vendida, Baltazar é um herói por ter conseguido arrancar dinheiro do
homem poderoso, demonstrando uma superioridade material; mas o que a narrativa
realmente mostra é sua superioridade moral, que vence não apenas o homem rico,
mas o mundo patriarcal e machista que ele encarna.
O desfecho do conto traz a mesma atmosfera
sugestiva e misteriosa de outras narrativas do volume. O leitor é informado de
que Baltazar sai da casa dos Montiel e se dirige a uma noitada com os amigos em
vez de voltar para a própria casa, onde era aguardado pela esposa Úrsula. No
entanto, é também sabido que, “quase à meia-noite, Baltazar estava em um salão
iluminado” (p. 77). Esse ambiente parece imprimir ao desfecho um clima onírico,
de certo distanciamento do real, que permite questionar o que realmente aconteceu
com o protagonista. Ao amanhecer, as mulheres que se dirigiam à missa das cinco
observam-no “esparramado na rua”, “achando que ele estava morto” (p. 77) – e
essa é a última frase do conto. Essa impressão será verdadeira? Baltazar morre
ao final do conto? Sua morte seria condizente com a perda do equilíbrio em sua
vida, já que ele teria sido vítima de uma bebedeira não habitual.
Essas dúvidas mostram que, mais uma vez,
estamos diante de diferentes versões do desfecho. E o fato de Baltazar terminar
a história envolto em sonhos (prenunciadores ou não de sua morte) aponta para
uma vitória do imaginário, o mesmo que o fizera viver as horas anteriores sob a
delirante fantasia de ter ganhado muito dinheiro. Por outro lado, talvez a
única perda tenha sido a dos projetos que imaginou realizar, vendendo gaiolas a
preços exorbitantes. Essa última possibilidade, aliás, também representa uma
exorbitância em sua personalidade, evidenciando uma ganância que não era comum nele,
como demonstra a discussão que tem com a esposa a respeito do preço da gaiola.
Seja como for, Baltazar é vítima da hybris,
conceito grego que significa atitude desmedida, exagerada, que fugia ao seu
comportamento habitual.
Por fim, merece registro um detalhe sutil
neste conto, sobre a possibilidade de enxergar na gaiola construída por
Baltazar um objeto artístico, mais do que utilitário. O próprio Doutor Giraldo
afirma que não é necessário colocar pássaros nela, bastando pendurá-la para que
cante sozinha. Assim, a decisão de Baltazar de presentear o menino Pepe
subverte a lógica mercantilista, tornando a arte um instrumento dotado de uma
força capaz de questionar hierarquias. O gesto de Baltazar confere dignidade a
ele e aos pobres como ele, o que, em contexto opressor, revela-se “prodigioso”,
já que confere à arte o papel de veículo de esperança libertária.
“A viúva Montiel”
Síntese
Por ocasião do falecimento de José
Montiel, conhecido como Chepe, sua viúva acreditou que o evento seria lamentado
por toda a cidade. No entanto, foram poucas as manifestações de pesar. O que se
generalizou foi o espanto diante do fato de ele ter sido vítima de morte
natural, e não de algum tiro nas costas, como era esperado. Os filhos do casal
residiam na Europa e se limitaram a enviar telegramas de pêsames. Diante de
tamanho desinteresse, a viúva Montiel isolou-se em sua casa.
As dificuldades financeiras em que Chepe
tinha deixado a família não tardaram a se manifestar, trazidas ao conhecimento
da viúva pelo administrador da propriedade, Carmichael. E as perspectivas eram
ainda mais dramáticas, porque a população, não se vendo mais obrigada a se
submeter aos desmandos de Chepe, passou a não consumir mais os produtos que ele
comercializava e impunha a todos. José Montiel tinha sido um déspota cujo
negócio tinha crescido às custas da associação com autoridades corruptas, que
eliminaram os pobres e expulsaram os ricos da cidade, o que tinha possibilitado
a ele adquirir propriedades a preços baixos, fazendo com que enriquecesse
rapidamente, a ponto de enviar todos os filhos para estudos na Europa.
Depois de um ano da morte do marido, a
viúva só recebia Carmichael em sua casa, e o administrador trazia notícias cada
vez mais alarmantes, como roubos de lotes de novilhas. Ele chegou a escrever
para o filho da casa, aludindo às condições de saúde da viúva, mas o rapaz
respondeu que não voltaria, pois temia ser morto. A própria viúva reconheceu a
falência e se limitou a desfrutar das cartas enviadas pelas filhas, que viviam
em Paris, nas quais falavam a respeito da vida tranquila na Europa.
Cerca de dois anos depois da morte do marido, ao adormecer certa noite, a viúva Montiel viu a imagem de Mamãe Grande, que já havia falecido, e lhe perguntou quando morreria, sendo então informada de que isso aconteceria “Quando seu braço ficar dormente” (p. 89).
Comentários
O conto é escrito sob a sombra da morte e
acentuado pelo clima predominante, que, destoando do calor registrado em outras
narrativas, é marcado aqui pelo “inverno” (p. 84). O título do conto anuncia a
protagonista, a viúva Montiel. No entanto, a primeira morte é, evidentemente, a
do marido. O título original do conto é, na verdade, “La viuda de Montiel”, o que sugere que o protagonismo da narrativa
seria, de fato, do marido falecido. A despeito de já estar morto, a presença de
Chepe Montiel é muito forte, não apenas nas recordações amorosas da viúva, como
também na memória de todos os moradores do lugar, que se lembravam dele
sobretudo por suas maldades, representadas pela imagem do chicote que sempre
carregava consigo e que só foi abandonado por ocasião de sua morte, quando foi substituído
por um crucifixo. Não por acaso, seu falecimento provocou em todos um
sentimento pouco piedoso: “Quando o Sr. José Montiel morreu, todo mundo se
sentiu vingado” (p. 81). As causas desse ódio generalizado são esclarecidas ao
leitor: tendo se tornado um “discreto partidário de todos os regimes” (p. 85),
Chepe conseguira associar-se a administradores venais e violentos, que o auxiliaram
a sobrepujar a concorrência e estabelecer o monopólio de sua casa comercial.
Nessa condição, ele impunha a todos o consumo dos produtos que vendia,
obrigação da qual todos se viram livres após sua morte.
No fundo, José Montiel funciona como
metonímia de uma sociedade violenta. Quando o alcaide tenta dinamitar o cofre
de José Montiel, que levara o segredo consigo, a viúva lamenta: “‘Cinco anos rogando
a Deus para que cessem os tiros, e agora tenho que agradecer que disparem
dentro de minha casa’” (p. 83). Em outro momento, a narrativa se refere ao
período de “matança política” (p. 85). Esses dados remetem ao estado permanente
de guerra civil vivido pela Colômbia, tendo em vista as sucessivas disputas
pelo poder por grupos rivais e igualmente violentos.
Nesse contexto, a viúva Montiel é uma
espécie de morta em vida. Ela própria solicita ao administrador que a deixe
“morrer tranquila” (p. 88). Um ano após a morte do “homem que a fizera feliz” (p.
82), ainda ressentida com o descaso da população e enfrentando a decadência
econômica, a viúva reduziu a quase nada seu contato com o mundo, limitando-se
às visitas do administrador Carmichael e às cartas trocadas com os filhos. Essa
morte em vida da viúva tem um significado importante no conto. A despeito de
sua fragilidade e da subserviência sempre demonstrada em relação ao marido (manifesta,
por exemplo, no fato de ele não ter lhe revelado o segredo do cofre), ela
chegou a adverti-lo a respeito de suas ligações com agentes públicos corruptos
e violentos: “– Esse homem é um criminoso [...]. Você precisa aproveitar sua
influência no governo para que tirem daqui esse monstro que não vai deixar um
ser humano no povoado” (p. 86). Dessa forma, fica claro que a viúva expressava uma
voz de repúdio à violência generalizada, colocando-se ao lado daqueles que a
sofriam de forma mais fatal: os pobres que “foram liquidados pela polícia em
praça pública” (p. 86). Acrescente-se a isso a superstição da viúva, que a
fazia temer o hábito de Carmichael de entrar com o guarda-chuva aberto dentro
de sua casa, um dado que reforça a sua ligação com a cultura popular e, por
consequência, com as pessoas mais simples. Nesse sentido, o abandono em que se
encontra a viúva no final da narrativa corresponde a uma derrota social de
ampla dimensão.
O desfecho do conto merece alguma
reflexão. Trata-se de um acontecimento misterioso. Repentinamente, surge a
imagem de Mamãe Grande, a protagonista do último conto do livro, em uma atmosfera
tão mística quanto grotesca, “com um lençol branco e um pente no colo,
estalando piolhos com os polegares” (p. 89). Quando a viúva Montiel lhe
pergunta quando se daria a própria morte, a resposta encerra a narrativa de
forma enigmática: “Quando seu braço ficar dormente” (p. 89). Poucas linhas
antes, o leitor é informado de que a viúva se recolheu naquela noite com o ventilador
ligado e cobriu o polegar direito com esparadrapo, para proteger a unha
machucada pelo hábito de roê-la. Assim protegido, o polegar não sentia as
contas do rosário que ela usava para sua reza noturna.
“Um dia depois do sábado”
Síntese
Em um final de mês de julho, a viúva
Rebeca notou que as telas das janelas de sua casa estavam com buracos.
Imaginando tratar-se de pedras lançadas por meninos da rua, foi até a
prefeitura para reclamar com o alcaide. Encontrou-o fazendo reparos nas janelas
do próprio escritório, e ele a avisou de que não se tratava de artes de
meninos, mas de pássaros que estavam tentando romper as telas de todas as
janelas da cidade para morrer dentro das casas. O calor excessivo parecia ser a
causa da mortandade.
Entre as pessoas atingidas, estava o padre
Antonio Isabel, que tinha quase cem anos de idade. Ele tinha encontrado
pássaros mortos em alguns pontos da igreja, mas culpou os gatos. No entanto, a repetição
do evento fez com que a cidade ficasse empesteada com o cheiro dos cadáveres
dos pássaros, o que levou o religioso a imaginar um tema para um futuro sermão.
A população local já não assistia mais aos sermões dele, porque via no padre
apenas um homem maluco que insistia em dizer que tinha visto o diabo algumas vezes
na vida.
Entre os hábitos regulares do religioso
estava o de sentar-se no banco da estação ferroviária e aguardar a passagem do
trem. Em um sábado, nove dias depois que começaram a morrer as aves, padre
Antonio se dirigia à estação quando viu um pássaro agonizante. Pensou que era
possível salvá-lo e bateu na porta da casa em frente, que vinha a ser
justamente o casarão da viúva Rebeca. Ela o atendeu de má vontade, irritada por
ter sido interrompida quando se preparava para a sesta. O padre notou que não
era possível salvar a criatura e seguiu seu caminho. A viúva dispôs-se
intimamente a escrever ao bispo, seu parente distante, para solicitar-lhe outro
pregador para o povoado. Ao se retirar, o padre teve uma revelação: a morte dos
pássaros poderia ser um aviso do Apocalipse. Refletindo mais profundamente,
chegou a uma conclusão, que expressou com espanto e incredulidade: “O Judeu
Errante” (p. 107). Nesse momento, o trem chegou, mas o religioso não esperou
que ele parasse, como de costume, porque correu para casa, a fim de preparar o sermão
para o domingo.
Dessa forma, o padre não testemunhou um
evento que se tornara raro: alguém desembarcando do trem. Era um rapaz simples,
que teve tempo de ver o padre se afastando e, imaginando que onde havia um
religioso deveria haver um restaurante, resolveu aproveitar o tempo de parada
do trem para procurar um lugar para matar a fome. Ele encontrou o “Hotel
Macondo” (p. 108) e pediu um almoço o mais rapidamente possível. Enquanto
tomava a sopa que lhe foi servida, ouviu o apito do trem e se deu conta de que
não havia mais tempo para alcançá-lo, conformando-se, assim, em permanecer na cidade
naquele fim de semana. Recordou-se que, até uma semana antes, vivia
tranquilamente com a mãe, criando galinhas, mas tudo mudou quando ela resolveu
solicitar sua aposentadoria, reunindo os documentos necessários e encarregando-o
de levá-los até a capital. E foi só ao se lembrar disso que o rapaz percebeu
que havia deixado a pasta de documentos com uma muda de roupas no trem que
perdera. Foi acometido de pânico, de que só se livrou ao dormir, quando se
entregou a um sono confuso.
No dia seguinte, ao acordar, o rapaz se
deu conta de que era domingo. Perguntou à proprietária do hotel se havia missa
no povoado. Ela respondeu afirmativamente, mas acrescentou que ninguém a
assistia, porque todos achavam que o padre tinha enlouquecido. Mesmo com esse
aviso, o rapaz se dispôs a assistir à missa, movido também pela curiosidade de
conhecer alguém com quase cem anos. O padre logo notou sua presença e o
identificou como forasteiro, porque conhecia todos ali. Como era o único
presente na missa, o sermão foi dirigido a ele.
Na casa da viúva Rebeca, sua empregada, esbaforida, avisou-a de que o padre estava tendo um novo acesso de loucura e pronunciava um sermão no qual dizia ter visto o Judeu Errante. Ao ouvir a notícia, a viúva se recordou de ter ouvido essa expressão, quando criança. Imediatamente, ocorreu-lhe que era por isso que os pássaros estavam morrendo. Ela cobriu-se com uma mantilha e se dirigiu à igreja. Estava juntando gente no local, e o padre, orgulhoso do próprio sucesso, determinou ao coroinha que recolhesse donativos, justificando que se tratava de levantamento de fundos para expulsar o Judeu Errante. E acrescentou: “– Depois, pegue o dinheiro e leve para o rapaz que estava sozinho no começo, e diga-lhe que o padre mandou para ele comprar um chapéu novo” (p. 123).
Comentários
O conto “Um dia depois de sábado” tem uma
atmosfera pesada, provocada, inicialmente, por referências históricas trágicas.
O hábito do padre Antonio Isabel de sentar-se diante da estação ferroviária se
manteve “inclusive depois que metralharam os trabalhadores” (p. 108), episódio
dramático do fuzilamento de centenas de obreiros que serviam à United Fruit Company, companhia
bananeira multinacional que explorava ferozmente o território. O velho homem ainda
se recordava do tempo em que passava tardes observando a passagem de inúmeros
vagões carregados de bananas. O padre tinha se estabelecido no povoado “muito
antes da guerra de 85” (p. 99), conflito sobre o qual não há mais informações.
Outro episódio importante é referido logo
no início da narrativa, quando é citado o bisavô paterno da viúva Rebeca, “um
nativo que na guerra da Independência lutou ao lado dos realistas” (p. 93), citando
a guerra travada entre 1810 e 1819 que culminou com a vitória do libertador
Simón Bolivar. O forasteiro que surge na cidade nasceu em uma “chuvosa
madrugada da última guerra civil” (p. 112), referência também imprecisa, mas
que alude aos inúmeros conflitos ocorridos no país.
O calor contribui para acentuar esse clima
pesado. Ele está presente na perturbação que acomete a viúva Rebeca, provocada “em
parte pelo calor” (p. 94), que a faz caminhar “pela rua abrasadora” (p. 95-96).
O narrador confirma essa impressão: “nunca na vida do povoado se fizera tanto
calor” (p. 96). O padre, por sua vez, dá-se conta de “que nunca em sua vida
sentira tanto calor” (p. 105). Tanto as referências bélicas quanto as
temperaturas elevadas confirmam a impressão do forasteiro de estar em um “povoado
morto” (p. 117).
No local, vivem personagens que, de forma
geral, apresentam três traços básicos: a irritação, a lentidão e o
ensimesmamento. A respeito da primeira, nota-se o desdém com que a viúva Rebeca
trata a ave ferida que o padre tenta salvar, evidenciando seu descaso pela vida
alheia – e vale recordar que, no conto “A sesta de terça-feira”, a viúva é a
responsável pela morte de um homem. É também com irritação que a dona do hotel
trata a menina inválida que vive agarrada a um gramofone (ecoando uma
personagem semelhante de “A casa dos Buendía”, um dos apontamentos escritos por
García Márquez para seu romance Cem anos de solidão). O gramofone, aliás, pode
ser visto como um símbolo da lentidão no povoado: é um aparelho de reprodução
sonora já antigo no tempo da ação, o que sugere o vagar com que as novidades
chegam até ali. A própria viúva vive adiando seus planos de ir embora do
povoado, imprimindo um ritmo lento ao próprio destino. É dela ainda a melhor
definição do estado de introspecção que caracteriza os personagens: “Ela não
pensava agora em outra dignidade senão a própria” (p. 94). O padre, igualmente,
mergulha nas próprias reflexões, já que mais ninguém acorre a seus sermões.
Enquanto estão contidos em si, a vida passa lentamente diante dos personagens.
O enredo se desenvolve a partir de um
encadeamento de fatos protagonizados, sobretudo, por alguns dos personagens já
citados. Tudo tem início com a viúva Rebeca, perplexa ao descobrir que as telas
das janelas de sua casa estão rasgadas. Dela, a narrativa passa a se concentrar
no comportamento e nas lembranças do padre Antonio Isabel del Santísimo
Sacramento del Altar. Sem transição, o leitor passa acompanhar, na sequência,
os passos do forasteiro que chega à cidade, onde é obrigado a permanecer por
ter perdido o trem. No desfecho do conto, os três se encontram no mesmo espaço,
a igreja, onde o religioso prega um sermão assistido tanto pela viúva quanto
pelo forasteiro.
A despeito da presença desse trio, o padre
Antonio Isabel pode ser visto como o protagonista do conto, na medida em que
tudo o que ocorre na narrativa o inspira na elaboração do tema de seu sermão de
domingo, “o grande dia de sua vida” (p. 116). Antonio Isabel, que proclamava
ter encontrado o diabo três vezes, agora afirma que tinha se deparado com o
Judeu Errante. Esse personagem da tradição oral cristã teria escarnecido de
Jesus quando este passara carregando sua cruz, recebendo dele o vaticínio de
vagar sem descanso até o fim dos tempos. O mito, que alude ao caráter itinerante
do povo judeu, remete sobretudo ao pecado cometido por ele contra Cristo, o que
o torna o símbolo máximo do mal a ser condenado e evitado. Sua suposta passagem
pelo povoado explicaria a praga que assolava o lugar: a mortandade de pássaros
– embora outra explicação plausível fosse também o calor excessivo. Apesar de
ninguém acreditar nas histórias do velho religioso, seu relato acaba provocando
a curiosidade generalizada, como mostram a atitude da empregada de Rebeca, que
“abriu bruscamente a porta entelada” (p. 120) para lhe dar a notícia do novo
tema do sermão, e a reação da viúva, que se dirigiu apressadamente à igreja.
A narrativa permite ainda estabelecer uma
associação entre a figura do Judeu Errante e o forasteiro recém-chegado. Ao
vê-lo entrar de chapéu na igreja, o padre pensou em expulsá-lo do lugar (cf. p.
119), o que corresponderia ao gesto de Cristo. Além disso, a contribuição
solicitada pelo padre aos fiéis presentes deveria ser destinada a “desterrar o
Judeu Errante” (p. 123), sendo, por fim, entregue ao rapaz “para ele comprar um
chapéu novo” (p. 123). Essa determinação do padre encerra a narrativa – mas não
uma reflexão possível sobre ela.
Essa atitude do padre impede que se
repita, no conto, o sacrifício a que o Judeu Errante é submetido na lenda. Ao
protegê-lo, o religioso ressignifica o ato profano de entrar na igreja de
chapéu, e expõe a condição de marginalizado do rapaz. Dessa forma, o padre, considerado
louco pela população, expõe a lógica de violência que recai sobre os excluídos.
Esse desfecho é tão insólito quanto
diversos outros no livro. No entanto, se retroagirmos sobre a narrativa, talvez
encontremos um sentido para ele. A praga dos pássaros caindo mortos do céu parece
a ação da justiça divina sobre uma cidade de pecadores. De fato, é possível
estabelecer associações entre determinadas atitudes dos personagens e os sete
pecados capitais. Assim, temos a gula,
manifestada pelo forasteiro que perde o trem para aplacar sua fome; a ganância, representada pela viúva
Rebeca e sua casa repleta de trastes; a luxúria,
aludida em uma das recordações do padre Antonio Isabel, que se lembra de um
religioso de seu tempo de seminário que guardava secretamente um bilhete
escrito em francês (“Madame Ivette est
morte cette nuit” – p. 106 – isto é, “Madame Ivete morreu esta noite”),
sugestivo de uma relação sensual; a ira,
encarnada na dona do hotel, que se volta contra a menina inválida do gramofone;
a preguiça, generalizada na
população de vida morosa; a soberba,
demonstrada pelo padre, que não resiste ao sentimento de orgulho diante da
presença de público em seu sermão. Fica de fora apenas um dos pecados, a inveja, mas essa ausência pode ser
explicada pelo comportamento do padre Antonio Isabel no final da narrativa, que
corresponde à virtude que se opõe a esse pecado, a caridade, expressa em seu
gesto de presentear o pobre forasteiro com um chapéu novo. Assim, mais do que
um caso insólito, teríamos aqui a narrativa da ação resistente da virtude
contra o predomínio insistente do pecado.
“As rosas artificiais”
Síntese
A protagonista do conto, Mina, vive em uma
casa com a mãe e a avó cega. Todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, ela
ia à missa e se confessava. Em um desses dias, no entanto, ao acordar, percebeu
que as mangas postiças do vestido que usava estavam molhadas, pois tinham sido
lavadas pela avó, que tinha se esquecido da data. Mina reclamou da intromissão
da avó em sua vida, mas se dispôs a ir à missa. No entanto, retornou quinze
minutos depois, alegando que não poderia usar o vestido com as mangas úmidas e que
o padre não permitiria a confissão sem elas. A avó então ouviu seu choro
contido, e Mina se justificou dizendo que chorava por não ter ido à missa, fato
pelo qual ela, avó, era responsável. Mina foi para o quarto e a avó ficou
dizendo para si mesma que tinha a consciência tranquila. A mãe de Mina entrou
nesse momento e perguntou com quem ela estava conversando. A velha respondeu
que falava sozinha, porque, como já tinha avisado, estava ficando louca.
Em seu quarto, Mina retirou de seu corpete
três pequenas chaves. Com uma delas, abriu uma gaveta inferior de seu armário,
de onde tirou um baú de madeira, que abriu com outra chave. Retirou dali um
pacote de cartas e voltou a trancar o baú e o armário. Dirigiu-se ao banheiro e
jogou o pacote na privada.
Antes das sete horas, Mina instalou-se na
sala e apanhou os apetrechos que usava para produzir rosas artificiais,
preocupada com uma encomenda grandiosa que tinha que cumprir. Pouco depois,
chegou sua companheira de trabalho, Trinidad, que trazia uma caixa de papelão
com ratos mortos que tinham sido recolhidos na igreja. As duas amigas começaram
a trabalhar. Mina admirava a habilidade da colega, e Trinidad notou que ela não
havia ido à missa e estava triste, mas Mina limitou-se a comentar: “– Foi-se
embora” (p. 131). A amiga ficou perplexa, e as duas continuaram seu trabalho.
No meio da manhã, Trinidad foi embora. Mina jogou os ratos mortos na privada e retomou seu trabalho. A avó lhe perguntou a razão de não ter ido à missa, dizendo que não havia sido por causa das mangas úmidas, já que, se fosse por isso, ela sequer teria se dirigido à igreja. Acrescentou ainda que tinha notado que a neta retornara quinze minutos depois, e afirmou que ela tinha encontrado no caminho alguém que a entristecera e que teria motivado a sua permanência no banheiro. A velha perguntou se a neta poderia lhe mostrar o que escondia em seu baú. Mina lhe entregou as chaves, dizendo que ela mesma poderia averiguar. Mas acrescentou que, se quisesse realmente saber, teria que procurar no fundo da fossa. Mina recolheu seu material e, encarando a velha, explicou o que havia feito no banheiro: “– Fui cagar” (p. 134). A avó colocou as chaves na cesta de trabalho de Mina, dizendo que essa justificativa seria válida, se não fosse a primeira vez que a neta lhe dirigia uma vulgaridade. A mãe entrou nesse momento e quis saber o que havia acontecido. A velha respondeu que estava ficando louca, mas que, pelo jeito, só seria mandada ao manicômio quando começasse a jogar pedras.
Comentários
Nada é óbvio ou explícito em “As rosas
artificiais”, porque tudo parece oscilar entre a naturalidade de sentimentos e
gestos corriqueiros e a artificialidade das próprias rosas. Alguns dados são
fornecidos: a ação transcorre na primeira sexta-feira de um mês, dia escolhido
por Mina para sua ida mensal à missa. Além disso, há a presença do calor, como
nas outras narrativas.
No entanto, diversas informações são
escondidas do leitor: Qual é a verdadeira motivação da melancolia de Mina? O
que a teria feito despejar as cartas na fossa? De quem as teria recebido? Esses
mistérios permanecerão até o final da leitura, mas o leitor pode encontrar
algumas pistas para decifrar esses enigmas.
Nesse sentido, é possível supor, por
exemplo, que Mina sofreu alguma decepção amorosa. Provavelmente, ela se
encontrou com o namorado no caminho para a igreja e recebeu dele a notícia de
sua partida, que ela, posteriormente, comunicaria à amiga de forma tão sucinta
quanto enigmática (“– Foi-se embora”, p. 131). As cartas lançadas na fossa
seriam dele, e a despedida teria sido um rompimento definitivo. A reação de
perplexidade da colega, acrescida de uma pergunta também indecifrável (“– E
agora?”, p. 132), permite imaginar que Mina teria sido abandonada em uma
situação delicada – talvez grávida. Se quisermos avançar ainda mais na
hipótese, talvez seja possível supor que, em uma de suas inúmeras idas ao
banheiro, Mina teria provocado um aborto, simbolizado pela caixa com os ratos
mortos – a caixa aludindo ao útero e os ratos, ao feto. Por outro lado, a imagem
da caixa pode aludir ao coração de Mina, agora ocupado por um amor que, como os
ratos, está morto. O desfecho do conto, em que a avó afirma que precisaria
começar a atirar pedras para que reconhecessem sua loucura, remete à passagem
bíblica de João 8,7: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a
atirar pedra nela”. No contexto dessa leitura que estamos desenvolvendo, a ameaça
da avó pode funcionar como uma espécie de compreensão para os pecados
supostamente cometidos pela neta.
Como se vê, considerando as esparsas
informações do enredo, ao leitor só é permitido levantar hipóteses
interpretativas. A verdade não pode ser apreendida plenamente, já que a trama
do conto é urdida com a mesma habilidade com que Trinidad faz seu trabalho. A
narrativa permite que se apreenda algo semelhante à realidade, mas que também
pode ser apenas um simulacro desta, exatamente como as rosas artificiais. Da
mesma forma, Mina se recusa a ir à missa apenas por causa das mangas postiças,
atitude que permite pensar em uma religiosidade apenas superficial – e
artificial. Toda a trama do conto, assim como sua dimensão sintética, parece
caber no baú onde Mina esconde as cartas (que recebia ou que escrevia e não
enviava, não há como saber ao certo). O leitor tem que conviver com a mesma
curiosidade que perturba a avó sobre o segredo de Mina. Quando ela abre o baú,
tem-se a impressão de que tudo será revelado, mas isso não acontece.
Os ratos mortos chamam atenção pelo
inusitado da ocorrência. Trinidad aparece com eles, aparentemente vinda da
igreja, onde eles tinham sido apanhados em armadilhas. Fica sem explicação o motivo
pelo qual ela levou a caixa até a casa de Mina, que, por sua vez, se limita a
lançá-los na mesma fossa onde tinha jogado as cartas. Essa coincidência carrega
algo de grotesco: o lirismo das possíveis cartas de amor e a podridão dos ratos
mortos e da fossa se encontram em um mesmo espaço, como a representar o amor
que apodrece, provocando a desilusão amorosa de Mina. No fundo, o lirismo (e,
provavelmente, os sentimentos do amado de Mina) é tão artificial quanto as
rosas com as quais ela trabalha. Da mesma forma, a rispidez com que Mina trata
a avó permite pensar que seu afeto por ela também era artificial. Superficial
em sua religiosidade, seca em seus afetos familiares e limitada em sua paixão
malsucedida, Mina tem muito em comum com as rosas que fabrica.
“Os funerais da Mamãe Grande”
Síntese
Dirigindo-se aos “incrédulos do mundo
inteiro”, o narrador se propõe a contar “a verdadeira história da Mamãe
Grande”, que exerceu o poder no “reino de Macondo” por 92 anos e “morreu com cheiro
de santidade numa terça-feira de setembro” (p. 137). Depois de superada toda a
agitação provocada por seus funerais, aos quais o próprio Sumo Pontífice esteve
presente, o narrador acredita que seja possível resgatar o grande evento.
Alguns dias antes, Mamãe Grande, cujo nome
verdadeiro era Maria del Rosário Castañeda y Montero, e que agora agonizava
virgem e sem filhos, tinha ordenado que a acomodassem em sua cadeira de balanço
para ditar suas últimas vontades, depois de muito tempo de sofrimento,
assistida pelo médico familiar, que, por fim, rendeu-se à fatalidade. Quando se
deu conta de que o momento da morte havia chegado, a velha senhora entregou seu
anel mais precioso à sobrinha mais nova, Magdalena, que havia abdicado da
herança para dedicar-se à igreja. O centenário padre Antonio Isabel foi chamado
para ouvir suas últimas confissões, enquanto o sobrinho mais velho, Nicanor,
apressava-se para organizar os papéis das propriedades da matrona e convocar o
notário para o registro de suas vontades testamentárias. Suas posses se
estendiam por cinco municípios, onde viviam 352 famílias que lhe pagavam
tributo anualmente pela ocupação das terras em uma cerimônia que durava cerca
de três dias.
Ainda constavam da lista de seus bens três
potes repletos de ouro, enterrados em algum ponto da mansão, revelado em um
mapa que os sobrinhos herdeiros receberam. Contudo, além da parte material, havia
as posses imateriais da velha senhora: “A riqueza do subsolo, as águas
territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos
tradicionais”, etc. (p. 148). Por fim, em seu momento final, a velha senhora
“emitiu um sonoro arroto e expirou” (p. 148).
A notícia de sua morte iminente se
espalhou rapidamente, mas muitos dos habitantes de Macondo custaram a dar
crédito a ela, porque achavam que Mamãe Grande fosse imortal. Logo toda a nação
foi informada do acontecimento, e os jornais da capital exibiram a única foto
de Mamãe Grande que havia em seus arquivos, tirada quando ela estava no
esplendor de sua juventude. O Presidente da República, assim como seus
antecessores, devia a ela sua eleição, “em virtude dos três baús de cédulas
eleitorais falsas que formavam parte de seu patrimônio secreto” (p. 150) e de
contribuições feitas de forma discreta em diversos momentos. Por isso, ele
tomou duas decisões: a de decretar honrarias nacionais à falecida e a de
participar dos funerais, que deveriam ser grandiosos. De fato, até mesmo o Sumo
Pontífice se deslocou de Roma até o povoado de Macondo para assistir às
solenidades. Os preparativos se prolongaram tanto que o corpo de Mamãe Grande
foi embalsamado para resistir ao calor.
O povo aglomerado observava perplexo o
desfile de autoridades. Ninguém percebeu que o cortejo era seguido por urubus
vigilantes, que cobriam de excremento as ruas de Macondo assim que o cortejo
passava por elas. Tampouco se notou que, assim que as portas da grande mansão
foram cerradas, os parentes passaram a disputar o que havia dentro dela.
Por fim, a tumba foi cerrada com chumbo, depois de catorze dias de “preces, exaltações e ditirambos” (p. 158). Agora, a vida de Macondo podia voltar ao normal. O Presidente podia voltar a governar e o povo poderia erguer suas tendas como bem quisesse, porque não havia mais Mamãe Grande para se opor a isso. O único gesto que faltava foi justamente cometido pelo narrador, o cronista que registrou a história da matriarca, porque, segundo declara, “amanhã, quarta-feira, virão os varredores e varrerão o lixo de seus funerais, por todos os séculos dos séculos” (p. 159).
Comentários
Não por acaso esse conto dá título ao
livro. Trata-se da narrativa mais importante da reunião de contos, funcionando
como uma espécie de síntese de elementos que apareceram em outras narrativas. A
presença da morte, por exemplo, já se fizera sentir em “A sesta da terça-feira”
(na visita de mãe e filha ao túmulo do filho e irmão), em “A viúva Montiel” (no
desaparecimento do patriarca) e em “Um dia depois de sábado” (na mortandade de
pássaros); além disso, é um tema igualmente presente em outras obras de García Márquez,
como O outono do patriarca (1975) e Crônica de uma morte anunciada (1981). A
crítica social presente no conto (e em todas as obras do autor) é explicitada
no duelo sutil entre o dentista e o alcaide em “Um dia desses”. As celebrações
que marcam os funerais de Mamãe Grande se aproximam da comemoração de “A
prodigiosa tarde de Baltazar”, na qual o protagonista reúne os amigos para
festejar uma venda que sequer ocorrera.
Alguns personagens do conto transitam
também por outras narrativas, tanto desse livro quanto de outras obras do
autor. O coronel Aureliano Buendía, citado neste conto, também é mencionado em
“A sesta da terça-feira” e em “Um dia depois de sábado” (assim como em
narrativas anteriores, como A revoada,
de 1955, e Ninguém escreve ao coronel,
de 1961, e posteriores, como em Cem anos
de solidão, de 1967); o padre Antonio Isabel, que recolhe as confissões da
matriarca, já exercia suas atividades em “Um dia depois de sábado”, conto no
qual é protagonista. A própria Mamãe Grande surge no final de “A viúva Montiel”
para prenunciar a morte da viúva. Além disso, a narrativa da morte de Mamãe
Grande apresenta um paralelo com a história da morte de uma mulher importante,
em termos e circunstâncias semelhantes, abordada por García Márquez na crônica
“A Marquesinha da Serpe”, publicada em 1954, no jornal El Espectador, de Bogotá.
O espaço da ação do conto também remete a
outros locais retratados na obra. Macondo (lugarejo que o romance Cem anos de solidão tornaria famoso),
que aparece como designação do hotel local em “Um dia depois de sábado”, é
apresentado aqui como “reino de Macondo” (p. 137) logo nas primeiras linhas da
narrativa. É bem possível que a ficção imite a realidade e esse reino tenha sido
inspirado na cidade colombiana onde nasceu García Márquez, Aracataca, de cuja
paisagem faziam parte as plantações de banana que aparecem em alguns contos do
livro. Convém ainda acrescentar que os funerais da matriarca são assistidos por
pessoas vindas de diferentes localidades, como “os gaiteiros de San Jacinto, os
contrabandistas da Guajira, os arrozeiros do Sinu, as prostitutas de
Guacamayal, os feiticeiros da Sierpes e os bananeiros de Aracataca” (p. 137),
compondo uma imagem multifacetada da região. No entanto, não se deve restringir
essa referência geográfica real: tudo o que ocorre nessa cidade fictícia
poderia acontecer em qualquer povoado da América Latina. De certa forma, todos
nós vivemos em Macondo.
“Os funerais da Mamãe Grande” pode ser
também encarado como uma súmula de recursos que se espalham pelos outros contos.
A postura do narrador, por exemplo, acentua uma tendência que apenas se
esboçava nas narrativas anteriores, a do contador de histórias, como se revela
logo nas primeiras palavras do conto: “Esta é, incrédulos do mundo inteiro, a
verdadeira história da Mamãe Grande, soberana absoluta do reino de Macondo” (p.
137). Como se vê, o narrador se coloca como detentor de uma verdade que precisa
ser enunciada “antes que os historiadores tenham tempo de chegar” (p. 138), o
que parece sugerir certa distância entre uma possível versão oficial e a versão
oral que ele se dispõe a contar.
Quanto aos traços de estilo, vale destacar
a ironia, o humor e o uso de flashbacks.
Ao se referir ao médico particular de Mamãe Grande, o narrador conta que “a
natureza concedeu-lhe o privilégio de ser pai de numerosos filhos alheios” (p.
141), o que, evidentemente, é uma alusão irônica aos casos amorosos
clandestinos mantidos pelo doutor em suas andanças pela região. O humor aparece
pela via do exagero e do grotesco, como na descrição da exuberância dos
festejos populares por ocasião dos funerais (cf. p. 142) ou da presença de
“rainhas nacionais de todas as coisas existentes e por existir”, como “a rainha
da manga espada, a rainha da abobrinha verde, a rainha da banana-maçã”, etc.
(p. 157). No caso dos flashbacks,
eles são usados para resgatar o passado da protagonista e explicar como ela se
transformou, ainda muito jovem, na Mamãe Grande (cf. p. 143).
Mas o aspecto estilístico mais importante
do conto é a dimensão do realismo mágico que ele apresenta. Um exemplo é a
lista das posses imateriais de Mamãe Grande, que abrange itens como “os direitos
do homem, as liberdades do cidadão, o primeiro magistrado, a segunda instância,
a terceira discussão, as cartas de recomendação, as contingências históricas”,
etc. (p. 148). Outra evidência do gênero, na narrativa, é a presença do Sumo
Pontífice no evento fúnebre (cf. p. 153). Tais inserções de dados inverossímeis
na narrativa que acompanha de perto o comportamento da gente simples de Macondo
estabelecem a mistura entre o real e o fantasioso, que é a essência do estilo.
Por outro lado, há um esforço de estabelecer verossimilhança na narrativa por
meio da insistência com que o narrador se refere aos meses e aos dias da
semana, como na especificação da data da morte da matriarca (“numa terça-feira
de setembro passado”, p. 137), na explicitação do início de seus sofrimentos
(“em abril deste ano”, p. 140) e na demarcação do tempo de duração dos funerais
(“quatorze dias de preces”, p. 158). Tais registros cronológicos conferem mais
realidade à narrativa, além de promover uma aproximação entre o leitor e os
fatos narrados, na medida em que se referem a datas próximas (“setembro
passado”, “abril deste ano”). No mesmo sentido, a narrativa revela que, ao
saber da morte de Mamãe Grande, o Sumo Pontífice se recuperava do “ferragosto
recente” (p. 153), alusão a um feriado nacional italiano, celebrado em 15 de
agosto.
O conto apresenta ainda um panorama da
sociedade local, recolhendo dados que já haviam aparecido nas narrativas
anteriores do livro. Reproduzindo uma realidade bastante familiar ao caudilhismo
latino-americano, há uma referência às fraudes eleitorais na figura dos “três
baús de cédulas eleitorais falsas” (p. 150) que estavam de posse de Mamãe
Grande e tinham potencial para decidir eleições. Parte importante dessa mesma
realidade é o sistema patriarcal. Na narrativa, a figura de poder é feminina,
mas o exercício desse poder segue a cartilha do patriarcalismo: patrimônio
vasto, submissão da parentela e da população, relações matrimoniais mantidas no
âmbito da própria família, ligações espúrias com o sistema de poder, domínio
ancestral, etc.
Outro aspecto político-social importante
apresentado no conto é a atuação da Igreja católica na região. A associação
entre Estado e Igreja é um dado fundamental do processo de colonização de parte
substancial da América Latina. A relação do padre Antonio Isabel com Mamãe
Grande representa essa aliança de forma explícita. No entanto, não se pode
deixar de notar a presença de certas transgressões a essa religiosidade oficial.
Em torno de Mamãe Grande surge um conjunto de lendas que a tornam uma figura
quase mítica, a qual parece pairar acima do bem e do mal. Além disso, seus funerais
são celebrados de forma festiva, carnavalesca, muito diferente do ritual
imposto pelo catolicismo. Da comemoração tresloucada faz parte todo um conjunto
de práticas condenadas pela moral católica, como jogos, prostituição, fartura
alimentar, danças, etc. Desse modo, vemos que a religião oficial é acompanhada
de uma religiosidade popular igualmente poderosa.
Mas o aspecto mais significativo deste
conto, aquele no qual ele se destaca entre os demais que compõem a coletânea,
diz respeito à composição de personagens, principalmente a protagonista. Depois
da morte de seu pai, Maria del Rosário, então com 22 anos, assumiu o comando
familiar e se tornou a Mamãe Grande, mantendo-se virgem e solteira até o final
da vida. Sua autoridade e seu poder não parecem ter trazido grandes benefícios
para a população de Macondo, já que, na ocasião de sua morte, o que se
celebrava era também a liberdade de que todos passariam a gozar (cf. p. 159). Nesse
sentido, ela pode ser vista com um obstáculo para o futuro, para o novo, para a
felicidade plena da população, representando uma sociedade arcaica,
tradicionalista, enraizada no patriarcalismo e que se perpetua repetidamente,
funcionando, nesse sentido, como metáfora da própria Colômbia.
A personagem Mamãe Grande tem múltiplas
dimensões. Há uma dimensão religiosa, que se estabelece com base no misticismo criado
em torno de sua imagem, o qual levava a população a crer que ela fosse imortal,
e se confirma no prestígio junto à Igreja, demonstrado tanto na relação com o
padre Antonio Isabel quanto, sobretudo, na presença do Sumo Pontífice em seus
funerais. Há uma dimensão de poder, exercido de forma autoritária e absoluta,
explicitada pelo fato de que o povoado tinha crescido em volta de sua família
segundo os padrões do sistema patriarcal, o que lhe dava pleno controle sobre
as relações matrimoniais na família. Além disso, sua influência política era
exercida de maneira plena, tanto às escondidas – como é sugerido pela posse do
baú com cédulas eleitorais falsas, dando-lhe o poder de decidir eleições –,
quanto às claras – o que se nota pela preocupação do Presidente da República em
comparecer a seus funerais. Há uma dimensão econômica, representada pelo imenso
cabedal de riquezas sobre o qual ela apoia sua influência política e que foi
produzido por meio da exploração do trabalho dos camponeses que lhe pagavam
aluguéis. Parte dessa riqueza, aliás, se encontrava em potes de ouro, cuja
condição de objetos escondidos funciona como metáfora dos meandros da extorsão
pela qual esse tesouro foi amealhado. Há, por fim, uma dimensão moral,
ostentada por ela em sua condição de velha matriarca virgem. No entanto, essas
dimensões são ironicamente rebaixadas por um fim grotesco no anticlímax do
gesto que antecede sua morte, quando ela emite “um sonoro arroto” (p. 148),
representativo da abastança excessiva, da qual sua obesidade já era um símbolo.
Seu apelido, Mamãe Grande, mais do que aludir a um comportamento afetuoso ou a
suas dimensões físicas, explica-se tanto pelo matriarcado que exerce quanto
pela imensidão e abrangência de seu poder.
A presença do Sumo Pontífice nos funerais
de Mamãe Grande, como já se afirmou, representa a aliança da igreja com o
sistema de poder que ela representa. Mas há uma curiosidade no comportamento do
religioso: “Durante o dia, distribuía caramelos italianos às crianças que
vinham vê-lo pela janela” (p. 155). Essa prática pode ser vista como uma
alegoria da evangelização: a igreja oferece alguns poucos agrados aos mais
simples, para manter um poder que não consegue fornecer muito além disso –
enquanto, ao mesmo tempo, mantém a solidez da aliança com os poderosos locais. O
padre Antonio Isabel, com sua idade avançada e suas dificuldades de locomoção,
que servem de metáfora para uma instituição envelhecida e pesada, também mantém
fortes vínculos com o poder, do qual retira vantagens importantes, como se pode
notar, por exemplo, no fato de uma das sobrinhas de Mamãe Grande, Magdalena,
filiar-se à Igreja, em cujos cofres, provavelmente, vai parar o anel de diamante
que ela recebe da tia.
O conto traz ainda uma grande quantidade
de personagens secundários: os descendentes bastardos da família, protegidos
pela matrona, e que servem aos herdeiros legítimos; Nicanor, o sobrinho mais
velho, que exerce o comando familiar com mão de ferro, o que permite associá-lo
ao poder militar; Magdalena, a sobrinha mais nova, que escapa do assédio
matrimonial interno da família ao se dedicar à vida religiosa; o médico da velha
senhora, que representa o sistema de favores que o faz beneficiário de um
conjunto de comportamento patético, encarna a submissão do poder político ao poderio
econômico; os políticos, que se perdem em minúcias jurídicas para tentar
justificar e permitir a presença do Presidente no evento; e, por fim, o povo,
que se mantém na condição de observador, temendo o poder de Mamãe Grande e
ainda sem saber o que aconteceria depois de sua morte, embora intuindo que um
novo tempo poderia começar. Nas últimas linhas do conto, surgem os varredores,
para eliminar os vestígios do tempo que se finda.
Aspectos gerais
Realismo
mágico
A obra de Gabriel García Márquez trouxe
novos ares à literatura latino-americana. Em seu país, a Colômbia, ele é visto
como precursor de uma expressividade nova, fundada no resgate de formas populares
e tradicionais de contação de histórias, o que confere certo tom de narrativa
oral a seus textos, como se nota no conto “Os funerais da Mamãe Grande”. Nele,
como já vimos, o narrador se dispõe a contar a versão dos fatos “antes que os
historiadores tenham tempo de chegar” (p. 138). Essa disposição pode ser
estendida a outras narrativas do autor, que revelam a história não de forma documental,
mas, ao contrário, pela exacerbação das fantasias em torno do real.
Para escapar do rigor historiográfico, as
narrativas do livro que analisamos espalham mistérios, enigmas e
questionamentos que se distanciam da realidade absoluta e rigorosa. Por
exemplo, em “A sesta da terça-feira”, o leitor fica sem saber qual é a reação
da multidão reunida para observar a mãe em visita ao túmulo do filho ladrão; em
“Um dia desses”, o dentista oferece uma explicação frágil (“Porque tem um
abscesso”, p. 23) para evitar a anestesia no alcaide explorador, escondendo,
talvez, a verdadeira razão para o castigo, que seria uma vingança contra o
poderoso autoritário; em “A viúva Montiel”, causa estranheza o diálogo final da
protagonista com Mamãe Grande, que lhe aparece (Em visão? Em carne e osso?)
para vaticinar sua morte “quando seu braço ficar dormente” (p. 89); em “Um dia
depois de sábado”, o enredo deixa em suspenso se a visão do Judeu Errante por parte
do padre Antonio Isabel mantinha alguma relação com a presença do forasteiro na
cidade; em “Rosas artificiais”, predomina a impressão de desengano amoroso, mas
não há nenhuma confirmação desse fato ou das circunstâncias em que tal
desalento teria ocorrido.
Mas é a exacerbação do fantasioso que
constitui, de fato, o elemento central da obra do escritor. García Márquez
costuma ser apontado como o principal representante da corrente do realismo mágico
ou fantástico na literatura latino-americana. Essa corrente se caracterizava,
sobretudo, pela mistura entre o corriqueiro e banal e o inesperado e
surpreendente. Tomem-se como exemplo os funerais de Mamãe Grande: trata-se de
um evento natural, mas que é narrado de forma hiperbolizada, tanto pela
enormidade dos festejos (aos quais comparece o próprio Papa) quanto pelo legado
da morta: “Ninguém conhecia a origem, nem o limite nem o valor real do
patrimônio, mas todo mundo acostumara-se a acreditar que Mamãe Grande era dona
das águas correntes e paradas, chovidas e por chover, e dos caminhos vicinais,
dos postes do telégrafo, dos anos bissextos e do calor e que tinha além disso
um direito herdado sobre vida e fazendas” (p. 140). Como se vê, a lista de bens
imateriais de que a matriarca seria proprietária ultrapassa o limite do verossímil.
Outras narrativas apresentam exageros semelhantes: os vinte e cinco anos de
solidão da viúva Rebeca em “A sesta da terça-feira”; a exuberante arquitetura
da gaiola produzida pelo protagonista de “A prodigiosa tarde de Baltazar”; a
inexplicável mortandade de pássaros de “Um dia depois de sábado”.
A comunhão complacente entre o corriqueiro
e o inacreditável constitui uma poderosa interpretação da realidade
latino-americana. Em uma entrevista, o próprio escritor reconheceu esse
aspecto:
Essa
aptidão para ver a realidade de certa maneira mágica é própria do Mar das
Antilhas e também do Brasil. [...] Acho que o Mar das Antilhas me ensinou a ver
a realidade de outra maneira, a aceitar os elementos sobrenaturais como alguma
coisa que faz parte de nossa vida cotidiana. [...] Sim, a história do Mar das Antilhas
está cheia de magia, uma magia trazida pelos escravos negros da África, mas
também pelos piratas suecos, holandeses e ingleses, que eram capazes de montar
um teatro de ópera em Nova Orleans e de encher de diamantes as dentaduras das
mulheres.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Cheiro de goiaba.
Conversas com Plinio Apuleyo Mendoza. Trad. Eliane Zagury. 5. ed. Rio de
Janeiro: Record, 1993. p. 59-60.
De fato, o conjunto de contos de Os funerais da Mamãe Grande compõe uma
grande alegoria da América Latina e de seus aspectos, como violência,
autoritarismo, exploração, desigualdade, prepotência, corrupção, crendice e
criação de mitologias pessoais que apenas reforçam e perpetuam esse quadro
social. Um dos recursos expressivos usados para dar conta desse diversificado
quadro social é a hipérbole, o exagero, o excesso: o padre Antonio Isabel, em
“Um dia depois do sábado”, recorda-se do tempo em que via passar pelos trilhos
“cento e quarenta vagões carregados de frutas” (p. 108); Mamãe Grande é “a
matrona mais poderosa do mundo” (p. 140).
Em algumas narrativas, os desfechos coroam
a atmosfera de absurdo predominante: o final aberto de “A sesta da
terça-feira”; a naturalidade com que o alcaide de “Um dia desses” reconhece a prática
corrupta; a impossibilidade de reconhecimento da verdade em “Nesta terra não há
ladrões” (Afinal, os duzentos pesos foram ou não roubados? Por quem?); o destino
do protagonista em “A prodigiosa tarde de Baltazar”; a cena final de “A viúva
Montiel” (Há uma morte ali?); a fala banal, mas também misteriosa, do padre que
encerra “Um dia depois de sábado”; as pontas soltas, sem solução, de “As rosas
artificiais”. Para que se encerrem definitivamente, as narrativas precisam da
participação do leitor, que deve imprimir a elas sua interpretação pessoal e
criar seu próprio desfecho.
Panorama
social
Chama atenção, no livro de García Márquez,
a frequência com que os títulos dos contos aludem a algum traço de
temporalidade: “A sesta da terça-feira”, “Um dia desses”, “A prodigiosa tarde
de Baltazar” e “Um dia depois de sábado”. Essa estratégia insere as narrativas
em um cotidiano banal. Dessa forma, os eventos narrados ganham uma dimensão de
naturalidade – por mais absurdos que possam parecer. Assim, é parte da vida
corriqueira do povoado latino-americano a violência que termina em assassinato
(“A sesta da terça-feira”); a corrupção que faz vítimas diárias (“Um dia
desses”); a desigualdade social que leva a atitudes incongruentes (“Nesta terra
não há ladrões”); o desprezo pelo trabalho do outro (“A prodigiosa tarde de
Baltazar”); a desconstrução dos caudilhos (“A viúva Montiel”); os pecados de
cada um (“Um dia depois de sábado”); os desencontros amorosos (“As rosas
artificiais”); e a destituição de uma tradição de poder (“Os funerais da Mamãe
Grande”). No conjunto, os contos narram histórias de todos os dias, de qualquer
dia, evidentemente com forte teor crítico, voltado, sobretudo, para a realidade
latino-americana e colombiana, em particular. Nesse sentido, não é difícil associar
Macondo à Aracataca natal de García Márquez. Ficção, sim; mas com muito de
realidade.
Um dos traços mais fortes dessa crítica
diz respeito à denúncia da desigualdade social. A presença marcante de
personagens pertencentes às camadas mais simples da população evidencia não somente
o esforço de expor a vida difícil dos marginalizados, mas, sobretudo, por
intermédio dela, explicita a intenção de escancarar o contraste em relação à
fartura em que vivem os poderosos. São inúmeros os exemplos da representação de
pessoas humildes nos contos: a mãe que protagoniza “A sesta da terça-feira”,
sobre a qual se diz ter “a serenidade escrupulosa da gente acostumada à pobreza”
(p. 10); o casal de “Nesta terra não há ladrões”, formado pela lavadeira Ana e
pelo desempregado Dámaso, em uma narrativa em que aparecem ainda uma jovem
prostituta mãe solteira e o rapaz negro acusado do roubo; outro casal, de “A
prodigiosa tarde de Baltazar”, constituído por ele próprio e sua esposa Úrsula,
que sonham (em vão) com uma vida mais confortável; o jovem forasteiro que chega
desprovido de bens e de esperança ao povoado de “Um dia depois de sábado”; a
moça abandonada de “As rosas artificiais”; a população generalizadamente
submetida aos desmandos e aos caprichos dos poderosos, retratada principalmente
em “A viúva Montiel” e em “Os funerais da Mamãe Grande”.
No polo oposto, do exercício prepotente da
autoridade e do poder, temos o alcaide de “Um dia desses”, a quem o dentista
pensa em punir por seus atos; a viúva Rebeca, de “A sesta da terça-feira”, cuja
atitude de matar um ladrão encontra respaldo e apoio em toda a população local;
o falecido patriarca de “A viúva Montiel”, que exercia controle absoluto sobre
todos, e a própria viúva dele – cuja perplexidade diante do desprezo de todos
pelo marido evidencia a alienação interessada daqueles que se beneficiam da
exploração do outro; a gaiola construída pelo protagonista de “A prodigiosa
tarde de Baltazar” pode funcionar como metáfora da prisão em que se encontram
tanto os habitantes do povoado quanto os próprios membros da família Montiel,
cerceados pela decadência do patriarca e por sua insistência em exercer o mando
sobre a mulher e o filho. O comportamento dos poderosos, ao longo das
narrativas, é sintetizado na forma como a matriarca de “Os funerais da Mamãe Grande”
trata os habitantes da cidade: desprezo, opressão e controle. Não há nenhum
gesto de grandeza associado aos poderosos.
O último conto traz ainda a sutil
referência a alguns instrumentos bastante eficazes na manutenção dessa
estrutura de poder. Um deles é a imprensa, que auxilia no trabalho de glorificar
e sacramentar a imagem de Mamãe Grande, como mostram os noticiários da capital
que se derramam em elogios a ela (cf. p. 149). Outro é constituído pelas forças
policiais, que comparecem na forma da “elite imperturbável de guerreiros
uniformizados” (p. 156), chamados para conter a multidão alvoroçada diante da
presença de autoridades no evento fúnebre. Também a Igreja se comporta de forma
subserviente, na figura do padre Antonio Isabel, assim como a ciência, encarnada
na figura do médico, cujos rendimentos eram garantidos pela proteção da
matriarca, que expulsava da cidade qualquer concorrente. Tais posturas
evidenciam o sistema de favores inerente a toda estrutura patriarcal, cuja
sustentação depende do suporte fornecido por todos os que, de uma forma ou de
outra, se beneficiam dela.
Um dos desdobramentos mais impactantes da
desigualdade social é a violência. Ela está presente em muitas narrativas: no
assassinato do ladrão de “A sesta da terça-feira”; nas ações do prepotente
alcaide de “Um dia desses”; nas atitudes de Dámaso em “Nesta terra não há
ladrões”; no destempero de José Montiel em “A prodigiosa tarde de Baltazar”,
bem como em suas ações recordadas depois de seu falecimento em “A viúva
Montiel”. Comparsa da violência, a morte marca presença, agindo de forma
democrática: atinge tanto o pobre ladrão do primeiro conto quanto a rica
proprietária do último; atinge as vítimas do alcaide de “Um dia desses” e o
autoritário coronel de “A viúva Montiel”.
Contudo, o conjunto de narrativas reserva
um espaço considerável para os despossuídos. Como já dito, os narradores
assumem, preferencialmente, a perspectiva do olhar do povo sobre a história, sendo
que tal perspectiva não é necessariamente boa o tempo todo. Em “A sesta da
terça-feira”, por exemplo, o povo que se reúne em frente à igreja para observar
a mãe do ladrão assassinado assume uma postura ameaçadora. De maneira
semelhante, em “Nesta terra não há ladrões”, a curiosidade das pessoas a
respeito do roubo no salão de jogos e sua sede de vingança, que recai sobre um
homem acusado sem provas, são atitudes temerosas. Ainda nesse último conto, a
protagonista Ana fica sabendo de diferentes versões para o roubo cometido pelo
companheiro, o que sugere a inventividade popular para preencher as lacunas de
fatos que parecem inexplicáveis. Em “A prodigiosa tarde de Baltazar”, populares
dotados de uma curiosidade agressiva acompanham o protagonista na apresentação da
gaiola à família do homem poderoso, o mesmo sentimento coletivo que toma conta
dos habitantes do povoado que assistem aos dias de agonia de Mamãe Grande, no
último conto do livro. As manifestações da massa, de ameaça ou de curiosidade,
representam o limite de reação que esse povo pode ter diante de uma estrutura de
poder que o marginaliza, oprime, explora e empobrece.
Apesar desse panorama pessimista, é
possível entrever alguma dose de esperança, tanto no enredo de alguns contos
quanto no encerramento do último conto – e do próprio livro. Em algumas narrativas,
como “Um dia desses” ou “A prodigiosa tarde de Baltazar”, por exemplo, ao lado
do exercício de poder dos ricos sobre os pobres, também se observa as reações
destes últimos, que possibilitam uma subversão da relação de poder, seja de
forma temporária ou definitiva. Convém lembrar que os contos foram escritos
próximos à Revolução Cubana de 1959, liderada por Fidel Castro, por quem García
Márquez manteve grande admiração ao longo da vida. Assim, é possível entrever,
nos contos, atitudes subversivas que visam a queda da ordem opressora ou, ao
menos, seu questionamento.
No conto final, a morte da matriarca
inaugura uma era de liberdade: “as multidões podiam erguer suas tendas segundo
seu leal modo de ver e entender nos desmesurados domínios de Mamãe Grande,
porque a única pessoa que poderia opor-se a isso e tinha suficiente poder para
fazê-lo começara a apodrecer sob uma plataforma de chumbo” (p. 159). Junto com
essa mulher, é toda uma estrutura de poder que apodrece, encerrando um período
de opressão e permitindo o surgimento de outro, de maior liberdade, pelo menos
até que tivesse início uma nova luta ou que outra personalidade autoritária
fosse alçada ao poder – possibilidades que, no panorama social da América
Latina, são consistentes o bastante para desconfiar de um final esperançoso.
Personagens
A galeria de personagens de Os funerais da Mamãe Grande reforça a
ideia de um livro que compõe um panorama social da América Latina. Temos, na
obra, tipos representativos de diversos setores sociais: o padre, a viúva, o
dentista, a lavadeira, o boa-vida, o taberneiro, o artesão, a hoteleira, a doida,
o forasteiro, a desiludida, o pobre coitado, culminando no festival de figuras
que transitam pelas páginas do último conto. De forma geral, são personagens comuns,
medianos, por vezes tolos ou ingênuos, raramente espertos, que parecem
flagrados como se estivessem de passagem, sem uma origem reconhecida ou um
destino explicitamente declarado.
No conjunto, chama atenção a posição das
mulheres. Não há dúvida da supremacia social de Mamãe Grande, mas, em outras narrativas,
parece prevalecer uma postura mais inferiorizada. No conto “Nesta terra não há
ladrões”, Ana e a prostituta, as mulheres que se envolvem com Dámaso,
comportam-se de forma submissa diante dele; em “A viúva Montiel”, a
protagonista mantém-se constante em sua humildade diante do marido (comportamento
que também se manifesta em “A prodigiosa tarde de Baltazar”), dos filhos e, por
fim, do desprezo generalizado da população pelo falecido; a postura humilde é
também adotada pelas mulheres de “As rosas artificiais”. Por outro lado, também
é notável o espírito prático que as mulheres manifestam, como fica demonstrado
na influência que a esposa exerce sobre Baltazar, ao estimular o marido a obter
o melhor preço pela gaiola que fez, ou, ainda, o senso de realidade de Ana, a
trabalhadora companheira de Dámaso, em “Nesta terra não há ladrões”, que se
esforça para mostrar ao companheiro a melhor atitude a tomar diante das
circunstâncias. De passagem, convém notar que os maridos dessas mulheres são sonhadores
insistentes, que imaginam conseguir fortunas por meios mirabolantes. Mina, a
protagonista de “As rosas artificiais”, embora viva uma desilusão amorosa, não
parece se entregar completamente ao desalento, dedicando-se ao trabalho
artesanal com seriedade. Digno também é o comportamento da mãe de “A sesta da
terça-feira”. Em conclusão, essas mulheres, que oscilam entre a postura
submissa e o pragmatismo – qualidades que podem conviver em um mesmo
personagem, como é o caso de Ana –, desenham um perfil da mulher na sociedade
patriarcal.
O leitor de contos, acostumado a ver em
cada narrativa uma história específica e separada das outras, pode se espantar
ao encontrar o mesmo personagem em histórias diferentes. A esposa de José
Montiel aparece na companhia do marido em “A prodigiosa tarde de Baltazar” e já
sem ele em “A viúva Montiel”. Ao final desse mesmo conto, surge a figura de
Mamãe Grande, protagonista da narrativa que dá título ao volume. O padre
Antonio Isabel é personagem de destaque em “Um dia depois de sábado”,
reaparecendo em papel secundário em “Os funerais da Mamãe Grande”.
O mesmo entrelaçamento ocorre entre os
enredos, sobretudo se levarmos em conta a possibilidade bastante consistente de
que Macondo seja o espaço comum às histórias. A afirmação “Nesta terra não há
ladrões” é retirada da fala de uma personagem secundária do conto de mesmo nome
(cf. p. 33), mas, em “A tarde prodigiosa de Baltazar”, os sapatos do
protagonista são roubados quando ele se encontra desacordado. Se, de fato,
Macondo for a cidade que serve de cenário a todas as narrativas, esse último
dado sugere que, na verdade, nessa terra também há ladrões. Em “A prodigiosa tarde
de Baltazar”, o leitor fica sabendo de uma recomendação de saúde oferecida a
José Montiel: “O médico me proibiu de ficar zangado” (p. 74). Algumas páginas
depois, em “A viúva Montiel”, as circunstâncias da morte do personagem são
esclarecidas: “José Montiel morreu na rede, numa quarta-feira às duas da tarde,
em consequência do acesso de raiva que o médico lhe havia proibido” (p. 82). As
histórias se sucedem, e o leitor começa a sentir como se estivesse convivendo
com conhecidos que, aos poucos, se vão fazendo íntimos, de tanto que aparecem.
Quem tiver interesse em ler Cem anos de solidão,
terá o prazer de reencontrar alguns desses personagens vivendo na mesma Macondo
– com a diferença de que a ação dos contos de Os funerais da Mamãe Grande ocorre, de forma geral, cerca de cem anos
após os eventos do romance.
Espaço:
nasce uma cidade
Conforme já dito, a cidade fictícia de
Macondo ficou famosa no mundo inteiro com o sucesso do romance Cem anos de
solidão, mas já aparecia em textos anteriores do autor. Em Os funerais da Mamãe Grande, Macondo dá nome ao hotel ao qual
recorre o forasteiro de “Um dia depois de sábado” (cf. p. 108) e é também o
nome do povoado onde se passa a ação do conto que dá título ao volume: um dos
atributos de Mamãe Grande é o de ser “soberana absoluta do reino de Macondo”
(p. 137). Além disso, há referências esparsas às amendoeiras que caracterizavam
a paisagem da cidade fictícia. Em sua autobiografia, o autor revelou a origem
do nome Macondo: tratava-se de um povoado próximo de sua terra natal, na
Colômbia, que ele conheceu ainda na juventude, ao passar por ali de trem.
O conjunto dos contos nos permite criar
uma imagem dessa cidade de fantasia: conhecemos a simplicidade do consultório
do dentista em “Um dia desses”, bem como o interior das casas de pessoas de
posses, como a viúva Rebeca de “A sesta da terça-feira” ou os Montiel em “A
prodigiosa tarde de Baltazar”. No conto “Nesta terra não há ladrões”, entramos
em contato com espaços locais mais variados, como o mercado, o salão de bilhar,
a cantina, o porto, o salão de baile, o cinema, etc. O panorama continua em “Um
dia depois de sábado”, que nos permite conhecer a igreja e a pobreza generalizada
da cidade. Dominando todos os ambientes de forma inclemente, há um sol
abrasador, referido praticamente em todos os contos, o que confirma sua unidade
e os associa definitivamente a parte substancial do espaço latino-americano.

