28 outubro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: CANÇÕES ESCOLHIDAS (1)


 

Introdução

Breve histórico da música popular brasileira: quatro triagens e uma mistura

Quando se pensa na história da música popular brasileira – ou simplesmente MPB –, o ano de 1917 é especialmente importante. Foi no Carnaval desse ano que a canção “Pelo telefone”, composta por Donga (1889-1974) e Mauro de Almeida (1882-1956), fez um enorme sucesso.

Ela foi lançada no final de 1916 e, depois, gravada pela Banda Odeon e pelo cantor Baiano, com partitura manuscrita para piano por Pixinguinha. A obra musical foi registrada como samba no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; por consequência, passou a ser considerada o primeiro samba brasileiro.

Ao que tudo indica, “O roceiro” – nome dado anteriormente a “Pelo telefone” – foi uma criação coletiva, um samba de terreiro composto nas famosas festas na casa de Tia Ciata, personagem tão importante da cultura brasileira que chega a aparecer em Macunaíma, de Mário de Andrade.

Assim, a canção atribuída a Donga e a Mauro de Almeida é cercada de incertezas: a letra, a autoria e a própria designação da canção como samba sempre foram motivo de controvérsias. De qualquer forma, por ter sido o primeiro samba brasileiro registrado como tal, “Pelo telefone” inaugurou uma parte relevante da história da música brasileira.

Para compreender com mais profundidade a história da MPB desde 1917, podemos recorrer aos conceitos de triagem e mistura, com base nas reflexões do músico e linguista Luiz Tatit. A triagem ocorreria por meio de um processo de seleção, em que se escolhem alguns elementos e se excluem outros. Já a mistura seria um caso de assimilação (ou incorporação), que, dependendo do ponto de vista, pode ser vista como enriquecimento ou profanação. Para Tatit, a história da MPB pode ser resumida a quatro triagens e uma mistura.

A primeira triagem da música popular brasileira foi de ordem técnica e aconteceu justamente na época de “Pelo telefone”, “quando da chegada dos primeiros aparelhos de gravação no país”1, voltados principalmente para a captação de vozes. Pensando nos gêneros musicais que circulavam na época, podemos dizer que os ritmos de origem africana, como o lundu e a batucada, tinham uma base de percussão cuja tecnologia da época não conseguia gravar. Ao mesmo tempo, a música erudita e o choro já eram escritos em partituras, não havendo, portanto, motivos para registrá-los em áudio. Assim, o samba – sobretudo o partido-alto, caracterizado pelas constantes improvisações – encontrou uma maneira de não ficar apenas na memória de quem o escutava ao vivo.

Poucos anos depois, ocorreu a segunda triagem, que transformou o samba em um produto comercial. O grande responsável por isso foi Sinhô (1888-1930),

que, [...] na busca obstinada pelo êxito pessoal, acabou forjando a forma ideal de uma canção brasileira de consumo. Sua trajetória artística deu o tom e padrão dos anos vinte e influenciou decisivamente os cancionistas – em particular, Noel Rosa – que protagonizaram a era de ouro do samba na década seguinte.

TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia (SP): Ateliê, 2004. p. 96.

 

O rádio e o Carnaval também contribuíram para essa mercantilização do samba, que deixou a marginalidade para ganhar o estatuto de símbolo nacional. Seguindo o mapa musical desenhado por Sinhô, as canções passaram a ser feitas em duas partes, sendo que a primeira funcionava como refrão. Não era incomum que a primeira e a segunda parte fossem compostas por cancionistas diferentes. Muitas parcerias foram construídas desse modo. Surgiram então nomes fundamentais da história da MPB, como Lamartine Babo, Ary Barroso, Braguinha, Ataulfo Alves, Assis Valente, Cartola e, claro, Noel Rosa.

Depois do grande sucesso das marchas carnavalescas, as chamadas canções de “meio de ano” ganharam espaço. Bastante populares fora da época de Carnaval, elas eram composições mais lentas, com letras que exprimiam um conteúdo passional mais pronunciado. Essa é a época de ouro do samba-canção, que teve seu ponto mais alto nas obras de Antônio Maria, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins e Dolores Duran. Nesse período, a música brasileira passou a ser influenciada pelo que se fazia nos Estados Unidos, principalmente por causa do sucesso mundial de Frank Sinatra.

A terceira triagem da MPB aconteceu quando um movimento musical reinventou a canção brasileira, retomando sua força estética. Os responsáveis por isso,

que combateram frontalmente os excessos musicais e semânticos e selecionaram os recursos essenciais para a criação de uma espécie de canção absoluta [...] foram o compositor Tom Jobim e o intérprete João Gilberto.

TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia (SP): Ateliê, 2004. p. 100-101.

 

A Bossa Nova nasceu com o LP Canção do amor demais, de Elizete Cardoso, com canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Em “Chega de saudade”, grande sucesso do disco, quem tocou violão foi justamente João Gilberto, que, meses mais tarde, gravou sozinho a canção. Dessa forma, esse movimento musical, bastante ligado à Zona Sul do Rio de Janeiro, especialmente à praia de Ipanema, “aprumou a canção brasileira expondo o que lhe era essencial”.

Com o aumento das tensões sociais e políticas do início da década de 1960, que culminaram com o golpe civil-militar de 1964, muitos bossa-novistas enveredaram pelo caminho da música de protesto, produzindo canções cujas letras tinham forte carga ideológica. Ao mesmo tempo, sob a influência do rock inglês e estadunidense, surgiram artistas pouco interessados nas questões políticas, que acabaram formando o grupo que ficou conhecido como Jovem Guarda.

Foi aí que se deu a primeira mistura da história da MPB: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, entre outros, propuseram o movimento tropicalista, que se opunha à música de protesto celebrada nos festivais da época, ao mesmo tempo que criticava a ditadura que havia se instalado no Brasil.

o tropicalismo deu a entender que a canção brasileira é formada por todas as dicções – nacionais ou estrangeiras, vulgares ou elitizadas, do passado ou do momento – e não suportaria qualquer gesto de exclusão.

TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia (SP): Ateliê, 2004. p. 103.

 

De um lado, os tropicalistas enriqueceram a música brasileira, fazendo-a dialogar com várias tendências da canção popular. De outro, há quem visse no movimento uma profanação das conquistas que o samba e a Bossa Nova haviam sacramentado ao longo do tempo.

A quarta triagem se deu mais recentemente, por volta da década de 1980, quando o sertanejo, o pagode e a axé-music ganharam a atenção do público, ora explorando a intensidade das emoções, ora estimulando a dança. Era a indústria cultural agindo com toda sua força: tudo era feito para o consumo.

Os verdadeiros sujeitos da quarta triagem foram os representantes das empresas (diretores, produtores e homens de mídia) que respondiam pelo perfil artístico dos grupos e pelos acordos com os veículos de divulgação. Os artistas em sua maioria eram tratados como peças de uma engrenagem que poderiam ser substituídas a qualquer instante sem causar prejuízos significativos à carreira do grupo.

TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia (SP): Ateliê, 2004. p. 107.

 

Letra de música ou poesia?

Antes da Bossa Nova, a maioria absoluta dos cancionistas brasileiros, sobretudo do samba carioca, compunha a letra e a melodia de maneira integrada. Alguns artistas – Noel Rosa (1910-1937) talvez seja o melhor exemplo – tinham um talento especial para a linguagem poética.

Outro exemplo é Vinicius de Moraes (1913-1980), que já era um poeta consagrado quando a Bossa Nova surgiu. Autor de Forma e exegese (1935), Cinco elegias (1943) e Poemas, sonetos e baladas (1946), suas obras mais importantes, Vinicius estava entre os nomes mais relevantes da poesia brasileira da segunda fase modernista.

A partir da década de 1950, Vinicius se aproximou do universo da música popular brasileira. Depois de publicar a peça Orfeu da Conceição, em 1954, ele decidiu encontrar alguém para compor canções para ela. Vinicius foi apresentado ao maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, com quem escreveu “Lamento no morro”, “Se todos fossem iguais a você” e “A felicidade”. A bem-sucedida parceria entre Tom e Vinicius deu origem à Bossa Nova em 1958, com o já citado LP Canção do amor demais.

Na época, Vinicius de Moraes era diplomata e estava servindo em Montevidéu. O Itamaraty nunca se incomodou com os livros de poesia de Vinicius – até porque havia uma tradição de escritores diplomatas no Brasil, como João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto –, mas certo preconceito rodeava seu trabalho de letrista de música popular. Talvez por isso, na capa de Canção do amor demais, apareça escrito: “Música: Antônio Carlos Jobim / Poesia: Vinicius de Moraes”. 

Mas será que letra de música é poesia? A resposta não é simples. Por um lado, os recursos verbais usados na composição musical são semelhantes aos da linguagem poética e, por isso, esses textos podem ser analisados a partir dos mesmos princípios adotados nos textos literários, com a vantagem de que as “letras geralmente fazem parte da vida desses estudantes”. Mas, por outro, a letra de música foi concebida para ser cantada e ouvida, e não exatamente para ser lida.

No mundo dos cancionistas não importa tanto o que é dito mas a maneira de dizer, e a maneira é essencialmente melódica. [...] Seu recurso maior é o processo entoativo que estende a fala ao canto. Ou, numa orientação mais rigorosa, que produz a fala       no canto.

TATIT, Luiz. O cancionista. São Paulo: Edusp, 1996. p. 9.

 

Aqui, precisamos fazer uma digressão sobre a própria natureza da canção popular, retomando algumas reflexões já feitas. Quando pensamos na interpretação da canção popular, temos basicamente quatro níveis de análise.

A letra de canção tem uma dimensão verbal e, nela, há um plano do conteúdo (C1) e um plano da expressão (E1). Nesse caso, tomamos o texto da canção como se fosse um poema. É nosso primeiro nível de análise.

Também é preciso considerar que a letra foi concebida para ser cantada. Assim, o plano do conteúdo e da expressão da letra (C2) é veiculado por meio da melodia (E2), que se torna um novo plano da expressão, originando o segundo nível de análise.

Quando a canção é entoada (C3), com algum acompanhamento instrumental, temos a harmonia (E3) como novo plano da expressão, configurando o terceiro nível de análise.

Por fim, a canção entoada já com acompanhamento instrumental (C4) é apresentada por meio de um arranjo (E4), formando o quarto nível da análise musical.

Esquematicamente, temos:

 

[...] os letristas diferem significativamente dos poetas. O seu principal desafio é encontrar a expressão ou frase linguística que retire da melodia o seu valor prosódico. Só depois entra em pauta a coerência semântica da letra […].

TATIT, Luiz. Revisão dos cem anos de canção brasileira. Lisboa: Oca Editorial, 2021. p. 55.

 

No âmbito dos exames vestibulares, a canção é despida de seu caráter propriamente musical e passamos, de fato, a analisar o texto com base apenas nos elementos verbais. Mas, para a compreensão mais totalizadora das canções, é desejável não somente ler as letras previamente, mas também escutar as melodias, as harmonias e os arranjos.

O trabalho de Vinicius abriu espaço para o aparecimento de muitos letristas, como Newton Mendonça, Paulo Sérgio Valle, Torquato Neto, Aldir Blanc e Paulo Vanzolini. Embora alguns também tenham composto melodias, eles entraram para a história da MPB sobretudo por seu trabalho com as letras das canções. Paulo César Pinheiro foi um deles.

 

Paulo César Pinheiro

Filho de pais operários, nasci (entre) as duas ditaduras de Getúlio. Meu signo é Touro, sou de abril, uma semana depois do descobrimento da terra. Sangue misturado. Caboclo e índio. Meu pai sendo do sertão do Cariri, Campina Grande, Paraíba; minha mãe, de uma das ilhas do litoral de Angra dos Reis, Estado do Rio. Ramos, subúrbio da Leopoldina, foi meu berço.

PINHEIRO, Paulo César. Tô sempre por aí. In: DANTAS, José Maria de Souza. A poética de Paulo César Pinheiro. Rio de Janeiro: Corujinha, [s.d]. p. 15. 

Nascido em 1949, Paulo César Pinheiro foi testemunha da transformação que a Bossa Nova causou na MPB e, depois, da forma como alguns bossa-novistas se aproximaram da música de protesto.

Depois do turbilhão causado por João Gilberto com sua versão de “Chega de saudade”, em 1958, não era incomum que jovens demonstrassem interesse em seguir os passos de João, de Tom e de Vinicius. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Nara Leão, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia são exemplos de artistas que surgiram por influência desse clima propício à MPB, na virada da década de 1950 para a de 1960. Paulo César Pinheiro, ainda adolescente, enveredou pelo mesmo caminho.

Comecei a compor música e escrever verso aos 13 anos. Claro que nesse início era tudo muito fraquinho. Foi um tempo, porém, de exercício cotidiano e aprendizado veloz. No ano seguinte eu já fazia coisa séria.

Aos 14, ainda uma criança, eu levava minha vidinha de subúrbio, jogando bola de gude, rodando pião e batendo bola, mas a música já havia me enredado em suas cordas. Uma canção, feita nessa época, carimbou pro mundo meu passaporte e minha carteira de trabalho. […] João Aquino, meu primeiro parceiro, gravou, numa fitinha, a melodia ainda meio inexata e de andamento rápido demais. Levei pra casa. Na manhã seguinte, a moçada me chamando […], e eu ali no meu quarto, completamente tomado, rabiscando as estrofes, querendo terminar logo […].

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 11. 

Foi assim que nasceu a valsa “Viagem”, gravada instrumentalmente por Baden Powell e, depois, com a letra por Márcia Sousa, em 1969. Em 1972, a música fez bastante sucesso na voz de Marisa Gata Mansa. São mais de 30 gravações diferentes da canção, incluindo uma versão do próprio Paulo César Pinheiro.

João Aquino era primo de Baden Powell e apresentou Pinheiro ao grande violonista, famoso pelas parcerias com Vinicius de Moraes. Baden propôs uma parceira ao garoto, então com 16 anos, e assim nasceu o magnífico samba “Lapinha”. Em 1968, a canção foi apresentada em um festival recém-criado pela TV Record, chamado Bienal do Samba, do qual só artistas convidados podiam participar: João da Baiana, Cartola, Paulinho da Viola, Pixinguinha, Elton Medeiros e Nelson Cavaquinho estavam entre os principais nomes do evento. Baden foi chamado e escolheu apresentar “Lapinha”, que foi interpretada por ninguém menos que Elis Regina. A canção venceu o festival. Naquele momento, Paulo César Pinheiro conheceu seu primeiro sucesso, seu primeiro cachê, sua primeira gravação. Ele se tornava letrista profissional.

Daí em diante, foram centenas de composições, em 60 anos de carreira. Ele emplacou muitos sucessos, como “Pesadelo”, “Canto das três raças”, “Tô voltando”, “Matita Perê”, “Cicatrizes” e “Vou deitar e rolar”. Em um levantamento feito em janeiro de 2008, ele tinha 873 canções gravadas e 1.129 que permaneciam inéditas. Além das parcerias com Baden e Aquino, Pinheiro escreveu letras para melodias de Ivan Lins, Edu Lobo, João Nogueira, Lenine, Guinga, Carlinhos Vergueiro, Toquinho, Cristóvão Bastos, Maurício Tapajós, Francis Hime, Dori Caymmi, Eduardo Gudin, entre tantos outros.

Ele foi casado com a cantora Clara Nunes até 1983, ano em que ela faleceu. Muitas das canções de Pinheiro foram gravadas por ela, como “Portela na avenida” e “As forças da natureza”. Posteriormente, ele se casou com a cavaquinista Luciana Rabello, irmã de Raphael Rabello, o maior violonista da história da MPB. Com ela, compôs diversas canções, como “Velhos chorões” e “Um triste olhar”. 

Síntese da obra

As 14 canções de Paulo César Pinheiro selecionadas pela Unicamp foram gravadas entre 1969 e 1997, e a maioria delas é da década de 1970. De um lado, essas canções retomam o movimento do samba de morro, capitaneado por Elis Regina e Jair Rodrigues, entre 1965 e 1967, no programa O Fino da Bossa; de outro, dialogam com as músicas de protesto, principalmente durante os “anos de chumbo” do governo Médici.

Essas 14 canções foram gravadas por 11 artistas diferentes. Nelas, Pinheiro teve 12 parceiros distintos. Muitas vezes, foram os próprios parceiros que gravaram a canção pela primeira vez. 

Como as canções não fazem parte de um único álbum, é mais difícil tomá-las como uma obra homogênea. Na verdade, trata-se de uma coletânea de textos musicais, que funcionam como um recorte da obra de Paulo César Pinheiro. O melhor caminho, em uma situação como essa, é analisar as canções individualmente.

 

Análise das canções

1. “Canto das três raças”  

Parceria com o sambista Mauro Duarte, “Canto das três raças” é um dos maiores sucessos de Paulo César Pinheiro. Além da gravação de Clara Nunes, há versões com outras intérpretes importantes, como Alcione e Elza Soares.

Ao tratar as “três raças” que, de acordo com uma tradição consolidada na literatura e na música, formaram o povo brasileiro, o eu lírico afirma que “Todo povo dessa terra, / Quando pode cantar, / Canta de dor”.

Assim, “o índio guerreiro / Foi pro cativeiro”, enquanto os negros entoaram “Um canto de revolta pelos ares / No Quilombo dos Palmares”. Mesmo os brancos, de origem europeia, não eram identificados como colonizadores violentos, mas sim associados à “luta dos Inconfidentes”.

O “soluçar de dor / No canto do Brasil” representa então uma história marcada pela injustiça e pela desigualdade, o que é reforçado na última estrofe, quando a figura do “trabalhador” parece resumir a situação de exploração vivida por diversos grupos étnicos e sociais na história do Brasil. Dessa forma, a miscigenação passa a ser associada a um processo comum de sofrimento, contrariando a leitura celebratória tradicional da formação nacional.

Ninguém ouviu

Um soluçar de dor

No canto do Brasil.

Um lamento triste sempre ecoou,

Desde que o índio guerreiro

Foi pro cativeiro e, de lá, cantou.

 

Negro entoou

Um canto de revolta pelos ares

No Quilombo dos Palmares,

Onde se refugiou.

Fora a luta dos Inconfidentes,

Pela quebra das correntes,

Nada adiantou.

 

E, de guerra em paz,

De paz em guerra,

Todo o povo dessa terra,

Quando pode cantar,

Canta de dor.

 

Ô, ôô, ôôô...

 

E ecoa noite e dia,

É ensurdecedor.

Ai, mas que agonia,

O canto do trabalhador!

Esse canto que devia

Ser um canto de alegria

Soa apenas

Como um soluçar de dor.7

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 113. 

Paulo César Pinheiro conta que, no momento de compor a canção com Mauro Duarte, eles pensaram em uma estrutura de samba-enredo, com sua cadência melódica, seus refrãos, seus temas.

Com o rascunho sonoro adiantado fui para casa devanear, buscar o motivo, procurar uma história conveniente ao que se tinha imaginado. Lembrei da formação racial do Brasil e especialmente da minha genética índia e europeia por parte de mãe, e negra do meu lado paterno. As três raças fundamentais desse país mestiço. […] Era isso. O canto triste da miscigenação. O aperto da saudade do branco colonizador, o banzo africano e a dolência nativa.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 111.

 

2. “Cordilheira”

A letra de “Cordilheira” nasce como um poema e é apresentada a Eduardo Gudin. Após tentar sem sucesso compor uma melodia para os versos, ele mostra o texto a Sueli Costa, que,

[...] com competência, talento e principalmente prática nessa maneira de compor, descobriu a balada que havia por trás daquelas palavras. A canção ficou primorosa. Exultei. Minha parceira apresentou-a pra Simone que, imediatamente, mostrou-se encantada.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 199. 

A canção acabou censurada em 1974, no auge da repressão militar, sem muita explicação. Talvez fosse pelas referências à “procissão dos suicidas”, ao “coração dos comandantes”, ao “exército de aflitos”, à “ascensão de Iscariotes” ou à proximidade entre os “soldados” e à “orgia”. De qualquer forma, a letra tem um conteúdo que não deixa de ser político.

Eu quero ter a sensação das cordilheiras,

Desabando sobre as flores

Inocentes e rasteiras.

Eu quero ver a procissão dos suicidas,

Caminhando para a morte

Pelo bem de nossas vidas.

Eu quero crer na solução dos evangelhos,

Obrigando os nossos moços

Ao poder dos nossos velhos.

Eu quero ler o coração dos comandantes,

Condenando os seus soldados

Pela orgia dos farsantes.

Eu quero apenas ser cruel naturalmente

E descobrir onde o mal nasce

E destruir sua semente.

 

Eu quero ter a sensação das cordilheiras,

Desabando sobre as flores

Inocentes e rasteiras.

Eu quero ser da legião dos grandes mitos,

Transformando a juventude

Num exército de aflitos.

Eu quero ver a ascensão de Iscariotes

E, no sábado, um Jesus

Crucificado em cada poste.

Eu quero ler na sagração dos estandartes

Uma frase escrita a fogo

Pelo punho de Deus-Marte.

Desabando sobre as flores,

Caminhando para a morte,

Obrigando os nossos moços,

Condenando os seus soldados,

Transformando a juventude,

Um Jesus crucificado,

Uma frase escrita a fogo...

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 201-202. 

Do ponto de vista estrutural, a canção se vale de uma figura de linguagem chamada disseminação e recolha. Algumas imagens são espalhadas pelas duas primeiras estrofes e depois são retomadas, sob a forma de enumeração, no final da letra da canção.

Do ponto de vista do conteúdo, há várias referências ao poder, ao autoritarismo e às imposições de toda ordem: são as “cordilheiras, / Desabando sobre as flores / Inocentes e rasteiras”; são os “evangelhos, / Obrigando os nossos moços / Ao poder dos nossos velhos”; são os “grandes mitos / Transformando a juventude / Num exército de aflitos”. Essa aflição e essa intensidade afetiva se manifestam também na “procissão dos suicidas, / Caminhando para a morte / Pelo bem de nossas vidas” ou na “ascensão de Iscariotes / E, no sábado, um Jesus / Crucificado em cada poste”.

Talvez a referência mais explícita ao universo político brasileiro da época esteja na passagem: “Eu quero ler o coração dos comandantes, / Condenando os seus soldados / Pela orgia dos farsantes”. Nesses três versos, a condenação dos soldados também pode ser interpretada como a representação de um poder autoritário cujas motivações são desconhecidas.

Apesar de todas as dificuldades, contradições e imposições do mundo, o eu lírico mantém suas esperanças e tenta ressignificar a crueldade, transformando-a numa maneira de “descobrir onde o mal nasce / E destruir sua semente”. Assim, investiga-se a origem do mal, sugerindo que a crítica também é ética: trata-se de compreender os mecanismos da violência para superá-los.

Em 1978, a canção foi autorizada a ser gravada. O primeiro registro é da própria Sueli Costa, parceira de Paulo César Pinheiro na composição. A segunda – e mais conhecida – é de Simone, no LP Pedaços, de 1979.

 

3. “Desenredo”

Organizada em quartetos, com rimas toantes nos versos pares, e um refrão com referência explícita a Minas Gerais (“Ê, Minas, ê, Minas, / É hora de partir, eu vou, / Vou-me embora pra bem longe”), a canção “Desenredo” é conduzida pelo eu lírico em 1ª pessoa, em uma reflexão metafísica da existência.

O par vida e morte aparece em vários momentos, explorando antíteses (“A morte tece o seu fio / De vida feita ao avesso”, “A vida é o fio do tempo, / A morte é o fim do novelo”) e quiasmos (“A morte que a vida anda armando, / A vida que a morte anda tendo”). Esse jogo de oposições e repetições invertidas também aparece em “O olhar que prende anda solto, / O olhar que solta anda preso”, sugerindo algo que está sendo tecido, como um emaranhado de fios, o que combina com o título da canção. Essas inversões semânticas produzem uma sensação de instabilidade, como se a própria lógica do mundo estivesse embaralhada, exigindo do sujeito um esforço constante de interpretação.

O substantivo desenredo significa justamente a ação de desenredar, de desembaraçar, de desemaranhar. Talvez por isso a canção faça tantas referências a esse campo semântico: “A morte tece o seu fio”, “Mas, quando eu chego, eu me enredo / Nas tramas do teu desejo”, “A vida é o fio do tempo, / A morte é o fim do novelo” e “Mas, quando eu chego, eu me enrosco / Nas cordas do teu cabelo”.

Guimarães Rosa publicou um conto chamado “Desenredo” em Tutameia: terceiras estórias, que narra a história, cheia de reviravoltas, de Jó Joaquim. Esse conto pode ter sido uma influência para a canção de Paulo César Pinheiro, que, não à toa, faz referência a Minas Gerais no refrão. Rosa imortalizou-se na literatura justamente por tematizar o sertão mineiro e os campos gerais, com uma obra que parte da geografia regional para discutir temas universais. É o que se chama de regionalismo universalizante: a espiritualidade, o misticismo, a religião, a filosofia e a loucura são explorados em narrativas que se passam no interior de Minas, que se torna um ambiente mágico.

A postura contemplativa em “Desenredo” – marcada pela valorização do olhar (“O olhar que assusta anda morto, / O olhar que avisa anda aceso” e “O olhar mais fraco anda afoito, / O olhar mais forte indefeso”) – é compatível com elementos do regionalismo universalizante, por meio do qual o eu lírico se espanta com tudo o que

vê e reconhece “O mundo todo marcado / A ferro, fogo e desprezo”.

Em sua tentativa de compreensão do mundo, o eu lírico vê a pessoa amada como seu porto seguro, em meio às contradições da existência. Assim, há pares de versos que, posicionados sempre nos mesmos pontos do texto, funcionam como uma espécie de segundo refrão da canção: “Mas, quando eu chego, eu me enredo / Nas tramas do teu desejo”, “Mas, quando eu chego, eu me perco / Nas tranças do teu segredo” e “Mas, quando eu chego, eu me enrosco / Nas cordas do teu cabelo”.

 

4. “Estrela da terra” 

Sem refrão, a letra de “Estrela da terra” se organiza a partir de contínuas ressalvas, introduzidas pela locução conjuntiva “Por mais que”. Embora haja “dor”, “agonia” e “treva sombria”, ainda que “a canção faça alarde” e “o cristão se acovarde”, mesmo que “a paixão não se afoite” e “minha alma se amoite”, há uma esperança, representada pela figura da “estrela”. Dessa forma, a repetição da estrutura concessiva cria um movimento de resistência: cada adversidade é apresentada para, em seguida, ser simbolicamente superada pela luminosidade da estrela.

Assim, na primeira estrofe, fala-se do “claro da estrela do dia / Sobre a terra da promissão”; na segunda, do “brilho da estrela da tarde / Na boina do meu capitão”; na terceira, do “raio da estrela da noite / Cravada no meu coração”. Todas elas – sugerindo que o dia todo está representado pelas estrelas – são identificadas com o traço semântico da luminosidade, do fulgor e da claridade, que funcionam como “luz que é uma guia / Fincada no azul da amplidão”, como “chama que arde / E que não se apaga mais não” e como “clarão que é um açoite, / Mais forte e maior que a paixão”.

Essas regularidades de estruturação sintática compensam a ausência de refrão, pois a canção, embora sem repetições completas, tem um ritmo marcado pela previsibilidade. A figura da “estrela” também aparece em outras estrofes, contribuindo para a coerência semântica do texto: “E a gente rebenta do peito a corrente, / Com a ponta da lâmina ardente / Da estrela da palma da mão” e “E a gente já prepara o chão pra semente, / Pra vinda da estrela cadente / Que vai florescer no sertão”.

Na última estrofe, a expressão “estrela da terra” é usada, retomando o título da canção e explicitando que se trata de uma metáfora da esperança de dias melhores: “Igual toda lenda se encerra, / Virá um cavaleiro de guerra, / Cantando do alto da serra, / Montado no seu alazão, / Trazendo a estrela da terra, / Sinal de uma nova estação”.

 

5. “Evangelho”

“Evangelho” é uma canção de quatro sextilhas, com versos oscilando entre nove e dez sílabas poéticas, com rimas no esquema AAABBB (primeira e segunda estrofes), ABABAB (terceira estrofe) e AABBCC (quarta estrofe).

Todas as estrofes começam com a interjeição “Eta”, que mistura surpresa e lamento. Em seguida, aparecem imagens marcadas por uma visão fatalista da existência: “mundo que a nada se destina”, “vida, essa vida de infelizes”, “tempo que em pouco nos devora” e “morte que acaba tempo e vida”. Cada estrofe também se encerra com um verso que confirma o pessimismo do texto: “Estes pobres de nós seres humanos”, “Dessas tristes de nós vidas humanas”, “A nossa mocidade onde andará?” e “Mais a morte alimenta a roda viva”.

Assim como ocorre em “Desenredo”, a canção “Evangelho” está repleta de antíteses, algumas vezes estruturadas em construções condicionais (“Se maior se faz, mais se arruína”; “Se mais deuses há, mais são profanos”), outras vezes organizadas por meio de relações de proporcionalidade (“Quanto mais coração, mais cicatrizes”) e (“Quanto mais se partir, tempos afora, / Mais nos tempos de agora se estará”).

O título da canção é polissêmico e pode ser interpretado de maneiras diferentes. Em um sentido estrito, a palavra evangelho remete, de acordo com o Houaiss, a “cada um dos quatro livros dos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João, incluídos no Novo Testamento, que narram especialmente a vida, a doutrina e a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo”. De fato, há passagens da canção que podem ser interpretadas como alusões de natureza religiosa, como acontece em “De dentro do bem é que o mal trama”. Ou seja, é como se a letra remetesse especialmente aos elementos fatalistas do texto bíblico.

Mas evangelho, ainda segundo o Houaiss, também pode significar “princípio, doutrina etc. indiscutível por corresponder à verdade, segundo aqueles que a defendem” ou “qualquer coisa que mereça crédito, confiança por parte de alguém”. Nessa perspectiva, a letra da canção funcionaria como a revelação de uma dura verdade: “É o fim, mas pode ser o começo, / Quem tenta fugir faz sempre o avesso, / E, quanto mais vidas se cultiva, / Mais a morte alimenta a roda viva”.

Por fim, a imagem da “roda viva” – que pode ser uma referência à canção homônima de Chico Buarque – reforça a ideia de circularidade incessante, em que fim e começo podem coexistir.

 

6. “Mordaça” 

Em 1974, Márcia, Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro montaram o espetáculo O importante é que a nossa emoção sobreviva, título que foi extraído da canção “Mordaça”, que encerrava o show. Estávamos no auge dos “anos de chumbo” do governo Médici, em um momento de profunda repressão e censura.

Quando a música foi composta, em 1972, Gudin disse a Pinheiro que, para ele, a dimensão política da letra era evidente.

– Tá muito claro e contundente. Não sei se passa na censura, mas é o retrato do que o Brasil está vivendo. A mensagem é definitiva. E a frase “o importante é que a nossa emoção sobreviva” é um achado. Vai dar caldo.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 168.

A música acabou passando pela censura e foi registrada em um disco histórico do MPB4 (em que foram gravadas outras canções com letra de Paulo César Pinheiro, como “Agora é Portela 74”, “Conversa com o coração” e “Maldição de Ravel”) e deu nome ao famoso espetáculo de 1974.

Tudo o que mais nos uniu separou,

Tudo que tudo exigiu renegou,

Da mesma forma que quis, recusou,

O que torna essa luta impossível e passiva.

 

O mesmo alento que nos conduziu debandou,

Tudo que tudo assumiu desandou,

Tudo que se construiu desabou,

O que faz invencível a ação negativa.

 

É provável que o tempo faça a ilusão recuar,

Pois tudo é instável e irregular,

E, de repente, o furor volta,

O interior todo se revolta

E faz nossa força se agigantar.

 

Mas só se a vida fluir sem se opor,

Mas só se o tempo seguir sem se impor,

Mas só se for, seja lá como for,

O importante é que a nossa emoção sobreviva.

 

E a felicidade amordace essa dor secular,

Pois tudo no fundo é tão singular,

É resistir ao inexorável,

O coração fica insuperável

E pode em vida imortalizar.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 169. 

O uso das formas verbais “separou”, “renegou”, “recusou”, “debandou”, “desandou” e “desabou”, que encerram os três primeiros versos das duas estrofes iniciais da canção, sugere as dificuldades da época, marcada por traços de desunião, discordância e decadência. O pretérito perfeito produz um efeito de constatação: trata-se de um balanço de perdas já consumadas. Por isso, a “luta [era] impossível” e “a ação negativa” era “invencível”.

Na terceira estrofe, porém, surge a esperança de transformar aquela ordem política: como “tudo é instável e irregular”, pode ser que “o furor” volte e que o “interior todo” se revolte, fazendo “nossa força se agigantar”. Mas isso só será possível “se a vida fluir sem se opor” e “se o tempo seguir sem se impor”.

O eu lírico condena as oposições e as imposições, identificadas com a ditadura, ao mesmo tempo que se valorizam o fluxo da vida e a passagem do tempo, símbolos da esperança de um mundo melhor. Dessa forma, é destacada a importância de garantir “que a nossa emoção sobreviva”. A emoção, nesse contexto, não é sentimentalismo, mas energia vital e coletiva, capaz de sustentar a resistência quando outras formas de ação são cerceadas.

O substantivo mordaça normalmente é usado para designar, como aponta o Houaiss, a “tira fina de pano, corda ou qualquer outro material com que se ata a boca de uma pessoa, impedindo-a de falar ou gritar”. Em um primeiro momento, o título da canção parece fazer uma referência metafórica à censura praticada na época. No entanto, no final da canção, há uma inversão de sentido, e a “dor secular” é que vai ser amordaçada pela “felicidade”.

[…] como todos naquela época, lutávamos para mudar o mundo, denunciávamos injustiças, encarávamos o poder autoritário de uma ditadura militar sangrenta e obscura. Fazíamos isso com a única arma que tínhamos: a nossa arte.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 167.

 

7. “Na volta que o mundo dá” 

A canção “Na volta que o mundo dá” é umas das mais recentes entre as listadas, ao lado de “O dia em que morro descer e não for carnaval”. A estrutura poética da letra é rígida: nove tercetos, sempre com esquema de rimas AAB. Todos os últimos versos de cada estrofe rimam entre si. Essa regularidade formal reforça, simbolicamente, a ideia de retorno e circularidade, antecipando o desfecho da narrativa.

A letra é francamente narrativa: o eu lírico, falando em 1ª pessoa, explica que teve uma vontade de se “aventurar nesse mundo, / Pra ver onde o mundo vai dar”. Assim, começa uma sequência de ações, representando vários momentos de uma viagem ao redor do mundo. As transformações são sugeridas principalmente por marcos espaciais: “Saí do meu canto na beira do rio / E fui prum convés de navio, / Seguindo pros rumos do mar”, “Pisei muito porto de língua estrangeira”, “Varei cordilheira, geleira e deserto”. Durante as aventuras, ele amou “muita moça solteira” e fez “muita cantiga por lá”.

Em determinado momento, aquele “desejo profundo” da aventura se dilui, e “Foi dando uma coisa em meu peito, / Um aperto difícil da gente explicar”. O eu lírico é então tomado por sentimentos negativos – saudade, tristeza, angústia, tédio – e esses estados afetivos marcam a passagem do plano da aventura, com sua dimensão quase épica, para o plano íntimo da subjetividade e do lirismo, deslocando o foco da experiência exterior para a inquietação interior. É aí que ele decide retornar: “Juntei os meus troços num saco de pano, / Telegrafei pro meu mano / Dizendo que ia chegar”.

A última estrofe funciona praticamente como a moral da história de uma fábula, explicitando o tema da letra da canção e a conclusão do eu lírico: “Agora aprendi por que o mundo dá volta, / Quanto mais a gente se solta, / Mais fica no mesmo lugar”.

Entretanto essa “moral” não deve ser tomada como uma lição simplificadora, mas como formulação paradoxal, já que o movimento de libertação (“se solta”) conduz à permanência (“mesmo lugar”), sugerindo que a identidade e o pertencimento não se anulam pela distância geográfica. Assim, a volta ao mundo não é apenas física, mas existencial: viajar amplia a experiência, mas confirma a centralidade do ponto de origem.

 

8. “Navio fantasma” 

Em quatro quartetos, com predominância de versos com oito sílabas poéticas e rimas alternadas, “Navio fantasma” trata do sofrimento amoroso. O eu lírico começa a canção afirmando que ele suporta bem os dias, mas as noites são mais difíceis, pois é durante as madrugadas que ele acorda “Sangrando canções de veneno”.

Só se descobre que esse sofrimento é provocado pela impossibilidade de realização amorosa na segunda estrofe, quando o eu lírico passa a se referir a um interlocutor usando a 2ª pessoa: “O sol dos teus olhos me mata, / E a lua dos meus te apavora”. O uso das formas verbais “mata” e “apavora” e a antítese entre as figuras do sol e da lua sugerem a incompatibilidade da relação afetiva, confirmada pelos paradoxos dos versos finais da segunda estrofe (“Derrama-se o ouro na prata, / Inventa-se o sangue da aurora”), em que o ouro do sol é derramado sobre a prata da lua e a aurora, ao marcar o final da noite e o início do dia, é repleta de sangue.

Assim, o sofrimento não é só do eu lírico, pois o jogo entre sol e lua indica uma relação em que ambos se ferem, revelando uma reciprocidade trágica. A aurora “de sangue” transforma o momento tradicionalmente associado ao renascimento em imagem de violência, sugerindo que não há reconciliação possível entre os amantes.

Na terceira estrofe, as referências explícitas à “saudade” e à “agonia” não deixam dúvidas sobre o tema do texto, e o sofrimento amoroso passa a ser representado por metáforas marítimas: “Marés de saudade já cedo, / Batendo nas praias vazias, / E o meu coração nos rochedos, / Morrendo em marés de agonia”.

Essas metáforas continuam a ser usadas na última estrofe, em que se diz que “assim são as águas da vida”. Os dois versos finais resumem a incompatibilidade entre os amantes: “Tu és a cidade perdida, / E eu sou o navio fantasma”. Essa metáfora final mostra que o eu lírico se define como “navio fantasma”, isto é, sujeito errante, condenado a vagar sem porto seguro, enquanto a ex-amante é “cidade perdida”, espaço inacessível. O amor se torna, assim, de impossível realização.

 

9. “O dia em que morro descer e não for carnaval” 

Wilson das Neves (1936-2017) foi um dos grandes nomes do samba brasileiro da segunda metade do século XX. Cantor, compositor e baterista, ele tocou com grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Tom Jobim, Carlos Lyra, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Paulo César Pinheiro conta que, certa vez, estava conversando com Wilson a respeito da violência no Rio de Janeiro, do descaso dos governantes em relação à população dos morros, da criminalidade crescente nas comunidades e sobre as

[…] mazelas geradoras do terror instalado pelo poder paralelo na mais bela cidade do mundo […].

Esse era o tema da nossa prosa naquele calor de verão findando. E aí ficamos pensando. As escolas de samba cariocas são quase todas ligadas a esses morros. As comunidades é que fazem o maior espetáculo da Terra, que é o carnaval. Trabalham o ano inteiro por essa festa efêmera de três dias, quando se transformam na nobreza do lugar. É quando são ouvidos. É quando lideram. É quando a tristeza da miséria do cotidiano abre alas para uma alegria surpreendentemente impensável. E aí se saciam. E o sofrimento desaparece. Para tudo se acabar na quarta-feira, como disse Vinicius.

Ficamos imaginando, então, a possibilidade de o morro descer sem ser carnaval. Pra guerrilha urbana propriamente dita. Meu pensamento voou. O cérebro ferveu. A mente viajou. Comecei a comparar as imagens de um desfile, com todos os rituais que o cercam, com a guerra civil declarada.

E saiu o samba que se segue, como um alerta pras autoridades constituídas, antes que seja tarde demais.

 

O dia em que o morro descer e não for carnaval,

Ninguém vai ficar pra assistir o desfile final,

Na entrada rajada de fogos, pra quem nunca viu,

Vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil.

(É a guerra civil...)

 

No dia em que o morro descer e não for carnaval,

Não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral,

E cada uma ala da escola será uma quadrilha,

A evolução já vai ser de guerrilha,

Que a alegoria é um tremendo arsenal.

O tema do enredo vai ser a Cidade Partida,

No dia em que o couro comer na avenida,

Se o morro descer e não for carnaval.

 

O povo virá de cortiço, alagado e favela,

Mostrando a miséria sobre a passarela,

Sem a fantasia que sai no jornal.

Vai ser uma única escola, uma só bateria.

Quem vai ser jurado? Ninguém gostaria,

Que desfile assim não vai ter nada igual.

 

Não tem órgão oficial, nem Governo, nem Liga,

Nem autoridade que compre essa briga,

Ninguém sabe a força desse pessoal.

Melhor é o Poder devolver a esse povo a alegria,

Senão todo mundo vai sambar no dia,

Em que o morro descer e não for carnaval.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 176-178. 

Logo na primeira estrofe, a expressão “desfile final” já mostra que não se trata da exibição tradicional das escolas de samba, e sim de uma situação extrema, que “Ninguém vai ficar pra assistir”. Já as rajadas iniciais não serão de fogos de artifício, mas sim de “escopeta, metralha, granada e fuzil”.

Ao transformar cada quesito das escolas de samba em metáforas de violência urbana, o samba descreve um desfile explosivo e fora de controle, onde o povo, submetido ao comando de bandidos sem nome, carrega consigo o peso da revolta e do abandono.

CAMPOS, Conceição. A letra brasileira de Paulo César Pinheiro: uma jornada musical. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2009. p. 156. 

A partir da segunda estrofe, fica mais explícita a correlação entre os elementos do desfile e as ações da “guerra civil”: 

A “Cidade Partida” parece ser uma paródia da expressão “Cidade Maravilhosa”, normalmente usada para designar o Rio de Janeiro. Ao dizer que “O tema do enredo vai ser a Cidade Partida”, o eu lírico mostra não só a divisão geográfica de cidade, mas também uma espécie de apartheid social.

Nesse “desfile” revolucionário, sem “nada igual”, as pessoas que vivem no morro podem revelar “a miséria sobre a passarela, / Sem a fantasia que sai no jornal” e, assim, mostrar “a força desse pessoal”. A retirada da “fantasia” pode ser vista como uma espécie de eliminação do disfarce social: aquilo que era encoberto pela estética carnavalesca surge sem máscaras, sem dissimulação. A conclusão final é a de que os poderes estabelecidos devem “devolver a esse povo a alegria, / Senão todo mundo vai sambar no dia, / Em que o morro descer e não for carnaval”. Nesse contexto, o verbo sambar passa a significar não somente dançar ao ritmo do samba, mas sim dar-se mal, ser posto de lado, ficar em segundo plano.

 

10. “Pesadelo”


No começo dos anos de 1970, o MPB4 gravou muitas canções de Paulo César Pinheiro. No álbum Cicatrizes, foram quatro: além da canção homônima, eles registraram em disco “Última forma”, “Faz tempo” e a magnífica “Pesadelo”.

A história dessa canção é bastante curiosa. Pinheiro já tinha tido problemas com a censura. “Sagarana”, parceria dele com João de Aquino em homenagem a Guimarães Rosa – escritor que não se envolvia explicitamente com questões político-ideológicas –, havia sido censurada sem muitas explicações. Ele tentou argumentar com os censores, explicando que a letra da canção imitava a linguagem poética rosiana. Não adiantou.

– É melhor a gente manter o corte. Isso parece mensagem de código. Mensagem cifrada. Coisa de guerrilheiro, sei lá. Pra todos os efeitos, não sobra pra gente.

Era assim a censura. Era com essas pessoas que a gente tinha que lidar.

Um dia, cansado de tanto entrevero judicial, exausto do policiamento às minhas palavras, de saco cheio de frequentar as salas bolorentas desses indivíduos de cérebro de camarão, resolvi chutar o balde e virar a mesa. Propus a Maurício Tapajós um canto de guerra.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 123.

 

Assim, nasceu “Pesadelo”, um verdadeiro hino contra a repressão, contra o autoritarismo, contra a violência, a favor da arte, a favor da liberdade, a favor da resistência. 

Quando o muro separa, uma ponte une,

Se a vingança encara, o remorso pune.

Você vem, me agarra, alguém vem, me solta,

Você vai na marra, ela um dia volta,

E, se a força é tua, ela um dia é nossa.

 

Olha o muro, olha a ponte,

Olhe o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós,

Olha aí...

Você corta um verso, eu escrevo outro,

Você me prende vivo, eu escapo morto.

De repente, olha eu de novo,

Perturbando a paz, exigindo troco,

Vamos por aí eu e meu cachorro.

 

Olha o verso, olha o outro,

Olha o velho, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós,

Olha aí...

 

O muro caiu, olha a ponte

Da liberdade guardiã,

O braço do Cristo-horizonte,

Abraça o dia de amanhã,

Olha aí...

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 125.

 

Assim como havia acontecido com “Apesar de você”, de Chico Buarque, o pronome de tratamento você representa, por metonímia, a ditadura, a opressão e a censura. O eu lírico se dirige a esse interlocutor inespecífico para lembrá-lo de que existe “o dia de amanhã”.

Dessa forma, a ditadura é identificada com “o muro [que] separa”, com “a vingança [que] encara”, com a “força” que impõe tudo “na marra”, enquanto a resistência ao regime tem a “ponte [que] une”, “o remorso [que] pune” e, principalmente, a certeza de que a força “um dia é nossa”. Daí o questionamento: “Que medo você tem de nós?”. A pergunta altera as relações de poder, sugerindo que o regime é que teme a mobilização popular – e não o contrário.

Na terceira estrofe, novamente por meio de reiteradas antíteses, as referências à censura e à repressão se tornam escancaradas: “Você corta um verso, eu escrevo outro, / Você me prende vivo, eu escapo morto”. Pode parecer incoerência dizer “eu escapo morto”, mas a ideia é mostrar que, mesmo que a ditadura continuasse perseguindo e matando seus opositores, os ideais dessas pessoas ainda estariam vivos, “Perturbando a paz, exigindo troco”.

A estrofe final, com a menção à “liberdade guardiã” e ao “braço do Cristo-horizonte”, reforça a esperança do eu lírico no “dia de amanhã”. Só assim para enfrentar o pesadelo da repressão.

Chega a ser surpreendente que “Sagarana”, que nada tinha de crítica à ditadura, tenha sido censurada e “Pesadelo”, esse “canto de guerra”, não. Mas isso aconteceu graças a um ardil de Paulo César Pinheiro, que compreendeu, com a ajuda de pessoas de sua gravadora, quais eram os critérios usados pelos censores para aprovar ou não uma canção.

Descobri que o repertório de alguns cantores era examinado minuciosamente. Dos bregas, dos românticos, do pop, nem se davam o trabalho de ler. Carimbavam imediatamente e despachavam. Foi nessa observação que joguei minhas fichas. Peguei o “Pesadelo” e enfiei na pasta de letras do LP de Aguinaldo Timóteo, com a conivência cabreira do encarregado desse serviço, meu companheiro de sinuca. A pasta chegou com a liberação na outra manhã.

PINHEIRO, Paulo César. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya, 2010. p. 125.

 

A canção foi então gravada pelo MPB4 e se tornou o ponto alto dos shows do grupo. Mas “Pesadelo” fez menos sucesso do que deveria na época, pois

[...] muitas rádios não se atreveram a tocá-la, mesmo com o carimbo de liberação em mãos. Diante da mensagem visceral de suas palavras, temiam incomodar algum general mais atento.

CAMPOS, Conceição. A letra brasileira de Paulo César Pinheiro: uma jornada musical. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2009. p. 66.

 

Mesmo quando formalmente autorizada, a canção continuou a enfrentar outros mecanismos de censura, confirmando que o “pesadelo” denunciado não era apenas linguagem figurada, mas experiência concreta.

 

11. “Velho arvoredo” 


A letra de “Velho arvoredo” tematiza, ao mesmo tempo, a passagem do tempo e a desilusão amorosa, apresentando um eu lírico arrependido de não ter aproveitado a chance de ser feliz.

O início da canção apresenta formas verbais no pretérito perfeito, destacando os acontecimentos passados que explicam o sofrimento presente. Ao identificar-se com “um velho arvoredo / Que o vento não derrubou”, o eu lírico mostra sua solidão e sua dor: “E eu fui ficando sozinho, no pó do caminho, / Me desenganando, sofrendo e chorando”. Nesse sentido, a imagem do “velho arvoredo” remete a algo que sobreviveu (como árvores que se mantêm de pé), mas que está marcado, envelhecido e sozinho – assim como o sujeito que permaneceu após o término da relação.

A canção começa com o verso “Eu te esqueci muito cedo”, mostrando que o conflito vivido pelo eu lírico é de natureza afetiva. Isso é confirmado e mais bem explicado quando ele afirma que manteve “em segredo / Essa minha ilusão / Que me escapou de entre os dedos / Pra não sei que outras mãos”. Há, aqui, uma sensação de perda contínua: o tempo passou e a oportunidade verdadeira de amor se foi, deixando um sentimento de arrependimento que persiste.

O eu lírico se define como “o arremedo / De tudo aquilo que eu não sou” e reconhece que “O que passou, passou”. Ou seja, suas emoções são o resultado das escolhas pretéritas. Se, na aparência, ele não demonstra sofrer tanto (“Eu por fora estou cicatrizando”), na essência ele é bastante infeliz (“E por dentro sangrando, afastado do medo, / Mas sozinho, tal como o velho arvoredo”), pois se sente abandonado pela vida.

 

12. “Vento bravo” 

Depois da vitória de “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, no III Festival de Música Popular Brasileira (1967)9, tornou-se uma tradição compor toadas de fundo regionalista, muitas vezes acompanhadas de viola caipira. Geraldo Vandré e Theo de Barros já haviam feito algo parecido com a canção “Disparada”, em 1966.

“Vento bravo” dialoga com essa tradição, com um arranjo orquestral que reforça o ritmo bem demarcado da melodia e as repetições sonoras da letra. A aliteração do fonema /v/, ao longo da canção, parece sugerir o próprio som do “vento bravo”: “Mas o vento vira e, do vendaval”, “Vento virador no clarão do mar, / Vem sem raça e cor, quem viver verá, / Vindo a viração, vai se anunciar, / Na sua voragem, quem vai ficar”. Esse “vento bravo” não pode ser contido, ele é “sangue novo”, é “grito no ar”, é “Correnteza de rio / Que não vai se acalmar”.

As referências à “Coroa Imperial” e à “Calmaria negra de pantanal”, que aparecem mais de uma vez ao longo da canção, remetem ao século XIX, mais especificamente a uma época em que a escravidão ainda vigorava no Brasil. Essa hipótese interpretativa é reforçada por versos como “Limite do escravo entre o bem e o mal” e “Era argola, ferro, chibata e pau”.

Mas essa “calmaria negra” logo se dilui, e “a morte, o medo, o rancor e o mal” aparecem para desafiar a ordem vigente, afinal “o tempo muda e, do temporal, / Surge o vento bravo”. Assim, esse “vento bravo” simboliza a mudança da ordem social, a explosão de uma revolta, a alteração de um paradigma e o rompimento violento com uma estrutura de poder envelhecida.

Embora não haja pistas textuais suficientes para dizer que a canção é uma crítica à ditadura no Brasil, ela acaba dialogando com a tradição da “música de protesto”.

 

13. “Viagem” 

“Viagem” é a primeira composição relevante de Paulo César Pinheiro e seu primeiro sucesso. Composta quando ele tinha 14 anos, os versos da canção configuram um “texto precocemente maduro, autorretrato perfeito, definidor de seu destino e futuro”

A canção começa com uma apóstrofe à tristeza, com o eu lírico explicando que irá viajar com a poesia (“Ô, tristeza, me desculpe, / Estou de malas prontas, / Hoje a poesia / Veio ao meu encontro, / Já raiou o dia, / Vamos viajar”).

A dimensão metalinguística do texto fica mais evidente quando a poesia se torna o próprio interlocutor do texto, com o eu lírico se referindo a ela por meio de vocativos: “Mas pode ficar tranquila, / Minha poesia”. Em alguns casos, os vocativos vêm acompanhados de formas verbais no imperativo, reforçando o tom de conversa do texto (“Senta nessa nuvem clara, / Minha poesia, / Anda, se prepara, / Traz uma cantiga”, “Olha, quantas aves brancas, / Minha poesia” e “Ô, poesia me ajude”). Assim, a poesia não é apenas objeto de contemplação, mas, sim, agente de uma transformação.

A letra da canção então trata de uma transformação – da tristeza para a alegria –, provocada pela viagem feita junto da poesia. Os elementos da natureza (“Vou colher avencas, / Lírios, rosas, dálias, / Pelos campos verdes / Que você batiza / De jardins do céu”) são apresentados como forma de reforçar os aspectos positivos dessa transformação.

As referências ao sol e à lua, em “Viagem”, não são antitéticas, mas complementares. Por isso, tanto o dia (“Olha, quantas aves brancas, / Minha poesia, / Dançam nossa valsa / Pelo céu, que o dia / Faz todo bordado / De raio de sol”) quanto a noite (“nós voltaremos / Numa estrela-guia, / Num clarão de lua, / Quando serenar, / Ou, talvez, até quem sabe, / Nós só voltaremos / No cavalo baio, / No alazão da noite, / Cujo nome é raio, / Raio de luar”) contribuem para o clima idílico da canção.

 

14. “Vontade de chorar” 

Mais uma canção sobre o sofrimento amoroso, “Vontade de chorar” tem uma dimensão metalinguística, pois o eu lírico se apresenta como um compositor que, por ter se separado da pessoa amada, é obrigado a conviver com a tristeza (“Pela minha voz e meu olhar todos verão / Como eu vivo triste agora”). Surge, então, a confissão: “Todo verso triste que eu puser numa canção / É o meu coração que chora”.

O eu lírico não sabe exatamente o motivo do rompimento amoroso (“E eu fiquei assim quando você, / Sem dizer adeus, foi indo embora”), mas reconhece que o término da relação afetiva foi sério o bastante para tornar impossível a retomada daquele relacionamento: “Tudo que restou do nosso amor / São folhas que o vento soprou / E se perderam pelo ar”.

A tristeza gerada por essa situação faz surgir a “vontade de chorar”. Ela aparece na canção em dois momentos distintos: no primeiro, para dizer que todo rompimento amoroso é um momento triste (“todo o fim de um grande amor / Me dá vontade de chorar”); no segundo, para reforçar – em uma referência metalinguística – que músicas de temática amorosa podem ser um gatilho para as pessoas lembrarem as próprias frustrações afetivas (“qualquer canção de amor / Me dá vontade de chorar”).

 

Síntese das canções

Após analisar cada canção isoladamente, é possível perceber que algumas delas assumem um viés explicitamente político-social, confrontando estruturas de poder e desigualdade; outras, mergulham na experiência íntima da perda amorosa; e há ainda as que se voltam para a passagem do tempo, para o destino humano e para a própria natureza da criação artística.

I. Canções político-sociais

· “Canto das três raças”

· “Mordaça”

· “O dia em que o morro descer e não for carnaval”

· “Pesadelo”

· “Vento bravo”

Nas canções de viés político-social, Paulo César Pinheiro constrói uma poética da resistência. Não se trata apenas de denúncia direta, mas da elaboração simbólica de processos históricos e conflitos estruturais.

Embora algumas dessas canções dialoguem com as circunstâncias históricas da ditadura de 1964, o elemento político não se limita elas, pois envolve uma reflexão mais ampla sobre poder, desigualdade e transformação.

 

II. Canções lírico-amorosas

· “Navio fantasma”

· “Velho arvoredo”

· “Vontade de chorar”

Se, nas canções político-sociais, a tensão pressupõe relações de poder, no sentido sociológico do termo, aqui o conflito é interior.

Nessas canções, o amor não é idealização romântica. É um lugar, muitas vezes, de vulnerabilidade e de desilusão.

 

III. Canções reflexivas

· “Cordilheira”

· “Desenredo”

· “Estrela da terra”

· “Evangelho”

· “Na volta que o mundo dá”

· “Viagem”

Neste terceiro núcleo temático, a reflexão desloca-se para a condição humana em sentido mais amplo. Aqui, as letras falam sobre o tempo, o destino, a circularidade da vida, a esperança e o papel da própria criação artística como forma de suportar as adversidades.





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