01 maio 2026

DA CALMA E DO SILÊNCIO

Da calma e do silêncio

 

Conceição Evaristo

 

Quando eu morder

a palavra,

por favor,

não me apressem,

quero mascar,

rasgar entre os dentes,

a pele, os ossos, o tutano

do verbo,

para assim versejar

o âmago das coisas.

 

Quando meu olhar

se perder no nada,

por favor,

não me despertem,

quero reter,

no adentro da íris,

a menor sombra,

do ínfimo movimento.

 

Quando meus pés

abrandarem na marcha,

por favor,

não me forcem.

Caminhar para quê?

Deixem-me quedar,

deixem-me quieta,

na aparente inércia.

Nem todo viandante

anda estradas,

há mundos submersos,

que só o silêncio

da poesia penetra.









DA CALMA E DO SILÊNCIO

Da calma e do silêncio   Conceição Evaristo   Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar...