“Um sujeito chegou
ao mendigo e lhe perguntou:
– Senhor, você
prefere que eu lhe trate por ‘pessoa em situação de rua’ ou ‘pessoa em situação
de vulnerabilidade econômica’? –
– Rapaz, se você
der um prato de comida, você pode me chamar do que quiser.”
Há uma ideia,
atualmente, de que se modificarmos a denominação, modificamos a percepção sobre
o denominado, ou seja, alterando o nome, alteramos o conceito. Por exemplo, a
proposta de se trocar ‘escravo’ por ‘pessoa escravizada’ teria como objetivo
lembrar que a escravidão não é uma condição natural, mas algo imposto. Falar
‘pessoa com deficiência’ em vez de ‘deficiente’ daria ênfase à pessoa, não à
deficiência. A expressão ‘pessoa indígena’ seria morfologicamente mais adequada
que o erro etimológico de ‘índio’.
Já
falei noutra postagem sobre o fenômeno da ‘pessoização’, termo que cunhei para
representar a tendência das pessoas em fazer questão de mostrar que as pessoas
são pessoas. Põe-se ‘pessoa’ em tudo que for ‘pessoável’. Pessoa trans, pessoa
detenta, pessoa idosa, pessoa refugiada, pessoa em situação de rua...
A
pessoização mais recente que eu soube foi a proposta por museus britânicos que
aboliram o termo ‘múmia’ e passaram a empregar ‘pessoa mumificada’. Assim, os
especialistas dos museus acreditam que os visitantes enxergarão as múmias como
pessoas e não como monstros sobrenaturais, popularizados pela cultura pop.
Em
inglês, as múmias são chamadas de ‘mummy’ (múmia) desde, pelo menos, 1620, mas,
pelo jeito, as ‘mummies’ passarão a ‘mummified people’. Questão resolvida? Dou
minha contribuição.
Quando
eu cursei a disciplina de Anatomia Humana, na graduação em Ciências Biológicas,
na UEM, usávamos nas aulas práticas cadáveres fixados em formol – algo bastante
usual neste e nos cursos da área da Saúde. O Prof. Celso Conegero não tolerava
gracejos; deixava claro em todas as aulas que o material sobre a mesa já foi
uma pessoa, alguém que amou e sofreu como todos nós, e que merecia nosso total
respeito; que estava ali, à mercê da Ciência, para que pudéssemos aprender.
Sobre
o cadáver desconhecido, nós, alunos, estudamos a Anatomia Humana com fascínio e
reverência, sem nunca menosprezarmos sua humanidade. Não era necessário alterar
o nome de ‘cadáver’ para ‘pessoa cadaverizada’, ‘pessoa preservada em formol’
ou algo assim. O respeito à pessoa está mais na ação que na denominação e sua formação
está na Educação.
Se
o sujeito não entendeu que qualquer tipo de escravidão é desumano, vil,
horroroso e abominável, portanto, intolerável, não é alterando o termo de
‘escravo’ para ‘escravizado’ que se conseguirá fazê-lo. Se o índio continuar a
ser massacrado como acontece há mais de quinhentos anos no Brasil, mudar-lhe o
nome para ‘indígena’ pouco ou nada lhe devolverá a dignidade. Se os municípios
tratam por ‘pessoas com deficiência’, mas não lhe oferecem uma cidade com
acessibilidade, o pretenso respeito não passa de hipocrisia.
Os
museus britânicos que esperam devolver a humanidade às múmias, apenas lhes
propondo alterações nomenclaturais, aparentemente não se importam em retirá-las
de suas sagradas sepulturas, extraí-las de suas terras natais e expô-las a um
público estrangeiro e insensível – o que, tenho certeza, nunca foi o desejo
daquelas pessoas embalsamadas.
