28 abril 2026

MÚMIA OU PESSOA MUMIFICADA

 “Um sujeito chegou ao mendigo e lhe perguntou:

— Senhor, você prefere que eu lhe trate por ‘pessoa em situação de rua’ ou ‘pessoa em situação de vulnerabilidade econômica’?
— Rapaz, se você der um prato de comida, você pode me chamar do que quiser.”

Há uma ideia, atualmente, de que se modificarmos a denominação, modificamos a percepção sobre o denominado, ou seja, alterando o nome, alteramos o conceito. Por exemplo, a proposta de se trocar ‘escravo’ por ‘pessoa escravizada’ teria como objetivo lembrar que a escravidão não é uma condição natural, mas algo imposto. Falar ‘pessoa com deficiência’ em vez de ‘deficiente’ daria ênfase à pessoa, não à deficiência. A expressão ‘pessoa indígena’ seria morfologicamente mais adequada que o erro etimológico de ‘índio’.

Já falei noutra postagem sobre o fenômeno da ‘pessoização’, termo que cunhei para representar a tendência das pessoas em fazer questão de mostrar que as pessoas são pessoas. Põe-se ‘pessoa’ em tudo que for ‘pessoável’. Pessoa trans, pessoa detenta, pessoa idosa, pessoa refugiada, pessoa em situação de rua...

A pessoização mais recente que eu soube foi a proposta por museus britânicos que aboliram o termo ‘múmia’ e passaram a empregar ‘pessoa mumificada’. Assim, os especialistas dos museus acreditam que os visitantes enxergarão as múmias como pessoas e não como monstros sobrenaturais, popularizados pela cultura pop.

Em inglês, as múmias são chamadas de ‘mummy’ (múmia) desde, pelo menos, 1620, mas, pelo jeito, as ‘mummies’ passarão a ‘mummified people’. Questão resolvida? Dou minha contribuição.

Quando eu cursei a disciplina de Anatomia Humana, na graduação em Ciências Biológicas, na UEM, usávamos nas aulas práticas cadáveres fixados em formol – algo bastante usual neste e nos cursos da área da Saúde. O Prof. Celso Conegero não tolerava gracejos; deixava claro em todas as aulas que o material sobre a mesa já foi uma pessoa, alguém que amou e sofreu como todos nós, e que merecia nosso total respeito; que estava ali, à mercê da Ciência, para que pudéssemos aprender.

Sobre o cadáver desconhecido, nós, alunos, estudamos a Anatomia Humana com fascínio e reverência, sem nunca menosprezarmos sua humanidade. Não era necessário alterar o nome de ‘cadáver’ para ‘pessoa cadaverizada’, ‘pessoa preservada em formol’ ou algo assim. O respeito à pessoa está mais na ação que na denominação e sua fromação está na Educação.

Se o sujeito não entendeu que qualquer tipo de escravidão é desumano, vil, horroroso e abominável, portanto, intolerável, não é alterando o termo de ‘escravo’ para ‘escravizado’ que se conseguirá fazê-lo. Se o índio continuar a ser massacrado como acontece há mais de quinhentos anos no Brasil, mudar-lhe o nome para ‘indígena’ pouco ou nada lhe devolverá a dignidade. Se os municípios tratam por ‘pessoas com deficiência’, mas não lhe oferecem uma cidade com acessibilidade, o pretenso respeito não passa de hipocrisia.

Os museus britânicos que esperam devolver a humanidade às múmias, apenas lhes propondo alterações nomenclaturais, aparentemente não se importam em retirá-las de suas sagradas sepulturas, extraí-las de suas terras natais e expô-las a um público estrangeiro e insensível – o que, tenho certeza, nunca foi o desejo daquelas pessoas embalsamadas.





📚 Referência: ‘Don't say 'mummy': Why museums are rebranding ancient Egyptian remains’, por Issy Ronald, na página ‘CNN’ (jan. 2023); e ‘Museus britânicos deixam de usar a palavra 'múmia' em respeito às pessoas mumificadas’, do jornal ‘O globo’ (jan. 2023).
📷 Figuras: printes das manchetes (jan. 2023).
🗣️ Sugestão: Aldo Bizzocchi.


Retirado de: https://www.facebook.com/NomesCientificos/posts/pfbid0EJzyg39YSDBkZkhyicbjceEygiLSdNcEyERngrrsNqk6tLqCkigzh2QdsKXoKwNil

MÚMIA OU PESSOA MUMIFICADA

  “Um sujeito chegou ao mendigo e lhe perguntou: — Senhor, você prefere que eu lhe trate por ‘pessoa em situação de rua’ ou ‘pessoa em situa...