28 abril 2026

ESCRAVO OU ESCRAVIZADO

 Quem acompanha a página deve ter percebido como esse negócio de escolher a melhor palavra ou censurar a pior mexe com o brio dos sujeitos. São assuntos delicados, mas nem por isso devem ser evitados. Precisam é justamente ser debatidos.

Nalgumas postagens onde emprego a palavra ‘escravo’, apareceu gente me “corrigindo” quanto à forma “correta” de se referir a quem foi privado de sua liberdade e considerado propriedade doutrem. Alguns historiadores, desde a década de 90, têm insistido que o ideal é utilizarmos o termo ‘pessoa escravizada’ ou apenas ‘escravizado’.
A ideia alegada é a de enfatizar que a condição de escravo não é natural das pessoas, mas uma condição imposta, uma situação involuntária. Para tanto, ‘escravizado’, particípio do verbo escravizar, seria melhor, pois traz a ideia de produto de um processo. Justificam que ‘escravo’ poderia remeter a uma característica natural, estática.
Aí, escrever “na casa, havia uma escrava que cozinhava” e “o senhor possuía dez escravos” estaria incorreto. O certo seria “na casa, havia uma escravizada que cozinhava” e “o senhor possuía dez escravizados”.
Então... Há controvérsias.
Se considerarmos que os destinatários duma mensagem precisam ser alertados sobre a natureza dum termo (se retrata uma condição permanente ou temporária, voluntária ou não), precisaríamos repensar toda a nossa língua, pois, noutras situações, correríamos o risco de ser tão mal interpretados quanto os que falam ‘escravo’.
Por exemplo, teríamos de alterar ‘detento’ para ‘pessoa detida’, para deixar claro que o sujeito não está ali desde sempre, nem por vontade própria. É melhor trocar também ‘preso’ por ‘aprisionado’. Como a condição de ‘vítima’ não é natural, nem desejável, teríamos que preferir ‘pessoa vitimada’.
Na mesma linha, não seria legal escrevermos Brasil Colônia, mas Brasil Colonizado, pois imagino que as terras brasileiras não queriam pertencer a Portugal. Falando em Brasil, por aqui não haveria ‘pobres’, mas ‘pessoas empobrecidas’. Deveríamos ter de sempre apelar ao particípio passado para demonstrar que não é uma condição desejada?
Se fosse assim, dizer que os hospitais estão cheio de doentes não seria certo. ‘Pessoas adoecidas’ seria mais apropriado para ressaltar que a doença não é voluntária. Seria melhor adotarmos o termo ‘encalvecido’ (vocábulo dicionarizado) em vez de ‘calvo’ para salientar que não é uma condição da vontade do careca e que houve ali uma rarefação involuntária.
Bêbado ou sujeito alcoolizado? Corrupto ou pessoa corrompida? Velho ou humano envelhecido? Bem... Não é preciso recorrer a um circunlóquio para deixar nítido que certas condições são resultados dum processo (imposto ou não).
Será que alguém que fala ou escuta, escreve ou lê, a palavra ‘escravo’ não entenderia que ela se refere a uma condição desumana, cruel, não natural e, portanto, execrável? Se não entendeu, não será pela mudança de termo que entenderá. Não se trata duma questão vocabular, mas de compaixão.
📚 Referência: ‘Slave or enslaved person?’, de Katy Waldman, na página ‘Slate’ (mai. 2015).




Retirado de: https://www.facebook.com/NomesCientificos/posts/pfbid0q2j3D2hte7pdX7L6hf6nLHvmHwxVjN3vKvwYFuWvJjpp63cnkcSmC4N9WatVPgM6l

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