Quem acompanha a
página deve ter percebido como esse negócio de escolher a melhor palavra ou
censurar a pior mexe com o brio dos sujeitos. São assuntos delicados, mas nem
por isso devem ser evitados. Precisam é justamente ser debatidos.
Nalgumas
postagens onde emprego a palavra ‘escravo’, apareceu gente me “corrigindo”
quanto à forma “correta” de se referir a quem foi privado de sua liberdade e
considerado propriedade doutrem. Alguns historiadores, desde a década de 90,
têm insistido que o ideal é utilizarmos o termo ‘pessoa escravizada’ ou apenas
‘escravizado’.
A ideia alegada é a
de enfatizar que a condição de escravo não é natural das pessoas, mas uma
condição imposta, uma situação involuntária. Para tanto, ‘escravizado’,
particípio do verbo escravizar, seria melhor, pois traz a ideia de produto de
um processo. Justificam que ‘escravo’ poderia remeter a uma característica
natural, estática.
Aí, escrever “na
casa, havia uma escrava que cozinhava” e “o senhor possuía dez escravos”
estaria incorreto. O certo seria “na casa, havia uma escravizada que cozinhava”
e “o senhor possuía dez escravizados”.
Então... Há controvérsias.
Se considerarmos
que os destinatários duma mensagem precisam ser alertados sobre a natureza dum
termo (se retrata uma condição permanente ou temporária, voluntária ou não),
precisaríamos repensar toda a nossa língua, pois, noutras situações,
correríamos o risco de ser tão mal interpretados quanto os que falam ‘escravo’.
Por exemplo,
teríamos de alterar ‘detento’ para ‘pessoa detida’, para deixar claro que o
sujeito não está ali desde sempre, nem por vontade própria. É melhor trocar
também ‘preso’ por ‘aprisionado’. Como a condição de ‘vítima’ não é natural,
nem desejável, teríamos que preferir ‘pessoa vitimada’.
Na mesma linha, não
seria legal escrevermos Brasil Colônia, mas Brasil Colonizado, pois imagino que
as terras brasileiras não queriam pertencer a Portugal. Falando em Brasil, por
aqui não haveria ‘pobres’, mas ‘pessoas empobrecidas’. Deveríamos ter de sempre
apelar ao particípio passado para demonstrar que não é uma condição desejada?
Se fosse assim,
dizer que os hospitais estão cheio de doentes não seria certo. ‘Pessoas
adoecidas’ seria mais apropriado para ressaltar que a doença não é voluntária.
Seria melhor adotarmos o termo ‘encalvecido’ (vocábulo dicionarizado) em vez de
‘calvo’ para salientar que não é uma condição da vontade do careca e que houve
ali uma rarefação involuntária.
Bêbado ou sujeito
alcoolizado? Corrupto ou pessoa corrompida? Velho ou humano envelhecido? Bem...
Não é preciso recorrer a um circunlóquio para deixar nítido que certas
condições são resultados dum processo (imposto ou não).
Será que alguém que
fala ou escuta, escreve ou lê, a palavra ‘escravo’ não entenderia que ela se
refere a uma condição desumana, cruel, não natural e, portanto, execrável? Se
não entendeu, não será pela mudança de termo que entenderá. Não se trata duma
questão vocabular, mas de compaixão.
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Referência: ‘Slave or enslaved person?’, de Katy Waldman, na página ‘Slate’
(mai. 2015).
