As Declarações homofóbicas
de Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes
amigos do médico Pedro Nava e um dos escritores que Nava mais admirava, tinha
uma postura pouco inclusiva perante homossexuais. Se a poesia de Drummond enche
os olhos ao tratar das tristezas vividas durante a Segunda Guerra Mundial, da
emoção de estar apaixonado e das sutilezas do cotidiano, o poeta não esteve à
frente do preconceito do seu tempo e, portanto, não apoiou a luta LGBT. Pelo
contrário. Em entrevista a Maria Lucia do Pazo Ferreira, que se debruçava sobre
o erotismo em seus poemas, Drummond declarou que pouco escreveu sobre
“homossexualismo (em sua fala, o escritor usou o termo com o sufixo “ismo”, que
denota doença) por esse ser um tema que lhe provocava repugnância:
Devo dizer que o homossexualismo sempre me causou certa repugnância, que se traduz pelo mal-estar. Nunca me senti à vontade diante de um homossexual. Com o tempo, havendo agora uma abertura imensa com relação ao desvio da homossexualidade, o homossexual não só ficou sendo uma pessoa com autorização para ir e vir como tal, mas chega a ponto de isto ser exaltado como riqueza de experiência, como acrescentamento da experiência masculina. [...] Mas exatamente por isso, porque o homossexualismo nunca foi um fato que me interessasse poeticamente, nem mesmo na vida real.
Em uma época de conquistas para a comunidade
LGBT, as declarações do poeta caíram como uma luva para jornalistas explorarem o
assunto. Em entrevista à revista IstoÉ,
no ano seguinte, Drummond manteve a fala:
É desvio, é um problema de ordem médica, que pode ser tratado ou não, pode ser remediado ou não, conforme condições peculiares do indivíduo. Não é aquilo que antigamente se chamava pecado. [...] Por mais que se façam essas experiências, a relação homem-mulher é ideal, é a mais perfeita do mundo, não tem substitutivo, não.
Segundo
o jornal Folha de S.Paulo, o Grupo
Gay da Bahia teria enviado um abaixo-assinado ao escritor, lastimando suas
afirmativas: “Não há perfeição em ser branco nem em ser preto. Essas coisas,
tipo raça, religião, preferência sexual, são privativas de cada ser humano, nem
aos poetas autorizando-se decretar onde está a perfeição”, escreveu o
antropólogo Luiz Mott, que assinou o documento. Embora guardada no acervo pessoal
do poeta, a carta nunca teria sido respondida.
Na obra literária do autor, a única vez em
que o tema da homossexualidade aparece é no Poema “Rapto” do livro Claro enigma. Em entrevista a Maria
Lucia do Pazo Ferreira, Drummond esclareceu que remeteu à mitologia grega para explicar
a homossexualidade. Segundo esse mito, Júpiter teria se apaixonado por um
rapaz, Ganimedes. Para possuí-lo se transformou em águia, desceu à Terra, bicou
o jovem e o levou para viver no Olimpo. Lá, Júpiter transformou Ganimedes em
uma figura engraçada que servia os convidados, uma espécie de bobo da corte.
Essa seria a tese para o surgimento da homossexualidade.
No poema drummondiano, o “tornar-se gay é
preservado, não sendo consequência de um rapto de uma ave, mas de jovens
seduzidos por boates noturnas. Apesar da visão estereotipada, se há um afago em
toda essa história é que, nos últimos versos, o poeta escreveu que as relações
homoafetivas são “outra forma de amar no acerbo amor”.
Carlos Drummond de Andrade vivia em uma
sociedade que, embora estivesse avançando nas discussões e lutas pelas liberdades
individuais, ainda era pouco amável com LGBTs. E embora o poeta tenha estado na
vanguarda de muitas discussões humanistas, interpretado como poucos a desumanidade
da guerra e, com palavras e versos, tornado épico o cotidiano, escrevendo
textos empáticos e pacificadores, sua postura perante homossexuais parece ter
sido tão conservadora quando outras vozes de seu tempo.
ADAPTADO DE: VERRUMO, M. História Bizarra da Literatura Brasileira. São Paulo : Planeta, 2017. p. 245-248