04 março 2026

BIOGRAFIA (3)

 

Clarice Lispector, uma entrevistadora de almas

 

A autora de A paixão segundo G.H., Água viva e de outras obras-primas da literatura brasileira, Clarice Lispector é, ao lado de Guimarães Rosa e Machado de Assis, nossa literata mais estudada nas universidades. Juntamente com Caio Fernando Abreu e Martha Medeiros, talvez também suba no pódio na categoria presença em redes sociais (embora muitas das citações a ela atribuídas não sejam de sua autoria). Tantos trabalhos acadêmicos e tamanha popularidade na internet são apenas dois indicativos da abrangência e da atualidade da obra da escritora.

            O que muitos não sabem é que a ucraniana trazida para o Brasil ainda bebê, que incendiou sua casa ao esquecer um cigarro aceso ao ir dormir e participou de um Congresso Internacional de Bruxaria em Bogotá, também foi uma grande entrevistadora, tendo realizado entrevistas memoráveis, verdadeiros exemplos para grandes jornalistas.

A atuação de Clarice na imprensa começou em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial. Enquanto repórteres se debruçavam sobre o sangue que jorrava do conflito que se desdobrava além do Atlântico, a literata se dedicava a pequenas notas, entrevistas e perfis sobre os mais variados temas, navegando da moda feminina à cultura brasileira. Um de seus grandes talentos, no entanto, se revelou, quando Clarice pegou um bloquinho de anotações, escreveu algumas perguntas é buscou personalidades para entrevistar, ou melhor, para conversar.

O volume mais extenso da obra de Clarice Lispector como entrevistadora foi produzido no final dos anos 1960. Para a revista Manchete, entre maio de 1968 e outubro de 1969, a escritora assinou a coluna Diálogos possíveis com Clarice Lispector, totalizando 59 conversas. Para a Fatos e Fotos/Gente, foram 24, feitas entre dezembro de 1976 e outubro de 1977, dois meses antes de seu falecimento, em 9 dezembro do mesmo ano.

Para além de um diálogo seco entre uma jornalista e sua fonte, as entrevistas de Clarice Lispector eram uma conversa íntima entre duas pessoas sobre temas caros ao ser humano, desbravavam o insólito e tocavam em pontos dos quais o jornalismo convencional não se aproximava. Num ambiente em que as entrevistas iam se tornando tão automáticas e sem vida, feitas com base em manuais de redação, Clarice desbravava o que estava sob a superfície de seus entrevistados Era como se ela mergulhasse na alma do seu interlocutor e explorasse suas profundezas [...]

Clarice ultrapassou o nível do bate-papo enfiando o dedo nas feridas de quem estava entrevistando. Ao conversar com o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino, por exemplo, a entrevistadora fez um questionamento metafísico inesperado e recebeu uma resposta tão inesperada quanto:

- Você quereria ter outras vidas? Era o meu sonho ter várias. Numa eu seria só mãe, em outra vida eu só escreveria, eu outra eu só amava.

- Sou um homem de muitos amores – isto é, de muitos interesses – e para tão longos amores, tão curta é a vida. Não há ninguém que consiga no tempo de uma vida, esgotar todas as suas possibilidades. Se me fossem dadas outras e outras vidas, gostaria de ser: a) filósofo profissional; b) romancista; c) marido de Clarice Lispector, a quem me dedicaria com veludosa e insone dedicação.

 

A escritores, músicos e cientistas, Clarice perguntou o que muitas vezes não é questionado: “Quem é você?”, “Qual a coisa mais importante do mundo?”, “O que é o amor?”. As respostas eram sempre uma surpresa. De Fernando Sabino, ouviu que “Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro”. O poeta Pablo Neruda foi mais direto e apenas falou, curto e grosso, “O amor é o amor”. E Chico Buarque respondeu que não sabia e emendou: “E você?”. Clarice finalizou: “Nem eu”. [...]

Em suas conversas, nada era previsível. Prova disso é seu diálogo com Vinicius de Moraes, no qual ela pediu para o poeta escrever um poema naquele instante e no improviso. E ele escreveu [...].

 

 

ADAPTADO DE: VERRUMO, M. História Bizarra da Literatura Brasileira. São Paulo : Planeta, 2017. p. 249-253

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