Clarice Lispector, uma
entrevistadora de almas
A autora de A paixão segundo G.H., Água
viva e de outras obras-primas da literatura brasileira, Clarice Lispector
é, ao lado de Guimarães Rosa e Machado de Assis, nossa literata mais estudada
nas universidades. Juntamente com Caio Fernando Abreu e Martha Medeiros, talvez
também suba no pódio na categoria presença em redes sociais (embora muitas das
citações a ela atribuídas não sejam de sua autoria). Tantos trabalhos acadêmicos
e tamanha popularidade na internet são apenas dois indicativos da abrangência e
da atualidade da obra da escritora.
O que muitos não sabem é que a
ucraniana trazida para o Brasil ainda bebê, que incendiou sua casa ao esquecer
um cigarro aceso ao ir dormir e participou de um Congresso Internacional de Bruxaria
em Bogotá, também foi uma grande entrevistadora, tendo realizado entrevistas
memoráveis, verdadeiros exemplos para grandes jornalistas.
A atuação de Clarice na imprensa começou em
1940, em plena Segunda Guerra Mundial. Enquanto repórteres se debruçavam sobre o
sangue que jorrava do conflito que se desdobrava além do Atlântico, a literata se
dedicava a pequenas notas, entrevistas e perfis sobre os mais variados temas,
navegando da moda feminina à cultura brasileira. Um de seus grandes talentos,
no entanto, se revelou, quando Clarice pegou um bloquinho de anotações, escreveu
algumas perguntas é buscou personalidades para entrevistar, ou melhor, para
conversar.
O volume mais extenso da obra de Clarice
Lispector como entrevistadora foi produzido no final dos anos 1960. Para a
revista Manchete, entre maio de 1968
e outubro de 1969, a escritora assinou a coluna Diálogos possíveis com Clarice Lispector, totalizando 59 conversas.
Para a Fatos e Fotos/Gente, foram 24,
feitas entre dezembro de 1976 e outubro de 1977, dois meses antes de seu
falecimento, em 9 dezembro do mesmo ano.
Para além de um diálogo seco entre uma
jornalista e sua fonte, as entrevistas de Clarice Lispector eram uma conversa íntima
entre duas pessoas sobre temas caros ao ser humano, desbravavam o insólito e
tocavam em pontos dos quais o jornalismo convencional não se aproximava. Num
ambiente em que as entrevistas iam se tornando tão automáticas e sem vida,
feitas com base em manuais de redação, Clarice desbravava o que estava sob a superfície
de seus entrevistados Era como se ela mergulhasse na alma do seu interlocutor e
explorasse suas profundezas [...]
Clarice ultrapassou o nível do bate-papo
enfiando o dedo nas feridas de quem estava entrevistando. Ao conversar com o
poeta e psicanalista Hélio Pellegrino, por exemplo, a entrevistadora fez um
questionamento metafísico inesperado e recebeu uma resposta tão inesperada
quanto:
- Você quereria ter
outras vidas? Era o meu sonho ter várias. Numa eu seria só mãe, em outra vida
eu só escreveria, eu outra eu só amava.
- Sou um homem de
muitos amores – isto é, de muitos interesses – e para tão longos amores, tão
curta é a vida. Não há ninguém que consiga no tempo de uma vida, esgotar todas
as suas possibilidades. Se me fossem dadas outras e outras vidas, gostaria de
ser: a) filósofo profissional; b) romancista; c) marido de Clarice Lispector, a
quem me dedicaria com veludosa e insone dedicação.
A escritores, músicos e cientistas, Clarice
perguntou o que muitas vezes não é questionado: “Quem é você?”, “Qual a coisa
mais importante do mundo?”, “O que é o amor?”. As respostas eram sempre uma
surpresa. De Fernando Sabino, ouviu que “Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na
aceitação do outro”. O poeta Pablo Neruda foi mais direto e apenas falou, curto
e grosso, “O amor é o amor”. E Chico Buarque respondeu que não sabia e emendou:
“E você?”. Clarice finalizou: “Nem eu”. [...]
Em suas conversas, nada era previsível. Prova
disso é seu diálogo com Vinicius de Moraes, no qual ela pediu para o poeta
escrever um poema naquele instante e no improviso. E ele escreveu [...].
ADAPTADO DE: VERRUMO, M. História Bizarra da Literatura Brasileira. São Paulo : Planeta, 2017. p. 249-253