- Texto para as
questões 1 e 2 -
Leia
os fragmentos a seguir, que narram os primeiros encontros sexuais entre Sarnau
e Mwando, para responder às questões.
Emudecemos
de repente. As mãos encontraram-se. Veio o abraço tímido. Trocamos odores,
trocamos calores. Dentro de nós floresceram os prados. Os pássaros cantaram
para nós, os caniços dançaram para nós. O céu e a terra uniram-se ao nosso
abraço e empreendemos primeira viagem celestial nas asas das borboletas. [...]
A
maçã era ainda verde, por isso arrepiante. Trincámos um pouco e não me pareceu
muito agradável; senti o doce-amargo das pevides e polpa e, lá do meu fundo,
escorreu um fio de sangue que as águas do Save lavaram.
Mwando
deu o primeiro golpe. Os nossos sangues uniram-se. Neste momento os defuntos
que estão no fundo do mar festejam, porque eu hoje sou mulher. [...]
–
Agora, Mwando, tens que agradecer à minha defunta protectora pelo prazer que
acabas de te dar. Oferece-lhe dinheiro, rapé e pano vermelho.
CHIZIANE, Paulina. Balada
de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p.16; p. 25.
QUESTÃO 1
1.
Do ponto de vista da linguagem, é possível dizer que a autora:
a)
utiliza uma forma de descrição que capta nos elementos da natureza, na luz e
nas cores das paisagens os reflexos das sensações e emoções dos personagens.
b)
utiliza períodos curtos e marcados por uma pontuação que contribui, na cena,
para a representação da ansiedade em que os personagens estão inseridos.
c)
aproxima aspectos humanos de elementos da natureza, sugerindo uma relação
intrínseca entre o homem e o meio que o envolve.
d)
prioriza descrições detalhadas do corpo dos personagens, com foco na
fisicalidade do ato sexual, sem metáforas ou simbologias.
e)
emprega um tom frio e distante na descrição dos eventos, o que sugere uma
desconexão emocional dos personagens com o ato que estão vivenciando.
QUESTÃO 2
Considerando
os diferentes contextos culturais que envolvem Sarnau e Mwando no momento em
que se relacionam sexualmente, pode-se dizer que:
a)
Mwando, em função da perda da virgindade, abandona suas origens e sua vocação,
enquanto Sarnau não sofre nenhuma consequência em função do episódio.
b)
a virgindade e o ato sexual estavam ligados, muitas vezes, à espiritualidade e
às tradições ancestrais. O ato de perder a virgindade envolvia não apenas
Sarnau e Mwando, mas também os espíritos dos antepassados, que eram invocados
ou celebrados.
c)
Sarnau sente-se empoderada e livre das tradições culturais ao se entregar a
Mwando, ignorando os rituais que envolvem o ato. Ele, por sua vez, percebe o
estabelecimento de um vínculo eterno entre os dois, o que ocasiona seu
aprisionamento.
d)
o ato sexual, no contexto social do sul de Moçambique, por influência da
colonização, é visto como um momento banal, sem implicações espirituais ou
culturais para os personagens, sendo tratado apenas como uma experiência
física.
e)
para as mulheres, a virgindade era um aspecto crucial na formação de sua
reputação dentro da comunidade. Perder a virgindade antes do casamento, em
muitos contextos, podia trazer desonra à mulher e sua família, influenciando
sua capacidade de formar uma aliança matrimonial vantajosa.
- Texto para a
questão 3 -
Beijava-me
as feridas em sangue, as cicatrizes antigas, o pescoço arranhado, eu gemia, eu
sorria, Sarnau, tirar-te-ei desta escravatura da poligamia, e serás uma só
mulher para um só homem, viverei em ti, viverás em mim, num corpo só, numa alma
só, numa existência única, num mundo único, numa vida única.
CHIZIANE, Paulina. Balada
de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 112.
QUESTÃO 3
Considerando
que Sarnau e Mwando são protagonistas de Balada
do amor ao vento, pode-se dizer, em relação à dualidade entre poligamia e
monogamia, que:
a)
o amor verdadeiro não encontra restrições para se desenvolver,
independentemente do regime do casamento.
b)
a mulher é privada de seus desejos e deve se submeter à vontade masculina na
monogamia.
c)
mulheres se sentem mais amadas e protegidas quando incluídas em uma relação
poligâmica.
d)
as diferenças entre os regimes de casamento não influenciam diretamente a
trajetória do casal, uma vez que ambos pertencem à mesma comunidade e tiveram a
mesma formação.
e)
Mwando enxerga a monogamia como uma forma de libertar Sarnau da opressão da
poligamia, oferecendo-lhe um amor exclusivo e igualitário.
- Texto para a
questão 4 –
A
natureza é bela, ruim, maravilhosa, caprichosa e complexa. Os homens
arregalaram os olhos de espanto perante o cenário que ela lhes oferecia: o
reflexo do arco-íris numa manhã de chuviscos no alto-mar. Metade do arco estampado
no céu e a outra metade mergulhada até as profundezas do oceano, formando um
arco enorme, redondo, completo. A parte refletida na água ganhava um colorido
diferente, intenso, esplêndido, maravilhoso!
CHIZIANE, Paulina. Balada
de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 138.
QUESTÃO 4
Com
base na leitura do fragmento e em seus conhecimentos sobre a obra como um todo,
pode-se dizer que a natureza, em Balada
do amor ao vento, é apresentada de forma:
a)
hostil e ameaçadora.
b)
estática e passiva.
c)
bela e romântica.
d)
ambígua e simbólica.
e)
cenográfica e irrelevante.
- Texto para as
questões 5 e 6 –
[...]
Os males da terra são causados por velhos, guardiões das antigas tradições, que
só acarretam desgraças às novas gerações. Esquivou-se a um grupo de mulheres e
crianças dirigindo-se ao rio e, para elas, também rogou pragas. Mulheres! Os
olhos delas deviam cegar e as línguas serem extirpadas. Foi por amor a uma mulher
que se destruíra. Deus devia mandar um fogo sagrado para destruir todas essas
serpentes do inferno.
CHIZIANE, Paulina. Balada
de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 75.
QUESTÃO 5
No
texto, a quem Mwando atribui a responsabilidade de todos os males do país?
Explique.
QUESTÃO 6
Como
a convivência entre as tradicionais religiões africanas e o cristianismo pode
ser observada na postura de Mwando? Explique.
-
Texto para a questão 7 -
Com
a morte do rei vão-se os privilégios de uns e os favores de outros. Reacendem-se
vinganças e dívidas antigas. Haverá ajuste de contas. Não era sem razão que os
grandes do reino, em poses solenes, estavam serenos, absortos, distantes, sem
uma lágrima nos olhos.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 84.
QUESTÃO 7
O
excerto revela uma visão de Sarnau, a narradora de Balada de amor ao vento, a
respeito da morte de seu sogro, o rei Zucala, e uma explicação para o
comportamento de indivíduos importantes no reino durante os funerais. Pode-se
dizer que o olhar da protagonista aponta para um aspecto importante da organização
da sociedade segundo as antigas tradições africanas. Trata-se do (a):
a)
falta de estrutura hierárquica, em que os laços de poder são frouxos e
incertos.
b)
preocupação com a sucessão e a disputa pelo poder que se segue à morte de um
líder.
c)
predomínio da igualdade social, sem grandes diferenças de status ou privilégios entre os membros da comunidade.
d)
ausência de sentimento em relação à morte de figuras de autoridade, considerada
algo natural e sem grandes impactos.
e)
ideia de que o poder, em sociedades tradicionais, não é algo transmitido ou
disputado, mas sempre mantido pelo mesmo grupo.
-
Textos para as questões 8 e 9 -
Texto 1
Na
confusão verde do fundo da machamba, Maria não viu o capataz imediatamente.
Esbracejou com aflição, tentando libertar as pernas. O braço rodeou-lhe os
ombros duramente. O bafo quente e ácido do homem aproximou-se da sua face. A
capulana da Maria desprendeu-se durante a breve luta e a sensação fria de água
tornou-se-lhe mais vívida. Um arrepio fê-la contrair-se. Sentiu nas coxas nuas
a carícia morna e áspera dos dedos calosos do homem.
Luis Bernardo Honwana. Dina, In: Nós Matamos o Cão Tinhoso!
Texto 2
–
Mas choraste. A bofetada que te dei foi só uma disciplina para aprenderes a não
fazer ciúmes. Gosto muito de ti, Sarnau. És a minha primeira mulher. É tua a
honra deste território. Tu és a mãe de todas as mães da nossa terra. Tu és o
meu mundo, minha flor, rebuçado [bala] do meu coração. Deixei cair duas gotas
de fel bem amargas e salgadinhas. Meu marido acariciava-me à moda dos búfalos;
dizia-me coisas no ouvido e o seu hálito fedia a álcool, enjoava-me,
arrepiava-me, maltratando o meu corpinho frágil. Explodi furiosa e chorei de
amargura.
–
Sarnau, pareces ser uma machamba difícil. Já faz tempo que semeio em ti e não
vejo resultado. Com a outra foi tão diferente. Bastou uma sementeira e germinou
logo.
–
Casámo-nos há pouco tempo, Nguila, muito pouco tempo.
–
Não tenho lá muita paciência. Não estou para lavrar sem colher.
Paulina Chiziane. Balada de amor ao vento, p. 61-62.
QUESTÃO 8
Os
trechos transcritos foram retirados dos livros dos moçambicanos Luís Bernardo
Honwana e Paulina Chiziane. Em ambos, observa-se a ocorrência da palavra
“machamba”. A respeito do uso desse termo, é correto afirmar:
a)
No texto I, machamba refere-se a um matagal, em sentido denotativo; no texto
II, ao papel de esposa de Sarnau, em sentido conotativo.
b)
No texto I, machamba possui sentido literal, referindo-se às terras para
cultivo; no texto II, o sentido é figurado, referindo-se ao útero de Sarnau.
c)
No texto I, machamba possui sentido figurado, referindo-se à colheita; no texto
II, o sentido é literal, referindo-se a um problema.
d)
Em ambos os textos, machamba apresenta sentido literal e refere-se a um terreno
agrícola de produção familiar.
e)
Em ambos os textos, machamba possui sentido figurado e refere-se às terras
férteis ocupadas pelos portugueses.
QUESTÃO 9
Nos
excertos, os escritores moçambicanos descrevem, cada um em seu contexto, cenas
de violência. Sobre elas, é correto afirmar:
a)
Luís Bernardo Honwana descreve uma cena de violência psicológica velada do
capataz contra a mulher, sem que ela perceba a agressão sofrida.
b)
Luís Bernardo Honwana expõe a violência social de que a mulher é vítima ao
relatar uma discussão acalorada que ela trava com o capataz.
c)
Luís Bernardo Honwana narra uma luta física entre o capataz e a mulher, a qual
tenta resistir à agressão sofrida, mas acaba por consentir com a relação.
d)
Paulina Chiziane apresenta elementos narrativos que permitem identificar a
agressão psicológica e física praticada, pelo marido, contra a mulher.
e)
Paulina Chiziane associa a violência contra a mulher a um processo educativo
que visa zelar pela estabilidade da relação conjugal e pela felicidade do
casal.
QUESTÃO 10
Leia
o excerto a seguir para responder à questão.
Vinde
todos os vivos e defuntos em meu auxílio, vinde, vinde todos. No meu ventre
germinou a semente do amor proibido, não sei o que será de mim. Deuses e
defuntos, acudam-me!
CHIZIANE, Paulina. Balada
de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 99.
Considerando
a exortação da narradora Sarnau no contexto do romance Balada do amor ao vento, de Paulina Chiziane, é possível
identificar um importante aspecto da cultura moçambicana.
Assinale
a alternativa que o indica corretamente.
a)
O machismo estrutural.
b)
A poligamia como prática cotidiana.
c)
A relação com a ancestralidade.
d)
A religiosidade cristã.
e)
A monogamia proibida.
- Texto para a
questão 11 -
Mwando
leu as orações num latim tão perfeito que nem o melhor pároco, dando mais
solenidade ao ato. Apesar do trabalho forçado, encontrou felicidade no degredo.
Finalmente conseguira satisfazer a ambição de usar batina branca, batizar,
cristianizar. Fazia missas aos domingos e algumas vezes tivera que celebrar casamentos.
As suas habilidades eclesiásticas foram aperfeiçoadas nas roças onde as mortes
eram muito frequentes. Ele preparava os funerais com muita dignidade e melhor
que os verdadeiros padres que por aí andavam.
CHIZIANE, Paulina. Balada
de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 147.
QUESTÃO 11
Durante
o período em que esteve em Angola, Mwando atuou como uma espécie de líder
espiritual. O que representa, no conjunto da obra, essa reaproximação do
personagem com o cristianismo?
a)
A coexistência de elementos cristãos e tradicionais africanos na vida de
Mwando, simbolizando a fusão cultural e o conflito identitário.
b)
A rejeição de Mwando ao cristianismo após sua experiência em Angola, ao
perceber que o colonialismo o havia forçado a adotar uma religião alheia.
c)
O desejo de Mwando de ser reconhecido como um verdadeiro sacerdote cristão,
abandonando completamente sua herança espiritual africana.
d)
O abandono completo das tradições africanas por parte de Mwando, que se torna
um líder cristão devoto e distante de sua cultura.
e)
A imposição do cristianismo como símbolo de poder colonial e de controle sobre
os africanos escravizados.
-
Texto para a questão 12 -
Os
pretos gritavam para outros pretos como se pretos não fossem. O escravo liberto
torna-se tirano. O homem alcança as alturas cavalgando nos ombros dos outros. A
galinha no poleiro caga despreocupada para as que estão embaixo ignorando que
no próximo pôr do sol a situação pode inverter-se. [...] Os capatazes pretos
empurravam os pretos, obrigando-os a subir a escadaria para a proa do navio.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 137.
QUESTÃO 12
No
fragmento, é apresentada uma situação muito comum em relatos sobre o período da
escravidão brasileira. A figura do “capataz preto”, da forma como é descrito,
pode ser associada à função exercida no Brasil pelo:
a)
feitor.
b)
senhor de engenho.
c)
capitão do mato.
d)
jesuíta.
e)
vassalo.
1. c
2. b
3. e
4. d
5.
Mwando atribui a responsabilidade de todos os males do país aos velhos
guardiões das antigas tradições e às mulheres. Ele acredita que os anciãos, ao
preservarem as tradições antigas, trazem desgraças para as novas gerações,
bloqueando o progresso e mantendo o país em um estado de atraso. Além disso,
Mwando expressa um ódio profundo pelas mulheres, responsabilizando-as por seus
próprios infortúnios, como se o “amor por uma mulher” fosse a causa de sua
destruição pessoal. Essa opinião de Mwando parece se basear em um sentimento de
frustração e amargura, projetando sua própria insatisfação com a vida nos
símbolos de tradição e no gênero feminino. Ele associa as mulheres a “serpentes
do inferno”, o que sugere uma visão misógina e a crença de que as tradições e
os papéis desempenhados por mulheres são fontes de maldição, responsáveis por
seu sofrimento e, simbolicamente, pelos problemas maiores do país.
6. A
postura de Mwando, conforme observada no excerto, revela um conflito profundo
entre ambas as cosmovisões. Ao mesmo tempo que expressa uma rejeição às
tradições africanas, as quais considera responsáveis pelos “males da terra”,
Mwando também recorre a elementos cristãos para expressar sua revolta. Ele fala
em “Deus” e em “fogo sagrado”, elementos caracteristicamente cristãos,
sugerindo que adota uma visão religiosa que incorpora o cristianismo, ou ao
menos sua linguagem, ao criticar as tradições africanas e as mulheres. Ao rogar
pragas contra as mulheres e invocar um castigo contra as “serpentes do
inferno”, Mwando demonstra que, embora esteja imerso em um contexto cristão
tradicional, também é influenciado por ideias das religiões africanas. Isso
cria um quadro de sincretismo e tensão entre as religiões tradicionais, que ele
vê como fontes de desgraça, e a religião cristã, que ele parece considerar uma
possível fonte de purificação ou justiça.
7. b
8. b
9. d
10. c
11. a
12. c

