Questão
1
O texto a seguir foi retirado da
autobiografia de Gabriel García Márquez, autor de Os funerais da Mamãe Grande. No trecho, o autor recorda um
acontecimento de sua infância ao visitar a cidade natal em companhia da mãe.
Ao
dobrarmos a esquina, o pó queimava meus pés através dos tecidos das sandálias.
A sensação de desamparo tornou-se insuportável para mim. Então me vi e vi minha
mãe, do jeito que quando eu era menino vi a mãe e a irmã do ladrão que Maria Consuegra
tinha matado com um tiro uma semana antes, quando tratava de forçar a porta de
sua casa.
Às
três da madrugada ela havia despertado com o ruído de alguém que, do lado de
fora, tentava forçar a porta da rua. Levantou sem acender a luz, buscou às apalpadelas
no guarda-roupa um revólver arcaico que ninguém havia disparado desde a Guerra
dos Mil Dias e localizou na escuridão não apenas o lugar onde estava a porta
mas também a altura exata da fechadura. Então apontou a arma com as duas mãos,
fechou os olhos e apertou o gatilho. Nunca havia disparado antes, mas o tiro
acertou o alvo através da porta.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Viver para contar. Trad.
Eric Nepomuceno. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 25-26.
Esse trecho serviria de inspiração para o
enredo do conto:
a) “Nesta terra não há ladrões”.
b) “A viúva Montiel”.
c) “A sesta de terça-feira”.
d) “Um dia depois do sábado”.
Questão
2
O conto “Um dia desses”, de Gabriel García
Márquez, narra a visita que um alcaide (prefeito) faz a um dentista.
Enquanto o dentista lavava as mãos, olhou
o teto esburacado e uma teia de aranha empoeirada com ovos de aranha e insetos mortos.
O dentista voltou enxugando as mãos. “Vá para a cama – disse – e faça bochechos
com água e sal.” O alcaide levantou-se, despediu-se com uma displicente
continência, e dirigiu-se à porta esticando as pernas, sem abotoar o dólmã.
– Mande-me a conta – disse.
– Ao senhor ou ao município?
O alcaide não o olhou. Fechou a porta, e
disse através da tela metálica:
– Dá no mesmo.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Um dia desses.
In: GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais
da Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.
p. 24.
Na fala final do alcaide, revela-se um
traço de:
a) riqueza pessoal.
b) falta de recursos.
c) incompatibilidade moral.
d) corrupção oficial.
Questão
3
O conto “Nesta terra não há ladrões”, de Os funerais da Mamãe Grande, tem como
episódio central um roubo perpetrado contra o salão de bilhar de um pequeno
povoado do interior da Colômbia. Leia o trecho reproduzido a seguir e, à luz do
enredo, responda ao que se pede.
[...]
Era uma boa noite de junho, e nos momentos vazios em que só se percebia o ruído
de chuvisco do projetor, pesava sobre o cinema sem teto o silêncio das
estrelas.
De
repente, as imagens da tela empalideceram e houve um estrépito no fundo da
plateia. Na claridade repentina, Dámaso sentiu-se descoberto e marcado, e
resolveu correr. Mas em seguida viu o público da plateia, paralisado, e um
soldado, com o cinturão enrolado na mão, golpeando raivosamente um homem com a
pesada fivela de cobre. Era um negro monumental. As mulheres começaram a
gritar, e o soldado que batia no negro se pôs a berrar por cima dos gritos das
mulheres: “Ladrão! Ladrão!” O negro rodou por entre as fileiras de cadeiras,
perseguido por dois soldados que o golpearam nos rins até que puderam agarrá-lo
pelas costas. Então o que o açoitara amarrou-lhe os cotovelos por trás com a
correia e os três o empurraram em direção à porta. Tudo se passou com tanta
rapidez, que Dámaso só compreendeu o ocorrido quando o negro passou junto a
ele, com a camisa rasgada e a cara lambuzada por uma massa de pó, suor e
sangue, soluçando: “Assassinos, assassinos.” Depois apagaram as luzes e recomeçou
o filme.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Nesta terra não há ladrões. In: GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os
funerais da Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2014. p. 37.
A reação inicial de Dámaso, no trecho,
indica:
a) a culpa que sente, em função dos
acontecimentos narrados no conto.
b) sua covardia, reafirmada na acusação
que viria a fazer ao falso ladrão.
c) sua disposição de auxiliar a polícia na
prisão do verdadeiro ladrão.
d) o desejo de evadir-se da cidade, após
ser cúmplice do roubo.
Questão
4
“A
gaiola estava pronta. [...] Veio tanta gente para vê-la que se formou um
tumulto em frente à casa e Baltazar teve que tirá-la e fechar a carpintaria.”
Assim se inicia o conto “A prodigiosa tarde de Baltazar”, do livro Os funerais
da Mamãe Grande. Indique justificativas para o título da narrativa em função:
a) da confecção da gaiola.
b) da relação com os poderosos.
c) da relação com os moradores da cidade.
Questão
5
O trecho a seguir se refere à protagonista
do conto “Os funerais da Mamãe Grande”, da obra homônima. Leia-o para responder
ao que se pede.
[...]
Durante o presente século, a Mamãe Grande fora o centro de gravidade de
Macondo, como seus irmãos, seus pais e os pais de seus pais o foram no passado,
em uma hegemonia que preenchia dois séculos. A aldeia foi fundada em torno de
seu nome. Ninguém conhecia a origem, nem o limite nem o valor real do patrimônio,
mas todo mundo acostumara-se a acreditar que a Mamãe Grande era dona das águas
correntes e paradas, chovidas e por chover, e dos caminhos vicinais, dos postes
do telégrafo, dos anos bissextos e do calor e que tinha além disso um direito
herdado sobre vida e fazendas. Quando se sentava para gozar a fresca da tarde
na varanda de sua casa, com todo o peso de suas vísceras e de sua autoridade
aplastado em sua velha cadeira de balanço de cipó, parecia de fato
infinitamente rica e poderosa, a matrona mais rica e poderosa do mundo.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais da Mamãe Grande. In: GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os
funerais da Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2014. p. 131-132.
Como a imagem de Mamãe Grande construída
no trecho se aproxima da estrutura da sociedade patriarcal convencional? E em que
medida se distancia dela? Justifique com trechos do texto.
Questão
6
No conto “Os funerais da Mamãe Grande”,
por ocasião dos funerais da personagem, os moradores mais antigos da cidade se recordavam
de sua ascensão ao poder, ainda jovem.
Os
velhos recordavam como uma alucinação da juventude os duzentos metros de tapete
que se estenderam da casa-grande até o altar-mor, na tarde em que Maria del
Rosário Castañeda y Montero assistiu aos funerais de seu pai, e voltou pela rua
atapetada investida de sua nova e irradiante dignidade, transformada aos 22
anos de idade na Mamãe Grande. Aquela visão medieval pertencia então não só ao
passado da família, como ao passado da nação. Cada vez mais imprecisa e
distante, visível somente em seu balcão sufocado então pelos gerânios nas
tardes de calor, Mamãe Grande esfumava-se em sua própria lenda.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais da Mamãe Grande. In: GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os
funerais da Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro: Record,
2014. p. 143.
a) Com base no trecho anterior, explicite
a dimensão terrena e a dimensão mítica da personagem.
b) Duas figuras presentes nos funerais
representam, respectivamente, cada uma dessas dimensões. Indique-as e
justifique sua resposta.
Questão
7
Leia o trecho a seguir, retirado do conto
“A viúva Montiel”, de Os funerais da
Mamãe Grande.
Quando
o Sr. José Montiel morreu, todo mundo se sentiu vingado, menos sua viúva; mas
foram precisas várias horas para que todo mundo acreditasse que ele tinha realmente
morrido. Muitos continuaram duvidando mesmo depois de ver o cadáver em câmara-ardente,
acomodado entre travesseiros e lençóis de linho dentro de um caixão amarelo e
abaulado como um melão. Estava muito bem barbeado, vestido de branco e com
botas de verniz e tinha uma cara tão boa que nunca pareceu tão vivo. Era o
mesmo Sr. Chepe Montiel dos domingos, assistindo à missa das oito, só que em
lugar do chicote tinha um crucifixo entre as mãos. Foi preciso que parafusassem
a tampa do ataúde e que o emparedassem no aparatoso mausoléu familiar para que
a população inteira se convencesse de que ele não estava fingindo de morto.
Depois
do enterro, a única coisa que pareceu inacreditável a todo mundo, menos à
viúva, é que o Sr. José Montiel tivesse morrido de morte natural.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. A viúva Montiel. In:
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais da
Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014. p.
81.
a) A narrativa oferece elementos para
justificar o sentimento de vingança de todos para com José Montiel? Explique
sua resposta.
b) Considerando a narrativa como um todo,
essas impressões negativas seriam compartilhadas pelos familiares do morto? Justifique
sua resposta.
Questão
8
O trecho a seguir foi retirado de “Um dia
depois de sábado”, conto que pertence ao volume Os funerais da Mamãe Grande, de Gabriel García Márquez.
A
senhora Rebeca irrompeu no escritório sujo e desarrumado e a primeira coisa que
viu foi um monte de pássaros mortos sobre a escrivaninha. Mas estava
perturbada, em parte pelo calor e em parte pela indignação que lhe produzira a
destruição de suas telas. Assim não teve tempo de estremecer ante o inusitado
espetáculo dos pássaros mortos sobre a escrivaninha. Nem mesmo a escandalizou a
evidência da autoridade degradada no alto de uma escada, consertando as telas
metálicas da janela com um rolo de arame e uma chave de fenda. Ela não pensava
agora em outra indignidade senão a própria, escarnecida em suas telas, e sua
perturbação impediu-a inclusive de relacionar as janelas de sua casa com as da
municipalidade. Plantou-se com discreta solenidade a dois passos da porta, no
interior do escritório, e, apoiada no longo e enfeitado cabo de sua sombrinha,
disse:
– Quero fazer uma
queixa. [...]
E
foi então que ela relacionou os pássaros mortos sobre a escrivaninha com o
homem trepado na escada e com as telas estragadas de seus quartos. Estremeceu,
ao imaginar que todos os quartos de sua casa estavam cheios de pássaros mortos.
– Os passarinhos –
exclamou.
–
Os passarinhos – confirmou o alcaide. – É estranho que a senhora não tenha
percebido que há três dias estamos com esse problema dos passarinhos rompendo
as janelas para morrer dentro das casas.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Um dia depois de sábado. In:
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais da
Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014. p.
94-95.
a) A cena transcrita apresenta elementos
de uma corrente estilística da qual Gabriel García Márquez foi um dos principais
representantes na América Latina: o realismo fantástico. Encontre, no trecho,
uma justificativa para essa classificação. Cite outro episódio da mesma
narrativa que também exemplifique essa corrente estilística.
b) Cite outra narrativa do livro que
também apresente episódios representativos dessa corrente e justifique sua
resposta.
Questão
9
Em “As rosas artificiais”, a protagonista,
Mina, vive com a mãe e a avó cega e produz flores artificiais com ajuda da
amiga Trinidad. A trama do conto não é explicitada. Contudo, os trechos transcritos
a seguir permitem formular uma hipótese a respeito do enredo. Leia-os para
responder ao que se pede.
Trancada
no seu quarto, Mina desabotoou o corpete e tirou três chavezinhas que levava penduradas
com um alfinete de segurança. Com uma das chaves abriu a gaveta inferior do armário
e tirou um baú de madeira em miniatura. Abriu-o com a outra chave. Dentro tinha
um pacote de cartas em folhas coloridas, atadas com um elástico. Guardou-as no
corpete, pôs o bauzinho em seu lugar e voltou a fechar a gaveta com chave.
Depois foi ao banheiro e jogou as cartas na privada.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. As rosas artificiais. In:
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais da Mamãe
Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014. p. 130.
[...]
Trinidad evitou o olhar, sem levantar a cabeça, apenas arrastando os pés para
trás e interrompeu o trabalho.
– Que aconteceu? –
disse.
Mina inclinou-se para
ela.
– Foi-se embora –
disse.
Trinidad soltou as
tesouras no colo.
– Não.
– Foi – repetiu Mina.
Trinidad olhou-a sem
piscar. Uma ruga vertical dividiu suas sobrancelhas.
– E agora? – perguntou.
Mina respondeu sem
tremor na voz.
– Agora, nada.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. As rosas artificiais. In:
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais da
Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014. p.
131-132.
Formule uma hipótese a respeito do motivo
que teria levado Mina a jogar as cartas na privada. Justifique sua resposta com
elementos do texto.
-
Texto para a questão 10 -
Os
acontecimentos daquela noite e das seguintes seriam mais tarde definidos como
uma lição histórica. Não só pelo espírito cristão que inspirou os mais elevados
personagens do poder público, como pela abnegação com que se conciliaram
interesses díspares e critérios contrapostos, no propósito comum de enterrar um
cadáver ilustre. Durante muitos anos Mamãe Grande garantira a paz social e a
concórdia política de seu império, em virtude dos três baús de cédulas
eleitorais falsas que formavam parte de seu patrimônio secreto. Os varões da
criadagem, seus protegidos e arrendatários, maiores e menores de idade,
exerciam não só seu próprio direito de sufrágio, como também o dos eleitores
mortos em um século. Ela era a prioridade do poder tradicional sobre a autoridade
transitória, o predomínio da classe sobre a plebe, a transcendência da
sabedoria divina sobre a improvisação mortal.
Em
tempos pacíficos, sua vontade hegemônica concedia, e retirava prelazias,
prebendas e sinecuras, e velava pelo bem-estar dos associados mesmo que para
consegui-lo tivesse que recorrer à trapaça ou à fraude eleitoral. Em tempos
tormentosos, Mamãe Grande contribuiu em segredo para armar seus partidários e
prestou de público socorro às vítimas. Esse zelo patriótico a credenciava às
mais altas honras.
GARCÍA
MÁRQUEZ, Gabriel. Os funerais da Mamãe Grande. In: GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Os
funerais da Mamãe Grande. Trad. Édson Braga. 15. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2014. p. 150-151.
Questão
10
Responda com base na leitura do texto.
a) No trecho, evidencia-se a base da
influência exercida por Mamãe Grande na política nacional. Indique essa base,
comprovando sua resposta com elementos do texto.
b) O fragmento também evidencia a relação
que Mamãe Grande mantinha tanto com a parcela mais humilde da população quanto
com as classes mais abastadas. Explique como isso ocorre, justificando com
elementos do trecho.
1. c
2. d
3. a
4. a) Segundo a narrativa, Baltazar concluiu, nessa “prodigiosa
tarde”, um feito extraordinário: a confecção da “mais linda gaiola do mundo”.
b) Ao entregar a gaiola a Pepe Montiel, Baltazar descobriu que o
menino a tinha encomendado sem a anuência dos pais, razão pela qual o poderoso
José Montiel se recusara a ficar com ela. Sensibilizado pela tristeza do
menino, Baltazar tem a atitude grandiosa de presenteá-lo com a gaiola,
desafiando a vontade do poderoso Montiel.
c) O feito de Baltazar o torna um verdadeiro herói diante dos
moradores da cidade. Quando sai da casa dos Montiel, ele se dirige ao salão de
bilhar, onde simula ter conseguido arrancar dinheiro de José Montiel, o que
todos consideram um verdadeiro prodígio.
5. O patriarcalismo se baseia em algumas práticas políticas que
se reproduzem na caracterização de Mamãe Grande: o domínio ancestral sobre
determinada população (a família comandava Macondo “em uma hegemonia que durava
dois séculos”), a posição de centro da vida política local (“A aldeia foi
fundada em torno de seu nome”), a associação entre poder e riqueza (“Ninguém
conhecia a origem, nem o limite nem o valor real do patrimônio”), o poder
ilimitado (“todo mundo acostumara-se a acreditar que a Mamãe Grande era dona
das águas correntes e paradas, chovidas e por chover”), o amplo exercício do
mando (“tinha além disso um direito herdado sobre vida e fazendas”). Por outro
lado, o principal aspecto a distanciar a figura de Mamãe Grande do patriarcalismo
convencional é o fato de o poder emanar de uma mulher, vista como “a matrona
mais rica e poderosa do mundo”.
6.
a) A dimensão terrena de Mamãe Grande é explicitada no
reconhecimento de sua condição de herdeira do poder paterno, pois, com a morte
do pai, ela se viu “investida de sua nova e irradiante dignidade, transformada
aos 22 anos de idade na Mamãe Grande”. Quanto à dimensão mítica, foi sendo
construída aos poucos, conforme ela se tornava “cada vez mais imprecisa e
distante”, até se transformar definitivamente “em sua própria lenda”.
b) Os funerais contaram com a presença do Presidente da
República e do Papa. O primeiro comprova, com seu comparecimento, a influência
política da morta. Já o Papa, que se dispusera a sair do Vaticano, em Roma, para
participar dos funerais, reafirma a extensão da fama e do misticismo da
protagonista.
7.
a) Sim. José Montiel é apresentado como autoritário e violento,
a ponto de causar espanto o fato de que, em seu caixão, ele estivesse com um
crucifixo na mão em vez de seu habitual chicote.
b) A esposa de José Montiel não compartilha dos sentimentos
negativos da população, mantendo a dedicação respeitosa que tinha por ele em
vida. Já os filhos, moradores de outros países, recusam-se a comparecer ao
enterro do pai, o que indica uma impressão mais próxima da dos moradores do
povoado.
8.
a) O evento surpreendente de pássaros caindo mortos exemplifica
o realismo fantástico, tendência que integrava ao cotidiano mais corriqueiro os
eventos mais absurdos. Na mesma narrativa, podem-se citar as visões do padre
Antonio Isabel, que afirmava ter encontrado o diabo por três vezes, e, ainda, a
suposta passagem pelo povoado do Judeu Errante, na figura de um rapaz
forasteiro.
b) Em “A viúva Montiel”, a protagonista encontra e dialoga com
Mamãe Grande após a morte desta; em “Os funerais da Mamãe Grande”, a presença
do Papa no evento e a exuberância das festividades na ocasião são exemplos de
manifestações do realismo fantástico na obra.
9. Embora a narrativa não explicite as motivações de Mina, a
cena aponta para um rompimento amoroso: as cartas que ela jogou na privada
poderiam ser de um namorado que a teria abandonado, como indica a segunda cena
transcrita, na qual a protagonista informa à amiga Trinidad: “Foi-se embora”.
10.
a) A base do poder de Mamãe Grande era a corrupção eleitoral,
por meio da qual ela favorecia os grupos políticos que ocupavam o poder. No
trecho, essa prática fica evidenciada na revelação de que a protagonista
mantinha em seu poder “três baús de cédulas falsas”, utilizadas em época de
eleição para aumentar o contingente de votos dos apadrinhados da matriarca.
b) A parcela mais humilde é representada, no trecho, pelos
“varões da criadagem” de Mamãe Grande, que, de posse de “cédulas falsas”, votavam
em nome de pessoas mortas. Esses “varões” são “protegidos e arrendatários” de
Mamãe Grande, o que explica a obediência que deviam a ela. Já entre os
poderosos, seu poder era demonstrado pelas “prelazias, prebendas e sinecuras”
que conseguia para todos.

