06 abril 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: PROSAS SEGUIDAS DE ODES MÍNIMAS (2)

 



Questão 1

À garrafa

Contigo adquiro a astúcia

de conter e de conter-me.

Teu estreito gargalo

é uma lição de angústia.

 

Por translúcida pões

o dentro fora e o fora dentro

para que a forma se cumpra

e o espaço ressoe.

 

Até que, farta da constante

prisão da forma, saltes

da mão para o chão

e te estilhaces, suicida,

 

numa explosão

de diamantes.

PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

 

A reflexão acerca do fazer poético é um dos mais marcantes atributos da produção literária contemporânea, que, no poema de José Paulo Paes, se expressa por um(a):

a) reconhecimento, pelo eu lírico, de suas limitações no processo criativo, manifesto na expressão “Por translúcida pões”.

b) subserviência aos princípios do rigor formal e dos cuidados com a precisão metafórica, como se observa em “prisão da forma”.

c) visão progressivamente pessimista, em face da impossibilidade da criação poética, conforme expressa o verso “e te estilhaces, suicida”.

d) processo de contenção, amadurecimento e transformação da palavra, representado pelos versos “numa explosão / de diamantes”.

e) necessidade premente de libertação da prisão representada pela poesia, simbolicamente comparada à “garrafa” a ser “estilhaçada”.

 

- Texto para a questão 2 -

Chegou a hora

de nos despedirmos

um do outro, minha cara

data vermibus

perna esquerda.

A las doce en punto

de la tarde

vão-nos separar

ad eternitatem.

Pudicamente envolta

da sala de cirurgia

para algum outro (cemitério

ou lata de lixo

que importa?) lugar

onde ficarás à espera

a seu tempo e hora

do restante de nós.

PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

 

Questão 2

a) Caracterize a maneira como o poeta trabalha literariamente o tema da amputação de sua perna.

b) O tratamento do tema remete a alguma escola literária consagrada na tradição brasileira? Justifique sua resposta.

 

- Texto para a questão 3 -

A casa

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.

Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.

Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.

[...]

E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que

está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.

Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.

Antes que ele acorde e se descubra também morto.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. P33.

 

Questão 3

Em seu regate da vida familiar, José Paulo Paes:

a) deseja romper com aspectos de seu passado.

b) ironiza o caráter fútil das ocupações de seus familiares.

c) descreve de maneira nostálgica aspectos de sua infância.

d) afasta-se do gênero literário, ao exprimir-se por meio da prosa.

e) articula sua condição atual de poeta ao passado infantil.

 

- Textos para a questão 4 -

Texto 1

Ao fósforo

Primeiro a cabeça

o corpo depois

se inflamam e acendem

 

o forno

do pão

 

a luz

na escuridão

 

a pira

da paixão

 

a bomba

da revolução.

 

Sim, mas vamos à coisa concreta:

 

você fala de fósforos

ou de poetas?

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 75.

 

Texto 2

Mistérios de um fósforo

Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o

Depois. E o que depois fica e depois

Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois

Túmulos dentro de um carvão promíscuo.

 

Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo

Que a individual psique humana tece e

O outro é o do sonho altruístico da espécie

Que é o substractum dos sonhos do indivíduo!

 

E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres:

– “Cinza, síntese má da podridão,

“Miniatura alegórica do chão,

“Onde os ventres maternos ficam podres;

 

“Na tua clandestina e erma alma vasta,

“Onde nenhuma lâmpada se acende,

“Meu raciocínio sôfrego surpreende

“Todas as formas da matéria gasta!”

ANJOS, Augusto dos. Mistérios de um fósforo. In: ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. Porto Alegre: L&PM, 2001. p. 107-108.

 

Questão 4

José Paulo Paes era um profundo admirador do poeta paraibano Augusto dos Anjos. Ao retomar o tema trabalhado em “Mistérios de um fósforo”, Paes:

a) usa os mesmos padrões formais utilizados por Augusto dos Anjos.

b) reflete sobre elementos do cotidiano, assim como Augusto dos Anjos.

c) trata do mesmo tema metalinguístico empregado por Augusto dos Anjos.

d) constitui o fósforo como interlocutor, assim como seu modelo paraibano.

e) demonstra a mesma desilusão e pessimismo de seu congênere paraibano.

 

Questão 5

Leia o poema “Escolha de túmulo” para responder aos itens.

Onde os cavalos do sono

batem cascos matinais.

 

Onde o mundo se entreabre

em casa, pomar e galo.

 

Onde ao espelho duplicam-se

as anêmonas do pranto.

 

Onde um lúcido menino

propõe uma nova infância.

 

Ali repousa o poeta.

 

Ali um voo termina,

outro voo se inicia.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 13. 

a) Identifique, no texto, imagens que possam ser relacionadas à influência surrealista. Justifique sua resposta.

b) O texto demonstra algum tipo de abertura à espiritualidade? Explique.

 

- Texto para a questão 6 -

À televisão

Teu boletim meteorológico

me diz aqui e agora

se chove ou se faz sol.

Para que ir lá fora?

 

A comida suculenta

que pões à minha frente

como-a toda com os olhos.

Aposentei os dentes.

 

Nos dramalhões que encenas

há tamanho poder

de vida que eu próprio

nem me canso em viver.

 

Guerra, sexo, esporte

– me dás tudo, tudo.

Vou pregar minha porta:

já não preciso do mundo.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 71. 


Questão 6

Em sua abordagem poética da televisão, José Paulo Paes:

a) idealiza o papel das mídias eletrônicas.

b) exalta a democratização das informações.

c) ironiza o processo de alheamento da realidade.

d) critica a falta de critérios na arte dramática televisiva.

e) elogia a oferta de prazeres no mundo contemporâneo.

 

- Texto para a questão 7 -

À bengala

Contigo me faço

pastor do rebanho

de meus próprios passos.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 61.

 

Questão 7

É possível afirmar que, no poema, José Paulo Paes:

a) deprecia a utilização de uma bengala.

b) duvida de sua própria capacidade de locomoção.

c) contrapõe a melancolia atual às felicidades do passado.

d) vale-se da concisão e da metáfora para abordar sua condição física.

e) denuncia a precariedade da assistência a portadores de limitações físicas.

 

Questão 8

Com base na leitura de Prosas seguidas de odes mínimas, de José Paulo Paes, é incorreto afirmar que essa obra:

a) se ocupa, em sua primeira parte – nas prosas –, de temas relacionados à vida atual, ao passo que, na segunda – nas odes mínimas –, se volta para o passado.

b) tem afinidades com as poéticas do século XX, como o modernismo e o concretismo, pois o poeta versifica com liberdade e confere valor expressivo ao branco da página.

c) recupera aspectos do passado pessoal do autor e de sua família e se refere a aspectos do passado histórico brasileiro e universal.

d) se ocupa de temas sérios, como a morte, abordando-os tanto com circunspecção e gravidade quanto com humor e leveza.

 

Questão 9

O poema abaixo é de José Paulo Paes.

À impropriedade

De cearense sedentário

baiano lacônico

mineiro perdulário

 

Deus nos guarde.

 

De carioca cerimonioso

gaúcho modesto

paulista preguiçoso

 

Deus nos livre e guarde. 

Interpretando-se os sentidos do poema, indique V (verdadeiro) ou F (falso)

(x) em seu sentido global, o poema reafirma os estereótipos a respeito dos diversos tipos de brasileiro.

(x) o poema é construído com antíteses parcialmente implícitas: ao conceito de “cearense sedentário”, por exemplo, opõe-se “cearense migrante”.

(x) o poema é bem-humorado por causa das inversões de sentido utilizadas pelo autor.

(x) o título “À impropriedade” funciona como um ornamento dispensável ao texto, sem manter assim relações de sentido com o poema.

 

Questão 10

O livro Prosas seguidas de odes mínimas, de José Paulo Paes, como o próprio título anuncia, é composto de duas partes. Quanto às semelhanças e às diferenças, referentes à temática e à forma dos poemas dessas partes, indique V (verdadeiro) ou F (falso)

(x) na primeira parte, o eu poético faz uma reflexão sobre as pessoas e as vivências que marcaram seu passado; na segunda, analisa o mundo e as coisas à sua volta, revelando posicionamento crítico.

(x) a primeira parte é composta de textos em prosa destituídos de intenção e de imagens poéticas que configuram a segunda parte.

(x) a segunda parte conserva o mesmo tom memorialista da primeira, em que o eu poético resgata sentimentos e vivências da sua adolescência e juventude.

(x) nas duas partes, o eu poético desvincula-se da realidade circundante, imprimindo aos poemas um caráter alienante.

 

 



1. d

2. a) O poeta trabalha o tema da amputação da perna esquerda de maneira objetiva e irônica, tal como se percebe na referência direta à destinação do membro amputado. A ironia se revela também na maneira como o poeta caracteriza a perna, por meio de uma expressão em latim: “cara / data vermibus”.

b) Pela maneira direta como trata um episódio repulsivo, pode-se associar o poema à crueza da linguagem naturalista. Além disso, por conta dos versos livres e da ironia, é possível relacionar o poema ao Modernismo.

3. e

4. b

5. a) O ambiente onírico de caráter surrealista aparece nos versos iniciais “Onde os cavalos do sono / batem cascos matinais” ou, ainda, em “Onde ao espelho duplicam-se / as anêmonas do pranto”. Essas imagens exploram a estranheza em relação a aspectos da vida real, o que era uma das características do Surrealismo.

b) Sim. Ao considerar que um novo voo se inicia no túmulo, o poeta deixa entrever certa confiança em formas de vida pós-morte.

6. c

7. d

8. a

9. V – V – V – F

10. V – F – F – F







INTRODUÇÃO À OBRA: PROSAS SEGUIDAS DE ODES MÍNIMAS (2)

  Questão 1 À garrafa Contigo adquiro a astúcia de conter e de conter-me. Teu estreito gargalo é uma lição de angústia.   Por translúcida põ...