05 abril 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: PROSAS SEGUIDAS DE ODES MÍNIMAS (1)

 



Introdução

Prosas seguidas de odes mínimas é um livro de poesia do paulista José Paulo Paes (1926-1998), publicado em 1992. Dividida em duas seções (“Prosas” e “Odes mínimas”), a obra expressa a maturidade artística do autor, que resgata sua trajetória infantojuvenil ao mesmo tempo que lança um olhar agudo sobre os aspectos mais ínfimos do cotidiano: óculos, tinta de escrever, bengala e outros objetos assumem significados inusitados, revelando dimensões surpreendentes. Dessa maneira, emulando uma atitude socrática, o poeta rompe o senso comum, imprimindo alcance filosófico aos seus poemas por meio de textos curtos e profundamente irônicos, de linguagem simples, mas que demonstram profunda elaboração estética.

José Paulo Paes é um dos grandes poetas brasileiros do século XX. Sua obra é um convite para refletir sobre nossa relação com a História, com a poesia e com os aspectos mais familiares de nosso dia a dia, com olhos de surpresa e de encantamento. 

O autor

Conhecer a biografia de José Paulo Paes auxilia na compreensão de Prosas seguidas de odes mínimas, obra em que ele, sem nunca incorrer em nostalgia, explora intensamente suas vivências infantojuvenis. 

Infância interiorana

O próprio José Paulo Paes admitiu que sua ligação com as palavras parecia coisa predestinada, visto que ele veio ao mundo em uma livraria, ou melhor, em um quartinho ao lado de uma livraria. O poeta nasceu em Taquaritinga, cidade do interior paulista, em 1926, e aprendeu a gostar de ler no seio da própria família: J.V., seu avô, era dono da Casa Guimarães – Typographia, livraria e papelaria. Seus pais eram ávidos leitores, bem como os numerosos parentes com quem o pequeno José Paulo convivia sob o teto da casa do velho avô. Dona Zizinha, a avó, encantava e amedrontava os netos com histórias de assombração, certamente inspiradas nos folhetins de aventura que ela assinava e que também eram lidos pela meninada.

José Paulo Paes cursou o ginasial (equivalente ao Ensino Fundamental II) em Araçatuba, onde, nos intervalos das aulas enfadonhas e das muitas farras juvenis, iniciou-se na leitura de Machado de Assis e de outros escritores. O jovem ficou intrigado com aqueles livros que não precisavam de aventuras ou de heróis para prender a atenção dos leitores. Fixou-se também na poesia de Augusto dos Anjos, poeta que explorava os assuntos mais estranhos em versos impactantes e musicais.

 

O alquimista

Em 1944, seguindo as sugestões de um colega, José Paulo foi para Curitiba fazer um curso técnico em Química. Desde pequeno ele fora fascinado pela alquimia, principalmente pela ordenação dos frascos nas estantes dos laboratórios. Mas o que o levou para lá foram mesmo questões de ordem pragmática: ele não queria mais depender financeiramente dos pais e o curso técnico de Química podia ser concluído em menos tempo. Contudo, assim como sempre fizera, estudou apenas para passar nos exames escolares, pois o que o seduzia de fato eram a literatura e a política.

Ele se reunia com os amigos no Café Belas-Artes, espaço de franca colaboração intelectual entre pintores e músicos apaixonados pela cultura. Nessa época, colaborou com a revista Joaquim, dirigida pelo escritor curitibano Dalton Trevisan. Foi em Curitiba que José Paulo Paes tomou a “resolução inabalável” de que seria poeta e escritor, fossem quais fossem as dificuldades. Ele calmamente enfrentou o dilema de conciliar as necessidades financeiras da vida prática – que resolveria atuando profissionalmente como químico – e a vocação intrínseca de lidar com as palavras. Ainda em seu período curitibano, ele publicou seu primeiro livro de poesias, O aluno, em 1947, obra em que ficou clara sua filiação estética ao Modernismo brasileiro, principalmente com as propostas de Carlos Drummond de Andrade.

Em 1949, o poeta mudou-se para São Paulo e começou a trabalhar como analista químico na indústria farmacêutica Squibb, onde permaneceria até 1960. Na capital paulista, ele conheceu Dora Costa, primeira bailarina do Teatro Municipal, com quem se casou em 1951. Dora foi sua eterna musa, companheira constante, figura feminina de projeção em toda a obra paesiana. Na década de 1950, embora trabalhasse como químico, José Paulo mantinha vínculos com escritores, além de se dedicar ao aprendizado de idiomas, sendo atraído poderosamente pela atividade da tradução.

 

Editor, tradutor e ensaísta

No início dos anos 1960, depois de desligar-se da indústria química, José Paulo passou a trabalhar na editora Cultrix, desempenhando papel de relevo na atividade editorial brasileira. Ele dirigiu a publicação de títulos fundamentais na área de Linguística e Semiótica, além de obras de divulgação cultural voltadas para o grande público. Uma vertente curiosa de seu trabalho foi o interesse pela “literatura safada”, de temática erótica ou abertamente pornográfica. Em 1980, ele foi premiado pela tradução de Sonetos luxuriosos, do renascentista italiano Pietro Aretino. Publicou também o volume Poesia erótica em tradução, em que ele verteu para o português poemas eróticos produzidos desde a Antiguidade, em idiomas tão variados quanto grego clássico, latim, alemão, inglês, francês, italiano, espanhol e provençal. Paes também se notabilizou por traduzir poetas gregos modernos e contemporâneos. Como reconhecimento desse trabalho, em 1989 ele recebeu uma honraria das mãos do próprio presidente da Grécia: a Cruz de Ouro da Ordem de Honra.

Além de eminente tradutor, Paes foi ainda um crítico literário agudo e prolífico, publicando ensaios importantes sobre os mais variados aspectos da literatura brasileira e internacional. Felizmente, o trabalho de ensaísta e tradutor não o afastou da criação poética. Na década de 1980, ele produziu inclusive poesia para crianças, alcançando grande sucesso, pois suas obras foram adotadas por muitos educadores Brasil afora.

 

Doença e amputação

Na década de 1980, agravou-se um problema circulatório que o acompanhava desde longo tempo. Depois de muito padecer com uma necrose no pé, cujas toxinas o levavam a delírios terríveis, teve a perna esquerda amputada pouco acima do joelho. Ele tratou desse episódio terrível, sem nenhum sentimentalismo, na ode “À minha perna esquerda”, que abre a segunda seção de Prosas seguidas de odes mínimas.

Acompanhado de Dora, sem nunca ter tido filhos (o casal perdeu, ainda na gestação, a pequena Glaura), José Paulo Paes dedicou-se a uma intensa aventura intelectual na sua pequena casa no bairro paulistano de Santo Amaro. No escritório abarrotado de livros, nos fundos do quintal, ele pôde fazer da leitura e dos livros um mundo sem tempo nem fronteiras, um espaço aberto onde o pensamento campeava livremente, movido por uma curiosidade sem preconceitos, fonte inesgotável de um poderoso processo de criação. Essa aventura encerrou-se no dia 9 de outubro de 1998, quando o incansável intelectual faleceu, vítima de um edema pulmonar. Dora encontrou no computador do poeta seu último texto, datado do dia anterior ao de sua morte:

Dúvida

Não há nada mais triste

do que um cão em guarda

ao cadáver do seu dono.

 

Eu não tenho cão.

Será que ainda estou vivo?

PAES, José Paulo. Dúvida. In: PAES, José Paulo. Socráticas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 9

 

Estilo

Brevidade e síntese: estilo epigramático

O poema “Dúvida” pode ser classificado como um epigrama, gênero muito praticado por José Paulo Paes.

A origem dos epigramas remonta à Grécia antiga. Naquela época, eram inscrições feitas em túmulos, monumentos, estátuas ou medalhas para lembrar uma pessoa ou um acontecimento memorável. A brevidade e a concisão são duas características básicas do gênero, que, aos poucos, foi ampliando os assuntos e se achegando à sátira e aos temas licenciosos, ofensivos ao pudor, contrários à moral e aos bons costumes. Foi assim que o epigrama se consagrou na literatura latina, onde adquiriu as características que se perpetuaram, tendo como modelo, principalmente, o poeta romano Marcial (38?-104?), cujo veneno atacou duramente vários aspectos da sociedade de seu tempo. Para além dessa verve libertina, a concisão epigramática assimilou muitas vezes um caráter reflexivo, em que se explora a agudeza, ou seja, a perspicácia de condensar em poucas palavras um pensamento espirituoso, irônico ou profundo.

José Paulo Paes foi um mestre do epigrama, como se vê a seguir:

À bengala

Contigo me faço

pastor do rebanho

de meus próprios passos.

PAES, José Paulo. À bengala. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 61.

 

Embora o epigrama não tenha forma fixa estabelecida (como vimos, sua principal característica é a brevidade), o poema “À bengala” apresenta uma sequência de três versos isométricos, de cinco sílabas poéticas, com rimas consoantes entre o primeiro e o terceiro. Há um certo travo de autoironia no texto, visto que o poeta se dirige a um objeto que invariavelmente o acompanhava desde a amputação de sua perna.

Mas não é preciso ir até a Grécia antiga para encontrar modelos mais próximos da concisão e da brevidade utilizadas por José Paulo Paes. O poeta externou, na autobiografia Quem eu? Um poeta como outro qualquer, a emoção juvenil de ter finalmente compreendido a mensagem poética modernista de autores como Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade:

Com aqueles fundadores da nossa modernidade poética, aprendi que poesia é ver as coisas do mundo como se fosse pela primeira vez e exprimir essa novidade de visão da maneira mais concisa e intensa possível, numa linguagem onde só haja lugar para o essencial, não para o acessório. Daí a eliminação de tudo quanto cheire a enfeite ou ornato, inclusive rima e métrica, se necessário for. Nunca mais esqueci essa lição fundamental; disso dá testemunho a dicção econômica das dezessete coletâneas de poemas que até hoje publiquei.

PAES, José Paulo. Quem eu? Um poeta como outro qualquer. São Paulo: Atual, 1996. p. 34. 

Um exemplo radical da capacidade de síntese paesiana encontra-se no poema “O silêncio é de ouro!”, do livro A poesia está morta mas juro que não fui eu, de 1988. Nesse texto, o poeta explora o paralelismo dos acentos gráficos para carregar a linguagem de significado, a tal ponto que ela simplesmente dispensa o uso de letras, mimetizando uma expressão feita só de silêncios.

 


Humor e ironia

Na poesia de José Paulo Paes, o estilo condensado e avesso a qualquer tipo de ornamentação exagerada é temperado pela exploração fina da ironia. Nota-se, nesse aspecto, a influência de outro grande poeta modernista, Oswald de Andrade, de quem Paes ficou amigo nos anos 1950.

O emprego da ironia não está relacionado à exploração pura e simples do humor. Na obra de Paes, o humor raramente se esgota nele mesmo, ou seja, a intenção não é apenas despertar o riso por meio de expressões cômicas ou jocosas. Uma das características do humor é a sua imediatez, uma espécie de fagulha que desencadeia a apreensão cômica e risível de algum termo ou situação. José Paulo Paes não é um humorista; ele é um poeta irônico e mordaz, cujas reflexões ácidas podem ser associadas a uma espécie de atitude socrática diante da realidade. Assim como Sócrates, eminente filósofo grego, Paes demonstra uma consciência da realidade da vida que ultrapassa o senso comum. Por meio de uma atitude que oscila entre a seriedade e o espírito lúdico, ele revela aspectos inusitados da existência a partir de um olhar que vai das coisas mais cotidianas até as mais abstratas e conceituais.

A ironia explora os contrastes entre as palavras e o conteúdo do pensamento que as ordenou; por isso, ela é uma estratégia discursiva que exige mais tempo para ser compreendida. Na medida em que a ironia reside na aproximação entre dois campos (as palavras expostas e a intenção de quem as utilizou), o leitor deve engajar-se para explorar os sentidos não explícitos do texto. Vejamos o poema “À televisão”:

Teu boletim meteorológico

me diz aqui e agora

se chove ou se faz sol.

Para que ir lá fora?

 

A comida suculenta

que pões à minha frente

como-a toda com os olhos.

Aposentei os dentes.

 

Nos dramalhões que encenas

há tamanho poder

de vida que eu próprio

nem me canso em viver.

 

Guerra, sexo, esporte

– me dás tudo, tudo.

Vou pregar minha porta:

já não preciso do mundo.

PAES, José Paulo. À televisão. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 71. 

O enunciador dirige-se ao próprio aparelho de televisão, valendo-se de verbos e pronomes em segunda pessoa. Esse recurso consolida a personificação, figura de linguagem que consiste em atribuir características humanas ou animadas a objetos. Explicitamente, as palavras do poema demonstram gratidão pelo poder de realidade que a televisão é capaz de emular. A ironia do texto consiste em perceber que a radicalidade de tudo aquilo que a televisão oferece acaba construindo um simulacro alienante de uma existência real. A experiência intensa oferecida pelas TVs, relacionada a aspectos básicos como a comida, o sexo e as emoções, constrói, na verdade, uma prisão escravizadora que afasta as pessoas da vida.

É interessante imaginar como o poeta se posicionaria em relação à internet, cuja projeção mundial ele não chegou a presenciar. 

Síntese da obra

A obra Prosa seguidas de odes mínimas tem sido considerada pela crítica uma das mais relevantes da trajetória poética de José Paulo Paes. Publicada em 1992, ela é composta de duas seções: “Prosas”, com 20 textos, e “Odes mínimas”, com 13. 

Prosas

Apesar do título, a primeira seção do livro não é composta apenas de poemas em prosa, modalidade poética que se consagrou no século XIX, com escritores simbolistas. Na verdade, dos 20 textos, apenas 9 exploram a prosa como forma de expressão.

Em entrevista concedida em 1992, pouco depois da publicação do livro, Paes admitiu que a seção “Prosas” é fortemente marcada pelo impulso rememorativo. O poeta ainda afirmou que, na composição dessa parte do livro, várias imagens foram sugestões que lhe apareceram em sonhos. A seção é povoada por personagens da infância e da adolescência vividas em Taquaritinga, bem como pelos sonhos e pelas inquietudes dessa fase da vida.

Apesar disso, o livro se inicia com um poema que remete ao fim da vida, dando a impressão de uma trajetória terminada e de um vislumbre a respeito do descanso após a morte. Trata-se do poema “Escolha de túmulo”, que, ironicamente, foi escrito em 1947, em plena juventude do poeta, mas nunca aproveitado em seus livros anteriores. Paes enumera lugares para o túmulo referido no título, iniciando com uma imagem de teor surrealista – “Onde os cavalos do sono / batem seus cascos matinais” – e um tanto contraditória, pois associa algo marcado pela rudeza e sonoridade (o bater de cascos) à delicadeza do sono da manhã. O poeta inclina-se para a transcendência ao afirmar que, ali, no lugar do túmulo, “um lúcido menino / propõe uma nova infância”, destacando, no fim, uma abertura para novas experiências.

[...]

Ali repousa o poeta

Ali um voo termina,

outro voo se inicia.

PAES, José Paulo. Escolha de túmulo. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 13.

 

Dessa maneira, o poema inaugural, apesar de explorar o conceito da finitude da vida por meio da imagem do túmulo, abre-se para um novo começo, cujo voo só se daria depois da morte.

Depois desse início de matiz fúnebre, a obra salta de maneira abrupta para a adolescência, tematizando também novos começos e o impulso de partir para o desconhecido, para aquilo que até então a vida não oferecera.

 

Três poemas adolescentes

Na referida entrevista dada pelo poeta, ele afirma que o poema “Canção do adolescente” também foi escrito no ano de 1947, quando ele tinha cerca de 20 anos de idade. O poema convoca o interlocutor (no caso, o leitor, identificado por meio da segunda pessoa do plural) a olhar com atenção o corpo adolescente que se dirige a ele. O eu lírico mostra que suas rugas são apenas postiças ou literárias, revelando que a maturidade de um adolescente não passa de afetação. Incomodado com as risadas ferinas das mulheres que riem de seu “corpo híbrido”, o enunciador sentencia:

[...]

Que força macabra

misturou pedaços

de criança e homem

para me criar?

Se quereis salvar-me

desta anatomia,

batizai-me depressa

com as inefáveis

as assustadoras

águas do mundo.

PAES, José Paulo. Canção do adolescente. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 15.

 

O poeta apresenta, de maneira expressiva, dilemas que envolvem essa fase da vida em que a pessoa ainda está física e mentalmente presa a características infantis, mas sente em si o desabrochar da maturidade sexual e o desejo de conhecer logo as alegrias e as dores do mundo.

No poema seguinte, “Noturno”, faz-se referência ao apito do trem noturno e ao desejo do adolescente interiorano de conhecer o mundo: “Tantos livros para ler / tantas ruas por andar / tantas mulheres a possuir...”. Contudo, a amplidão desses anseios se esbate na dura realidade do quarto fechado. O adolescente enfim dorme, “certo de que o dia vai nascer especialmente para ele”. Esse verso não esconde um grão de ironia com o egocentrismo juvenil, que acredita que toda a realidade está à espera de sua ação conquistadora.

O título do terceiro poema parodia o célebre canto saudoso de Gonçalves Dias: “Canção de exílio”. Mas na versão de Paes não se tem saudades de uma terra distante e idealizada; pelo contrário, depois de ter ensaiado, nos poemas anteriores, a superação da realidade mesquinha em que vivia, o jovem finalmente liberta-se e sai para o mundo. Os verbos no pretérito perfeito indiciam a viagem já iniciada e a firmeza de quem não deseja voltar atrás.

Um dia segui viagem

sem olhar sobre o meu ombro.

 

Não vi terras de passagem

Não vi glórias nem escombros.

[...]

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 19.

 

O poeta desliga-se do mundo familiar e parte, sedento pelas “águas do mundo”. Não carrega saudades, mas também não acalenta ilusões de consagração ou felicidade, tal como mostram os versos finais do poema.

Fechei a porta da rua

a chave joguei ao mar.

 

Andei tanto nesta rua

que já não sei mais voltar.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 19.

 

Contudo, depois desse impulso de liberdade adolescente, em mais um giro surpreendente na estrutura do livro, os oito poemas seguintes consolidam a perspectiva de um enunciador adulto, que se volta de maneira intensa e afetiva para as referências familiares mais próximas: os pais, os avós e a casa onde viveu na infância.

 

Um par de retratos

Em “Um retrato”, o eu lírico já é um homem maduro que avalia sua relação com o pai, recordando o quanto eles foram sempre distanciados um do outro.

[...]

Houve sempre entre nós certa distância,

um pouco maior que a desta mesa onde escrevo

até esse retrato da parede

de onde ele me olha o tempo todo. Para quê?

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 21-22.

 

O pai, já ausente, tornou-se apenas um retrato na parede, cujo olhar parece mais próximo do que era antes. O poeta destaca o quanto guarda poucas lembranças do pai, que estava sempre entretido com o trabalho, com leituras, em conversas com outros adultos ou em viagens. Só estiveram juntos por mais tempo quando o velho adoeceu e foi trazido para a casa do poeta “(que infinitos / os cuidados de Dora com ele!)”. Mas nessa ocasião a relação foi intermediada pela pertinaz luta do pai contra a morte.

Até o dia em que tive de ajudar

a descer-lhe o caixão à sepultura.

Aí então eu o soube mais que ausência.

Senti com minhas próprias mãos o peso

do seu corpo, que era o peso

imenso do mundo.

Então o conheci. E conheci-me.

Ergo os olhos para ele na parede.

Sei agora, pai,

o que é estar vivo.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 21-22.

 

Os poemas da seção “Prosas” pouco exploram a típica ironia paesiana, bem como a síntese epigramática, marcante em outros livros do autor. O poema em questão é profundamente reflexivo e carregado de densidade lírica, na medida em que o poeta se projeta integralmente no texto, tanto na referência concreta a sua esposa, quanto no aprendizado profundo que alcançou ao sentir o peso do corpo morto do pai descendo à sepultura. O texto projeta o autoconhecimento alcançado por meio da experiência da morte de entes queridos. Por mais que a morte do pai tenha imprimido uma ausência muito mais definitiva do que aquela vivenciada pelo poeta na infância, esse distanciamento parece não ser absoluto, dada a presença vigilante dos olhos paternos no retrato da parede.

No poema “Outro retrato”, cujo título já indica fazer par com o anterior, José Paulo Paes resgata a imagem de sua mãe: “O laço de fita / que prende os cabelos / da moça no retrato / mais parece uma borboleta”. Novamente temos o olhar maduro do poeta perscrutando um retrato da família. No caso, a mãe ainda é jovem. Um ventinho e o laço/borboleta voa para um lugar onde maridos não chegam tarde e com gosto amargo na boca, não há tarefas domésticas, nem filhos que se ausentam sem ao menos escrever cartas. Mas esse devaneio em um espaço idílico termina com o fim da associação metafórica e o retorno à literalidade do laço, que apenas prende o cabelo da moça – e ela própria – à mesma triste realidade em que as mencionadas situações negativas voltam a ser comuns. O posicionamento compassivo do poeta ao expressar “coitada!” lamenta o cotidiano típico de uma mulher em uma família patriarcal brasileira da primeira metade do século XX. 

As prosas

Nos poemas em prosa, o poeta desenvolve referências aos entes familiares. Em “J.V.”, poema composto de 11 parágrafos com cerca de 5 linhas, Paes resgata a figura do avô, dono da livraria. Na loja, J.V. recebia os fregueses e conversava com as “notabilidades locais”, tais como o vigário, o juiz e o delegado. O assunto era frequentemente a política. O avô era monarquista e chegou a participar de uma intentona em Taquaritinga que buscava restaurar a monarquia. A valorização dos sonhos transparece nesse poema em uma imagem insólita do segundo parágrafo.

Nesse mesmo uniforme, muitos anos depois de ele morto, eu o revi em Guimarães, a sua cidade do Minho. O sol poente lhe recortava contra o horizonte a figura miúda e trêfega de último escudeiro de Afonso Henriques que partia a combater os mouros.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 25.

 

O reencontro com o avô só poderia ter se dado no plano do sonho, visto que ele há muito já estava morto. O reencontro de ambos em Portugal destaca o caráter quixotesco do velho, no seu relutante apego a figuras da monarquia, tanto lusitana, na referência a Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, quanto brasileira, no retrato da família imperial colocado na sala de visitas, logo acima do piano alemão. O caráter quixotesco do velho se acentua no fim da vida dele, quando, delirando, queria descer da cama para matar o imperador japonês Hirohito. Mas o imperador não perdera por esperar: quando ele morreu, muitos anos depois, “o último escudeiro de Afonso Henriques o tinha finalmente alcançado”.

O poema “D. Zizinha”, dedicado à avó, reconstitui os modos e as manias da velha senhora, bem como seu gosto pelas leituras de folhetins de aventuras e de terror. Há, no texto, uma triste constatação do silenciamento imposto aos idosos, pois ela tinha ficado surda e a família se impacientava de ter de conversar com ela aos gritos. Esse escanteamento da pessoa idosa se manifesta também pela decisão dela de comer solitária em sua cozinha. O poeta afirma que não se lembrava nem da morte, nem do enterro de D. Zizinha, apesar de se lembrar bem de todos os outros enterros da casa. Ele encerra seu texto memorialista com uma espécie de consolo idealista:

Quem sabe nunca morreu, ela que tinha tanto pavor de cemitérios. Quem sabe não voltou, sem que nós o percebêssemos, para a fazenda fluminense de onde viera, levando consigo os velhos folhetins que ninguém mais se interessava em ler e as velhas histórias de assombração que já ninguém queria ouvir.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 28.

 

O resgate do passado continua nos poemas “Um empregado” e “Loucos”. No primeiro, Paes retoma a figura cerimoniosa e pitoresca de um empregado da livraria de seu avô. No segundo, depois de afirmar que os loucos estão “muito mais perto do mundo das crianças que dos adultos”, o poeta recorda três loucos de Taquaritinga, com seus comportamentos estranhos e, de certa forma, engraçados. Reconhecendo que a racionalidade não oferece todos os meandros do conhecimento, o poeta abre-se para o aprendizado daquilo que os loucos poderiam ensinar: “Deles aprendemos coisas que os professores do grupo e do ginásio não nos poderiam ensinar, mesmo porque, desconfio, nada sabiam delas”.

O tocante poema “A casa” começa com uma afirmação categórica: “Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas”. A seguir, Paes enumera recordações de vários familiares, cada um em um cômodo da velha casa em Taquaritinga, onde vivera até os 11 anos de idade. São os fantasmas a quem ele se refere. No fim, ele mesmo se apresenta como um dos personagens:

[...]

E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só

[que o menino está vivo; trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.

Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.

Antes que ele acorde e se descubra também morto.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 33.

 

Em sua autobiografia, José Paulo Paes revela que o texto foi motivado por um sonho, que lhe dera “a situação de base e a atmosfera fantasmagórica do poema; para o resto, recorri às lembranças que tinha dos meus familiares, quase todos mortos àquela altura. A velha casa de Taquaritinga estava, inclusive, abandonada havia anos, arruinando-se”.

De qualquer forma, o poema resgata os familiares já mortos em atividades estranhas e de caráter macabro: o tio imprime avisos fúnebres na tipografia; uma tia lustra o próprio caixão na sala de jantar; uma prima passa a ferro as mortalhas da família na copa. Inclusive o menino que observa, projeção do próprio José Paulo Paes, é uma imagem remota, visto que o poeta já era sexagenário quando escreveu o poema. Ele adquire também uma condição fantasmática similar à dos parentes que observa, atento, do telhado.

A sequência de seis poemas em prosa se encerra com “Iniciação”, em que se notam reverberações do mencionado interesse de José Paulo Paes pela poesia erótica. O texto aborda a iniciação sexual do poeta com três mulheres: “A.”, “B.” e “C.”, mencionando, respectivamente, os seios de A., “que tremiam no antegozo e no horror da morte consentida”; a “popa transatlântica de B.”, onde o poeta conhecera a “fúria das borrascas e a combustão dos sóis”; e a “imêmore caverna” de C., onde seu desejo ficara preso para sempre. O corpo feminino aqui é associado a elementos grandiosos e marcantes, imprimindo ao amor e ao desejo uma dimensão radicalmente física, contrária à idealização platônica do sentimento amoroso. O corpo feminino, em sua capacidade de fascínio, chega a ser hiperbolicamente caracterizado como a “realidade última que cega e que ensurdece”.

 

Três reencontros

Em sua autobiografia, José Paulo Paes relata a perda de uma filha: “nossa única filha não chegou a viver para ser batizada com o nome arcádico que pretendíamos dar-lhe. Em sua memória escrevi uma canção de ninar, ‘Nana para Glaura’, recolhida em Prosas seguidas de odes mínimas”.

Dorme como quem

porque nunca nascida

dormisse no hiato

entre a morte e a vida.

 

Dorme como quem

Nem os olhos abrisse

Por saber desde sempre

Quanto o mundo é triste.

 

Dorme como quem

Cedo achasse abrigo

Que nos meus desabrigos

Dormirei contigo.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 37. 

As estrofes de fato trazem a delicadeza sugerida pelo título: “nana” refere-se ao ato de ninar um bebê. Nessa espécie de cantiga, o poeta coloca a filha em um espaço abstrato, mas repleto da consciência da dor presente no mundo concreto. Os verbos no modo subjuntivo (“dormisse”, “abrisse”, “achasse”) instauram uma ambientação hipotética, pertencente ao plano das possibilidades, e não da realidade física. Sugere-se que a menina Glaura não quer conhecer os males do plano terreno. Embora a pequena não tenha sobrevivido, ela permanece como uma entidade capaz de acolher o poeta naquele abrigo intangível onde ela passou a existir de maneira incorpórea. Nesse caso, o emprego do futuro do presente do indicativo (“dormirei”) imprime certeza e confiança no acolhimento oferecido ao poeta pela filha Glaura.

Em “Balancete”, o poeta atribui sentido a quatro palavras: esperança, incerteza, amor e morte. A cada um desses substantivos abstratos é associada uma imagem concreta, em estilo epigramático:

A incerteza: frio

de faca cortando

em porções cada vez menores

a laranja dos dias.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 39.

 

Ironicamente, o texto mostra que a maior das certezas (a morte) é permeada pela inquietação de uma incerteza: a de não sabermos exatamente quando vamos morrer. O título do poema refere-se a um demonstrativo contábil usado para verificar a saúde financeira de uma empresa, por meio de débitos e créditos. No poema, a última estrofe trata justamente da morte, ou seja, o saldo final de avaliação da vida. A morte é associada a “uma esquina / ainda por virar / quando já estava quase esquecido / o gosto de virá-las”. Em vez de melancolia, o poeta se apraz com a curiosidade de saber o que há (ou o que não há) do outro lado dessa curva.

O poema “Prosa para Miramar”, apesar de trazer “prosa” no título, é escrito em versos livres, nos quais o poeta recorda as visitas feitas à casa do poeta modernista Oswald de Andrade. “Miramar”, no título, faz referência ao personagem João Miramar, do romance oswaldiano Memórias sentimentais de João Miramar, em que o protagonista é uma espécie de alter ego do autor.

Em seu poema, Paes afirma ter ido à casa do modernista pelas mãos de “Francisco, / na sua derradeira aparição entre nós / como aluno e filho torto de Tarsila”. “Francisco”, no caso, é uma projeção de São Francisco, santo tradicionalmente associado à extrema bondade e empatia. O poeta revelou que o santo é uma referência a Nonê, filho de Oswald de Andrade, que era um amigo querido de José Paulo Paes. O poema esmiuça aspectos da casa de Oswald, a aparência física do poeta, com seus cabelos muitos curtos e a boina azul, além do costume de sempre atacar com língua afiada o eruditismo vazio de quem gostava de ficar citando autores gregos. Oswald é descrito como “o velho piaga / (meninos eu vi) de uma tribo definitivamente morta / mas cujos ossos haveremos de carregar conosco muito tempo”. A expressão “velho piaga” refere-se a pajés indígenas citados em poemas românticos de Gonçalves Dias. A imagem exalta a experiência de Oswald de Andrade e o fato de ele ter presenciado – e protagonizado – eventos importantes da história literária brasileira. Para Paes, as ideias oswaldianas permaneceriam fortes em nossa cultura por muito tempo ainda, embora não tivessem sido compreendidas no tempo em que foram lançadas. Mas José Paulo Paes teve o gosto de presenciar a consagração póstuma do pensamento oswaldiano ao assistir à estreia de O rei da vela, peça escrita por Oswald nos anos 1930, mas encenada apenas cerca de trinta anos depois.

Nunca mais o vi? Mentira. Vi-o uma última vez

em 65 ou 66, estreia

de O rei da vela no Oficina.

Ele estava sentado na plateia bem atrás

com sua boina azul

já póstumo mas divertido de ver o irrespeitável público

comendo finalmente

do biscoito de massa mais fina

que com suas próprias mãos ele amassara

para o futuro, seu melhor freguês.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 42.

 

Assim como no poema “J.V.”, temos um encontro onírico com uma pessoa já morta. Aqui, Oswald de Andrade satisfaz-se em perceber como sua obra, “biscoito de massa mais fina”, era enfim consumida com sucesso na célebre encenação do Teatro Oficina, dirigida por José Celso Martinez Corrêa. A maneira afetuosa como o modernista é lembrado evidencia a profunda influência que a brevidade e o humor oswaldianos tiveram sobre o poeta de Taquaritinga.

O poema “Reencontro”, escrito em prosa, narra outro reencontro de caráter onírico: “Ontem, treze anos depois de sua morte, voltei a me encontrar com Osman Lins”. Trata-se do grande escritor pernambucano, morto em 1978, autor de romances celebrados como Avalovara (1973) e A rainha dos cárceres da Grécia (1976), bem como da peça Lisbela e o prisioneiro (1964), que foi adaptada com sucesso para o cinema. No sonho de Paes, eles se encontram no porão de um antigo convento, onde era encenada uma peça sem palavras de autoria de Lins. O silêncio predomina também quando o poeta vai cumprimentar o amigo, que o recebe com um sorriso tão luminoso que o faz acordar.

A maneira como José Paulo Paes evoca essas pessoas importantes em sua trajetória pessoal e artística denota um tom memorialista carregado de afeto. Temos um poeta maduro, que reconstitui passagens de sua vida numa avaliação que não esconde certa melancolia pela perda de entes queridos, além de uma discreta consciência da proximidade de sua própria morte.

O impulso memorialista continua em “Balada do Belas-Artes”. Como vimos, o Belas-Artes era um café em Curitiba onde José Paulo Paes encetou uma camaradagem intelectual com outros jovens como ele, interessados em literatura e nas artes em geral. Estruturado em versos curtos de métrica variada, o poema apresenta toda a empolgação juvenil capaz de dissolver problemas e de animar de forma constante a mais renitente inspiração.

Sobre o mármore das mesas

do Café Belas-Artes

os problemas se resolviam

como em passe de mágica.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 45.

 

Apesar da ressalva de que, no Café Belas-Artes, as leis do real não eram de todo abolidas, ali “O verso vinha fácil / o conto tinha graça / a música se compunha / o quadro se pintava”. Contudo, um dia o café foi fechado. Os amigos não acharam lugar igual para se encontrar. A amizade então se dissipou, talvez porque não houvesse “mais nada a dizer”. O desfecho melancólico do texto é uma espécie de despedida das ilusões juvenis, com todos os seus arroubos, sua vitalidade e sua inspiradora confiança na vida. Esse posicionamento vem acentuar o caráter de avaliação madura e desencantada feita pelo poeta sobre sua trajetória biográfica.

 

Dois poemas desencantados

“Mundo novo” traz um enunciador que se dirige a Noé, personagem bíblico escolhido por Deus para dar continuidade à vida depois do dilúvio. Incluindo-se como um dos tripulantes da famosa arca, o eu lírico mostra-se desiludido com os rumos que a humanidade tinha tomado depois daquela hecatombe: “Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva, mas de espinheiro”. Ou seja, a possibilidade de se construir um mundo novo de paz fora perdida para sempre, e Noé sabia desse malogro de antemão, mas não disse nada a ninguém. E assim a humanidade continuou a trabalhar duramente, “com as mesmas enxadas de Caim e Abel”. O poema indica uma espécie de morte das utopias frente à realidade cada vez mais segregadora, em que alguns poucos se beneficiam da exploração do trabalho de muitos.

O poema “Sobre o fim da história” adota esse mesmo tom amargo, visto que o enunciador em primeira pessoa revela sua “miopia” ao investir contra “moinhos de vento”. A expressão remete a um famoso episódio do romance O engenhoso fidalgo D. Quixote de la Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes. Dom Quixote, completamente desligado da realidade, investe contra enormes moinhos de vento, imaginando que eles seriam gigantes que o atacavam. No poema, os moinhos indicam as utopias, os sonhos pelos quais lutamos, movidos por ideais difíceis de alcançar. Ironicamente, Paes afirma já saber desde muito que aqueles inimigos eram apenas moinhos, mas se propõe a reerguê-los: “Quero que meus filhos comecem bem a vida”. Assim, embora consciente de que seus ímpetos de mudança tinham muito de quixotesco, o poeta considera que os filhos também devem voltar-se contra moinhos, indicando a importância dos sonhos para o movimento da vida, mesmo que a fria realidade constantemente os derrube.

“Ceia”, o último poema da seção “Prosas”, adota um tom profundo e sapiencial, como um sábio dando conselhos por meio de imagens tomadas do universo da alimentação, com ecos de ceias bíblicas. O alimento a ser servido nessa refeição é peculiar: “Pesca no fundo de ti mesmo o peixe mais luzente”. Associa-se a esse peixe o que há de mais íntimo dentro de nós mesmos; ele deveria ser temperado com o sal trazido das viagens e as gotas do vinagre que bebemos durante a vida. O vinagre liga-se metaforicamente às vivências ácidas, amargas e desagradáveis. O peixe deverá ser servido com pão e vinho que foram pagos “pelo teu muito suor e por um pouco do teu sangue”. Assim, essa refeição é aquilo de mais autêntico que poderíamos oferecer aos nossos convivas e, embora possa ser modesta, ela deve ser encarada como o que tínhamos de melhor. Acabada a refeição, a tarefa cumprida, advém uma satisfação carregada de ironia:

[...]

Podes agora dizer boa-noite, fechar a porta, apagar a luz

e ir dormir profundamente. Estamos quites

tu e eu, teu mais hipócrita leitor.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 51.

 

Os versos são carregados de um sentimento de finitude e de compreensão sobre os erros e os acertos em nossa trajetória. “Dormir profundamente” remete, inclusive, ao poema “Profundamente”, de Manuel Bandeira, em que ele se recorda de entes queridos já mortos. O interlocutor a quem o eu lírico se dirige pode ser identificado com o próprio leitor, convidado a fazer uma avaliação sobre o que oferecer nessa ceia simbólica. A expressão “teu mais hipócrita leitor” coloca o poeta como uma espécie de intérprete daqueles a quem se dirige. O poeta lê o leitor, mas não se coloca numa posição privilegiada, pelo contrário: escancara os simulacros usados na interação social, assumindo-se como hipócrita. Essa atitude reverbera o verso final do poema “Ao leitor”, que abre a obra As flores do mal, do influente poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867):

– Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

BAUDELAIRE, Charles. Ao leitor. In: BAUDELAIRE Charles. As flores do mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 113.

 

Personagens

Embora Prosas seguidas de odes mínimas seja um livro de poesia, cabe destacar alguns personagens citados na primeira parte da obra:

· Dora: é a esposa do poeta, musa sempre presente. Mais do que um indivíduo, Dora assume, nos poemas, a condição de uma mulher arquetípica, associada aos papéis femininos de mãe, esposa e filha.

· Glaura: a filha do casal que não chegou a sobreviver.

· Pai: figura um tanto ausente na trajetória juvenil do poeta, mas presente em seus pensamentos.

· Mãe: ocupada em tarefas domésticas.

· J.V.: o avô dono de livraria, apegado à devoção quixotesca à Monarquia.

· Dona Zizinha: a avó que contava histórias de terror.

 

Odes mínimas

Ode é um tipo de poema de origem grega que, em sua evolução histórica, apresentou formas estróficas e métricas muito variadas, assim como temas muito diversos. Contudo, de maneira geral, a ode se consolidou como uma espécie de canto de exaltação a algo ou a alguém. Foi assim que ela se expandiu na Grécia antiga, exaltando campanhas militares e vencedores de competições esportivas, notadamente dos jogos olímpicos.

José Paulo Paes, na segunda seção de seu livro, atualizou o conceito de ode dedicando-as a elementos cotidianos. Daí a qualificação de “mínimas”, o que as singulariza em relação ao caráter muitas vezes grandiloquente das odes antigas. São 13 poemas:

1. À minha perna esquerda

2. À bengala

3. Aos óculos

4. À tinta de escrever

5. Ao compromisso

6. À garrafa

7. À televisão

8. Ao shopping center

9. Ao fósforo

10. À impropriedade

11. Ao espelho

12. Ao alfinete

13. A um recém-nascido

A preposição presente em todos os títulos indica a elipse da palavra “ode”, de tal maneira que eles devem ser entendidos como “Ode à minha perna esquerda”, “Ode à bengala”, e assim sucessivamente.

A mera escolha dos elementos homenageados pelas “odes” indica o viés modernista de buscar inspiração nas coisas simples da vida.

Em um nível elementar de leitura, temos de admitir que os poemas de “Odes mínimas” tratam, de maneira objetiva, dos elementos mencionados em seus títulos. Contudo, algumas expressões indicam que os textos podem ter uma leitura ampliada, gerando reflexões mais profundas e generalizantes. Essa é uma característica própria do texto literário, que explora a polissemia, ou seja, a capacidade de as palavras e expressões significarem, no contexto em que se encontram, muito mais do que em seu sentido de dicionário.

“À minha perna esquerda”

Na primeira ode, José Paulo Paes aborda o trauma da mutilação física. Como vimos, em decorrência de problemas circulatórios, o poeta teve a perna esquerda amputada. Em sua autobiografia, ele afirma: “a cicatriz psicológica deixada pela amputação fechou-se definitivamente com o poema nela inspirado”. A ode mostra a clareza de quem enfrenta essa situação grave sem nenhum apelo ao sentimentalismo ou ao exibicionismo. A dignidade com que encara a perda da perna não foge à angústia da morte.

“À minha perna esquerda” é um dos poemas mais extensos de toda a obra de José Paulo Paes. Entretanto, seu estilo minimalista faz-se presente na divisão do texto em sete seções, em que se notam o viés epigramático e o tom irônico típicos do autor.

O poema abre com uma interlocução às próprias pernas.

Pernas

para que vos quero?

 

Se já não tenho

por que dançar.

 

Se já não pretendo

ir a parte alguma.

 

Pernas?

Basta uma.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 55-60.

 

O texto parodia a expressão popular “Pernas, pra que te quero!”, usada diante de um perigo iminente, do qual se foge correndo. O poeta corrige gramaticalmente o ditado, utilizando o pronome “vos”, na segunda pessoa do plural. Com isso, altera-se o contexto original da expressão, imprimindo ao poema a perplexidade de quem terá de seguir a vida com apenas uma perna, buscando conformar-se, como nas estrofes centrais, com a alegação de que não via mais motivos nem para dançar, nem para locomover-se.

A segunda seção do poema incorpora características gráficas do Concretismo, vanguarda poética surgida nos anos 1950 que previa o aproveitamento expressivo do espaço em branco da página.

 


O desenho das letras indica o movimento opressivo de subir e descer das camas com a dificuldade imposta pela enfermidade. Na sequência, o poeta envereda por imagens fantasmagóricas: “Corro entre fezes / de infância, lençóis / hospitalares, as ruas / de uma cidade que não dorme / e onde vozes barrocas / enchem o ar”. Verdadeira descida ao inferno, essa incursão em um pesadelo aterrorizante termina com um clamor saído das profundezas da consciência que quer libertar-se: “não / n ã o / N Ã O !”.

A terceira seção do poema interrompe essa descida aos infernos e resgata o caráter estável e tranquilo de um retorno à segurança e ao amparo maternais. Esse acolhimento feminino só poderia ser oferecido por Dora, a esposa, musa protetora que, na obra paesiana, assume verdadeira condição mítica.

Aqui estou,

Dora, no teu colo,

nu

como no princípio

de tudo.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 55-60.

 

O poeta humildemente expõe toda a fragilidade e o desamparo de quem se vê na iminência da destruição completa. Ele se mostra como uma criança desprotegida diante das agruras do mundo, desejando apenas a proteção materna. Dora é a síntese da grandeza feminina, na dimensão arquetípica dos papéis de mãe e de filha, mas também no de esposa e de amante.

[...]

Foste sempre minha mãe

e minha filha

depois de teres sido

(desde o princípio

de tudo) a mulher.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 55-60.

 

O artigo definido que antecede o substantivo “mulher” destaca a referida condição mítica de Dora: ao mesmo tempo familiar e próxima ao poeta, mas também a representação da força acolhedora e corajosa de todas as mulheres.

Contudo, esse momento de amparo e proteção nos braços da amada é logo interrompido na quarta seção do poema, que volta a explorar imagens de caráter surrealista e macabro.

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego assustou

os pacientes da enfermaria geral.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 55-60.

 

Depois dessa aparição de mau agouro, os vidros do ambulatório amanheceram sem tampa e os rolos de gaze estavam todos sujos de vermelho. A quinta seção do poema coloca o poeta no momento crucial.

Chegou a hora

de nos despedirmos

um do outro, minha cara

data vermibus

perna esquerda.

A las doce en punto

de la tarde

vão-nos separar

ad eternitatem.

Pudicamente envolta

num trapo de pano

vão te levar

da sala de cirurgia

para algum outro (cemitério

ou lata de lixo

que importa?) lugar

onde ficarás à espera

a seu tempo e hora

do restante de nós.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 55-60.

 

A estrofe explora, novamente, o diálogo imaginário com a própria perna. A ironia perpassa esse instante irreparável. O poeta dirige-se ao membro chamando-o de “cara / data vermibus”, fazendo um trocadilho com a expressão em latim “caro data vermibus”, que quer dizer “carne dada aos vermes”. Alguns acreditam inclusive, sem sustentação científica, que a expressão teria originado o termo “cadáver”, surgida a partir da junção das letras iniciais de cada palavra. De qualquer forma, o poeta questiona objetivamente o destino que seria dado àquela parte de seu corpo, mostrando indiferença se ela iria para um cemitério ou para o lixo. Mas ele não deixa de considerar, de maneira um tanto irônica, um reencontro com a perna amputada, seja em um cemitério, em uma lata de lixo ou em uma espécie de antecipação do que seria o dia do Juízo Final.

A sexta seção do poema mimetiza um ritmo militar subitamente quebrado, cuja marcha, entretanto, prossegue manquitolando.

 


A sétima e última seção do poema retoma a ideia de que a separação da perna seria momentânea, pois o poeta haveria de se encontrar com ela no dia do Juízo Final. Ele avalia que na “pior das hipóteses” a perna chegaria antes diante do Juiz, assegurando que ela não deveria se preocupar com o Julgamento, porque, afinal, os “maus passos” na vida teriam sido motivados pela arrogância da cabeça, pela afoiteza das glândulas ou pela alma, muitas vezes ignorante dos buracos da estrada e das armadilhas do mundo. O poema se encerra com os seguintes versos:

Mas não te preocupes

que no instante final

estaremos juntos

prontos para a sentença

seja ela qual for

contra nós

lavrada:

as perplexidades

de ainda outro Lugar

ou a inconcebível

paz

do Nada.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 55-60.

 

A questão metafísica a respeito da vida após a morte aparece de maneira cristalina. O poeta considera calmamente a possibilidade da existência “de ainda outro Lugar”, onde talvez a supressão da perna fosse desfeita, mas não elimina a possibilidade materialista da total anulação de entes e almas com a chegada da morte.

Toda a trajetória exposta no poema oscila entre o tom sério e o jocoso. A gravidade da situação evocada não afasta a exploração da ironia fina, que não poupa o próprio poeta diante de um episódio tão alarmante. Explica-se, assim, por que ele mesmo considerou esse poema a forma mais legítima e eficaz para lidar com o trauma psicológico da amputação.

 

Dois poemas metalinguísticos

A ode “Ao fósforo” trata de maneira objetiva do palito com uma das extremidades coberta pelo elemento químico fósforo, que produz fogo ao entrar em atrito com alguma superfície áspera. Mas ela pode ser entendida também como uma reflexão sobre a criação poética.

Primeiro a cabeça

o corpo depois

se inflamam e acendem

 

o forno

do pão

 

a luz

na escuridão

 

a pira

da paixão

 

a bomba

da revolução.

 

Sim, mas vamos à coisa concreta:

 

você fala de fósforos

ou de poetas?

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 75. 

A indagação apresentada na estrofe final exige uma retomada do que foi lido. Nessa releitura, os sentidos das palavras se ampliam, por meio da associação entre o pensamento e o ato de acender fornos, luzes ou até mesmo bombas. Esse pensar é a ideia artística, capaz de alterar o estado físico dos indivíduos, pois eles se “inflamam” e se “acendem”. Considerando a progressão do poema, pode-se inferir que a ideia artística domina também o plano das emoções, o sentir. Assim, o indivíduo, movido pela força da ideia e pelo impulso das emoções, lança-se ao mundo, atuando em processos vitais básicos, como a alimentação (presente na referência ao pão), a apreensão da realidade (luz na escuridão) ou ainda a força social das ideias, capazes de orientar a luta por mudanças, como em acender a “bomba da revolução”. O poema tem, portanto, uma visão complacente e otimista a respeito da poesia e, por conseguinte, da função da arte na existência humana.

“Ao fósforo” é um poema metalinguístico porque tem como assunto a própria atividade poética. A metalinguagem faz-se presente quando se usa uma linguagem para falar sobre a própria linguagem. Trata-se de um tema bastante presente na arte contemporânea, seja no âmbito da literatura, seja em outras formas de expressão, como as artes plásticas e o cinema.

A ode “À garrafa” também é metalinguística, por mais que pareça, a princípio, tratar do recipiente de gargalo estreito utilizado para guardar líquidos. A utilização da primeira pessoa nos dois primeiros versos (“Contigo adquiro a astúcia / de conter e de conter-me”) exige a indagação sobre o caráter do emissor do texto, que é necessariamente um poeta, visto que se trata de um poema. Essa reflexão ilumina o texto, e “garrafa” passa a significar algo mais do que o artefato de vidro colocado sob o olhar investigador do poeta. Humildemente, ele busca aprender com ela a contenção na forma de se exprimir e, ao mesmo tempo, a capacidade de revelar diferentes aspectos do mundo. De maneira bem modernista, ele ainda se posiciona criticamente a respeito da “prisão da forma”, tratando de modo ácido a ideia de prender a inspiração em modelos formais rígidos. Como arremate dessa ideia, a garrafa decide saltar da mão para o chão, estilhaçando-se “numa explosão / de diamantes.” O caráter positivo dessa imagem associa à liberdade formal aspectos de brilho e de valor. 

Do pequeno ao grande

Em “Aos óculos”, José Paulo Paes adota uma postura ambígua. A princípio, acusa os óculos de se interporem entre os olhos míopes e o mundo, interferindo na maneira como se apreende a realidade. Temos um questionamento radical, presente em vários momentos da filosofia: até onde a percepção das coisas condiz com o real? Podemos confiar naquilo que nossos órgãos sensoriais nos mostram como a verdade? O que é a verdade? O poeta tem consciência da precariedade das respostas a essas indagações: “Já não vejo as coisas / como são: vejo-as como eles querem / que as veja”. Assim, os óculos dificultariam o acesso às coisas tais como elas são de fato. Nessa condição, teriam um papel relacionável ao conceito de ideologia, pois falseariam a realidade em nome de interesses dedicados a efetivar o “logro”, ou seja, a fraude, o engano. Apesar de plenamente consciente da ação enganadora dos óculos, o poeta mostra-se grato a eles, “por anteciparem em mim / o Édipo curioso / de suas próprias trevas”. A referência remonta à peça Édipo Rei, do autor grego Sófocles, encenada por volta do ano 427 a.C. Nessa tragédia, o protagonista esforça-se para desvendar as causas das pestes que se abatiam sobre a cidade de Tebas e acaba por descobrir, aterrorizado, que matara seu próprio pai; que Jocasta, a esposa com quem tivera filhos, era sua mãe; e que ele era, ao mesmo tempo, pai e meio-irmão de seus próprios filhos. Movido pelo desespero, Édipo arranca seus olhos. José Paulo Paes, ao agradecer aos óculos por lhe anteciparem o “Édipo curioso das próprias trevas”, parece reconhecer o desejo inerente do ser humano em buscar explicações, mesmo que sejam pouco confiáveis ou que levem o indivíduo a descobrir aspectos malditos em si mesmo e em suas ações. 

Rapidez e sem-razão da sociedade de consumo

José Paulo Paes focou sua lente irônica em direção à sociedade de consumo em “À televisão”. Viés semelhante aparece em “Ao shopping center”, poema que associa o centro de compras a uma viagem dantesca: ao referir-se aos círculos do shopping por onde os consumidores vagam sem rumo, Paes remete à estrutura do Inferno da obra A divina comédia, do italiano Dante Alighieri (1265-1321). No poema medieval, o próprio Dante é levado a conhecer o Inferno, o qual é estruturado em círculos concêntricos, como num cone invertido. Quanto mais profundo o círculo, maior é o castigo dado aos pecadores. Ao transpor esse universo para o cenário cotidiano das compras em um shopping, Paes lança sua ironia sobre o jogo consumista em que a satisfação nunca é atingida: “Por mais que compremos / estamos sempre nus”. O afã interminável de comprar mostra cada loja como um novo prego na cruz de cada um que se aventure naqueles círculos sedutores “à espera (até quando?) / da Grande Liquidação”. A ambiguidade da expressão em maiúsculas pode se referir tanto a uma grande campanha de vendas em que se oferecem descontos quanto à morte. Dessa maneira, uma vida dispendida a atender aos reclamos do capitalismo seria uma espécie de existência de “alma penada”, voltada à satisfação provisória do prazer de comprar. Contudo, tal como um vício que inebria e destrói, o que fica depois do gozo efêmero é apenas o vazio e a ausência de sentido.

A mesma impressão de nulidade da vida contemporânea aparece na ode “Ao espelho”, em que o poeta propõe que as qualidades de um espelho, quando associadas a nós, tornam-se defeitos: “o brilho de superfície / a profundidade mentirosa / o existir apenas / no reflexo alheio”. Ainda assim, a relação com o espelho é necessária para que tenhamos noção do “vazio de toda imagem / espelho de um si mesmo / anterior, posterior / a tudo, isto é, a nada”. O texto parece ecoar a “Grande Liquidação” de “Ao shopping center”, na medida em que mostra como toda presunção e vaidade humanas terminam em uma espécie de ausência radical de sentido.

Em “À tinta de escrever”, o poeta faz uma reflexão sobre a transitoriedade da vida e o desejo de fugir do esquecimento. Segundo o texto, o “azul fidalgo da tinta” não se compraz em aparecer em textos cotidianos ou burocráticos, tais como notas promissórias, notícias ou bilhetes. A tinta desejaria inscrever-se em pergaminhos ou registrar-se em uma obra de arte duradoura (“arte longa em vida breve”), tais como um epigrama, uma elegia ou uma epopeia. Contudo, dada a imediatez da vida contemporânea, resta a ela conformar-se com a “promissória / ao minuto e adeus que agora tudo é História”. Ao mesmo tempo que ironiza o impulso de grandeza revelado pela tinta, o poema destaca o caráter passageiro das demandas do nosso cotidiano, movido pela multiplicidade e pela rapidez impostas pela modernidade. Assim, o desejo de inscrever-se no tempo de maneira duradoura é associado a algo vão e pretensioso. Mas até isso tem a sua historicidade, já que “tudo é História”, ou seja, a marca da nossa sociedade para o futuro será a da superficialidade de uma atenção ligada no modo “multitarefa”. 

“A um recém-nascido”

O último poema de Prosas seguidas de odes mínimas deixa de lado o tom pessimista ao adotar uma postura de encantamento com o nascimento de um bebê. Estruturado em um diálogo, suas estrofes ímpares fazem uma pergunta sempre iniciada com a expressão “Que bichinho é este”, indicando o fascínio com a renovação da vida implicada no surgimento de um novo ser humano. Há um forte paralelismo nos versos que respondem às indagações, sempre iniciados com “É o filho”. O bebê é chamado sucessivamente de “filho do homem”, “da mulher”, “da fome”, “da fartura” e “do mundo”. O poema finaliza com as estrofes:

Que bichinho é este

que estende os braços curtos

como se tivesse

já ao alcance da mão

algum dos sonhos seus?

– É um filho de Deus.

PAES, José Paulo. Canção de exílio. In: PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 84. 

Dessa maneira, a obra se encerra. O olhar agudo com que o poeta observa a realidade mais ínfima e dela tira reflexões poderosas volta-se agora para o caráter sublime da renovação da espécie humana. Esse olhar admirador não cai num otimismo vazio, já que o bebê é um legítimo “filho do mundo”: pode experimentar todas as dores e alegrias da vida. Consolidando o processo de extrair reflexões gerais de um evento particular, o poeta se entusiasma com a dimensão complexa da existência humana. O bebê é a Humanidade inteira. Nesse ponto, o poema lembra Riobaldo Tatarana, protagonista do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Ao ajudar uma mulher miserável a parir uma criança, o jagunço anuncia, vitorioso:

– Minha Senhora Dona: um menino nasceu — o mundo tornou a começar!...

GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 427.

 






INTRODUÇÃO À OBRA: PROSAS SEGUIDAS DE ODES MÍNIMAS (1)

  Introdução Prosas seguidas de odes mínimas é um livro de poesia do paulista José Paulo Paes (1926-1998), publicado em 1992. Dividida em d...