Questão 1
a)
Qual é o sentido da expressão “ser-que-não-pode-ser” usada no texto?
b)
Cite duas personagens de Olhos d’água que podem servir de exemplo para a
“mulher destituída”, a que se refere o trecho, e outras duas que exemplifiquem
a mulher “que nada, buscando formas de surfar na correnteza”.
Questão 2
Sobre
a obra Olhos d’água, de Conceição
Evaristo, é incorreto afirmar:
a)
A falta de solidariedade da voz narradora com o que narra expressa-se pelo que
a autora declara como uma deliberada recusa ao sentimentalismo, em um mundo
igualitário, de oportunidades abertas a todos.
b)
As personagens principais quase sempre são femininas, velhas, moças, crianças,
quase todas negras e pobres.
c)
Por mais que dor e sofrimento pontuem as histórias, há também em todas elas uma
vontade forte, uma consciência que desperta, um aprendizado dos extremos da
vida e da morte.
d)
Para registrar histórias como as dos homens e mulheres, a autora compõe uma voz
narradora forte e envolvente. Alguns Ys e Ks, ao lado dos nomes de muitas
personagens, conferem ao livro a marca da mestiçagem de nossa cultura.
e)
Em várias das histórias, imaginação e fantasia temperam um cotidiano de
carências e ausências, em figuras como nuvens, algodão-doce, uma festa de
aniversário.
- Texto para a questão
3 -
Uma
noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha
boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada, custei a reconhecer o
quarto da nova casa em que eu estava morando e não conseguia me lembrar de como
havia chegado até ali. E a insistente pergunta martelando, martelando. De que
cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há
meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor
seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento
interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada
de um tom acusativo. Então eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?
EVARISTO, Conceição. Olhos
d’água. In: Olhos d’água. Rio de
Janeiro: Pallas, Fundação Biblioteca Nacional, 2015, p. 15. [Adaptado].
Questão 3
Considerando
o texto, o livro Olhos d’água, de
Conceição Evaristo, bem como o contexto sócio-histórico e literário, é correto
afirmar que:
01)
o conto “Olhos d’água” explora relações de descendência da inominada personagem
que recorre aos tempos da infância, com suas dificuldades na favela, em busca
de respostas a uma pergunta que lhe ocorre em vários momentos do texto.
02)
a narradora do conto “Olhos d’água” elabora uma construção metafórica do olhar,
motivada por uma pergunta que revela seu veemente esquecimento da cor dos olhos
de sua mãe e da cor dos olhos dos parentes africanos, cuja resposta é dada ao final
do texto pela última descendente.
04)
alguns contos da coletânea, como “Ana Davenga” e “Maria”, exploram a condição de
personagens à margem da sociedade, evidenciando a pobreza e a violência
urbanas, ao passo que outros, como “Ei, Ardoca” e “Lumbiá”, abordam a prosperidade
e a tranquilidade da vida rural.
08)
o conto “Beijo na face” permite realizar discussões tanto sobre gênero e
diversidade, porque revela o relacionamento entre duas mulheres, quanto sobre
relacionamentos abusivos, porque aborda um casamento infeliz e violento.
16)
no texto, em “não conseguia me lembrar de como havia chegado até ali” (ℓ. 4-5),
a narradora dá os primeiros indícios de perda de memória, a qual envolve suas
relações afetivas com a mãe, e recrimina-se constantemente, ao longo da narrativa,
por não conseguir recuperar suas lembranças.
32)
com exceção de “Olhos d’água” e “A gente combinamos de não morrer”, os demais
textos da coletânea são escritos com foco narrativo em primeira pessoa e têm
predominantemente figuras masculinas como personagens principais, o que caracteriza
a sociedade patriarcal da época.
- Leia o trecho a
seguir, do conto “Duzu-Querença”. -
Menina
Querença, quando soube da passagem da Avó Duzu, tinha acabado de chegar da
escola. Subitamente se sentiu assistida e visitada por parentes que ela nem
conhecera e de quem só ouvira contar as histórias. Buscou na memória os nomes
de alguns. Alafaia, Kiliã, Bambene...
EVARISTO, Conceição. Duzu-Querença. In: EVARISTO, Conceição. Olhos
d’água. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 28.
Questão 4
a)
Levando em conta outras narrativas do mesmo livro, que sentido assume a
sensação que ocorre a Querença nesse trecho?
b)
O trecho serve de explicação para o hífen presente no título do conto.
Justifique essa afirmação.
Questão 5
A
protagonista de “Quantos filhos Natalina teve?” simboliza a autonomia feminina.
Essa afirmação está correta? Justifique com elementos do conto.
Questão 6
1.
Ao longo do conto “Luamanda”, de Conceição Evaristo, são apresentadas várias
perguntas ao leitor. A primeira delas é: “haveria um tempo em que as necessidades
do amor seriam todas saciadas?”. Com base na aplicação desse questionamento à
trajetória da protagonista, responda:
a)
A pergunta aponta para os dois temas fundamentais do conto. Indique-os.
b)
Estabeleça a relação entre esses temas e a trajetória da protagonista.
Questão 7
Para
definir a personagem central de “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos”, o
narrador afirma: “Zaíta tinha nos modos um quê de doçura, de mistérios e de
sofrimento”.
Indique
como cada um desses aspectos se relaciona à história de Zaíta:
a)
doçura.
b)
mistérios.
c)
sofrimento.
- Leia o trecho a
seguir, retirado do conto “Di Lixão”. -
Fez
um esforço. Sentou. Pegou a bimbinha dolorida e fez xixi. Assustou-se. Estava
urinando sangue. Passou a língua no canto da boca. O carocinho latejou. Num
gesto coragem-desespero levou o dedo em cima da bola de pus e apertou-a contra
a gengiva. Cuspiu pus e sangue. Tudo doía. A boca, a bimbinha, a vida... Deitou
novamente, retomando a posição de feto.
EVARISTO, Conceição. Di Lixão. In: EVARISTO, Conceição. Olhos
d’água. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 80.
Questão 8
No
trecho, o protagonista:
a)
evidencia o desejo inconsciente de resgatar a infância e a vida familiar.
b)
manifesta disposição de mudar seu destino ao se livrar das próprias feridas.
c)
apresenta um comportamento heroico, impondo-se como exemplo de conduta.
d)
sintetiza nas dores que sente uma vida marcada por violências físicas e morais.
Questão 9
A
fim de legitimar a imagem positiva da cultura negra africana, o conto “Ayoluwa,
a alegria do nosso povo” faz referência:
a)
à estrutura patriarcal da tribo.
b)
à organização igualitária da comunidade.
c)
às relações sociais baseadas na dominância.
d)
ao poder econômico.
e)
ao processo de proteção da propriedade privada.
Questão 10
A
língua portuguesa de que faz uso Conceição Evaristo no conto “Ayoluwa, a
alegria do nosso povo” apresenta-se em sua versão simples e acessível. No
entanto, a autora faz ressoar a voz da comunidade negra africana por meio de um
elemento linguístico que é o(a):
a)
etimologia dos nomes dos personagens.
b)
utilização de várias figuras de linguagem.
c)
referência à simbologia do nascimento.
d)
utilização de expressões coloquiais.
e)
relato de história ficcional.
1. a) A
expressão define o cerceamento das possibilidades de crescimento e de
multiplicidade de existência pessoal e social da mulher negra submetida a
diversos tipos de opressão eurocêntrica (de raça, de gênero, de classe etc.).
b) Nos
contos de Olhos d’água, são exemplos de “mulher destituída”: Ana Davenga,
destituída de autonomia em sua submissão ao marido; Duzu, marginalizada pela
prostituição e pela miséria; Maria, agredida de diversas formas em sua pobreza;
Zaíta, representante da infância vitimada pela violência urbana. Entre as
mulheres que buscam “formas de surfar na correnteza”, temos: a narradora de
“Olhos d’água”, que sai de casa para buscar melhores condições de vida e
retorna para reforçar laços familiares; Natalina, que abdica da maternidade até
que esta se torne uma vontade pessoal; Salinda, de “Beijo na face”, e Luamanda,
do conto homônimo, que buscam a plenitude amorosa; Cida, que se depara com um
momento epifânico de autoconhecimento; Bica, de “A gente combinamos de não
morrer”, que encontra na escrita uma forma de resistência; Ayoluwa, que
sintetiza a esperança e a resistência de um povo.
2. a
3. 01 +
08 = 09
4. a) Assim
como em outras narrativas do livro, Querença se vê em contato com seus
ancestrais, entendidos como representantes da cultura africana.
b) O
hífen do título sugere uma relação de continuidade entre a avó (Duzu) e a neta
(Querença). Essa continuidade é percebida por intermédio da herança cultural
trazida pelos parentes, cuja presença a menina sente no momento em que fica
sabendo da morte da avó. Os saberes ancestrais, transmitidos a ela por
intermédio de Duzu, seriam acrescentados a novos saberes adquiridos pela menina
na escola.
5. Sim.
Natalina simboliza a autonomia contra-hegemônica e a não fragmentação da
opressão, na medida em que escolhe o momento que deseja para tornar-se mãe,
rompendo o domínio psicológico e epistêmico de se submeter ao desejo de outras
pessoas, mas não ao dela própria.
6. a) No
questionamento inicial, surgem os dois principais temas dessa narrativa: o
tempo e a busca do amor.
b) No
conto, enquanto se prepara para mais um encontro amoroso, a protagonista
Luamanda recorda seus passos na busca da realização amorosa, reconhecendo a
passagem do tempo, mas também o vigor renovado com que se entrega a essa busca.
7. a) A
condição infantil de Zaíta, seu interesse por brinquedos e, particularmente,
por uma figura que trazia a imagem de uma menina com uma flor revelam essa
doçura de seu caráter.
b)
Diversos mistérios acompanham os últimos momentos de Zaíta: como a figurinha da
menina com flores tinha ido parar em suas mãos; como a figurinha tinha sumido
(visto que a protagonista não sabia que a irmã a roubara); e, por fim, a morte
da menina, já que ela morreu vítima de balas perdidas em um tiroteio, depois do
qual “homens armados sumiram pelos becos silenciosos, cegos e mudos”.
c) A
despeito das brincadeiras infantis que a cercam, a vida de Zaíta é marcada pela
dor, seja aquela trazida pela condição vulnerável da vida na favela, seja a que
era provocada pelas agressões da mãe.
8. d
9. b
10. a
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