04 abril 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: OLHOS D'ÁGUA (2)

 


Questão 1

a) Qual é o sentido da expressão “ser-que-não-pode-ser” usada no texto?

b) Cite duas personagens de Olhos d’água que podem servir de exemplo para a “mulher destituída”, a que se refere o trecho, e outras duas que exemplifiquem a mulher “que nada, buscando formas de surfar na correnteza”.

 

Questão 2

Sobre a obra Olhos d’água, de Conceição Evaristo, é incorreto afirmar:

a) A falta de solidariedade da voz narradora com o que narra expressa-se pelo que a autora declara como uma deliberada recusa ao sentimentalismo, em um mundo igualitário, de oportunidades abertas a todos.

b) As personagens principais quase sempre são femininas, velhas, moças, crianças, quase todas negras e pobres.

c) Por mais que dor e sofrimento pontuem as histórias, há também em todas elas uma vontade forte, uma consciência que desperta, um aprendizado dos extremos da vida e da morte.

d) Para registrar histórias como as dos homens e mulheres, a autora compõe uma voz narradora forte e envolvente. Alguns Ys e Ks, ao lado dos nomes de muitas personagens, conferem ao livro a marca da mestiçagem de nossa cultura.

e) Em várias das histórias, imaginação e fantasia temperam um cotidiano de carências e ausências, em figuras como nuvens, algodão-doce, uma festa de aniversário.

 

- Texto para a questão 3 -

Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada, custei a reconhecer o quarto da nova casa em que eu estava morando e não conseguia me lembrar de como havia chegado até ali. E a insistente pergunta martelando, martelando. De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusativo. Então eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?

EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. In: Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, Fundação Biblioteca Nacional, 2015, p. 15. [Adaptado].

 

Questão 3

Considerando o texto, o livro Olhos d’água, de Conceição Evaristo, bem como o contexto sócio-histórico e literário, é correto afirmar que:

01) o conto “Olhos d’água” explora relações de descendência da inominada personagem que recorre aos tempos da infância, com suas dificuldades na favela, em busca de respostas a uma pergunta que lhe ocorre em vários momentos do texto.

02) a narradora do conto “Olhos d’água” elabora uma construção metafórica do olhar, motivada por uma pergunta que revela seu veemente esquecimento da cor dos olhos de sua mãe e da cor dos olhos dos parentes africanos, cuja resposta é dada ao final do texto pela última descendente.

04) alguns contos da coletânea, como “Ana Davenga” e “Maria”, exploram a condição de personagens à margem da sociedade, evidenciando a pobreza e a violência urbanas, ao passo que outros, como “Ei, Ardoca” e “Lumbiá”, abordam a prosperidade e a tranquilidade da vida rural.

08) o conto “Beijo na face” permite realizar discussões tanto sobre gênero e diversidade, porque revela o relacionamento entre duas mulheres, quanto sobre relacionamentos abusivos, porque aborda um casamento infeliz e violento.

16) no texto, em “não conseguia me lembrar de como havia chegado até ali” (ℓ. 4-5), a narradora dá os primeiros indícios de perda de memória, a qual envolve suas relações afetivas com a mãe, e recrimina-se constantemente, ao longo da narrativa, por não conseguir recuperar suas lembranças.

32) com exceção de “Olhos d’água” e “A gente combinamos de não morrer”, os demais textos da coletânea são escritos com foco narrativo em primeira pessoa e têm predominantemente figuras masculinas como personagens principais, o que caracteriza a sociedade patriarcal da época.

 

- Leia o trecho a seguir, do conto “Duzu-Querença”. -

Menina Querença, quando soube da passagem da Avó Duzu, tinha acabado de chegar da escola. Subitamente se sentiu assistida e visitada por parentes que ela nem conhecera e de quem só ouvira contar as histórias. Buscou na memória os nomes de alguns. Alafaia, Kiliã, Bambene...

EVARISTO, Conceição. Duzu-Querença. In: EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 28.

 

Questão 4

a) Levando em conta outras narrativas do mesmo livro, que sentido assume a sensação que ocorre a Querença nesse trecho?

b) O trecho serve de explicação para o hífen presente no título do conto. Justifique essa afirmação.

 

Questão 5

A protagonista de “Quantos filhos Natalina teve?” simboliza a autonomia feminina. Essa afirmação está correta? Justifique com elementos do conto.

 

Questão 6

1. Ao longo do conto “Luamanda”, de Conceição Evaristo, são apresentadas várias perguntas ao leitor. A primeira delas é: “haveria um tempo em que as necessidades do amor seriam todas saciadas?”. Com base na aplicação desse questionamento à trajetória da protagonista, responda:

a) A pergunta aponta para os dois temas fundamentais do conto. Indique-os.

b) Estabeleça a relação entre esses temas e a trajetória da protagonista.

 

Questão 7

Para definir a personagem central de “Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos”, o narrador afirma: “Zaíta tinha nos modos um quê de doçura, de mistérios e de sofrimento”.

Indique como cada um desses aspectos se relaciona à história de Zaíta:

a) doçura.

b) mistérios.

c) sofrimento.

 

- Leia o trecho a seguir, retirado do conto “Di Lixão”. -

Fez um esforço. Sentou. Pegou a bimbinha dolorida e fez xixi. Assustou-se. Estava urinando sangue. Passou a língua no canto da boca. O carocinho latejou. Num gesto coragem-desespero levou o dedo em cima da bola de pus e apertou-a contra a gengiva. Cuspiu pus e sangue. Tudo doía. A boca, a bimbinha, a vida... Deitou novamente, retomando a posição de feto.

EVARISTO, Conceição. Di Lixão. In: EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas; Fundação Biblioteca Nacional, 2016. p. 80.

 

Questão 8

No trecho, o protagonista:

a) evidencia o desejo inconsciente de resgatar a infância e a vida familiar.

b) manifesta disposição de mudar seu destino ao se livrar das próprias feridas.

c) apresenta um comportamento heroico, impondo-se como exemplo de conduta.

d) sintetiza nas dores que sente uma vida marcada por violências físicas e morais.

 

Questão 9

A fim de legitimar a imagem positiva da cultura negra africana, o conto “Ayoluwa, a alegria do nosso povo” faz referência:

a) à estrutura patriarcal da tribo.

b) à organização igualitária da comunidade.

c) às relações sociais baseadas na dominância.

d) ao poder econômico.

e) ao processo de proteção da propriedade privada.

 

Questão 10

A língua portuguesa de que faz uso Conceição Evaristo no conto “Ayoluwa, a alegria do nosso povo” apresenta-se em sua versão simples e acessível. No entanto, a autora faz ressoar a voz da comunidade negra africana por meio de um elemento linguístico que é o(a):

a) etimologia dos nomes dos personagens.

b) utilização de várias figuras de linguagem.

c) referência à simbologia do nascimento.

d) utilização de expressões coloquiais.

e) relato de história ficcional.

 

 

 

 

1. a) A expressão define o cerceamento das possibilidades de crescimento e de multiplicidade de existência pessoal e social da mulher negra submetida a diversos tipos de opressão eurocêntrica (de raça, de gênero, de classe etc.).

b) Nos contos de Olhos d’água, são exemplos de “mulher destituída”: Ana Davenga, destituída de autonomia em sua submissão ao marido; Duzu, marginalizada pela prostituição e pela miséria; Maria, agredida de diversas formas em sua pobreza; Zaíta, representante da infância vitimada pela violência urbana. Entre as mulheres que buscam “formas de surfar na correnteza”, temos: a narradora de “Olhos d’água”, que sai de casa para buscar melhores condições de vida e retorna para reforçar laços familiares; Natalina, que abdica da maternidade até que esta se torne uma vontade pessoal; Salinda, de “Beijo na face”, e Luamanda, do conto homônimo, que buscam a plenitude amorosa; Cida, que se depara com um momento epifânico de autoconhecimento; Bica, de “A gente combinamos de não morrer”, que encontra na escrita uma forma de resistência; Ayoluwa, que sintetiza a esperança e a resistência de um povo.

2. a

3. 01 + 08 = 09

4. a) Assim como em outras narrativas do livro, Querença se vê em contato com seus ancestrais, entendidos como representantes da cultura africana.

b) O hífen do título sugere uma relação de continuidade entre a avó (Duzu) e a neta (Querença). Essa continuidade é percebida por intermédio da herança cultural trazida pelos parentes, cuja presença a menina sente no momento em que fica sabendo da morte da avó. Os saberes ancestrais, transmitidos a ela por intermédio de Duzu, seriam acrescentados a novos saberes adquiridos pela menina na escola.

5. Sim. Natalina simboliza a autonomia contra-hegemônica e a não fragmentação da opressão, na medida em que escolhe o momento que deseja para tornar-se mãe, rompendo o domínio psicológico e epistêmico de se submeter ao desejo de outras pessoas, mas não ao dela própria.

6. a) No questionamento inicial, surgem os dois principais temas dessa narrativa: o tempo e a busca do amor.

b) No conto, enquanto se prepara para mais um encontro amoroso, a protagonista Luamanda recorda seus passos na busca da realização amorosa, reconhecendo a passagem do tempo, mas também o vigor renovado com que se entrega a essa busca.

7. a) A condição infantil de Zaíta, seu interesse por brinquedos e, particularmente, por uma figura que trazia a imagem de uma menina com uma flor revelam essa doçura de seu caráter.

b) Diversos mistérios acompanham os últimos momentos de Zaíta: como a figurinha da menina com flores tinha ido parar em suas mãos; como a figurinha tinha sumido (visto que a protagonista não sabia que a irmã a roubara); e, por fim, a morte da menina, já que ela morreu vítima de balas perdidas em um tiroteio, depois do qual “homens armados sumiram pelos becos silenciosos, cegos e mudos”.

c) A despeito das brincadeiras infantis que a cercam, a vida de Zaíta é marcada pela dor, seja aquela trazida pela condição vulnerável da vida na favela, seja a que era provocada pelas agressões da mãe.

8. d

9. b

10. a







INTRODUÇÃO À OBRA: OLHOS D'ÁGUA (2)

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