ABL divulga o resultado do concurso cultural “Conte o conto sem aumentar um ponto”
A Academia Brasileira de Letras apresentou no dia
4 de novembro os três ganhadores do concurso cultural “Conte o conto sem
aumentar um ponto”. [...]
Durante quase 4 meses de concurso, a
ABL recebeu contos que tinham por objetivo finalizar, de forma distinta do
original, o conto “A Cartomante”, de Machado de Assis. Dentre os trabalhos
recebidos, praticamente todos os estados brasileiros participaram, dando
destaque para Rio, São Paulo e Minas Gerais. E foram recebidos, inclusive,
contos de Portugal e Suíça.
O concurso contou com participações de
diversos níveis de escolaridade, passando pelo ensino fundamental, médio,
superior e especializações, e, segundo os inscritos, o maior divulgador do
“Conte o conto sem aumentar um ponto” foi o Twitter, seguido do Portal da ABL.
Confira os contos premiados
1º Lugar - Maristela
Fernandes Mendes – Lajedo, PE
O pensamento de Camilo viajava em sintonia com a
velocidade da charrete. Mesmo depois de sentir-se aliviado com as palavras da
cartomante, ainda assim assaltava-lhe o espírito o conteúdo da carta. Era mais cômodo
tentar enganar a si mesmo pensando que o convite do amigo para comparecer lá
urgente não era nada relacionado ao seu romance com a esposa dele. Porque se
ele tivesse descoberto, o procuraria e o mataria. Sentiu um calafrio
percorrer-lhe a espinha. A charrete freou, e com ela as suas conjeturas.
Desceu. Olhou ao redor. Dirigiu-se para a casa. Em pé na soleira da porta, o
amigo o esperava. Os olhos azuis serenos.
- Bom dia, Camilo. Por um momento pensei que não
virias. Já estava vendo a tua felicidade se desbotando.
Espantado e sem entender nada, Camilo foi fazendo
menção de falar, mas foi interrompido com um gesto do amigo, que o convidou a
entrar. Linda e radiante, estava Rita andando de um lado para o outro. Ao vê-lo
correu para os seus braços. Atônito, tentou afastá-la, mas foram em vão os
esforços, ela o beijava com paixão e volúpia, ele cedeu.
- Meu amor, o que está acontecendo? Isto é um
sonho do qual eu não quero acordar.
- Não é um sonho, mas é uma boa realidade. Contei
ao Vilela que nós dois estávamos apaixonados.
- Meu Deus! Você é louca.
- Louca seria eu continuar sacrificando a nossa
felicidade.
- Agora entendi, “felicidade desbotando”. Falou
Camilo para si. E olhando para uma delicada mala, sussurrou para Rita, -
enchendo-a de beijos - vamos minha vida, vamos!
Lá fora o sol brilhava. Vilela, parado, ficou
observando os dois caminharem abraçados rumo ao caminho da felicidade. Uma
lágrima rolou pelo seu rosto. E sombrio pensou: O amor pode dar certo, ou não.
A vida pode ser curta ou longa. Ouviu-se um estampido... dois... três.
2º Lugar - Afonso
Caramano – Jaú, SP
Não demorou a chegar. Ainda ao portão de ferro,
ajeitou a casaca e entrou. Vinha com o coração de moço renovado, e soavam-lhe
mais fortes aos ouvidos as palavras da cartomante que as do bilhete do amigo.
Subiu os degraus de pedra com a displicente elegância dos amantes e a
necessária cordialidade que se cultiva entre os homens civilizados. Ajeitou uma
vez mais a casaca, mas não teve tempo de bater - apareceu-lhe Rita, como a
figura de um espectro, puxando-o pelo braço antes que dissesse uma palavra.
- Ele o espera na saleta interior. Está armado.
Tome isto - sussurrou, entregando-lhe uma arma. Vá, vá logo - insistiu,
abraçando-o em desespero, entre soluços sufocados, antes de desaparecer no
corredor.
Mal teve tempo de esconder a arma, Villela
assomou à porta da saleta dando sinal para que entrasse. Vacilou num turbilhão
desconexo em que se alternavam as imagens de Rita, do amigo, da cartomante.
Quando se deu conta estavam ambos empunhando as armas, numa hesitação que durou
o preciso instante dos disparos quase simultâneos. Caíram feridos. As armas ao
chão, o cheiro de pólvora. Camilo arrastou-se até o canapé, a mão sobre o
ventre empapado de sangue. Villela agonizava a um canto. Viram Rita entrar e
cruzar a saleta, olhar frio, trejeitos graciosos. Dirigiu-se à escrivaninha,
subtraiu da gaveta um maço de cartas, iguais as que Camilo recebera. Cuidando
para não sujar-se de sangue, retirou do bolso do marido exangue outro envelope.
Deixou a sala saltitando por sobre as pernas do moribundo. Villela e Camilo
entreolharam-se com horror.
Lá fora, na esquina esperava-a uma caleça. A
cartomante não errara de todo. Em seu interior, o terceiro, que a tudo
ignorava, apertava entre as mãos suadas as passagens e relia o bilhete escrito
a lápis pela sua amada.
3º Lugar - Maria Thereza
Ribeiro Vieira – Petrópolis, RJ
Parecia que Camilo havia conseguido apaziguar a
sua alma com as palavras da cartomante. Logo pensou em se redimir com Villela
e, assim pensando, pediu ao cocheiro que entrasse numa rua transversal, onde
sabia haver uma casa de tabacos. Saltou do tílburi e entrou na loja. Ali
escolheu uma caixa de charutos cubanos dos mais sofisticados e exigiu um
embrulho à altura do amigo; voltou ao tílburi e mandou seguir para a casa de
Villela. No trajeto avistou uma banca na calçada expondo as mais lindas flores
e sentiu um desejo íntimo de comprar um buquê de rosas vermelhas para a sua
amada, mas conteve seu pensamento, visto que não sabia o motivo que o levava à
casa de Villela.
Logo tornou a sentir aquela sensação de medo,
lembrando das palavras do bilhete, mas lembrou-se também da cartomante, que
acertara o motivo de sua visita e tudo o mais e aquietou-se.
Chegando ao seu destino, olhou a casa antes de
entrar. Era toda trabalhada em pedras decorativas, com um vitral colorido acima
da porta principal, o que dava uma visão de capela antiga. Bateu a maçaneta
solta; o barulho foi logo ouvido pela velha criada, que o reconheceu e fê-lo
entrar às pressas. Villela estava sentado no canto da sala maior, inconsolável,
choramingando. Logo abraçou Camilo e mostrou-lhe um papel que trazia na mão.
Camilo leu o papel, que dizia: “Meu prezado marido, não consegui suportar o
peso do nosso casamento. Conheci um negociante italiano e me apaixonei por ele.
Deixo-te muito constrangida e sigo viagem para a Europa. Quando leres este
bilhete já estarei num vapor em alto mar. Peço perdão por meu ato tresloucado.
Rita”
Camilo sentiu o choque da dupla traição.
Sentou-se ao lado de Villela e chorou copiosamente o seu desapontamento,
sentindo, ao mesmo tempo, um alívio tranquilizante.
