08 março 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: NEBULOSAS (2)

 


- Texto para a questão 01 -

Nebulosas

[...]

Oh! Amei-as então! Sobre a corrente

De seus brandos, notívagos lampejos,

Audaz librei-me nas azuis esferas;

Inclinei-me, de flamas circundada

Sobre o abismo do mundo torvo e lúgubre!

Ergui-me ainda mais: da poesia

Desvendei as lagunas encantadas,

E prelibei delícias indizíveis

Do sentimento nas caudais sagradas

Ao clarão divinal do sol da glória!

 

Quando desci mais tarde, deslumbrada

De tanta luz e inspiração, ao vale

Que pelo espaço abandonei sorrindo,

E senti calcinar-me as débeis plantas

Do deserto as areias ardentíssimas;

Ao fugir dos cendais que estende a noite

Sobre o leito da terra adormecida,

Fitei chorando a aurora que surgia!

E – ave de amor – a solidão dos ermos

Povoei de gorjeios melancólicos!...

 

Assim nasceram os meus tristes versos,

Que do mundo falaz fogem às pompas!

Não dormem eles sob os áureos tetos

Das térreas potestades, que falecem

De morbidez nos flácidos triclínios!

Cortando as brumas glaciais do inverno

Adejam nas estâncias consteladas

Onde elas pairam; e à luz da liberdade

Devassando os mistérios do infinito,

Vão no sólio de Deus rolar exânimes!...

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 42-43.

 

Questão 1

O eu lírico revela uma concepção de poesia em que predomina:

a) o desejo de glória e consagração social, como em “Que do mundo falaz fogem às pompas”.

b) o resgate de uma perspectiva histórica, como em “De morbidez nos flácidos triclínios”.

c) a crítica social voltada contra os privilégios, como se vê em “E prelibei delícias indizíveis”.

d) a justificativa para um posicionamento antirreligioso, como em “Vão no sólio de Deus rolar exânimes”

e) o misticismo marcado pela noção romântica da inspiração, como em “à luz da liberdade / Devassando os mistérios do infinito”.

 

- Texto para a questão 02 –

Julia e Augusta

São duas rosas se expandindo rúbidas

No brando caule com suave encanto;

São duas nuvens deslizando túmidas

Do campo aéreo no azulado manto.

 

São duas ondas marulhosas flácidas,

Que o tíbio sopro do favônio frisa;

São duas conchas deslumbrantes, nítidas,

Do mar na praia refulgente e lisa.

 

São duas auras, perfumosas, tépidas,

Beijando as pétalas de uma flor pendida;

São duas rolas resvalando tímidas

No dorso curvo do escarcéu da vida.

 

Duas auroras ressurgindo límpidas

Por entre as trevas que a tormenta encerra;

Graças libradas sobre o espaço, fúlgidas,

A cuja sombra se conchega a terra!

 

Uma – os rútilos das pupilas vívidas

Vela nos prantos de gazil ternura;

Na cor mimosa da Moema indígena

Concentra o ardor da tropical natura!

 

Outra, revela nos olhares lânguidos

Toda a pureza da celeste estância;

À tez formada de açucenas úmidas

Rouba o outono a festival fragrância!

 

Ambas – cingidas de virgínea auréola

Firmes caminham na escabrosa trilha!

Feliz daquele que sorvesse em ósculos

O afeto imenso que em seus olhos brilha.

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 189-190.

 

Questão 2

Na apresentação alegórica de duas personagens-meninas, a poeta se vale de:

a) metáforas naturais marcadas pela idealização.

b) metonímias que evidenciam o sentimento nacionalista.

c) ironias que exploram o caráter ambíguo de Julia e Augusta.

d) uma sequência de ações que imprimem caráter narrativo ao poema.

e) comparações sugestivas do caráter sensual das homenageadas.

 

- Textos para a questão 03 -

Texto I

 

Viajante sobre o mar de névoa (1818), de Caspar David Friedrich.

 

Texto II

O Itatiaia

Ante o gigante brasíleo,

Ante a sublime grandeza

Da tropical natureza

Das erguidas cordilheiras,

Ai! quanto me sinto tímida!

Quanto me abala o desejo

De escrever n’um arpejo

Essas cristas sobranceiras!

 

Vejo aquém os vales pávidos

Que se desdobram relvosos;

Profundos, vertiginosos,

Cavam-se abismos medonhos!

Quanto precipício indômito,

Quanto mistério assombroso

Nesse seio pedregoso,

Nessa origem de mil sonhos!...

 

Em derredor, às planícies

Nivelam-se as serranias;

Envoltos nas brumas frias

Transparecem os outeiros;

E o olhar ardente e ávido

Contempla os montes perdidos,

Como troféus reunidos,

Como tombados guerreiros!...

 

Salve! montanha granítica!

Salve! brasílio Himalaia!

Salve! ingente Itatiaia,

Que escalas a imensidade!...

Distingo-te a fronte valida,

Vejo-te às plantas, rendido,

O meteoro incendido,

A soberba tempestade!...

 

De teu dorso assomam ínvios

Feixes de pedra em pilastras,

Órgão gigante que enastras

De mil grinaldas alpestres!

Quem lhes calca a base, intrépido,

Vendo o sublime portento,

Liberta seu pensamento

Das amarguras terrestres!

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 93-97.

 

Questão 3

a) Quais são as semelhanças entre a tela de Caspar David Friedrich e o poema de Narcisa Amália?

b) De que forma a abordagem da montanha pela poeta manifesta valores nacionalistas?

 

- Texto para a questão 04 -

Amor de violeta

Esquiva aos lábios lúbricos

Da louca borboleta,

Na sombra da campina olente, formosíssima

Vivia a violeta.

 

Mas uma virgem cândida

Um dia ante ela passa,

E vai colher mais longe uma faceira hortência

Que à loura trança enlaça.

 

“Ai! geme a flor ignota:

Se pela cor brilhante

Que tinge a linda rosa, a tinta melancólica

Trocasse um só instante;

 

Como sentira, ébria

De amor, de mágoa enleio,

Do coração virgíneo as pulsações precípites,

Unida ao casto seio!”

 

Doudeja a criança pálida

Na relva perfumosa,

E a meiga violeta ao pé mimoso e célere

Esmaga caprichosa.

 

Curvando a fronte exânime

Soluça a flor singela:

“Ah! como sou feliz! Perfumo a planta ebúrnea

Da minha virgem bela...”

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 175-176.

 

Questão 4

O poema constitui uma narrativa em que se ressalta o caráter de:

a) vaidade da rosa.

b) maldade da criança.

c) indiferença da relva.

d) humildade da violeta.

e) loucura da borboleta.

 

- Texto para a questão 05 -

O africano e o poeta

No canto tristonho

Do pobre cativo

Que eleva furtivo,

Da lua ao clarão;

Na lágrima ardente

Que escalda-me o rosto,

De imenso desgosto

Silente expressão;

Quem pensa? – o poeta

Que os carmes sentidos

Concerta aos gemidos

De seu coração.

 

– Deixei bem criança

Meu pátrio valado,

Meu ninho embalado

Da Líbia no ardor:

Mas esta saudade

Que em túmido anseio

Lacera-me o seio

Sulcado de dor,

Quem sente? – o poeta

Que o elísio descerra;

Que vive na terra

De místico amor!

 

– Roubaram-me feros

A férvidos braços;

Em rígidos laços

Sulquei vasto mar;

Mas este queixume

Do triste mendigo,

Sem pai, sem abrigo,

Quem quer escutar?...

Quem quer? – o poeta

Que os térreos mistérios

Aos paços sidéreos

Deseja elevar.

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 177-178.

 

Questão 5

No poema de Narcisa Amália,

a) a ausência de referência à liberdade demonstra as limitações do discurso abolicionista.

b) a hierarquização das vozes entre o poeta e o escravizado tem a função de subordinar o africano à cultura letrada brasileira.

c) a repetição do termo “poeta” destaca a incapacidade da arte para denunciar os problemas sociais brasileiros da época.

d) a empatia pela dor do escravizado revela um dos temas proeminentes da poesia social do Romantismo realizada a partir da década de 1870.

e) a ambientação doméstica do tema da escravidão lança luz no caráter meramente literário da poesia social feita pelo Romantismo.

 

- Texto para a questão 06 -

A festa de São João

III

É noite, é noite de magia e enleio!

Buscando asilo em palpitante seio

Voa o pólen da flor!

Do ar sereno vibrações eólias

Perfumam-se nas alvas magnólias,

Que languescem de amor!

 

Da sala festival pelas janelas

Céleres rolam catadupas belas

De fúlgidos clarões;

Vênus surpresa, da azulada esfera,

Um raio de langor verte severa

Por entre as cerrações.

 

Os perfumes sutis causam vertigens;

Transborda de fulgor o olhar das virgens,

Da madona ideal;

Como a planta a boiar sobre a corrente,

Adeja do mancebo o sonho ardente

Num colo de vestal!

 

E cada riso anima uma esperança!

Aos sons da tentadora contradança

Olvida-se o sofrer...

O hálito da bela o ar aroma,

E o rubor que na face nívea assoma

Trai íntimo prazer.

 

Dos lábios de uma loura formosura

Enchendo espaço de harmonia pura

Desata-se a canção;

P’ra ouvir-lhe a fala maviosa, a lua

Que no páramo intérmino flutua

Penetra no salão!...

 

Canta, canta formosa peregrina

Que atua merencória cavatina

Acalma os anseios meus!

O mundo é vário, pérfido oceano...

Quando o deixares, cisne soberano,

Gorjearás nos céus!

 

O turbilhão da valsa o moço arrasta,

E à tez rubente da donzela engasta

A baga de suor...

Só eu meio à turba que doudeja

Sou como a Esfinge que o Athbára beija

Sem vida... sem calor...

 

Ó noite divinal, plena de olores,

Que estendes sobre a terra um véu de flores

Abertas ao luar,

Verteste em meu sombrio pensamento

O orvalho sideral do esquecimento!

Oh! deixa-me te amar!

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 167-169.

 

Questão 6

No poema, a festa de São João é encarada segundo uma perspectiva:

a) nostálgica, destacando a felicidade infantil perdida.

b) subjetiva, capaz de amainar os sofrimentos da enunciadora.

c) mística, enquanto celebração de caráter eminentemente religioso.

d) crítica, ao mostrar a exclusão social dos negros nos festejos de salão.

e) nacionalista, ao associar a festa popular à identidade cultural de um povo.

 

- Texto para a questão 07 -

Texto 1

 

Floresta brasileira (1853), de Manoel de Araújo Porto-Alegre.



Texto 2

No ermo

Salve! Florestas Virgens, majestosas,

Aos céus alçando as comas verdejantes

Em perenais louvores!

Salve! Berço de brisas suspirosas,

D’onde pendem coroas flutuantes

Aos lúcidos vapores!

 

Eu que esgotei do sofrimento a taça,

Que pendo par’a campa úmida e fria,

No alvorecer da vida;

Que na longa vigília da desgraça

Não vejo a luz... nem tenho na agonia

Consolação querida;

 

Oh! Eu quero, meu Deus, sorver sedenta

Os virgíneos eflúvios desta selva

Gozar beleza e sombra!

Molhar meus pés na vaga sonolenta...

E desmaiar depois na mole relva

Na balsâmica alfombra!...

 

Aqui, entre estes troncos seculares,

Sob a cúpula ingente que flutua

N’um mar de luz serena,

Não penetra a paixão com seus esgares;

Mais lânguido fulgor esparge a lua

Nas asas da falena.

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 85-87.

 

Questão 7

Consideradas no contexto cultural brasileiro da segunda metade do século XIX, tanto a imagem de autoria de Araújo Porto-Alegre quanto o poema de Narcisa Amália estão associados:

a) ao caráter ameaçador da paisagem natural.

b) à idealização nacionalista da natureza brasileira.

c) ao sentimentalismo que incorpora à natureza os afetos de seus autores.

d) à denúncia da destruição da natureza para atender interesses agrícolas.

e) ao exotismo que apresenta os espaços nacionais sob o ponto de vista europeu.

 

Questão 8

O poema a seguir faz menção a líderes de movimentos que lutaram contra a opressão do poder político.

Pesadelo

III

Contempla, minha pátria, sobranceira,

Dessas hostes os louros refulgentes;

E procurando a glória em teus altares

Entretece uma coroa a Tiradentes.

 

Viste marchar ao exílio acorrentados

Quais feras que teu seio rejeitava,

Os mais que desprender-te o pulso tentam,

E dormiste sorrindo – sempre escrava!...

 

E quando retumbou no espaço um brado

Tentando sacudir-te a negra coma,

Curvas-te ao flagício fratricida

E deste ao cadafalso o Padre Roma!

 

E não contente, após a exímia aurora

De tua amesquinhada independência,

Mais vítimas votaste em holocausto

Sufocando outra nobre inconfidência.

 

Não bastavam, porém, tantos horrores

Que enegrecem as brumas do passado;

Foi preciso que às mãos de um assassino

Caísse o grande herói – Nunes Machado!

 

Foi preciso que em nome da justiça

De prisão em prisão vagando esquivo,

Acabasse afinal sem glória e nome

Em martírio latente – Pedro Ivo!...

 

Mas se um dia o porvir abrir-te o livro

Que o presente te oculta, temeroso;

Se com a vista medires a estacada

Em que o falso poder se ostenta umbroso;

 

Então, ó minha pátria, num lampejo

Os erros surgirão da majestade;

E arrojarás ao pó cetros e tronos

Bradando ao mundo inteiro – liberdade!

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 145-147.

 

Com base na leitura do poema, responda:

a) Identifique a que movimentos estão ligados os personagens citados.

b) A poeta demonstra algum posicionamento em relação ao contexto político de sua própria época? Justifique sua resposta.

 

- Texto para a questão 09 -

Amargura

[...]

Por que não sou a rola que deixa além o ninho,

E estende as leves asas, e voa n’amplidão?

Por que não chego ao menos a fronte à imensidade

Por sobre a criação?!...

 

Por que não sou íris que arqueia-se no éter?

Por que não sou a nuvem dos páramos sidéreos?

Por que não sou a onda azul que além desmaia

A revelar mistérios?!...

 

O mundo que me vê passar sem um sorriso,

Não vê do meu tormento o horrendo vendaval!

Ele que acolhe e afaga o venturoso, entrega

O triste à lei fatal!...

 

Só resta hoje à minh’alma os campos do infinito;

Aquece-se a tristinha ao sol da eternidade;

E se à lembrança traz as lendas que se foram,

São laivos de piedade!

 

Meu Deus! por que a embalar-me o quedo pensamento

Se o amor é passageiro, se as glórias são de pó?!

Poetisa – toma a lira às lufas da descrença,

E a ti me volvo só.

 

Bondoso abre-me os braços, reúne-me a teus anjos,

A eternal ventura palpitante;

Contemplarei o – nada – do seio das estrelas,

Das dores triunfante!

AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p. 72-73.

 

Questão 9

A visão do eu lírico no poema:

a) centra-se no desprezo às vaidades mundanas.

b) vê na morte uma solução para seus problemas.

c) volta-se nostálgica para a felicidade da infância.

d) denuncia a dor e a opressão imposta aos escravizados.

e) identifica-se com pássaros que voam livres sobre a amplidão.

 

 

 

1. d

2. d

3. b

4. b

5. a) Tiradentes foi um dos participantes da Inconfidência Mineira (1789), movimento colonial que almejava a independência da região de Minas Gerais e a implantação de um regime republicano. Padre Roma foi um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817, movimento de caráter liberal contrário ao Absolutismo português. Nunes Machado e Pedro Ivo foram líderes da chamada Revolução Praieira, entre os anos de 1848 e 1850. Influenciados pelas ideias liberais, republicanas e sociais, eles buscavam a implantação de um regime republicano em Pernambuco e a promoção de reformas socioeconômicas.

b) Sim. A poeta demonstra um posicionamento crítico em relação ao regime monárquico vigente em sua época. Ao caracterizar o poder em voga como “falso” e afirmar que os “erros da majestade” serão revelados, ela expressa uma clara oposição à monarquia e a seus representantes. A menção aos “cetros e tronos” sendo arrojados ao pó reforça essa crítica. Todas essas referências atestam o caráter republicano do poema de Narcisa Amália.

6. b

7. e

8. a

9. a) Tanto a obra do pintor alemão quanto o poema de Narcisa Amália exploram a temática da paisagem sublime e apresentam um ponto de vista elevado, no qual o observador contempla uma vasta paisagem montanhosa tomada por brumas, criando uma atmosfera de mistério e transcendência. A figura humana solitária em meio à imensidão da natureza reforça a sensação de insignificância do indivíduo e o convida à reflexão e à busca por significado na existência. Além disso, tanto a pintura quanto o poema evocam um sentimento de panteísmo. A beleza e a vastidão da paisagem são apresentadas como elementos sagrados, despertando um senso de reverência e conexão com o transcendente.

b) O Itatiaia é apresentado como o “gigante brasíleo”, ou seja, o “gigante brasileiro”. Essa noção engrandece o que era considerado, à época de Narcisa Amália, o ponto máximo do território nacional. A montanha é descrita por meio de expressões hiperbólicas como “sublime grandeza”, “brasíleo Himalaia”, “órgão gigante”. Todas essas denominações demonstram o sentimento nacionalista usado na descrição da montanha, que se localiza na divisa entre os estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.









MÚMIA OU PESSOA MUMIFICADA

  “Um sujeito chegou ao mendigo e lhe perguntou: — Senhor, você prefere que eu lhe trate por ‘pessoa em situação de rua’ ou ‘pessoa em situa...