Introdução
No
contexto brasileiro do século XIX, quando se esperava das mulheres um papel
social demarcado pela submissão ao patriarcado, surgiu a poeta Narcisa Amália,
a primeira jornalista do Brasil. De personalidade intrépida e audaciosa, ela
enfrentou preconceitos e críticas por seus posicionamentos libertários, mas não
se intimidou. Republicana convicta, utilizou de sua inspiração poética para
divulgar o abolicionismo e ideais de maior participação política popular. Seu
único livro de poemas, Nebulosas, foi
publicado em 1872, quando ela tinha apenas 20 anos de idade. O lançamento foi
registrado por diversos jornais da época, e críticos de renome se entusiasmaram
com a qualidade de seus versos.
Nebulosas permite ao leitor de hoje travar contato com o Romantismo e a maneira hiperbólica com que os poetas exaltavam seus sentimentos e a exuberância da natureza nacional. É uma obra expressiva do idealismo defendido por uma jovem intelectual que queria construir o Brasil sobre os alicerces da igualdade entre gêneros e sem distinções raciais.
A autora
Narcisa
Amália de Campos nasceu em São João da Barra, no Rio de Janeiro, em 3 de abril
de 1852. O ambiente de sua casa era marcado pelo apreço às letras e à cultura:
seu pai, Jácome de Campos, era professor e publicava textos na imprensa carioca
e paulista. A mãe, Narcisa Ignácia de Mendonça, também era professora. Quando a
menina tinha 11 anos de idade, a família mudou-se para Resende, também no interior
fluminense, onde o pai assumiu a direção de um colégio para meninos, e a mãe,
de uma escola para meninas. Desde logo, Narcisa Amália passou a ajudar os pais
nas atividades pedagógicas, revelando grande talento para as letras.
Com
apenas 13 anos de idade, Narcisa Amália casou-se com João Batista da Silveira,
jovem de 18 anos, filho de uma das famílias mais abastadas da cidade. O
casamento, contudo, se arruinou quando morreram os pais do marido da poeta: ao
receber uma vultosa herança, o jovem desinteressou-se da vida conjugal e passou
a viver de forma boêmia, assumindo uma companhia itinerante de atores.
De
volta à casa paterna, Narcisa Amália pôde preparar as Nebulosas, que foram
publicadas em dezembro de 1872 pela mais prestigiosa editora da época, a Garnier, em uma edição não custeada pela
família da autora – o que indicia o prestígio com que os poemas foram recebidos
pelos editores. Os versos de Narcisa foram logo festejados por nomes de peso do
cenário cultural brasileiro. Machado de Assis pronunciou-se sobre o lançamento
no jornal Semana Ilustrada:
A leitura das Nebulosas causou-me a este respeito
excelente impressão. Achei uma poetisa, dotada de sentimento verdadeiro e real
inspiração, a espaços de muito vigor, reinando em todo o livro um ar de
sinceridade e modéstia que encanta, e todos esses predicados juntos, e os mais
que lhe notar a crítica, é certo que não são comuns a todas as cultoras de
poesia.
MACHADO DE
ASSIS. Semana Ilustrada, 29 dez. de
1872. In: AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. São Paulo: Landmark, 2024. p.
216.
Os
posicionamentos machadianos, apesar de exaltarem o talento de Narcisa Amália,
não escondem o preconceito da época contra as produções femininas, que eram
recebidas com muita cautela:
Não sem receio abro
um livro assinado por uma senhora. É certo que uma senhora pode poetar e
filosofar, e muitas há que neste particular valem homens e dos melhores. Mas
não são vulgares as que trazem legítimos talentos, como não são raras as que
apenas pagam de uma duvidosa ou aparente disposição, sem nenhum outro dote
literário que verdadeiramente as distinga.
MACHADO DE
ASSIS. Semana Ilustrada, 29 dez. de
1872. In: AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 216.
O
próprio dom Pedro II, quando visitou Resende, em outubro de 1874, fez questão
de conhecer a poeta das Nebulosas.
Embora tivesse ciência das convicções republicanas da autora, o imperador foi-lhe
muito cordial pedindo um autógrafo e recitando alguns de seus versos.
Aos
28 anos, Narcisa Amália casou-se pela segunda vez, com Francisco Cleto da
Rocha, o “Rocha Padeiro”, proprietário da Padaria das Famílias, em Resende. Ao
que consta, os primeiros anos de matrimônio correram em harmonia; contudo, aos
poucos o marido se ressentiu da intensa atividade intelectual da esposa, que
promovia saraus literários e publicava na imprensa sua indignação contra a inferiorização
social da mulher. O casamento então se dissolveu e, em 1888, Narcisa Amália
mudou-se para o Rio de Janeiro, onde atuou como professora até se aposentar. Os
primeiros biógrafos não registraram o fato de Narcisa Amália ter tido uma
filha, o que foi trazido à tona recentemente pela pesquisadora Anna Faedrich no
livro Escritoras silenciadas. Nessa
obra, a autora entrevista Nilza Ericson, bisneta da poeta, que informa sobre a
velhice de sua ancestral. Embora os antigos biógrafos noticiassem que, ao fim
da vida, Narcisa Amália padecera de extrema pobreza, além de paralisia e
cegueira, a bisneta assegura que a grande poeta não ficou desamparada em sua
velhice, tendo morrido cercada pelo afeto familiar em 1924.
O Romantismo
A
obra de Narcisa Amália identifica-se com o Romantismo, movimento fundamental na
cultura do Ocidente.
Desde
meados do século XVIII, a Europa vivenciou um período de grandes
transformações: no plano tecnológico, a Revolução Industrial impulsionou novas
formas de produção e de relações de trabalho, ao lado do liberalismo econômico
e do capitalismo. No plano político, a Independência dos Estados Unidos da
América, em 1776, e a Revolução Francesa, em 1789, consagraram o povo como um
ator político relevante nos processos históricos. Os ideais de Igualdade,
Liberdade e Fraternidade golpearam o Absolutismo e exigiram maior participação
popular nas decisões coletivas. Esses acontecimentos colocaram a burguesia e
seus valores como referências centrais: o direito ao voto, a Constituição, a
liberdade econômica, a igualdade perante a lei eram temas acirradamente debatidos
em todo o Ocidente.
No
âmbito cultural, esse contexto de transformações deu origem ao Romantismo,
movimento que revolucionou os modelos artísticos até então fortemente ancorados
nos padrões de matriz greco-latina. Alinhado ao espírito revolucionário da
época, o Romantismo golpeou o antigo princípio clássico segundo o qual o
artista deveria trabalhar de maneira criativa com conceitos e referências
tradicionalmente conhecidos. O romântico exaltava a originalidade, o diferente,
o radicalmente novo. No lugar do frio racionalismo calcado na mitologia grega,
o movimento passou a valorizar as emoções pessoais como forma de garantir
autenticidade às produções artísticas.
O
Romantismo impôs uma profunda renovação nas imagens artísticas, nos estilos e
no próprio conceito de heroísmo. Em vez da placidez dos antigos locus amoenus, os românticos buscavam a
intensidade de paisagens ermas, exóticas, que pudessem evocar o sublime na
relação entre o ser humano e a natureza. Essa visão era permeada pelo
panteísmo, no qual a própria ideia da grandeza de Deus se confunde com a
vastidão e o mistério de espaços remotos.
A
ideia de que o ser humano é pequeno diante das forças naturais liga-se à noção
de “sublime”, conceito fundamental na compreensão do Romantismo. O sublime está
relacionado a tudo o que é desmedido, ilimitado e, em certo sentido,
assustador, dramático. Ele transcende a mera apreensão estética do fenômeno,
porque está relacionado à comparação da pequenez humana frente aos grandes
eventos naturais. O Romantismo mostra-se atraído por paisagens impactantes,
como cordilheiras, abismos ameaçadores, tempestades violentas, avalanches.
Assim, o que se evoca não é a antiga harmonia clássica, mas a potência
irreprimível da natureza, que, por sua vez, é associada às paixões humanas.
O
nacionalismo também foi um tema central na cultura europeia oitocentista.
Países como Alemanha e Itália efetivaram sua unificação política, superando
antigas heranças do mundo feudal. A arte ligou-se a essas demandas
político-sociais e procurou romper com o universalismo do mundo greco-latino,
trabalhando a trajetória histórica das nações, bem como as paisagens
específicas de cada região. Em vez da Antiguidade clássica, a Idade Média seria
explorada como inspiração estética. Em seus castelos e torneios cavaleirescos
foram buscados heróis que galvanizassem o orgulho de pertencer a determinada
nação. Era a ascensão do conceito de alma do povo, segundo o qual cada grupo possui
uma identidade profunda, compartilhada por seus membros, e que se manifestaria,
por exemplo, no conjunto de lendas e tradições populares. Essa herança de origem
imemorial se oporia ao caráter erudito e acadêmico dos estudos clássicos.
Histórias transmitidas oralmente por gerações e gerações eram vistas como
depositórios confiáveis de conhecimentos que alimentavam a identidade entre os
indivíduos de uma nação. Além disso, a cultura medieval oferecia um certo
irracionalismo pautado na fé, na religião, no sentimento de inexplicável, o que
se alinhava ao ímpeto romântico, que valorizava mais a intensidade dos afetos
do que a lógica ou a fria reflexão intelectual.
O Romantismo no
Brasil
O
Romantismo foi fundamental na consolidação de imagens e de formas de expressão
para a cultura brasileira. Recém-liberto das amarras coloniais, o Brasil tinha
de mostrar ao mundo que era capaz de ser uma nação independente, tanto no plano
político-institucional quanto no cultural. O desenvolvimento da imprensa
possibilitou maior alcance das ideias e dos autores, que se empenhavam em
nacionalizar nas obras literárias os costumes e as referências à natureza.
Reconhecendo
que o medievalismo europeu não poderia ser transplantado à trajetória histórica
brasileira, nossos artistas voltaram-se para o período colonial, apresentando o
encontro entre europeus e indígenas como elemento fundante de nossa cultura.
O
carioca Gonçalves de Magalhães (1811-1882) foi o pioneiro da temática romântica
no Brasil, com a publicação de Suspiros
poéticos e saudades, no ano de 1836. Junto com outros intelectuais brasileiros,
ele publicou em Paris a Nitheroy, Revista
Brasiliense, voltada à divulgação da cultura nacional. Contudo, o
Romantismo brasileiro só alcançaria o patamar de genuína grandeza literária com
o maranhense Gonçalves Dias (1823-1864), um dos nomes mais aclamados da poesia
oitocentista. O poeta da “Canção do Exílio” se destacou
pela
maestria técnica na composição de poemas que abordavam tanto o sentimentalismo
amoroso quanto o heroísmo indígena. A primeira geração romântica tinha como uma
de suas maiores aspirações a nacionalização das referências estéticas e a
consolidação da nacionalidade brasileira.
Na
geração romântica seguinte, o tema do nacionalismo perdeu um pouco de sua
relevância para dar lugar à ascensão do individualismo, caracterizado por uma
vivência angustiada das emoções pessoais, em uma atitude de evasão muitas vezes
de caráter lúgubre e desejosa da morte. Os expoentes dessa geração foram os
poetas Álvares de Azevedo (1831-1852), Casimiro de Abreu (1839-1860) e Fagundes
Varela (1841-1875), que exploraram o sentimentalismo lamurioso e a idealização
da infância como uma época de felicidade e inocência para sempre perdida.
Álvares de Azevedo inclusive explorou programaticamente a influência gótica do
poeta inglês Lord Byron, com referências a cemitérios, tumbas e fantasmagorias.
A
última geração da poesia romântica teve no poeta baiano Castro Alves
(1847-1871) seu maior expoente. Ele orientou sua produção para aspectos mais combativos
do Romantismo, engajando-se em temas sociais, especialmente relacionados à luta
abolicionista. Além disso, o ímpeto liberal de suas ideias demonstrou entusiasmo
pelo progresso e pela crença de que o Brasil e a América simbolizavam o futuro
promissor de novos tempos.
Em
1872, quando Narcisa Amália publicou as Nebulosas,
o Romantismo já estava plenamente estabelecido como manifestação cultural
relevante no Brasil. A poeta fluminense pôde se influenciar dos grandes nomes
do movimento e apresentar sua contribuição no conjunto de expressões literárias
do período.
Análise da obra
Nebulosas
é um livro de poemas composto de 44 textos, divididos em três partes. Enquanto
a primeira parte tem apenas um poema, as duas outras (com 27 e 16 poemas,
respectivamente) não apresentam diferenças relevantes quanto a aspectos formais
e temáticos.
Primeira parte
A
primeira parte da obra Nebulosas é composta pelo poema intitulado “Nebulosas”,
em que se narra uma experiência de caráter místico, propiciadora de inspirações
poéticas. O poema tem nove estrofes de dez versos decassílabos brancos (sem
rima).
No
seio majestoso do infinito,
–
Alvos cisnes do mar da imensidade, –
Flutuam
tênues sombras fugitivas
Que
a multidão supõe densas caligens,
E
a ciência reduz a grupos validos;
Vejo-as
surgir à noite, entre os planetas,
Como
visões gentis à flux dos sonhos;
E
as esferas que curvam-se trementes
Sobre
elas desfolhando flores d’ouro
Roubam-me
instantes ao sofrer recôndito!
Costumei-me
a sondar-lhe os mistérios
Desde
que um dia a flâmula da ideia
Livre,
ao sopro do gênio, abriu-me o templo
Em
que fulgura a inspiração em ondas;
A
seguir-lhes no espaço as longas clâmides
Orladas
de incendidos meteoros;
E
quando da procela o tredo arcanjo
Desdobra
n’amplidão as negras asas,
Meu
ser pelo teísmo desvairado
Da
loucura debruça-se no pélago!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 39-40.
Nas
duas primeiras estrofes, o eu lírico demonstra a fascinação pelas “sombras
fugitivas” surgidas no céu e associadas a “alvos cisnes”. Trata-se das
nebulosas, formação de nuvens ou de névoa, que chegam a alterar o estado de
ânimo da poeta, aliviando seu “sofrer recôndito”, ou seja, o sofrer que ela
traz em seu âmago, em seu interior. O fenômeno atmosférico tem a capacidade
balsâmica de aliviar as dores da enunciadora. Além de aliviar o sofrimento, a
visão das nebulosas faz com que a poeta siga “o sopro do gênio”. Essa expressão,
muito ao gosto romântico, está relacionada ao ímpeto incontrolável que leva à
criação artística, alçando a inteligência humana sobre os “abismos da loucura”
– no poema indicado pela aventura do “ser” sobre o “pélago da loucura”.
Um
dia no meu peito o desalento
Cravou
sangrenta garra; trevas densas
Nublaram-me
o horizonte, onde brilhava
A
matutina estrela do futuro.
Da
descrença senti os frios ósculos;
Mas
no horror do abandono alçando os olhos
Com
tímida oração ao céu piedoso,
Eu
vi que elas, do chão do firmamento,
Brotavam
em lucíferos corimbos
Enlaçando-me
o busto em raios mórbidos!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 42.
Nessa
estrofe, o eu lírico mostra um momento de síntese com a natureza. Depois de
sentir-se tomado pelo desalento e pela descrença, e de orar timidamente ao “céu
piedoso”, as “sombras fugitivas” das nebulosas o envolvem em raios. É um
momento sublime de comunhão cósmica:
Oh!
Amei-as então! Sobre a corrente
De
seus brandos, notívagos lampejos,
Audaz
librei-me nas azuis esferas;
Inclinei-me,
de flamas circundada
Sobre
o abismo do mundo torvo e lúgubre!
Ergui-me
ainda mais: da poesia
Desvendei
as lagunas encantadas,
E
prelibei delícias indizíveis
Do
sentimento nas caudais sagradas
Ao
clarão divinal do sol da glória!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 42.
A
comunhão com a natureza conjuga-se com a integração à poesia em si mesma. Essa
fusão com elementos naturais e da imaginação humana eleva a poeta acima do
comum dos mortais, transportando-a para além da realidade mundana, do “abismo
do mundo torvo e lúgubre”: é nesse momento de epifania que se manifesta o “gênio”,
a conjugação de forças cósmicas na alma da poeta que a torna capaz de comunicar
ao resto do mundo aqueles momentos sublimes de êxtase. A experiência mística
não poderia passar em silêncio, e a poeta decide manifestar-se artisticamente:
Quando
desci mais tarde, deslumbrada
De
tanta luz e inspiração, ao vale
Que
pelo espaço abandonei sorrindo,
E
senti calcinar-me as débeis plantas
Do
deserto as areias ardentíssimas;
Ao
fugir dos cendais que estende a noite
Sobre
o leito da terra adormecida,
Fitei
chorando a aurora que surgia!
E
– ave de amor – a solidão dos ermos
Povoei
de gorjeios melancólicos!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 43.
Ao
descer novamente à vida cotidiana, a poeta se sente diferente de todos,
habitando uma espécie de deserto onde as pessoas não dotadas do gênio poético
se perdem em preocupações comezinhas. Mas como uma “ave de amor” que alçou voo
em direção ao sublime, a poeta não se rende ao isolamento e decide povoar de “gorjeios
melancólicos” a solidão dos ermos da existência comum: esses “gorjeios” são a
sua produção poética, como fica explicitado na última estrofe do poema:
Assim
nasceram os meus tristes versos,
Que
do mundo falaz fogem às pompas!
Não
dormem eles sob os áureos tetos
Das
térreas potestades, que falecem
De
morbidez nos flácidos triclínios!
Cortando
as brumas glaciais do inverno
Adejam
nas estâncias consteladas
Onde
elas pairam; e à luz da liberdade
Devassando
os mistérios do infinito,
Vão
no sólio de Deus rolar exânimes!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 43.
Narcisa
Amália defende que seus poemas nasceram de verdadeiras vivências místicas, de
uma inspiração superior ofertada por Deus, mas que não escondem por completo a
melancolia intrínseca à sua personalidade. A poeta anuncia sua indiferença em
relação às pompas ou à glória literária, atribuindo a esses fenômenos sociais um
caráter falaz e ilusório.
O
primeiro poema de Nebulosas tem
caráter exordial, ou seja, serve como introdução para os demais poemas do
livro. Nesse texto, ficam patentes procedimentos românticos explorados ao longo
da obra, tais como a exacerbação sentimental, a força das descrições da
natureza e o caráter místico, voltado à busca da comunhão com Deus. Essa união
Deus-Natureza confere ao texto forte aspecto panteísta, em que prevalece uma
profunda identidade entre Deus e Natureza, entre Criador e criatura. A natureza
é entendida não apenas como uma expressão da vontade divina, mas como o próprio
Deus encarnado na grandeza e beleza dos espaços.
Afetos familiares
A
segunda parte de Nebulosas se inicia
com “Voto”, um poema de ritmo envolvente, com estrofes de quatro versos que
alternam decassílabos e hexassílabos. No texto, a poeta faz votos de felicidade
para sua mãe, a quem o poema é carinhosamente dedicado: “À minha mãe”. O tema
familiar, central no poema, revela a intimidade do amor filial, permeado de
devoção a Deus:
Os
filhos todos submissos junquem
De
rosas tua estrada;
E
curvem-se os espinhos sob os passos
Da
Mãe idolatrada.
Tais
são as orações que aos céus envia
A
tua pobre filha;
E
Deus acolhe o incenso, embora emane
De
branca maravilha!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 48.
A
enunciadora confirma a autoimagem que esboçara no poema “Nebulosas”: ao
caracterizar-se como “pobre filha”, marca-se com atributos de melancolia e
amargura, tal como o “sofrer recôndito” mencionado no primeiro poema da obra.
Esse traço de personalidade sobressai-se da leitura do conjunto de textos do
livro, inclusive na abordagem de um dos temas mais caros ao Ultrarromantismo: a
idealização da infância.
O saudosismo da
infância
Poetas
românticos não raro demonstravam profundo tédio com a existência, materializado
em um forte impulso de evasão, de fuga da realidade que os circundava. Em
Narcisa Amália isso se mostra no sentimentalismo com que ela evoca os felizes
dias da infância, contrapondo-os ao sofrimento e à tristeza do momento em que escreve.
No poema “Saudades”, por exemplo, a caracterização positiva da infância é evidente no apreço aos dias de felicidade e inocência em meio ao carinho familiar:
Tenho
saudade dos formosos lares
Onde
passei minha feliz infância;
Dos
vales de dulcíssima fragrância;
Da
fresca sombra dos gentis palmares.
[...]
Eu
era de meu pai, pobre poeta,
O
astro que o porvir lhe iluminava;
De
minha mãe, que louca me adorava,
Era
na vida a rosa predileta!...
AMÁLIA,
Narcisa. Nebulosas. São Paulo:
Landmark, 2024. p. 49-50.
O
caráter solar dessas reminiscências é substituído, na segunda parte do poema,
por uma tonalidade lúgubre e desesperançosa:
Mas...
...
tudo se acabou. A trilha olente
Não
mais percorrerei desses caminhos...
Não
mais verei os míseros anjinhos
Que
aqueciam na minha a mão algente!
Resta
à poeta apenas o consolo do amparo divino na hora da morte:
Ai!
Que seria do mortal aflito
Que
tomba exangue à provação cruenta,
Se
no marco da estrada poeirenta
Não
divisasse os gozos do infinito?!...
Abrem-me
n’alma as dores da saudade
Um
sulco de profundas agonias...
Morreram-me
p’ra sempre as alegrias...
Só
me resta um consolo... a eternidade!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 50.
O
caráter devoto do poema se mostra na associação da existência humana a uma
espécie de Calvário, de sofrimento intenso cujo único consolo reside na
esperança da plenitude pós-morte no seio acolhedor de Deus.
Essa
representação positiva da infância se apresenta também no poema “Linda”, em que
a poeta se dirige a uma criança “Rosada, loura e mansa” a quem deseja beijar
“com fervor”. A menina é comparada a uma rosa de “mágico perfume” que desperta
inveja até mesmo no nascer do sol. Contudo, o texto busca advertir a criança sobre
a efemeridade da beleza física:
Ai!
zela a rosa pura
De
tua formosura
Que
o lábio mercenário
Do
mundo, não manchou
Sê
como a sensitiva
Que
se retrai esquiva
Se
o vento louco e vário
As
folhas lhe osculou.
Porém,
essa beleza
Que
deu-te a natureza,
Desmaiará
um dia
Aos
gelos hibernais;
E
a uma vez perdida
Nos
vendavais da vida,
À
flux da fantasia
Não
surgirá jamais!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 53.
A
beleza é exposta aos “vendavais da vida”, que destroem tudo implacavelmente.
Diante dessa fragilidade, a poeta ressalta a importância de resguardar os
valores morais:
Ó!
zela mais ainda
A
flor celeste é linda
Da
tua alma de virgem,
–
Teu primitivo amor!
Da
divinal bondade
A
meia potestade,
Se
acolhe da vertigem
Nas
mãos do Criador!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 54.
A enunciadora assume uma posição sapiencial ao emitir conselhos com base em sua suposta experiência de vida, indicando, além da precariedade dos bens físicos, o valor superior dos dotes morais e espirituais. A “divinal bondade” da criança é manifestação do amor divino na Terra, capaz de oferecer alívio “Ao pobre, agonizante, / À sombra do hospital!”, e aos desgraçados que, em prantos, desesperam diante da dor do mundo. Essa mesma representação da alegria infantil como um alívio às agruras da vida comparece no poema “Aspiração”:
Os
lampejos azuis de teus olhos
Fazem
n’alma brotar a esperança;
Dão
venturas, ó meiga criança,
–
Flor celeste no mundo entre abrolhos!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 58.
Essa
alegria, segundo a enunciadora, deve ser resguardada como um tesouro diante das
adversidades da vida: “Tuas asas de lindos matizes / Ah! Não rasgues do vício
na estrada”. Assim, a representação da infância nesses poemas vem acompanhada
da noção de perigo, de ameaça que paira sobre a inocência infantil.
No
poema “Cisma”, a hora do crepúsculo é o momento triste em que a poeta sente a
fronte inclinar-se de melancolia:
Eu
tenho n’alma uma saudade infinda,
Mais
profunda que o abismo dos espaços...
–
Choro meu berço que deixei criança;
–
Choro o sol que aclarou meus debéis passos.
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 77.
A
natureza, nesse contexto, é apresentada como uma espécie de confidente capaz de
compadecer-se da poeta, ofertando-lhe um pouco das lembranças daquela quadra de
felicidade, agora perdida:
Ó
aura do crepúsculo, mais suave
Que
o perfume das rosas de Istambul;
–
Leva o meu ninho, meu gemer de Alcione!
–
Traz de meu ninho a primavera azul!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 78.
Por
sua vez, no poema “Resignação”, a poeta compara as felizes lembranças infantis
com seu cotidiano de amargura:
Como
é doce a lembrança desse tempo
Em
que o chão da existência era de flores,
Quando
entoava, ao múrmur das esferas,
A
copla tentadora dos amores!
[...]
Hoje
escalda-me os lábios riso insano,
É
febre o brilho ardente de meus olhos:
Minha
voz só retumba em ai plangente,
Só
juncam minha senda agros abrolhos.
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 80.
Essa
visão desesperançada da realidade, contudo, encontra um lenitivo na própria
poesia:
Mas
que importa esta dor que me acabrunha,
Que
separa-me dos cânticos ruidosos,
Se
nas asas gentis da poesia
Elevo-me
a outros mundos mais formosos?!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 80.
Curiosamente,
a poeta encontra certo prazer na dor que acabrunha, pois essa mesma dor a distingue
das pessoas comuns, imersas no ruído estéril e na futilidade da convivência
mundana:
Oh!
bendita esta dor que me acabrunha,
Que
separa-me dos cânticos ruidosos,
De
longe vejo as turbas que deliram,
E
perdem-se em desvios tortuosos!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 81.
A
poeta coloca-se, portanto, em uma condição de superioridade proporcionada pela
dor que a sublima na condição de poeta. Ela se reconhece como detentora de uma
consciência que o restante da sociedade não possui: vivenciar as dores da
existência de forma mais profunda, justamente porque pode expressá-las em
palavras. A poeta é uma espécie de intérprete das experiências humanas, que todos
vivenciam, mas apenas alguns, agraciados com o “gênio romântico”, conseguem
traduzir em arte, de maneira esteticamente ordenada.
A Natureza
A
natureza romântica se afasta da concepção clássica de um espaço equilibrado e
ordenado racionalmente, povoado por seres como ninfas, zéfiros e pastores. No
Romantismo, esse locus amoenus foi
abandonado em favor de espaços carregados de impulsos nacionalistas, que
atribuíam à paisagem brasileira a potência de uma beleza sem comparação.
Narcisa
Amália fez da natureza brasileira um dos seus temas mais recorrentes,
retratando-a como uma expressão grandiosa e excepcional, capaz de elevar a
apreensão humana acima da mera compreensão lógica.
A
personalidade amargurada da poeta, ao se deparar com a magnificência dos
cenários naturais, embebe-se de uma emoção profundamente religiosa. No poema “O
ermo”, a enunciadora assume um tom de exaltação, revelando a intensidade de
seus sentimentos diante da natureza exuberante:
Salve!
florestas virgens, majestosas,
Aos
céus alcançado as comas verdejantes
Em
perenais louvores
Salve!
berço de brisas suspirosas,
D’onde
pendem coroas flutuantes
Aos
lúcidos vapores!
Eu
que esgotei do sofrimento a taça,
Que
pendo par’a campa úmida e fria,
No
alvorecer da vida;
Que
na longa vigília da desgraça
Não
vejo a luz... nem tenho na agonia
Consolação
querida;
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 85-86.
A
enunciadora se mostra martirizada pela dor que brota sem explicação das
profundezas de sua subjetividade – apesar de se reconhecer jovem, no “alvorecer
da vida”, ela não tem forças para crer de maneira otimista em um “porvir
risonho”. Essa negatividade, no entanto, encontra alívio no poder curativo da
paisagem natural:
Oh!
eu quero, meu Deus, sorver sedenta
Os
virgíneos eflúvios desta selva,
Gozar
beleza e sombra!
Molhar
meus pés na vaga sonolenta...
E
desmaiar depois na mole relva
Na
balsâmica alfombra!
[...]
Aqui
aos ternos cânticos das aves,
Ao
refugir das lágrimas da aurora
Nos
campesinos véus,
Minh’alma
presa de emoções suaves
Desdenha
a mágoa insana que a devora,
E
remonta-se aos céus!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 86; 90.
Em
“O Itatiaia”, Narcisa Amália celebra o maciço localizado na serra da
Mantiqueira, próximo à cidade de Resende, onde ela vivia. A descrição da
natureza é imbuída de um fervor nacionalista, que apresenta o Itatiaia como o
ponto culminante do Brasil (opinião posteriormente superada pelos estudos que
indicam o Pico da Neblina, no Amazonas, como o mais alto do país).
Ante
o gigante brasíleo,
Ante
a sublime grandeza
Da
tropical natureza,
Das
erguidas cordilheiras,
Ai!
quanto me sinto tímida!
Quanto
me abala o desejo
De
escrever n’um arpejo
Essas
cristas sobranceiras!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 93.
A
poeta reconhece a insuficiência de sua linguagem para descrever a grandiosidade
do cenário. O verbo romântico busca se colocar à altura daquela paisagem capaz
de libertar as pessoas das amarguras impostas pela existência comum:
De
teu dorso assomam ínvios
Feixes
de pedra em pilastras,
Órgão
gigante que enastras
De
mil grinaldas alpestres!
Quem
lhes calca a base, intrépido,
Vendo
o sublime portento,
Liberta
seu pensamento
Das
amarguras terrestres!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 97.
A
enunciadora demonstra que seu texto não se esgota apenas na descrição de uma
paisagem apreendida subjetivamente: seu canto liga-se a um caráter coletivo de
afirmação nacionalista. Cantar o Itatiaia equivale a enaltecer o Brasil – uma
das funções mais nobres da cultura letrada oitocentista, que se engajava na
luta de consolidar a pátria como tema poético:
Vai
meu canto ao mundo sôfrego
Que
ante os prodígios se inclina,
Narrar
a beleza alpina
Das
regiões em que trilhas;
Leva-lhe
nas asas vélidas
Meu
culto à serra gigante,
Pátrio
ponto culminante,
Berço
de mil maravilhas!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 98.
Essa
conexão com a terra natal se apresenta também em “A Resende”, poema dedicado à
cidade onde a poeta viveu sua juventude. O texto apresenta Resende como uma
espécie de oásis acolhedor, a que se chega depois de enfrentar uma jornada
extenuante:
Enfim
te vejo, estrela da alvorada,
Perdida
nas celagens do horizonte!
Enfim
te vejo, vaporosa fada,
Dolente
presa de um sonhar insonte!
Enfim,
de meu peregrinar cansada,
Pouso
em teu colo a suarenta fronte,
E,
contemplando as pétreas cordilheiras,
Ouço
o rugir de tuas cachoeiras!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 108.
O
poema inclui uma nota de rodapé de autoria da própria poeta, na qual relata uma
visita ao ateliê do ilustre pintor Pedro Américo de Figueiredo e Mello, durante
sua viagem a Resende: “Ali passei agradavelmente algumas horas, admirando os
mais belos trabalhos do filósofo-artista”:
Caminhei
inda mais: com nobre empenho
Penetrei
no sagrado santuário
Onde
o gênio – em delírio – arrasta o lenho
Do
trabalho, em demanda de um Calvário!
Vi
surgir sobre a tela, à luz do engenho,
E
povoar o templo solitário,
Da
Carioca a lânguida figura,
De
Nhaguaçu o feito de bravura!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 110.
A
estrofe mostra como, entre os letrados da época, havia um verdadeiro “espírito
de missão”: consolidar a arte como expressão genuína da identidade nacional
brasileira. Pedro Américo foi um dos mais importantes pintores brasileiros do
século XIX, aclamado pelo seu trabalho de temática histórica e clássica.
Independência ou morte, que retrata o célebre grito com que dom Pedro I
proclamou a Independência, é um dos seus quadros mais conhecidos.
Em
“Lembras-te?”, a poeta encena uma conversa infantil com a amiga Adelaide Luz, a
quem o poema é dedicado. Em meio às belezas do crepúsculo, a amiga pergunta: “–
Por que cismando fitas a vastidão sidérea? / Por que contemplas muda as tênues
nebulosas?”. A resposta elenca uma série de belezas naturais, desde as
magnólias sob os raios do sol poente até as cordilheiras adornadas por
cachoeiras e trepadeiras que deixam o chão coberto de flores rubras. Após esse inventário
poético, a interlocutora finalmente responde à questão da amiga, revelando a
razão de sua contemplação:
Não
me perguntes mais com essa fala aérea
Porque
muda contemplo as tênues nebulosas,
Porque
cismando fito a vastidão sidérea,
Ó
sílfide embalada em névoas vaporosas!
Vejo
no lago azul, na flor, nos verdes montes,
O
Ser que cria a brisa, e doura o arrebol;
Que
impele a nuvem túmida por sobre os horizontes,
Que
fazendo-nos de pó, vestiu de luz o sol!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 121.
A
resposta de Narcisa Amália é clara em sua profunda reverência pela beleza natural,
que ela enxerga não apenas como uma manifestação da vontade divina, mas como o
próprio Deus materializado naquelas belezas. Embora a religiosidade em
Nebulosas seja marcadamente cristã, a poeta muitas vezes não cultua o divino
por meio de uma doutrina institucionalizada, mas valoriza o contato direto com
a divindade, presente nos cenários inspiradores que ela tem diante de si.
Quatro poemas
noturnos
O
tema da noite é frequentemente explorado pelos poetas românticos, que são
atraídos pela aura de mistério e evocação de paisagens banhadas pelo luar. Em
“À lua”, Narcisa Amália dirige-se ao satélite terrestre, chamando-o
carinhosamente de “virgem pálida”, e estreitando os laços que naturalmente
ligam a lua aos poetas:
Estendo-te
os braços trêmulos,
Vem
desvendar-me o mistério;
Contar-me
as latentes dores,
A
causa dos teus palores,
Rainha
do reino aéreo.
Depois...
ao clarão esplêndido,
Seguindo-te
os lentos passos,
Contar-te-ei
meus pesares
Em
frente à extensão dos mares,
Presa
em teus délios laços.
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 123.
A
parceria entre a lua e a poeta se baseia em uma troca de confidências, que as
nivela em um companheirismo natural. Esse nivelamento não se repete no poema “A
noite”, em que a enunciadora coloca sua interlocutora (a noite) em um patamar
superior, como uma entidade capaz de oferecer alívio em meio ao sofrimento
generalizado:
Ó
Noite, meiga irmã da poesia,
Ninfa
em lânguidas cismas balouçada,
Abre-me
o seio teu, pleno de encantos!
Oh!
quero em ti fugir à dor famélica
Que
me devora o coração sem vida
E
os seios de minh’alma dilacera!
Quero
a fronte pendida alçar, envolta
Na
fímbria imensa de teu manto tétrico!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 130.
O
sentimentalismo amargurado e repleto do spleen,
o tédio da existência, se mostra no impulso de evasão da dor que dilacera a alma.
A noite é capaz de proporcionar alívio, ainda que passageiro:
[...]
Concede
ao peito meu que a mágoa enluta
Inda
um momento de serenos gozos...
Um
riso que meus lábios ilumine,
Um
só lampejo de fugaz delícia!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 131.
Em “Noturno”, toda a natureza se transforma com a chegada da noite: o calor do dia se dissipa, as copas das árvores se movem de forma peculiar, aves e regatos emitem seus sons noturnos. Nesse ambiente carregado da musicalidade dos versos hexassílabos, a dor humana ainda persiste, mas encontra amparo na piedade divina:
O
elísio tem fulgores,
A
terra orvalho, flores,
E
místicos amores
Que
velam descuidados;
Mas,
ah! quanto lamento
Não
sobe tardo, lento
Na
voz do sofrimento,
No
– ai – dos desgraçados?!...
Ao
mísero inditoso
Envia,
ó Deus piedoso,
Um
raio esperançoso
Que
abrande a intensa dor!
Na
vaga que delira,
No
euro que suspira,
Na
casta e santa ira
Lh’infunde
teu amor!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 193.
Em
“Ave Maria”, toda a natureza se infunde de um sentimento de religiosidade ao
cair da noite. É o momento em que tradicionalmente se reza a oração “Ave Maria”.
O poente tinge o céu de laços purpúreos, enquanto a escuridão da noite se
intensifica: “E o negro véu que cai sobre a campina / mais densa torna a
negridão da selva!”. A natureza se transforma em uma espécie de templo voltado
ao louvor a Deus:
Nos
rubores da tarde que agoniza,
Sobre
as asas balsânicas do vento,
Nosso
ser, sobranceiro à térrea urna,
–
Sutil essência – sobe ao firmamento!
E
prestando uma fala a cada ente,
Trépido
eflúvio a cada flor rasteira,
–
Ave de amor – para a serena súplica
Como
com seus trinos desperta a terra inteira!
Os
páramos silentes do deserto
Parecem
escutar a voz do Eterno!
As
multidões contritas buscam ávidas
Um
só fulgor de seu olhar paterno!
E
Aquele que ouve os salmos das esferas,
Que
contempla perene a luz do dia,
Neste
instante solene, ao som dos sinos,
Faz
subir uma prece – Ave-Maria! –
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 199.
Amargura e desengano
Embora
Nebulosas seja um conjunto de textos
feitos por uma moça na vitalidade e saúde dos seus 20 anos, os poemas
transmitem a imagem de uma personalidade amargurada, que encara a existência como
um verdadeiro rosário de dores e de desilusões, cuja solução seria a morte. Em
“Desengano”, o desespero chega a ser um “martírio infernal”:
Quando
resvala a tarde na alfombra do poente
E
o manto do crepúsculo se estende molemente;
Na
hora dos mistérios, dos gozos divinais.
Despedaçam-me
o peito martírios infernais;
E
sinto que, seguindo uma ilusão perdida,
Me
arqueja, treme e expira a lâmpada da vida!
Feriu-me
os olhos tímidos o brilho da esperança,
A
luz do amor crestou-me o riso da criança;
E
quando procurei – sedenta – uma ventura,
Aberta
via a fauce voraz da sepultura!...
Dilacerou-me
o seio, matou-me a crença bela,
O
tufão mirrador de hórrida procela!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 62.
No
texto, o sol de maio chega a oferecer algum consolo à dor que assola a poeta,
mas não a liberta dos pensamentos fúnebres, ainda que ela se ampare na devoção
poética a Deus: “Elevarei meus carmes ao Ser que criou tudo, / E dormirei
sorrindo n’um leito ignoto e mudo”.
Por
mais que a reverência à natureza permeie os poemas mais doloridos, a poeta
resolutamente se despede da vida, sem vislumbrar qualquer solução para seus
infortúnios, no poema “Desalento”:
Adeus,
lendas de amor, dourados sonhos
De
meu cérebro enfermo;
Adeus,
da fantasia, ó lindas flores,
Rebentadas
no ermo.
Um
dia, da quimera no regaço,
Adormeci
sorrindo;
E
os astros, lá no empíreo debruçados,
Verteram
brilho infindo
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 65.
Os
momentos de felicidade não passaram de lampejos logo substituídos pela dor:
Por
que deixas, ó Deus, que o gelo queime
Minh’alma,
planta fria?!...
Cedo
descansarei, (que importa?) os membros
Na
penumbra sombria,
Onde
a roxa saudade funerária
Enlaça-me
ao cipreste;
Onde
a lua, chorosa peregrina,
Derrama
a luz celeste!
A
vós, lendas de amor, sombras queridas
Dos
devaneios meus;
Como
a rola das selvas, trespassada
De
mortífera seta
A
vós que me embalaste a adolescência,
Meu
pranto e eterno adeus!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 66.
Essa caracterização negativa da existência se manifesta também na inspiração poética. No poema “Sadness” (“Tristeza”, em inglês), Narcisa Amália mostra como o seu veio poético é guiado pela melancolia, personificada em um anjo inspirador avesso às singelas alegrias da natureza:
Meu
anjo inspirador não tem nas faces
As
tintas coralíneas da manhã;
Nem
tem nos lábios as canções vivaces
Da
cabocla pagã!
Não
lhe pesa na fronte deslumbrante
Coroa
de esplendor e maravilhas,
Nem
rouba o nevoeiro flutuante
As
nítidas mantilhas.
Meu
anjo inspirador é frio e triste
Como
o sol que erubesce o céu polar!
Trai-lhe
o semblante pálido – do antiste
O
acerbo meditar!
Traz
na cabeça estema de saudades,
Tem
no lânguido olhar a morbideza;
Veste
a clámide eril das tempestades,
E
chama-se – Tristeza!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 181-182.
Assim,
a poeta demonstra como seus textos não poderiam explorar a alegria ou a
satisfação com a vida pelo fato de serem determinados, no nascedouro, por um
“gênio inspirador” que os direciona para a expressão de uma melancolia
profunda.
Diálogo entre
pessimismo e otimismo
Os
poemas “Agonia” e “Consolação” fazem um curioso par no conjunto de textos das Nebulosas. O primeiro, de autoria de
Narcisa Amália, utiliza diversas imagens da natureza associadas ao fenecimento
e à morte para traçar paralelos com o estado de espírito da poeta.
Como
vergam as lindas açucenas
As
pétalas alvejantes
Quando
voam do sul as brumas frias;
Quando
rola o trovão nas serranias
Com
os raios coruscantes;
Como
a rola das selvas, trespassada
De
mortífera seta
Despedida
por bárbaro selvagem,
Que
a débil fronte inclina e cai à margem
Da
lagoa dileta;
Como
a estrela gentil de um céu risonho,
Luzindo
aos pés de Deus;
Que
pouco a pouco triste empalidece,
E
cada vez mais pálida falece
Envolta
em negros véus,
Como
a gota de mel que entorna a aurora
Na
trêmula folhagem,
E
brilha, e fulge ao prisma de mil cores;
Que
depois desaparece aos esplendores
Da
dourada voragem;
Assim
foram-se as rosas de meu peito
Sem
os rocios de outono...
Vejo
apenas a palma do martírio
Convidando-me
a ir à luz do círio
Dormir
o eterno sono
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 67-68.
As
comparações que iniciam cada estrofe são completadas na última, em que se
evidencia o impulso fúnebre da poeta. A referência a “círio”, vela utilizada em
funerais, sugere que os martírios a convidam a se deitar em seu próprio leito
de morte.
“Agonia” é sucedido pelo poema “Consolação”, que vem acompanhado da seguinte nota: “Paródia à poesia precedente pelo sr. J. Ezequiel Freire”. Trata-se do grande poeta romântico Ezequiel Freire (1850-1891), que faz um contraponto ao pessimismo do poema anterior:
Se
também vingam lindas açucenas,
Mimosas,
alvejantes,
Nas
dobras dos valados – ermas, frias,
Dardeje
embora o sol nas serranias
Seus
raios coruscantes;
Se
também a rolinha trespassada
D’ervada,
negra seta,
Acha
às vezes um bálsamo selvagem,
E
vai gemer ainda à fresca margem
Da
lagoa dileta;
Por
que descrês de teu porvir risonho,
Poetisa
de Deus?!...
Se
o fanal do viver empalidece,
Se
às vezes sem alento ele falece
Envolto
em negros véus;
Bem
cedo raia do prazer a aurora
E
a trêmula folhagem
Das
flores do viver, rebrilha em cores;
E
ostenta mil dourados resplendores
Sem
medo da voragem!
Avante!
Quando as rosas do meu peito
Fenecerem
no outono,
Ser-ter-á
um célio – a palma do martírio!
E
o sol da glória – o prefulgente círio
Que
velará teu sono!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 69-70.
Ezequiel
Freire demonstra grande virtuosismo técnico em “Consolação”, ao manter a mesma
estrutura formal de “Agonia”, chegando ao requinte de preservar também as
últimas palavras de cada verso, mas subvertendo completamente o sentido do
poema original. Enquanto “Agonia” expressa o pessimismo de quem se considera
próximo à morte, e sem o consolo da permanência póstuma de suas produções
poéticas (referidas no texto por meio da imagem “rosas de meu peito”), em
“Consolação” Ezequiel Freire tenta mostrar que a “poetisa de Deus” pode encontrar
alento nas mesmas referências naturais que ela apresentou como negativas. O
poeta as ressignifica, mostrando que a aurora pode trazer o prazer das cores e
da vivacidade, e que o “porvir risonho” pode reservar gratas surpresas. Até a
morte é investida de caráter positivo, pois é encarada como a coroação última
de uma vida dedicada à arte, com o “sol da glória” velando o sono eterno da
poeta.
Essa
inversão de sentido não apenas demonstra a habilidade técnica de Freire, mas
também revela uma visão de mundo distinta daquela apresentada por Narcisa
Amália. Enquanto a poeta se entrega à melancolia e ao desespero, Freire busca
encontrar beleza e esperança na vida e na arte.
Poesia social
Por
mais que o plano da subjetividade e dos sentimentos pessoais sejam temas
centrais no Romantismo, os poetas não esgotaram sua inspiração apenas chorando
suas dores pessoais. O movimento se engajou em diversas lutas sociais da época.
O avanço dos ideais liberais inflamava a participação política dos jovens, que
faziam da poesia o veículo de suas demandas pela representação popular por meio
do voto, contra o fim de todas as tiranias e pela abolição da escravidão, tema
que foi aos poucos ganhando mais relevância.
Narcisa
Amália também participou desse debate, embora os poemas com temática social
sejam menos numerosos em Nebulosas. Em
“Invocação”, a poeta se posiciona em relação a um país cheio de belezas
naturais, mas incapaz de fornecer mitos dignos de serem cantados em poesia:
Mas,
ó pátria, são frágeis as asas!
E
se aos bardos mil vezes abrasas
Não
me ofertas um mirto sequer!...
Quando
intento librar-me no espaço,
As
rajadas em tétrico abraço
Me
arremessam a frase – mulher!...
Seja
embora! Se em leves arpejos
Vem
a brisa cercar-te de beijos
E
dormir sobre tuas campinas,
Dá-me
um trilo dos plúmeos cantores!
Dá-me
um só dos ardentes fulgores
De
teu cálido céu sem neblinas!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024, p. 84.
Trata-se
do texto em que ela tematiza de maneira mais explícita a condição social da
mulher. Aqui a poeta demonstra como a inspiração artística é sufocada pela
sociedade machista da época. O simples fato de ser mulher impede a plena expressão
poética. Ainda assim, ela se mantém firme no propósito de celebrar a pátria.
O
poema “25 de março” trata da história política nacional. A data alude à
primeira Constituição brasileira, outorgada por dom Pedro I no dia 25 de março
de 1824. Em nota de rodapé, a própria poeta explica que as duas primeiras
estrofes do poema fazem menção “ao projeto de Constituição elaborado pelos
membros da Constituinte de 1823, no qual todos os grandes princípios da
liberdade eram solenemente reconhecidos”. Chama atenção a afirmação de Narcisa Amália,
visto que esse projeto, ignorado por dom Pedro I na primeira Carta Magna, não
aborda a abolição da escravidão – e, portanto, não se inclina “aos grandes
princípios da liberdade”. A poeta se revolta contra a postura autoritária do
imperador em outorgar outra Constituição, ignorando o Parlamento, e sem o
devido processo constituinte. O imperador é alvo da franca revolta da poeta:
Mas
tu projetas o negror no espaço
Que
sobre nós desata-se em sudário!
Mas
teu hálito extingue a luz benéfica
Que
acendera o Senhor!
Maldição!
Maldição! A liberdade
Vê
de lodo o seu manto salpicado...
Do
vulcão popular a ígnea lava
Desmaia
sem calor...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 100.
A Assembleia Constituinte, composta pelos representantes de diversas províncias, foi dissolvida por dom Pedro I, que visava preservar seus interesses absolutistas. O poema se insurge contra essa situação, denunciando a atitude do imperador como um ato de injustificável tirania:
Onde
estavam, ó pátria, os teus Andradas
Que
sustinham-te aos ombros gigantescos?
Onde
o tríplice brado altipotente
Do
peito popular?
–
Gemem sem luz em cárceres medonhos,
–
Seguem do exílio a pavorosa senda
Rorando
com seu pranto piedoso
De
teu solo o altar!
Rasgai,
rasgai a folha lutulenta,
–
Emblema de mesquinho cativeiro;
Não
vedes? Choram hoje em tuas campas
Os
manes dos heróis!...
Salvai
a honra dos que em lar estranho
Por
ti verteram lágrimas de sangue,
E
resgatando a fé despedaçada,
Vingai
nossos avós!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 102-103.
A
invectiva parece se voltar contra a Constituição de 1824, outorgada por dom
Pedro I e chamada de “folha lutulenta”, ou seja, imunda e lodosa. Com isso, a
poeta demonstra um posicionamento radicalmente crítico em relação ao contexto
político de seu próprio tempo – por volta do início da década de 1870.
Considerar a Constituição do Império como um documento imundo é mostrar
claramente o desejo de superação dessa condição política: Narcisa Amália deixa
claro aqui seu republicanismo.
Por
mais que dom Pedro I seja uma entidade malévola no poema “25 de março”, a
Proclamação da Independência é celebrada no poema “Sete de setembro”, sem exaltar,
contudo, a figura do imperador. O que se louva é a liberdade, fenômeno
comparado a um evento de dimensões cósmicas, capaz de abalar as órbitas dos planetas
e provocar movimentos tectônicos:
E
os mundos agitaram-se nos eixos;
E
o mar convulso arremessou aos ares
Cristais
em turbilhões;
E
a humanidade inteira ouviu tremendo
O
brado heroico que rasgara o peito
Do
gênio das soidões!
Após
insano esforço, ergue-se ingente
Calcando
aos pés a algema espedaçada
Da
luta no estertor,
E
o Amazonas foi dizer aos mares,
E
os Andes se elevaram murmurando:
“Eis-nos
livres, Senhor!”
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 127.
Esse
anseio por transformações profundas se manifesta na exaltação liberal das
revoluções. No poema “Pesadelo”, a poeta enumera uma série de conquistas
históricas alcançadas pela força transformadora do povo. Os exemplos começam na
Grécia antiga, passando por Roma, Suíça, Inglaterra, Itália, Polônia e Estados
Unidos, culminando triunfalmente na Revolução Francesa, que é cantada na segunda
parte do poema:
Salve!
Oh! salve Oitenta-e-nove
Que
os obstáculos remove!
Em
que o heroísmo envolve
O
horror da maldição!
Rolam
frontes laureadas
Tombam
testas coroadas
Pelo
povo condenadas
Ao
grito – revolução!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 142.
O
poema exalta a radical transformação que derruba antigos privilégios, colocando
em destaque o elemento que, a partir de então, deveria protagonizar os
processos históricos: o povo.
No
pedestal da igualdade
Firma
o povo a liberdade,
Um
canto à fraternidade
Entoa
a voz da nação,
Que
em delírio violento
Fita
altiva o firmamento
E
adora por um momento
A
deusa – Revolução!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 143.
O
poema incorpora o lema da Revolução Francesa – “Igualdade, Liberdade e
Fraternidade” – para exaltar a chegada de uma nova era, na qual a voz dos
oprimidos deveria se fazer ouvir: “Não sabem que é mais veemente / dos livres o
grito ingente / Quando reboa fremente / À luz da revolução!”. Depois desse
verdadeiro passeio pela história, a poeta volta-se para a trajetória brasileira
da luta pela liberdade. Ela destaca a Inconfidência Mineira, exaltando a figura
de Tiradentes como herói, ao lado dos demais inconfidentes que lutaram para
desprender os pulsos da pátria da opressão colonial.
O
mesmo tom laudatório se verifica na menção às lutas liberais do século XIX,
principalmente a Revolução Pernambucana de 1817 (e seu líder Padre Roma) e a
Insurreição Praieira de 1848, ocorrida também em Pernambuco, liderada por Nunes
Machado, a quem a poeta chama de “grande herói”. Narcisa Amália também lamenta
o destino de Pedro Ivo, que injustamente acabou “afinal sem glória e nome / em
martírio latente”. Essas homenagens, no entanto, não escondem as críticas da
poeta à situação política de sua própria época. Apostrofando a própria pátria,
ela afirma:
Mas
se um dia o porvir abrir-te o livro
Que
o presente te oculta temeroso;
Se
com a vista medires a estacada
Em
que o falso poder se ostenta umbroso;
Então,
ó minha pátria, num lampejo
Os
erros surgirão da majestade;
E
arrojarás ao pó cetros e tronos
Bradando
ao mundo inteiro – liberdade!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 147.
Narcisa
Amália expressa sua convicção de que o futuro julgará com justiça o período de
opressão em que ela vivia: chega a chamar a monarquia de “falso poder”. Só
mesmo o futuro para aquilatar em toda profundidade os “erros da majestade”. O
poema culmina em uma invocação republicana radical, um chamado à destruição dos
símbolos monárquicos (cetros e tronos) para que a República se concretize e o
povo participe efetivamente do poder.
Dois poemas
antiescravistas
O
liberalismo da poeta se manifesta também no antiescravismo. Em “Miragem”, ela
evoca diversas imagens naturais que evidenciam a força de expansão promovida
pela liberdade: “Oh! Tudo, tudo se expande / Às auras da liberdade!”. Porém o
sol, que a tudo anima, encontra no Brasil pulsos esmagados com os ferros da
escravidão: “’Levanta-te, ó povo bravo, / Quebra as algemas de escravo / Que aviltam-te
o coração’?!... ”.
Meu
Deus, quando há de esta raça,
Que
genuflexa rebrama,
Erguer-se
de pé, ungida,
Das
crenças livres na chama?
Quando
há de o tufão bendito
Trazer,
das turbas ao grito,
O
verbo de Mirabeau?
E
a luz da moderna idade
Ao
crânio da mocidade
O
sonho de Vergniaud?!...
Oh!
dá que em breve eu contemple
Aos
puros raios da glória
O
feito altivo gravado
Nos
fastos da pátria história!
Dá
que deste sono amargo
Deste
pélago em letargo
Que
nos envolve no pó,
Surja
a vaga triunfante
Que
anime no túmulo ovante
As
cinzas de Badaró!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 117-118.
A
poeta confia que os ideais liberais ainda poderão livrar os africanos das
algemas que pesavam sobre seus pulsos. Ela confia no poder do povo, das turbas,
que, conscientizadas por meio de oradores como Mirabeau e Vergniaud (agitadores
da Revolução Francesa), assumiriam o rumo da história libertando a população escravizada.
O compromisso liberal se manifesta na referência final a Badaró, jornalista
assassinado em 1830, símbolo da defesa do liberalismo em São Paulo e no Brasil.
No
tocante poema “O africano e o poeta”, Narcisa Amália mostra todo o poder de
empatia que o artista oitocentista podia alimentar em relação aos escravizados.
Cada uma das sete estrofes do poema termina com uma pergunta retórica que
questiona quem se sensibilizaria com as arbitrariedades impostas ao povo negro.
A resposta é sempre a mesma: o poeta!
No
canto tristonho
Do
pobre cativo
Que
elevo furtivo,
Da
lua ao clarão;
Na
lágrima ardente
Que
escalda-me o rosto,
De
imenso desgosto
Silente
expressão;
Quem
pensa? – o poeta
Que
os carmes sentidos
Concerta
aos gemidos
De
seu coração.
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 177.
Assim,
na sociedade da época, o único ser que se condói da situação de opressão sobre
os escravizados é o poeta – cujos poemas sentidos são a expressão da dor
empática que ele também carrega em seu peito. O texto termina de maneira
pessimista ao mostrar que, naquele contexto, não restaria nada além do túmulo para
refrigério dos horrores vivenciados pela população negra:
–
Meu Deus! ao precito
Sem
crenças na vida,
Sem
pátria querida,
Só
resta tombar!
Mas...
quem uma prece
Na
campa do escravo
Que
outrora foi bravo
Triste
há de rezar?!...
–
Quem há-de...? O poeta
Que
a lousa obscura,
Com
lágrima pura
Vai
sempre orvalhar!?
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 180.
Diante
da impossibilidade de uma mudança concreta, restava apenas ao poeta chorar
sobre o túmulo do escravizado.
Estilo
O
estilo de Narcisa Amália é marcado pelo sentimentalismo e exagero típicos da
expressão romântica. Para demarcar a força de seus ideais e de seus estados de
alma, a poeta frequentemente utiliza apóstrofes – vocativos grandiosos
dirigidos a elementos da natureza, personagens históricos, seres ausentes ou
mesmo a Deus:
Meu
Deus! Por que embalar-me o quedo pensamento
Se
o amor é passageiro, se as glórias são de pó?!
Poetisa
– toma a lira à lufas da descrença,
E
a ti me volvo só.
Bondoso
abre-me os braços, reúne-se a teus anjos,
A
eternal ventura palpitante;
Contemplarei
o – nada – do seio das estrelas,
Das
dores triunfante!
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 73.
A
poeta se volta de maneira emocionada a Deus, dirigindo-lhe a palavra,
esperançosa por encontrar na morte – e na união com o divino – o triunfo sobre
as dores da existência. Em diversos outros poemas, a poeta se dirige à
natureza, em um impulso de integração a um espaço onde as aflições encontram um
correspondente:
Ó
aura merencória do crepúsculo,
Mais
terna que o carpir de Siloé;
És
tu que embalas minha funda angústia;
És
tu que acendes no meu peito a fé.
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 76.
A
poeta se vale frequentemente da perífrase, figura de linguagem que consiste em
substituir uma palavra ou expressão por uma locução mais extensa e elaborada.
Exemplos disso são: “mártir do calvário”, para Jesus Cristo; “infame lenho”,
para a cruz; “alva pérola”, para lágrima; “rainha dos mares” e “virgem pálida”,
para a lua; “filho altivo das cabrálias cismas”, para Brasil; “plúmeos
cantores”, para pássaros, e assim por diante.
A
idealização é outra marca de estilo muito presente em Nebulosas. Ela consiste em apresentar elementos de tal maneira engrandecidos
que ultrapassam a razoabilidade, aproximando-se de expressões divinas, sem
paralelo com a realidade empírica. Em “O sacerdote”, em que a poeta homenageia
o “Rev.mo vigário Felipe José Correa de Mello”, o trabalho apostólico do padre
chega a ser comparado a Deus, enaltecendo sua figura e suas ações de forma hiperbólica:
Prossegue
sempre nessa trilha augusta;
Para
onde adeja funeral desgraça!
Mas
não te afastes dos festivos grupos,
–
Quebra-se em breve do prazer a taça!
Se
o frio cético a rolar no abismo
Fitar
sombrio os tristes olhos teus,
Verá
rasgar-se do sepulcro as sombras,
Julgar-te-á
Deus!...
AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas.
São Paulo: Landmark, 2024. p. 174.
A
comparação, figura de linguagem em que dois elementos são associados por meio
de um termo comparativo explícito (“como”, “tal qual” etc.), é frequentemente
empregada para aproximar os estados de alma da poeta a traços idealizados da
natureza brasileira. No já citado poema “Agonia”, por exemplo, as produções
artísticas são comparadas a diversos aspectos de uma natureza amargurada: “Como
vergam as lindas açucenas”, “Como a rola das selvas, trespassada”, “Como a
estrela gentil de um céu risonho”, “Como a gota de mel que entorna a aurora”, e
assim sucessivamente. Essa estratégia estilística não apenas intensifica a
carga emocional do poema, mas também insere a experiência individual da poeta
em um contexto mais amplo, conectando-a à própria natureza brasileira.

