Introdução
É
impossível começar a refletir sobre Balada
de amor ao vento sem considerar o caráter pioneiro da obra. Trata-se do
primeiro romance da autora Paulina Chiziane e, mais que isso, do primeiro
romance publicado em Moçambique por uma mulher. Um marco indiscutível para a
história do país e das mulheres, especialmente das mulheres negras.
A
partir dessa constatação, emergem questões fundamentais: O que essas vozes
historicamente silenciadas têm a dizer quando finalmente encontram espaço? Como
se constrói a perspectiva feminina em uma sociedade marcada pelo machismo, como
a moçambicana? Que questões contemporâneas são mais urgentes para as mulheres
nesse contexto? De que forma as questões étnicas e de gênero se entrelaçam na
organização da sociedade moçambicana? Como o processo de colonização reverbera
na vida das pessoas que lá vivem?
Paulina Chiziane –
aspectos da vida e da obra
Paulina
Chiziane nasceu em 1955, em Manjacaze, província de Gaza, no sul de Moçambique.
Descendente de uma família protestante, em que se praticavam as línguas locais
(chope e ronga), só aprendeu português na escola de uma missão católica, o que
proporcionou um interessante cruzamento em sua formação ao misturar as culturas
originais de seu país e aquela introduzida pelo processo de colonização
europeu. Viveu a infância e a adolescência nos subúrbios da cidade de Maputo, e
essa imersão em diferentes universos linguísticos e culturais contribuiu para a
construção de sua perspectiva singular como escritora, mesmo que não tenha concluído
os estudos de Linguística iniciados na Universidade Eduardo Mondlane.
Atuou
como militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) durante a guerra
pela independência do país (1964-1975). Tendo crescido em um ambiente de
insatisfação política em relação à situação de colônia, ouvia relatos de
parentes sobre a ocupação portuguesa e sobre a formação de uma frente armada na
luta pela libertação do país. Desde muito jovem, Paulina participou ativamente
do processo que levou Moçambique à independência em 1975, e essa experiência
marcante certamente influenciou sua escrita, que parte da proposta de resgate
da herança cultural moçambicana, abafada pelos portugueses durante 500 anos de
colonização.
Depois
de contribuir com alguns de seus contos para a imprensa local, sempre baseados
na narrativa oral característica de seu povo, Paulina, em um ato de resistência
contra a opressão feminina e a falta de voz dessa parcela da população,
resolveu lutar pela publicação de seu primeiro livro, em suas próprias palavras,
“Porque sou atrevida!”. Publicada em um contexto de pós-independência e de
conflitos internos, marcado pela luta entre a Frelimo e a Renamo (Resistência
Nacional Moçambicana) pelo poder, a obra não se limita a convidar o leitor moçambicano
a redescobrir aspectos da cultura original; vai além, dando voz às mulheres e
explorando as complexas relações de poder na sociedade moçambicana.
Paulina
traçou uma notável trajetória literária desde sua estreia até a conquista do
reconhecimento público nacional e internacional. Sua habilidade em explorar as
nuances da vida cotidiana moçambicana, sem deixar de lado os processos
culturais e históricos do país, já se manifestava em seus primeiros contos.
Nesses relatos breves, Chiziane abordava com sensibilidade temas como o
casamento forçado, a poligamia e os desafios enfrentados pelas mulheres em uma
sociedade patriarcal. A autora demonstrou uma sensibilidade única ao abordar questões
sociais e culturais, evidenciando sua habilidade em capturar a essência da
experiência humana que, ao mesmo tempo que transcende, não prescinde da
realidade local.
No
entanto, foi nos romances que Chiziane encontrou uma plataforma expansiva para
expressar suas reflexões mais amplas. Desde a publicação de Balada de amor ao vento, ela consolidou
sua reputação como uma voz literária proeminente. A obra inaugurou uma série de
romances em que a autora aborda temáticas marcantes, como a poligamia, em Niketche: uma história de poligamia
(2002), pelo qual ela ganhou o prêmio José Craveirinha, da Associação dos Escritores
Moçambicanos; e a busca pela identidade e reconstrução da história de
Moçambique após a independência, em O
alegre canto da perdiz (2008), ampliando significativamente sua
participação e influência na literatura africana contemporânea.
Depois
de sua obra começar a ser traduzida, Paulina tornou-se internacionalmente
conhecida, e a consagração máxima veio em 2021, quando foi laureada com o
Prêmio Camões, o reconhecimento mais prestigioso no universo literário de
língua portuguesa. Esse feito não apenas coroou sua excelência literária, mas
revelou uma evolução artística que transcendeu fronteiras e enriqueceu o panorama
literário global.
O prêmio Camões
O
prêmio Camões foi criado em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil com a
intenção de estreitar os laços culturais entre países falantes de português e
enriquecer o patrimônio literário e cultural comum à lusofonia. Desde então,
ele é entregue anualmente a um autor de língua portuguesa que, pelo conjunto de
sua obra, tenha contribuído para o desenvolvimento desse patrimônio. O valor de
100.000 euros, concedido juntamente com o prêmio, é um dos mais elevados entre
premiações literárias pelo mundo. Alguns brasileiros que já receberam a
honraria são João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel de Queiroz (1993), Jorge
Amado (1994), Antonio Candido (1998), Lygia Fagundes Telles (2005), João Ubaldo
Ribeiro (2008), Ferreira Gullar (2010), Chico Buarque (2019) e Adélia Prado (2024),
entre outros.
Paulina
Chiziane ganhou o Prêmio Camões em 2021. A notícia de que havia sido escolhida
vencedora chegou quando ela praticamente já tinha se esquecido de que aquela
honraria existia. Surpreendida por um jornalista descalça e ao pé do fogo em
sua casa, em Maputo, a autora falou da alegria de alcançar aquele tipo de
reconhecimento para as histórias de seu povo. Paulina costuma reiterar em
entrevistas o quanto a voz que narra seus livros – mesmo aqueles escritos em primeira
pessoa – não é uma manifestação individual, mas o retrato de uma voz coletiva
que busca representar outras mulheres que viveram histórias semelhantes em
contato com a violência e a opressão presentes em Moçambique.
No
discurso que proferiu ao receber o prêmio das mãos do primeiro-ministro
português, em 2023, a contadora de histórias – como prefere ser chamada –
defendeu a descolonização da língua portuguesa, para que esta se torne, de
fato, uma língua de todos.
Atualmente,
o reconhecimento de Paulina Chiziane ultrapassou as fronteiras do Prêmio
Camões. Em 2023, ela foi incluída na lista da BBC entre as cem mulheres mais
influentes e inspiradoras de todo o mundo, ao lado de outras doze mulheres
africanas.
Moçambique:
contexto político-social
A
colonização portuguesa em Moçambique teve início com a chegada da frota de
Vasco da Gama ao litoral moçambicano, em 1498, durante sua primeira viagem à
Índia. Os portugueses estabeleceram uma série de feitorias e postos comerciais
ao longo da costa, com o objetivo de controlar o comércio de ouro, marfim e
escravizados. No início, a presença portuguesa foi limitada ao litoral, com
pouca interferência no interior, onde diversas comunidades africanas viviam sob
o comando de lideranças locais, como régulos e ndunas.
Durante
séculos, os portugueses mantiveram uma relação de colaboração e subordinação
com essas lideranças tradicionais, em que muitas vezes cooptaram régulos locais
para garantir o controle sobre o território. No entanto, com o avanço do
colonialismo europeu no século XIX e a disputa entre potências coloniais,
Portugal intensificou seu domínio sobre Moçambique. Em 1885, com o impulso da
Conferência de Berlim, que dividiu a África entre as potências europeias, os
portugueses deram início à ocupação militar de regiões estratégicas do país,
consolidando sua presença no interior e impondo uma administração direta.
A
resistência moçambicana foi constante, mas reprimida ao longo dos anos. Somente
em 1964, com a fundação da Frelimo, a luta pela independência se organizou de
forma mais intensa. Liderada por figuras como Eduardo Mondlane e,
posteriormente, Samora Machel, a Frelimo lutou contra o domínio português em
uma guerra de guerrilha que durou até 1974, quando a Revolução dos Cravos em
Portugal derrubou o regime ditatorial e abriu caminho para a independência de
suas colônias. Em 25 de junho de 1975, Moçambique tornou-se independente, tendo
Samora Machel como seu primeiro presidente.
Após
a independência, Moçambique entrou em uma guerra civil entre o governo da
Frelimo e a Renamo, um movimento de oposição apoiado inicialmente pela Rodésia
e depois pela África do Sul pró-apartheid.
O conflito devastou o país por mais de uma década, até a assinatura do Acordo
Geral de Paz em 1992.
Em
1986, Samora Machel morreu em um acidente aéreo suspeito na África do Sul, em
circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, alimentando especulações de
envolvimento do regime do apartheid.
A morte de Machel trouxe incerteza ao país, e seu sucessor, Joaquim Chissano,
trabalhou para estabilizar a situação política e negociar o fim da guerra
civil. Embora o acordo de paz tenha sido um marco importante, o país enfrentou
grandes desafios para reconstruir a economia e a sociedade após tantos anos de
conflito e destruição. A transição para a paz foi difícil, mas Moçambique conseguiu
gradualmente se consolidar como uma república em processo de democratização,
apesar de ainda enfrentar desigualdades e tensões políticas.
Aproximadamente
cinquenta anos depois da independência, Moçambique ainda é um país marcado pela
pobreza, pela baixa expectativa de vida e pela alta taxa de natalidade. Um
lugar com índices alarmantes de analfabetismo e de disseminação de doenças fatais,
mas que preserva uma rica diversidade cultural, expressa em suas línguas
nativas (como chope, ronga e macua), tradições ancestrais e manifestações
artísticas, como a dança e a música. Com a economia baseada no setor primário,
o país é pouco desenvolvido e pouco industrializado, o que ocasiona um baixo
índice de desenvolvimento humano e um elevado índice de desigualdade social.
Segundo
dados do Afrobarometer1 (2020), grande parte da população moçambicana demonstra
descrença na melhora das condições de vida sob a atual administração da
Frelimo, que permanece no poder desde 1975. O partido liderou o país sob os
governos de Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi, com eleições presidenciais
ocorrendo regularmente em 2004, 2009, 2014 e 2019. Apesar de ter consolidado o
poder por meio dessas eleições, a Frelimo enfrenta críticas recorrentes da
população e de organizações da sociedade civil, incluindo acusações de
corrupção, má gestão dos recursos naturais (especialmente gás e carvão) e
disparidade crescente entre as classes sociais. As eleições, em várias
ocasiões, geraram disputas acirradas com a oposição, sobretudo a Renamo, que questiona
a transparência dos processos eleitorais.
A
Frelimo de hoje contrasta fortemente com o período liderado por Samora Machel
nos anos pós-independência. Enquanto Machel – presidente até sua morte, em 1986
– liderou com uma visão socialista e revolucionária, focada na centralização do
poder e na construção de um estado marxista, atualmente o partido adota
políticas mais abertas ao capitalismo e ao mercado global. No entanto,
acadêmicos como Michel Cahen e David Robinson, em seus estudos sobre a política
moçambicana, apontam que o partido se distanciou das promessas de justiça
social e igualdade que marcaram sua fundação, com uma elite ligada ao poder
político e econômico se beneficiando dos recursos do país, enquanto a maioria
da população ainda enfrenta a pobreza.
Os
indicadores socioeconômicos de Moçambique refletem os desafios enfrentados pelo
país. A taxa média de analfabetismo entre a população adulta é de 53,6%, sendo
mais elevada nas zonas rurais (65,7%) do que nas urbanas (30,3%) e mais
presente entre mulheres (68%) do que entre homens (36,7%). Segundo o atlas
mundial de dados sobre Moçambique, a expectativa de vida é de apenas 61 anos. A
faixa etária média do total da população é de aproximadamente 17 anos (2020), o
que indica uma população jovem, que necessita de investimentos em educação e
saúde para alcançar pleno potencial.
Língua e
religiosidade – da colonização à independência de Moçambique
A
língua e a religiosidade são dois aspectos centrais da cultura de um povo,
capazes de definir a identidade de um país e o comportamento de uma população
inteira. Quando Vasco da Gama chegou a Moçambique em 1498, as populações
nativas falavam várias línguas bantu, pertencentes ao amplo grupo linguístico
africano. Entre essas línguas estavam changana, ronga, macua, sena e chuwabo.
As línguas bantu eram amplamente faladas em todas as regiões do território,
cada uma com suas variações e dialetos, refletindo a diversidade étnica e cultural
das várias comunidades moçambicanas.
Com
a chegada dos portugueses e o início do processo de colonização, como em
qualquer processo de dominação de um povo sobre o outro, a língua portuguesa
foi introduzida como língua administrativa, de educação e de comércio,
principalmente nas áreas urbanas e litorâneas. No entanto, sua adoção inicial
foi limitada, já que a maior parte da população rural continuava falando as
línguas locais. Com o passar do tempo, o português foi se tornando gradualmente
a língua oficial, mas o acesso à educação formal em português foi restrito a
uma pequena elite, enquanto a maioria dos moçambicanos mantinha suas línguas
maternas.
Após
a independência, em 1975, o governo da Frelimo declarou o português como a
língua oficial do país, visando unir uma nação profundamente diversa sob uma
única identidade linguística. No entanto, as línguas bantu continuaram a ser
amplamente faladas, especialmente nas áreas rurais, onde o português muitas
vezes era uma segunda ou terceira língua. O bilinguismo e até o multilinguismo tornaram-se
características comuns na população, com muitos moçambicanos falando suas línguas
locais em casa e o português no trabalho ou em situações formais.
Atualmente,
mesmo sendo a língua oficial de Moçambique, falada por cerca de 50% da
população, o português convive com a realidade do multilinguismo, com as
línguas bantu ainda sendo usadas nas comunidades locais. A alfabetização e o
acesso à educação em português aumentaram, mas o país ainda lida com desafios
de inclusão linguística, já que grande parte da população rural tem o português
como segunda língua, o que pode dificultar o acesso a serviços e oportunidades.
As línguas bantu permanecem como símbolos de identidade cultural e continuam
sendo transmitidas entre gerações, coexistindo com o português. Nos últimos
anos, têm surgido projetos inovadores – e, talvez por isso, extremamente
polêmicos – para o ensino das línguas locais nas escolas, como o Programa de
Ensino Bilíngue, implementado em algumas províncias. Esses projetos visam valorizar
o patrimônio linguístico e cultural de Moçambique, mas enfrentam resistência de
quem defende a primazia do português como língua de unificação nacional e de
acesso ao conhecimento científico e tecnológico.
No
que concerne à religiosidade, o processo foi muito semelhante. À época da
chegada de Vasco da Gama, grande parte da população nativa praticava religiões
tradicionais africanas, baseadas no culto aos ancestrais e em crenças ligadas à
natureza e aos espíritos. Essas religiões, marcadas pela oralidade, variavam
entre as diferentes etnias e regiões de Moçambique. Com a colonização portuguesa,
o catolicismo foi introduzido e amplamente promovido por missionários,
tornando-se uma força significativa nas áreas urbanas e litorâneas, enquanto as
tradições religiosas locais permaneceram fortes nas zonas rurais.
Ao
longo dos séculos, especialmente durante o período colonial, houve uma mistura
entre as religiões tradicionais e o cristianismo, dando origem a práticas
sincréticas que incorporavam elementos de ambas as tradições. Um exemplo disso
é o culto a Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Moçambique, que muitas
vezes é associada à figura da deusa da fertilidade nas crenças tradicionais.
Após
a independência, o governo da Frelimo adotou uma postura inicial de secularismo
e marxismo, desencorajando publicamente as práticas religiosas. No entanto, com
o passar dos anos, a liberdade religiosa foi restabelecida e, no início da
década de 2020, 57% dos moçambicanos se declaravam cristãos (sendo a maioria
católicos), 18% muçulmanos (concentrados principalmente no norte do país) e uma
parcela significativa ainda seguia as religiões tradicionais ou uma combinação
de práticas sincréticas, criando uma rica diversidade espiritual.
Balada de amor ao
vento
Contexto de
publicação
Trinta
anos depois da primeira edição de Balada
de amor ao vento, Paulina Chiziane é amplamente conhecida em terras moçambicanas.
Pelas ruas de Maputo, funcionários do aeroporto, motoristas de táxi,
recepcionistas de hotel, atendentes de supermercados, a maioria das pessoas
conhece a autora que introduziu temas para lá de incômodos à sociedade de
Moçambique. Há quem a considere “uma maluca” por, de alguma forma, defender a
prática da poligamia – comportamento que a autora não estimula em suas obras, mas
que gera imensa curiosidade entre seus leitores ao redor do mundo. Outros, sem
hesitação, a chamam de “a nossa mãe”, por sentirem que parte importante de sua
cultura foi apresentada ao mundo ocidental pelas mãos dessa senhora que foi
capaz de questionar o papel da mulher negra em uma sociedade patriarcal e machista,
cujas práticas culturais originais e línguas locais foram deturpadas e até
proibidas durante o longo e belicoso período da colonização portuguesa.
Paulina
conta, em entrevistas, que tinha outro romance escrito à época em que começou a
buscar a publicação de seu livro. Foi informada, no entanto, de que seu texto
era longo demais para os padrões das edições moçambicanas e que o original
final deveria ter, no máximo, 100 páginas. Decidida a publicar suas obras, em um
país de tradição literária incipiente, Paulina voltou para casa e começou a
escrever Balada de amor ao vento, dentro do limite de páginas exigido. Vale
lembrar que, embora Ualalapi (1987),
de Ungulani Ba Ka Khosa, seja considerado o primeiro romance moçambicano
publicado após a independência, Balada de
amor ao vento (1990) tem o mérito de ser o primeiro romance publicado por
uma mulher no país.
A
obra foi lançada pela Ndjira, uma editora local que apostava na promoção de
vozes literárias emergentes. A tiragem inicial foi modesta, com cerca de 1 000 exemplares.
Como Moçambique ainda estava devastado pela guerra civil, que só terminaria em
1992, a repercussão foi gradual, já que a sociedade moçambicana vivia tempos de
violência e instabilidade, mas logo o livro começou a ganhar destaque, não
apenas pelo talento literário de Chiziane, mas também por abordar questões
sociais e de gênero importantes e necessárias. Somente mais de uma década
depois a obra foi publicada fora de Moçambique, ganhando reconhecimento
internacional e consolidando Paulina Chiziane como uma das vozes mais importantes
da literatura africana lusófona. O atraso na internacionalização do livro reflete
as dificuldades de divulgação cultural em um país marcado pela pobreza e pelo
isolamento político e econômico, mas também ressalta o impacto duradouro de sua
narrativa.
Síntese do enredo
Capítulo 1
Sarnau,
uma senhora moçambicana já avançada em idade, pressentindo a proximidade da
morte, decide compartilhar algumas de suas vivências e recordações mais
marcantes. Mãe de uma filha adulta, ela reside no bairro de Mafalala, em
Maputo, distante de sua terra natal. Com nostalgia, relembra sua juventude em
Mambone, descrevendo poeticamente o lugar onde descobriu o amor e a vida: os
canaviais verdejantes balançando ao vento, os campos coloridos, as mangueiras,
os cajueiros e os imensos palmares. Sarnau expressa o desejo de retornar aos
matagais de sua infância, de subir em árvores centenárias e de saborear frutas
silvestres, revivendo a liberdade e o frescor da planície verde.
Foi
em Mambone que Sarnau deixou-se levar por “uma espécie de feitiço, mistério,
loucura…” (p. 10) e, mesmo duvidando da relevância daquilo que conta, por saber
que existem muitas mulheres que passaram pela mesma situação que está prestes a
narrar, sente-se perseguida por seu passado e prestes a explodir como um
vulcão.
Acontecia
uma festa na aldeia em que Sarnau vivia. Era o momento da “festa de circuncisão
dos meninos já tornados homens” (p. 11) e havia visitantes de regiões remotas,
o que tornava aquele momento muito propício para encontros e namoros. Enquanto Sarnau
assistia maravilhada ao desfile de rapazes saudados por flores, dinheiro e
grãos de milho, percebeu a presença de um menino que não conhecia e que chamou
sua atenção: Mwando. Ao pesquisar sobre o moço, Sarnau ouve uma conversa entre
homens (prática proibida às mulheres naquela sociedade) em que comentam o comportamento
distinto de Mwando nas provas mais difíceis do colégio. Sarnau fica encantada
com Mwando, e sua imagem a maravilha.
Era
intenção declarada de todas as moças, inclusive Sarnau, aproveitar a festa para
conseguir um namorado. Sarnau, bonita em sua roupa nova, sentia-se pronta para
ser “pescada”. Sarnau passa a acreditar que Mwando pode ser o namorado que
procura, até que Eni a avisa de que o moço está se preparando para ser padre.
Em meio à frustração, Sarnau é ridicularizada por um bando de “marotos”: “A
Sarnau é pau de carapau. Nem curva no peito, nem curva no rabo, é estaca de
eucalipto, mulher é que não, wâ, wâ, wâ!”. Zanga-se, mas logo todos se afastam
e ela pode continuar a elaborar planos para abordar o homem que elegeu como
seu. Estava realmente interessada nele. Na primeira aproximação, o moço apenas
respondeu distraidamente às perguntas de Sarnau, o que a fez voltar para casa
entristecida.
Sarnau
não conseguiu tirar a imagem de Mwando da cabeça e admirava seu olhar, sua voz
e seu rosto sisudo. Passou a ir à igreja apenas na tentativa de vê-lo. Certo
domingo, vestiu-se caprichosamente e sentou-se à frente para que ele a visse
bem, pois “estava bonitinha só para ele” (p. 15). Decidida, Sarnau conseguiu
arrastar Mwando para um passeio às margens do rio Save. Ele passou a falar sobre
seus planos no sacerdócio, e Sarnau, transtornada, começou a se sentir mal.
Amparada por Mwando, encostou-se nele e se declarou apaixonada por um rapaz que
não a queria. Sem entender que se tratava dele, Mwando disse ser impossível
alguém não gostar dela, uma vez que ele mesmo a considerava maravilhosa, em
suas próprias palavras: “a única pessoa na aldeia que me trata com respeito.
Todas as moças desprezam-me por viver no colégio. Eu gosto de ti, Sarnau” (p.
16).
Mwando
teme a reação do padre ao descobrir seu envolvimento com Sarnau, mas ela o
tranquiliza, afirmando que manterão o relacionamento em segredo. Em um momento
de íntima conexão, os dois se abraçam e se entregam à paixão que nasce entre
eles. A natureza ao redor parece celebrar o amor de Sarnau e Mwando, criando
uma atmosfera de encanto e felicidade.
Capítulo 2
É
a época do florescimento do amor. A natureza exibe sua beleza e espalha uma
mensagem de paz, enquanto todos os seres “estão a operar maravilhas” (p. 17).
Mwando, desconhecendo o amor até então, sente-se completamente transformado.
Seu comportamento muda, e ele passa a ser alvo de brincadeiras dos
companheiros.
Os
colegas de Mwando não param de incomodá-lo com gozações e, percebendo a causa
de sua transformação, passam a chantageá-lo, prometendo revelar seu segredo à
autoridade do colégio caso ele reagisse às provocações. Mwando, perturbado com
a situação e com a paixão por Sarnau, que abala sua devoção ao sacerdócio,
isola-se em seu quarto. Em meio a lágrimas e questionamentos, reza pedindo
perdão a Jesus Cristo.
Sua
perturbação ganha ares de angústia e ele passa a ficar a maior parte do tempo
fechado no refúgio de seu quarto. Enquanto chorava, questionava a si mesmo: “eu
quero ser padre, usar batina branca, cristianizar, batizar, mas ela arrasta-me
para o abismo, para as trevas, ah, como é bom estar ao lado dela. Se o padre
descobrir minha paixão, expulsa-me do colégio na frescura do entardecer tal
como Adão no Paraíso” (p. 20). Mwando reza, pedindo perdão e compreensão a uma imagem
de bronze de Jesus Cristo pendurada na parede.
Em
meio aos pensamentos e recordações de Sarnau, Mwando escreve uma declaração de
amor, mesmo sabendo que ela não sabe ler. No pequeno texto, confessa sua paixão
e seu tormento. “Semeaste em mim o perfume das acácias...” (p. 21). O padre descobre
a carta e a lê em voz alta, deixando Mwando humilhado.
Naquela
noite, o padre coloca-se de vigia para se certificar dos mexericos que ouvia
constantemente sobre o comportamento dos alunos. Após flagrar Salomão com a
cozinheira, o padre, em um acesso de raiva, castiga Mwando, que dormia
tranquilamente.
Mwando e Salomão
foram expulsos do colégio, mas a cozinheira nem sequer foi repreendida e toda a
gente sabe por quê.
CHIZIANE,
Paulina. Balada de amor ao vento. São
Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 23.
Expulso
do colégio, Mwando passa a se encontrar com Sarnau todas as tardes. Felizes com
a descoberta do amor, os dois contemplam a natureza e se entregam à paixão.
Mwando coroa Sarnau como “rainha dos prados”, e ela, ansiosa pela chegada da
noite, se entrega a ele.
Mwando deu o primeiro golpe. Os nossos
sangues uniram-se. Neste momento os defuntos que estão no fundo do mar festejam,
porque hoje eu sou mulher.
CHIZIANE,
Paulina. Balada de amor ao vento. São
Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 25.
Após
a consumação do amor, Sarnau pede a Mwando que faça oferendas à sua defunta
protetora, em agradecimento. Mwando, mesmo tendo jurado não acreditar em almas,
promete fazer as oferendas em nome do amor que sente por ela.
Capítulo 3
Sarnau
estranha a distância de Mwando e percebe que ele a evita. Mesmo assim, continua
apaixonada e o mantém vivo em seus pensamentos. Após dois meses sem se verem,
Mwando avisa que vai se mudar para longe, a pedido de seu pai. Sarnau se
surpreende e revela que está grávida. Mwando questiona sua vontade de engravidar,
mas ela confirma que foi uma decisão consciente.
Mwando
conta que vai se casar com uma mulher escolhida por sua família e repreende
Sarnau por ter se deixado levar pela paixão. Ele afirma que não pode se casar
com ela, pois é cristão e não aceita a poligamia. Diante disso, Sarnau se
desespera: “Meu coração ribombava trovoadas, relâmpagos dourados rasgam o céu
do cérebro...” (p. 30).
Mwando
a consola e promete ser um bom pai, mesmo a distância. Sarnau se sente como um
empecilho na vida dele e se despede. Ao retornar para casa, sofre e pensa em
suicídio. Mwando a salva de uma mamba, e ela foge em desespero.
Sarnau
chega em casa exausta e tem um sonho com Mwando. Ao acordar, tenta se afogar em
um lago, mas é salva por um pescador. De volta à palhota, sofre uma crise e
perde o filho que esperava. A curandeira a consola, dizendo que ela se recuperará
e que morrerá em terras distantes.
Capítulo 4
“Sarnau,
minha Sarnau, que destino é o teu...” (p. 37). É o dia do casamento de Sarnau,
e sua família está satisfeita por ela ter sido escolhida por um marido importante,
pertencente ao grupo de governantes da terra, embora saibam que o que a
esperava era uma espécie de escravidão. Sarnau será lobolada, e o preço pago é
muito alto: trinta e seis vacas. Ela acredita que o abandono de Mwando foi uma
bênção e que foi destinada a se tornar esposa do futuro rei.
Havia
outra moça destinada àquele casamento – Khedzi –, mas foi desmascarada e
considerada feiticeira por “línguas de serpente, que puseram a nu todas as suas
maldades” (p. 39). A rainha anunciou que não queria Khedzi em seu lugar quando
chegasse a hora de ser substituída e suas conselheiras foram obrigadas a começar
uma busca por outra mulher que tivesse os atributos necessários para casar-se
com o futuro rei. Todas as famílias do local passaram a almejar que suas filhas
fossem as escolhidas, pagando curandeiros caríssimos para tirar os azares e os
maus-olhados das candidatas.
Depois
de um longo e infrutífero período de buscas pela esposa perfeita, a rainha, já
doente de angústia por não ter conseguido encontrar ninguém que cumprisse os
requisitos necessários, encontra – durante um passeio – Sarnau com o pote de
água na cabeça e, pedindo um pouco de água, é servida por ela com as conchas de
suas mãos. Encantada com a menina, ordena que seus serviços sejam solicitados à
família, e Sarnau passa uma semana encarregada de cuidar das necessidades
básicas da rainha. Após esse período, a soberana reúne as conselheiras e, em
uma grande reunião magna, anuncia ter escolhido Sarnau como nora.
“É
chegado o momento supremo. Os oficiais do rei entram na palhota...” (p. 41).
Sarnau aceita fazer parte da família Zucula e, seguindo a orientação da tia,
destina as vacas recebidas ao pai, à mãe, aos avós e a todos os defuntos. As
vacas ficam na família em substituição à filha que parte e devem ser usadas
para que seja possível aumentar o número de lobolos realizados e receber novas
esposas naquele lar. Com o lobolo realizado, Sarnau recebe da cunhada pulseiras,
colares e novas roupas que deve usar a partir daquele momento.
Haveria
também um casamento cristão, celebrado pelo padre Ferreira uma semana depois.
Sarnau nunca tinha assistido a uma festa tão gloriosa e estava fascinada por
ter uma totalmente dedicada a ela. “Muitos olhos vieram contemplar-me: olhos
sinceros, falsos, invejosos, trocistas, odiosos, e eu retribuí-lhes o meu novo ar:
de arrogância e triunfo” (p. 43).
Nguila,
o marido que Sarnau mal conhecia, era um homem forte e atlético, que o padre
Ferreira tentou cristianizar sem nenhum sucesso, mas que aprendeu ao menos
algumas coisas, como ler uma carta, pois um rei analfabeto não seria respeitado
pela população.
Sarnau
afirma que não é a mulher bela e perfeita que o leitor imagina e pondera que há
belezas muito diferentes no mundo, a depender de quem as observa. Alguns
preferem as mulheres de pele clara, enquanto outros dão mais importância aos
traços harmoniosos e a elegância do caminhar. Há também quem ache bonitas as
mulheres que “transportam enormes abóboras no traseiro” (p. 44).
Capítulo 5
As
festividades do casamento de Sarnau e Nguila continuam, e todos a aconselham a
ser obediente e subserviente ao marido, aceitando suas amantes e escondendo seu
sofrimento: “o homem, Sarnau, não foi feito para uma só mulher” (p. 46).
O
casamento é realizado, e Sarnau marca sua digital no livro enquanto Nguila o
assina. A festa é celebrada com alegria, e Sarnau se sente radiante. Em meio
aos rituais, uma tia de Sarnau lhe entrega um pilão, simbolizando o papel da
mulher no casamento: ser “amassada, triturada” para fazer a felicidade da
família, “como o milho suporta tudo, pois esse é o preço da tua honra” (p. 48).
No
momento da despedida, Sarnau não entende a tristeza de sua mãe, que explica que
nem todas as lágrimas são de tristeza, e que Sarnau está partindo para a “escravidão”
(p. 49). Sarnau é recebida com festa pelos Zucula, mas se sente desamparada. Ao
reconhecer sua irmã Rindau entre as pessoas, sente-se aliviada por ter uma
testemunha de sua desgraça.
Capítulo 6
Sarnau
está casada e feliz com Nguila. Acorda e contempla o marido que dorme ao seu
lado. “Esta vida de soberana dá-me prazeres novos...” (p. 52). A casa em que
vive com Nguila é a mais bonita de Mambone, construída por mais de vinte
homens, com mobília trazida de Lourenço Marques e decorada com peles de
leopardo. Sarnau se orgulha de suas roupas e joias, e sonha em ser rainha.
As
festividades do casamento continuam, com procissões e oferendas de reinos
distantes. Sarnau, que nunca havia pensado em se casar com um rei, agora
ansiava pela morte da sogra para poder usar seus braceletes de ouro. Em um
sonho, Sarnau voa sobre as propriedades da família Zucula e vê o contraste
entre a riqueza da família e a pobreza do povoado. Compara suas quinze sogras a
porcas e se vê como uma delas.
Sarnau
visita a oitava sogra e passa o dia trabalhando para ela. É elogiada, mas não
acredita na sinceridade dela. A sogra lhe conta sobre as dificuldades que
enfrentou como esposa mais jovem e bonita, tendo sido vítima de feitiçaria por
parte das outras esposas. Sarnau se assusta com uma lagartixa que cai em seu
vestido, interpretando como um mau presságio.
Ao
chegar em casa, Sarnau encontra Nguila com outra mulher em sua cama. Tenta
esconder sua tristeza, mas é chamada por Nguila para preparar a água do banho
dos amantes. Nguila a agride fisicamente por ter chorado, e sua rival sorri
vitoriosa. Sarnau percebe que a moça está grávida e lamenta não ter um filho.
A
rainha consola Sarnau, dizendo que dias piores virão e que a única forma de ser
feliz é se resignar. Lembra a Sarnau que ela é a primeira esposa e herdeira dos
braceletes, e que fará as outras “lamberem o chão”. Conta sobre Mayi, a
preferida do rei, uma mulher “libertina” que tem tatuagens “que falam e até
cantam” (p. 61).
Nguila
pergunta se ela está chateada e explica que a agrediu para que não sentisse
ciúmes. Afirma que gosta muito dela e que toda a honra do território pertence a
ela por ser a primeira esposa. Sarnau cede aos carinhos dele, mas chora de
amargura. Nguila reclama da falta de filhos, comparando-a a uma “machamba
difícil” (p. 62). Sarnau relembra a felicidade que sentiu quando pensou estar
grávida e lamenta que a felicidade tenha durado “apenas um sol” (p. 62).
Capítulo 7
Mwando
sofre em uma barraca solitária, sem se conformar por ter sido abandonado por
uma mulher que preferiu um marido mais velho e que já tinha outras quatro esposas
e quinze filhos. Justamente ele, que acreditava ser um homem “jovem e
bem-parecido, inteligente, educado, bom marido, meigo, carinhoso, excelente
amante...” (p. 63). A questão é que o outro homem tinha mais dinheiro que ele. Lembrou-se
do filho que tivera e da dor ao perdê-lo com apenas 2 anos de idade. A mulher
que o abandonara – Sumbi – era considerada tão linda a ponto de fazer os homens
suspirarem embasbacados e renderem a ela todo tipo de homenagem. Mwando lembrava-se
do encantamento provocado nele quando via a mulher trabalhando. “Recordava-se
dela quando pilava, apreciando aquele levanta e baixa frenético ao ritmo das
pancadas... parecia a lua a descer do céu, sorrindo só para ele” (p. 64).
O
casamento com Sumbi fora arranjado pelos pais dela, que viam em Mwando um homem
instruído e de bom caráter, a oportunidade de um futuro melhor para a filha,
apesar de não poderem oferecê-la a um nobre. A família de Mwando, humilde, se
alegrou com a união, mas enfrentou dificuldades para pagar o lobolo de doze vacas,
conseguindo apenas cinco no início. O pai de Mwando, demonstrando determinação
em honrar o compromisso, percorreu a vizinhança pedindo ajuda para conseguir as
vacas faltantes, o que demonstra a importância do casamento dentro da cultura
local.
Mwando
nutria o sonho de construir uma família feliz ao lado de Sumbi, mas seus planos
foram frustrados desde a primeira noite de casados, quando ela se recusou a
consumar o matrimônio, alegando dores de cabeça. Essa atitude de Sumbi, que se
repetiu em relação aos afazeres domésticos, contrariava as expectativas da sociedade
patriarcal em que viviam, gerando tensões e conflitos no relacionamento.
Mwando, cegado pelo amor, buscou contornar a situação fazendo as tarefas que
caberiam à esposa, como cozinhar e lavar roupa. Essa postura, considerada
inadequada para um homem naquela comunidade, lhe rendeu críticas e zombaria,
mas Mwando, em sua ingenuidade, não via mal em auxiliar a amada.
A
relação se deteriorou ainda mais com o tempo, e Sumbi, sentindo-se empoderada
pela devoção do marido, tornou-se autoritária e exigente. “Sumbi não tardou a
tornar-se tirana, e as manifestações carinhosas do marido passaram a
obrigações” (p. 67). As exigências de Sumbi cresceram a ponto de levar Mwando a
esgotar os recursos da família para satisfazê-la. Os presentes e atenções de
seus admiradores alimentavam a vaidade de Sumbi, que passou a ter comportamentos
reprováveis, causando a indignação de Mwando. Diante das repreensões do marido,
ela se fazia de vítima, manipulando-o com lágrimas e chantagens emocionais.
Naquela
sociedade conservadora, a conduta de Mwando era vista como uma afronta à
masculinidade e à ordem social. Os conselheiros da aldeia, guardiões das
tradições, o repreenderam por se deixar dominar pela esposa, considerando seu
comportamento uma fraqueza inadmissível. “Homem que se deixa dominar por uma
mulher não merece a dignidade de ser chamado de homem, e muito menos ser
considerado filho de Mambone” (p. 68). Para eles, a mulher lobolada tinha a
obrigação de servir ao marido e à sua família, e não o contrário. Mwando,
pressionado pelas críticas, tentou impor-se, mas se sentia dividido entre a
razão e a paixão que sentia por Sumbi.
A
pressão da comunidade levou Mwando a ser julgado pelos conselheiros e acusado
de comportamento desonroso e de desrespeitar as tradições. “Os investigadores
do caso eram os mesmos que faziam a corte à Sumbi” (p. 70). A ironia da
situação o revoltou: seus acusadores eram os mesmos que cobiçavam sua esposa e
a incentivavam em sua conduta inadequada. Mwando se defendeu das acusações, mas
se sentiu humilhado e incompreendido. Seu pai, ao defender o filho, foi acusado
de corromper Mwando com ensinamentos estranhos à cultura local, em referência à
educação cristã que lhe dera.
Mwando
e Sumbi decidiram então se isolar da comunidade, mas a mudança não resolveu os
problemas do casal. A morte do filho foi o estopim para a separação: Sumbi o
abandonou, culpando-o pela tragédia e buscando refúgio em um novo casamento com
um homem rico. Mwando ficou sozinho e amargurado, assombrado por pesadelos e
pela lembrança da família que perdeu. Em meio ao sofrimento, ele questiona as
tradições e a influência negativa que exercem sobre as pessoas: “Os males da
terra são causados por velhos... Mulheres! Foi por amor a uma mulher que se
destruíra” (p. 75).
Mas
Mwando não se deixa abater pela dor. Encontra forças na fé e na reflexão, e
renasce para uma nova vida. Volta ao trabalho no campo, buscando reconstruir
seu caminho e superar as feridas do passado.
Capítulo 8
Sarnau
está insatisfeita com a situação de seu casamento. É mãe de gêmeas de 2 anos de
idade e seu marido não se relaciona com ela desde o sétimo mês de gestação. É
uma mulher jovem, cheia de desejos e que também se sente mal alimentada. Ela
questiona como uma mulher jovem pode suportar viver apenas de alimentos básicos
e se pergunta por que as mulheres procuram os homens, se não recebem deles
atenção e afeto.
Muitas
mulheres sucederam Sarnau na vida de seu marido: sete no total. A quinta mulher
é Phati, a quem tem mais atenção de Nguila. Ele deita-se com ela e come de sua
comida. Para Sarnau, Phati acredita que o filho que teve com Nguila será rei,
já que ela, a primeira esposa, só teve filhas mulheres. Mesmo cheia de ouro, usando
todos os braceletes que um dia sonhou, Sarnau se sente só e abandonada.
Lembra-se com muita mágoa da morte do rei e da rainha – pais de Nguila – e dos
tormentos que passaram na época em que o casal morreu.
Em
uma tarde sombria, presságios indicam a morte do rei Zucula: aves voando baixo,
gala-galas em fuga e mambas negras avistadas no caminho. No último conselho da
corte, o rei é surpreendido por uma cobra enorme, que o mata. Os tambores
anunciam a morte para a população, que chora e pede perdão por seus filhos.
Durante
o funeral, as viúvas do rei voltam-se contra Mayi, a esposa preferida,
acusando-a de feitiçaria. Sem o marido e deserdada, Mayi enfrenta um futuro
incerto. A morte do rei gera instabilidade e apreensão, pois “com a morte do rei
vão-se os privilégios... reacendem-se vinganças...” (p. 84). Nguila assume o
trono e presta juramento diante do corpo do pai. Uma tempestade cai sobre o
local, marcando o início de uma nova era.
Diversas
mortes se seguem à morte do rei, incluindo o suicídio do ministro, de uma das
esposas e do chefe do exército. Mayi, humilhada e desesperada, tenta fugir com
parte do tesouro real, mas é devorada por leões. Disputas pelo poder e
feitiçaria causam mais mortes entre os súditos e as viúvas do rei. Sarnau,
apesar de rainha, não encontra felicidade em seu casamento poligâmico e lamenta
a morte da sogra, que lhe servia de consolo.
Em
um dia comum, Sarnau é surpreendida pela visita de Mwando, que a saúda como mãe
do povo Mambone. Mwando, agora um homem abatido e empobrecido, se declara seu servo.
Embora sinta pena de Mwando, Sarnau se vê novamente atraída por ele. Ela o
incentiva a se juntar ao exército, mas ele recusa, buscando apenas descanso
após as desgraças que sofreu. Mwando se despede, deixando Sarnau confusa com a
mistura de sentimentos que a invadem.
Em
um ímpeto, ela corre na direção dele e entra em sua palhota abruptamente.
Sarnau e Mwando revivem a paixão do passado, mas reconhecem que um
relacionamento seria impossível dada a posição de Sarnau como rainha.
Capítulo 9
Sarnau,
que continua infeliz e se sentindo cada vez mais abandonada pelo marido, não
resiste ao amor que ainda sente por Mwando: “[...] suas carícias envolvem-me
como um manto suave, tão suave como a plumagem dos pintos recém-nascidos. Eu
não resisto, estou perdida. Este reencontro é, com certeza, o prenúncio de uma
tragédia, sinto-o” (p. 93). Lembra-se de uma história contada pelos avós sobre a
época de ocupação dos Ngunis, em que,
quando havia falta de alimentos, o povo era obrigado a consumir carne humana
devido ao excesso de cadáveres. A lenda conta que todos os que se alimentaram de
carne humana enlouqueceram e nunca mais deixaram de comê-la. Muitas vezes esses
canibais comiam também suas esposas, seus filhos e seus vizinhos. É assim que
Sarnau se sente depois de reencontrar Mwando. Alguém totalmente incapaz de se
libertar do corpo de seu amante, por mais que ame seu marido e suas filhas.
Sarnau ama Mwando verdadeiramente e sente-se presa pelos braceletes que a impedem
de trilhar o caminho para a felicidade.
Atormentada
pelo conflito, Sarnau tenta se controlar e ouvir sua consciência. Sabe que
Nguila, o rei, não a ama e prefere outra esposa, mas não pode ignorar o status e a honra que possui como rainha.
Tortura-se por ter prometido fidelidade diante dos deuses e dos antepassados, mas
se consola ao pensar que as outras esposas também cometem adultério devido ao
abandono que sofrem. Sarnau se justifica diante da própria consciência,
argumentando que Nguila a ignora e só tem olhos para Phati. Ela expressa seu
amor por Mwando e o desejo de viver esse amor.
Sem
resistir, Sarnau vai procurar Mwando, que passou a evitá-la por saber dos
perigos a que um amante da mulher do rei está exposto, e o encontra na caverna
dos fantasmas. Os dois se amam na escuridão, protegidos pelas paredes da caverna.
Mwando conta suas desgraças, mas Sarnau mente e se vangloria de sua riqueza e
importância no reino, dando a entender que se transformara em uma soberana
libertina que busca satisfazer-se com amantes mais jovens por capricho. Logo a
verdade aparece e, Sarnau, sem conseguir sustentar as mentiras, assume a
carência e tristeza em que vive, declarando seu amor por Mwando e sua vontade
de vivê-lo a qualquer custo.
Capítulo 10
Sarnau
descobre que está grávida de Mwando, com quem continua se encontrando às escondidas.
Desesperada por não poder explicar a gravidez ao marido, que a rejeita há anos,
Sarnau recorre a um feitiço para atrair Nguila de volta à sua cama.
A
beleza e o bem-estar que a paixão por Mwando lhe proporciona fazem com que
Nguila se sinta atraído novamente por Sarnau. Ela, porém, vive o dilema de
carregar em seu ventre o filho da traição, que pode vir a ser o herdeiro do
trono. Sarnau se sente prisioneira de sua posição social e do destino que lhe
foi imposto, mas não deixa de questionar a poligamia e o amor que a levaram a
essa situação.
Nguila
está mais carinhoso com Sarnau a cada dia, enquanto Phati – a esposa preferida
até aquele momento –, louca de ciúmes, tenta enfeitiçar as outras seis esposas.
O rei, satisfeito, também voltou a tratar com deferência e simpatia outras
mulheres das quais também havia se esquecido. Ele cumpria uma escala de forma a
se relacionar com as outras esposas, terminando as noites na cama de Sarnau,
com quem amanhecia todos os dias.
Sarnau
sente-se amada pelo rei, depois de ter amargurado anos de abandono e
desinteresse dele. Perdida, sem compreender exatamente o que sente, está
dividida entre a glória de rainha que tanto desejou ter e o amor que sente por
Mwando. Phati, muito doente, ainda tenta intervir e leva a Sarnau um feitiço
para que ela morresse no parto. Nguila descobre suas intenções em um sonho e a
espanca impiedosamente. Ela toma um veneno que, em vez de matá-la, provoca uma
diarreia que arrebenta toda a sua pele.
Mwando
pede a Sarnau que fuja com ele e ela diz que, no estado em que se encontra, é
impossível. Ele não se conforma em precisar dividir a mulher que ama com o rei
e, mais que isso, em ter que ceder a ele seu próprio filho. Sarnau promete a
ele que fugirão depois do nascimento da criança, quando tudo estiver calmo, e
pede a Mwando que se afaste para que o menino – futuro herdeiro do reino –
possa nascer em sua ausência, diminuindo os riscos de serem descobertos por
todos.
Capítulo 11
O
nascimento do filho de Sarnau e Mwando é cercado de rituais de boas-vindas ao
herdeiro do trono na região. Sarnau teve muito medo de ser descoberta no
momento do parto, sofreu muitas dores e acreditou que sua vida fugiria naquele
momento. Todos atribuíram a dificuldade de nascimento daquela criança a algum
feitiço preparado por Phati, que foi amarrada, espancada até sangrar e ameaçada
com a fúria dos leões caso Sarnau morresse. Ao ouvir as ameaças feitas a Phati,
Sarnau se compadeceu dela, porque tinha certeza de que se morresse, seria por
ser mãe de uma criança que era fruto do adultério, e não pelo feitiço de uma
esposa ciumenta e invejosa.
Eis
que nasce o menino, com a pele mais clara do que o esperado, o que alguns
atribuíram ao fato de Sarnau e Phati nunca terem se dado bem. Por isso, o
menino teria a cor de Phati e não de sua mãe. Olhando para o filho, reconhece
ser muito parecido com ela e com a cor da pele de Mwando, seu verdadeiro pai.
Também vê no menino a virilidade, que acha uma característica de seus dois maridos.
Fica tranquila em saber que todos acreditem que a cor da pele de seu filho é
clara por causa de suas desavenças com Phati.
Na
região de Mambone, conta-se a história de uma mulher grávida cujo marido se
suicidou enforcado em uma mangueira. Após o funeral, a mulher passou dias e
noites muitoangustiada, sentada em frente à árvore até seu ventre romper e dele
sair uma criatura com corpo de gente e cabeça de manga. São muitos os casos de
mulheres que, no lugar de crianças, pariam de seus ventres “cobras, lagartixas,
peixes e até ovos de avestruz” (p. 108); houve até mesmo uma mulher que, depois
de nove meses de gestação, teve uma bacia de barro com um ovo de galinha
dentro. Sarnau reflete sobre esses casos e conclui que, diante de tantos
mistérios e crenças em torno da maternidade, a cor da pele do seu filho não é
motivo para desconfiança.
Enquanto
todos saúdam a chegada do herdeiro do trono de Mambone, Sarnau pensa em Mwando
e em seu direito roubado de comemorar o nascimento do filho. Não sabe onde ele
está. Ela percebe a vigilância de Phati e teme que ela tenha descoberto alguma
coisa sobre ele. O tempo passa e a paz prevalece na família. O pequeno Zucula
se desenvolve rapidamente e é admirado por todos. Mas a felicidade de Sarnau é
incompleta. Nguila voltou a desprezar as esposas. Mwando não se conforma com a
situação e faz planos de fuga que já não interessam a Sarnau. Ela se prepara para,
no dia seguinte, terminar definitivamente com ele.
Capítulo 12
Sarnau
continua se encontrando com Mwando, mesmo sabendo do perigo cada vez maior que
corre. Mwando faz promessas e a convida a fugir com ele, mas Sarnau hesita em
abandonar os filhos. Decidida a romper com o amante, Sarnau é surpreendida por
Phati, que os observava escondida e ameaça revelar o adultério a Nguila.
Em
casa, Nguila está distante e desconfia de que está sendo enganado pela esposa.
Ele avisa que no dia seguinte haverá uma cerimônia e que ela e Phati tomarão
wanga. Transtornado, Nguila se sente “um búfalo ferido de morte” (p. 117) e
jura que matará Sarnau com sua própria lança quando tiver certeza da traição.
Ele também não perdoa Phati, a quem ama acima de todas, por ter lhe contado
tudo e promete tirar a vida dela também. Pede a Sarnau que lhe dê aguardente
para beber e suruma para fumar, a fim de
que
ele possa se esquecer de tudo e morrer. Ele a abraça e chora como ela nunca
vira antes um homem chorar.
Ao
sentir a decepção de Nguila, Sarnau sente-se arrependida de sua relação com
Mwando. Sabendo do que a espera no dia seguinte, Sarnau decide fugir sem os
filhos naquela mesma noite. Vê Phati quando está saindo e a atinge com um ramo
seco. Vai à casa de Mwando e o acorda para que fujam. Mwando pergunta do filho e
Sarnau diz que foram descobertos e que precisou deixá-lo. Os dois entram em um
barco e fogem.
Capítulo 13
Em
uma barraca de caniço, Sarnau pede aos espíritos proteção para Mwando, que está
em alto-mar à procura da subsistência dos dois. Ela se lembra da noite de fuga
que viveram e como o mar estava calmo naquela ocasião. Eles seguiram o curso do
rio até o mar e depois navegaram até Bazaruto. Venderam o barco a um pescador e
chegaram em Vilanculos. Sarnau se lembra de como se sentia e do quanto
amaldiçoava Phati por ter causado aquela situação. Ao mesmo tempo, sabia que
nunca teria tido coragem de fugir com Mwando se não fosse pela emergência.
A
vida em Vilanculos é simples, mas traz uma nova experiência para Sarnau: a
monogamia. Mwando trabalha como pescador e cuida dela com carinho e atenção.
Sarnau, apesar da saudade dos filhos, se alegra com a dedicação do marido e com
a possibilidade de viver um amor pleno, sem as pressões e as obrigações da vida
poligâmica em Mambone. Ela reflete sobre a beleza da monogamia, mas também se
preocupa com a necessidade de devolver o lobolo pago por sua família.
Quando
Mwando chega em casa, Sarnau o recebe com um sorriso, o ajuda com o cesto de
peixes, troca suas roupas e serve comida quente para o marido. Depois, Mwando
adormece sorrindo nos braços da amada.
Capítulo 14
Com
o vento forte e o mar tenebroso do mês de agosto, Mwando e Sarnau recomeçam sua
jornada. No caminho, há boatos e rumores sobre a fuga da rainha das terras de
Mambone, segundo os quais seu raptor é visto como herói e considerado
partidário do povo. Mwando ouvia os rumores como se não fossem com ele, mas
sentia medo a cada passo que dava. Durante o sono, sonhava estar acorrentado
por homens invisíveis e ser arrastado até ver um homem empunhando uma zagaia, o
que o fazia acordar sobressaltado. Sarnau pressentia que esses sonhos eram
prenúncios de dias difíceis.
Na
manhã seguinte, Mwando consulta um adivinho que lhe conta uma história
fantástica que ele não entende. Vaga sem destino o dia todo à procura de
respostas e termina a noite em uma casa em que homens se reuniam em torno de um
garrafão de sura e namoravam as mulheres que apareciam para fazer companhia a
eles. Participando do rebuliço, Mwando permanecia atento a tudo o que acontecia
em torno de si, sabendo que poderia ser esfaqueado a qualquer momento. Três
forasteiros chegam ao local e, entre eles, Mwando reconhece Nhambi, seu irmão
de circuncisão, que pertencia à corte do rei de Mambone. Nhambi e Mwando haviam
sido grandes amigos na infância, participando juntos dos ritos de iniciação e
criando um forte laço de irmandade.
Mwando
hesita em se aproximar dele, mas a necessidade de ajuda fala mais alto. Os dois
se encontram e Nhambi revela que está em uma missão para matá-lo a mando do
rei. Mwando se desespera e confessa seu arrependimento pela fuga com Sarnau,
mas Nhambi se mantém irredutível. Ele dá a Mwando uma noite para decidir seu
destino, antes que seja tarde demais.
Mwando
volta para casa transtornado e conta a Sarnau sobre o perigo que estão
correndo. Desiludido e amargurado, Mwando rejeita Sarnau, dizendo que não vê
mais nela a mulher que amou e duvidando da paternidade do filho que ela
abandonou.
Sozinha,
Sarnau corre em meio à natureza procurando por Mwando, mas não o encontra.
Sentada na areia, ela lamenta a perda do amante e de tudo que abandonou por
amor. Sarnau sente como se tivesse naufragado novamente, perdendo seus filhos,
sua família e seu lar.
Capítulo 15
A
sirene de um navio que trafica negros soa, anunciando sua partida. Os
degredados se despedem da vida, da terra natal e de seus entes queridos com
tristeza e pesar. A melodia cessa depois da partida e, no porão, ouvem-se gritos
de protesto, além dos clamores a Deus e aos antepassados. O navio seguia para
Angola, levando alguns condenados por crimes graves, outros por caprichos de
poderosos e outros simplesmente por serem negros.
Mwando
é um dos prisioneiros e, depois de um tempo de silêncio, conta a todos sua
história, com lágrimas nos olhos. Ele diz que estava se relacionando com uma prostituta,
que recebia vários homens além dele. Estava desempregado e era cuidado e
alimentado por ela. Por ciúmes, um sipaio tramou contra ele, o levando à
prisão, à tortura e à deportação. Por mais que tenha tentado se defender, mostrado
falar bem o português e ter habilidades de escrita, não escapou da condenação.
Há
um temporal na madrugada e os capatazes são muito agressivos com os escravizados.
No meio do caos, observa-se a triste realidade de negros oprimindo outros
negros, como se tivessem se esquecido de sua própria condição e da
possibilidade de a situação se inverter um dia.
Ao
amanhecer, chove uma chuva miúda e faz muito frio. O arco-íris anuncia o fim da
chuva. Os degredados chegam ao seu destino em Angola. Desembarcam e são levados
para calabouços, onde lhes foi concedida uma semana de repouso. Depois disso,
as mulheres foram enviadas para as plantações de tabaco e os homens para os canaviais
ou, no caso dos mais fortes, “para a destronca e abertura de novos campos”
(p.139).
Capítulo 16
Os
degredados escolhidos para a destronca têm uma primeira experiência na
floresta. O ambiente se mostra misterioso, perigoso e fascinante ao mesmo tempo,
como se ali fosse possível se conectar com o mundo espiritual e com os
ancestrais. Os animais da floresta, como macacos, cobras, morcegos e hienas, se
aproximam do acampamento, criando uma atmosfera de curiosidade e apreensão. Muitos
homens não sobrevivem aos perigos da mata, enquanto aqueles que se mantêm
cautelosos conseguem escapar da morte. A floresta é incendiada, dando início à
transformação da paisagem.
A
ação destrutiva do homem sobre a natureza é destacada, mostrando como a
ganância e a busca por lucros levam à devastação desmedida. Após o incêndio, a
destronca e a sementeira começam. Os cafezeiros são plantados em fileiras ordenadas
e a floresta amedrontadora dá lugar a uma plantação verde e viçosa, cultivada
com o suor dos condenados. O “verde bonito” da plantação se transforma em
“verde-sangue” e “verde-dinheiro” (p. 143-144), revelando a exploração e a
violência que marcam o cultivo.
Capítulo 17
Em
Angola, o sangue é o adubo de muita terra. Há pretos anônimos enterrados em
todos os lugares, e as roças têm cruzes pintadas de branco, como se fossem
plantas. Os negros trabalham cantando e o colono, satisfeito, já sonha com todo
o lucro daqueles canaviais. Há um acidente que mata um dos trabalhadores,
Agostinho, mas o colono rapidamente designa dois para se encarregarem do corpo
e mais um para limpar a máquina. A produção não pode parar, independente do
motivo: “Tempo é dinheiro!” (p. 146).
Ao
lado do cadáver, à noite, os empregados comeram a refeição de fubá com o mesmo
apetite. Estavam acostumados a ter a companhia da morte todos os dias, por uma
cobra, pela febre, pelo calor excessivo das máquinas que torram o café. Damião
deixa o dormitório para chamar o curandeiro Januário, que é angolano, e o padre
moçambicano, que é Mwando. São feitas as orações pela alma do morto, e o padre
Mwando as lê em um latim perfeito. Apesar dos trabalhos forçados que fora
obrigado a realizar, ele “encontrou felicidade no degredo” (p. 147), pois
sempre tivera a ambição de usar a batina branca e realizar todos os sacramentos
da igreja católica. Todos o conheciam e sabiam que ninguém preparava os funerais
com mais dignidade.
Rapidamente,
os colonos perceberam que Mwando, com sua pregação sobre o sofrimento na terra
e a recompensa no céu, era um instrumento útil para manter a paz e controlar as
revoltas nas plantações. Por isso, lhe deram uma casa e um tratamento diferenciado,
permitindo que se dedicasse mais aos afazeres religiosos.
Durante
os rituais católicos do velório, todos pensam na vida e na certeza de que
acabarão da mesma forma. O colono, que agia como uma espécie de capataz dos
trabalhadores, visita o dormitório, avisando que todos têm permissão para
enterrar o corpo do homem onde quiserem, mas precisam estar no trabalho na
manhã seguinte. Chama a todos de feiticeiros.
Depois
do padre moçambicano e dos ritos cristãos, é a vez de um feiticeiro angolano
encomendar o cadáver. Januário, com seus preparados e invocações, realiza o
ritual fúnebre segundo a tradição angolana, e o corpo de Agostinho é enterrado
na “roça dos crucifixos” (p. 148), o cemitério dos condenados.
A
despedida de Agostinho é recheada de emoção e ritos de celebração. Quando seu
corpo desce à cova, Januário tira dois pombos de uma sacola e os lança para que
voem e acompanhem o corpo do amigo até a floresta onde seus antepassados
residem. Um galo e uma galinha são sacrificados, e o sangue é derramado sobre a
campa. Houve também cachaça e danças, usadas para ajudar na viagem da alma do
morto. Mwando bebia na maior caneca e era chamado de “padre cachaça” quando se
embriagava. Ele costumava dizer que “Deus criou a cachaça para esquecer as
mágoas” (p. 149).
Conta-se
a história de José, um trabalhador cabo-verdiano que, antes de morrer, pediu ao
colono que o enterrasse debaixo da figueira em que estavam seus antepassados e
dispensasse todos do trabalho para que sua alma também pudesse sossegar. O
colono desdenhou dos pedidos do moribundo e o enterrou na roça dos crucifixos,
afirmando que nunca tivera medo de fantasmas de pretos. O morto começou a
aparecer por todos os lados e até a entrar na casa do patrão, quebrando louças
e esbofeteando a todos. Em oito dias o corpo apareceu na porta da casa, como se
tivesse acabado de morrer. O colono, convencido da força do espírito do negro, cumpriu
suas vontades enterrando-o sob a figueira e dando oito dias de férias para
todos os trabalhadores, esperando que aquilo nunca mais acontecesse.
Mwando
não era mais aquele rapazinho de Mambone. Já tem os primeiros cabelos grisalhos
e está no degredo em Angola há quinze anos. Conseguiu uma posição invejável,
juntou um pouco de dinheiro e até construiu uma barraca de cimento para morar.
Mesmo com a tentativa de todos para mantê-lo em Angola, vendeu tudo o que tinha
e retornou a Moçambique.
Vagou
por Lourenço Marques durante alguns dias para se recuperar das dificuldades da
viagem e depois tomou outro barco até Vilanculos. Procurou a casa em que viveu
com Sarnau e encontrou um grande armazém pesqueiro. Admirou-se das mudanças
ocorridas no local e, convencido de que Sarnau havia voltado para sua terra natal,
pegou outro barco e dirigiu-se a Mambone. Lá, escondeu-se até a chegada da
noite antes de aproximar-se da aldeia, onde reencontrou sua mãe, velha e
solitária, ainda lamentando o filho desaparecido que foi deportado para terras
distantes e partiu sem dizer adeus.
Mwando
e sua mãe se reencontram com emoção. Ela lhe conta que Sarnau não se casou e
vive uma vida difícil em Lourenço Marques. Mwando, após saber da notícia, parte
imediatamente em busca dela.
Capítulo 18
Em
Lourenço Marques, Sarnau é vendedora no mercado de Mafalala. Sente saudades da
paz das manhãs em Mambone, que não encontra na agitação do amanhecer no mercado
da capital. Ainda pensa em Mwando e acredita que ele possa ter morrido, já que
a abandonou há dezesseis anos e nunca mais voltou. Ela acredita que foi vítima
dos maus espíritos e do sangue de Phati, que queria vingança. Sarnau acredita
que seus espíritos e os de Mwando estavam em conflito, e essa foi a razão pela
qual sua união não foi possível.
Sarnau
tem uma filha, a quem deu o nome de Chivite e que é filha de Mwando. A menina
nasceu em Mafalala e seu nome foi escolhido porque significa problema,
dificuldade ou situação complicada. Depois de muitos meses com a menina doente,
Sarnau consultou uma curandeira que afirmou que estava fadada a enterrar todos
os filhos que tivesse com as próprias mãos. A única solução para esse destino
seria fazer um sacrifício, em forma de oferenda, para que um espírito que a
perseguia a deixasse em paz. O sacrifício necessário era nomear sua filha com o
nome da pessoa que era a causa de todo o sofrimento. Apesar de relutante,
Sarnau não teve outra opção senão concordar. A curandeira realizou um ritual
com a criança, invocando a cura e a proteção para Phati, que renasceu como
filha de Sarnau.
O
ritual fez com que a criança se curasse e Sarnau passasse, de fato, a amar
Phati, sem entender o porquê de as duas terem se desentendido tanto durante a
vida. Phati renasceu dentro de Sarnau e tornou-se sua protetora, para quem,
inclusive, Sarnau ergueu um santuário atrás de sua barraca.
Sarnau
tem mais um filho – João – que também não tem pai, já que o homem que a
engravidou era casado e a abandonou logo em seguida, sem nunca permitir que
aquele filho bastardo convivesse com os irmãos. Para ele, aquele comportamento
não era o que se esperava de um cristão.
Mwando
também era cristão e nem por isso deixou de abandonar Sarnau grávida. Ainda que
ela compreendesse o comportamento esperado de um cristão, não conseguia
assimilar a relação desse comportamento com o afastamento de Mwando de seus
deveres paternais. Sarnau reflete sobre a poligamia e reconhece que, embora naquele
regime mulheres disputassem a atenção do marido, matando-se por ele sem que
pudessem realmente experimentar o prazer do amor, ao menos não havia filhos
bastardos nem crianças sozinhas. Todos sempre tinham um lar e uma família, mas
o marido só estava em casa em determinados turnos e muitas vezes reclamava do
tempero da comida ou da cama cheirando a urina de bebê para se furtar aos
deveres de marido. “Com a poligamia, com a monogamia ou mesmo solitária, a vida
da mulher é sempre dura” (p. 158).
Cansada
de seu dia a dia de trabalho no mercado, Sarnau aguarda a noite para poder
entregar-se à paz durante o sono, mergulhada na escuridão e no silêncio.
Capítulo 19
Chove
em Lourenço Marques e Sarnau recorda-se com saudades dos dias de chuva em
Mambone, quando todos saudavam os bons presságios que o deus da chuva
anunciava. No caminho para o mercado, no meio da chuva, um homem apressado
esbarra em Sarnau e a derruba. Seu cesto também cai e os tomates se espalham pelas
ruas molhadas. Ela, nervosa por perder toda a mercadoria que ia vender, exige
ser ressarcida em seu prejuízo. Quando o homem fala com ela, Sarnau reconhece
Mwando e se espanta com o tamanho da barriga dele, depois de tantos anos.
Confusa
e angustiada, Sarnau se debate entre a vontade de morrer e de viver ao
reencontrar Mwando, o homem que causou sua desgraça. Mwando a abraça com o
mesmo calor de outrora, sorri e murmura com a doçura das ondas do rio Save. Ele
declara que passou a vida toda a procurá-la porque entendeu que não consegue
viver sem ela. Sarnau reconhece o sorriso, a voz e o olhar sereno do homem que
amava e, de repente, um milagre faz com que a chuva cesse e tudo desapareça em
torno deles, sobrando apenas os dois no mundo. Assustada com sua presença e
hesitando em segui-lo, Sarnau pede a ele que pague para que ela o acompanhe. Mwando
se surpreende com seu pedido e pergunta se ela havia se prostituído na sua
ausência.
Sarnau,
ferida em seu orgulho, responde que Mwando a raptou sem pagar o resgate, que
tomou sua virgindade sem honrar sua deusa protetora e que agora, após tê-la
abandonado, a encontra transformada em uma “puta” (p. 162). Mwando insiste em
aproximar-se de Sarnau e a arrasta para longe, enquanto ela continua a debater-se
entre o sim e o não. Pede insistentemente que ele a pague e diz que já está
velha, que usou seu sexo como máquina para fabricar dinheiro, que teve doenças
vergonhosas e um de seus ovários retirado no hospital. Sarnau tem também muitas
cicatrizes nas coxas, que se confundem com suas tatuagens e que são sequelas de
outra doença que apanhou.
Ele
pede a ela que não chore mais e conte todo o sofrimento que enfrentou. Diz que
também sofreu muito, ligou-se a uma mulher que o traiu, dizendo que não era
casada, enquanto era mulher de um sipaio. Mwando conta que foi deportado e
consumiu toda sua vida plantando cana e café, enquanto chorava se lembrando dela.
Diz que está sozinho e que não tem mulher nem filhos.
Sarnau
conta a Mwando que ele tem filhos sim: Phati, prestes a completar 15 anos;
Zucula, que ficou em Mambone, já é homem e foi coroado rei quando seu pai ficou
doente. Ela diz que tem mais um filho – João – cujo pai perdeu-se mundo afora e
que suas meninas gêmeas já são mulheres casadas e estão em Mambone. Mwando
lamenta toda a crueldade que teve ao abandonar Sarnau e pensa no filho rico,
alegre e feliz, enquanto ele – seu verdadeiro pai – vive na miséria. Ele pede a
Sarnau que dê uma oportunidade para que possa reparar seus erros, vivendo com
ele o tempo de vida que lhes resta. Ela diz que fará isso apenas mediante o pagamento
de vinte e quatro casamentos. Mwando acha que ela está apenas brincando com
ele. Sarnau justifica seu preço com base no valor de seu lobolo, que gerou
outros vinte e quatro casamentos em sua família. Ela o acusa de tê-la
abandonado à própria sorte e de ter causado sua desgraça.
Como
Mwando se declara um homem miserável e diz que é impossível para ele pagar o
preço pedido, ela o lembra de que não esteve ao seu lado nos momentos de maior
desespero. Diz que seu marido se casou com Rindau, sua irmã, e que os dois são felizes.
No caso dela e de Mwando, só restaram as cinzas do amor que tiveram. Sem
conseguir dizer mais nada, Sarnau corre pelos labirintos sinuosos de Mafalala.
Capítulo 20
Em
casa, sentindo-se muito triste, Sarnau recolhe-se, dizendo aos filhos que está
com diarreia e dor de cabeça, o que não era verdade. Sente-se vencida e torturada
ao revolver antigas cicatrizes. Ela ainda amava o homem que tinha feito de sua
vida uma desgraça.
Chove
fortemente sobre a barraca de zinco em que Sarnau vive com os filhos em
Mafalala. Os três ouvem, assustados, três pancadas na porta do quintal. Phati
abre a porta e dá de cara com Mwando que, quando perguntado, logo responde que
é seu pai. A menina, muito surpreendida, vira-se para o irmão e diz: “João, é o
papá!” (p. 170).
Dentro
da casa, a menina pergunta à mãe se aquele é, de fato, seu pai, o que Sarnau
confirma. Enrolada em uma manta, Sarnau chora mais alto, e seus soluços, mesmo
mais audíveis, não chamam a atenção das crianças, que bombardeiam Mwando de perguntas.
Querem saber se ele ficará na casa, e Mwando responde que pode ficar apenas se
a mãe deles quiser.
Sarnau
pede às crianças que se retirem para dormir, já que deverão acordar cedo no dia
seguinte. Sozinha, ouve o argumento de Mwando: “– Sarnau, as crianças precisam
de um pai” (p. 171). Ela responde que também precisa de um homem e que só
Mwando pode suprir essa necessidade. Diz que se sente vencida por ele, que se
colocou ao lado dos filhos, que fez a guerra e venceu. Agora que ela tem casa,
dinheiro e trabalho, cuidará de alimentá-lo também. Está decidida a ser feliz e
deixar qualquer orgulho de lado.
Sarnau
e Mwando se entregam à paixão, abandonando as dores do passado e se unindo em
um abraço de paz e esquecimento. A chuva continua a cair lá fora, mas, dentro
da barraca, o amor renasce, trazendo esperança e acalento.
Comentários sobre o
enredo
Balada de um amor
Na
tradição ocidental, o termo “balada”, de origem latina (ballare), que significa “dançar”, normalmente se refere a uma forma
de poesia narrativa medieval, muitas vezes cantada e acompanhada de dança. Na
literatura, o termo é usado para designar um poema curto sobre histórias épicas
ou românticas. Embora “balada” também seja utilizado no Brasil para designar
canções populares e eventos festivos com música e dança, essa associação
provavelmente não é a que Paulina Chiziane teve em mente ao escolher o título de
sua obra, considerando que essa apropriação do termo se deu sobretudo em
contextos específicos da cultura afro-brasileira, e não na linguagem geral do
país.
A
opção da autora em usar o termo no título da obra não surpreende; pelo
contrário, indica que a narrativa de Balada
de amor ao vento tem relação direta com a poesia. A forma como o texto de Paulina
guia o leitor na entrada de um mundo desconhecido – em que são descritos
rituais de conversas com defuntos, grandes casamentos poligâmicos de soberanos
locais, funerais de reis e rainhas amados por seu povo e a participação da
natureza no dia a dia dos personagens – se aproxima do campo da poesia,
exatamente pela profusão de imagens e sugestões contidas na sonoridade do
texto. A história das desventuras de Sarnau, porém, é apresentada em prosa, de
onde temos, portanto, a designação prosa poética.
O
título revela a proximidade da autora com o universo da poesia, antes mesmo de
termos a leitura iniciada. Mais que isso, deixa claro que o enredo gira em
torno de uma história de amor que se movimenta e se transforma ao sabor do
vento, que pode ser compreendida como símbolo de mudança, liberdade e
inconstância, refletindo as forças imprevisíveis que moldam os destinos e as
emoções humanas. A “balada de amor” vivida por Sarnau e Mwando é um sentimento
que, como o vento, ainda que seja arrebatador e incontrolável, está sempre
sujeito às forças da natureza e do destino.
Sarnau e Mwando –
conflito entre tradições
A
história de amor entre Sarnau e Mwando é o fio condutor da obra. É fundamental
que se entenda que a importância da regularidade do estado civil para a mulher
moçambicana vem associada à supervalorização do amor que os personagens –
sobretudo os femininos – apresentam na história. Essa dualidade entre o desejo de
ser amada e a busca por estabilidade social se manifesta claramente na
trajetória de Sarnau, que oscila entre a paixão por Mwando e a segurança de seu
casamento com Nguila. Por um lado, Sarnau anseia por um amor verdadeiro e
correspondido, como o que viveu com Mwando em sua juventude. Por outro, ela se
apega ao seu papel de esposa do rei, que lhe garante status, proteção e uma posição privilegiada na sociedade.
O
enredo de encontros e desencontros dos protagonistas e a exploração de suas
origens e seus valores tornam-se pretexto para a discussão de uma série de questões
acerca da sociedade moçambicana no contexto colonial, com reflexos diretos
sobre a situação do país à época da publicação e até os dias atuais.
O
problema central para a realização plena do amor entre os dois é a diferença de
suas origens e da educação e cultura a que foram submetidos. Quando se
conheceram, Sarnau era uma jovem pronta para o amor e Mwando estudava em uma
escola católica e preparava-se – com verdadeira inclinação – para ordenar-se
padre. Foram o encontro com Sarnau e o despertar dos desejos que o levaram a
ser expulso do colégio de forma injusta. Depois de descobrirem juntos o amor e
desfrutarem de algum tempo de alegria, Mwando abandona Sarnau para casar-se com
uma mulher escolhida por seus pais. Embora Sarnau esteja grávida e se disponha
a ser a segunda ou terceira esposa dentro da tradição poligâmica, Mwando afirma
que, por ser cristão, não aceita a poligamia e, portanto, jamais se casará com
ela. Não é exagero considerar, então, que é o conflito cultural vivido em
Moçambique durante o processo de colonização que se configura como antagonista
no romance. Não fossem as diferenças culturais e religiosas naquele contexto
social, nada seria impedimento para que os amantes vivessem juntos desde o
início.
Na
cena da primeira separação entre eles, ainda no capítulo 3, há um elemento que
merece destaque: a natureza como personagem participativo da situação e do
conflito como um todo. Após ser abandonada por Mwando, Sarnau caminha pela
floresta, desesperada, e é surpreendida por uma cobra que a ameaça de morte. Mwando
a salva, mas a situação revela uma espécie de “conspiração” do destino contra a
realização do amor entre eles.
Essa
hipótese é confirmada pelos eventos que mantêm os dois separados ao longo do
livro. De início, Mwando está impedido de se relacionar com ela porque se
prepara para ser ordenado padre, ou seja, adepto e defensor do cristianismo
forçadamente introduzido pelo colonizador. A ideia de tornar-se padre é deixada
de lado no capítulo 2, devido à expulsão de Mwando da escola. Mesmo livre da opressão
suscitada por aquele ambiente, depois da descoberta do amor, Mwando se afasta
de Sarnau para cumprir o desejo de sua família e comprometer-se com um
casamento monogâmico.
Quem
se casa na sequência, também em cumprimento da tradição local e do desejo e da
necessidade de familiares, é Sarnau. Ainda que cercado de expectativas de uma
jovem ingênua que acreditava que poderia ser a única esposa ou, ao menos,
especial para o marido, o casamento logo se converte em prisão para Sarnau, que
percebe que, ao ser lobolada, passou a se submeter a uma situação semelhante à
escravidão.
Um
elemento muito complicador do casamento cristão de Mwando e Sumbi é o fato de
ele não ser suficientemente enérgico com sua esposa e se dispor a contribuir
com o trabalho doméstico, ações que considera demonstrações de amor a ela. É,
mais uma vez, uma questão cultural. Mwando não consegue se encaixar nos padrões
exigidos pela comunidade em que vive e é julgado e condenado por isso. É nesse
contexto que ele se encontra novamente com Sarnau e passa a enfrentar a
tradição em que ela está inserida para viver o amor que ainda sente. A fuga os
obriga a abandonar o filho dessa união e a perseguição os impede de seguir
juntos. Em Angola, depois de ser condenado injustamente ao degredo e ao
trabalho escravo, Mwando se reencontra com as tradições cristãs e passa a atuar
como líder religioso na aldeia dos escravizados. Interessante observar como seu
processo de construção identitária inclui a relação com o cristianismo – e é em
uma relação monogâmica com Sarnau, em que, ao fim de tantos encontros e
reencontros, ele terminará sua história. Sarnau vivia com a filha que esperava
quando Mwando a abandonou em Lourenço Marques e com o filho que tivera com outro
homem no período em que ele esteve ausente.
Mesmo
depois de tudo o que viveram juntos, dos filhos que tiveram e dos 16 anos de
distância, Sarnau e Mwando, quando se reencontram no capítulo 18, se deparam
com a oposição dos espíritos dos antepassados à sua união. Mesmo assim, a
despeito dos sinais que insistem em mantê-los apartados um do outro, Mwando vai
à casa de Sarnau e se apresenta como pai de Phati e João. Ele diz a ela que
aquelas crianças precisam de um pai e Sarnau diz que precisa de um homem, mais
especificamente, do homem que está ali, ao lado dela.
Considerando
o fim do romance e a forma como a história foi desenvolvida, poder-se-ia dizer que
a autora acredita na monogamia e defende a aceitação irrestrita da cultura
cristã como resolução definitiva para os conflitos? Há no livro uma defesa do
cristianismo em detrimento da cultura ancestral das religiões tradicionais africanas?
Paulina,
insistentemente perguntada em entrevistas a respeito das opiniões que defende
por meio de seus livros, não se posiciona a favor da cultura cristã, tampouco
defende a poligamia como a melhor opção. Ainda que, em Balada do amor ao vento, o final dos personagens pressuponha uma
relação monogâmica, aliada aos princípios do cristianismo, é importante considerar
que Sarnau teve cinco filhos com três diferentes parceiros; Mwando teve três,
dois com Sarnau e um com Sumbi. O menino, filho de Sarnau e Mwando, tornou-se o
rei dos Zucula e nunca conviveu com os pais biológicos, tendo sido criado na tradição
das religiões africanas. A menina foi chamada de Phati em homenagem à principal
inimiga de Sarnau, o que ressignificou o nome e o sentimento que as ligavam
depois das disputas que travaram. A nova associação entre os protagonistas não
obedece a qualquer rito de casamento e/ou formação familiar previstos nas
tradições religiosas que coexistem no país; além disso, a configuração dessa
união se afasta dos modelos convencionais, mesmo com dois indivíduos – Sarnau e
Mwando – oriundos de um lugar comum e criados sob costumes e expectativas
sociais distintas.
Assim,
entende-se que a perspectiva futura de construção ética e cultural no contexto
da pós-independência para Moçambique só tem alguma possibilidade de sucesso se
compreender alguma forma de conciliação entre as crenças e tradições culturais
que fazem parte da formação daquela sociedade.
O mundo de Sarnau –
natureza e ancestralidade
Em
consonância com a supervalorização do sentimento amoroso, como também é
frequente na poética romântica, todo o ambiente é transformado conforme o
estado de alma da protagonista quando o observa. No início da narrativa, quando
Sarnau vive a paixão por Mwando, a natureza se veste de cores vibrantes e reflete
a alegria e a esperança que ela sente.
Há,
no final do capítulo 2, um momento de cumplicidade na realização da paixão
recíproca que nasce entre eles. Enquanto Sarnau se relaciona com Mwando e
acredita que será capaz de viver livremente esse amor, tudo no ambiente a faz
pensar em seu amado e nas novas perspectivas que se descortinam para ela:
“Encontro-o em todo o lado, na verdura dos campos, no mugir das vacas, no brilho
do sol...” (p. 28).
Após
saber que o amado se casará com outra mulher e, por ser cristão, não poderá
casar-se também com ela, constituindo uma família poligâmica, seu olhar para o
mundo e a forma como pensa em Mwando são completamente alterados: “Tudo para
mim é desespero: o gargalhar das estrelas, o piar dos mochos, o marulhar das
ondas ao luar, a dança do fogo, tudo me entristece” (p. 32).
A
natureza desempenha um papel simbólico e profundo na obra, refletindo a
cultura, a espiritualidade e a identidade dos personagens. Os elementos
naturais, como o vento, a chuva e as paisagens, expressam sentimentos, ciclos
de vida e a passagem do tempo. A natureza é representada não apenas como um
cenário, mas como uma força viva, conectada às tradições e aos rituais das
comunidades moçambicanas. Por meio das descrições das estações, das plantações
e dos fenômenos climáticos, Paulina Chiziane constrói uma narrativa que entrelaça
as histórias dos personagens ao ambiente, destacando a inseparável relação
entre a terra, a cultura e o ser humano. Deve-se destacar o valor atribuído às
conversas com os antepassados, o que revela a importância da relação constante
com a ancestralidade.
Abandonada
mais uma vez por Mwando, no capítulo 14, Sarnau mergulha nas águas furiosas na
tentativa desesperada de encontrar seu amor. Ao indagar sobre seu paradeiro,
canta uma cantiga que se enquadra nas características das velhas cantigas
populares de Portugal: a cantiga de amigo, em que a moça abandonada evoca a natureza
para saber notícias do namorado que a deixou.
Interessante
notar essa referência medieval, se considerarmos que as cantigas de amigo fazem
parte da tradição ibérica e têm sua origem exatamente em Portugal, no período
da Baixa Idade Média. Sarnau é moçambicana, educada dentro da tradição cultural
africana, por isso o fato de pedir notícias de Mwando às águas do mar e aos
elementos da natureza, como em uma cantiga de amigo, pode refletir a dualidade
cultural presente na personagem. A formação tradicional africana de Sarnau não
exclui a presença de elementos culturais europeus, como se percebe nessa cena.
É
importante ressaltar, entretanto, que, para muitas comunidades moçambicanas, as
práticas e as crenças ancestrais africanas incluem a invocação da natureza e
dos elementos como interlocutores, como ocorre de forma menos literal em outras
cenas do romance. Essas práticas frequentemente abrangem a crença em espíritos,
em forças naturais e na personificação da natureza como detentora de sabedoria
e de respostas para questões humanas.
Relações pautadas
pela competição e pela exploração
Pode-se
dizer que a obra assume um tom de denúncia em sua parte final, sobretudo a
partir do capítulo 15, quando Mwando é injustamente condenado e levado a Angola
em um navio destinado aos degredados da pátria. A descrição da viagem é
impactante: homens e mulheres feridos, cabisbaixos e exaustos, são amontoados no
navio como se fossem animais.
Todo
o capítulo, narrado em terceira pessoa, é desenvolvido sob a perspectiva dos
condenados, e a descrição da viagem remete o leitor à situação praticada por
comerciantes de escravos. O porão é um ambiente degradante, em que mortos e
vivos se acumulam sem condições mínimas de higiene ou de tratamento. Em
momentos de desespero em alto-mar, todos entoam cânticos de despedida à vida, em
uma espécie de comunhão de moribundos.
Em
terra angolana, os degredados são conduzidos à floresta para trabalhar na
devastação e preparação do terreno. O tratamento recebido e as condições de
trabalho revelam mecanismos de opressão e exploração dos quais a África, de
forma geral, sempre foi vítima.
Do
ponto de vista cultural, a diferença marcante entre o comportamento e as
atribuições masculinas e femininas é frequentemente referida no livro. Exemplos
tornam-se recorrentes, o que contribui para o estabelecimento de uma situação
de distinção clara entre os gêneros, contra a qual é muito difícil lutar.
Logo
no início do livro, a autora já apresenta a divisão de papéis entre homens e
mulheres quando Mwando se queixa de ter que cozinhar, lavar roupa e rachar
lenha porque sua mãe e suas irmãs não fazem o trabalho doméstico. Pode-se dizer
que a discussão sobre os papéis de homens e de mulheres e as expectativas
criadas nos relacionamentos de diferentes regimes e pactos são alguns dos temas
importantes da obra. Mwando é processado na comunidade em que vivia com sua
primeira esposa, Sumbi, porque ousa transgredir a tradicional divisão de serviços
esperada em um relacionamento marital. Ele ultrapassa o limite aceito por
outros homens ao se submeter aos trabalhos domésticos que deveriam ser de
responsabilidade da esposa. Vale lembrar, ainda, que anteriormente ele cumpria
tarefas domésticas para a mãe e as irmãs.
Em
outro contexto, as relações entre as esposas de Nguila apresentam a dinâmica
entre mulheres que se casam com o mesmo homem nas muitas organizações
poligâmicas das comunidades rurais no interior de Moçambique. Há poucos
exemplos de sororidade entre essas mulheres, que mantêm relações pautadas na
competição pela atenção do marido e pelas vantagens em relação às outras. Toda
a organização patriarcal e poligâmica é marcada por rígida hierarquização,
desde o rei até o servo, passando por toda a corte que envolve o reino e seus
interesses. Não há nenhum espaço para a voz feminina, submetida aos interesses
e ao desejo do marido. A participação feminina no governo não existe e a rainha
é apenas uma figura decorativa.
Foco narrativo
Em
Balada de amor ao vento, a narradora
é uma Sarnau idosa, que, ao revisitar a própria história, oferece uma
perspectiva rica em sabedoria e melancolia. Ao iniciar sua narrativa, ela se
coloca como uma mulher comum e hesita, acreditando não ter nada de extraordinário
a apresentar, uma vez que se considera apenas mais uma entre tantas mulheres.
No entanto, é justamente essa postura que a transforma em porta-voz de um grupo
feminino silenciado, dando ao romance importante carga de representatividade e
denúncia das opressões sofridas pelas mulheres moçambicanas. É uma forma de voz
feminina que Paulina Chiziane representa em sua literatura – nessa obra, em
particular, por meio de sua protagonista e narradora, que se revela uma mulher
inquieta, que almeja ser amada e desfrutar esse amor com liberdade e
reciprocidade. A história de Sarnau, com seus amores, dores e desilusões, ecoa
a realidade de muitas mulheres em Moçambique, que enfrentam o machismo, a poligamia
e a violência doméstica.
Por
meio de suas memórias, marcadas pelo tempo, a narradora reflete sobre as
complexidades do amor, da tradição e do destino, revelando como as experiências
vividas moldaram sua compreensão da vida. O distanciamento temporal permite-lhe
uma visão crítica e nostálgica dos eventos passados, e a narrativa flui como
uma confissão íntima, na qual dor e resignação se misturam, tornando a história
profundamente humana e atemporal.
Há,
em Balada do amor ao vento, momentos
em que a autora faz uso de uma voz narrativa em terceira pessoa, quando Sarnau não
participa da ação. Isso ocorre em parte do capítulo 2, em todo o capítulo 7, na
maior parte do capítulo 14 e nos capítulos de 15 a 18, na íntegra. A combinação
entre a voz feminina espontânea e a voz onisciente que narra as aventuras de
Mwando dá ao leitor a possibilidade de conhecer a trajetória dos personagens e
a realidade de seu entorno de maneira mais completa e complexa.
Essas
duas vozes exercem papel preponderante na estrutura narrativa e, de certa
forma, dominam o enredo. No entanto, Paulina inclui em seu trabalho outras camadas
de vozes, ainda que de maneira mais sutil e entrelaçada à narrativa principal,
possibilitando o contato do leitor com a multiplicidade de perspectivas
apresentada pela polifonia. Embora o ponto de vista de Sarnau e a voz onisciente
sejam dominantes, outras vozes complementam e aprofundam a narrativa,
proporcionando uma visão mais rica e complexa do contexto social e cultural em
que a história se desenrola. Como exemplo, podemos citar as mulheres que
compartilham o espaço com Sarnau na história, suas rivais no casamento
poligâmico, que oferecem visões distintas sobre o amor, o casamento e o papel
da mulher na sociedade. Enquanto algumas, como Phati, se mostram submissas ao
sistema patriarcal e disputam a atenção do marido com ferocidade, outras, como
a sogra de Sarnau, buscam manter a harmonia e evitar conflitos dentro do harém.
Essas vozes trazem uma multiplicidade de experiências femininas, cada uma
refletindo diferentes formas de resistência, conformismo ou estratégia diante do
patriarcado.
Para
além desse ponto de vista dos personagens, um dos aspectos marcantes do romance
é o uso de elementos da tradição oral africana, que dá espaço a vozes coletivas
e ancestrais, algumas vezes manifestadas pela natureza em si. Ao incorporar
mitos, histórias tradicionais e sabedoria popular, a narrativa abre espaço para
uma perspectiva cultural que vai além do tempo presente. Essas vozes da tradição
oral não são de personagens específicos, mas representam uma sabedoria
coletiva, profundamente enraizada na cultura moçambicana. Por meio dessas
histórias, há um diálogo entre o presente e o passado, entre a modernidade e a
ancestralidade.
Além
disso, os homens também têm suas perspectivas expostas no romance. A visão dos
maridos, especialmente em relação à poligamia e ao controle sobre as mulheres,
oferece um contraponto à narrativa da protagonista. Mwando, por exemplo,
apresenta uma visão contraditória sobre a mulher: ao mesmo tempo que defende a
igualdade e se dispõe a ajudar nas tarefas domésticas, ele se sente atraído por
mulheres submissas e obedientes aos costumes tradicionais. A perspectiva
masculina é, contudo, limitada em comparação à voz feminina dominante.
Personagens
Sarnau
e Mwando são os personagens de maior participação no enredo, pois a história de
amor entre eles é a espinha dorsal do romance. São figuras complexas e
multifacetadas, cujas ações e motivações vão além de estereótipos
simplificadores. Embora sejam os personagens mais desenvolvidos da obra,
outros, como Nguila e Phati, também apresentam nuances e contradições que os
aproximam da esfericidade.
• Sarnau: apresenta-se, no
início da obra, como uma senhora idosa, próxima da morte. Analfabeta e criada
dentro das tradições africanas, Sarnau sonha com o amor e com a estabilidade do
casamento, mesmo após ter sido abandonada grávida por Mwando. Subjetivamente, Sarnau
constrói uma identidade baseada na ideia de liberdade e usa a natureza que a
cerca para representá-la. Seu grande conflito se evidencia no contraste entre
seus sonhos de liberdade e sua real condição de esposa lobolada, submissa aos
ditames de uma sociedade patriarcal e poligâmica. Sarnau representa a
resistência desse desejo que se mantém vivo, mesmo após sua trajetória
errática.
• Mwando: principal personagem
masculino do romance, par da protagonista. É, no início da obra, estudante do
colégio e se prepara para ser padre. Sarnau o descreve como um “rapaz
diferente”, que “fala bem” e tem “boas maneiras”, mas não necessariamente
bonito (p. 14). Vive um grande conflito interno quando se descobre apaixonado
por Sarnau, uma vez que sempre sonhara ser padre. Pertence a uma família cristã
e não aceita a poligamia. Mwando se afasta das tradições africanas, renegando a
crença em espíritos e antepassados. É obrigado a casar-se com Sumbi, que, mais
tarde, o abandona, depois da morte prematura do filho de ambos. A procura pela
própria identidade é o que move Mwando. Expulso do colégio e perdendo a possibilidade
de se ordenar, casa-se com a mulher escolhida por sua família e, depois de
abandonado por ela, reencontra Sarnau, com quem foge, deslocando-se da zona
rural de Mambone para a zona urbana de Lourenço Marques. Sofre por estar sendo
perseguido, é traído por um homem que o condena ao degredo em Angola, onde passa
16 anos e revive sua relação com o cristianismo, tornando-se líder espiritual.
Volta a Moçambique para procurar Sarnau e passa a viver com ela, sua filha,
Phati, e João, filho que Sarnau teve com outro homem durante sua ausência.
Mwando não se enquadra no que se espera de um homem segundo as tradições
africanas, que é o principal obstáculo para seu entendimento com Sarnau.
Personagens
secundários (em ordem alfabética)
Paulina
Chiziane usa uma série de personagens com menor desenvolvimento psicológico como
elementos fundamentais na composição da atmosfera do espaço em que a história
se desenvolve, desenvolvendo um panorama amplo das práticas culturais e comportamentais
da sociedade moçambicana.
• Agostinho: trabalhador negro
morto em um acidente de trabalho nos canaviais em Angola. É sepultado segundo
rituais católicos e crenças locais.
• Eni: amiga de Sarnau,
desde o início sugere que a moça se esqueça de Mwando e procure outro namorado,
por acreditar que ele a faria sofrer.
• Januário: feiticeiro angolano,
detentor do conhecimento sobre os rituais religiosos realizados em funerais.
Participa da encomendação do corpo de Agostinho.
• Khedzi: “mulher esbelta, de
pele clarinha como os homens gostam” (p. 39), estava destinada a ser a esposa
natural do rei. Não se casou com ele porque, às vésperas do lobolo, teve suas
maldades reveladas, foi desmascarada e considerada feiticeira.
• Khelu: um dos possíveis
pretendentes de Sarnau, visto por ela como “zaragateiro, namoradeiro, sempre
pronto a provocar qualquer escaramuça e esmurrar toda a gente” (p. 14).
• Mayi: esposa preferida do
rei Zucula, tem tatuagens nas coxas e no baixo ventre que, segundo crenças
locais, são a causa de sua pele mais clara e da impossibilidade de gerar
filhos.
• Nguila: herdeiro do reino da
região de Mambone. Marido de Sarnau, esposa escolhida por sua mãe e lobolada
com o pagamento de 36 vacas. De pele bem negra, testa e nariz esbeltos e dentes
muito brancos, é comparado a um búfalo forte e enorme, que simboliza sua
nobreza. É dominante, sedutor e ótimo caçador e atirador de arco e flecha.
• Nhambi: amigo de infância de
Mwando, seu irmão de circuncisão, com quem juntou o sangue. Trabalha para
Nguila e é enviado para procurar Mwando e Sarnau depois que os dois fogem de
Mambone.
• Padre Ferreira: referido algumas
vezes como “o velhote” ou “senhor padre” pelos alunos que estudavam no colégio.
Suspeito de manter relações com a cozinheira, a qual, mesmo sendo flagrada no
dormitório com Salomão, não sofre nenhuma represália por seu comportamento. É
ele quem surpreende Mwando escrevendo a carta em que se declarava a Sarnau.
Depois de descobrir o delito de Salomão, acorda Mwando aos socos e pontapés e
expulsa os dois do colégio.
• Phati: quinta esposa de
Nguila, invejosa e vingativa, luta para afastar Sarnau do marido.
• Rassi: esposa do rei Zucala
mais próxima de Sarnau e por ela considerada uma espécie de mãe protetora.
• Rindau: irmã de Sarnau, que
também se casa com Nguilla após a fuga da protagonista.
• Salomão: colega de Mwando no
colégio. Ridiculariza Mwando pela mudança em seu corpo e comportamento, e é
ameaçado por ele de violência física e de ter seu segredo revelado ao padre. É
pego pelo padre tendo relações sexuais com a cozinheira do colégio e, em função
disso, é expulso da escola.
• Sumbi: esposa que abandonou
Mwando, descrita como portadora de uma beleza agressiva.
• Zucula: “rei de todos os
reis” (p. 85), casado com 15 esposas e pai do marido de Sarnau, que, com sua
morte, o sucedeu no trono.
O espaço
A narrativa se divide principalmente entre a região de Mambone, área rural ao sul de Moçambique, pertencente à província de Inhambane, próxima à foz do rio Save, e a cidade de Lourenço Marques (atual Maputo), capital do país desde 1898. A autora explora as diferenças entre esses dois espaços, mostrando como a vida no campo é marcada pelas tradições e pelos rituais ancestrais, enquanto a vida na cidade é mais influenciada pela cultura europeia e pelos valores modernos. Essa oposição se reflete, por exemplo, na questão da poligamia, que é mais comum nas áreas rurais, enquanto a monogamia predomina nas zonas urbanas.
A
dominação, durante a colonização portuguesa, de estruturas de poder locais e de
líderes tradicionais referidos como reis ou régulos é parte da realidade
moçambicana. A região de Mambone, local de origem da família de Sarnau e da
época de seu casamento com Nguila, foi organizada a partir dessas estruturas
que mantiveram o poder e a autoridade sobre as terras e a população local antes
e durante o domínio dos portugueses. Havia uma espécie de acordo entre os colonizadores
e as lideranças locais, seguindo uma estratégia de cooperação em troca de
lealdade e colaboração na administração colonial.
A
poligamia foi mais resistente em áreas rurais, onde as tradições locais tinham
mais força e o cristianismo não tinha penetração profunda. Nas áreas urbanas e
costeiras, onde a influência portuguesa era mais forte, a monogamia foi
gradualmente adotada, especialmente entre aqueles que abraçaram o cristianismo.
Na obra, a oposição entre os espaços – rural e urbano, do interior e do litoral
– é um aspecto relevante na compreensão do discurso da autora.
Especificamente
o bairro de Mafalala, local em que Sarnau reencontra Mwando e de onde narra o
romance, é uma área empobrecida do subúrbio urbano, um dos locais mais antigos
e tradicionais da cidade, que mantém profunda relação com a identidade
africana. Durante o período colonial, Mafalala foi uma área onde muitos
africanos nativos eram obrigados a viver, devido às políticas segregacionistas
do regime colonial português. Sempre compreendido como uma zona de resistência
cultural e política, o bairro desempenhou um papel central na luta pela
independência.
A
presença de Sarnau em Mafalala é mais um elemento que reforça a relação da
protagonista com a cultura local e com as tradições do povo moçambicano. Viver
em Mafalala é resistir, em um processo de profunda conexão com o passado
histórico local e com os costumes ameaçados pelo processo de colonização. A
vida de Sarnau é marcada pelo conflito entre a cultura local e a imposta pelo colonizador.
O espaço em que vive no fim da vida e de onde narra sua história reforça sua
postura de resistência e talvez até de compreensão de que a fusão entre as duas
culturas é uma consequência natural do processo pelo qual passou o país.
A
referência a Angola, como local de degredo de Mwando, tem duplo significado. Se
por um lado, o degredo e a escravização são marcas negativas, há o reencontro
de Mwando com a religiosidade cristã, o que culmina em sua redenção e decisão
de retornar a Moçambique, onde reencontra a mãe em Mambone e fixa-se, ao lado de
Sarnau, no bairro de Mafalala.
Tempo da narrativa
Não
há qualquer data precisa mencionada em Balada
de amor ao vento. Ainda assim, alguns aspectos da obra permitem localizar a
narrativa em um período específico. A cidade de Maputo, por exemplo, é
mencionada ao longo da obra como Lourenço Marques, nome que recebeu no período
de colonização portuguesa, mais especificamente a partir de 1544. Foi apenas
depois da independência, mais precisamente em 3 de fevereiro de 1976, que a
cidade passou a ser chamada de Maputo, a exemplo do que aconteceu em toda a
nação, que teve seus nomes coloniais substituídos por palavras com mais conexão
com a identidade africana. Entende-se, portanto, que a história de amor entre
Sarnau e Mwando teria acontecido antes de 1976, mesmo a obra tendo sido
publicada apenas em 1990, em um contexto pós-colonial.
Outra
interessante referência temporal é a menção, no capítulo 9, ao “período de
ocupação dos Ngunis” como uma época relatada pelos avós dos personagens. Esse
período se refere a aproximadamente 75 anos (entre 1820 e 1895) e teve origem a
partir de um movimento migratório proveniente da África do Sul. O Império de Gaza
dominou a região de Moçambique até 1895, quando foi derrotado pelas forças
coloniais portuguesas.
Após
a independência de Moçambique, o papel dos régulos foi reduzido, mas suas
influências, em alguns casos, continuaram a ser importantes em nível local,
especialmente em áreas rurais como Mambone. A própria família de Nguila, marido
de Sarnau, mantém seu poder e status
após a independência, mostrando a persistência dessas estruturas tradicionais
na sociedade moçambicana.
É
possível deduzir, a partir dessas discretas referências temporais, que a
história de Sarnau e Mwando teve espaço no século XX, antes de iniciado o
processo de dez anos da guerra pela independência em 1964, na província de Cabo
Delgado, no norte do país.
Em
relação ao tempo compreendido pelo enredo, consideremos que, desde o momento em
que Sarnau conhece Mwando até o reencontro final dos dois, passam-se
aproximadamente 20 anos. Mesmo sem menções a datas precisas é possível deduzir
o tempo pelo nascimento de seus filhos e pela informação de que o degredo de
Mwando em Angola durou 16 anos.
O
tempo psicológico predomina na narrativa, o que é comum em textos narrados em
primeira pessoa. Não há uma organização cronológica linear e precisa na sequência
de acontecimentos apresentados pela narradora Sarnau. São as emoções da
personagem e a relação que mantém com os acontecimentos narrados que definem o
espaço que têm no enredo. Assim, uma cena curta pode ser narrada em detalhes e
ocupar o espaço de um capítulo, da mesma forma que há grandes saltos no tempo
que separam os diferentes momentos de vida da protagonista e suas aventuras
amorosas com Mwando.
O estilo
Como mencionado anteriormente, em sua fala na entrega do Prêmio Camões, em 2021, Paulina Chiziane manifestou o desejo de que a língua portuguesa passe por um processo de descolonização, incorporando termos e expressões da cultura local dos espaços em que é praticada para que seja funcional na representação de vivências específicas daquelas populações. Descolonizar uma língua significa, nesse contexto, libertar o idioma de suas raízes coloniais e, dessa maneira, livrá-la de termos preconceituosos e excludentes para outras realidades.
Com
a transformação do português em um idioma das elites locais, uma vez que só os
que tinham acesso à educação formal eram alfabetizados, a língua carregava (e
ainda carrega) o peso da colonização mental, mantendo estruturas de poder e
hierarquias sociais que favoreciam o colonizador e/ou as classes privilegiadas.
A
descolonização da língua acontece, na prática, na escrita de Paulina. Seus
livros misturam o português introduzido artificialmente naquela realidade a
elementos das culturas e tradições orais moçambicanas. São palavras e
expressões locais que contribuem para a musicalidade e o ritmo das histórias
contadas, o que dá ao livro um tom de oralidade, de contação de histórias. Como
são narrativas que se organizam em torno de temas que fazem parte das vivências
africanas, como a poligamia e os ritos tradicionais, entende-se, assim, que o
estilo desenvolvido por Paulina em seu trabalho é um exemplo de uso do
português descolonizado.
Esteticamente,
Balada de amor ao vento é uma obra
que dialoga em alguns aspectos com a tradição romântica do século XIX, o que se
detecta, por exemplo, nas descrições do local em que se passa a ação principal.
A paisagem é idealizada e as descrições utilizam a natureza para enfatizar não
apenas a beleza, mas também a atmosfera convidativa do ambiente.
Tudo começa no dia
mais bonito do mundo, beleza característica do dia da descoberta do primeiro
amor. Todos os animais trajavam-se de fartura, a terra era demasiado generosa.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. São Paulo:
Companhia das Letras, 2022. p. 11.
A
associação entre o estado de espírito da narradora e a forma como o ambiente é
apresentado confirma essa relação com a poética romântica. O uso reiterado de
sinestesias, como em “o gargalhar das estrelas”, “o piar dos mochos” e “a dança
do fogo” (p. 32), agrega à profusão de imagens o potencial sugestivo do texto.
Em
outra situação, as referências ao ato sexual são marcadas por metáforas que
ampliam de forma significativa o sentido da relação entre os personagens. A
cena em que Sarnau e Mwando se entregam à paixão é descrita como a primeira
mordida no fruto proibido, dada sob o sol e tendo as ervas como confidentes,
uma “viagem celestial nas asas das borboletas”, com “flores brotando” e “pássaros
cantando” (p. 16). O lirismo da narrativa funciona como uma espécie de
invólucro para ressaltar as referências à ancestralidade e consequente harmonia
com o universo.
A maçã ainda era
verde, por isso arrepiante. Trincámos um pouco e não me pareceu muito
agradável; senti o doce amargo das pevides e polpa e, lá do meu fundo, escorreu
um fio de sangue, que as águas do Save lavaram.
Mwando deu o primeiro
golpe. Os nossos sangues uniram-se. Neste momento os defuntos que estão no
fundo do mar festejam, porque eu hoje sou mulher.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. São Paulo:
Companhia das Letras, 2022. p. 25.
Na
prosa poética, entretanto, há espaço também para a oralidade. Em alguns
momentos, a autora reproduz diálogos com interjeições e termos peculiares, de
forma a transmitir ao leitor a atmosfera das conversas cotidianas entre pessoas
que têm intimidade.
Sarnau, Rindau, que fazem aí sentadas, suas
velhas?
Retribuí à Eni um olhar aborrecido,
respondendo de maus modos:
É proibido ficar sentada?
Wê, Sarnau, chocar
ovos é para galinha chocadeira. Tira o rabo daí, tenho um segredo para ti.
Não me levanto. Estou a chocar ovos de pata.
Vomita lá esse
segredo e desaparece.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. São Paulo:
Companhia das Letras, 2022. p. 12-13.
Mais
um aspecto da oralidade presente no livro é a recuperação de ditos populares
utilizados pelos personagens. Alguns exemplos desses ditos que contribuem para
revelar o ambiente e a cultura em que a população está inserida são “a cobra
deixa sempre rasto por onde passa” (p. 19) e “não há fumo sem fogo” (p. 21).
Um
recurso expressivo do qual Paulina lança mão na construção de seu livro é o
fluxo de consciência verbal. As reflexões, expectativas e frustrações de Sarnau
vêm entrelaçadas às questões culturais e sociais que direcionam sua trajetória
ao sabor do vento, procurando adaptar-se às circunstâncias sociais que se
impõem ao longo de seu percurso.
Por
fim, e a título de curiosidade, algumas diferenças de linguagem e percepção de
determinados contextos podem gerar estranhamento durante a leitura. Há, por
exemplo, na descrição do reencontro entre Sarnau e Mwando, uma metáfora em
referência ao desejo incontido dos personagens capaz de provocar riso no leitor
brasileiro:
Despimo-nos com a velocidade de uma pessoa
surpreendida pela diarreia.
CHIZIANE, Paulina. Balada de amor ao vento. São Paulo:
Companhia das Letras, 2022. p. 92.
O
estilo praticado por Paulina Chiziane em sua obra de estreia tem o poder de
inserir seu público à peculiaridade do cotidiano linguístico de Moçambique,
revelando olhares, hábitos e crenças daquele país.
Glossário
O
glossário a seguir apresenta pouco mais de 50 termos utilizados por Paulina
Chiziane em Balada do amor ao vento.
Sua
necessidade se deve à especificidade do significado de determinadas palavras em
changana, uma das línguas bantu utilizadas no cotidiano de Moçambique, principalmente
em localidades ao sul do país. Além de termos em changana e/ou ronga, foram
incluídas designações de algumas localidades e palavras utilizadas com menos
frequência em português, mas cuja compreensão é fundamental para a fruição
plena da obra.



