Biografia do autor
Ailton
Krenak, escritor que se destaca na luta pela defesa da cultura e da permanência
dos povos originários brasileiros. Ailton Krenak nasceu em 1953, às margens do
Rio Doce, em Minas Gerais, e tranferiu-se para o estado do Paraná, onde, aos 18
anos de idade, se formou em Jornalismo. Em 4 de setembro de 1987, durante sua
participação na Assembleia Nacional Constituinte, proferiu um discurso
impactante, enquanto pintava o rosto com um corante extraído do jenipapo. A cor
escura contrastava com o terno branco que usava na tribuna. Segue um trecho de
seu discurso:
O
povo indígena tem um jeito de pensar, tem um jeito de viver. Tem condições
fundamentais para sua existência e para a manifestação da sua tradição, da sua
vida e da sua cultura que não coloca em risco e nunca colocaram a existência
sequer dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais de
outros seres humanos. [...].
E
hoje nós somos alvo de uma agressão que pretende atingir na essência a nossa
fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que ainda é possível
construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, que sabe respeitar
aqueles que não têm o dinheiro para manter uma campanha incessante de
difamação. Que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as
riquezas. Um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no
chão, não deve ser identificado de jeito nenhum como um povo que é inimigo dos
interesses do Brasil, inimigo dos interesses da nação, e que coloca em risco
qualquer desenvolvimento. O povo indígena tem regado com sangue cada hectare
dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. E os senhores são
testemunhas disso. Eu agradeço a presidência desta casa, agradeço os senhores e
espero não ter agredido com as minhas palavras os sentimentos dos senhores que
se encontram nesta casa.
KRENAK, Ailton. Invocação à Terra. Discurso de Ailton Krenak na Constituinte.
Disponível em: https://selvagemciclo.com.br/2023/wp-content/uploads/
2021/07/CADERNO27_CONSTITUINTE.pdf. Acesso
em: 30 jan. 2024.2
Em sua fala, Krenak já apontava para as posições que assumiria e defenderia ao longo da vida em sua atuação como palestrante no Brasil e no exterior: a defesa da terra e a busca por respeito pela cultura dos povos originários. Em 1988, ele participou da fundação da União das Nações Indígenas (UNI) e, posteriormente, da Aliança dos Povos da Floresta. Além disso, dedicou-se a inúmeras atividades de divulgação da cultura indígena. Em 2016, recebeu o título de Doutor Honoris Causa (homenagem que se presta a pessoas que se destacam em suas atividades) pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Suas palestras e entrevistas foram reunidas em três livros que contêm o essencial de seu pensamento: Ideias para adiar o fim do mundo (2019), A vida não é útil (2020, ao qual se integra o texto “O amanhã não está à venda”, publicado anteriormente em e-book) e Futuro ancestral (2022) – todos publicados pela Companhia das Letras.
Contexto histórico
Luto
sobre luto
Até
alguns anos atrás, o tratamento habitualmente dedicado aos primitivos
habitantes do Brasil era generalizado: índios.
A denominação é antiga, e, provavelmente, deve ter surgido de alguma confusão
dos primeiros invasores europeus, que entenderam ter alcançado terras das
Índias orientais. Atualmente, é mais usual o termo indígena, que será adotado neste trabalho. De fato, a definição que
o Dicionário Eletrônico Houaiss traz da palavra faz dela um termo mais
apropriado: “que ou o que é originário do país, região ou localidade em que se
encontra; nativo”. Essa é a situação dos indígenas brasileiros, herdeiros dos
habitantes que aqui estavam bem antes de os portugueses avistarem o litoral do
território que chamariam de Brasil. Também adotaremos nesta análise a expressão
povos originários.
No
entanto, é preciso levar em conta o que afirma a escritora e ativista indígena
brasileira Cristine Takuá:
Não existem índios,
existem Guarani, Pataxó, Krenak, Kaingang, povos diversos. Agora, no dicionário,
se você procura a palavra indígena, é o que está dentro de algo, tanto que o
contrário de indígena é alienígena, é o que está fora. Então todos somos indígenas
se estamos dentro da terra.
TAKUÁ,
Cristine. Reflexões de luta e resistências. Revista
Campos. Curitiba, UFPR, v. 20, n. 2, p. 105, jul.-dez. 2019.
Em
outras palavras, embora “indígena” seja uma expressão aceitável, é preciso
considerar que ela esconde uma pluralidade de povos, cada um deles com as
próprias especificidades culturais. Nesse sentido, é significativo que o nome
de Ailton Krenak carregue consigo a sua identidade tribal.
Os
Krenak habitam as terras do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Os colonizadores
europeus se referiam a eles como botocudos, porque os membros da tribo
enfeitavam lábios e orelhas com pequenas peças de madeira chamadas de botoques.
No início da colonização, os Krenak enfrentaram o invasor branco com bravura, mas
logo se deram conta da superioridade bélica do inimigo. Para compensá-la, agiam
com agressividade, fazendo emboscadas, dando preferência por lutas noturnas e
ataques pela retaguarda, práticas que valeram a eles a fama de violentos.
Como
ocorreu com inúmeras tribos indígenas brasileiras, os Krenak foram vítimas de
sucessivas tentativas de redução à servidão, para as quais eram criados
reformatórios como a Fazenda Guarani, a poucas horas de Belo Horizonte, que
funcionava como verdadeiro “campo de concentração”. O resultado dessas
expropriações violentas foi a gradativa redução da área ocupada pela tribo.
Dados recolhidos na plataforma Terras Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental,
apontam a existência de 343 membros do povo Krenak vivendo em uma área de cerca
de 4 mil hectares em Minas Gerais.
A
respeito da origem do termo krenak, o próprio autor esclarece, em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo:
O nome krenak é
constituído por dois termos: um é a primeira partícula, kre, que significa cabeça, a outra, nak, significa terra. Krenak é a herança que recebemos dos nossos
antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como “cabeça da
Terra”, como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem
essa profunda comunhão com a terra.
KRENAK,
Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo.
2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 48.
Toda
a cultura Krenak é concebida a partir da ligação com o rio Uautu ou Watu –
designação deles para o rio Doce. Pode-se considerar que a história do povo
Krenak está intimamente ligada a um esforço de defesa dessa terra e da liberdade
de se locomover nela, ocupando outros locais e depois retornando ao lugar
inicial, como era seu costume. Leia-se, a esse propósito, o depoimento da indígena
Maria Julia Krenak:
[...] eles vieram e
fomos desapropriados. Eles valorizavam os fazendeiros e nos despacharam para o
Guarani. Mas a gente não gostava porque era muito frio, não era igual aqui.
Assim, o pessoal ficou triste. Um velho chamado Jacó, morreu. Ficou triste de
ficar andando pra lá e pra cá. Depois, voltamos pra cá. Meu pai foi algemado,
mas voltou por conta própria. Depois de ganharmos nossas terras, nos apegamos a
Deus. Esperamos que isso acabe. Vamos ver se Deus ajuda, porque Deus é o Pai.
Eu penso muito na vida, por causa desses meninos, dos nossos filhos e de todos
os parentes maltratados e espalhados.
Hoje, estamos aí na
luta, queremos reconquistar os nossos direitos, queremos nossa terra de volta,
porque a gente não tem tanto espaço quanto os mais velhos tinham para poder
caçar e pescar.
KRENAK,
Itamar de Souza Ferreira; ALMEIDA, Maria Inês; alunos de Estudos Temáticos de
Edição (org.). Uata Hoom. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG; Cipó Voador, 2009. p. 30.
Essa
ligação com o rio Doce sofreu um rude golpe em 6 de novembro de 2015, com o
rompimento da barragem do Fundão, de responsabilidade da mineradora Vale do Rio
Doce, que derramou cerca de 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério
no rio, causando um desastre ambiental e humano sem precedentes, com consequências
duradouras em povoações inteiras, incluindo os Krenak. Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak comenta:
[...] O Watu, esse
rio que sustentou a nossa vida às margens do rio Doce, entre Minas Gerais e o
Espírito Santo, numa extensão de seiscentos quilômetros, está todo coberto por
um material tóxico que desceu de uma barragem de contenção de resíduos, o que nos
deixou órfãos e acompanhando o rio em coma. Faz um ano e meio que esse crime –
que não pode ser chamado de acidente – atingiu as nossas vidas de maneira
radical, nos colocando na real condição de um mundo que acabou.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 2. ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 2020. p. 41-42.
A
visão dramática apresentada pelos Krenak ecoa outras vozes indígenas. Leia-se,
por exemplo, este texto de Davi Kopenawa, publicado originalmente em 2010:
A floresta está viva.
Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios
vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão
murchar e as pedras vão rachar de calor. A terra ressecada ficará vazia e
silenciosa. Os espíritos xapiri, que descem da montanha para brincar na floresta
em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão
mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de
espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os
malefícios, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do
outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando
não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar.
KOPENAWA,
Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu.
Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p.
6.
No
trecho, chama a atenção a expressão “fumaças de epidemia” usada por Kopenawa.
Parece premonitório. De fato, em 2020, o mundo conheceria uma epidemia de
grandes proporções, causada pelo coronavírus covid-19. Em maio daquele ano, a
Assembleia de Resistência Indígena divulgou um texto que expressava as mesmas preocupações
que dominavam os textos de Ailton Krenak:
A mãe terra enfrenta
dias sombrios. O mundo atravessa sua maior crise social, econômica e política
provocada pela pandemia do covid-19 que atinge apenas seres humanos, colocando
a humanidade em profunda reflexão e resistência pela preservação da vida. Nós
povos indígenas, assim como os brancos também sofremos e somos vitimados por
este vírus que já ceifou milhares de vida no planeta.
É hora de refletir
sobre o modo de vida que exercemos até os dias atuais, pois as diversas crises
ambientais como aquecimento global e o forte desmatamento foram o prenúncio do
que estamos vivendo hoje, foram os alertas da mãe terra de que nosso modo de existir
necessita ser repensado e por hora nossa solidariedade precisa ser exercida.
ARTICULAÇÃO
DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB). A mãe terra enfrenta dias sombrios. Carta
final. Assembleia de Resistência Indígena. 10 maio 2020.
Disponível
em: https://apiboficial.org/2020/05/10/carta-final-da-assembleia-de-resiste%cc%82ncia-indigena.
Acesso em: 14 dez. 2023.
Para
Ailton Krenak e seu povo, a pandemia foi vivida como uma tragédia que se
sobrepunha a outra, a da devastação de sua própria terra:
Faz algum tempo que
nós na aldeia Krenak já estávamos de luto pelo nosso rio Doce. Não imaginava
que o mundo nos traria esse outro luto.
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 78.
O livro
Os textos que fazem parte de A vida não é útil não foram exatamente escritos por Ailton Krenak, mas, sim, reunidos com base em falas, entrevistas e lives realizadas com ele. A seguir, vamos acompanhar a cronologia desses eventos. Após a indicação de cada evento, indicamos, entre parênteses, o título do texto no qual a fala do autor foi aproveitada.
2017
·
Novembro: fala de Krenak no evento Plante Rio, no Rio de Janeiro (“Não se come
dinheiro”).
2019
·
4/11: entrevista revista Cult (“Não se come dinheiro” e “Sonhos para adiar o
fim do mundo”).
2020
·
25/1: entrevista para o jornal Correio (“A máquina de fazer coisas” e “A vida
não é útil”).
·
18/3: conversa com o jornal O Lugar (“A vida não é útil”).
·
3/4: entrevista ao jornal Estado de Minas (“O amanhã não está à venda”).
·
6/4: entrevista ao jornal O Globo (“O amanhã não está à venda”).
·
7/4: entrevista ao jornal Expresso, de Lisboa, Portugal (“O amanhã não está à
venda”).
·
8/4: live para o site Intercept Brasil (“Não se come dinheiro”).
·
17/4: live com Marcelo Gleiser (“A máquina de fazer coisas”).
·
24/5: live com Sidarta Ribeiro, para o Festival Na Janela, em São Paulo
(“Sonhos para adiar o fim do mundo”).
·
6/6: live com Emicida, para o canal GNT (“A máquina de fazer coisas”).
·
9/6: live com os Jornalistas Livres (“A máquina de fazer coisas” e “A vida não
é útil”).
Os
textos reunidos no livro tratam de dois aspectos relacionados, mas de dimensões
diferentes. De uma perspectiva mais localizada e imediata, fazem referência ao
momento histórico vivido pela humanidade naquele momento, particularmente à
pandemia da covid-19. De uma perspectiva mais ampla, trata da crise ambiental e
das consequências trágicas da problemática relação que o ser humano vem
estabelecendo com a natureza. Para Ailton Krenak, no entanto, esses dois
aspectos estão intimamente relacionados, na medida em que é justamente o
descaso com o planeta que conduz aos desequilíbrios que produzem as pandemias.
O interesse de Krenak pelo momento presente indica o senso de urgência das reflexões desenvolvidas por ele, explicitado logo no início do texto que dá título ao livro: “Neste momento, estamos sendo desafiados por uma espécie de erosão da vida” (p. 95). Assim, trata-se de se voltar para este momento, mas com a consciência de que essa erosão da vida tem um longo histórico na espécie humana.
A
simples enunciação da voz indígena de Krenak já funciona como mecanismo de
recusa do silenciamento a que os povos originários vêm sendo relegados ao longo
dos séculos. Desde seu discurso na Assembleia Nacional Constituinte, o pensador
reafirma a necessidade de dar ouvidos àqueles cujas culturas estão fundadas em
relações intrínsecas com a terra. Ailton sabe que não fala de forma isolada. Em
paralelo, e atuando no mesmo sentido, muitas outras vozes indígenas se
levantam: Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Davi Kopenawa, Lia Minápoty,
Graça Graúna, Márcia Wayna Kambeba, Emerson Guarani, Renê Kithãulu, Yaguaré
Yamá, Kaka Werá Jecupé, Olívio Jecupé, Julie Dorrico e tantos outros. A eles,
se juntam vozes não indígenas, como as de Manuela Carneiro da Cunha, Bruce
Albert, Rita Carelli, Betty Mindlin e muitas outras, que compartilham das
mesmas preocupações quanto ao futuro e desejam que o usufruto da vida em sua
plenitude não seja pautado pelos parâmetros da utilidade, mas pela complexa e
insubstituível experiência de viver.
Textos
“Não
se come dinheiro”
Suspiro
de Gaia
Está
difícil dormir com tanto fantasma
ao
redor
Corpos
abandonados em pavilhões
Espíritos
de luz projetam raios paralisantes.
A
Terra balança levemente os cabelos
devolve
no cosmos fagulhas de estrelas.
KRENAK, Ailton. Suspiro de Gaia. Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, p. 83, ago. 2020.
Fontes do texto
·
Fala no evento Plante Rio, na Fundação Progresso (Rio de Janeiro), em novembro
de 2017.
·
Entrevista a Amanda Massuela e Bruno Weis (“O tradutor do pensamento mágico”),
revista Cult, em 4 nov. 2019.
·
Live com Leandro Demori para o site
Intercept Brasil, em 8 abr. 2020.
Síntese
Na
abertura do texto, Ailton Krenak afirma que, ao utilizar o conceito de Homo
sapiens, designativo da espécie animal a que pertence o gênero humano, inclui
nele ações como a caça esportiva e o extermínio de populações inteiras. Com
base nisso, o autor conclui: “somos a praga do planeta, uma espécie de ameba
gigante” (p. 9). Logo, o texto define mais precisamente a quem se refere a
designação: “esse clube exclusivo da humanidade”, que exclui “caiçaras, quilombolas
e povos indígenas” (p. 10), relegados à condição de “sub-humanidade” (p. 10). A
marginalização desses representantes da espécie é efetuada sob a justificativa
do progresso, concebido como a certeza “de que estamos indo para algum lugar”
(p. 10).
Para Krenak, a pandemia de coronavírus que atingiu o mundo a partir de 2020 foi “uma manobra fantástica do organismo da Terra” (p. 10), que, assim, desafiou a humanidade a respirar – referência ao fato de o vírus prejudicar sobretudo o aparelho respiratório. O episódio lembrou a todos a fragilidade da espécie humana e sua irresponsável arrogância de acreditar-se capaz de controlar todo o universo ao redor. O homem produz aparatos tecnológicos avançados, mas, no final das contas, depende do simples ato de respirar para sobreviver. O autor exemplifica esse dado com uma referência à economia: embora todos acreditem que “se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos” (p. 12), a verdade é que, se os dirigentes de instituições bancárias fossem trancafiados em um cofre com todo o dinheiro à disposição, morreriam de fome, porque – como lembra o título do texto – “ninguém come dinheiro” (p. 12). O desenvolvimento tecnológico que degrada a natureza enriquece apenas um punhado de pessoas, que parecem se esquecer de que, sem essa natureza, não haverá o que comer – e essas pessoas não poderão se alimentar de seu dinheiro. Esse punhado de gente necessita de uma humanidade inteira para aterrorizar todos os dias, com ameaças de dissolução dos mercados e de queda nas bolsas de valores do mundo. Mas, se não houver alimento, quem se importará com essas questões financeiras? E, se ninguém se importar, a quem eles aterrorizarão? Alguns deles se dedicam a planejar a construção de estações em outros planetas, em que eles possam viver depois que destruírem o nosso. Krenak supõe que talvez seja melhor deixar que partam para essas estações, porque, desse modo, talvez este planeta possa ser finalmente salvo.
Essa
elite financeira mundial determina a condução das políticas nacionais, na
medida em que controlam as grandes corporações que, nos tempos atuais,
constituem os verdadeiros mecanismos de governança dos países. Contudo, se
houver uma saturação dos recursos naturais do planeta, todos sofrerão as
consequências: “Um cara que tem trezentos bilhões e eu e você vamos ficar todos
na mesma” (p. 16). Mesmo que essas pessoas se instalem em centros de
sobrevivência que venham a construir, a verdade é que não poderão se isolar do
restante do mundo, porque, para funcionar, tais centros vão requerer uma
energia, que também poderá entrar em colapso e ser desligada. Dessa perspectiva,
essa elite terá que experimentar “certa igualdade no risco” (p. 17) a que todos
estamos expostos com a destruição dos recursos naturais.
A
exploração desses recursos é produzida a partir de um vício: o da modernidade.
Ela nos faz consumir bens materiais, supostamente capazes de funcionar como
extensões de nossos próprios corpos. O consumismo tem o efeito de nos
desconectar “do organismo vivo da Terra” (p. 18). Muitos dos que defendem esse
consumismo como parte da modernidade – inclusive cientistas – não creem na
ideia de que a Terra é um organismo inteligente. Mas a própria realidade trata de
confirmar essa hipótese: crises climáticas, por exemplo, são respostas do
organismo Terra às agressões que sofre continuamente.
Krenak
se coloca entre aqueles que não se identificam com as grandes corporações e as
elites financeiras. Para ele, seja vivendo em florestas ou em apartamentos,
“precisamos despertar nosso poder interior” (p. 20) e cuidar com atenção de
tudo o que consumimos. Alimentos ultraprocessados devem ser substituídos por um
consumo mais saudável: cada um deveria cuidar do que planta, para saber
exatamente o que come. Iniciativas nesse sentido já estão em andamento, com as
hortas domésticas, a agroecologia e a permacultura, formas de cultivo que levam
em conta a sustentabilidade e o potencial do meio ambiente. Krenak designa
aqueles que se dedicam a essas estratégias como “agentes da micropolítica” (p.
21) e vê nessas iniciativas um grande potencial no sentido de trazer a floresta
para a cidade.
Existem
desafios que precisam ser vencidos. Um deles é a resistência do agronegócio,
que, para Krenak, deve ficar com a conta da degradação planetária (cf. p. 23).
Outro desafio é enfrentar a atividade de mineradoras, que continuam a degradar
a terra. Mesmo durante a pandemia, quando o mundo inteiro parou, os trens dessas
mineradoras continuaram a trafegar febrilmente. Contra essa sanha exploratória,
Krenak propõe que olhemos “para o nosso ser interior” (p. 24). Na defesa dessa
estratégia, toma como inspiração o poema “O homem, as viagens”, de Carlos
Drummond de Andrade (do livro As impurezas do branco, de 1973), e as canções de
Milton Nascimento. Drummond e Milton se referem à degradação da natureza em seu
local de origem, Minas Gerais – o mesmo de Krenak. Esse lugar sofreu e continua
a sofrer a ação deletéria de companhias mineradoras que representam, de modo
muito vivo, a degradação do meio ambiente provocada na busca desenfreada pelo
lucro.
O
texto termina com a reafirmação da ação do organismo vivo da Terra, que se
realiza sempre no sentido da vida, caminho esse que pode representar uma
alternativa de sobrevivência para todos.
Referências
·
Wakya Un Manee (Vernon Foster): uma das grandes lideranças indígenas atuais nos
Estados Unidos, em atividade desde 1968. Atua como curandeiro e auxilia no
desenvolvimento de programas culturais e educacionais.
·
2001, uma odisseia no espaço: longa-metragem de 1968, dirigido por Stanley
Kubrick (1928-1999). Durante uma missão tripulada, os computadores de uma nave
espacial começam a se comportar de maneira estranha, assumindo vontade própria
e colocando em risco a vida dos astronautas. O filme chama a atenção pela
estética ousada, distante da realidade narrativa, com cenas longas e diálogos
escassos. Ganhou fama também a trilha sonora com composições de autores
clássicos, como Richard Strauss.
·
James Lovelock (1919-2022): cientista e ambientalista britânico que desenvolveu
a “hipótese de Gaia”, de acordo com a qual os organismos vivos se relacionam
com o ambiente inorgânico onde vivem de forma a constituir um sistema
autorregulado, com funcionamento semelhante ao de um único organismo vivo.
·
Thomas Lovejoy (1941-2021): ambientalista e biólogo estadunidense que se
dedicou a estudos sobre a conservação de recursos naturais, incluindo pesquisas
sobre a Floresta Amazônica. Lovejoy cunhou o termo “biodiversidade” para se
referir à riqueza e à variedade do mundo animal.
·
Antonio Nobre (1958-): cientista brasileiro, divulgador da Teoria de Gaia e
defensor de estratégias de restauração e preservação da Amazônia.
·
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): considerado um dos maiores nomes da
poesia brasileira, sua obra tem um amplo leque temático, no qual se incluem
referências à destruição ambiental, notadamente em sua terra natal, Itabira
(MG), onde a exploração do minério de ferro trouxe danos ambientais dos quais o
poeta já tratava desde os anos 1940.
·
Milton Nascimento (1942-): cantor e compositor brasileiro com muitas obras
voltadas para a celebração de Minas Gerais.
Comentários
O
tema fundamental do texto é expresso com clareza pelo autor: “Parece que a
ideia de concentração de riqueza chegou a um clímax” (p. 15). Com base nessa
constatação, ele busca desenvolver as consequências de tal situação de
desigualdade. A primeira delas diz respeito à governança. Segundo o autor, em
períodos históricos anteriores, as críticas a respeito da administração pública
deveriam ser dirigidas a setores do governo claramente identificados. Contudo,
nos tempos atuais, grandes corporações assumiram o controle político,
constituindo-se nos verdadeiros centros de decisão sobre a vida no e do
planeta. Uma das matrizes dessa concepção pode ter vindo do geógrafo brasileiro
Milton Santos, que afirma, em seu livro Por
uma outra globalização:
A política agora é
feita no mercado. Só que esse mercado globalizado não existe como ator, mas
como uma ideologia, um símbolo. Os atores são as empresas globais, que não têm
preocupações éticas, nem finalísticas. [...]
[...] mediante o
discurso oficial, tais empresas são apresentadas como salvadoras dos lugares e
são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e
modernidade. Daí a crença de sua indispensabilidade, fator da presente guerra
entre lugares e, em muitos casos, de sua atitude de chantagem frente ao poder
público, ameaçando ir embora quando não atendidas em seus reclamos. Assim, o
poder público passa a ser subordinado, compelido, arrastado.
SANTOS,
Milton. Por uma outra globalização.
Do pensamento único à consciência universal. 14. ed. Rio de Janeiro: Record,
2007. p. 67-68.
De
acordo com esse pensamento, os governos atuariam em defesa dos interesses
dessas grandes empresas, que, na verdade, seriam as verdadeiras dirigentes da
vida nacional. Nesse sentido, os interesses particulares dessas empresas
apareceriam como políticas de interesse público.
Voltando
ao texto de Krenak, a segunda consequência daquela concentração está
diretamente ligada à primeira. Assumindo a governança, as grandes empresas
seguem seus próprios interesses, tomando decisões que visam atendê-los, sem
nenhuma preocupação com os desdobramentos que tais decisões possam ter em
populações inteiras. O autor exemplifica com um caso próximo dele: “O lugar
onde estou é chamado de Quadrilátero Ferrífero. É de um mau gosto enorme dar um
nome desses para um lugar. O que ele quer dizer? Que estamos ferrados. Duas
barragens, uma em Mariana e outra em Brumadinho, derramaram ferro em cima da
gente” (p. 27). Krenak se refere, aqui, aos episódios de rompimento das
barragens do Fundão, na cidade de Mariana, em 5 de novembro de 2015, e do Córrego
do Feijão, em Brumadinho, ocorrido em 25 de janeiro de
2019.
As duas localidades se situam no estado de Minas Gerais, onde ele reside. Os
eventos provocaram a morte de centenas de pessoas e tiveram consequências
ambientais de grandes proporções. Assim, a busca pelo lucro, que é a base do
funcionamento das empresas capitalistas, acaba por trazer prejuízos
inestimáveis a populações inteiras. Elas deveriam estar protegidas pelo poder
público, mas, como tenta demonstrar o autor, esse poder está nas mãos dessas mesmas
empresas.
A
terceira consequência também surge como desdobramento das anteriores. O
funcionamento de empreendimentos que degradam o meio ambiente tem como
justificativa a produção de bens de consumo que atendam aos anseios de uma
parcela da humanidade. O autor designa essa parcela de “clube exclusivo da
humanidade” (p. 10), acusando-a de devastar “tudo ao seu redor” (p. 10). Nesse caminho
de consumo, essa humanidade relega à condição de “sub-humanidade” (p. 10) todo
um contingente variado, que recusa o modelo de progresso proposto: “Não são só
os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente
largamos à margem do caminho” (p. 10).
Toda
a situação descrita por Krenak se agrava no contexto em que se encontravam as
questões que fundamentam o texto: a pandemia de coronavírus, que, em 2020,
estava no seu auge. Logo no início do texto, o autor se refere a “esse vírus
que está aí agora” (p. 10). A pergunta que se coloca é: como se comporta uma
humanidade dividida por suas desigualdades em um contexto pandêmico? Para ele,
a condição da elite, da “humanidade”, que se distingue da “sub-humanidade”,
perde sentido, na medida em que “tenha que experimentar uma certa igualdade no
risco” (p. 17). Isto é: a concepção de elite não faz sentido quando toda a
humanidade está ameaçada. Dessa forma, o leitor é conduzido para a proposição
que dá título ao texto: de posse de todo o dinheiro que acumulou, o que a elite
mundial poderá fazer quando a ação desenfreada das grandes corporações tiver
degradado o ambiente a ponto de eliminar o alimento do mundo? Deverá essa elite
comer o dinheiro que acumulou?
A
capacidade de agir e transformar o meio ambiente conferiu à humanidade uma
posição de suposta superioridade, o que conduziu à arrogância de acreditar-se
dona do planeta. Na pandemia, um simples e aparentemente insignificante vírus
foi capaz de destruir esse poder ao desafiar: “‘Respirem agora, quero ver’” (p.
10-11). A equação é essa: a degradação das riquezas naturais do planeta fundamentou
o progresso da humanidade, que, assim, consolidou uma posição de controle sobre
esse planeta; no entanto, um vírus desmascarou essa posição de mando, ao expor
o homem a uma situação de fragilidade.
Como
reagir a essa situação, que parece calamitosa? Krenak aponta para algumas
iniciativas: “A agrofloresta e a permacultura mostram aos povos da floresta que
existem pessoas nas cidades viabilizando novas alianças, sem aquela ideia de
campo de um lado e cidade do outro” (p. 22). A agrofloresta é um sistema de
plantio sustentável, capaz de recuperar a vegetação e a vida do solo. A
permacultura corresponde a um planejamento de culturas agrícolas de forma a desenvolver
uma prática sustentável. São práticas naturais para os povos da floresta
citados por Krenak, mas que só recentemente começaram a encontrar eco nos
moradores dos centros urbanos.
Na
conclusão do texto, Krenak revela: “quando tudo está entrando em parafuso, você
tem que ter alguém pra chamar – eu chamo Drummond” (p. 24), referindo-se ao
poema “O homem, as viagens”, no qual o poeta mineiro propõe que, depois de
colonizar outros
planetas,
talvez reste ao ser humano colonizar-se a si mesmo, civilizando-se e
humanizando-se. Em seguida, Krenak se refere ao compositor Milton Nascimento,
que também canta a destruição das matas e das montanhas de Minas. Assim,
criando uma comunidade de atitudes e de ativistas, Krenak imagina que se possa
construir uma humanidade capaz de se alimentar de vida, e não de dinheiro.
“Sonhos para adiar o
fim do mundo”
Identidade
indígena
Nosso
ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas
caio da vida e da morte
E
range o armamento contra nós.
Mas
enquanto eu tiver o coração aceso
Não
morre a indígena em mim
E
nem tampouco o compromisso que assumi
Perante
os mortos
De
caminhar com minha gente passo a passo
E
firme, em direção ao sol.
Sou
uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego
o peso da família espoliada
Desacreditada,
humilhada
Sem
forma, sem brilho, sem fama.
POTIGUARA, Eliane. Identidade indígena. Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, p.
110, ago. 2020.
Fontes do texto
·
Entrevista a Amanda Massuela e Bruno Weis (“O tradutor do pensamento mágico”),
revista Cult, 4 nov. 2019.
·
Live com Sidarta Ribeiro, no Festival
Na Janela, promovido pela editora Companhia das Letras, em 24 maio 2020.
Síntese
O
texto inicia pela configuração (já referida no texto anterior) do que seja a
“humanidade. Ailton Krenak começa seu raciocínio, nesse caso, pela inclusão dos
antepassados humanos dos tempos das cavernas, perguntando-se quais seriam as
conexões estabelecidas entre nós e eles que permitem que todos sejam inseridos
em um mesmo conceito de humanidade. Citando o estudioso Sidarta Ribeiro, Krenak
faz referência à tese de acordo com a qual as pinturas rupestres não seriam
necessariamente registros do cotidiano, mas sonhos transportados para as
paredes das cavernas. Por essa via, o autor entra no assunto principal do
presente texto: o sonho. As imagens das pinturas das cavernas podem corresponder
ao entorno dos homens pré-históricos; sendo assim, as imagens dos sonhos atuais
devem igualmente refletir o entorno – e, se o fazem, seguramente trazem
pesadelos sobre a degradação do meio ambiente. A esse propósito, o autor
recorda um pajé da tribo Xavante, que, 40 anos antes, reuniu alguns jovens
apadrinhados por ele, entre os quais figurava o próprio Krenak, para lhes
contar um sonho no qual o espírito da caça manifestava sua fúria contra o pajé,
que não estaria cuidando adequadamente dos espíritos dos bichos, deixando os
animais sob os ataques dos homens brancos. Se esse projeto de extermínio fosse
continuado, “a terra ficaria desolada” (p. 35) e faltaria alimento para todos.
O autor revela ter ouvido o mesmo aviso de outros pajés e confessa que, com o
tempo, ele próprio começou a sentir os mesmos temores, ao assistir à invasão da
floresta por máquinas, como tratores e motosserras, trazidas pelo branco. Os
rios começaram a manifestar a Krenak a sua indignação. As profecias daquele
antigo pajé se tornaram realidade com o avanço do agronegócio sobre as terras
indígenas.
Krenak
considera ainda a esfera mais íntima do sonho, aquela que não diz respeito
diretamente ao entorno de uma coletividade, mas ao ambiente mais próximo do
sonhador. Os sonhos desse tipo distanciam-se dos anteriores – que podem ser
contados em praça pública – porque são revelados apenas às pessoas mais
próximas. Nesse sentido, o autor considera que o relato dos sonhos funciona como
uma “veiculação de afetos”, um vínculo entre o sonhador e aqueles que o ouvem,
uma forma de trazer o universo onírico para a vida real. Para Krenak, esse tipo
de relação reforça a “experiência de uma consciência coletiva” (p. 39). Ele
garante que traz essa experiência consigo quando é convidado para uma viagem,
buscando sempre compartilhá-la com seus ouvintes. Trata-se, segundo diz, de um
comportamento próprio da cultura indígena. Assim, todos os indígenas que, como
ele, saem pelo mundo para falar, para discursar, para transmitir sua cultura,
levam consigo o espírito de todos aqueles que fazem parte dessa mesma cultura.
No
entanto, Krenak leva em conta a pluralidade dessa cultura, afirmando, por
exemplo, que povos caçadores sonham de forma diferente de povos agricultores. A
esse propósito, ele se recorda de uma “história antiga do povo Krenak” (p. 40),
em que Deus resolve voltar à terra onde havia deixado os seres humanos que
havia criado, mas decide assumir a forma de um tamanduá. Nessa condição, é
avistado e apreendido por caçadores, que pretendem comê-lo. Contudo, duas crianças
que observavam a cena conseguem evitar que isso aconteça. Deus se mostra a
elas, que o auxiliam em sua fuga. Na despedida, as crianças lhe perguntam o que
ele achava do povo que havia criado. A resposta tem algo de tragicômico: “Mais
ou menos” (p. 41). A história revela a precariedade que os Krenak atribuem à espécie
humana, considerada por eles propensa a falhas. Para eles, a humanidade não
ocupa uma posição de destaque no planeta; pelo contrário, ela convive com os
outros seres vivos em condições de igualdade, razão pela qual seu povo “se
filia ao rio, à pedra, às plantas e a outros seres com quem temos afinidade”
(p. 42). Nesse ponto, o autor retoma a reflexão inicial, em torno da
configuração da humanidade, concluindo que “nós não somos a humanidade que
pensamos ser” (p. 42), ou seja, se imaginamos que dominamos o meio, que somos senhores
dele, concluímos que temos algo que nos torna especial. Se isso fosse verdade,
pondera o autor, não estaríamos hoje discutindo a “destruição da base da vida
no planeta” (p. 42). A indiferença com que os homens tratam a destruição do
meio e a morte dos próprios homens mostra que não há nada de louvável ou de
extraordinário na espécie humana.
Krenak
afirma que o século XX explicitou essa relação nociva do homem com seu meio. O
número de pessoas que se preocupam com a degradação do ambiente é pequeno, se
comparado ao acúmulo de ações humanas no sentido de uma iminente destruição
planetária. Krenak dá nome a essa destruição: “Isso que as ciências política e econômica
chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou
na vida de maneira incontrolável” (p. 44). A experiência coletiva da epidemia
de covid-19 pode ser entendida como um ponto de mutação. Se, após ela, ocorrer
a retomada do mesmo comportamento, isso poderá ser visto como uma crise, um
erro. Por outro lado, se o episódio servir como lição, ele poderá ser visto não
como crise, mas como um momento de transformação, de reconstrução do “sonho
coletivo de mundo” (p. 44). Se conseguirmos remodelar nossa bagagem existencial
e preenchê-la com atitudes distintas das tomadas até aqui, teremos pela frente
um mundo novo, e a perplexidade que ele poderá nos causar será como aquela
referida por Caetano Veloso na canção “Um índio”: surpreenderá pelo óbvio.
Para
o autor, essa revelação que pode ser surpreendente será óbvia porque uma nova
relação com a biosfera passa por uma nova consciência de nós mesmos e dos
nossos próprios corpos. Nesse ponto, Krenak cita os povos que acreditam que o
ciclo vital do homem mantém íntima relação com os ciclos da natureza, de tal forma
que “sentimos que não estamos dissociados dos outros seres” que habitam o
planeta (p. 45). O autor conta que os Krenak têm “essa tradição de suspender o
céu” (p. 45): quando o céu está muito perto da terra, é preciso proceder ao
ritual do taru ande, constituído por cantos e danças que visam suspendê-lo,
para reestabelecer o equilíbrio entre céu e terra. O autor explica o sentido
desse gesto de “suspender o céu”: trata-se do resgate do tempo em que se tinha
consciência de que era preciso trabalhar apenas algumas horas por dia, que
seria o tempo necessário para prover a subsistência. O resto do tempo era
dedicado a “cantar, dançar, sonhar” (p. 46) – o que fazia com que o cotidiano fosse
“uma extensão do sonho” (p. 46) e os contratos estabelecidos nos sonhos
continuassem a vigorar no tempo da vigília. Para realizar esse sonho, teremos
que reconfigurar nossos corpos e nossas relações com o mundo. Se conseguirmos
isso, conclui o autor, “isso que estamos vivendo hoje não será apenas uma
crise, mas uma esperança fantástica, promissora” (p. 47).
Referências
·
Sidarta Ribeiro (1971-): neurocientista e biólogo brasileiro com atuação em
diversas áreas, destacando-se nas pesquisas em torno dos efeitos cognitivos dos
sonhos sobre o comportamento humano, expostas no livro O oráculo da noite, de 2019.
·
“Um índio”: canção de Caetano Veloso (1942-) presente no álbum Bicho, de 1977. A letra da canção
profetiza a chegada de um indígena portador de conceitos que sempre estiveram
diante de todos, mas despercebidos: “E aquilo que nesse momento se revelará aos
povos / Surpreenderá a todos não por ser exótico / Mas pelo fato de poder ter
sempre estado oculto / Quando terá sido o óbvio”. Esse trecho é citado por
Krenak.
Comentários
O
ponto de partida do texto de Krenak pode ser sintetizado em uma frase: “Essa
noção de que a humanidade é predestinada é bobagem” (p. 41). A concepção de
predestinação supõe algum tipo de privilégio de que gozaria o ser humano, em
virtude de sua inteligência e sua capacidade inventiva. Tais condições funcionariam
como uma espécie de aval para que a humanidade explorasse o planeta de forma
predatória, submetendo-o a seus caprichos e suas necessidades. Para Krenak, a
dissociação entre a vida humana e a natureza atingiu um grau tão profundo que
impõe uma radical mudança de comportamento: “Nós podemos habitar este planeta,
mas deverá ser de outro jeito” (p. 44).
Uma
sugestão de como encontrar esse caminho alternativo está nas orientações dadas
pelos sonhos. Krenak cita o neurocientista Sidarta Ribeiro, que, em sua obra O oráculo da noite, em que estuda os
sonhos, afirma que “as cenas de caça nas pinturas rupestres podem não estar
registrando apenas atividades cotidianas, mas falando de sonhos” (p. 34), ou
seja, os homens das cavernas registrariam ali os sonhos que os acometiam a
partir do próprio entorno. Esse é o tipo de sonho a que se refere Krenak:
aqueles nas quais os sonhadores “se apropriam de recursos para dar conta de si
e do seu entorno” (p. 34). Trata-se do sonho que “prepara as pessoas para se relacionarem
com o cotidiano” (p. 37). Como se vê, não se trata de conceber o sonho como
mecanismo de fuga, mas, sim, como enfrentamento da realidade, uma instituição
que permite o conhecimento do mundo. Note-se, a propósito, o quanto esse tipo
de estratégia de aquisição de saberes se distancia da consagrada pela cultura
branca, ocidental e colonizadora. Na cultura indígena, essa aquisição pode se
dar pela via dos sonhos, nos quais verdades universais seriam reveladas e
apreendidas pelos seres humanos.
Entre
aqueles que permitem o acesso a essas revelações, está o pajé, entidade
espiritual de grande importância nos agrupamentos indígenas. Desde os tempos da
colonização do Brasil, a imagem do pajé foi alvo de preconceitos e equívocos:
representando a religiosidade que os jesuítas tentavam substituir, foi
associado a figuras demoníacas. No entanto, para os povos originários, ele
evoca a ancestralidade. Conforme já visto, o texto de Krenak traz um exemplo
disso no episódio de sua infância em que um “pajé Xavante” (p. 35) relatou um
sonho no qual o “espírito da caça” aparecia para lhe repreender por não estar
cuidando adequadamente dos “espíritos dos bichos”, que estavam sendo predados
pelos homens brancos. Depois de se referir ao sonho do pajé, Krenak comenta:
“Na visão daquele pajé, que os jovens foram convocados a partilhar, a terra
ficaria desolada” (p. 35). Como o próprio autor constataria, as previsões do
velho indígena logo se mostrariam certeiras. A voz do sonho falara a verdade e
o autor entende que “o jeito de observar e pensar” (p. 35) dos povos indígenas
“poderia abrir uma fresta de entendimento nesse entorno que é o mundo do
conhecimento (p. 35-36), pois eles têm
todas as condições para assumir o protagonismo nas discussões em torno da
defesa da terra.
“A máquina de fazer
coisas”
O
plano deles era nos arrancar
Nos
engolir e integrar
Apagar
nossa memória
Mas
nenhum vínculo
É
tão forte quanto o dos encantados
A
ancestralidade
Nos
guia de volta
NUNES, Jamille.
Revista Poesia Indígena Hoje, n. 1, p. 106, ago. 2020.
Fontes do texto
·
Entrevista a Fernanda Santana, “Vida sustentável é vaidade pessoal”, Correio, 25 jan. 2020.
·
Live “Conversa selvagem” com Marcelo
Gleiser, em 17 abr. 2020.
·
Live com Emicida para o canal GNT na
semana no meio ambiente, em 6 jun. 2020.
·
Live com os Jornalistas Livres, em 9
jun. 2020.
Síntese
Ailton
Krenak começa se referindo às narrativas indígenas (e de outras culturas) que
tratam da origem da vida. Segundo essas narrativas, os homens se originaram de
diferentes fontes: “tem gente que era peixe, tem gente que era árvore” (p. 51).
Um resquício dessa concepção primitiva pode ser verificado na ideia de que a imagem
de um povo como “‘nação que fica de pé’” (p. 52) alude às árvores de uma
floresta. Essa ideia é explorada pelo autor para refletir sobre a identificação
que existe entre os homens e os entes da natureza.
O
autor considera que a certeza dessa identificação já se espalhou, conquistando
muitas pessoas para a causa da defesa das florestas, envolvendo até mesmo
instituições poderosas como o Banco Mundial. No entanto, Krenak ressalva que
tais iniciativas não conseguiram frear o problema do desmatamento. Atitudes
individuais, ou restritas a ambientes e campos de atuação específicos, não são
suficientes para evitar um movimento que possui caráter global. Por outro lado,
ele considera que a capacidade humana de realizar uma ação mais coletiva e
eficaz ficou demonstrada durante a pandemia de covid-19, na qual todos – “salvo
alguns excêntricos” (p. 54) – obedeceram ao comando de distanciamento social.
Krenak considera que, se conseguimos realizar essa ação, somos igualmente
capazes de nos unirmos para interromper a destruição de rios e de florestas.
Ao
se referir à postura generalizada de desprezo pelo meio ambiente, o autor se
questiona, com ironia, se a espécie humana não teria vindo de outro planeta,
com valores distintos daqueles que fundamentam a vida dos seres da floresta. O
texto associa a postura de desinteresse pela vida do planeta ao apego dos seres
humanos por técnicas que lhes permitam “atuar sobre a terra, sobre a água,
sobre o vento, sobre o fogo” (p. 56), superando a crença antiga de que fenômenos
da natureza eram ações de um “poder sobrenatural” (p. 56). Krenak considera que
esse tipo de poder não existe, mas apenas o poder natural, isto é, ligado à
natureza, e do qual participamos todos. A natureza tem um poder imenso, e, se
os indivíduos continuarem o processo de destruição do planeta, o que
conseguirão destruir será a própria existência, porque o planeta continuará a
existir. Por isso, os homens precisam se desfazer da crença de que podem atuar
com superioridade sobre a natureza e tomar consciência da conexão que têm com
ela e o com o compromisso de sua preservação.
Distanciando-se
dessa conexão, os homens se dedicam a produzir artefatos tecnológicos dos quais
se orgulham, tratando-os como manifestação suprema da inteligência e da
racionalidade. Essa postura é criticada pelo autor, para quem o maior avanço
tecnológico foi o que permitiu enviar homens ao espaço. Trata-se de um recurso
extremamente caro, que pode ser usufruído por poucos – como os milionários que
tentam produzir suas próprias máquinas de viagem espacial. A tecnologia que
permite a estruturação de uma live
(como aquelas dos quais o próprio autor participa) também pode impressionar por
sua eficácia, mas, na verdade, não é evidência de uma superioridade do homem
sobre o planeta, porque, afinal, se a espécie humana usa a sua inteligência
para poluir o ambiente, a Terra pode ficar sem o fornecimento do ar que permite
o funcionamento dessa mesma inteligência.
A
dependência do ser humano para com as máquinas que cria é um comportamento
difícil de ser interrompido, pois toda nova geração que surge não admite
renunciar aos recursos tecnológicos que lhe trazem conforto, acusando as
anteriores de terem gozado deles sem preocupação. O autor afirma que o sistema
capitalista produz essa necessidade constante de consumo, de gozo de novos artefatos.
Os automóveis elétricos, menos poluidores, serão, segundo o autor, muito caros,
acabando por se tornar “um novo objeto de desejo” (p. 61), reativando, assim, o
vício de consumo do novo. Ou seja, não é suficiente substituir recursos
tecnológicos por outros que continuarão a penalizar “nossa vida no planeta” (p.
62).
O
desenvolvimento tecnológico fornece recursos que dão aos seres humanos a
impressão de que “não precisam mais morrer” (p. 62), na medida em que a tecnologia
cria extensões da vida, dando às pessoas a sensação de estarem fora do ciclo
natural, que inclui a morte. Modificar os hábitos de vida inclui, para o autor,
a mudança nos “nossos hábitos de nascer e morrer” (p. 63). As pessoas se afastam
da natureza e passam a “viver blindadas” (p. 63) para adiar a morte. Recursos
tecnológicos que surgem todos os dias criam a falsa impressão de que a espécie
humana será a última a desaparecer no planeta, mas Krenak recorda que, na
verdade, a humanidade é uma praga ainda pior do que o vírus que assolava o
planeta naquele momento.
O
autor reconhece a atuação de pessoas que ocupavam posições de liderança e
tentaram combater essa escalada autodestrutiva: Chico Mendes, Mahatma Gandhi,
Martin Luther King. É preciso considerar essa liderança como representativa do
esforço coletivo de preservação do planeta. A esse propósito, ele recorda uma
entrevista dada por Gandhi em que afirmava que a Terra fornecia recursos de
sobrevivência para todos, desde que o consumismo não instigasse desejos de
propriedade que, de fato, só poderiam ser realizados por poucos. A ideia difundida
pelo capitalismo de que os recursos naturais podem ser infinitamente renovados
é falsa, e a proposição de que quem polui o mundo são os pobres é considerada
pelo autor “racista e classista” (p. 66), além de potencialmente perigosa, já
que traz a implícita sugestão da eliminação dos pobres, que constituem 80% da
população mundial. Para Krenak, deve-se levar em conta o processo de globalização:
concebido como estratégia social e econômica de abrangência mundial, exerce
influência sobre o cotidiano das pessoas ao estimular o consumo de bens, que gera
uma superprodução desenfreada, conduzindo à exaustão dos recursos naturais.
Algumas das propostas de renovação desses recursos supõem uma recriação do
mesmo modelo econômico, o que, para o autor, constituiria apenas “um mundo
velho e canalha fantasiado de novo” (p. 68). Como forma de se opor a isso,
Ailton Krenak propõe a “busca de uma espécie de equilíbrio entre o nosso mover-se
na Terra e a constante criação do mundo” (p. 69). O uso da expressão
“constante” se explica pela crença de que a criação do mundo não se deu com um
evento isolado, como o Big Bang, mas “é
algo que acontece a cada momento, aqui e agora” (p. 69).
Krenak
volta a se referir à cultura indígena ancestral, para a qual existiria “um
tempo antes do tempo” (p. 70), sem um ponto de partida definido. Para ele, o
tempo humano deve ser concebido segundo a crença de que compartilhamos o
planeta com os outros entes que vivem nele e com fé na possibilidade de
estabelecermos novas relações com o meio ambiente, o que, segundo afirma, não seria
algo possível apenas na mente de pajés ou nos valores dos povos originários.
Essa harmonia pode ser construída no nosso próprio tempo e lugar. Na verdade,
existem no mundo povos que ficaram de fora do que se considera “balaio
civilizatório” (p. 73), que corresponde à sociedade de consumo, e se
desenvolveram a partir de uma relação mais harmoniosa com a natureza, o que
demonstra que essa opção é possível e viável para todos.
Referências
· Sebastião Salgado (1944-2025): fotógrafo brasileiro com atuação voltada principalmente para o registro artístico da vida de populações desassistidas no mundo inteiro. Criador do Instituto Terra, propriedade agrícola voltada para a recuperação ambiental, localizado em Minas Gerais.
·
Banco Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU): agência financeira internacional
criada em 1944 como instrumento de auxílio econômico para nações atingidas pela
Segunda Guerra Mundial. Ocasionalmente, financia projetos na área da
preservação ambiental.
·
Davi Kopenawa (1956-): xamã e líder político do povo Yanomami. Em parceria com
o antropólogo francês Bruce Albert, escreveu A queda do céu (2010, com tradução
brasileira publicada em 2015), livro no qual desenvolve reflexões sobre o
pensamento indígena e critica alguns comportamentos da sociedade dos brancos, a
quem designa de “povo da mercadoria”.
·
Chico Mendes (1944-1988): líder dos seringueiros da Amazônia e defensor do meio
ambiente. Sua atuação desagradou a forças políticas poderosas, que tramaram e
executaram seu assassinato.
·
Mahatma Gandhi (1869-1948): advogado hindu conhecido pela luta anticolonialista
e pela postura pacifista que adotava em suas manifestações a favor dos direitos
civis. Depois da independência da Índia, foi assassinado por um radical que o
considerava responsável pela fraqueza do novo governo.
·
Martin Luther King (1929-1968): pastor e ativista político estadunidense que
lutou contra o racismo em seu país, o que desagradou as forças conservadoras
locais e resultou em seu assassinato.
· David Wallace-Wells (1982-): jornalista estadunidense, autor do livro A terra inabitável (2019), que apresenta um cenário dramático das consequências do aquecimento global e outras agressões à natureza.
·
Milton Santos (1926-2001): geógrafo brasileiro que desenvolveu pesquisas e
reflexões sobre diversos assuntos, como os efeitos da globalização sobre o
planeta.
·
Suely Rolnik (1948-): filósofa e psicanalista brasileira, autora de Esferas da insurreição (2018), livro no
qual reflete sobre os efeitos da mentalidade colonial-capitalística sobre a sociedade
brasileira.
Comentários
O
título do texto já anuncia seu alvo principal: a tecnologia é a “máquina de
fazer coisas”, base de uma cultura que consome, sobretudo, o meio ambiente.
Para Krenak, o que leva o homem a permanecer
nessa trajetória de destruição ambiental é a sensação de não pertencimento à
natureza. Trata-se de uma impressão injustificada, na medida em que, segundo
narrativas indígenas que tratam da origem da vida, as pessoas pertenciam ao
reino vegetal e animal “antes de se imaginar humano” (p. 51). Nesse trecho, é significativo
o uso da expressão “imaginar”: com ela, Krenak sugere que a condição humana é
apenas uma superfície da identificação do ente, que, na sua profundidade, seria
igual a outros entes que habitam o planeta. Segundo o pensamento indígena,
parte da espécie humana teria perdido a memória dessa origem similar, e esse esquecimento
é que conduziria à agressão da natureza. De sua parte, o autor afirma: “Não
consigo nos imaginar separados da natureza” (p. 58). As imagens que associam
homens a peixes ou árvores não são, para o autor, simples exercícios
metafóricos ou poéticos, mas a tradução literal do pensamento indígena sobre a relação
entre homem e natureza.
Esse
divórcio entre o homem e o meio ambiente no qual vive e do qual depende conduz
à devastação, que tem no aquecimento global uma de suas consequências mais
dramáticas. Uma das fontes citadas por Krenak em seu texto é o livro A terra
inabitável, do jornalista estadunidense David Wallace-Wells, em que ele revela:
É nesse curso que
seguimos a passos céleres – para mais de 4 ºC de aquecimento até o ano de 2100.
Segundo algumas estimativas, isso significaria que regiões inteiras da África,
da Austrália e dos Estados Unidos, partes da América do Sul ao norte da Patagônia
e da Ásia ao sul da Sibéria ficariam inabitáveis devido ao calor direto, à
desertificação e às inundações.
WALLACE-WELLS,
David. A terra inabitável: uma
história do futuro. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Companhia
das Letras, 2019. p. 15.
Diante
desse cenário preocupante, Krenak mantém a crença na capacidade de reação da
espécie humana: “o que estamos passando é uma espécie de ajuste de foco no qual
temos a oportunidade de decidir se queremos ou não apertar o botão da nossa autoextinção”
(p. 58), ou seja, trata-se de um momento de resgate da memória humana, para se
reconectar com suas origens, com o tempo em que éramos todos peixes e árvores.
O
que diferencia o cenário atual de tempos anteriores é a consciência que todos
temos do mal que fazemos ao planeta. Krenak cita o exemplo da exploração do
combustível fóssil: desde os anos 1990, já se tem conhecimento dos riscos
ambientais desse procedimento, mas nenhuma medida eficaz foi tomada no sentido
de seu controle ou diminuição substancial. Atualmente, o consumo desenfreado de
tudo o que é produzido pela “máquina de fazer coisas” leva a destruição do
planeta a níveis de grande risco para a própria humanidade. Para mudar essa
situação, só mesmo uma transformação completa de modo de vida. Em seu texto,
Krenak se propõe a combater o consumismo, afirmando: “Estamos, todos nós,
viciados no novo” (p. 61). Portanto, é fundamental abrir mão do que nos vicia para
podermos salvar o planeta e a nós mesmos. Nesse ponto, o pensamento de Krenak se
assimila ao do líder indígena Davi Kopenawa, do povo Yanomami, que afirma, no
livro A queda do céu, a respeito dos
homens brancos:
Por quererem possuir
todas as mercadorias, foram tomados de um desejo desmedido. Seu pensamento se
esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou-se para todas as outras coisas. Foi
com essas palavras da mercadoria que os brancos se puseram a cortar todas as
árvores, a maltratar a terra e a sujar os rios.
KOPENAWA, Davi;
ALBERT, Bruce. A queda do céu. Tradução
de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 407.
Contudo,
convém esclarecer um aspecto do pensamento de Ailton Krenak que talvez possa
passar despercebido. Ele não se coloca contra o progresso ou a tecnologia, mas,
sim, a favor de um consumo responsável e seletivo, que não esteja fundamentado
na destruição do meio ambiente. O autor sugere que sigamos os exemplos daqueles
que ficaram “de fora desse balaio civilizatório” (p. 73) do mundo tecnológico,
pessoas que “eventualmente consomem alguma coisa do mundo industrial, mas não
são dependentes disso para continuar existindo” (p. 73).
“O amanhã não está à
venda”
Indignação
Estou
na vida
Estou
na guerra
Vivendo
indignação
Fecho
o punho
E
vou à luta
Defender
esta nação
De
vermes e parasitas
Que
infestam nosso chão!
BALBINA,
Zélia. Indignação. Revista Poesia
Indígena Hoje, n. 1, ago, p. 77, 2020.
Fontes
do texto
·
Entrevista a Bertha Maakoroun, “O modo de funcionamento da humanidade entrou em
crise”, jornal Estado de Minas, 3
abr. 2020.
·
Entrevista a William Helal Filho, “Voltar ao normal seria como se converter ao
negacionismo e aceitar que a Terra é plana”, jornal O Globo, 6 abr. 2020.
·
Entrevista a Christiana Martins, “Não sou um pregador do apocalipse. Contra
essa pandemia é preciso ter cuidado e depois coragem”, jornal Expresso, Lisboa, Portugal, 7 abr. 2020.
Síntese
No
contexto da pandemia, Ailton Krenak explicita a condição de isolamento em que
vive com a família na aldeia Krenak, na região do médio Rio Doce, em Minas
Gerais. Com a aldeia toda na mesma situação, o autor declara que pode caminhar
livremente por ali, revelando a dificuldade de fazer um morador de apartamento
entender seu confinamento particular, em meio à mata, podendo respirar ar puro enquanto
cuida de plantações. Krenak revela que o sentimento de pesar trazido pela
pandemia, em função das centenas de mortes, se junta a outro, já experimentado
desde algum tempo pela aldeia: o “luto pelo nosso rio Doce” (p. 78). Ele
recorda que, quando foi consultado por engenheiros a respeito dos projetos de
recuperação do rio com uso de tecnologia, se mostrou cético, dizendo que, para
que tal recuperação fosse eficaz, o ideal seria que toda a atividade humana em
cerca de 100 quilômetros de cada margem do rio fosse interrompida. Perplexos,
os engenheiros disseram que isso seria impossível, porque seria como parar o
mundo. Pois foi exatamente o que a pandemia acabou provocando: “E o mundo
parou” (p. 79).
Essa
paralisação mundial provocada pelo vírus trouxe consigo a ameaça de extinção da
espécie humana, risco a que, aparentemente, apenas as tribos indígenas estavam
submetidas. Para o autor, a experiência pode nos conduzir a uma reflexão para
saber se somos de fato uma humanidade. Embora tenhamos nos acostumado a essa identificação
geral, a devastação do planeta conduziu a fossos de desigualdade entre os
homens, de tal forma a criar “uma sub-humanidade que vive numa grande miséria,
sem chance de sair dela” (p. 80). Krenak se refere a uma declaração de certa
autoridade do governo federal da época, para quem a epidemia não teria consequências
entre os brasileiros, que estariam acostumados até a mergulhar no esgoto sem
consequências sérias para a saúde. A esse respeito, Krenak opina: “É uma mentalidade
doente que está dominando o mundo” (p. 80). Para ele, essa mentalidade, que não
compreende os desdobramentos de uma exploração irresponsável de recursos
naturais, acentua o risco que todo o planeta corre.
Krenak
recorda que os seres humanos são as únicas vítimas da pandemia e essa
circunstância deveria servir de motivação para uma mudança no modo de vida das
sociedades, que deveria começar pela compreensão de que a espécie humana não
ocupa nenhuma posição especial no planeta. Os seres humanos sempre assistiram
com indiferença à sucessiva extinção de espécies animais, continuando a esgotar os recursos
do planeta, agindo de forma ainda mais destruidora que o vírus que ameaçou a
todos. As exceções a atitudes assim são os comportamentos assumidos por
“aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta” (p. 82), designados
pelo autor como “sub-humanidade: caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes” (p.
82). Assim, o autor estabelece uma distinção entre essa “sub-humanidade” e a
“humanidade que integra um clube seleto que não aceita novos sócios” (p. 82),
constituída por aqueles que ignoram os efeitos de suas ações para a saúde do
planeta. Para Krenak, a concepção de uma “humanidade” supôs uma separação em
relação à Terra, como se aquela não fizesse parte desta. Ele, no entanto, acredita
que “tudo é natureza” (p. 83), não havendo lugar, portanto, para esse divórcio
entre o homem e a Terra.
As
grandes corporações do mundo são capazes de criar ambientes artificiais que
ofereçam proteção e conforto. No entanto, para o autor, o fato de o vírus
atacar o sistema respiratório traz lições importantes. Em primeiro lugar, que
precisamos respirar – e, quando poluímos o ar, é essa mesma respiração que fica
ameaçada. Em segundo lugar, que a tecnologia pode resolver os problemas de
poucos, mas não seria possível produzir máquinas de oxigenação para 8 bilhões
de pessoas no planeta. Krenak lembra que o oxigênio é fornecido de graça pela natureza,
sem intermediação de nenhum aparelho, mas se pergunta o que estamos fazendo com
esse presente. A epidemia pode ser vista como a alegoria de uma atitude
materna: a mãe Terra pede ao filho que fique em silêncio por um instante.
O
autor condena a postura daqueles que simplesmente se conformam com as mortes
inevitáveis de pessoas idosas. Para quem assume esse tipo de posição, a
economia deve estar acima de tudo – inclusive da dor provocada por essas
mortes. Krenak, no entanto, argumenta que, quando o ser humano está em risco,
toda atividade humana (como a economia) perde muito de sua importância: “Dizer que
a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a
tripulação” (p. 86). Colocar a economia acima de tudo significa considerar que
o ser humano só é útil enquanto é produtivo. Quando para de produzir, o
indivíduo se transforma em despesa para o Estado, que efetua pagamentos de
aposentadoria por intermédio de instituições previdenciárias. De acordo com
essa lógica, o fato de que os maiores grupos de risco da pandemia foram
constituídos por pessoas idosas seria algo vantajoso para o sistema, porque
eliminaria despesas governamentais, favorecendo a economia.
Um
antídoto para esse tipo de postura seria aquela assumida declaradamente pelo
próprio autor: a integração com o meio ambiente. Krenak revela que sua ligação
com a natureza já o tornou alvo de ridicularização por parte daqueles que não a
compreendem, considerando-a mera alienação da realidade, como se ele vivesse em
um mundo de sonhos. Mas ele defende sua forma de vida, condenando o que
considera uma presunção das pessoas que teimam em programar atividades para
depois e vaticinando: “Temos de parar de vender o amanhã” (p. 88). A pandemia
nos ensinou a parar e a refletir sobre as ações que precisam ser tomadas agora.
Não adianta simplesmente adiar compromissos, porque não se sabe como estaremos no
futuro. É preciso olhar à nossa volta, hoje, “para olharmos para o que
realmente importa” (p. 89). O autor considera a hipótese temerosa de que a
pandemia possa ter ido embora sem provocar nenhuma mudança no coração e no
comportamento dos homens. Por isso, acredita que uma “volta à normalidade” após
o evento seja negativa, na medida em que acredita que seja necessário
transformar essa normalidade, isto é, mudar a maneira como vivemos e nos
relacionamos com o planeta.
Referências
·
Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês, autor de Vigiar e punir (1975), obra na qual, entre outros aspectos, desenvolve
uma reflexão a respeito do processo de submissão dos corpos humanos a um
processo de otimização produtiva.
·
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): poeta brasileiro já citado anteriormente.
Aqui, referido em função da alusão ao poema “cota zero”, do livro Alguma poesia (1930), no qual se refere
ao contraste entre movimento e paralisação no ambiente urbano.
·
Domenico De Masi (1938-2023): filósofo italiano citado pela autoria de um
artigo no qual descreve a situação da Itália durante a pandemia de coronavírus.
·
Albert Camus (1913-1960): escritor franco-argelino, autor do romance A peste
(1947), ambientado em uma cidade assolada por uma peste, citado tanto por De
Masi em seu artigo quanto por Krenak no texto.
Comentários
O
título do texto já anuncia seu tema: o futuro. Como outras elaboradas no livro,
trata-se de uma reflexão construída no contexto da pandemia. O ponto de partida
é o isolamento social solicitado por autoridades sanitárias do mundo inteiro. O
autor declara sua obediência à determinação: “Parei de andar mundo afora,
cancelei compromissos” (p. 77), limitando-se às andanças pelo território de sua
tribo, à beira do Rio Doce. A circunstância serve de ponto de partida para algumas
reflexões. A primeira delas diz respeito à exiguidade do espaço ocupado pelo
povo Krenak, restrito a 4 mil hectares, que, segundo o autor, “deveria ser
muito maior se a justiça fosse feita” (p. 78). A segunda reflexão aponta para a
importância do rio Doce para a região. No livro Uatu Hoom, há uma apresentação sucinta do valor que o rio Doce tem
para os povos originários ali instalados:
[...] o Rio Doce era
o Pai Nosso, que fornecia comida e suporte pra nossa vida, ele era nosso
Patrimônio. E, por isso, nós não tínhamos limite.
KRENAK,
Itamar de Souza Ferreira; ALMEIDA, Maria Inês; alunos de Estudos Temáticos de
Edição (org.). Uata Hoom. Belo
Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG; Cipó Voador, 2009. p. 14.
Embora
sejam reflexões aparentemente secundárias no texto, ambas possuem
desdobramentos importantes. A primeira delas denuncia a situação de
marginalidade em que se encontram os descendentes dos primitivos habitantes do
Brasil. Mais do que uma questão de exiguidade territorial, trata-se de um processo
de esmagamento cultural. Ora, de acordo com o pensamento de Krenak, a mentalidade
indígena, tratada com desprezo pelos homens brancos, seria de fundamental
importância para o enfrentamento das questões ambientais e climáticas que
assolam o planeta.
A
segunda reflexão remete ao estado atual do Rio Doce – note-se que a definição
do rio transcrita acima é feita com verbos no passado: “era o Pai Nosso”;
“fornecia comida e suporte”; “era nosso Patrimônio”. Ainda no livro Uatu Hoom, temos o seguinte registro:
Os córregos secam
devido à falta de mata, por causa da pastagem. Há muito gado nessa região.
[...] Além disso, o desmatamento provocado pelos posseiros contribuiu para
diminuir as nascentes. Depois, o assoreamento [acúmulo de terra, lixo e matéria
orgânica no fundo de um rio] foi socando e solando. Por causa disso, a maioria
das águas da aldeia é contaminada. [...] Há também muito dejeto no Rio Doce.
Consequentemente há muita verminose.
KRENAK,
Itamar de Souza Ferreira; ALMEIDA, Maria Inês; alunos de Estudos Temáticos de
Edição (org.). Uata Hoom. Belo
Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG; Cipó Voador, 2009. p. 63.
Como se vê, trata-se de uma denúncia a respeito dos efeitos da ação do homem branco, responsável pela pecuária e pela poluição. Em seu livro, Ailton Krenak reafirma o sentimento: “Faz algum tempo que nós na aldeia Krenak já estávamos de luto pelo nosso rio Doce” (p. 78).
O
ponto essencial das duas reflexões diz respeito à separação entre homem e
natureza: “Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira
absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória
que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência
e de hábitos” (p. 82). Para o pensador, esse descolamento estaria na matriz dos
problemas enfrentados pela humanidade, entre os quais inclui a pandemia de
coronavírus.
As
polêmicas em torno do isolamento social colocaram em evidência um aspecto
importante da nossa sociedade: a supremacia das questões econômicas e
financeiras sobre a própria existência humana – existência esta que deveria ser
a principal justificativa das mesmas questões. O pensamento de Krenak não nos
permite concluir que ele recuse práticas econômicas, mas ele parte da perspectiva
de que tais práticas deveriam servir ao homem, e não fazer com que as pessoas
sirvam a projetos e sistemas financeiros. Depreende-se que colocar a saúde
humana em segundo plano é colocar a vida em segundo plano.
A
supremacia da dimensão econômica conduz à consideração de que os seres humanos
devem dedicar sua vida exclusivamente à produção, à fabricação – deve-se
transformar, portanto, em uma “máquina de fazer coisas”, já indicada em texto
anterior. Fazendo referência à obra Vigiar e punir, do pensador francês Michel
Foucault, Krenak afirma que a “sociedade de mercado em que vivemos só considera
o ser humano útil quando está produzindo” (p. 87). Segundo essa perspectiva, o
ser humano que perde sua capacidade produtiva deixa de ser relevante. Convém
recordar que, entre os principais grupos atingidos pelo vírus da covid-19
estavam os idosos, considerados improdutivos. Essa circunstância levou a um
raciocínio macabro, referido por Krenak:
O que conhecemos como
Previdência, que existe em todos os países com economia de mercado, tem um
custo. Os governos estão achando que, se morressem todas as pessoas que
representam gastos, seria ótimo. Isso significa dizer: pode deixar morrer os
que integram grupos de risco.
KRENAK, Ailton. O
amanhã não está à venda. In: KRENAK,
Ailton. A vida não é útil. São Paulo:
Companhia das Letras, 2020. p. 87.
O
pensamento que serve de justificativa para estratégias administrativas que
promovem a morte é definido como necropolítica, conceito elaborado pelo
pensador Achille Mbembe e definido como o conjunto de “formas contemporâneas
que subjugam a vida ao poder da morte”. Não se trata de mera abstração: em seu
texto, Krenak faz referência a falas de governantes que afirmaram que o vírus
não atingiria os brasileiros, porque estes nadam em esgotos sem que nada lhes
aconteça, e ainda que, sendo a morte um processo natural para pessoas idosas,
deveriam ser encaradas com naturalidade as mortes causadas pelo vírus. São
posturas reveladoras da necropolítica.
Na
conclusão de seu texto, Krenak se refere a um artigo do pensador italiano
Domenico De Masi, publicado na Folha de
S.Paulo, no qual o autor trata da situação de Roma durante a pandemia. De Masi
cita o romance A Peste, do escritor
franco-argelino Albert Camus. Publicado em 1947, o livro trata de uma epidemia
que atinge a cidade de Oran, na Argélia. Em seu artigo, De Masi cita uma
reflexão do protagonista do romance, Bernard Rieux: “a peste pode vir e ir embora
sem que o coração do homem seja modificado”. O trecho é retomado por Krenak
para explicitar uma de suas preocupações frente aos desdobramentos da pandemia:
que ela não provoque nenhuma modificação substancial na maneira como o ser
humano se relaciona com o planeta. A partir desse temor, Krenak questiona um
desejo generalizado, naquele momento, em que se vislumbrava o fim das
restrições impostas pela pandemia: a volta à normalidade. Ele afirma: “Tomara
que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a
morte de milhares de pessoas no mundo inteiro” (p. 91). Para ele, trata-se de
reelaborar a relação do homem com seu presente, para que possamos reaver a esperança
em um futuro.
O
amanhã que não está à venda, aludido no título, diz respeito, assim, às
possibilidades de futuro de que trata o texto. De um lado, o amanhã daqueles
que desejam vivê-lo, mas que, para isso, devem enfrentar, além da própria
epidemia, a disposição de alguns governos para a morte. De outro lado, o amanhã
da humanidade como um todo, que, para ser promissor, deve se realizar a partir
de uma outra normalidade.
“A vida não é útil”
O
tempo
Quanto
tempo esperar para ver o que os nossos antepassados [viram?
Quanto
tempo esperar?
Quanto
tempo será?
Som
dos rios e pássaros
Resplandecer
na mata iluminada
Crianças
brincando com peixes nas águas limpas às margens [limpas das matas
Quanto
tempo será?
KEREXU,
Juliana. O tempo. Revista Poesia Indígena
Hoje, n. 1, p. 89, ago. 2020.
Fontes do texto
·
Entrevista a Fernanda Santana, “‘Vida sustentável é vaidade pessoal’, diz
Ailton Krenak”, Correio, 25 jan.
2020.
·
Conversa “Como adiar o fim do mundo”, O Lugar, 18 mar. 2020.
·
Live com Jornalistas Livres, 9 jun.
2020.
Síntese
O
texto começa definindo o momento presente como “uma espécie de erosão da vida”
(p. 95). Os homens, criadores de recursos tecnológicos cada vez mais avançados,
são consumidos por eles. Crianças já nascem consumindo “produtos de higiene, fraldas,
tecidos, materiais” (p. 96), objetos de consumo cuja fabricação já impõe um
processo de depredação sobre a natureza. O autor se refere a uma planta que
ganhou de presente, que, “um dia, do meio para o final da tarde” (p. 97), teve
as folhas comidas por formigas. A cena lhe parece uma imagem perfeita daquilo
que os seres humanos fazem com a Terra: eles a comem. O desejo de consumo é
infinito, mas os recursos naturais com os quais esses bens serão produzidos são
finitos. Krenak reconhece que a afirmação de que o planeta está chegando ao fim
pode parecer apocalíptica para muitas pessoas, mas lembra que um dos episódios
da religião dos brancos trata da reação de Deus à maneira como os homens
sujavam o mundo: com o envio de um dilúvio destruidor. Outro mundo foi criado,
mas a mesma humanidade o ocupou e voltou a sujá-lo.
A
destruição do planeta é sentida de perto pelos povos da floresta, que não
encontram mais as espécies que compartilhavam com eles o mesmo espaço: “O mundo
ao redor deles está sumindo” (p. 99).
Esses
povos sentem o fluir da vida na sua integração com a floresta. O autor
considera que, durante milênios, o homem se acostumou a viver na Terra como se
esta fosse “uma esfera composta de elementos que constituem o que chamamos de
natureza – essa abstração” (p. 100). Essa mentalidade produz uma relação
distanciada entre os seres humanos e o planeta. Na escola, os estudantes aprendem
a agir sobre o mundo, mas sempre entendendo-o como algo separado deles. Para o
autor, o aprendizado atual faz do aluno um receptáculo de informações, sem que
se desenvolva o espírito crítico. O aluno aprende na escola que o mundo é algo
separado dele, e, na vida adulta, reproduz esse pensamento, continuando a
degradar o meio em que vive, como se não tivesse nada a ver com ele.
O
autor considera que a pandemia de covid-19 pode levar os pais a repensar a
forma como participam da transmissão do conhecimento aos filhos. A vida moderna
anulou a noção de um saber ancestral, transmitido de geração a geração,
transformando os aprendizes em “ciborgues” (p. 102). A falta desse contato com
a ancestralidade afasta os indivíduos da integração com a natureza. Até mesmo a
propagação atual da ideia de sustentabilidade, para o autor, pode ser mais uma
mistificação se não trouxer mudanças comportamentais efetivas, isto é, se não
descontinuar a tendência ao consumo desenfreado de recursos naturais. Para
Krenak, o risco da propaganda em torno da sustentabilidade é a difusão da ideia
de que o planeta pode ser renovado: “vocês, certamente, vão escutar um bioquímico
ou um engenheiro espertalhão dizendo que tem uma startup que vai jogar um negócio na água, derreter o plástico e
resolver tudo” (p. 105). Por essa perspectiva, que o autor considera uma
“pilantragem” (p. 105), todos podem ter a impressão de que não há nenhum
problema em continuar a se alimentar do planeta. O consumo cotidiano é algo que
já naturalizamos, e nem pensamos mais “de onde vem o que consumimos” (p. 106).
Apenas diante de grandes catástrofes é que essa reflexão começa a surgir com
mais força.
Krenak
recorda o episódio do estouro de uma barragem de contenção de rejeitos de
mineração em Brumadinho (MG), ocorrido em 2019, que provocou a morte de
centenas de pessoas e a necessidade de remoção de povoados inteiros. Ele
afirma, contudo, que os Krenak optaram por continuar no mesmo lugar, à margem
esquerda do rio Doce: “Sabemos que esse lugar foi profundamente afetado, virou
um abismo, mas estamos dentro dele e não vamos sair” (p. 107). O resgate de
pessoas busca reabilitar suas vidas em outro lugar, onde cada um poderá “seguir
operante na vida” (p. 108). Mas isso parte de um pressuposto que Krenak
questiona: a pretensa utilidade da vida. Para ele, “a vida não tem utilidade
nenhuma” (p. 108). A vida é fruição, e muitos teimam em querer reduzi-la a uma
“coreografia ridícula e utilitária” (p. 108). As biografias dos grandes homens
mostram o que eles fizeram de útil. Mas o que importa é “ser radicalmente
vivos” (p. 109), isto é, viver a vida simplesmente, sem conferir a ela nenhum caráter
utilitário. Essa vida sem utilidade pressupõe o usufruto dos recursos naturais
no sentido da própria vida, sem querer encontrar formas de tornar tais recursos
úteis. A pressão para produzir coisas úteis conduz ao desespero existencial e,
por vezes, ao suicídio. O utilitarismo conduz à miséria, à fome e à violência.
Não é o destino natural de ninguém a experiência de tragédias e sofrimentos
coletivos.
A
espiritualidade dos povos primitivos permite a eles encararem Estes índios
vivem mui descansados, não têm cuidado de coisa a vida sem essa carga
utilitária, conduzindo o indivíduo a uma vivência de “silêncio interior” (p.
112). Para os brancos, essa postura corresponde a um “viver à toa” (p. 113),
porque, para eles, viver é trabalhar para realizar algo que tenha utilidade –
e, com esse pensamento em mente, passam a vida a escravizar-se a si mesmos. Os
brancos olham para os indígenas e os veem como cheios de preguiça, refratários
à civilização, quando, na verdade, o comportamento dos povos originários segue
essa concepção não utilitária da vida. Para os brancos, a civilização é parte
do destino humano, como uma etapa que aguardasse a evolução de todos os povos.
Mas o que a civilização traz para o humano, de fato? As cidades construídas são
“como um implante sobre o corpo da Terra” (p. 114), um corpo que deveria ser
respeitado em sua integridade. Assim agem os indígenas, que enxergam na Terra a
sua Mãe, não como expressão poética, mas como concepção existencial.
Por
fim, Krenak se refere ao que considera ser um esquecimento dos brancos. Eles já
viveram como os povos primitivos, mas saíram desse meio e o esqueceram. Assim,
“quando a gente se reencontra, há uma espécie de ira por termos permanecido
fiéis a um caminho aqui na Terra que eles não conseguiram manter” (p. 115). As
mudanças que ocorrem no clima mostram que esses povos primitivos têm muito a
ensinar, a compartilhar. E eles querem fazer isso porque as ameaças advindas da
ação humana atingem todo o planeta. No momento em que produz sua fala, Krenak
reconhece que seu povo atravessa um deserto e, aos pretendem retirá-los desse
lugar, ele afirma que é preciso enfrentar o deserto e atravessá-lo.
Referências
·
Brumadinho: referência ao trágico episódio do rompimento da barragem da
mineradora Vale do Rio Doce, localizada no município de Brumadinho, em Minas
Gerais, em 25 de janeiro de 2019, que provocou a morte de 270 pessoas.
·
Bento Rodrigues: alusão a outro acidente, semelhante ao de Brumadinho, mas
anterior a este, ocorrido em 5 de novembro de 2015, no subdistrito de Bento
Rodrigues, que pertence ao município de Mariana, também em Minas Gerais. O episódio
causou danos ambientais de grandes proporções.
·
Tibete: referência à invasão do território do Tibete por forças militares da
China, em 1950. A contestação do domínio chinês sobre o Tibete vem sendo
liderada por Tenzin Gyatso (1935-), o 14º Dalai-Lama, linhagem de líderes
religiosos do budismo tibetano.
Comentários
No
imaginário social brasileiro, consolidou-se uma imagem do indígena elaborada
pela mentalidade ocidental dos colonizadores de muitas épocas. Segundo essa
imagem, o primitivo habitante do Brasil manifestaria um comportamento avesso ao
trabalho, mostrando-se preguiçoso. Leia-se, por exemplo, o que diz o cronista português
Pero de Magalhães Gândavo, escrevendo no século XVI:
Estes índios vivem
mui cansados, não tem cuidado de coisa alguma se não comer e beber e matar gente;
e por isso são mui gordos em extremo.
GÂNDAVO,
Pero de Magalhães. Tratado da Terra do
Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980. p. 57.
No
século XIX, essa concepção ainda estava presente, como podemos ver nas palavras
que o pesquisador alemão Von Martius, em visita ao Brasil, usou para se referir
ao indígena:
Permanecendo em grau
inferior da humanidade, moralmente, ainda na infância, a civilização não o
altera, nenhum exemplo o excita e nada o impulsiona para um nobre
desenvolvimento progressivo.
VON MARTIUS, Carl F.
P. O estado do direito entre os
autóctones do Brasil. Tradução Alberto Lofgren. Belo Horizonte: Itatiaia;
São Paulo: Edusp, 1982. p. 11.
Parte
dessa construção equivocada está relacionada à resistência dos povos
originários à escravidão a que os colonizadores queriam submetê-los. No texto
de Ailton Krenak, temos outra explicação para esse suposto comportamento. Para
o autor, o homem branco “não consegue conviver com a ideia de viver à toa no
mundo” (p. 113), usufruindo a vida, sem reduzi-la a um movimento constante no
sentido da produção e do consumo. Os indígenas rejeitam essa prática, razão pela
qual os homens brancos “ficam horrorizados com isso, e dizem que somos
preguiçosos, que não queremos nos civilizar” (p. 113).
De acordo com o pensamento branco – que o autor taxa de “vazio” (p. 113) –, a existência humana se reduz a produzir e consumir, atitudes que confeririam utilidade a ela. Krenak mostra que essa convicção faz com que os brancos deixem rastros na Terra desde o momento em que nascem, com o consumo de “produtos de higiene, fraldas, tecidos” (p. 96). Em contraposição às pesadas marcas deixadas pelos brancos, o pensador afirma que os indígenas deixam marcas leves, porque não se dedicam diariamente a consumir o planeta. A destruição provocada por essas práticas não é imediatamente percebida pelos habitantes da cidade: estes obtêm tudo de que necessitam em supermercados, farmácias e outros locais, onde os produtos que consomem podem ser encontrados com facilidade, bastando estender as mãos e apanhá-los. Já entre os indígenas, a realidade é bem diferente: eles precisam caçar para obter sua comida; precisam buscar na floresta as ervas com as quais elaboram seus medicamentos. Por isso, são esses povos que se ressentem mais imediatamente da escassez de recursos naturais, na medida em que eles assistem à destruição da natureza em seu próprio espaço.
Para
Krenak, a construção dessa mentalidade de utilitarismo de produção e consumo
começa já na escola, que ele entende ser um instrumento de reprodução de ideias
preconcebidas, sem que se dê oportunidade aos alunos de construir uma visão
crítica a respeito do próprio comportamento – e da própria instituição escolar.
Mas Krenak não exime os pais de responsabilidade nesse processo: “Os pais
renunciaram a um direito, que deveria ser inalienável, de transmitir o que
aprenderam” (p. 102). Dessa forma, os jovens perdem a noção de ancestralidade,
que seria essencial para entenderem as próprias origens. Supõe-se, a partir do
pensamento de Krenak, que, para ele, sem esse tipo de transmissão de
conhecimento, as crianças e os jovens desenvolvem um espírito imediatista, de
vida exclusivamente no presente – sem referências do passado e sem preocupações
com o futuro.
No
livro escrito em parceria com Bruce Albert, A
queda do céu, o xamã yanomami Davi Kopenawa conta sua própria experiência: “No
começo, quando eu era bem jovem, nunca ouvi os brancos falarem em proteger a
natureza. Foi muito mais tarde, quando fiquei bravo e comecei a discursar
contra os garimpeiros e suas epidemias, que essas novas palavras chegaram de
repente aos meus ouvidos” – expressões que Kopenawa define como “palavras da
ecologia”. Assim como Kopenawa, Ailton Krenak também não aceita que essas “palavras
de ecologia” sejam apenas isso, palavras, sem que se transformem em ação
efetiva. Mas Krenak vai ainda mais longe em sua crítica. Para ele, “a ideia de
sustentabilidade [é] uma vaidade pessoal” (p. 103). Essa postura de Krenak
indica um aspecto fundamental de seu pensamento: a tendência ao questionamento
constante, mesmo das decisões que parecem corretas e justas – e daí vem o caráter
iluminador de seus textos. Krenak esclarece sua posição: práticas de
sustentabilidade, quando tomadas isoladamente, satisfazem apenas o ego de quem
as pratica, mas não exercem efeitos consistentes e duradouros. Se tal comportamento
ecológico se limita a essa dimensão particular, é, para ele, apenas manifestação
de “egoísmo” (p. 104), pois a degradação da natureza exige que todos assumam
posturas protecionistas, sem as quais não haverá salvação, nem individual, nem
coletiva.
Como
alternativa de vida, Krenak propõe “desacelerar nosso uso de recursos naturais”
(p. 97). Isso significa diminuir a ânsia de produção e consumo que fundamentam
o mundo ocidental. O autor recorda que, na tradição bíblica, existe o episódio
da Arca de Noé, que pode ser entendido como um momento em que Deus determinou
uma desaceleração da vida humana, tendo em vista um ressurgimento em outras
bases. Se, para o pensamento branco ocidental, a utilidade da vida consiste em
produzir e consumir, o que o texto de Krenak sugere é a prática de uma vida
desprovida dessa utilidade, para dirigir a potência humana para o que realmente
interessa na existência: a fruição da vida.
Estilo
Durante
a pandemia de covid-19, foi decretado o isolamento social. Nessas
circunstâncias, alguns mecanismos foram criados para permitir a conexão entre as
pessoas, mesmo que a distância. Professores e palestrantes recorreram às lives, transmissões ao vivo de áudio e
vídeo feitas por intermédio da internet. Jornalistas também usaram esse tipo de
comunicação a distância para realizar suas entrevistas. Os textos que compõem o
livro A vida não é útil foram organizados
a partir de transcrições de lives e
entrevistas de Ailton Krenak. Uma das marcas mais fortes do estilo dos textos é
definida em função da forma como foram produzidos: trata-se da oralidade.
Contudo,
as circunstâncias históricas explicam apenas em parte a adoção da oralidade
como marca discursiva. Na verdade, as raízes dessa estratégia se encontram na cultura
indígena, na qual a comunicação e a transmissão orais são bastante comuns. De
uma perspectiva eurocêntrica, o letramento é um item essencial da cultura, o
que acaba por acarretar um processo de silenciamento de povos e culturas cuja
transmissão de saber é feita por meio da oralidade.
Outro
recurso ocasionalmente explorado pelo autor é a ironia, quando, por exemplo,
ele satiriza a presunção humana de superioridade sobre outros entes do planeta:
“Ora, se a principal marca dos humanos é se distinguir do resto da vida
terrestre, isso nos aproxima mais da ficção científica que defendo que os
humanos que estão habitando a Terra não são daqui” (p. 55).
Mas
o aspecto fundamental da estratégia expositiva de Krenak é o desapego pela
retórica acadêmica. Seu estilo se distancia do texto teórico de caráter
ensaístico, com desenvolvimento argumentativo mais cerrado e repleto de
citações. E essa opção também é proposital: Krenak quer, justamente, colocar-se
como voz dissonante, desconstruindo conceitos estabelecidos – como se nota, por
exemplo, na forma como se refere às iniciativas isoladas de sustentabilidade,
em “A vida não é útil” (p. 103-104). Dessa forma, ele questiona as posições
assumidas por governos e sociedades administradas por brancos e propõe que se
dê voz aos povos originários

