18 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: MORANGOS MOFADOS (2)

 


QUESTÃO 1

1. Considere os seguintes contos de Morangos mofados:

1. “Pera, uva ou maçã?”

2. “Diálogo”

3. “Aqueles dois”

4. “Terça-feira gorda”

5. “O dia que Júpiter encontrou Saturno”

6. “Além do ponto”

 

Os temas da homofobia, da busca existencial e da dificuldade de comunicação são centrais, respectivamente, nos contos referidos pelos números:

a) 4, 6 e 2.

b) 3, 1 e 4.

c) 1, 2 e 5.

d) 5, 6 e 3.

 

QUESTÃO 2

No conto “Diálogo”, coloca-se em destaque:

a) o poder de informação implícito na troca de ideias entre os dois falantes.

b) a dimensão monológica, que funde os indivíduos que estabelecem a conversação.

c) o esforço de cada enunciador no sentido de persuadir o outro de suas opiniões pessoais.

d) a busca de estabelecimento de parâmetros para o código de comunicação entre os personagens.

 

- Textos para a questão 3 -

Texto 1

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. [...]

ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 41. 

Texto 2

[...] mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca.

ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 44.

 

QUESTÃO 3

Os trechos transcritos correspondem ao início e ao fim do conto “Além do ponto”, de Morangos mofados. O recurso da repetição, nesses casos, cria o efeito de:

a) continuidade e ruptura.

b) intensidade e frequência.

c) constância e alternância.

d) instabilidade e desequilíbrio.

 

- Texto para a questão 4 -

Terça-feira gorda

Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

ABREU, Caio Fernando. Terça-feira gorda. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 54.

 

QUESTÃO 4

a) O teor crítico do conto “Terça-feira gorda” está na adoção de imagens estereotipadas de homossexuais nos papéis protagonistas. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.

b) Analise o sentido que a expressão “por acaso” assume no trecho.

 

- Texto para a questão 5 -

Pera, uva ou maçã?

Rói as unhas no momento em que abro a porta, a bolsa comprimida contra os seios. Como sempre, penso, ao deixá-la passar, cabeça baixa, para sentar-se no mesmo lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre. Fecho a porta, caminho até a poltrona à sua frente, sento, cruzo as pernas, tendo antes o cuidado de suspender as calças para que não se formem aquelas desagradáveis bolsas nos joelhos. Espero algum tempo. Ela não diz nada. Parece olhar fixamente as minhas meias. Tiro devagar os cigarros do bolso esquerdo do paletó, apanho um com a ponta dos dedos, sem tirar o maço do bolso, e fico batendo o filtro no braço da poltrona enquanto procuro o isqueiro no bolso pequeno da calça. Antes de acendê-lo, penso mais uma vez que não deveria usar esses isqueiros plásticos descartáveis. Alguém me disse que não-são-degradáveis-e-que--eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica. Não consigo lembrar quem, quando, nem onde ou por quê. Rodo o isqueiro maligno entre os dedos, depois acendo o cigarro. [...]

ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 113.

 

QUESTÃO 5

Responda às questões.

a) Nos contos de Caio Fernando Abreu, há alusões explícitas ou implícitas a outros gêneros textuais, como os roteiros de cinema ou de teatro. Você concorda com essa afirmação? Ela pode ser aplicada ao trecho transcrito? Justifique sua resposta.

b) Nesse trecho, há um conjunto de palavras separadas umas das outras por traços: “não-são-degradáveis-e-que-eu-deve-ria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica”. Explique o uso de traços nesse fragmento.

 

- Texto para a questão 6 -

O dia que Júpiter encontrou Saturno

– Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada ao meu lado, olhando de perfil.

– Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.

– Vamos nos ver?

– No teu chá. No meu chá.

ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 141-142.

 

QUESTÃO 6

a) A última linha do trecho sugere um encontro entre os personagens, que viria a acontecer em condições especiais. Explique essas condições.

b) Que relação se estabelece entre o encontro definido no trecho e o conto como um todo?

 

- Texto para a questão 7 -

Aqueles dois

Não chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um a menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de arquitetura.

ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 145-146.

 

QUESTÃO 7

O trecho revela que os protagonistas do conto:

a) coincidem intimamente ao assumirem os próprios sentimentos, mas não conseguem exteriorizá-los de forma a realizar a união amorosa.

b) logo se percebem apaixonados um pelo outro, enfrentando a reação dos colegas de trabalho, representantes de uma postura social mais conservadora.

c) não identificam de imediato a natureza dos sentimentos que os une, ao contrário das pessoas de seu entorno, que logo passam a tratá-los de maneira estigmatizada.

d) reagem, por meio da expressão livre dos seus sentimentos, à posição de marginalização social que lhes é imposta pelos colegas de trabalho.

 

 

QUESTÃO 8

Observe as imagens, leia o texto a seguir e responda à questão.

 


(Life Magazine. The Kiss at Times Square. Fotografia de Alfred Eisenstaedt. Dia da Vitória em 1945.)

 


Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O que, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O que, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

Adaptado de: ABREU, C. F. Terça-feira gorda. In: ABREU, C. F. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 51.)

 

A obra Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu, caracteriza-se por conter:

a) discussões referentes à alta cultura, com destaque para a incorporação de formas literárias tradicionais.

b) referências à guerrilha dos anos 60, em sintonia com o contexto político da época.

c) artifícios narrativos modernos, tais como a desindividuação nominal e diálogos dinâmicos.

d) cenas de forte violência sexual, responsáveis, inclusive, pela má recepção crítica da obra do autor.

e) personagens com nomes fortes a fim de reforçar a presença da violência nos contos.

 

- Texto para a questão 9 -

Diálogo

A: Você é meu companheiro.

B: Hein?

A: Você é meu companheiro, eu disse.

B: O quê?

A: Eu disse que você é meu companheiro.

B: O que é que você quer dizer com isso?

A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.

B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.

A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranoico.

ABREU, Caio Fernando. Diálogo. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 17.

 

QUESTÃO 9

Responda às questões.

a) O livro Morangos mofados foi publicado originalmente em 1982. Naquele momento, a expressão “companheiro” apresentava sentidos específicos, tanto no âmbito das relações sociais quanto nas relações íntimas. Explicite esses sentidos.

b) Em cada um desses casos, o que justifica a impressão manifesta por um dos interlocutores, de que o outro estaria sendo “paranoico”? Como essa impressão se relaciona com a atmosfera geral do livro de Caio Fernando Abreu?

 

- Texto para a questão 10 -

Além do ponto

[...] não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, tudo o que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar [...].

ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 42.

 

QUESTÃO 10

Responda ao que se pede.

a) Um dos recursos presentes na narrativa moderna é a fragmentação, entendida como a condução não linear do discurso literário. Como esse recurso aparece no fragmento?

b) No trecho, também se nota uma concepção fragmentária do personagem. Indique como esse aspecto se evidencia no texto.

 

QUESTÃO 11

Na cultura brasileira, o Carnaval é concebido como um espaço de transgressão, de alegria exuberante. Em que medida o conto “Terça-feira gorda” reproduz essa impressão geral? 

 

- Texto para a questão 12 -

Pera, uva ou maçã?

[...] – Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão bonitas e tão vermelhas que pedi um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada e daí eu pensei assim se comprar essas ameixas agora vou ter que voltar a pé para casa mas que importa volto a pé mesmo pode ser até que acorde um pouco e aquela coisa lá longe volte pra perto de mim e então eu vinha caminhando devagarinho as ameixas eu não conseguia parar de comer sabe já tinha comido acho que umas seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um caixão de defunto do sobrado amarelo na esquina certo acho que era um caixão cheio quer dizer com defunto dentro porque ia saindo e não entrando certo e foi bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu tropecei no caixão e as ameixas todas caíram assim paf! na calçada e foi aí que eu reparei naquelas pessoas todas de preto e óculos escuros e lenços no nariz e uma porrada de coroas de flores devia ser um defunto muito rico certo e aquele carro fúnebre ali parado e só aí eu entendi que era um velório. [...]

ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 117.

 

QUESTÃO 12

a) Levando em conta o percurso figurativo do texto, indique as imagens contrastantes presentes nele.

b) Considerando o enredo como um todo, explique como a imagem das ameixas se relaciona ao título do conto.

 

- Textos para a questão 13 -

Texto 1

Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodca, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de junco junto à janela. [...]

ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 137.

 

Texto 2

Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. [...]

ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 143.

 

QUESTÃO 13

Os trechos reproduzidos sugerem um desencontro. Essa circunstância se relaciona ao título do conto na medida em que:

a) a narrativa sugere que o encontro em questão pode ter ocorrido em uma dimensão alternativa.

b) o encontro entre os personagens só ocorreria em uma nova confluência de astros.

c) os planetas aludidos servem de metáfora para os personagens que se encontram.

d) demarca uma ocorrência única, que serve de moldura para a história de um grande amor.

 

- Texto para a questão 14 -

Aqueles dois

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica psiquiátrica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos nas janelas, a camisa branca de um e a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai! alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 154.


QUESTÃO 14

a) O desfecho do conto “Aqueles dois” indica que, a despeito de diferentes formas de pensamento, os destinos dos protagonistas e dos seus colegas de repartição são semelhantes. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.

b) O uso da expressão “Ai-ai!” denuncia certo comportamento por parte de quem a utiliza. Indique esse comportamento.

 

 

 

1. a

2. d

3. b

4. a) Não. O estereótipo do homossexual corresponde a caricaturas idealizadas pelo preconceito de pessoas não homossexuais, que, no conto, são os agressores dos dois homens, que são livres para demonstrar seus afetos. O trecho “Eu era apenas um corpo [...] de homem gostando de outro corpo” confirma essa liberdade em relação ao desejo.

b) O conto “Terça-feira gorda” trata do envolvimento amoroso entre dois indivíduos. Na narrativa, o fato de serem ambos do mesmo gênero é apenas uma circunstância, na medida em que o essencial, nesse encontro, é a atração física que sentem um pelo outro. A expressão “por acaso” é usada para reafirmar a casualidade dessa coincidência de gêneros.

5. a) Sim, a afirmação é pertinente, inclusive no que diz respeito ao trecho transcrito. Nele, temos a definição de atitudes dos personagens, como gestos e posicionamentos, o que corresponde às orientações que constam de roteiros teatrais ou cinematográficos (as rubricas).

b) O uso de traços para separar as palavras serve, no conto, para tornar o conjunto uma síntese da fala dos ecologistas, que condenam o hábito do médico de utilizar “isqueiros plásticos descartáveis”. Nesse sentido, a referência feita é carregada de ironia, evidenciando o desprezo do enunciador por esse tipo de postura.

6. a) No trecho, os personagens comprometem-se a se encontrar em seus respectivos chás. Os chás referidos, ayahuasca e datura, são substâncias alucinógenas, o que é confirmado no trecho pela forma como cada personagem verá o outro depois de sorver o chá: “ver você egípcia” e “ver você tuaregue”.

b) O conto traz um diálogo entre um rapaz e uma moça. No entanto, a narrativa sugere que esse diálogo se deu em uma dimensão diferente da realidade vivida por cada um deles. Assim, o próprio diálogo ocorre em uma condição de suspensão da realidade, o que remete ao efeito produzido pelo consumo dos chás referidos.

7. c

8. c

9. a) Nas relações sociais, a expressão “companheiro” remetia a um parceiro ideológico, sendo um tratamento comum entre pessoas que se posicionavam à esquerda no espectro político. Nas relações íntimas, ainda é um termo usual para se referir a um(a) parceiro(a) amoroso(a), sem necessária união formal, via casamento, por exemplo.

b) No âmbito social, a “paranoia”, naquele período, se justificava pela perseguição sofrida, à época, por todos aqueles que se manifestavam contrários às orientações do governo militar, o que era comum entre militantes de esquerda. No âmbito das relações íntimas, o uso da expressão “companheiro” insinuava uma relação homoafetiva, o que ia contra a moral conservadora e preconceituosa. O uso da expressão “paranoico” se relaciona a outras narrativas do livro na medida em que, em seu conjunto, esses textos recuperam o clima de medo que então se vivia no país, além da busca pela liberdade de expansão dos próprios sentimentos, independentemente de questões de gênero e afetividade.

10. a) No texto, a fragmentação narrativa se mostra nas idas e vindas provocadas pelas impressões que o enunciador tem do mundo que o cerca e da situação que vive, como se revela no trecho final: “Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça [...] tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente”.

b) A fragmentação do personagem, no trecho, se mostra na apresentação de um enunciador dividido entre o que é e o que quer parecer que é: “e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, [...] pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, [...] talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era”.

11. Como o título indica, o conto se passa no último dia das festas carnavalescas. No enredo, dois homens se encontram e trocam carícias durante um baile de carnaval. Essa atitude pode ser considerada transgressora, na medida em que se opõe ao pensamento do período e desperta o preconceito daqueles que representam o pensamento conservador. Em seu desfecho, a narrativa contrasta a alegria carnavalesca com a tristeza trágica da violência física sofrida pelos dois protagonistas.

12. a) O texto estabelece uma relação de oposição entre as ameixas “tão bonitas e tão vermelhas”, que remetem a uma ideia de vigor e vitalidade, e as “pessoas todas de preto e óculos escuros”, que simbolizam a morte, associada ao velório do qual participam.

b) O título do conto alude a uma brincadeira infantil, na qual uma pessoa tinha seus olhos vendados por outra, que, apontando sucessivamente para outros participantes da brincadeira, solicitava que a pessoa escolhesse um deles e, em seguida, uma das frutas, que representavam uma aproximação física gradativa: pera para aperto de mão, uva para abraço e maçã para beijo na boca. A ameixa representaria um degrau a mais nessa escala, o que sugeriria uma relação mais íntima – um beijo de língua, por exemplo.

13. a

14. a) A afirmação não é procedente. Raul e Saul foram demitidos da repartição em função do preconceito dos colegas a respeito da natureza da relação que mantinham entre si. O primeiro parágrafo do trecho mostra que eles se retiram do lugar “mais altos e mais altivos”, isto é, tranquilos em relação a quem são. O segundo parágrafo mostra o que acontece com os colegas de repartição, que, depois de sua atitude preconceituosa e excludente, experimentam uma infelicidade permanente.

b) Trata-se de uma atitude que expressa uma postura de estigmatização e de preconceito quanto à homoafetividade.




COMMUNICATIVE APPROACH

Name given to a set of beliefs which included not only a re-examination of what aspects of language to teach, but also a shift in emphasis i...