QUESTÃO 1
1.
Considere os seguintes contos de Morangos mofados:
1.
“Pera, uva ou maçã?”
2.
“Diálogo”
3.
“Aqueles dois”
4.
“Terça-feira gorda”
5.
“O dia que Júpiter encontrou Saturno”
6.
“Além do ponto”
Os
temas da homofobia, da busca existencial e da dificuldade de comunicação são
centrais, respectivamente, nos contos referidos pelos números:
a)
4, 6 e 2.
b)
3, 1 e 4.
c)
1, 2 e 5.
d)
5, 6 e 3.
QUESTÃO 2
No
conto “Diálogo”, coloca-se em destaque:
a)
o poder de informação implícito na troca de ideias entre os dois falantes.
b)
a dimensão monológica, que funde os indivíduos que estabelecem a conversação.
c)
o esforço de cada enunciador no sentido de persuadir o outro de suas opiniões
pessoais.
d)
a busca de estabelecimento de parâmetros para o código de comunicação entre os
personagens.
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Textos para a questão 3 -
Texto 1
Chovia,
chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem
guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma
garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse
jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e
um maço de cigarros molhados no bolso. [...]
ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 41.
Texto 2
[...]
mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava
parado naquela porta fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que
eu não conseguiria nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra
coisa, outra ação, outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo
batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta
porta que não abre nunca.
ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos
mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 44.
QUESTÃO 3
Os
trechos transcritos correspondem ao início e ao fim do conto “Além do ponto”,
de Morangos mofados. O recurso da repetição, nesses casos, cria o efeito de:
a)
continuidade e ruptura.
b)
intensidade e frequência.
c)
constância e alternância.
d)
instabilidade e desequilíbrio.
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Texto para a questão 4 -
Terça-feira gorda
Na
minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o
movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo,
voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos
molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no
meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a
mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é
gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso
era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também.
Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê,
perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era
de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.
ABREU, Caio Fernando. Terça-feira gorda. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia
das Letras, 2019. p. 54.
QUESTÃO 4
a)
O teor crítico do conto “Terça-feira gorda” está na adoção de imagens
estereotipadas de homossexuais nos papéis protagonistas. Você concorda com essa
afirmação? Justifique sua resposta.
b)
Analise o sentido que a expressão “por acaso” assume no trecho.
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Texto para a questão 5 -
Pera, uva ou maçã?
Rói
as unhas no momento em que abro a porta, a bolsa comprimida contra os seios.
Como sempre, penso, ao deixá-la passar, cabeça baixa, para sentar-se no mesmo
lugar, segundas e quintas, dezessete horas: como sempre. Fecho a porta, caminho
até a poltrona à sua frente, sento, cruzo as pernas, tendo antes o cuidado de suspender
as calças para que não se formem aquelas desagradáveis bolsas nos joelhos.
Espero algum tempo. Ela não diz nada. Parece olhar fixamente as minhas meias.
Tiro devagar os cigarros do bolso esquerdo do paletó, apanho um com a ponta dos
dedos, sem tirar o maço do bolso, e fico batendo o filtro no braço da poltrona
enquanto procuro o isqueiro no bolso pequeno da calça. Antes de acendê-lo, penso
mais uma vez que não deveria usar esses isqueiros plásticos descartáveis.
Alguém me disse que não-são-degradáveis-e-que--eu-deveria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica.
Não consigo lembrar quem, quando, nem onde ou por quê. Rodo o isqueiro maligno
entre os dedos, depois acendo o cigarro. [...]
ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia
das Letras, 2019. p. 113.
QUESTÃO 5
Responda
às questões.
a)
Nos contos de Caio Fernando Abreu, há alusões explícitas ou implícitas a outros
gêneros textuais, como os roteiros de cinema ou de teatro. Você concorda com
essa afirmação? Ela pode ser aplicada ao trecho transcrito? Justifique sua resposta.
b)
Nesse trecho, há um conjunto de palavras separadas umas das outras por traços:
“não-são-degradáveis-e-que-eu-deve-ria-ter-uma-atitude-um-pouco-mais-ecológica”.
Explique o uso de traços nesse fragmento.
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Texto para a questão 6 -
O dia que Júpiter
encontrou Saturno
– Vou tomar chá de ayahuasca e ver você
egípcia. Parada ao meu lado, olhando de perfil.
– Vou tomar chá de datura e ver você
tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
– Vamos nos ver?
– No teu chá. No meu chá.
ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou
Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia
das Letras, 2019. p. 141-142.
QUESTÃO 6
a)
A última linha do trecho sugere um encontro entre os personagens, que viria a
acontecer em condições especiais. Explique essas condições.
b)
Que relação se estabelece entre o encontro definido no trecho e o conto como um
todo?
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Texto para a questão 7 -
Aqueles dois
Não
chegaram a usar palavras como especial, diferente ou qualquer coisa assim.
Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro
minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções,
nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais
ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um a menos.
Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras.
Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um
noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de arquitetura.
ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos
mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 145-146.
QUESTÃO 7
O
trecho revela que os protagonistas do conto:
a)
coincidem intimamente ao assumirem os próprios sentimentos, mas não conseguem
exteriorizá-los de forma a realizar a união amorosa.
b)
logo se percebem apaixonados um pelo outro, enfrentando a reação dos colegas de
trabalho, representantes de uma postura social mais conservadora.
c)
não identificam de imediato a natureza dos sentimentos que os une, ao contrário
das pessoas de seu entorno, que logo passam a tratá-los de maneira
estigmatizada.
d)
reagem, por meio da expressão livre dos seus sentimentos, à posição de
marginalização social que lhes é imposta pelos colegas de trabalho.
QUESTÃO 8
Observe
as imagens, leia o texto a seguir e responda à questão.
(Life Magazine. The Kiss at Times Square. Fotografia de Alfred Eisenstaedt. Dia da Vitória em 1945.)
Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O que, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O que, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.
Adaptado de: ABREU, C. F. Terça-feira gorda. In: ABREU, C. F. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 51.)
A
obra Morangos mofados, de Caio
Fernando Abreu, caracteriza-se por conter:
a)
discussões referentes à alta cultura, com destaque para a incorporação de
formas literárias tradicionais.
b)
referências à guerrilha dos anos 60, em sintonia com o contexto político da
época.
c)
artifícios narrativos modernos, tais como a desindividuação nominal e diálogos
dinâmicos.
d)
cenas de forte violência sexual, responsáveis, inclusive, pela má recepção
crítica da obra do autor.
e)
personagens com nomes fortes a fim de reforçar a presença da violência nos
contos.
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Texto para a questão 9 -
Diálogo
A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro.
Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranoico.
ABREU, Caio
Fernando. Diálogo. In: ABREU, Caio
Fernando. Morangos mofados. São
Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 17.
QUESTÃO 9
Responda
às questões.
a)
O livro Morangos mofados foi
publicado originalmente em 1982. Naquele momento, a expressão “companheiro”
apresentava sentidos específicos, tanto no âmbito das relações sociais quanto
nas relações íntimas. Explicite esses sentidos.
b)
Em cada um desses casos, o que justifica a impressão manifesta por um dos
interlocutores, de que o outro estaria sendo “paranoico”? Como essa impressão
se relaciona com a atmosfera geral do livro de Caio Fernando Abreu?
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Texto para a questão 10 -
Além do ponto
[...]
não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele
pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui
pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé
naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que
ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter
cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim,
quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu
andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, tudo o que eu andava fazendo
e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me
deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não
quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma
coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que
eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de
voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum,
ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava
atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar [...].
ABREU, Caio Fernando. Além do ponto. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos
mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 42.
QUESTÃO 10
Responda
ao que se pede.
a)
Um dos recursos presentes na narrativa moderna é a fragmentação, entendida como
a condução não linear do discurso literário. Como esse recurso aparece no
fragmento?
b)
No trecho, também se nota uma concepção fragmentária do personagem. Indique
como esse aspecto se evidencia no texto.
QUESTÃO 11
Na cultura brasileira, o Carnaval é concebido como um espaço de transgressão, de alegria exuberante. Em que medida o conto “Terça-feira gorda” reproduz essa impressão geral?
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Texto para a questão 12 -
Pera, uva ou maçã?
[...]
– Foi então que vi aquelas ameixas e achei tão bonitas e tão vermelhas que pedi
um quilo e era minha última grana certo porque meus pais não me dão nada e daí
eu pensei assim se comprar essas ameixas agora vou ter que voltar a pé para
casa mas que importa volto a pé mesmo pode ser até que acorde um pouco e aquela
coisa lá longe volte pra perto de mim e então eu vinha caminhando devagarinho
as ameixas eu não conseguia parar de comer sabe já tinha comido acho que umas
seis estava toda melada quando dobrei a esquina aqui da rua e ia saindo um
caixão de defunto do sobrado amarelo na esquina certo acho que era um caixão
cheio quer dizer com defunto dentro porque ia saindo e não entrando certo e foi
bem na hora que eu dobrei não deu tempo de parar nem de desviar daí então eu
tropecei no caixão e as ameixas todas caíram assim paf! na calçada e foi aí que
eu reparei naquelas pessoas todas de preto e óculos escuros e lenços no nariz e
uma porrada de coroas de flores devia ser um defunto muito rico certo e aquele carro
fúnebre ali parado e só aí eu entendi que era um velório. [...]
ABREU, Caio Fernando. Pera, uva ou maçã? In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia
das Letras, 2019. p. 117.
QUESTÃO 12
a) Levando em conta o percurso figurativo do texto, indique as imagens contrastantes presentes nele.
b)
Considerando o enredo como um todo, explique como a imagem das ameixas se
relaciona ao título do conto.
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Textos para a questão 13 -
Texto 1
Foi
a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos,
sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico
com vodca, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os
dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos
outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos
quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de
junco junto à janela. [...]
ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou
Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia
das Letras, 2019. p. 137.
Texto 2
Foi
a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber
sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na
mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga.
Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que
assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à
porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros
apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. [...]
ABREU, Caio Fernando. O dia que Júpiter encontrou Saturno. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 143.
QUESTÃO 13
Os
trechos reproduzidos sugerem um desencontro. Essa circunstância se relaciona ao
título do conto na medida em que:
a)
a narrativa sugere que o encontro em questão pode ter ocorrido em uma dimensão
alternativa.
b)
o encontro entre os personagens só ocorreria em uma nova confluência de astros.
c)
os planetas aludidos servem de metáfora para os personagens que se encontram.
d)
demarca uma ocorrência única, que serve de moldura para a história de um grande
amor.
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Texto para a questão 14 -
Aqueles dois
Mas
quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma
clínica psiquiátrica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos
nas janelas, a camisa branca de um e a azul do outro, estavam ainda mais altos
e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois
apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai! alguém
gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.
Pelas
tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um
enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em
paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que
seriam infelizes para sempre. E foram.
ABREU, Caio Fernando. Aqueles dois. In: ABREU, Caio Fernando. Morangos
mofados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 154.
QUESTÃO 14
a)
O desfecho do conto “Aqueles dois” indica que, a despeito de diferentes formas
de pensamento, os destinos dos protagonistas e dos seus colegas de repartição
são semelhantes. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.
b)
O uso da expressão “Ai-ai!” denuncia certo comportamento por parte de quem a
utiliza. Indique esse comportamento.
1. a
2. d
3. b
4. a) Não. O estereótipo do
homossexual corresponde a caricaturas idealizadas pelo preconceito de pessoas
não homossexuais, que, no conto, são os agressores dos dois homens, que são
livres para demonstrar seus afetos. O trecho “Eu era apenas um corpo [...] de
homem gostando de outro corpo” confirma essa liberdade em relação ao desejo.
b) O conto “Terça-feira gorda”
trata do envolvimento amoroso entre dois indivíduos. Na narrativa, o fato de
serem ambos do mesmo gênero é apenas uma circunstância, na medida em que o
essencial, nesse encontro, é a atração física que sentem um pelo outro. A expressão
“por acaso” é usada para reafirmar a casualidade dessa coincidência de gêneros.
5. a) Sim, a afirmação é
pertinente, inclusive no que diz respeito ao trecho transcrito. Nele, temos a
definição de atitudes dos personagens, como gestos e posicionamentos, o que
corresponde às orientações que constam de roteiros teatrais ou cinematográficos
(as rubricas).
b) O uso de traços para separar as
palavras serve, no conto, para tornar o conjunto uma síntese da fala dos
ecologistas, que condenam o hábito do médico de utilizar “isqueiros plásticos
descartáveis”. Nesse sentido, a referência feita é carregada de ironia,
evidenciando o desprezo do enunciador por esse tipo de postura.
6. a) No trecho, os personagens
comprometem-se a se encontrar em seus respectivos chás. Os chás referidos,
ayahuasca e datura, são substâncias alucinógenas, o que é confirmado no trecho
pela forma como cada personagem verá o outro depois de sorver o chá: “ver você
egípcia” e “ver você tuaregue”.
b) O conto traz um diálogo entre
um rapaz e uma moça. No entanto, a narrativa sugere que esse diálogo se deu em
uma dimensão diferente da realidade vivida por cada um deles. Assim, o próprio
diálogo ocorre em uma condição de suspensão da realidade, o que remete ao
efeito produzido pelo consumo dos chás referidos.
7. c
8. c
9. a) Nas relações sociais, a
expressão “companheiro” remetia a um parceiro ideológico, sendo um tratamento
comum entre pessoas que se posicionavam à esquerda no espectro político. Nas
relações íntimas, ainda é um termo usual para se referir a um(a) parceiro(a) amoroso(a),
sem necessária união formal, via casamento, por exemplo.
b) No âmbito social, a “paranoia”,
naquele período, se justificava pela perseguição sofrida, à época, por todos
aqueles que se manifestavam contrários às orientações do governo militar, o que
era comum entre militantes de esquerda. No âmbito das relações íntimas, o uso da
expressão “companheiro” insinuava uma relação homoafetiva, o que ia contra a
moral conservadora e preconceituosa. O uso da expressão “paranoico” se
relaciona a outras narrativas do livro na medida em que, em seu conjunto, esses
textos recuperam o clima de medo que então se vivia no país, além da busca pela
liberdade de expansão dos próprios sentimentos, independentemente de questões de
gênero e afetividade.
10. a) No texto, a fragmentação
narrativa se mostra nas idas e vindas provocadas pelas impressões que o
enunciador tem do mundo que o cerca e da situação que vive, como se revela no
trecho final: “Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça [...] tive
vontade de voltar para algum lugar seco e quente”.
b) A fragmentação do personagem,
no trecho, se mostra na apresentação de um enunciador dividido entre o que é e
o que quer parecer que é: “e eu não queria que ele pensasse que eu andava
insone, e eu andava, [...] pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao
dentista, e eu andava, [...] talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era
eu, e eu era”.
11. Como o título indica, o conto
se passa no último dia das festas carnavalescas. No enredo, dois homens se
encontram e trocam carícias durante um baile de carnaval. Essa atitude pode ser
considerada transgressora, na medida em que se opõe ao pensamento do período e
desperta o preconceito daqueles que representam o pensamento conservador. Em
seu desfecho, a narrativa contrasta a alegria carnavalesca com a tristeza
trágica da violência física sofrida pelos dois protagonistas.
12. a) O texto estabelece uma
relação de oposição entre as ameixas “tão bonitas e tão vermelhas”, que remetem
a uma ideia de vigor e vitalidade, e as “pessoas todas de preto e óculos
escuros”, que simbolizam a morte, associada ao velório do qual participam.
b) O título do conto alude a uma
brincadeira infantil, na qual uma pessoa tinha seus olhos vendados por outra,
que, apontando sucessivamente para outros participantes da brincadeira,
solicitava que a pessoa escolhesse um deles e, em seguida, uma das frutas, que representavam
uma aproximação física gradativa: pera para aperto de mão, uva para abraço e
maçã para beijo na boca. A ameixa representaria um degrau a mais nessa escala,
o que sugeriria uma relação mais íntima – um beijo de língua, por exemplo.
13. a
14. a) A afirmação não é procedente. Raul e Saul foram demitidos da repartição em função do preconceito dos colegas a respeito da natureza da relação que mantinham entre si. O primeiro parágrafo do trecho mostra que eles se retiram do lugar “mais altos e mais altivos”, isto é, tranquilos em relação a quem são. O segundo parágrafo mostra o que acontece com os colegas de repartição, que, depois de sua atitude preconceituosa e excludente, experimentam uma infelicidade permanente.
b) Trata-se de uma atitude que
expressa uma postura de estigmatização e de preconceito quanto à
homoafetividade.



