19 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A VIDA NÃO É ÚTIL (2)

 



QUESTÃO 01

Leia o texto para responder.

Quando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos baleia, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade – que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições –, foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos os que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade – alguns de nós fazemos parte dela.

KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 9-10. 

a) Em seu texto, Krenak manifesta concordância com o conceito de Homo sapiens. Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta.

b) A concepção de progresso apresentada pelo autor possui valor positivo ou negativo? Justifique sua resposta.

 

QUESTÃO 02

Leia o trecho a seguir de A vida não é útil e responda aos itens.

[...] O meu povo, assim como outros parentes, tem essa tradição de suspender o céu. Quando ele fica muito perto da terra, há um tipo de humanidade que, por suas experiências culturais, sente essa pressão. Ela é sazonal, aqui nos trópicos essa proximidade se dá na entrada da primavera. Então é preciso dançar e cantar para suspendê-lo, para que as mudanças referentes à saúde da Terra e de todos os seres aconteçam nessa passagem. Quando fazemos o taru ande, esse ritual, é a comunhão com a teia da vida que nos dá potência.

Suspender o céu é ampliar os horizontes de todos, não só dos humanos. Trata-se de uma memória, uma herança cultural do tempo em que nossos ancestrais estavam tão harmonizados com o ritmo da natureza que só precisavam trabalhar algumas horas do dia para proverem tudo que era preciso para viver. Em todo o resto do tempo você podia cantar, dançar, sonhar: o cotidiano era uma extensão do sonho.

KRENAK, Ailton. Sonhos para adiar o fim do mundo. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 45-46.

 

a) No contexto da cultura indígena, qual é o efeito da “suspensão do céu” para a relação do homem com a natureza?

b) Com base nessa concepção, o que provocaria a impressão oposta, a de que o céu estaria “muito perto da terra”?

 

- Texto para a questão 3 -

O que há para ser celebrado no fato de que podemos falar numa live para 3 mil ou 4 mil pessoas por um aparelhinho que é produto de uma civilização que está comendo a Terra para fazer brinquedos? Só que a Terra é um organismo muito maior que nós, muito mais sábio e poderoso, e nós, seu brinquedo mais inútil. A Terra pode nos desligar tirando nosso ar, não precisa nem fazer barulho.

KRENAK, Ailton. A máquina de fazer coisas. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 59-60.

 

QUESTÃO 03

Responda, com base na leitura do texto:

a) De acordo com as concepções expressas pelo autor no livro do qual foi extraído o trecho, que sentido adquire a expressão “brinquedos”, aplicada aos produtos da civilização?

b) Com base nessas mesmas concepções, o que explica a forma como o narrador se refere ao ser humano, considerado por ele o “brinquedo mais inútil” da Terra?

 

QUESTÃO 04

Usando suas próprias palavras, explique a distinção feita pelo autor no trecho a seguir.

[...] Existe, então, uma humanidade que integra um clube seleto que não aceita novos sócios. E uma camada mais rústica e orgânica, uma sub-humanidade, que fica agarrada na Terra. Eu não me sinto parte dessa humanidade. Eu me sinto excluído dela.

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 82. 

 

- Texto para a questão 5 -

Durante milhares de anos, em diferentes culturas, fomos induzidos a imaginar que os humanos podiam agir impunemente sobre o planeta e fomos reduzindo esse organismo maravilhoso a uma esfera composta de elementos que constituem o que chamamos de natureza – essa abstração.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 100.

 

QUESTÃO 05

Com base na leitura dos textos recolhidos em A vida não é útil, explique o que leva o autor a considerar a natureza uma “abstração”.

 

QUESTÃO 06

Leia com atenção e responda aos itens.

[...] a concentração de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar, sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuímos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo.

KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 14.

 

a) A expressão “santo graal” alude à imagem mística de um cálice no qual teria sido recolhido o sangue de Cristo, após a crucificação, e que teria a capacidade de promover milagres. Que sentido essa expressão assume no texto?

b) A que se refere o autor no trecho “quando diminuímos o ritmo”? E quem compõe a “casta de humanoides” citada por ele? Como essas duas expressões se relacionam ao sentido geral do texto “Não se come dinheiro”? 

 

- Texto para a questão 7 -

Alguns povos têm um entendimento de que nossos corpos estão relacionados com tudo o que é vida, que os ciclos da Terra são também os ciclos dos nossos corpos. Observamos a terra, o céu e sentimos que não estamos dissociados dos outros seres.

KRENAK, Ailton. Sonhos para adiar o fim do mundo. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 45.

 

QUESTÃO 07

O trecho participa da concepção geral dos textos de A vida é útil, na medida em que:

a) a cultura indígena serve de antídoto para os males da civilização, razão pela qual os povos primitivos devem se manter em estado pré-civilizacional.

b) cabe ao ser humano que vive nas florestas o controle da atividade econômica, para que esta possa servir aos reais interesses da coletividade.

c) a concepção de uma integração entre homem e natureza evidencia que a destruição do planeta é também a autodestruição do homem.

d) afirma a necessidade urgente de uma mudança no conceito de “utilidade”, que envolva o aproveitamento racional e otimizado dos recursos naturais. 

 

QUESTÃO 08

A ciência avançou tanto que as pessoas acham que não precisam mais morrer. Continuamos usando todos os artifícios da tecnologia, da ciência, para endossar a fantasia de que todo mundo vai ter comida, todo mundo vai ter geladeira, todo mundo vai ter leito hospitalar e todo mundo vai morrer mais tarde. Isso é uma falsificação da vida. A ciência e a tecnologia acham que a humanidade não só pode incidir impunemente sobre o planeta como será a última espécie sobrevivente e a única a decolar daqui quando tudo for pelo ralo.

Ailton Krenak. A vida não é útil, 2020. Adaptado.

A situação criticada pelo filósofo e líder indígena Ailton Krenak é fruto de uma visão de mundo decorrente do pensamento moderno, qual seja,

a) o mecanicismo cartesiano.

b) o idealismo hegeliano.

c) o transcendentalismo kantiano.

d) o jusnaturalismo lockiano.

e) o existencialismo sartriano.

 

- Texto para a questão 9 -

Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade e nos alienamos desse organismo de que somos parte, a Terra, passando a pensar que ele é uma coisa e nós, outra, a Terra e a humanidade.

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 83.

 

QUESTÃO 09

Levando em conta os textos presentes em A vida não é útil, é correto afirmar que o trecho expressa um conceito geral:

a) que o autor elabora de forma aprofundada, ao conceber a alienação entre homem e realidade social.

b) desprezado pelo autor, que propõe uma distinção entre os indígenas e outras comunidades.

c) que o autor atribui a crenças ancestrais, transmitidas como verdades desde a infância dos indígenas.

d) do qual discorda o autor, na medida em que defende outra relação do homem com seu entorno.

 

- Texto para a questão 10 -

[...] Aquela orientação de pisar suavemente na terra de forma que, pouco depois de nossa passagem, não seja mais possível rastrear nossas pegadas está se tornando impossível: nossas marcas estão ficando cada vez mais profundas.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 95-96.

 

QUESTÃO 10

De acordo com a afirmação do autor, que atitudes definiriam o “pisar suavemente na terra” e o pisar que deixa marcas “cada vez mais profundas”?

 

 

 

 

1.

a) Não. A expressão Homo sapiens designa o homem moderno; ao pé da letra, o termo significa “homem que pensa”. Para Krenak, não há sabedoria na prática humana de extermínio dos seres à sua volta. O autor afirma que o ser humano é, na verdade, uma “ameba gigante”, isto é, um ser desprovido de vida racional.

b) A concepção de progresso apresentada no trecho é negativa, na medida em que é excludente, isto é, deixa à margem uma parcela considerável da população que não usufrui de seus benefícios.

2. a) A suspensão do céu representa, para os indígenas, o resultado de um esforço – marcado por danças e rituais – no sentido de diminuir a pressão que o céu exerce sobre a Terra. Com essa suspensão, essa pressão é apaziguada e a relação entre homem e natureza volta a ser harmoniosa.

b) A imagem da queda do céu é usada por algumas culturas indígenas para representar o temor de uma pressão muito grande do céu sobre a Terra, correspondente a um período de desarmonia na relação entre homem e natureza, ou seja, um momento de exploração desenfreada das riquezas naturais.

3. a) Para o autor, os produtos elaborados pela civilização resultam de uma atitude de exploração dos recursos naturais, em nome de satisfações superficiais de desejos, suscitados mais por um espírito de consumo do que por reais necessidades humanas. Assim, tais produtos não seriam essenciais para a sobrevivência da espécie, razão pela qual ele os reduz à condição de meros “brinquedos”.

b) Assim como a civilização é responsável pela produção de brinquedos, a Terra é responsável pela criação do homem, que seria, então, seu brinquedo. No entanto, ao desenvolver atividades predatórias, o homem se mostra um brinquedo que não traz nada de efetivamente útil para o planeta.

4. O autor distingue o que chama de “humanidade” do que designa como “sub-humanidade”. A humanidade seria constituída exclusivamente por um “clube seleto” correspondente ao grupo de elites financeiras e políticas do planeta, que “não aceita novos sócios” porque quer manter a concentração de poder em suas mãos. Já a sub-humanidade seria composta por uma parcela “mais rústica e orgânica”, que permaneceria “agarrada na Terra”: seriam aqueles que se ligam mais diretamente à natureza e buscam preservá-la, porque é dela que extraem sua sobrevivência e a ela estão ligados culturalmente, como ocorre, por exemplo, com os povos originários.

5. Em seus textos, Ailton Krenak rejeita a concepção de uma natureza separada do ser humano, como instância exterior a este. Para o autor, homem e natureza formam uma única dimensão, e é isso o que o leva a entender como abstração a existência de uma natureza autônoma.

6. a) No texto, a expressão é usada de forma irônica pelo autor. Ela alude a supostos poderes mágicos que seriam necessários para impedir que a concentração de renda provocasse a implosão da vida no planeta.

b) A diminuição de ritmo da vida cotidiana, a que se refere o trecho, aponta para o período da pandemia de covid-19, que atingiu todo o planeta entre os anos de 2020 e 2023. As medidas de isolamento social, principalmente entre 2020 e 2021, obrigaram uma parte da população mundial a permanecer em casa, o que representou uma desaceleração do ritmo geral da vida. A “casta de humanoides” corresponde à elite financeira do mundo, detentora do controle de grandes corporações financeiras, comerciais e de comunicação. As duas expressões se relacionam diretamente ao sentido geral de “Não se come dinheiro”, na medida em que se trata de um texto que reúne falas do autor produzidas durante a pandemia que dirigem críticas ao comportamento daqueles que só pensam em satisfazer as próprias necessidades de acumulação e de ganho, sem se importar com as consequências dessa prática para o meio ambiente.

7. c

8. a

9. d

10. O pisar suavemente seria definido por uma relação harmoniosa com o meio ambiente, de forma a não esgotar suas riquezas. Já o pisar que deixa marcas “cada vez mais profundas” seria aquele caracterizado pela exploração dessas riquezas de forma desorganizada.




INTRODUÇÃO À OBRA: A VIDA NÃO É ÚTIL (2)

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