15 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A PAIXÃO SEGUNDO G. H. (2)

 


QUESTÃO 1

Clarice Lispector é conhecida por sua expressividade devido à introspecção profunda, à linguagem poética, ao uso do fluxo de consciência, à exploração de temas universais e à narrativa subjetiva.

[...] Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação a: ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra – como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 11.

 

No excerto, a base da expressividade usada pela autora se encontra:

a) no distanciamento deliberado da voz narrativa dos conflitos internos, mas que, ao mesmo tempo, transmite certa angústia existencial.

b) no exame filosófico e detalhado para explicar a complexidade da relação com a própria identidade e com o parceiro amoroso da narradora.

c) na narrativa fragmentada, imitando possíveis perturbações psicológicas que refletem traumas antigos em sua vida.

d) no aprofundamento do autoconhecimento da personagem, que enfrenta seus medos e suas incertezas sobre a vida e revela sua luta interna e introspecção.

e) na dinâmica de comunicação interrompida entre os parceiros amorosos, que se manifesta como o principal elemento gerador da expressividade, de maneira que a falta de entendimento mútuo justifica o medo da própria existência.

 

QUESTÃO 2

Clarice Lispector ocupa um lugar destacado na Literatura Brasileira. Em sua obra estão presentes as seguintes características:

a) intimismo, introspecção, temática urbana.

b) temática urbana, folclore, moralidade.

c) subjetividade, temática agrária, religiosidade.

d) psicologismo, regionalismo, ruralismo.

e) tradicionalismo, romantismo, intimismo.

 

QUESTÃO 3

O romance de Clarice Lispector:

a) pode ser considerado uma realização ficcional ilustrativa das propostas teóricas do movimento feminista.

b) é representante autêntico da crítica de costumes, pois nele há uma bem-humorada análise da sociedade urbana em transformação.

c) é marcado pelo uso intensivo da metáfora, pela entrega ao fluxo da consciência e pela ruptura com o enredo factual.

e) tem sempre um forte conteúdo político-social, a partir da denúncia da opressão em que vivem as personagens.

QUESTÃO 04

Para responder às perguntas que seguem, leia com atenção o trecho abaixo.

Então, antes de entender, meu coração embranqueceu como cabelos embranquecem.

De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 45.

 

a) Nos textos de Clarice Lispector, é bastante comum que um evento trivial acabe se tornando uma experiência perturbadora e transformadora para os personagens. No caso do romance A paixão segundo G.H., explique que tipo de preocupações o incidente mencionado no trecho provoca na vida da protagonista.

b) De que maneira a interação com a barata simboliza a jornada introspectiva vivida pela narradora?

 

QUESTÃO 5

Leia o trecho abaixo:

Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.

 

O fragmento, extraído da obra de Clarice Lispector, apresenta:

a) uma reflexão sobre o processo de criação literária.

b) uma postura racional, antissentimental, triste e recorrente na literatura dessa fase.

c) traços visíveis da sensibilidade, característica presente na 2ª fase modernista.

d) a visão da autora, sempre preocupada com o valor da mulher na sociedade.

e) exemplos de neologismo, característica comum na 3ª fase modernista.

 

QUESTÃO 6

Clarice Lispector se dizia uma escritora “sentidora”. O termo se justifica porque Clarice:

I. registrava impressões, ideias e sentimentos, guiando-se pelo fluxo da consciência.

II. sondava a mente das personagens, privilegiando assim a sequência das ações e suas causas.

III. separava com rigor os mundos interno e externo das personagens, a imaginação e a realidade.

 

A análise das afirmativas nos permite afirmar corretamente que:

a) apenas I é verdadeira.

b) apenas II é verdadeira.

c) apenas III é verdadeira.

d) I e II são verdadeiras.

e) I e III são verdadeiras.

 

QUESTÃO 7

Em uma narração, o fluxo de ideias ou de consciência é uma técnica que consiste em reproduzir, de forma contínua e não linear, pensamentos, emoções e impressões de um personagem, os quais guiam a narrativa e o desenvolvimento da história. Esse tipo de técnica é característica marcante de muitas obras de Clarice Lispector, como exemplificado no trecho a seguir, retirado da obra A paixão segundo G.H.

Fiquei quieta. Minha respiração era leve, superficial. Eu tinha agora uma sensação de irremediável. E já sabia que, embora absurdamente, eu só teria ainda chance de sair dali se encarasse frontal e absurdamente que alguma coisa estava sendo irremediável. Eu sabia que tinha de admitir o perigo em que eu estava, mesmo consciente de que era loucura acreditar num perigo inteiramente inexistente. Mas eu tinha de acreditar em mim – a vida toda eu estivera como todo o mundo em perigo – mas agora, para poder sair, eu tinha a responsabilidade alucinada de ter de saber disso.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 49.

 

Com base na leitura atenta do trecho anterior, explique qual é a intenção da autora ao empregar esse tipo de narração em suas obras e por que o interlocutor se mantém envolvido nesse tipo de leitura.

 

QUESTÃO 8

Uma das mais importantes obras da literatura contemporânea é o livro A metamorfose (1915), de Franz Kafka. Nele, o leitor é apresentado a Gregor Samsa, personagem que, logo no início da narrativa, acorda metamorfoseado em um monstruoso inseto, semelhante a uma barata. Apesar de seu esforço para lidar com a situação, a repentina transformação o leva a enfrentar o abandono e a repulsa de sua família, o que culmina em um fim solitário. Por meio desse protagonista-inseto, Kafka tenciona mostrar muito mais que uma transformação física; ele apresenta profundas reflexões internas sobre a natureza humana e a identidade pessoal, como as dificuldades decorrentes das expectativas familiares e sociais, a perda da identidade e o modo como a sociedade ignora e destrói aqueles que não se encaixam nas normas estabelecidas.

Podemos perceber, portanto, um interessante paralelo temático entre a obra de Kafka e o romance A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Sabendo disso, leia o excerto abaixo para responder ao que se pede.

Perdão é um atributo da matéria viva.

– Vê, meu amor, vê como por medo já não consigo mexer nesses elementos primários do laboratório sem logo querer organizar a esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu tinha e o que eu tinha era eu – só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. p. 65.

 

Considerando o trecho lido e as informações a respeito da obra de Franz Kafka, compare a experiência de transformação interna vivida por G.H., em A paixão segundo G.H., com a transformação física de Gregor Samsa. Com base no uso do simbolismo representado pelo inseto, nas duas obras, discuta como as experiências vivenciadas por cada um dos personagens refletem a busca por autoconhecimento e identidade, destacando suas semelhanças e diferenças.

 

 

 

1. D

2. A

3. C

4. O incidente com a barata — um evento trivial e doméstico — quebra a rotina organizada e a visão de mundo da protagonista, G.H. O encontro provoca uma crise existencial, trazendo à tona o medo do inumano e do desconhecido. A barata, ao ser vista de perto, desestabiliza a identidade da narradora, fazendo-a questionar o "paraíso" da sua vida burguesa, confortável e superficial. O incidente provoca, portanto, uma necessidade de encarar sua própria essência desnudada de convenções sociais, levando a uma desorganização de si mesma para uma possível, embora dolorosa, reintegração.

b) A interação com a barata simboliza o confronto com o "outro" e com o que é inumano (o grotesco, o atávico, o absoluto) que reside dentro da própria narradora. No trecho, o grito abafado no peito representa o silêncio interior e o terror diante do "vivo" nojento. O movimento da barata na meia escuridão e a proximidade com o rosto da narradora simbolizam a quebra das barreiras entre o "eu" (humano) e o "não-eu" (a natureza/a barata), forçando G.H. a uma jornada de desconstrução da própria humanidade e à aceitação de uma nova forma de existência, mais primária e crua.

5. E

6. A

7. Clarice Lispector usa o fluxo de ideias para mergulhar na mente dos personagens, revelando emoções e conflitos internos. No trecho apresentado, essa técnica cria tensão emocional, envolvendo o leitor ao fazê-lo sentir e refletir com a personagem. O leitor se mantém atraído pela identificação com as dúvidas e com os medos da personagem, pois são temas universais comuns a todos os seres humanos.

8. No romance A metamorfose, de Franz Kafka, Gregor Samsa se transforma fisicamente em um inseto, que simboliza a perda da identidade e a rejeição social. Essa metamorfose expõe a superficialidade e a hipocrisia das relações humanas, já que, inicialmente, Gregor é o provedor da casa, mas, após sua transformação, ele se torna um fardo ao perder sua utilidade. Em contraste, em A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, o encontro de G.H. com a barata provoca uma profunda transformação interna. Nesse caso, a barata é um catalisador para a introspecção, fazendo G.H. enfrentar seus medos e questionar a própria essência. Enquanto Kafka enfatiza a alienação social, Clarice foca na interioridade. A barata, em ambas as obras, representa uma verdade desconfortável sobre a busca por autoconhecimento e identidade.






ARGUMENTOS DE FILMES

  Adaptado de: https://www.instagram.com/p/DTNvg62AEYZ/?igsh=Mm5jeGU4bTZtNWw3