Introdução
Machado de Assis:
dados biográficos
Um bruxo no Cosme
Velho
Rua
Cosme Velho, 513: um dos endereços mais famosos do Rio de Janeiro. É até lá que
milhares de pessoas vão todos os dias, para subir o Corcovado e conhecer o
Cristo Redentor. Mas existe, nesse mesmo lugar do Rio, um tesouro que poucos
conhecem. Caminhando em direção ao centro, há, ainda na rua Cosme Velho, do
lado esquerdo, uma pequena placa, que chama a atenção de poucos.
Não
se trata de um museu. Aliás, mal chega a ser um ponto turístico. É apenas a
indicação de que naquele lugar, em uma casa que nem existe mais, o maior
escritor brasileiro, Joaquim Maria Machado de Assis, viveu grande parte de sua
vida.
Nascido
no Morro do Livramento, de família pobre, neto de escravos alforriados, Machado
de Assis, sem praticamente nunca ter saído da cidade do Rio de Janeiro e mesmo
vivendo em um país escravocrata e pouco desenvolvido, conseguiu demonstrar uma
consciência crítica imensa sobre as contradições da sociedade do século XIX, o
que o coloca ao lado dos grandes escritores europeus do período.
Os
críticos literários brasileiros são praticamente unânimes em apontar Machado
como nosso maior prosador realista, nosso mais importante romancista e, talvez,
o nome mais lúcido de nossa cultura. Harold Bloom, célebre crítico
estadunidense, vai mais longe e, em seu livro Gênio: os 100 autores mais criativos da História da Literatura,
classifica Machado como “o maior literato negro surgido até o presente”,
concluindo:
Machado de Assis é
uma espécie de milagre, mais uma demonstração de autonomia do gênio literário,
quanto a fatores como tempo e lugar, política e religião, e todo o tipo de
contextualização que supostamente produz a determinação dos talentos humanos.
Essa
ideia de Bloom é provavelmente a mesma que levou Roberto Schwarz, grande
especialista em Machado de Assis, a nomear um dos seus livros com o título de Machado de Assis: um mestre na periferia do
capitalismo.
Todos
os elogios recebidos por Machado ao longo dos anos, que não foram poucos,
culminaram com um poema de Carlos Drummond de Andrade em sua homenagem,
intitulado “A um bruxo, com amor” e publicado em A vida passada a limpo.
Drummond ajudou, com esses versos, a consolidar o apelido de “bruxo do Cosme
Velho” para Machado. E essa bruxaria é uma maneira poética de figurativizar
como o escritor carioca, autor de Memórias
póstumas de Brás Cubas, tornou--se um mestre do discurso.
De
toda a vasta obra do polígrafo Joaquim Maria Machado de Assis, foram seus
textos em prosa – principalmente os romances – que sempre mereceram maior
atenção da crítica e dos leitores. Essa atenção não foi gratuita: muito provavelmente,
é nesse gênero que encontramos os pilares do que se convencionou chamar estilo
machadiano. Ao todo, Machado escreveu nove romances: Ressurreição (1872), A mão e
a luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom
Casmurro (1899), Esaú e Jacó
(1904) e Memorial de Aires (1908).
De todos esses romances, aquele que parece congregar o maior número de inovações literárias é Memórias póstumas de Brás Cubas. Trata-se de um romance revolucionário, que funcionou como um verdadeiro divisor de águas na carreira do autor. Com efeito, as Memórias póstumas, pela ironia, pelo narrador morto, pelos jogos verbais e gráficos, pelas digressões, pelas conversas ora ácidas, ora amigáveis com o leitor, talvez constituam a experiência estética mais radical da obra machadiana. Em nenhum outro texto – romance, conto, crônica, teatro ou poesia – Machado procurou ser tão inovador.
Memórias de um morto
Antes do enredo: os
indícios do que virá
Geralmente,
um livro de memórias é uma autobiografia – narrada, portanto, em primeira
pessoa por alguém que resolve revisitar os acontecimentos mais importantes de
sua vida. Seguindo essa definição, Memórias póstumas vincula-se a essa tradição
memorialista. Mas isso não ocorre de modo tão evidente.
Embora
o romance seja considerado o primeiro livro realista da literatura brasileira,
Machado vai muito além do Realismo, no sentido estrito do termo. Em vez de apenas
observar a realidade, buscando o máximo efeito de objetividade, o romance não
abandona a fantasia como princípio de construção literária, mostrando que é possível
compatibilizar perspectiva crítica e imaginação artística. Vejamos como isso se
dá.
Em
princípio, Memórias póstumas de Brás
Cubas é um romance escrito por Machado de Assis e narrado por Brás Cubas,
que assume também o papel de protagonista da narrativa. Porém, as coisas não são
tão simples assim. Na maioria das edições brasileiras de Memórias póstumas, há um prólogo, chamado “Prólogo da quarta
edição”, assinado por Machado de Assis, em que, além de anunciar pequenas emendas
no texto, ele responde a algumas dúvidas de críticos literários sobre o
romance. Trata-se de um discurso metalinguístico, por meio do qual “Machado”
apresenta o narrador Brás Cubas.
Vamos
usar o nome do escritor entre aspas porque não se trata da pessoa, de carne e
osso, que escreveu a obra. Na verdade, esse “Machado” também é uma entidade
ficcional, chamada tecnicamente de enunciador, que, no caso das Memórias póstumas, está acima do
narrador Brás Cubas, comandando efetivamente a construção literária.
Esse
tipo de jogo discursivo é comum no gênero “prólogo”: é como se o enunciador
interviesse para deixar claro que o narrador Brás Cubas não possui autonomia discursiva.
Mas, logo após o prólogo, vem uma advertência – que na maioria das edições
consultadas se intitula “Ao leitor” –, assinada já por Brás Cubas, que se
apresenta não só como narrador, mas também como o “autor” do romance.
É
curioso notar que, no prólogo, aparecem diversos indícios para mapear o estilo
machadiano a partir das Memórias,
como as citações literárias, a referência ao leitor, o humor e o pessimismo.
Desse modo, temos uma situação complexa:
1.
“Machado” apresenta algumas características do romance, aproximando-se assim do
narrador.
2.
“Machado” faz questão de dizer que não vai “entrar na crítica de um defunto”,
afastando-se assim do narrador.
Na
advertência do romance, Brás Cubas reconhece algumas de suas influências
estéticas, como Lawrence Sterne e Xavier de Maistre. Essas referências, aliás,
já tinham sido apresentadas por “Machado” no prólogo. Esses dois escritores
podem ser considerados revolucionários na história da literatura, e o fato de
“Machado” e o narrador citarem-nos é um indício do caráter de inovação das Memórias póstumas.
Após
as referências literárias introdutórias, Brás faz um pequeno comentário sobre a
própria obra, em um exercício de metalinguagem muito comum durante a narrativa:
Obra de finado.
Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever
o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas
aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu
romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos
frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
(Ao leitor)
MACHADO DE
ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000215.pdf.
Acesso em: 11 jun. 2025.5
Nessa
passagem, retomam-se o “risonho” e o “sentimento amargo e áspero” do prólogo
por meio das figuras da “pena da galhofa” e da “tinta da melancolia”, e
inicia-se – o que é muito comum na obra – uma interlocução com os presumíveis
leitores. Essa união entre o humor “risonho” da “galhofa” e o pessimismo
“amargo e áspero” da “melancolia” é uma das características mais importantes do
estilo machadiano, que se manifesta com mais clareza nas Memórias póstumas do que em qualquer outra obra.
Essa
conversa com o “leitor”, que já mostra Brás Cubas não disposto a “angariar as
simpatias da opinião”, é um indício de que o narrador, por estar morto (afinal,
o romance é “obra de finado”), estabelecerá muitas vezes uma relação
conflituosa com quem o lê.
Terminada
a advertência, vem a famosa dedicatória aos vermes decompositores, também de
“autoria” de Brás. Só então se sai desse preâmbulo, e o romance propriamente
dito, a narrativa em si, começa.
Nessa
narrativa, como já dissemos, Brás Cubas não tem autonomia. É “Machado” quem
está controlando todas as bravatas enunciativas de Brás. Além disso, o fato de
Brás ser um defunto, que, morto, do além-túmulo, resolve “expedir alguns magros
capítulos para esse mundo” (cap. LXXI), vincula a obra a uma tradição literária
que tem menos preocupação com as representações fidedignas da realidade.
Para
comprovar essa vinculação programada do romance à fantasia, ao efeito de
ficcionalidade, basta ler seu primeiro capítulo, intitulado “Óbito do autor”.
Uma narrativa memorialista a começar com acontecimento tão estranho como a
morte do protagonista serve para deixar bem claro que a obra não tem
compromisso com a literatura realista-naturalista tradicional do século XIX.
Aliás,
essa postura lembra, inevitavelmente, algumas características da sátira menipeia, gênero literário cuja
realização mais completa se deu na obra de Luciano de Samósata. É um verdadeiro
lugar--comum da crítica literária que se debruçou sobre a obra de Machado a fim
de apontar as semelhanças entre ele e a tradição luciânica.
O
professor Jacyntho Lins Brandão defende que a obra de Luciano, principalmente o
célebre Diálogos dos mortos, propõe
uma fusão “do sério e do cômico”, na tentativa de “pensar o mundo com olhar estrangeiro”.
Esse efeito de afastamento permite ao texto, por mais contraditório que pareça,
produzir um efeito de verdade, já que os mortos – ou qualquer outro tipo de
“estrangeiro” – podem falar da vida com a autoridade de quem bem a conhece,
como os vivos, e com o distanciamento de quem dela se afastou, como os mortos.
É por isso que
Diálogos dos mortos,
provavelmente a obra de Luciano mais lida em todos os tempos, são [...] um
vasto painel em que se misturam personalidades de épocas e lugares diferentes
[...], com personagens consagradas pela mitologia e pela literatura, além de
gente normal, num ininterrupto diálogo que é ininterrupto justamente porque é
pós-vida. Cada uma das peças, em sua fragmentária completude que lembra a de um
videoclipe, soma-se num mosaico de falas independentes tanto quanto
interdependentes não sobre os mortos, mas sobre os vivos. São instantâneos que
se deslocam sem perder de vista um objetivo bem definido: a crítica social.
Tomando
como referência “O delírio” (cap. VIII), “O velho diálogo de Adão e Eva” (cap.
LV) ou “O Humanitismo” (cap. CXIII), só para recorrer aos exemplos mais
evidentes, fica difícil não reconhecer a relação entre Memórias póstumas e Diálogos
dos mortos. Nesses capítulos (“em sua fragmentária completude que lembra a
de um videoclipe”), sob a égide da fantasia literária ou de uma espécie de “maravilhoso”
moderno, a obra machadiana se aproxima da tradição luciânica, sugerindo que o
enunciador do romance tenha recebido influências dos gêneros do sério-cômico, principalmente
no que tange à liberdade narrativa e discursiva. Com efeito, o sério-cômico e,
mais especificamente, a sátira menipeia estão livres das lendas e não estão
presos a uma verossimilhança externa, pois se caracterizam justamente pela
liberdade de criação artística.
No
contexto da literatura do século XIX, essas exigências de verossimilhança
externa eram fundamentais quanto mais se celebrava a necessidade de a obra de
arte representar a “realidade”. Nesse sentido, as Memórias são um conjunto de transgressões, de deformações, de
rupturas.
O
prólogo de “Machado”, a advertência de Brás, a dedicatória aos vermes e o
primeiro capítulo do romance podem ser tomados, por um lado, como uma negação
às “exigências de verossimilhança” do Realismo-Naturalismo e, por outro, como a
comprovação de que uma literatura satírica sempre esconde, por trás dos efeitos
de humor, um objetivo crítico. É um Realismo de essência, não de forma.
Nesse
romance, há notáveis absurdos narrativos (o morto que fala, o delírio em que se
conversa com Pandora, o diálogo entre os pensamentos de Brás e Virgília, as
loucuras filosóficas de Quincas Borba), que comprovam justamente esse
“inacabamento”, típico da sátira menipeia. Essa propensão ao fantástico, em
lugar de distanciar o romance de uma intenção realista, aproxima-o de um
objetivo crítico. Só que isso não é tão evidente e, como Brás sempre se afasta
do discurso moralizante tradicional, o lado “realista” das Memórias fica pressuposto: não se trata de recorrer à fantasia para
chegar à verdade, e sim de utilizá-la como uma espécie de convite à reflexão, de
experimentação da verdade.
Síntese da obra
As lembranças do
“defunto autor”: uma narrativa por episódios
Se
colocarmos todos os acontecimentos de Memórias
póstumas em ordem cronológica, a fábula do romance se mostra extremamente
simples.
Brás
Cubas nasceu em 1805, em uma família rica do Rio de Janeiro. Na infância, foi
um “menino diabo”, mas sempre protegido pelos pais. Conheceu Marcela na
adolescência, durante os festejos da Independência, e ela foi o primeiro amor
de sua vida. Marcela era uma cortesã, interessada apenas no dinheiro da família
de Brás. Insatisfeito com os gastos excessivos do filho, o pai manda o garoto para
Coimbra, onde ele se forma em Direito.
Depois
de alguns anos, ele volta da Europa, pois sua mãe estava doente. Ela morre e
Brás resolve passar um tempo em uma chácara que a família tinha na Tijuca. Lá,
mantém um breve relacionamento com Eugênia. De volta ao centro do Rio, o pai
faz de tudo para que
Brás
se case com Virgília, mas ela acaba preferindo Lobo Neves. O pai morre logo
depois, e Brás Cubas e sua irmã Sabina travam uma disputa pela herança.
Passados
alguns anos, Brás Cubas começa um caso adúltero com Virgília, e o casal aluga
uma casinha, no bairro da Gamboa, para os encontros amorosos. Dona Plácida,
antiga costureira de Virgília, fica tomando conta da casa. Virgília chega a
engravidar de Brás Cubas, mas perde o bebê.
Nesse
momento, Brás Cubas reencontra Quincas Borba, antigo amigo de infância, que
depois de ter vivido como mendigo recebeu uma herança e tornou-se filósofo,
criando uma teoria chamada Humanitismo. Os encontros entre os amigos são cada
vez mais comuns.
Lobo
Neves tem uma carreira política bem-sucedida e, quando é nomeado, pela segunda
vez, presidente de província, o casal parte para o norte do país, pondo fim ao
relacionamento entre Brás e Virgília. Nesse momento, Brás namora Eulália,
sobrinha de Cotrim, seu cunhado, de quem ele havia se aproximado. Mas ela morre
antes que eles pudessem se casar.
A
essa altura, Brás já é deputado e sonha com um lugar como ministro de Estado,
mas encerra sua carreira política antes de conseguir o cargo. O tempo vai
passando, e morrem Dona Plácida, Lobo Neves e Marcela. Brás Cubas tinha
obsessão de ficar famoso e resolve, no final da vida, inventar um emplasto,
para livrar a humanidade da hipocondria. Acaba então não cuidando de uma
pneunomia e morre aos 64 anos de idade, após um delírio, que começou quando
Virgília o visitava. Ao seu enterro comparecem apenas 11 pessoas.
Depois
de morto, resolve virar um “defunto-autor” e escreve a história de sua vida,
que, no final das contas, acabou com um pequeno “saldo”: a maior satisfação de
Brás Cubas foi não ter tido filhos, para não transmitir “a nenhuma criatura o
legado da nossa miséria”.
Mas
o narrador não conta a história nessa ordem. Ele começa pela sua morte, narra
seus últimos dias de vida, incluindo seu delírio, faz um flashback (no cap. IX, “Transição”) e aí, sim, segue a cronologia.
Em Memórias póstumas, tudo começa pelo
fim, primeiro porque, para Brás Cubas, “a campa foi outro berço”, e segundo
porque “o escrito ficaria assim mais galante e mais novo”.
Além
disso, a autobiografia de Brás Cubas é baseada em episódios relevantes de sua
vida, sem a preocupação de dar espaços parecidos a acontecimentos de mesma
duração: por exemplo, o caso amoroso com Eugênia, que dura apenas alguns dias,
rende a mesma quantidade de capítulos do que a estada do protagonista na
Europa, onde ele fica quase dez anos. Por isso, para compreender o enredo das Memórias póstumas, é importante entender
os momentos mais impactantes da vida de Brás Cubas, que podem ser resumidos em
cinco: os quatro casos amorosos que ele manteve em vida (Marcela, Eugênia,
Virgília e Eulália) e sua amizade com Quincas Borba.
Personagens e análise
do enredo
Quatro mulheres e um filósofo
Aos
17 anos de idade, durante os festejos pela Independência do Brasil, Brás Cubas
conhece Marcela, “a ‘linda Marcela’, como lhe chamavam os rapazes do tempo”. Ao
descrevê-la mais detalhadamente, ele não esconde a verdadeira índole dela:
Era boa moça, lépida,
sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não
permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa,
impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por
um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, – uma pérola. (cap. XIV)
Se
Brás pretendesse narrar sua vida na perspectiva do personagem, essa descrição
causaria certo espanto, já que lhe seria altamente desabonador reconhecer que
ele se apaixonou perdidamente por uma mulher frívola e materialista. No
entanto, o romance é conduzido pela perspectiva de Brás-morto, que muitas vezes
satiriza as ingenuidades de Brás-vivo. Dessa forma, ao apresentar a “linda
Marcela”, o narrador assume que a moça era inescrupulosa, vaidosa, leviana,
“amiga de dinheiro e de rapazes”. Não há dúvida, pois, de que Marcela vende
seus afetos, já que a pessoa por quem ela “morria de amores” era rica e
tuberculosa; em uma época em que essa doença matava tão facilmente, o interesse
de Marcela só poderia ser pelos bens materiais da “pérola” do Xavier. Note-se ainda
como a expressão “Naquele ano” sugere que os amores da moça estavam longe de
durar muito.
Para
conquistar Marcela, Brás não poupa esforços financeiros. Do ponto de vista do
jovem, essa conquista é um feito digno de nota; do ponto de vista do narrador,
é prova cabal de que a moça era uma cortesã. O narrador, “para ir do Rossio
Grande ao coração de Marcela”, é obrigado a disputá-la com o “abastado e tísico
Xavier”.
Teve duas fases a
nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, que eu de nomes não curo; teve
a fase consular e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier
e eu, sem que ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma; mas,
quando a credulidade não pôde resistir à evidência, o Xavier depôs as insígnias,
e eu concentrei todos os poderes na minha mão; foi a fase cesariana. Era meu o
universo; mas, ai triste! não o era de graça. Foi-me preciso coligir dinheiro,
multiplicá-lo, inventá-lo. Primeiro explorei as larguezas de meu pai; ele
dava-me tudo o que eu lhe pedia, sem repreensão, sem demora, sem frieza; dizia
a todos que eu era rapaz e que ele o fora também. Mas a tal extremo chegou o
abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais.
Então recorri a minha mãe, e induzi-a a desviar alguma coisa, que me dava às
escondidas. Era pouco; lancei mão de um recurso último: entrei a sacar sobre a
herança de meu pai, a assinar obrigações, que devia resgatar um dia com usura.
(cap. XV)
A
exclamação “ai triste!” é, para o protagonista, um lamento sincero, de quem não
percebe como Marcela era interesseira; para o narrador, é uma sátira ao comportamento
adolescente de Brás-vivo. Ao reconhecer que o afeto da moça “não o era de
graça” e que foi muito difícil conseguir dinheiro para manter essa “paixão, ou ligação,
ou qualquer outro nome”, não restam dúvidas de que Marcela era realmente “amiga
de dinheiro e de rapazes”.
Após
gastar “quinze meses e onze contos de réis” com a cortesã, Brás é mandado para
a Europa pelo pai, que, “logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se
deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil”. Separado à
força da mulher por quem estava apaixonado, o adolescente Brás pensa então em suicídio,
dando “um mergulho no oceano, repetindo o nome de Marcela”. Esse ímpeto
romântico logo se desfaz, não sem o narrador continuar sua autossátira: “Eu,
que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo”.
O
caso amoroso seguinte se dá com Eugênia, logo que Brás volta da Europa. O
narrador apelida a moça, que tinha 16 anos então, de “flor da moita”,
referência ao fato de Brás, na infância, ter flagrado Dona Eusébia e Doutor
Vilaça (que era casado) trocando um beijo atrás de uma moita. Brás deduz que a
menina era fruto desse relacionamento adúltero.
Outra
vez, o narrador traz uma visão mordaz da personagem.
Pobre Eugênia! Se tu
soubesses que ideias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de
comoção, com os braços nos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo esposo,
e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias
mentir ao teu sangue, à tua origem [...]. (cap. XXXIII)
Por
ser pobre e coxa de nascença, Brás, que era elitista e preconceituoso, não
chega a cogitar um relacionamento sério com Eugênia. A essa altura, Bento, pai
de Brás, já queria que o filho casasse com Virgília e articulava para que isso
acontecesse. Assim, desde o início do caso entre Brás e Eugênia já se sugere
que aquela relação não vai prosperar. Por isso, no capítulo “A uma alma
sensível”, o narrador, supondo uma crítica de seus presumíveis leitores,
procura desfazê-la:
Há aí, entre as cinco
ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto
agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e
talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico,
alma sensível? Pela coxa de Diana! esta injúria merecia ser lavada com sangue,
se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. (cap. XXXIV)
Nesse
excerto, o narrador, falando à “alma sensível”, figurativização de um leitor
tradicional, mais próximo dos ideais românticos, destila toda sua indiferença.
Ao recorrer à tese antirromântica de que o sangue não lava coisa nenhuma nesse
mundo, ele começa a mostrar seu tom de desdém, o que é reforçado pela
exclamação “mitológica”: a homonímia de “coxa” acaba adquirindo, nessa passagem,
um sarcástico duplo sentido, devido à referência simultânea ao problema físico
de Eugênia e a uma parte do corpo de Diana. Brás Cubas poderia ter utilizado
qualquer outra parte do corpo da deusa clássica em sua exclamação, mas o
emprego pontual de “coxa” satiriza sua referência mitológica.
A
maneira jocosa e preconceituosa com que Brás Cubas trata Eugênia continua:
[...] lá embaixo a
família a chamar-me, e a noiva, e o Parlamento, e eu sem acudir a coisa
nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. Enlevado é uma maneira de realçar
o estilo; não havia enlevo, mas gosto, uma certa satisfação física e moral. Queria-lhe,
é verdade; ao pé dessa criatura tão singela, filha espúria e coxa, feita de
amor e desprezo, ao pé dela sentia-me bem, e ela creio que ainda se sentia
melhor ao pé de mim. (cap. XXXIII)
O
uso da locução prepositiva “ao pé de”, usada quatro vezes no trecho, é outra
vez maneira de satirizar o fato de Eugênia ser coxa. A relação entre os dois,
por isso, não dura mais do que alguns dias.
A
terceira mulher na vida de Brás Cubas é Virgília. Depois de um rápido namoro,
incentivado por Bento Cubas, que queria que o filho se casasse com uma mulher
cuja família tivesse influência política, os dois se separam e Virgília se casa
com Lobo Neves. Alguns anos mais tarde, eles se apaixonam e mantêm, durante
muitos anos, um relacionamento adúltero, o que, aliás, era um tema bastante
comum na literatura do período. Assim, a paixão, que não surgira quando Brás e
Virgília tiveram um rápido namoro, surgiu quando as convençõs sociais os
impediam de ficar juntos.
Há umas plantas que
nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era
daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais
vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. (cap. LIII)
Nesse
trecho, a intensidade do amor entre Brás Cubas e Virgília – figurativizado de
uma maneira um pouco mais hiperbólica do que o tom predominante das Memórias
póstumas – aproxima-se do ideal de amor à primeira vista, tão caro às obras que
privilegiam a fantasia em detrimento da razão. Mas essa postura é incomum no
romance. No capítulo “Virgília?”, por exemplo, há uma crítica clara às obras literárias
fantasistas.
Não digo que já lhe
coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é
romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e
espinhas [...]. (cap. XXVII)
Durante
o caso amoroso com Virgília, percebe-se, mais uma vez, a diferença entre as
impressões do narrador e do personagem, entre Brás-morto e Brás-vivo. Logo que
os dois se descobrem apaixonados, o narrador adota uma postura de pouca
idealização, sugerindo – em uma espécie de anticlímax – como teria sido essa
relação.
[...] vida de
agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e
de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à
tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade:
tal foi o livro daquele prólogo. (cap. LIII)
A
certeza, realista, de que o amor pode chegar à saciedade, o que implica sua
efemeridade, claramente em oposição à crença, romântica, da eternidade dos afetos,
desfaz completamente o mundo fantasista, negando o “felizes para sempre” do
Romantismo mais ortodoxo. Esses anticlímaces se repetem ao longo da obra, como no
capítulo “O momento oportuno”, em que surge o aforismo “Não há amor possível
sem a oportunidade dos sujeitos”, em que a “oportunidade dos sujeitos” é uma
maneira de aniquilar a tese romântica do amor que vence qualquer obstáculo.
No
fim do relacionamento, quando Virgília se muda para o norte do país para
acompanhar o marido, que assumira o cargo de presidente de província, Brás
satiriza os excessos de subjetividade do Romantismo, mostrando que o término da
relação com Virgília, o grande amor de sua vida, não lhe provocou grandes
sofrimentos.
Não se irrite o
leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da
fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não
almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico. A realidade pura é que eu
almocei, como nos demais dias, acudindo ao coração com as lembranças de minha
aventura, e ao estômago com os acepipes de M. Prudhon [...]. (cap. CXV)
Nesse
fragmento, a “realidade pura” se sobrepõe à fantasia “romanesca”, e o
sofrimento decorrente do final do caso amoroso é, sarcasticamente, dirimido pelos
“acepipes” de um famoso cozinheiro da época.
A
quarta mulher da vida de Brás Cubas é Eulália, a Nhã-Loló. Depois das brigas
pela herança do pai, Brás e sua irmã Sabina se afastam. Quando ocorre a
reconciliação, Sabina e seu marido, Cotrim, procuram aproximar Brás e Eulália.
No capítulo “O jantar”, depois de Sabina determinar que o irmão deveria
casar-se com Nhã-Loló, o narrador afirma:
E dizia isto a
bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo
intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliação? Fiquei
um pouco desconsolado com a ideia [...]. (cap. XCIII)
O
desconsolo do narrador é motivado pela hipótese de que Sabina e, é claro,
Cotrim tiveram segundas intenções na reaproximação familiar.
Brás
Cubas vê com bons olhos a possibilidade de casar-se com Eulália, pois um
casamento era conveniente a suas ambições políticas. Mas a moça morre em uma epidemia
de febre amarela. O narrador então comenta a desolação de Damasceno, pai de
Nhã-Loló, primeiro porque a filha havia morrido e segundo porque muitos convidados
não foram ao enterro.
[...] dizia que a dor
grande com que Deus o castigara fora ainda aumentada com a que lhe infligiram
os homens. Não me disse mais nada. Três semanas depois tornou ao assunto, e então
confessou-me que, no meio do desastre irreparável, quisera ter a consolação da
presença dos amigos. Doze pessoas apenas, e três quartas partes amigos do
Cotrim, acompanharam à cova o cadáver de sua querida filha. E ele fizera
expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão gerais que bem se
podia desculpar essa desatenção aparente. Damasceno abanava a cabeça de um modo
incrédulo e triste.
– Qual! gemia ele, desampararam-me.
Cotrim, que estava presente:
– Vieram os que
deveras se interessam por você e por nós. Os oitenta viriam por formalidade,
falariam da inércia do governo, das panaceias dos boticários, do preço das
casas, ou uns dos outros...
Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a
cabeça, e suspirou:
– Mas viessem! (cap. CXXVI)
Nesse
momento, o narrador faz uma reflexão interessante sobre a natureza humana:
Amável Formalidade,
tu és, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os
homens, o vínculo da terra e do céu; tu enxugas as lágrimas de um pai, tu
captas a indulgência de um Profeta. Se a dor adormece, e a consciência se
acomoda, a quem, senão a ti, devem esse imenso benefício? A estima que passa de
chapéu na cabeça não diz nada à alma; mas a indiferença que corteja deixa-lhe
uma deleitosa impressão. A razão é que, ao contrário de uma fórmula absurda,
não é a letra que mata; a letra dá vida; o espírito é que objeto de
controvérsia, de dúvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de
morte. Vive tu, amável Formalidade, para sossego do Damasceno e glória de
Muhammed. (cap. CXXVII)
Vale
a pena comentar os significados que o narrador atribui à “letra” e ao
“espírito”. A letra é a formalidade, são as convenções, as normas sociais. O espírito
é o desejo, o instinto, o sentimento. O conflito entre a letra e o espírito
parece dar-se entre os valores institucionalizados e as crenças individuais. E,
em Memórias, os personagens quase
sempre optam pela manutenção das normas sociais, ainda que seja de modo apenas
superficial.
A
formalidade quase sempre se associa à vaidade. É um sentimento vaidoso que leva
Damasceno a se incomodar com a dor “que lhe infligiram os homens”, simplesmente
porque ele buscou não exatamente “a consolação da presença dos amigos”, mas sim
a satisfação pessoal de sentir-se importante e respeitado, o que explica o fato
de “expedir oitenta convites” ao enterro da filha. Em meio ao sofrimento
provocado pelo espírito, Damasceno queria a recompensa da letra. Não a obteve,
e o descaso pela formalidade foi capaz de fazê-lo ainda mais infeliz.
Virgília
é outro exemplo de que “a letra dá vida”. No capítulo “A casinha”, em um
momento em que pessoas desconfiam do caso adúltero entre eles, o narrador
propõe à amante uma fuga e recebe uma resposta negativa. Então, ele faz a
seguinte reflexão sobre o caráter de sua amante:
Vi que era impossível separar duas cousas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública. Virgília era capaz de iguais e grandes sacrifícios para conservar ambas as vantagens, e a fuga só lhe deixava uma. (cap. LXVIII)
O
amor de Virgília por Brás é o espírito; a consideração pública, a letra. A moça
nem cogita a hipótese de sacrificar as normas sociais, mesmo que seja por causa
de um grande amor. Esse é o tipo de relacionamento que se constrói entre os
personagens do romance.
Um
dos poucos momentos de exceção à prevalência da letra sobre o espírito se dá no
capítulo “O menino é pai do homem”. Em sua infância, Brás se deixa levar mais
pelos instintos do que pelas convenções da sociedade.
Minha mãe
doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns preceitos e orações; mas eu
sentia que, mais do que as orações, me governavam os nervos e o sangue, e a boa
regra perdia o espírito, que a faz viver, para se tornar uma vã fórmula. (cap.
XI)
Mas,
durante a vida, Brás aprende a conviver com a “boa regra”, ainda que seja de
maneira vaidosa, superficial e indiferente. Com efeito, as relações entre os
personagens são marcadas pela superficialidade, pelo egoísmo, mas ao mesmo
tempo todos estão dando vazão ao próprio sentimento de vaidade, esperando
sempre uma recompensa da “consideração pública”, do “amor de glória”, da “sede nomeada”,
da “glória pública”. Brás leva tudo isso ao extremo. A crítica que se faz a
esse comportamento é sobretudo de “Machado”.
Além
das quatro mulheres, outro personagem que merece destaque no romance é Quincas
Borba, filósofo bufão que aparece pela primeira vez no capítulo “Um salto”.
Trata-se de um momento em que Brás faz referência às peraltices de sua
infância.
Uma flor, o Quincas
Borba. Nunca em minha infância, nunca em toda a minha vida, achei um menino
mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flor, e não já da escola, senão de
toda a cidade. A mãe, viúva, com alguma coisa de seu, adorava o filho e
trazia-o amimado, asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que
nos deixava gazear a escola, ir caçar ninhos de pássaros, ou perseguir
lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição ou simplesmente arruar, à
toa, como dois peraltas sem emprego. E de imperador! Era um gosto ver o Quincas
Borba fazer de imperador nas festas do Espírito Santo. De resto, nos nossos
jogos pueris, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia,
qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa magnificência
nas atitudes, nos meneios. Quem diria que... Suspendamos a pena; não adiantemos
os sucessos. (cap. XIII)
A
interrupção pelas reticências em “Quem diria que...” faz com que o narrador não
conte, a essa altura da narrativa, o que acontecera ao amigo de infância. No
capítulo “Um encontro”, fica-se sabendo que Quincas Borba esteve longe de se
tornar “rei, ministro, general”.
Imaginem um homem de
trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o feitio,
pareciam ter escapado ao cativeiro da Babilônia; o chapéu era contemporâneo do
de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes,
– ou, literalmente os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um
amarelo sem brilho; o pelo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botões
restavam três. [...]
– Aposto que não me conhece, Sr. Dr. Cubas?
disse ele.
– Não me lembra...
– Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado...
Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar
tamanha desolação! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu
companheiro de colégio, tão inteligente e abastado. Quincas Borba! (cap. LIX)
Quincas
Borba havia se tornado um morador de rua, mais precisamente “do terceiro degrau
das escadas de São Francisco, à esquerda de quem sobe”. Brás lhe promete um
emprego, doa-lhe cinco mil-réis e, após a insistência do amigo, vê seu relógio
ser roubado em meio a um caloroso abraço.
Borba
reaparece no capítulo “Uma carta extraordinária”, quando ele envia uma carta a
Brás pedindo desculpas pelo “empréstimo” do relógio e aproveitando para lho
restituir. Nessa missiva, o ex-mendigo, que recebera uma herança portentosa,
anuncia o Humanitismo:
[...] um novo sistema
de filosofia, que não só explica e descreve a origem e a consumação das cousas,
como faz dar um grande passo adiante de Zênon e Sêneca, cujo estoicismo era um
verdadeiro brinco de crianças ao pé [...] [desta] receita moral. (cap. CXI)
A
partir desse momento, estreitam-se as relações entre Brás e o amigo de
infância, e cada vez mais o narrador se encanta com a filosofia humanitista. Em
“O filósofo”, Quincas Borba já revela que sua teoria “acomodava-se facilmente
com os prazeres da vida, inclusive a mesa, o espetáculo e os amores”. Aqui,
talvez haja uma das explicações para Brás ter aceitado com tanto vigor a
validade do Humanitismo. Parece que essa filosofia é uma legitimação da busca do
prazer e que, além disso, não condena o egoísmo, a volubilidade, o cinismo, a
superficialidade nem a vaidade. Após explicar que Humanitas “é o princípio das
cousas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens”, Quincas
Borba começa a mostrar algumas decorrências presumivelmente lógicas desse postulado.
Queres uma prova da
superioridade do meu sistema? Contempla a inveja. Não há moralista grego ou
turco, cristão ou muçulmano, que não troveje contra o sentimento de inveja. O
acordo é universal, desde os campos da Idumeia até o alto da Tijuca. Ora bem; abre
mão dos velhos preconceitos, esquece as retóricas rafadas, e estuda a inveja,
esse sentimento tão subtil e tão nobre. Sendo cada homem uma redução de
Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente oposto a outro homem,
quaisquer que sejam as aparências contrárias. Assim, por exemplo, o algoz que
executa o condenado pode excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente
é Humanitas que corrige em Humanitas uma infração da lei de Humanitas. O mesmo
direi de um indivíduo que estripa outro; é uma manifestação da força de
Humanitas. Nada obsta (e há exemplos) que ele seja igualmente estripado. Se
entendeste bem, facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração
que luta, e sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos
belicosos são os mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja é uma
virtude. (cap. CXVII)
Se
a inveja é uma virtude, o cinismo, a vaidade e o egoísmo estão legitimados,
pois o desprezo pelos valores institucionalizados (considerados “preconceitos”,
“retóricas rafadas”) é base da competição, da “luta”, dos “sentimentos
belicosos”.
Desse
modo, a apresentação das fases do Humanitismo também estabelece relação com os
cientificismos em voga no final do século XIX. Veja-se mais uma explanação de
Quincas Borba:
Conta três fases
Humanitas: a estática, anterior a toda criação; a expansiva, começo das cousas;
a dispersiva, aparecimento do homem; e contará mais uma, a contractiva,
absorção do homem e das cousas. A expansão, iniciando o universo, sugeriu a
Humanitas o desejo de o gozar, e daí a dispersão, que não é mais do que a multiplicação
personificada da substância original. (cap. CXVII)
É
impossível não notar nesse fragmento uma paródia do Positivismo e das
tendências cientificistas da segunda metade do século XIX, que “Machado”
satiriza impiedosamente. Já Brás Cubas aceita as reflexões humanitistas, pois a
filosofia pode servir para justificar suas ações e seus pensamentos. Os
exemplos grotescos dados por Quincas Borba são mais um indício de que não se
deve levar a sério os princípios humanitistas. Como afirma John Gledson:
O humanitismo não é
um pretexto conveniente para ações egoístas; também proporciona ao adepto uma
visão confortadora da sociedade e da história. [...] Com exemplos desse tipo, Machado
mostra [...] como pode ser fácil aceitar os grandes crimes da humanidade, uma
vez encontrado um sistema apropriado para englobá-los. Não admira que o
humanitismo seja o “sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais
sistemas”, pois trata-se da justificação perfeita do egoísmo.
Narrador
Os dois Brás Cubas
Em
uma análise simplista, podemos dizer que Memórias póstumas de Brás Cubas é
narrado em primeira pessoa, por um narrador--protagonista.
Mas
já mostramos que existem, na verdade, dois Brás Cubas, o narrador e o
personagem, e que muitas vezes Brás-morto, que narra a história, satiriza
Brás-vivo, que age na narrativa.
Aliás,
muitas vezes, o narrador não apenas narra a história, mas a comenta, em um
exercício metalinguístico de problematização discursiva que visa à
desestabilização do discurso artístico tradicional. É o que ocorre, por
exemplo, no capítulo “Transição”.
[...] isto de método, sendo como é, uma coisa
indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensório, mas um pouco
à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do
inspetor de quarteirão. É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante, de
uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha. [...] (cap. IX)
Nesse
fragmento, após fazer a transição narrativa entre sua morte e seu nascimento, o
narrador deixa de apresentar os acontecimentos narrativos para comentar a
estrutura do romance. Em Memórias
póstumas, essa mistura, antes de ser uma exceção, é praticamente regra. Eis
alguns exemplos:
•
em “Óbito do autor”: [...] a imaginação dessa senhora também voou por sobre os destroços
presentes até às ribas de uma África juvenil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu
me restituir aos meus primeiros anos. (cap. I)
•
em “O delírio”: Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o
eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação desses
fenômenos mentais, pode saltar o
capítulo; vá direto à narração [...]. (cap. VIII)
•
em “Um salto”: Unamos agora os pés e
demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler,
escrever, contar [...]. (cap. XIII)
•
em “Volta ao Rio”: [...] Mas não; não
alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo
papel, com grave prejuízo meu, que sou autor [...]. (cap. XXII)
•
em “Coxa de nascença”: [...] Desço imediatamente; desço, ainda que algum leitor
circunspecto me detenha para perguntar se o
capítulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega a empulhação [...]. (cap.
XXXII)
•
em “Notas”: [...] Isto que parece um
simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo. (cap. XLV)
•
em “O senão do livro”: Mas o livro é
enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica [...], anda devagar [...], e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita
e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam
e caem... (cap. LXXI)
•
em “Comigo”: Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o
capítulo anterior, observo que é preciso
lê-lo para entender o que eu disse comigo [...]. (cap. LXXV)
•
em “O mistério”: [...] Ela estremeceu, colheu-me a cabeça entre as palmas, fitou-me
os olhos, depois afagou-me com um gesto maternal... Eis aí um mistério; deixemos ao leitor o tempo de decifrar esse
mistério. (cap. LXXXVI)
•
em “O caso provável”: [...] Não convindo
ao método deste livro descrever
imediatamente esse outro fenômeno [...]. (cap. C)
•
em “Para intercalar no capítulo CXXIX”: Convém
intercalar este capítulo entre a primeira oração e a segunda do capítulo CXXIX.
(cap. CXXX)
Os
trechos em destaque nesses 11 capítulos são comentários sobre o modo como a
história está sendo contada por Brás-morto e confirmam nossa afirmação de que
existem dois Brás Cubas. Aliás, uma boa forma de enxergar isso é analisando as
ironias do romance.
Para
que exista ironia, é preciso que haja duas vozes contrárias, uma marcada no
enunciado e outra pressuposta manifestando valores opostos. Tecnicamente,
dizemos que a ironia nasce de um descompasso programado entre enunciado e
enunciação.
Há
excertos do romance em que as passagens irônicas são facilmente perceptíveis e
parecem estar a serviço, sobretudo, de uma intenção humorística. É o que
ocorre:
•
em “Chimène, qui l’eût dit? Rodrigue, qui
l’eût cru?”, quando Brás Cubas está próximo da morte: O estranho
levantou-se e saiu. Era um sujeito, que visitava todos os dias para falar do
câmbio, da colonização e da necessidade de desenvolver a viação férrea; nada mais interessante para um moribundo.
(cap. VI)
•
em “Naquele dia”, quando se evidencia a vontade do pai de Brás Cubas em
pertencer à fidalguia: Nasci; recebeu-me nos braços a Pascoela, insigne
parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a uma geração
inteira de fidalgos. Não é impossível que meu pai lhe ouvisse tal declaração;
creio, todavia, que o sentimento paterno é que o induziu a gratificá-la com
duas meias dobras. (cap. X)
•
em “O menino é pai do homem”, quando Brás reconhece sua falta de educação: Esconder
os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo
rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas
façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram
também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande
admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples
formalidade: em particular dava-me beijos. (cap. XI)
•
em “A borboleta preta”, quando o narrador esconde seus preconceitos sob a
aparência de reflexão sisuda: – Também por que diabo não era ela azul? Disse
comigo.
E
esta reflexão, – uma das mais profundas
que se tem feito, desde a invenção das borboletas, – me consolou do malefício,
e me reconciliou comigo mesmo. (cap. XXXI)
•
em “A ponta do nariz”, em que o narrador demonstra sua falsa preocupação
filosófica:
A
explicação do doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos, – e
tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um
dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia,
atinei com a única, verdadeira e definitiva explicação. (cap. XLIX)
•
em “Destino”, quando Brás finge desdizer exatamente aquilo em que ele acredita:
Mas rezava todas as noites, com fervor [...]. Algum tempo desconfiei que havia
nela certo vexame de crer, e que a sua religião era uma espécie de camisa de
flanela, preservada e clandestina; mas era evidentemente engano meu. (cap.
CXXIV)
•
em “Distração”, quando Brás aparenta condoer-se da situação de uma mosca cuja
pata era mordida por uma formiga: Então eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso século, pus na palma
da mão aquele casal de mortificados [...]. (cap. CIII)
•
em “31”, quando o narrador descobre a motivação superficial de certos atos do
mundo político: Uma semana depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de província.
Agarrei-me à esperança da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13;
trouxe, porém, a data de 31, e esta simples transposição de algarismos eliminou
deles a substância diabólica. Que
profundas que são as molas da vida! (cap. CX)
•
em “Orgulho da servilidade”, quando se explicita que a humanidade nem sempre
tem atitudes nobres: Depois chamou a minha atenção para os cocheiros da casa grande,
mais empertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude obedece
às variações sociais da freguesia, etc. E concluiu que era tudo a expressão
daquele sentimento delicado e nobre, – prova
cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime. (cap.
CLVI)
Em
todos esses trechos, afirma-se algo no enunciado e nega-se na enunciação, o que
pode ser percebido pelos indícios contextuais de que Brás acredita, na
realidade, no contrário do que está escrevendo:
•
em “Chimène, qui l’eût dit? Rodrigue, qui
l’eût cru?”, em que a conversa do “estranho” não tinha nada de interessante
para Brás Cubas;
•
em “Naquele dia”, quando Bento Cubas paga à parteira simplesmente porque queria
pertencer à fidalguia;
•
em “O menino é pai do homem”, em que Brás não demonstra nenhum tipo de elevação
espiritual;
•
em “A borboleta preta”, quando se percebe que a reflexão do narrador não tem
nenhuma profundidade;
•
em “A ponta do nariz”, em que a descoberta filosófica do narrador não passa de
uma brincadeira;
•
em “Destino”, quando Brás admite que Virgília tinha “vexame de crer”;
•
em “Distração”, em que Brás quer atribuir para si uma inexistente “delicadeza
nativa de um homem do nosso século”;
•
em “31”, quando o narrador admite que as ações humanas nem sempre possuem
motivações nobres;
•
em “Orgulho da servilidade”, em que se confirma que a humanidade está longe de
ser “sublime”.
Em
todos esses exemplos, o narrador é produtor da ironia. E ela atinge sobretudo
Brás-vivo ou os demais personagens da obra.
Mas
há casos em que o narrador é o alvo da ironia, que é, na verdade, produzida por
“Machado”. Um exemplo disso são as passagens em que se fazem referências à
filosofia humanitista.
No
capítulo “O filósofo”, Brás toma contato, pela primeira vez, com as reflexões
de Quincas Borba. Já se percebe, pela fala de Borba que encerra o capítulo, que
o Humanitismo está mais para uma seita, à qual se adere, do que para uma
filosofia, que se analisa.
– Venha para o
Humanitismo; ele é o grande regaço dos espíritos, o mar eterno em que mergulhei
para arrancar de lá a verdade. Os gregos faziam-na sair de um poço. Que
concepção mesquinha! Um poço! (cap. CIX)
Posteriormente,
no capítulo “O Humanitismo”, a teoria filosófica de Borba é esmiuçada, o que
impressiona verdadeiramente Brás Cubas:
Para que negá-lo? eu
estava estupefato. A clareza da exposição, a lógica dos princípios, o rigor das
consequências, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso
suspender a conversa por alguns minutos, enquanto digeria a filosofia nova. Quincas
Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de frango no
prato, e trincava-a com filosófica serenidade. (cap. CXVII)
De
fato, Brás admira e respeita a filosofia do amigo. É certo que, a essa altura da
narrativa, exceto pela sarcástica ideia de uma asa de frango ser trincada com
“filosófica serenidade”, ainda não há marcas irrefutáveis no enunciado que
assegurem que o Humanitismo não deva ser levado a sério, embora já causem
estranhamento os elogios humanitistas à luta, à inveja, à guerra, à competição
desenfreada entre os homens.
No
capítulo “Os cães”, intensificam-se esses polêmicos elogios, quando, ao
assistir a uma luta de cães, que disputam um osso sem carne, Quincas Borba faz
uma insólita analogia, narrada da seguinte maneira por Brás:
Fez-me observar a
beleza do espetáculo, relembrou o objeto da disputa, concluiu que os cães
tinham fome; mas a privação do alimento era nada para os efeitos gerais da
filosofia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo é
mais grandioso: as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos, e outros
manjares menos apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra em ação a
inteligência do homem, com todo acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos,
etc. (cap. CXLI)
Quincas
Borba ainda apresenta outras decorrências de sua filosofia, que são, sem
restrições, admitidas como verdadeiras pelo narrador, como a “Teoria do
benefício” (cap. CXLIX) ou o “Orgulho da servilidade” (cap. CLVI). Mas o mais
relevante é notar que, a despeito de todas as conclusões insólitas do filósofo,
Brás aceita-as todas.
Seriam
inúmeras as passagens que comprovam que Brás aceita a validade da filosofia
humanitista: seu encanto com a eloquência de Quincas Borba, seu respeito pelo
amigo – a ponto de aconselhar--se com ele – e, em alguns casos, a adesão franca
ao Humanitismo. É o que ocorre no capítulo “O programa”, quando, após abandonar
a carreira política sem conseguir tornar-se ministro de Estado, Brás resolve
fundar um jornal oposicionista, cujo programa “era uma aplicação política do
Humanitismo”.
Era a fina flor dos
programas; prometia curar a sociedade, destruir os abusos, defender os sãos princípios
de liberdade e conservação; fazia um apelo ao comércio e à lavoura; citava
Guizot e Ledru-Rollin, e acabava com esta ameaça, que o Quincas Borba achou mesquinha
e local: “A nova doutrina que professamos há de inevitavelmente derribar o
atual ministério”. Confesso que, nas circunstâncias políticas da ocasião, o
programa pareceu-me uma obra-prima. A ameaça do fim, que o Quincas Borba achou
mesquinha, demonstrei-lhe que era saturada do mais puro Humanitismo, e ele
mesmo o confessou depois. Porquanto, o Humanitismo não excluía nada: as guerras
de Napoleão e uma contenda de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma
sublimidade [...]. (cap. CXLVI)
A tentativa de aplicação política do Humanitismo, como todos os devaneios megalomaníacos da filosofia de Borba, confirma que Brás levou a sério a doutrina proposta pelo amigo, tanto é verdade que ele a considera “nossa”. Mas o fato é que defender que “as guerras de Napoleão e uma contenda de cabras” são “a mesma sublimidade”, além de todas as bravatas cândidas de Quincas Borba, funciona como indício mais do que suficiente para concluir que o Humanitismo é uma brincadeira, uma sátira de “Machado” aos cientificismos do final do século XIX, como o Positivismo ou o Determinismo, que eram tomados por alguns como verdades religiosas a serem louvadas, e não discutidas. Assim, se o Humanitismo não é sério e o narrador o apresenta como se fosse, tem-se uma ironia que atinge Brás-morto e, por isso, só pode ter sido produzida por “Machado”.
Ainda
sobre a questão do foco narrativo em Memórias
póstumas, vale notar que, embora o narrador seja personagem, nem sempre ele
adota a perspectiva de quem narra a história de “dentro”. É o que acontece, por
exemplo, nas passagens em que o narrador descreve o próprio enterro.
Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre elas três senhoras, minha irmã Sabina, casada com o Cotrim, – a filha, um lírio do vale, – e... Tenham paciência! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anônima, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. (cap. I)
Quando
o narrador afirma, com tanta convicção, que Virgília “padeceu mais do que as
parentas”, ele penetra no universo passional de um personagem de uma maneira
aparentemente incoerente com seu estatuto de narrador em primeira pessoa. Mas a
explicação para essa manifestação pontual de onisciência é simples: Brás está
morto e, por isso, pode experimentar momentos de focalização total típicos do
narrador onisciente.
Tempo e espaço
Para além do Rio de
Janeiro do século XIX
Memórias póstumas de
Brás Cubas
se passa no Rio de Janeiro, entre 1805 e 1869. Apresenta, por isso, um retrato
da cidade, tanto de sua porção mais rica, representada por Brás, Virgília e
Lobo Neves, quanto de sua porção mais pobre, representada por Dona Plácida, Prudêncio
e Eugênia. Não existe mobilidade social, e o único personagem que enriquece é
Quincas Borba, mas por causa de uma herança inesperada.
Porém,
o tempo do romance não é apenas o tempo histórico, cronológico. É verdade que o
livro faz referência a acontecimentos históricos importantes da história do
Brasil, traçando um retrato de nossa sociedade aristocrática e escravocrata,
mas existe uma dimensão temporal do romance que transcende essas questões.
Descobrimos
já no primeiro capítulo da obra que a narrativa começa pelo “fim”, isto é, pela
morte do narrador, de maneira que o início da trama (o modo de contar) é o final da fábula (os acontecimentos da narrativa dispostos na ordem em que
eles aconteceram), uma vez que o primeiro acontecimento narrado é cronologicamente
o último a ter ocorrido. Isso produz reflexos em todo o enunciado. O primeiro
deles é a produção de certo efeito de suspense, pois se está diante de uma
sequência narrativa acabada e, mais do que isso, avaliada negativamente pelo
narrador.
Nem o meu óbito era
coisa altamente dramática... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro
anos, não parece que reúna em si todos os elementos de uma tragédia. (cap. I)
Diante
dessa avaliação, é esperado que se criasse uma expectativa de como foi a vida
desse “solteirão”. Ciente então de que essa estratégia de suspense pode
produzir bons resultados, o narrador a explora conscientemente (“Tenham
paciência! Daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora”), tornando,
por exemplo, misteriosa a figura de Virgília, a quem – a essa altura,
inexplicavelmente – não convinha aparentar sofrimento. Assim, o narrador, ao
comentar a arquitetura do romance, narra a fábula
e, ao mesmo tempo, explica a trama.
É exatamente isso que acontece no capítulo “Transição”.
E vejam agora com que
destreza, com que arte faço eu a maior transição desse livro. Vejam: o meu
delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da
juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui
como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci.
Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor:
nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a
rigidez do método. Na verdade, era tempo [...]. (cap. IX)
Para
realizar o flashback que levará da
morte de Brás ao seu nascimento, o narrador faz referência a inúmeras
sequências narrativas pregressas e volta ao início da fábula, atando assim –
para usar uma expressão de Dom Casmurro
– “as duas pontas da vida”. Mas, além de fazer essa transição, note-se que o
narrador comenta esse procedimento (“com que destreza, com que arte”, “nada que
divirta a atenção pausada do leitor” e “o livro fica assim com todas as
vantagens do método, sem a rigidez do método”) de maneira satírica,
demonstrando que sua narrativa é inovadora e que um tipo de literatura que se
vale da rigidez narrativo-discursiva merece ser desprezado.
Estilo
O estilo machadiano
Volubilidade,
superficialidade e ambição
Nas
interpretações sociológicas tecidas sobre Memórias
póstumas de Brás Cubas, existe a tradição de tomar o protagonista como um típico
representante da mentalidade dominante entre as nossas elites imperais. Nesse
sentido, “o consumo acelerado e sumário de posturas, ideais, convicções,
maneiras literárias, etc., logo abandonadas por outras, portanto
desqualificadas”8 caracterizaria a volubilidade de Brás Cubas e das nossas
elites.
Tomando
a volubilidade como sinônimo de inconstância, de instabilidade, de impersistência,
são muitos os exemplos de que a conduta de Brás é volúvel, já que suas ideias
fixas não devem ser levadas muito a sério. No capítulo “O menino é pai do
homem”, vê-se que a inconstância é uma característica de seu comportamento
desde a infância.
De manhã, antes do
mingau, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu
perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma grande
maldade, e meu pai, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava
a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro! (cap. XI)
Essas
mudanças de crença são comuns ao longo da narrativa e, na fase adulta, Brás
passa a justificá-las por meio de suas formulações teóricas, como acontece com
a lei da equivalência das janelas. Longe de tomar essa volubilidade como algo
negativo, o narrador vai apresentando suas reflexões oportunistas e mudando seus
argumentos “ao sabor das circunstâncias e dos lugares”, procurando sempre
validar suas ações e seus pensamentos de acordo com as conveniências momentâneas.
Dessa forma, a volubilidade caracteriza Brás-vivo, o que direciona nosso olhar
para uma outra característica sua: a superficialidade. Se ser volúvel é não
possuir propósitos firmes durante a vida – e, mais do que isso, não fazer os esforços
necessários para que esses propósitos se realizem –, essa inconstância levaria
à superficialidade, pois não é possível haver observações finas e profundas
sobre a realidade se não existe firmeza de crenças e atitudes.
São
muitas as figuras discursivas que ilustram o tema da superficialidade. A
começar pelo Emplasto Brás Cubas, um medicamento epidérmico que curaria a
humanidade de problemas psicológicos. Outro momento em que Brás demonstra não
saber ser “profundo” se dá quando ele se forma em Coimbra e admite sua vontade
de não assumir as responsabilidades de vida adulta. Eis uma passagem do
capítulo “Bacharelo-me”:
[...] o diploma era
uma carta de alforria; se me dava liberdade, dava-me responsabilidade.
Guardei-o, deixei-o às margens do Mondego, e vim por ali afora assaz
desconsolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de
acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, – de prolongar a
Universidade pela vida adiante... (cap. XX)
O
desejo “de prolongar a Universidade pela vida adiante” vai ao encontro do tema
da superficialidade, que perpassará o romance todo, pois, embora o narrador
reconheça que, nos anos posteriores ao bacharelado, era “um fiel compêndio de
trivialidade e presunção”, a verdade é que ele continua a sê-lo por toda a
vida. Volubilidade e superficialidade andam juntas em Memórias póstumas. Com rigor, existem três sentimentos que se
misturam na personalidade de Brás: a volubilidade (a falta de determinação do narrador),
a superficialidade (sua tendência à trivialidade) e a ambição (sua “glória de
mandar”, sua “vã cobiça”). O curioso é que a combinação dessas três características
explica um pouco os insucessos de Brás Cubas, afinal, sua vaidade e seu desejo
de ser reconhecido não eram compatíveis com suas atitudes.
Diálogo com o leitor
Em
Memórias póstumas, a todo tempo, o
leitor aparece no enunciado. Desde a advertência, em que ele é chamado de “fino
leitor”, até o último capítulo do romance, há um diálogo permanente entre Brás
Cubas e o leitor. No total, são 55 capítulos em que há pelo menos uma referência
do narrador ao seu interlocutor.
Como
visto, essa conversa com o leitor é um traço marcante da literatura machadiana,
mas, para compreender que esse diálogo contribui para revelar a própria
natureza dialógica de Memórias póstumas,
vale a pena fazer uma digressão histórico-literária.
No
século XIX, não apenas no Brasil, mas no mundo todo, proliferaram obras
literárias publicadas de maneira fragmentada nos jornais. José de Alencar,
Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida foram apenas alguns de nossos
escritores que, antes de terem suas narrativas impressas em livros, viram-nas
em páginas dos diários e semanários cariocas do século XIX, sob a forma de
folhetins. Esse gênero, oriundo do Romantismo, atingiu muitas obras do
Realismo, como é caso de Memórias
póstumas, publicada entre março e dezembro de 1880, no Rio de Janeiro, pela
Revista Brasileira. É verdade que o gênero foi evoluindo ao longo do século
XIX, mas ele conservou “muito do tom de sua linguagem coloquial, maneira de
voltar-se para a comunicação imediata e direta, chamando o leitor à reflexão”.
Isso acontece em diversas passagens de Memórias póstumas:
•
em “Genealogia”: [...] deixem-me
fazer aqui um curto esboço genealógico. (cap. III)
•
em “Curto, mas alegre”: Para lhes
dizer a verdade toda [...]. (cap. XXIV)
•
em “Na sege”: Notem que aquele dia
[...]. (cap. XL)
•
em “D. Plácida”: E vê agora a
neutralidade deste globo [...]. (cap. LXX)
•
em “Suprimido”: [...] não sei como lhes
diga que não me senti mal [...]. (cap. XCVIII)
•
em “Morro abaixo”: Agora, se querem
saber em que circunstâncias se deu o fenômeno, basta-lhes ler este capítulo [...]. (cap. CXXI)
•
em “Fase brilhante”: [...] e não me digam
que é negativa [...]. (cap. CLVIII)
Mas,
além de simplesmente dialogar com seus interlocutores, o narrador procura criar
uma imagem de seus presumíveis leitores. Percebe-se isso nos seguintes
excertos:
•
na advertência “Ao Leitor”: [...] se te agradar, fino leitor, pago-me da
tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus. (Ao Leitor)
•
em “A ideia fixa”: Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não
esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa
dessas memórias. [...] Vamos lá; retifique seu nariz, e tornemos ao emplasto.
(cap. IV)
•
em “Marcela”: Pois foi a mesma coisa, leitor amigo, e se alguma vez contaste dezoito
anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo. (cap. XV)
•
em “Volta ao Rio”: Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e não
somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo
elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... (cap. XXII)
• em “A uma alma sensível”: Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um tanto agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez... sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? [...] Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem [...]. (cap. XXXIV)
•
em “A quarta edição”: Crê-lo-eis, pósteros? essa mulher era Marcela. (cap.
XXXVIII)
•
em “A ponta do nariz”: Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado
leitor? (cap. XLIX)
•
novamente em “A ponta do nariz”: Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste
no cérebro de um chapeleiro. (cap. XLIX)
•
em “Fujamos”: Não tremas assim, leitora pálida; descansa, que não hei de rubricar
esta lauda com um pingo de sangue. (cap. LXIII)
•
em “Que não se entende”: Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete três ou
quatro vezes, naquele dia, acreditai-o, que é verdade; se vos disser que o reli
no dia seguinte, antes e depois do almoço, podeis crê-lo, é a realidade pura.
Mas se vos disser a comoção que tive, duvidai um pouco da asserção, e não a
aceiteis sem provas. (cap. CVIII)
•
em “O almoço”: Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe
os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas
lágrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico. (cap. CXV)
•
em “Filosofia das folhas velhas”: Leitor ignaro, se não guardas as cartas da
juventude, não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas [...]. (cap.
CXVI)
•
em “Morro abaixo”: Já disse que o morro era então desabitado; disse-lhes também
que vínhamos da missa, e não lhes tendo dito que chovia, era claro que fazia
bom tempo, um sol delicioso. (cap. CXXI)
•
em “Formalidade”: [...] se tu és um espírito profundo e penetrante (e duvido
muito que me negues isso), compreenderás que, tanto num como noutro caso, surge
aí a orelha de uma rígida e meiga companheira do homem social. (cap. CXXVII)
•
em “Dois encontros”: Não acabarei, porém, o capítulo sem dizer que vi morrer no
hospital da Ordem, adivinhem quem?... a linda Marcela; e vi-a morrer no mesmo
dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas, achei... Agora é que
não são capazes de adivinhar... achei a flor da moita, Eugênia [...]. (cap.
CLVIII)
O
leitor é chamado de fino, amigo, sensível, amado, enfim, “um espírito profundo
e penetrante”. Mas, analogamente, ele é obtuso, pálido e ignaro, incapaz de
adivinhar os sobressaltos da narrativa. Em vez de contraditórias, essas qualificações
aparentemente opostas semanticamente indicam que a relação entre narrador e
leitor é orientada para a polêmica, e não para a cumplicidade. Os elogios – seria
mais preciso dizer pseudoelogios – funcionam praticamente como ironia: aqui,
fica clara uma diferença em relação à literatura folhetinesca, pois o narrador
machadiano está longe de demonstrar o respeito que o romancista folhetinesco
tinha por seus leitores.
Assim,
o leitor instalado no texto não é o leitor-modelo da obra, para usar a
expressão de Umberto Eco. Isso porque o leitor que aparece no texto é
apresentado como alguém incompetente para compreender as novidades enunciativas
da narrativa. Daí que as supostas manifestações de apreço pelo “leitor” sejam,
de um lado, uma paródia da dicção folhetinesca e, de outro, uma ironia que só confirma
o desprezo do narrador por ele, que figurativizaria tendências literárias
antiquadas. Essa noção, imprescindível para compreender o papel do leitor no
romance, pode ser confirmada, aliás, com a transcrição do início do capítulo “O
senão do livro”.
Começo a
arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e,
realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que
distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro,
traz certa contração cadavérica; vício grave, aliás, ínfimo, porque o maior defeito
deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda
devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e
este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda,
andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
(cap. LXXI)
Pensando
na necessidade retórica de o orador captar a benevolência de seu auditório,
poderíamos dizer que, em uma primeira impressão, a postura de Brás Cubas nesse
fragmento é suicida. Acontece que essa passagem – simultaneamente digressiva e
metalinguística – é principalmente de responsabilidade de “Machado”, que tem
controle sobre o estilo da obra. Nessa perspectiva, efetiva-se a captação da
benevolência, pois o leitor-modelo aceita a tese de que os leitores
convencionais, acostumados às narrativas românticas, são um “defeito” da obra.
Digressões
É
uma tradição dos estudos literários mostrar que a obra de Machado,
principalmente os romances posteriores a 1881, recorre insistentemente à
digressão. Esse termo, cunhado pelos retóricos clássicos, designa – nos textos
narrativos – um afastamento, uma “fuga” do eixo narrativo principal, da fábula
propriamente dita, isto é, da sequência cronológica e causal dos programas
narrativos. Por isso, todo comentário que o narrador de Memórias póstumas faz, por exemplo, a respeito da trama acaba
configurando um caso de digressão.
Para
confirmar essa ideia, é necessário explicar que Heinrich Lausberg, na hora de
explicitar as várias funções da digressão retórica, demonstra que uma digressão
típica é aquela que se afasta do assunto, para tratar da situação do discurso.
Mais especificamente, existem, em Memórias
póstumas de Brás Cubas, os cinco outros tipos de digressão elencados por
Lausberg, como veremos a seguir.
1. Digressão
narrativa
Consiste
em fazer uma narração secundária, subsidiária, que estabelece uma relação de
analogia com a fábula principal. Em um primeiro momento, essa narrativa
acessória transmite a impressão de ser um mero desvio, uma brincadeira
enunciativa sem maiores
consequências;
mas, depois de estabelecida a analogia, percebe-se que essas digressões são
quase sempre antecipações narrativas, por meio das quais o narrador veicula sua
visão de mundo.
Há
digressões narrativas célebres em Memórias
póstumas, entre as quais se podem citar “O almocreve” (cap. XXI) e “O
vergalho” (cap. LXVIII). Mas o caso mais conhecido de digressão narrativa no
romance parece ser a do capítulo “A borboleta preta”. A essa altura da fábula,
recuperando-se do abalo provocado pela morte de sua mãe, Brás está descansando
em sua casa na Tijuca e encontra D. Eusébia, uma amiga da família, que lhe
apresenta sua filha, uma bonita moça de 16 anos. No final do capítulo “A flor
da moita”, o narrador demonstra certo interesse – ainda que motivado por um
sentimento de vaidade – por Eugênia.
De tarde, vi passar a
filha de D. Eusébia, seguida de um pajem; fez-me um cumprimento com a ponta do
chicote. Confesso que me lisonjeei com a ideia de que, alguns passos adiante,
ela voltaria a cabeça para trás; mas não voltou. (cap. XXX)
Nesse
momento, quando se espera que o narrador vá contar se esse flerte foi
bem-sucedido ou não, interrompe-se o ritmo da fábula, para que Brás narre o
pitoresco episódio de uma borboleta negra que entrara no seu quarto. Após
aborrecer-se com a presença do inseto, Brás bate-lhe com uma toalha e a
borboleta cai morta. Até que ele pergunta misteriosamente:
– Também por que diabo não era ela azul?
disse comigo.
E esta reflexão, –
uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, – me
consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a
contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. (cap. XXXI)
Essa
passagem – que, no capítulo seguinte, leva o narrador a lembrar que um “leitor
circunspecto” perguntará se a história da borboleta preta “é apenas uma
sensaboria ou se chega à empulhação” – faz parte de uma digressão narrativa,
perfeitamente compreensível quando se fica sabendo que Eugênia era coxa de
nascença e que, após um beijo trocado, Brás não chega sequer a cogitar a
continuação do romance, já que, além do problema físico, ela era pobre. Ele a abandona
da mesma forma que mata a borboleta preta: a borboleta é Eugênia; a falta de
colorido nas asas é o defeito físico (pois uma borboleta costuma ser
considerada bonita justamente pelo excesso de cores). A escuridão rouba a beleza
do inseto; assim como o aleijão desfaz a formosura de Eugênia.
2. Digressão
descritiva
Consiste
em fazer uma descrição, em princípio deslocada da fábula principal, mas que,
assim como a digressão narrativa, estabelece com essa fábula uma relação de
analogia. Também esse tipo de digressão é uma maneira de o narrador expressar
suas opiniões, sua visão de mundo.
É
certo que o texto descritivo dificilmente é autônomo: na maior parte das vezes,
ele está a serviço de uma passagem narrativa, dissertativa ou injuntiva. A
despeito disso, é possível encontrar em Memórias
póstumas exemplos de digressões descritivas, como a que acontece no
capítulo “Um encontro”. Nesse momento, em meio ao suspense que envolve o início
do caso amoroso adúltero entre Brás e Virgília, o narrador interrompe a
narrativa desses acontecimentos para contar o reencontro com Quincas Borba.
Imaginem um homem de
trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o feitio,
pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilônia; o chapéu era contemporâneo do
de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca mais larga do que pediam as carnes,
– ou, literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um
amarelo sem brilho; o pelo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botões
restavam três. As calças, de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras,
enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem
graxa. Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas
desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia também
colete, um colete de seda escura, roto a espaços, e desabotoado. (cap. LIX)
A
apresentação das vestes e da aparência de Quincas Borba não deixa de sugerir a
maneira como Brás avalia a pobreza – que implica mais nojo do que piedade.
3. Digressão
argumentativa (ou argumentante)
Consiste
em defender uma tese, por meio de conceitos abstratos, sobre uma questão que
aparentemente está distante dos assuntos da fábula principal.
Aqui,
é necessário fazer a ressalva de que toda digressão possui uma dimensão
argumentativa. O que estamos chamando de digressão argumentativa – para
aproveitar a terminologia de Lausberg – é aquele tipo de ruptura narrativa
caracterizada pela tematização, e não pela figurativização. Isso porque as
digressões descritivas e narrativas é que são figurativas; as digressões
argumentativas são, sobretudo, temáticas.
Aceitando
a tese de que os temas expressam opiniões de uma maneira mais explícita do que
as figuras, pode-se dizer que as digressões argumentativas são mais fáceis de
ser interpretadas do que as descritivas e narrativas. No capítulo “A ponta do
nariz”, há um excerto que contém uma digressão argumentativa.
Essa sublimação do
ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de
a obter [...] é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o
seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo
efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio
das sociedades [...]. (cap. XLIX)
Embora a “ponta do nariz” seja uma figurativização (do egoísmo, da competição entre homens, da vaidade), essa passagem é predominantemente temática. Para perceber a importância dessa reflexão filosófica sobre o “nariz”, lembre-se de que esse capítulo é imediatamente anterior ao momento em que se inicia o caso adúltero entre Brás e Virgília. Sabendo que Lobo Neves tinha arrebatado a noiva ao narrador alguns anos antes, nenhum momento da narrativa parece mais adequado do que esse para tratar do tema da disputa ególatra que move os seres humanos.
4. Digressão
ornamental (ou ornante)
Consiste
em uma espécie de fusão entre a digressão narrativa e a descritiva. Por meio,
sobretudo, de elementos concretos, a digressão ornamental consiste em uma
comparação que nasce de uma pormenorização. Para que esse tipo de digressão não
pareça apenas uma questão supérflua, pode-se ainda lembrar que a digressão
ornamental configura uma alegoria. Nesse sentido, “ornar” seria estabelecer
contínuas relações de semelhança, com uma finalidade simultaneamente estética e
referencial.
Esse
tipo de digressão também apresenta, como qualquer digressão figurativa, temas
subjacentes. Mas, devido à repetição das figuras, na maior parte das vezes não
é difícil apreender esses temas. É o que acontece no capítulo “O primeiro
beijo”.
Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros. (cap. XIV)
As
figuras do “garção, lindo e audaz”, das “botas e esporas”, do “chicote na mão e
sangue nas veias”, do “corcel nervoso, rijo, veloz”, “das antigas baladas” e do
“castelo medieval” pertencem à mesma isotopia figurativa e formam uma alegoria,
utilizada para satirizar os românticos diante dos realistas, figurativizados
naturalisticamente na “lazeira” e nos “vermes”.
5. Digressão
infinitizante
Consiste
em recorrer a um lugar-comum, a um clichê. A digressão infinitizante se
aproveita de uma ou mais figuras, cujos valores estão cristalizados
socialmente, para reforçar uma tese por meio de um tópico que estabelece com
ela uma relação de implicação mútua.
Ao
relatar sua volta ao Rio, por conta da doença de sua mãe, Brás afirma no
capítulo “Triste, mas curto”:
O espírito, como um
pássaro, não se lhe deu da corrente dos anos, arrepiou voo na direção da fonte
original, e foi beber da água fresca e pura, ainda não mesclada ao enxurro da
vida.
Reparando bem, há aí
um lugar-comum. Outro lugar-comum, tristemente comum, foi a consternação da
família. (cap. XXIII)
As
figuras da “fonte original” e da “água fresca e pura”, representando a
infância, e a do “enxurro da vida”, representando a passagem inexorável do
tempo, constituem um verdadeiro tópos, que funciona como uma adição, como um
acréscimo, pois, em lugar de Brás simplesmente narrar sua volta ao Rio, ele se
aproveita de lugares-comuns (identificados como tais inclusive por ele) para
dizer que a chegada ao Brasil lhe despertou as lembranças da infância.
Relativismo, cinismo
e humor
A
obra de Machado – e não é diferente com Memórias
póstumas – é composta com a “tinta da melancolia”. Por isso, não é de
estranhar que o pessimismo seja uma característica importante do estilo machadiano.
A
tendência para ver o pior lado das coisas, no entanto, é mais de “Machado” do
que de Brás Cubas ou dos demais personagens do romance, que não costumam ser pessimistas.
Ao contrário, levados pelo sentimento de vaidade, estão à espera de um
reconhecimento. Brás Cubas chega a assumir isso em “Questão de botânica”, em um
momento em que ele crê na própria felicidade.
Digam o que quiserem
dizer os hipocondríacos: a vida é uma coisa doce. Foi o que eu pensei comigo,
ao ver Sabina, o marido e a filha descerem de tropel as escadas, dizendo muitas
palavras afetuosas para cima, onde eu ficava – no patamar, – a dizer-lhes outras
tantas para baixo. Continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-me uma
mulher, tinha a confiança do marido, ia por secretário de ambos, e
reconciliava-me com os meus. Que podia desejar mais, em vinte e quatro horas?
(cap. LXXXII)
Mas, às vezes, o pessimismo, bem-humorado, vem do próprio narrador. Por exemplo, no capítulo “Chimène, qui l’eût dit? Rodrigue, qui l’eût cru?”, após Virgília, na frente do filho, defender enfaticamente a fidelidade conjugal, o narrador recorre a uma figura que reforça o “legado da nossa miséria”.
O filho sentia-se
satisfeito, ouvindo aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o
que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião... (cap. VI)
Além
do pessimismo, o relativismo também caracteriza o estilo machadiano. Recorramos
tanto à definição filosófica quanto à ética de relativismo, presentes no dicionário Houaiss:
2.
Rubrica: filosofia.
ponto
de vista epistemológico (adotado pela sofística, ceticismo, pragmatismo etc.)
que afirma a relatividade do conhecimento humano e a incognoscibilidade do
absoluto e da verdade, em razão de fatores aleatórios e/ou subjetivos (tais
como interesses, contextos históricos etc.) inerentes ao processo cognitivo.
3.
Rubrica: ética.
doutrina segundo a qual os valores morais não apresentam validade universal e absoluta, diversificando-se ao sabor de circunstâncias históricas, políticas e culturais. Ambas as definições aproximam relativismo, pessimismo e ceticismo, o que legitima a hipótese de que “Machado”, ao negar a “validade universal” dos “valores morais”, revela o tom de descrença que caracteriza o espírito cético. Esse espírito pode vir acompanhado de sisudez ou de escárnio. “Machado” normalmente prefere a segunda.
Dessa
forma, a recusa em aceitar a existência da verdade ou da moral absoluta, base
do ceticismo e do relativismo, acaba levando ao cinismo.
Para
chegar a uma definição do cinismo, consideremos a segunda acepção da palavra no
Houaiss:
2.
Derivação: por extensão de sentido.
atitude
ou caráter de pessoa que revela descaso pelas convenções sociais e pela moral
vigente; impudência, desfaçatez, descaramento.
O
dicionário francês Petit Robert ainda
acrescenta que o cinismo é a
atitude que exprime
abertamente os sentimentos, as opiniões que se chocam com a moral ou as ideias
institucionalizadas, geralmente com uma intenção de provocação.
Em
Memórias póstumas, como há indícios
para identificar um “Machado” cético, lúcido, pessimista, zombeteiro e
partidário do relativismo, o cinismo lhe assenta bem, pois todas essas
características convergem para um caráter cínico.
O
cinismo do enunciador manifesta-se pela maneira como ele focaliza os
personagens e os presumíveis leitores da obra. Os personagens de Memórias póstumas são predominantemente
vaidosos e egoístas, pois são guiados pelo cálculo e pelo interesse e obedecem mais
a um “universal comércio de corações” do que a impulsos afetivos. Enquanto
vivo, Brás Cubas comportou-se como seus pares. Depois de morto, como narrador
do romance, a vaidade e o egoísmo passam a ser acompanhados de superficialidade
e volubilidade ou, pelo menos, o narrador fica mais consciente dessas
características.
“Machado”
torna-se cínico à medida que seus personagens se mostram frios, calculistas,
interesseiros, superficiais e volúveis, e seu narrador, além de tudo,
demonstra-se indiferente. Esse estilo cínico vem acompanhado de uma tendência a
dizer as coisas de modo indireto e delicado, valorizando os significados
implícitos.
Vejamos
um exemplo. Após o primeiro beijo adúltero entre Brás e Virgília, o narrador
fica refletindo sobre o acontecimento e se recorda de mais um de seus momentos
de felicidade.
As fantasias
tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à semelhança de devotas que
se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes
perdidos, mas os minutos ganhados. De certo tempo em diante não ouvi cousa nenhuma,
porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu
as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o
pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na
cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a
repetirem o velho diálogo de Adão e Eva. (cap. LIV)
Logo
em seguida, vem o capítulo “O velho diálogo de Adão e Eva”, em que, por meio de
pontos-finais, exclamações e interrogações, os pensamentos de Brás e Virgília
entram em acordo. Há certamente uma sugestão sexual nesses dois capítulos,
reforçada pelo emprego do pronome “Nós” no último parágrafo transcrito, o qual pode
indicar que Virgília e Brás Cubas rolavam cada um na sua cama ou os dois no
mesmo leito. Semelhante exploração do recurso gráfico se dá no capítulo “De
como não fui ministro d’Estado”, em que a sequência de pontos-finais sugere, ao
mesmo tempo, que não há nada a ser dito, pois o título do capítulo basta, e que
a carreira política de Brás chegou ao fim. O início do capítulo seguinte, “Que explica
o anterior”, confirma essa maneira de dizer as coisas.
Há cousas que melhor
se dizem calando; tal é a matéria do capítulo anterior. Podem entendê-lo os
ambiciosos malogrados. Se a paixão do poder é a mais forte de todas, como
alguns inculcam, imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi
a cadeira da câmara dos deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a
carreira política. (cap. CXL)
São
muitos os exemplos que comprovam essa voz baixa, irônica, delicada, protocolar
de “Machado”, que prefere o silêncio aos arroubos e aos escândalos. Daí a
exploração dos efeitos sutis de humor, o que acontece, por exemplo, quando
ocorre a aproximação sintática entre elementos que parecem não ser compatíveis
semanticamente:
•
em “Em que aparece a orelha de uma senhora”: [...] trazia comigo a ideia fixa
dos doidos e dos fortes. (cap. V)
•
em “O primeiro beijo”: Era boa moça [...], amiga de dinheiro e de rapazes.
Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, – uma
pérola. (cap. XIV)
•
em “Marcela”: Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela
[...]. (cap. XV)
•
em “Do trapézio e outras coisas”: [...] Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis [...]. (cap. XVII)
•
em “A propósito de botas”: [...] foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor [...]. (cap. XXXVI)
•
em “Na sege”: [...] com um rosto cortado de saudades e bexigas
[...]. (cap. XL)
•
em “Destino”: Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com sono
[...]. (cap. LVII)
•
em “A reconciliação”: [...] cogitei [...] se não haveria outro meio razoável de
combinar o Estado e a Gamboa. (cap. LXXXI)
•
em “Formalidade”: Vive tu, amável Formalidade, para sossego do Damasceno e glória
de Muhammed [...]. (cap. CXXVII)
•
em “O programa”: [...] o Humanitismo não excluía nada: as guerras de Napoleão e uma
contenda de cabras eram, segunda a nossa doutrina, a mesma sublimidade [...].
(cap. CXLVI)

