16 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS (2)

 


QUESTÃO 01

Leia o fragmento a seguir, extraído do capítulo L de Memórias póstumas de Brás Cubas, para responder ao que se pede nas próximas seis questões. Trata-se da cena posterior ao reencontro de Brás e Virgília, após a moça ter se casado com Lobo Neves.

Oito dias depois, encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar duas ou três palavras. Mas noutro baile, dado daí a um mês, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo, a aproximação foi maior e mais longa, porque conversamos e valsamos. A valsa é uma deliciosa coisa. Valsamos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado.

– Está muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao terraço?

– Não; pode constipar-se. Vamos a outra sala. –

Na outra sala estava o Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus escritos políticos, acrescentando que nada dizia dos literários, por não entender deles; mas os políticos eram excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros de cortesia, e separamo-nos contentes um com o

outro.

Cerca de três semanas depois recebi um convite dele para uma reunião íntima. Fui; Virgília recebeu-me com esta graciosa palavra: – O senhor hoje há de valsar comigo. – Na verdade, eu tinha fama e era valsista emérito; não admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que nessa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la e todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam... Um delírio.

 

Em relação à passagem “Mas noutro baile, dado daí a um mês, em casa de uma senhora, que ornara os salões do primeiro reinado, e não desornava então os do segundo [...]”, considere as seguintes proposições:

I. Há pistas textuais suficientes para concluir que Virgília e Brás Cubas tiveram uma relação amorosa durante o Primeiro Reinado, época de dom Pedro I.

II. A cena transcrita do capítulo L passa-se, certamente, durante o Segundo Reinado, quando dom Pedro II era imperador do Brasil.

III. O fato de a “senhora” em questão ornar “os salões do primeiro reinado” e não desornar “os do segundo” mostra que ela possuía nítidas simpatias pela monarquia, em detrimento da república.

 

Está correto o que se afirma em:

a) I, apenas.

b) II, apenas.

c) III, apenas.

d) II e III, apenas.

e) nenhuma delas.

 

QUESTÃO 02

Em A Divina Comédia, Francesca da Rimini vai para o inferno, pois, influenciada pela leitura de uma novela de cavalaria que narra o amor adúltero entre Lancelote e Ginebra, ela acaba se envolvendo em uma relação também adúltera com Paolo Malatesta. Sabendo disso e considerando a passagem “Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu”, é correto afirmar que:

a) o narrador estabelece uma relação de semelhança entre o “livro” e a “valsa”, já que ambos acabaram motivando um caso adulterino.

b) pressupõe-se que, assim como em A Divina Comédia, a relação amorosa proibida entre Brás e Virgília será punida.

c) o narrador assume que, enquanto dançava, sentiu atração por Virgília, mas que tudo não passou de uma atração momentânea.

d) existe uma semelhança de comportamento entre Francesca, leitora de histórias de cavalaria, e Virgília, admiradora de romances românticos.

e) a forma verbal “perdeu” possui sentidos diferentes em cada uma de suas ocorrências: no primeiro caso, significa “levou à perdição”; no segundo, “ficou privado de”.

 

QUESTÃO 03

Nesse capítulo de Memórias póstumas de Brás Cubas, a expressão que melhor traduz a relação entre Brás Cubas e Lobo Neves é:

a) “cumprimentos”.

b) “escritos políticos”.

c) “nada dizia dos literários”.

d) “iguais esmeros de cortesia”.

e) “separamo-nos”.

 

QUESTÃO 04

De acordo com a passagem “Valsamos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado”, pressupõe-se que:

a) Brás se sente roubado porque reconhece que não deveria manter relações amorosas com uma mulher casada.

b) Brás demonstra que fará todos os esforços possíveis para conquistar o coração de Virgília.

c) Brás e Virgília já tiveram uma relação amorosa, daí a expressão “sensação de homem roubado”.

d) a “singular sensação” remete ao prazer de estar galanteando uma mulher casada.

e) Brás procura esconder sua insatisfação pelo fato de seu interesse por Virgília não ser recíproco.

 

QUESTÃO 05

Sobre a expressão “não nego”, que também aparece na passagem “Valsamos; e não nego que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexível e magnífico, tive uma singular sensação, uma sensação de homem roubado”, considere as afirmações:

I. Trata-se de uma dupla negação, que deveria ser evitada, pois implica uma contradição.

II. O advérbio “não” está funcionando como uma partícula de realce, pois ele apenas reforça o sentido do verbo “negar”.

III. Se substituíssemos a expressão “não nego” por “afirmo”, haveria uma sutil diferença de sentido.

 

Está correto o que se afirma em:

a) I, apenas.

b) II, apenas.

c) III, apenas.

d) I e III, apenas.

e) nenhuma delas.

 

QUESTÃO 06

Em relação à expressão “Um delírio”, que encerra o capítulo em questão, assinale a alternativa mais adequada para entender a função da linguagem nela presente.

a) Trata-se de um exemplo clássico de função referencial, em que se valoriza a transmissão de uma informação de maneira precisa e objetiva.

b) Trata-se de um caso de função conativa, pois estabelece um contato entre o narrador e o leitor, que é “convidado” a participar da narrativa.

c) Trata-se de um exemplo de metalinguagem, por meio do qual o narrador explica minuciosamente as informações apresentadas no parágrafo anterior.

d) Trata-se de um caso de função fática, em que – por meio dessa expressão típica da fala – a única intenção do narrador é testar o canal de comunicação.

e) Trata-se de um exemplo de função emotiva, pois – pela seleção lexical – percebe-se uma avaliação claramente subjetiva do narrador em relação à valsa com Virgília.

 

QUESTÃO 07

Nesse livro, ousadamente, varriam-se de um golpe o sentimentalismo superficial, a fictícia unidade da pessoa humana, as frases piegas, o receio de chocar preconceitos, a concepção do predomínio do amor sobre todas as outras paixões; afirmava-se a possibilidade de construir um grande livro sem recorrer à natureza, desdenhava-se a cor local; surgiram afinal homens e mulheres, e não brasileiros (no sentido pitoresco) ou gaúchos, ou nortistas, e, finalmente, mas não menos importante, patenteava-se a influência inglesa em lugar da francesa.

Lúcia Miguel Pereira, História da Literatura Brasileira – Prosa de ficção – de 1870 a 1920. Adaptado.

 

O livro a que se refere a autora é:

a) Memórias de um sargento de milícias.

b) Til.

c) Memórias póstumas de Brás Cubas.

d) O Cortiço.

e) A cidade e as serras.

 

QUESTÃO 08

Leia o seguinte excerto de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:

Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p.120.

 

Na passagem citada, a substituição da máxima pascalina de que o homem é um caniço pensante pelo enunciado “o homem é uma errata pensante” significa:

a) a realização da contabilidade dos erros acumulados na vida porque, em última instância, não há “edição definitiva”.

b) a tomada de consciência do caráter provisório da existência humana, levando à celebração de cada instante vivido.

c) a tomada de consciência do caráter provisório da existência humana e a percepção de que esta é passível de correção.

d) a ausência de sentido em “cada estação da vida”, já que a morte espera o homem em sua “edição definitiva”.

 

QUESTÃO 09

Capítulo LIII

Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; – era o que dizia, e era verdade.

Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, – coitadinha, – trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, – breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, – uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, – vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações

e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.

 

No último período do texto, o ritmo que o narrador imprime ao relato de seus amores corresponde sobretudo ao que se encontra expresso em:

a) “prólogo de uma vida de delícias”

b) “prazeres que rematavam em dor”

c) “hipocrisia paciente e sistemática”

d) “paixão sem freio”

e) “o livro daquele prólogo”

 

QUESTÃO 10

 [...] Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.

Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p.101.

 

Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura... [...] Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi [...]. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.

— Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano.

Virgília replicou:

— Promete que algum dia me fará baronesa?

— Marquesa, porque serei marquês.

Desde então fiquei perdido.

(Idem, p.138.)

 

[...] Virgília deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados.

(Idem, p. 76)

 

a) No romance, Brás Cubas estabelece vínculos amorosos, em diferentes momentos, com Marcela e com Virgília. Explique a natureza desses dois vínculos, considerando a classe social das personagens envolvidas.

b) Considerando o último excerto, como o narrador Brás Cubas avalia sua vivência amorosa ao final do romance?

 

 

 

7. c

8. c

9. d

10. a) O vínculo de Brás Cubas com Marcela é ironicamente marcado pelo interesse econômico, o que se verifica no elemento quantitativo que marca a duração e o custo da relação amorosa. Na experiência amorosa com Virgília (a paixão “sem freios”), que supostamente poderia ter transcendido o interesse econômico, o vínculo afetivo entre os amantes não superou a exigência social da vida matrimonial para a condição feminina. Vale lembrar que Virgília não rompe seu vínculo matrimonial com o marido Lobo Neves, em razão da promessa de ascensão social. Portanto, em ambas as experiências, o desejo foi absorvido pela engrenagem da vida social. Em suma, as posições de classe são determinantes no estabelecimento dos vínculos amorosos nesse romance.

b) Ao fim do romance, Brás Cubas avalia sua existência de modo pessimista. Em seu leito de morte, não considera que o amor possa ser redentor, afinal a experiência amorosa não o tornou uma pessoa melhor nem deixou alguma marca positiva em si. Podemos concluir, portanto, que a experiência amorosa do narrador com Virgília e com Marcela é marcada pelo signo do fracasso.




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