17 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: MEMÓRIAS DE MARTHA (1)


 Introdução

A autora

Júlia Valentina da Silveira Lopes (o Almeida só viria após o casamento) nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, em uma casa repleta de livros, pois seu pai era proprietário de um estabelecimento de ensino – que serviu de inspiração para a ambientação de parte da trama de Memórias de Martha em uma escola –, atividade que ele só encerrou ao se formar em medicina e decidir seguir essa profissão. Em 1870, a família se transferiu para Campinas, no interior de São Paulo, onde Júlia permaneceu até os 23 anos. Alfabetizada em casa, pela mãe e pela irmã mais velha, também foi orientada pelo pai na leitura de autores portugueses e franceses, além de ter aulas particulares de música e língua inglesa. Eram hábitos incomuns para a época, próprios de uma família que cultivava o refinamento intelectual.

A vocação para a escrita surgiu ainda na adolescência, mas Júlia escondia seus textos, temendo o preconceito da época contra mulheres escritoras. Foi a irmã quem revelou seu segredo ao pai, que, então, passou a incentivar a filha. Convidado pelo jornal Gazeta de Campinas a escrever um artigo sobre um espetáculo teatral, ele delegou a tarefa a Júlia, que produziu um texto tão bom que a levou a se tornar colaboradora constante da imprensa local. Em 1885, durante uma viagem ao Rio de Janeiro, Júlia conheceu o editor da revista A Semana, o poeta português Filinto de Almeida, com quem se casou dois anos depois. O marido ofereceu a ela o mesmo apoio que o pai lhe havia dado para o desenvolvimento de sua vocação, elogiando incansavelmente o talento da esposa.

Dessa forma, Júlia abraçou a carreira de escritora de forma profissional. Mantinha anotações da venda de seus livros, dos preços que recebiam no mercado e da quantia que cabia a ela. E ela deve ter tido muito o que anotar: seus artigos eram bastante lidos, o que fez dela a escritora mais publicada da Primeira República, a ponto de ser convidada a participar de conferências públicas, um privilégio reservado a literatos famosos, como Olavo Bilac, Coelho Neto e João do Rio. Ela também colaborou ativamente em diversas publicações, como o jornal republicano e abolicionista O Paiz, do Rio de Janeiro, onde suas crônicas apareciam logo na primeira página.

Apesar de toda a efervescência profissional, Júlia nunca deixou em segundo plano a condição de mãe e de esposa, justamente para provar que era possível conciliar as atividades de casa com uma profissão liberal. Entre o final do século XIX e o início do seguinte, publicou importantes romances, como A família Medeiros (1894), A viúva Simões (1897) e A falência (1901), além do volume de contos Ânsia eterna (1903). As primeiras discussões em torno da criação da Academia Brasileira de Letras (ABL) tiveram início por volta de 1897, justamente na casa de Júlia e Filinto de Almeida. O casal se envolveu com o projeto, e o nome dela chegou a constar da lista de possíveis membros fundadores. No entanto, sob a justificativa de seguir o modelo francês, que só admitia homens em sua Academia, a maioria dos membros que compunha a primeira turma de imortais rejeitou a entrada da escritora. A ABL só admitiria uma mulher em 1977, quando Rachel de Queiroz foi efetivada como membro.

Júlia Lopes de Almeida faleceu em 1934, vítima de complicações oriundas de uma doença contraída durante uma visita à filha caçula, que residia na África. Desde as últimas décadas do século XX, sua obra vem sendo redescoberta e pesquisada, incluindo Memórias de Martha, seu primeiro romance, publicado pela primeira vez em 1888.


Contexto histórico

Sociedade

Quando o romance Memórias de Martha começou a ser publicado em folhetins, em dezembro de 1888, o Brasil já não era mais um país escravocrata, devido à promulgação da Lei Áurea em maio daquele ano. O país também se preparava para a transição de Monarquia para República, que seria proclamada em novembro de 1889. No entanto, para compreender com precisão os parâmetros históricos do romance, é preciso delinear um panorama social um pouco mais amplo.

O século XIX foi o século da burguesia. O exercício do poder burguês na Europa determinou uma mudança de mentalidade em vários níveis. A concepção de família, por exemplo, conforme a conhecemos hoje, consolidou-se durante esse período, determinando a imagem do lar como local de intimidade e acolhimento e, em relação à mulher, o elogio da maternidade. Isso resultou em um modelo de comportamento no qual cabia ao homem a ocupação do espaço externo, do mundo do trabalho e das discussões políticas, enquanto à mulher estava reservado o cuidado da casa e dos filhos. Esse modelo, que acabou sendo erigido como ideal, só poderia ser atendido pela classe burguesa, já que as mulheres das classes populares precisavam se ausentar de casa para trabalhar. De acordo com esse modelo, impunha-se uma forte restrição moral à mulher, na medida em que sua imagem de boa mãe e de dona de casa exemplar era fundamental para o sucesso social e político do marido. A restrição da atuação feminina ao espaço do lar ganhou, com o decorrer do século, o respaldo da ciência, que estabelecia diferenças entre homens e mulheres. Para a medicina social do período, as mulheres eram fisicamente frágeis, naturalmente recatadas, dominadas sobretudo pelos sentimentos (entre eles, a fé e a caridade) mais do que pela racionalidade e carregavam consigo uma inata vocação para a maternidade; já os homens eram fisicamente fortes, naturalmente autoritários, mais racionais do que sentimentais e apresentavam uma inata tendência à sexualidade sem limites, exercida frequentemente fora do lar. Como consequência dessas supostas diferenças, uma conclusão equivocada se tornou lugar-comum: a mulher não possuía nenhuma autonomia, nenhum poder de decisão sobre seu próprio destino.

Uma das primeiras lutas pela valorização da condição feminina foi a de conquistar o acesso à educação. No Brasil, a luta pelo ensino foi bastante ampla; mas, embora a Constituição de 1824 garantisse ensino público de qualidade para toda a população, a verdade é que essa determinação demorou anos para ser colocada em prática – dez anos depois não havia nenhuma escola pública no Rio de Janeiro, por exemplo, deixando claro que existiam dificuldades a respeito da educação como um todo. Mas a luta das mulheres foi ainda mais intensa e difícil. A leitura e a escrita eram, até então, privilégios masculinos, salvo raríssimas exceções; a mentalidade machista e misógina da época acreditava que as jovens, ao aprenderem a ler, trocariam cartas com namorados.

As primeiras metodologias de ensino feminino definiam alguns saberes também ministrados aos meninos, como leitura, escrita, religião e noções básicas de aritmética. Depois desse currículo comum, a ala masculina seguia com matérias como geometria, enquanto à parte feminina cabia o aprendizado de bordado e costura. Famílias mais abastadas podiam contratar professoras particulares (muitas vezes estrangeiras), limitando as aulas das meninas ao espaço doméstico e a um aprendizado de caráter mais ornamental, com aulas de música, canto, dança ou artesanato, atividades pensadas para o entretenimento familiar e para a prática de habilidades que serviriam para atrair bons maridos.

Para as mulheres que desejavam se dedicar a atividades intelectuais, era sempre lembrado que teriam dificuldades para conciliá-las com os papéis sociais vistos como primordiais para a mulher: o casamento e a maternidade. A própria Júlia Lopes de Almeida deixou muitos testemunhos de que, embora se dedicasse às letras, prezava muito sua condição de mãe e de esposa. Mas aquelas que, ainda assim, insistiam em seguir carreiras intelectuais eram vistas com reservas, como anomalias sociais, como seres capazes de desmontar a ordem vigente, chegando-se ao ponto de se criar uma imagem masculinizada dessa mulher, como se, ao seguir esse caminho, ela estivesse abdicando de sua feminilidade.

A mulher com instrução limitada não tinha acesso à vida pública. As que pretendiam quebrar essa barreira enfrentavam a fúria dos conservadores. A luta pelo direito ao voto, liderada no Brasil por Bertha Luz (1894-1976), só chegaria ao fim em 1932, mesmo assim com algumas ressalvas: na Constituição de 1934, o voto feminino era facultativo, tornando-se obrigatório somente em 1965. Nessa luta, não deixa de ser curiosa a posição de Júlia Lopes de Almeida, que chegou a escrever artigos contrários ao voto feminino, argumentando que a prioridade deveria ser a capacitação da mulher para o mercado de trabalho. A autora também deixou registrada a sua intenção de abdicar do direito ao voto, dizendo-se ignorante em política e desejosa de dedicar-se exclusivamente à sua carreira de escritora.

De forma geral, as mulheres das classes populares estavam ainda mais distantes dessas discussões. No Brasil, o sistema judiciário, por meio de suas leis, e as forças policiais, com ações rigorosas, estabeleciam normas e controlavam a ação das mulheres mais pobres, sobretudo no que dizia respeito ao comportamento, que deveria se pautar pelas “boas maneiras”. Na prática, isso representava uma estratégia de silenciamento. Além dos serviços domésticos que desempenhavam em suas próprias casas, as mulheres trabalhadoras ainda exerciam uma série de funções menos valorizadas, como lavadeiras e engomadeiras, por exemplo, que é o caso da mãe da protagonista de Memórias de Martha.

Outro dado da vida familiar das classes populares que se apresenta no romance de Júlia Lopes de Almeida é a violência doméstica.

De forma geral, esta era exercida por maridos enfurecidos: quando se viam impossibilitados de prover a família, extravasavam sua insegurança pessoal em agressões físicas e verbais contra suas companheiras e filhos. Como veremos, quando menina, Martha testemunhou brigas do casal que morava no cômodo vizinho ao dela. Contudo, nesse caso, a violência partia também da mulher, que não se submetia às imposições do marido. Esse dado é curioso, pois parece revelar que, enquanto nas classes mais abastadas vigorava o modelo do homem que exercia poder sobre a mulher submissa, nos lares mais pobres essa posição não era exercida com tanta facilidade, porque enfrentava a resistência das mulheres. Nesse contexto, inclusive, não era incomum que se encontrassem mães solteiras, que recusavam o casamento para escapar de cerceamentos morais e de agressões físicas.

Um dos poucos caminhos permitidos às mulheres que desejavam se afastar de atividades ligadas aos trabalhos manuais era o magistério. No Brasil, entre os séculos XVI e XVIII, essa atividade era exercida pelos jesuítas. Posteriormente, esse leque se abriu, mas a docência continuou a ser um ofício preferencialmente masculino. A demanda crescente, provocada pela presença de imigrantes e pelo crescimento das camadas médias, determinou que esse campo fosse aberto às mulheres, as quais, a partir do final do século XIX, passaram a constituir a maioria do professorado. Foi um processo árduo, que enfrentou resistência daqueles que achavam que o exercício da docência era uma atividade excessivamente racional para as mulheres, já que, na visão desses opositores, elas tinham cérebros “pouco desenvolvidos”. Por outro lado, houve quem apoiasse esse incremento da presença feminina no magistério, argumentando que se tratava de uma atividade para a qual as mulheres tinham uma inclinação natural, tendo em vista seu instinto materno. Dessa predominância feminina, surgiria a imagem da professorinha ou da normalista, ou seja, a frequentadora de cursos preparatórios para o exercício do magistério, como no romance A normalista, de Adolfo Caminha, de 1893.

O fato de as mulheres terem alcançado, finalmente, a permissão de exercer uma atividade intelectual reconhecida socialmente não significou o fim das perseguições e do preconceito. Embora fossem consideradas aptas para o exercício pedagógico, nem sempre eram vistas como adequadas para cargos de direção, que continuaram a ser exercidos, de forma geral, por homens – com exceção de escolas religiosas, muitas das quais eram comandadas por madres superioras. Além disso, acreditava-se que o magistério era o destino natural de mulheres desprovidas de atrativos físicos – o que ocorre com Martha, protagonista do romance de que tratamos aqui –, pois acreditava-se que, para elas, estavam suspensas as alternativas mais convencionais do casamento e da maternidade, e assim, como não seriam capazes de gerar filhos, deveriam se dedicar à educação dos filhos de outras pessoas.

 

Cultura

O século XIX também foi o século do romance, em função da proliferação de narrativas que se voltavam para a contemporaneidade – mesmo aquelas de fundo histórico estabeleciam alguma relação com seu próprio tempo. A linguagem perdeu um pouco da sua erudição, assumindo um tom mais próximo da realidade dos leitores. Os jornais passaram a veicular narrativas seriadas em seus números – conhecidas como folhetins. O sucesso dessa iniciativa fez surgirem escritores de grande apelo popular, como Victor Hugo, na França, Camilo Castelo Branco, em Portugal, e José de Alencar, no Brasil, assim como Ponson du Terrail, Manuel Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães, Machado de Assis e tantos outros. No caso brasileiro, podemos lembrar ainda os nomes de Teixeira e Sousa e Laurindo Rabelo, menos conhecidos hoje, mas que fazem parte da história literária. Como se pode notar, esses exemplos são todos de autores masculinos, e isso não é coincidência.

Em um artigo de 1893, o escritor Osório Duque Estrada declarou, sem nenhum pudor: “As maiores escritoras foram e hão de ser sempre inferiores a um literato medíocre”. Devido a tais posições retrógradas, as escritoras do século XIX – e anteriores – sofreram um processo de silenciamento. Seria possível argumentar que essas escritoras alcançaram menor sucesso, mas essa afirmação não resiste a uma pesquisa um pouco mais atenta. No Brasil, muitas foram as publicações fundadas por mulheres. Um exemplo é O Corymbo, lançado no Rio Grande do Sul pelas irmãs Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro, que circulou por sessenta anos, entre 1884 e 1944. Também tivemos o jornal O Sexo Feminino, de propriedade de Francisca Senhorinha da Mota Diniz, que esclarecia seu

projeto editorial no subtítulo – “Semanário dedicado aos interesses da mulher” – e circulou no Rio de Janeiro no final do século XIX. Entre muitos outros exemplos, podemos citar a revista A Mensageira, de Priscilliana Duarte de Almeida, que, apesar de sua curta duração (circulou entre 1897 e 1900), exerceu influência sobre as leitoras e teve como uma de suas colaboradoras habituais Júlia Lopes de Almeida. Esses periódicos comprovam o interesse suscitado pelo tema e a existência de uma produção de autoras mulheres, destinada, sobretudo, a leitoras mulheres.

As obras dessas escritoras tiveram, em seu tempo, repercussão maior do que a de muitas escritas por homens que, embora esquecidos, figuram nas listas literárias, ao contrário das mulheres, relegadas ao quase total esquecimento. Já era tempo de trazer de volta à letra impressa autoras como Nísia Floresta, Maria Firmino dos Reis, Narcisa Amália, Maria Benedita Camara Bormann, e, claro, Júlia Lopes de Almeida – provavelmente a mais bem-sucedida de todas, cuja carreira de grande sucesso em seu tempo foi injustamente relegada a segundo plano. 

O livro

A primeira edição do romance Memórias de Martha foi publicada em folhetins no jornal Tribuna Liberal, do Rio de Janeiro, entre dezembro de 1888 e janeiro de 1889. Uma segunda edição surgiu dez anos depois, reunida em um romance publicado pela Casa Durski Editora, sediada em Sorocaba (SP). A versão em livro apresenta algumas diferenças em relação à original, dos folhetins, embora sem alterar significativamente a narrativa. Para comparação, apresentamos o início de cada uma dessas versões:

 


Houve ainda uma terceira edição, publicada nas primeiras décadas do século XX pela Livraria Francesa Truchy-Leroy, na qual também constam algumas diferenças em relação às versões anteriores.

Embora não haja, de fato, nenhuma alteração significativa, algumas diferenças podem incomodar o leitor que busca compreender as sutilezas do texto de Júlia Lopes de Almeida, como apontaremos no decorrer desta análise. Para o presente trabalho, adotamos a edição da editora Janela Amarela, do Rio de Janeiro, publicada em 2020, que segue a primeira versão em livro, de 1899.

Este foi o primeiro romance de Júlia Lopes de Almeida, que surgiu como escritora em um momento particularmente feliz de nossa ficção: antes de Memórias de Martha, surgiram as Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, obra inovadora e fundamental para nossa evolução literária. No mesmo ano da publicação do romance de Júlia, foi impresso O Ateneu, de Raul Pompeia, um exemplo do nível alcançado pelas nossas letras. Finalmente, em 1890, foi publicado O Cortiço, de Aluísio Azevedo, ambientado no mesmo espaço social em que se passa parte da ação de Memórias de Martha. Apesar da concorrência de escritores já reconhecidos, Júlia Lopes de Almeida conseguiu chamar a atenção da crítica de seu tempo. Em um artigo escrito em 1897, o crítico Lúcio de Mendonça se refere a três escritoras brasileiras, que, por coincidência, têm o mesmo nome – Francisca Júlia, Júlia Cortines (ambas poetas de filiação parnasiana) e Júlia Lopes de Almeida, reconhecendo nesta última, a “vasta reputação literária”. No entanto, convém destacar alguns trechos da crítica: “há nas três uma feição comum – a índole máscula do seu talento”; “a varonilidade do espírito destas três senhoras não lhes tira, mesmo literariamente falando, as graças do sexo – a delicadeza do sentimento, a finura da análise, a comoção mais vibrante de todo o encanto do recato”5. Como se vê, mesmo em um artigo elogioso, revela-se a perspectiva machista da crítica, em expressões como “índole máscula” ou “varonilidade do espírito”, demonstrando que o termo de comparação continua a ser a produção literária masculina.

A passagem do tempo apenas acentuou essa visão. Júlia Lopes de Almeida não teve destaque em importantes estudos sobre a literatura brasileira, como História concisa da literatura brasileira, de Alfredo Bosi; A literatura brasileira, organizada por Afrânio Coutinho; o volume dedicado ao Realismo da coleção História da literatura brasileira, escrito por Massaud Moisés; o estudo sobre o Realismo que consta da coleção A literatura brasileira, escrito por João Pacheco. No estudo Prosa de ficção – de 1870 a 1920, publicado em 1950, a pesquisadora Lúcia Miguel-Pereira reserva para a escritora um espaço pouco lisonjeiro, citando-a no capítulo “Sorriso da sociedade”, dedicado a tratar da produção literária de tom mais superficial. Em seu texto, Lúcia Miguel-Pereira reconhece “inegáveis dons literários” nos livros da escritora, mas afirma que eles “nada possuem de original”. Talvez um dos primeiros críticos a desafinar esse coro de descontentes com a obra de Júlia Lopes de Almeida tenha sido Wilson Martins, que, em sua História da inteligência brasileira, afirma que a escritora “representa, talvez, o ponto mais alto do nosso romance realista” – o que parece um exagero, tendo em vista Machado de Assis e outros autores do período – e ainda que ela seja “um dos nossos romancistas do passado a exigir urgente reavaliação” – julgamento que nos parece mais acertado.

 

Síntese da obra

Infância

Em Memórias de Martha, acompanhamos a vida da protagonista narrada por ela mesma. Até os cinco anos de idade, Martha viveu em uma casa confortável, mas a morte do pai mudou drasticamente seu destino: Martha e a mãe, também chamada Martha, tiveram de se mudar para um cortiço no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A menina não guarda muitas lembranças do pai e só mais tarde a mãe lhe contaria as circunstâncias de sua morte.

Instalada no cortiço com a filha, a mãe começou a trabalhar como lavadeira e engomadeira, ofício que a fazia se ausentar frequentemente de casa, quando não podia levar a menina consigo. Nesses momentos, Martha ficava sob os cuidados de uma vizinha, chamada apenas de “ilhoa” (isto é, originária de ilha), que tinha três filhos pequenos, Carolina, Maneco e Rita. Dos três, Martha recebia especial afeto da mais velha, Carolina, que, certa vez, dividiu com ela um bife preparado pela ilhoa, que ficou furiosa com essa atitude. A mãe de Martha mantinha a menina sob vigilância estrita, mas, mesmo assim, ela brincava com os amigos da rua, cujas brincadeiras às vezes eram violentas e faziam a menina voltar para casa aos prantos.

Em uma das ocasiões em que acompanhou a mãe a uma entrega de roupas, Martha conheceu uma família rica. Uma das filhas da casa, Lucinda, tinha idade semelhante à dela, mas possuía muito mais roupas e brinquedos de melhor qualidade. Ao saber que Martha ainda não sabia ler, a dona da casa observou que ela já tinha idade para isso, induzindo a lavadeira a matricular a filha em uma escola.

Passados os primeiros dias de aulas, Martha superou o estranhamento e passou a se sentir bem. Fez novas amizade, entre as quais uma “menina mulata” (p. 24) chamada Mathilde, que a ajudava nas lições. No entanto, quando a nova amiga foi denunciada por furto, Martha se afastou, assim como as outras colegas, e a menina acabou sendo expulsa da escola. Martha se aproximou, então, de Clara Sylvestre, que, embora não a ajudasse com as tarefas, era “alegre, bonita e forte” (p. 25) e dizia sonhar com uma vida de luxo e riqueza. Martha logo se adaptou aos estudos e à escola. Gostava de estar ali, porque, dessa forma, permanecia longe do cortiço onde morava. Por isso, as férias foram motivo de tristeza para ela, quando voltou a conviver com as crianças da vizinhança e assistiu à lenta degeneração física de um dos filhos da ilhoa, Maneco, que desde cedo se tornou viciado em álcool.

No fim das férias, Martha ficou doente, vítima de uma epidemia de difteria que atingiu o cortiço. Recuperou-se após duas semanas, e, assim que as férias terminaram, retornou às aulas, levando consigo a filha mais nova da vizinha, Rita. Enciumada das atenções que Martha dedicava à nova aluna, Clara Sylvestre também tratou de arranjar novas amizades. A professora, D. Anninha, logo percebeu a disposição de Martha para os estudos e não escondeu sua preferência por ela, pedindo-lhe auxílio para tomar as lições das colegas. E assim se passou mais um ano na escola, ao final do qual Martha se submeteu a novos exames, saindo-se tão bem quanto em ocasiões anteriores.

A mãe de Martha, acreditando que a filha fosse suficientemente instruída, tentou introduzi-la nas tarefas domésticas, mas Martha demonstrou pouca habilidade nos trabalhos manuais. A mãe insistiu, dizendo que ela teria que aprender para, no futuro, conseguir se sustentar de forma digna. Os esforços foram inúteis, porque Martha não conseguia desempenhar bem as tarefas diárias. Por outro lado, na escola, ouviu uma conversa entre D. Anninha e uma professora-adjunta (assistente), que falava de sua ansiedade em “tirar a cadeira” (p. 37), isto é, em se habilitar para o exercício do magistério. A moça comentava que, quando conseguisse isso, teria uma vida melhor. A ideia impressionou e atraiu Martha, que, naquela mesma noite, sonhou que era professora. Ela se deu conta, então, de que poderia garantir seu futuro seguindo essa profissão. Desse modo, escaparia da situação em que vivia Carolina, a menina vizinha, que já começava a apresentar sinais de envelhecimento precoce, como um inchaço nas pernas devido ao trabalho incessante em casa.

Martha passava a maior parte do tempo no colégio, evitando ao máximo retornar ao ambiente sombrio do cortiço e do cômodo que ela e a mãe ocupavam. Incomodava-a também a convivência com pessoas como a Eulália, “uma mulata gorda” (p. 42) que vivia bêbada; o menino Lucas, que se aproximava sempre que via alguém comendo alguma coisa; o Tio Bernardo, um “idiota velho” que era sustentado pelo dono do cortiço em troca de pequenos favores. Um episódio de violência assustou-a ainda mais. Havia no cortiço “dois rapazes tiroleses” (isto é, originários do Tirol, região entre a Itália e a Áustria), que moravam juntos no cortiço e pareciam ser muito amigos, até um deles matar o outro e fugir com as economias que tinham feito. Passado o susto, a vida de Martha e de sua mãe voltou ao normal.

Durante uma conversa, a mãe revelou alguns fatos de seu passado. Ela e a família eram de Minas Gerais e seu pai, avô de Martha, já viúvo, era muito rigoroso na educação da filha. Em uma das raras festas que ele lhe deu permissão para frequentar, ela conheceu seu futuro marido. Dançaram e se apaixonaram imediatamente. Após vencerem a resistência do pai, conseguiram se casar. Depois de algum tempo, o velho, desgostoso da vida solitária e entregue ao vício do jogo, foi acolhido pelo casal, mas acabou morrendo em uma mesa de baralho. Ela e o marido mudaram-se para São Paulo. Ele passou a trabalhar com escrituração (documentação comercial) e logo prosperou. Viviam “em um chalé ajardinado” (p. 49), que mobiliaram com modéstia. Martha nasceu nesse período. Para constituir um futuro dote para a filha, o pai resolveu aumentar os rendimentos tornando-se caixeiro viajante (espécie de representante comercial) da firma Braga & Torres8. Certa vez, uma quantia pertencente aos patrões foi roubada enquanto estava sob seus cuidados, e ele foi acusado. Para evitar a prisão, suicidou-se.

 

Saída do cortiço

Martha passou a frequentar a Escola Normal, que formava profissionais do magistério. Enquanto estudava, podia ser convocada como professora-adjunta, e, para isso, dedicou-se aos estudos com ainda mais afinco. Nesse meio tempo, a vida da família vizinha foi marcada por uma tragédia. Maneco, cuja saúde já estava debilitada por causa do vício em álcool, acabou falecendo, para desespero da mãe e das irmãs.

De sua parte, Martha recebeu, no dia seguinte, uma boa notícia: D. Anninha lhe contou que sua nomeação para professora saíra e que ela começaria a receber pagamento pelo trabalho. Imediatamente, ela e a mãe começaram a procurar uma casa pequena para alugar. Encontraram o que queriam, mas o valor do aluguel consumiria quase todo o seu salário, o que as fez hesitar em fechar o negócio. No entanto, um episódio ocorrido alguns dias depois a levou a mudar de ideia. Em uma aula da Escola Normal, percebeu que um rapaz a observava com insistência. Quando foi embora, acompanhada da mestra, que tomava o mesmo bonde, notou que o rapaz estava no veículo. Quando desceram, ele também desceu e passou a segui-las. O cortiço onde morava Martha ficava antes da casa da professora, portanto, ela se despediu e entrou. O rapaz passou pelo portão do cortiço e seguiu caminho.

Recordando a cena em suas memórias, Martha chegou à conclusão de que, na verdade, o rapaz perseguia a professora, e não a ela. Mas, naquela ocasião, ela atribuiu o desprezo dele ao fato de morar em um cortiço. Por isso, decidiu alugar a pequena casa que havia encontrado. Nas novas acomodações, Martha não conseguia esquecer os olhos do rapaz, embora nunca mais o tivesse visto.

 

Vinte anos

Martha chegou aos 20 anos de idade dividindo seu tempo entre os estudos, o trabalho e a costura ao lado da mãe, que estava cada vez mais enfraquecida. A tristeza pela suposta perda de um amor a tornava melancólica, o que preocupava a mãe. Em conversa com a professora e mentora de Martha, D. Anninha, a mãe comentou o estado de ânimo da filha. Alguns dias depois, Martha recebeu um convite para participar de um baile na casa da mestra, que celebraria o aniversário do marido.

Na noite da festa, a mãe a levou até a casa da professora e disse que ficaria esperando “embaixo, na sala de entrada, onde a não vissem senão os criados” (p. 62). Martha ficou triste com a situação, mas, ao mesmo tempo, reconheceu que a mãe não tinha sequer um vestido apresentável. Durante a festa, Martha observou as pessoas conversando e dançando, mas permaneceu isolada de todos. D. Anninha apresentou a aluna a algumas sobrinhas suas. Durante a organização de um lanceiro (espécie de quadrilha), notou-se que faltava um par. A professora solicitou a um amigo, um velho conselheiro, que interrompesse a jogatina para fazer par com Martha. O velho aquiesceu com má vontade e a dança foi uma tortura para a moça, que não sabia os passos, errava a todo momento e era motivo de chacota.

Após a dança, serviram o chá. Martha foi flagrada por um grupo de rapazes colocando algumas pastilhas enfeitadas na algibeira para oferecer à mãe e ficou envergonhada. A imagem da mãe fez com que se recordasse do que havia combinado com ela, de sair até as 23 horas. Quando soube que já eram 2 horas, retirou-se com pressa e encontrou a mãe em um banco do vestíbulo, “curvada e fria, olhando para o chão” (p. 67). Martha retirou-se com a mãe sem sequer se despedir da professora. No dia seguinte, ao reencontrá-la para se desculpar, notou que a anfitriã não havia percebido sua ausência.

 

Uma temporada no campo

Algum tempo depois, nas férias, a saúde de Martha voltou a dar sinais de fragilidade. Inicialmente, o médico aconselhou casamento, mas, vendo a expressão desalentada da mãe e da filha, sugeriu que uma viagem poderia fazer bem à moça. Mais uma vez, a mãe recorreu a D. Anninha. A ocasião era propícia, porque a professora se preparava para passar uma temporada em uma casa alugada no interior do estado, na companhia do marido, e convidou Martha para ir com eles. Os preparativos para a viagem consumiram algum dinheiro, que a mãe conseguiu em empréstimo adquirido junto a um freguês generoso, o Miranda.

No campo, enquanto o marido de D. Anninha caçava, as mulheres passavam o tempo lendo, costurando e apreciando a paisagem. Algumas vezes, passeavam pela região. Em um desses passeios, encontraram por acaso um rapaz chamado Luiz, primo de D. Anninha. Ele suspendera seus estudos de Medicina para descansar alguns dias no interior. Sua conversa demonstrava refinamento e inteligência e, naquela noite, em seus sonhos, Martha misturou a imagem de Luiz com a do rapaz cujos olhos a haviam impressionado tanto, tempos antes.

Luiz então passou a frequentar a casa onde D. Anninha e Martha estavam hospedadas. Certa vez, enquanto conversavam amenidades durante um passeio, Martha sentiu os olhos de Luiz fixos nela. Nesse dia, ao retornarem para casa, ele lhe ofereceu o braço, e ambos vieram conversando sobre seus planos futuros. Martha experimentou uma felicidade inédita em sua vida.

Luiz passou a escrever poemas simples para Martha, que os guardava e os relia sempre. Durante um novo passeio, no qual Luiz também estava presente, enfrentaram uma tempestade que obrigou o grupo a se recolher em uma cabana. Alguns minutos depois, passou por eles uma “rapariga nova, alta, bonita, rosto cor de leite e rosas, de uma frescura encantadora” (p. 83). Era uma moça estadunidense que estava hospedada em um hotel próximo, onde cuidava do pai paralítico. Conversaram rapidamente e a moça manifestou sua paixão por temporais. Logo a seguir, partiu. Martha percebeu que a estrangeira provocou forte impressão em Luiz.

No dia seguinte, ele não apareceu. Martha supôs que ele pudesse estar doente após a chuva que tinham apanhado. Naquela noite, um telegrama da Corte noticiava a fragilidade do estado de saúde da sogra de D. Anninha, e ela e o marido decidiram voltar na manhã seguinte. De manhã, Martha pretextou que queria se despedir do lugar antes de partirem e foi dar um passeio. Passou pelo hotel e viu Luiz e a jovem norte-americana trocando carícias e algumas palavras em inglês, que, mais tarde, seriam confirmadas pela professora como expressões de amor. Ao retornar para casa, Martha pensou em suicídio. Por fim, tomada pela forte emoção, caiu desmaiada. Foi acordada por vozes que se aproximavam. Era D. Anninha, que a procurava, apressando-a para a partida.

A mãe recebeu-a com alegria, e achou que a filha tinha recuperado a saúde. Como única novidade, comentou que Miranda, o freguês generoso que lhe havia emprestado o dinheiro para a viagem de Martha, era agora seu vizinho: “um bom homem, aquele” (p. 89).

 

Um reencontro

Martha se sentia emocionalmente exausta. A mãe, percebendo o estado da filha, convidava-a para passeios pela cidade. Em uma dessas caminhadas, Martha deixou a mãe descansando em uma praça e disse que daria uma volta pelo lugar.

Adiante, deparou-se com algumas crianças brincando em um local pobre. De repente, passou por perto dela uma “mulher elegantíssima” (p. 94), que entrou em uma das pequenas casas. Ao sair, a mulher distribuiu dinheiro às crianças. Estava acompanhada de uma velha, de quem logo se desembaraçou, e partiu. Ao passar diante de Martha, as duas se olharam e se reconheceram: era Clara Sylvestre, a antiga colega de escola. Conversaram, enquanto olhavam uma para a outra, cheias de recordações. Demonstrando nervosismo, Clara explicou que estava ali porque uma empregada sua morrera, deixando uma filha de 9 meses, e que ela pagava a mulher para cuidar da criança. A conversa foi interrompida por alguns rapazes que, de um carro estacionado próximo dali, chamaram por Clara. Ela se despediu, dizendo que não merecia a amizade de Martha e afirmando que há muito tempo não tinha uma alegria como a proporcionada por aquele reencontro. Martha retornou ao lugar onde deixara a mãe, refletindo sobre as palavras da antiga colega: “eu não mereço nada” (p. 97). Aos seus próprios olhos, era ela, Martha, que não merecia nada do mundo. Guardou consigo a lembrança do olhar doce de Clara.

 

Professora

Aos poucos, o estado de nervosismo de Martha foi melhorando. Em um encontro com D. Anninha, esta lhe contou que seu primo Luiz se casaria em breve. Martha imaginou que fosse com a estadunidense que o rapaz conhecera no campo, mas a professora revelou que seria com uma de suas sobrinhas, que Martha recordou ter conhecido durante o baile. Não conseguiu evitar o pensamento de que a norte-americana também tinha sido iludida por Luiz. Quando chegou em casa, foi informada pela mãe que Miranda trouxera um anúncio de jornal sobre um concurso para escolas públicas. Imediatamente, Martha se pôs a estudar.

Após o concurso, retornou à casa e encontrou a mãe animada. Miranda havia assistido ao exame e lhe trouxe a notícia de que ela se saíra bem. De fato, algum tempo depois, Martha recebeu a nomeação de professora, coincidentemente, no mesmo dia do casamento de Luiz.

A mãe contou a Martha que Miranda tinha pedido sua mão em casamento. Contou ainda que o afeto do freguês crescera ao ler as cartas enviadas por Martha do campo, mostradas a ele pela mãe. Martha recusou o pedido, dizendo que não pretendia se casar, principalmente agora que tinha conquistado sua independência profissional. A mãe lamentou essa decisão, dizendo que não queria morrer sem vê-la casada e amparada. Martha passou a refletir sobre a possibilidade de aceitar o pedido. Concluiu que seu casamento “seria uma vingança para os ultrajes que a minha imaginação de moça recebera sempre” (p. 104).

 

Casamento

Miranda era um homem simples, “de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos a luzirem-lhe na barba preta; de feições miúdas, dentes pequeninos; e peito robusto” (p. 106), com 40 anos de idade, o que o tornava um pouco velho para Martha.

Mãe e filha passaram a se dedicar aos preparativos do enxoval e à mudança para uma nova casa no bairro do Engenho Novo, próximo ao local onde Martha conseguira sua colocação como professora. Em uma das vezes em que saíram às compras, encontraram ilhoa, a antiga vizinha do cortiço, que lhes deu notícia dos familiares. Carolina estava casada, tinha dois filhos, continuava com problemas nas pernas e apanhava do marido. Rita estava para se casar com um barbeiro. Em seguida, com o mesmo estouvamento, a ilhoa seguiu seu caminho.

Alguns dias depois, Martha tomou posse da cadeira de professora. Adiou o casamento duas vezes, mas finalmente definiu a data. A mãe preparou para ela um lindo vestido de seda para as núpcias. Na véspera do casamento, Martha encontrou dentro de um de seus

cadernos de estudo um poema que Luiz havia escrito. Leu-o para a mãe e, em seguida, queimou o papel.

Martha casou-se “numa bela tarde de verão” (p. 113). A mãe ficou aliviada e não escondeu sua felicidade, mas adoeceu oito dias depois da cerimônia. O médico que a atendeu preparou a filha para o pior, manifestando surpresa diante da resistência da mulher, cujo coração fraquejava há muito tempo. Nos últimos dias de vida da mãe, Martha ficou ao seu lado o tempo todo. No momento da morte, teve uma crise nervosa e foi amparada pelo marido.

Em uma das edições do livro, a narrativa não termina aqui, mas com uma nota de Martha, dedicando o livro à sua filha, Cecília.

 

Narradora

O título do romance já anuncia tratar-se de uma obra memorialista, que geralmente apresenta um narrador em primeira pessoa. A surpresa fica por conta da voz narradora feminina, o que era pouco comum no século XIX, especialmente considerando que a autora também é mulher. Na obra de Júlia Lopes de Almeida, o protagonismo feminino é quase absoluto, mas a explicitação de uma narradora era pouco usual.

Embora Martha seja tanto narradora quanto protagonista, convém discernir uma da outra. Isso porque a narradora, já adulta e tendo vivido todas as experiências que relata, por vezes se coloca em uma posição de relativo distanciamento, tecendo considerações que ela faz no momento da escrita, julgando suas atitudes na narrativa:

As crianças pensam; e as impressões que sentem são as mais duráveis e profundas muitas vezes. Tenho passado por grandes tempestades e nenhuma me deixou mais vestígios do que a que abalou minha meninice, não sendo todavia essa a maior! (p. 20).

 

Como se vê, Martha narra os acontecimentos da sua “meninice”, sem deixar de manifestar impressões surgidas no momento em que escreve. Essas opiniões dão uma amplitude maior à narrativa, permitindo compreendê-la como o registro da perspectiva feminina, e não exclusivamente da de Martha. Mais especificamente, trata-se da visão de uma mulher que ocupa o espaço da exclusão: pobre, marginalizada, sem atributos físicos de destaque, sem habilidade para os trabalhos manuais então valorizados para as mulheres, Martha escreve suas memórias não apenas para denunciar o processo de marginalização que sofreu, mas sobretudo para contar como o enfrentou e o superou, sem deixar de cumprir o papel social reservado à mulher, ao finalizar a narrativa casada e mãe.

Em alguns momentos, essa distância entre narradora e personagem é explicitada. Quando, por exemplo, assiste à partida da colega Mathilde da escola, a narradora comenta:

Vi-a sair sem que me viessem as lágrimas aos olhos, a mim, que lhe devia tanto; e agora, no fim de trinta e tantos anos, sinto na minha consciência como uma grande nódoa imperecível! (p. 25)

 

Também quando conta o esforço da mãe para compor o vestido que usaria em um dos exames escolares a que se submeteu:

Aquele vestido, aquela fita, quantas horas de trabalho custaram à minha pobre mãe! Hoje os vejo através das lágrimas de saudade e reconhecimento; então via-os entre os risos da vaidade e da ignorância, a ignorância natural na despreocupação da meninice! (p. 26)

 

Estilo

Logo nas primeiras linhas de suas Memórias, Martha afirma: “Tenho uma ideia vaga da casa em que nasci” (p. 11). A seguir, estabelece um paralelo curioso com o próprio registro das recordações:

Assim, as cenas. Entre tantas coisas, tantos tipos e tantas palavras que se refletiram nas minhas pupilas de criança, ou que vibraram em meus ouvidos, que ficou?” (p. 11).

 

Evidentemente, a narradora se refere, aqui, às lembranças infantis. Mas a afirmação revela algo de seu estilo: a opção por “cenas”, “coisas”, “tipos”, “palavras”. A narradora apresenta sua trajetória por cenas esboçadas, nem sempre detalhadas. É o que ocorre, por exemplo, com as recordações infantis da perda da casa após a morte do pai:

Das cenas, lembra-me a da mudança: um homem zangado, mandando pôr os nossos trastes na rua; e minha mãe chorosa, aconchegando-me a si. (p. 12)

 

Mais uma vez, a narradora trata de cenas da infância; mas, ainda aqui, temos uma estratégia expositiva sugerida: ela se aterá a momentos significativos de sua vida, não se incomodando em dar saltos temporais ou em focalizar apenas o que considera fundamental. Assim, por exemplo, não há detalhes sobre seus estudos ou sobre as aulas da Escola Normal, bem como de passagens da sua juventude, por exemplo. O leitor é capaz de compreender o estado de espírito da personagem nas cenas que ela escolhe registrar, mas é perceptível que ela não tem nenhuma preocupação mais rigorosa ou documental.

Esse dado é interessante pelo momento em que Júlia Lopes de Almeida produziu sua obra literária. A cultura brasileira vivia o apogeu do Naturalismo, cujo maior produto na literatura, o romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é apenas dois anos posterior às Memórias de Martha. Os naturalistas produziam romances em que o detalhamento analítico chegava a ser minucioso, como na descrição da vida na cidade de Santos presente em uma carta enviada por um dos personagens de A carne, de Júlio Ribeiro, ou na reprodução da fala do doutor Claudio sobre educação, em O Ateneu, de Raul Pompeia, duas obras publicadas no mesmo ano do livro de Júlia Lopes de Almeida. Não há essa tendência ao detalhamento em Memórias de Martha.

Isso não significa dizer, no entanto, que a autora tenha escapado ilesa às concepções de seu tempo. A influência do meio sobre os personagens, aspecto fundamental do Naturalismo, aparece nas Memórias de Martha, por exemplo, na caracterização da personagem Carolina: “Era a doença, era o cansaço, porque ela, estupidificada pelo meio, nem tinha consciência do sofrimento” (p. 28). Mas, se Carolina é um produto do meio em que vive, não se pode dizer o mesmo da própria Martha, que escapa de tais influências nefastas, distanciando-se, assim, do modelo naturalista.

Por outro lado, a filiação estética ao Realismo pode ser admitida, embora com ressalvas. Como se sabe, o esforço realista em expor a verdade plena sobre o ser humano fazia com que o foco narrativo mais adotado fosse o de terceira pessoa – salvo as exceções de Machado de Assis. Já o livro de Júlia Lopes de Almeida opta pelo foco em primeira pessoa. Contudo, Martha tem muito de personagem realista. Em primeiro lugar, sua postura antirromântica leva-a a desprezar o casamento por amor e a optar por uma união que atendesse a seus interesses pessoais. Em segundo lugar, os traços que a caracterizam estão distantes da idealização romântica, combatida pelos realistas, e não escondem sua ambição de ascensão social, traço bastante comum em personagens do Realismo. Em terceiro lugar, Martha não possui nenhum atributo especial, é uma mulher comum, como tantas de seu tempo; nesse sentido, seu protagonismo se enquadra na opção realista de evitar qualquer concepção heroica da personalidade humana.

Por fim, convém notar a presença de alguns traços impressionistas – também presentes com maior intensidade em obras contemporâneas como O Ateneu, de Raul Pompeia –, tais como: a importância assumida pela memória; a perspectiva subjetiva da apresentação dos acontecimentos ao leitor; a expressão dos estados emocionais da narradora, por vezes confusos e vagos; a descrição do espaço de modo que, embora fiel à realidade, permite entrever as sensações que ele provoca na narradora; etc.

Comentários sobre o enredo

A condição feminina

Em certo momento da narrativa, quando a mãe insiste com Martha para que ela aceite o pedido de casamento recebido, um pensamento é registrado pela narradora: “A reputação da mulher é essencialmente melindrosa. Como o cristal puro, o mínimo sopro a enturva...” (p. 103). Trata-se de um senso comum da época: o casamento era visto como salvaguarda da honra feminina; uma mulher solteira estaria sempre sujeita a olhares desconfiados e preconceituosos. Martha pretende enfrentar essa opinião generalizada, mantendo-se independente. Com essa postura da protagonista, Júlia Lopes de Almeida chama a atenção de seus leitores (e, sobretudo, de suas leitoras) para as mudanças sociais que se operavam no mundo. Entre o final do século XIX e o início do XX, os progressos tecnológicos davam ao mundo a sensação contínua de novidade e de uma modernidade que parecia não ter freios. Novas forças sociais surgiam, entre elas, a de mulheres que tentavam conquistar seu espaço.

A obra de Júlia Lopes de Almeida contribuiu para essas reflexões com narrativas nas quais as mulheres exerciam papeis decisivos, como se pode perceber apenas avaliando os títulos de alguns de seus romances: A Silveirinha, A viúva Simões, A intrusa, A caolha e, é claro, Memórias de Martha. Em seus livros, dois temas lutam para se inserir no universo das preocupações femininas: a educação e o trabalho. Em Memórias de Martha, ambos os temas são explorados. O trabalho é representado sobretudo pela mãe de Martha, que, após a morte do marido, se vê na contingência de trabalhar para sustentar a filha. Esta última também vê no trabalho uma alternativa – como revela no trecho:

Foi assim que desabrochou em meu espírito essa flor imaculada e santa, de aroma fortalecedor e doce – o amor ao trabalho. (p. 38)

 

Contudo, recusa uma ocupação que, para ela, era desonrosa, por não fornecer o retorno financeiro que esperava; descobre, então, que a educação poderia ser a chave para a ascensão social que almejava. Nesse ponto, Martha segue os passos de sua criadora. Em outro de seus livros, Júlia Lopes de Almeida escreveu:

Convenci-me hoje de que todas as mulheres devem ter uma profissão.

Conheço duas senhoras desgraçadas. Uma ficou órfã, a outra viúva, e nenhuma está habilitada a bem ganhar a vida. Lembrei--lhes o comércio. Não sabem contabilidade. Lembrei-lhes a tipografia, a telegrafia, a gravura, a farmácia, mas de que expediente se hão de haver para sustentar a família enquanto estudem?

Este exemplo faz-me tremer: Se eu tiver filhas... por Deus!

Que hei de prepará-las para poderem vencer estas dificuldades!

ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das noivas. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1914. p. 128-129.

 

Como se pode notar, as reflexões que ocupavam a escritora eram trazidas para a sua literatura. Por outro lado, também as limitações impostas pelo tempo aparecem em suas tramas. Em vida, a escritora recebeu muitos elogios de críticos que apreciavam suas narrativas, mas que não deixavam de retratá-la como uma dona de casa exemplar, mãe extremosa e apaixonada. Ela própria fazia questão de reiterar essa imagem. Esta última citação foi retirada de uma de suas obras mais lidas na época de seu lançamento, em 1896, o Livro das noivas. Embora se encontrem nele passagens de valorização da autonomia feminina por meio do trabalho, como se lê no trecho anterior, também se encontram frases como estas:

Ama sempre teu marido, sem humilhação, com sinceridade e alegria. Está nisto o segredo da ventura na terra. Que ele te ame igualmente, com o mesmo extremo, o mesmo carinho, e caminhem assim, fortes, unidos e serenos para os dias de risos ou lágrimas que hão de vir.

ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das noivas. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1914. p. 14.

 

Em Memórias de Martha, a protagonista a princípio rejeita a proposta de casamento, mas acaba por aceitá-la, não apenas para tranquilizar a mãe, mas também por ver nela uma solução para sua solidão e seu futuro. Mesmo que se reconheça em Martha razões íntimas para aceitar a proposta (“E refleti que o meu casamento seria uma vingança para os ultrajes que a minha imaginação de moça recebera sempre”, p. 104), deve-se ver nessa atitude uma aceitação das convenções sociais que o tempo impunha às mulheres. Se a escritora não tivesse feito essas concessões, talvez sua obra não tivesse tido a divulgação que teve, e esse era seu desejo maior: que sua mensagem chegasse às leitoras. Além disso, Martha só aceita se casar depois de ter conquistado uma posição no mundo do trabalho, para a qual se preparou com muita dedicação aos estudos. Ao fazer isso, assume o controle sobre a própria vida. A decisão de se casar faz parte desse controle, e atende ao seu projeto de alcançar uma posição social estável.

Deve-se recordar ainda uma circunstância importante da trama: “Recebi a nomeação de professora no dia do casamento de Luiz” (p. 101). Essa coincidência aponta para duas escolhas distintas: o casamento, escolhido pela esposa de Luiz, e o trabalho, a escolha de

Martha. Mesmo que depois ela aceite se casar, já faz isso na condição de mulher emancipada pela profissão, capaz de se sustentar e de manter com o marido uma relação de igualdade, para que ambos “caminhem assim, fortes, unidos e serenos”, como propunha Júlia Lopes de Almeida no Livros das noivas.

Para se ter uma noção mais precisa da ousadia de Martha, é preciso compará-la com a própria mãe. Depois de ter tido uma vida confortável, mas dependente do marido, a mãe viu-se obrigada a exercer atividades que, da perspectiva da filha, eram subalternas. Nesse sentido, Martha representa uma superação em relação à condição materna. É essa a lição transmitida às leitoras do livro. Júlia Lopes de Almeida tem plena consciência de que suas leitoras fazem parte de uma classe social na qual as mulheres tendem a abdicar do trabalho e a depender financeiramente dos maridos. O livro pretende mostrar que essa mesma mulher pode conquistar sua independência sem precisar abdicar do casamento. O fundamental é afirmar que a realização pessoal da mulher não depende da ação do homem, mas da sua própria, e que o casamento deve ser uma escolha, e não a única alternativa de vida. A educação que Martha recebeu, a instrução que obteve por esforço próprio, não são desperdiçadas com o casamento; afinal, é daí que sairá uma nova geração, que começará desde cedo a valorizar o trabalho, sem esperar que este seja uma imposição do destino, como no caso da viuvez de sua mãe. O que subjaz ao casamento de Martha é a afirmação implícita de que ela será capaz de formar melhores cidadãos e cidadãs para o mundo que se transforma. Em artigo escrito em 1897 para a revista A Mensageira, Júlia Lopes de Almeida explicitou seu pensamento de forma clara:

Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais.

Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

ALMEIDA, Júlia Lopes de. Entre amigas. A Mensageira. Revista literária dedicada à mulher brasileira. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado; Secretaria de Educação e Cultura, 1987. p. 3. Edição facsimilar.

 

Educação: uma imagem realista

A educação feminina foi uma causa defendida com afinco por Júlia Lopes de Almeida em uma época em que essa possibilidade era tratada com desdém pelo patriarcado machista e misógino que dominava a política e a cultura brasileiras. Suas narrativas funcionam como verdadeiras propagandas de suas ideias, e Memórias de Martha não foge a essa estratégia. No entanto, a defesa desse ideal não implica em referências apenas elogiosas à educação, sem um olhar crítico para a prática educacional do tempo.

O que pensa a protagonista de Memórias de Martha a respeito da educação? Ela o declara com todas as letras:

Com que orgulho eu penso na desvelada solicitude que tem, em geral, a mulher brasileira para o filho amado! Não o repudia nunca, trabalha ou morre por ele. Coração cheio de amor, perdoemos-lhe os erros da educação que lhe transmite e abençoemo-la pelo que ama e pelo que padece! (p. 99)

 

A entusiasmada afirmação traz uma crítica velada: embora a educação materna se salve pelo afeto, há “erros” que precisam ser perdoados. A narrativa não deixa muitas dúvidas a respeito da origem desses erros e de como podem ser sanados: a origem está na falta de instrução, para a qual a educação formal é a solução. Dito assim, parece que o livro se abre para a construção de uma imagem positiva da escola. Contudo, de forma bem realista, a narrativa oferece um quadro sem ilusões ou idealizações.

Parte da imagem transgressora que a narrativa faz da protagonista diz respeito aos sentimentos que a conduzem à educação. Posteriormente, ela escolherá a carreira de professora, não exatamente pelo reconhecimento de uma missão santificada, mas sobretudo motivada pela possibilidade de estabilidade financeira. Na infância, enquanto acompanhava sua mãe em uma entrega de roupas para uma freguesa, esta se surpreende ao saber que Martha ainda não sabia ler e pergunta: “– Mas por que a não mete na escola? Ela já tem idade de aprender...” (p. 20). Até certo ponto, o que leva a mãe de Martha a matriculá-la é a vergonha que passa diante da freguesa. Quanto a Martha, ela é estimulada por outro sentimento pouco elevado: a inveja. A filha da freguesa, uma menina chamada Lucinda, mostrara a ela seus vestidos luxuosos e seus muitos brinquedos, enquanto lhe falava com entusiasmo “da mestra, das amigas, de uma festa de Natal a que assistira, de caixas de amêndoas forradas de seda, de bombons, de joias, de passeios” (p. 18), além de seus desenhos e sua habilidade ao piano; ou seja, de tudo o que lhe fora fornecido por uma educação requintada. Martha passa, então, a associar o ambiente escolar, onde atua “a mestra”, a todo esse uni- verso de refinamento e de fartura material. Daí seu entusiasmo em ir para a escola, como aconteceu em seguida.

No primeiro dia de aula, passou orgulhosa diante dos vizinhos do cortiço, com seu “vestido encarnado”, olhando “altivamente para [suas] companheiras de miséria” (p. 23). Mais uma vez, os passos de Martha foram guiados pela vaidade, um sentimento baixo que ela aprendera com Lucinda, que talvez o tivesse aprendido na escola... O fato é que Martha logo superou o estranhamento inicial que o ambiente escolar provocou nela, pela “sensação dolorosa de isolamento e saudade” (p. 23), confessando que “depois de um mês, aquilo até me divertia” (p. 24). Note-se: ela se divertia com o próprio isolamento. Talvez por isso tenha se aproximado de uma colega que parecia ocupar o mesmo espaço de marginalização, Mathilde, “feia, escura, marcada de bexigas, com olhos pequeninos e amortecidos, o cabelo muito encaracolado e curto” (p. 24). A estima que sentia pela menina, no entanto, não resistiu a um episódio em que esta foi acusada de roubo e exposta ao ridículo. Martha afastou-se dela, sugerindo que a escola não transmite o sentimento da empatia e a virtude do perdão. O fato de a protagonista se identificar com esse ambiente, portanto, funciona como elemento crítico para a prática escolar da época.

Martha se acostuma à escola rapidamente, a ponto de, durante as férias, sentir-se triste e melancólica. Essa reação está intimamente relacionada ao fato de a menina detestar o cortiço onde vivia, encontrando na escola um ambiente mais agradável. Em nenhum momento, em suas memórias, Martha revela uma verdadeira vocação para o estudo, apenas o esforço em busca de uma vida melhor para si e para a mãe. De forma semelhante, decide tornar-se professora ao ouvir uma adjunta afirmar: “só assim viverei tranquila” (p. 37). Desde esse momento, ser professora tornou-se o objetivo maior da vida da menina:

Nessa noite sonhei que era mestra: tinha uma casa grande, com jardim, onde cantavam doidamente, em uma alegria exuberante e abençoada, os passarinhos. (p. 37)

 

Pode-se considerar, contudo, que, a despeito de suas motivações, Martha desenvolveu um grande esforço intelectual para conseguir alcançar a condição de professora. De fato, ela se dedicou aos estudos, mas revela que o fez para compensar as próprias deficiências:

Estudava muito, porque a minha inteligência não me permitia o mais pequeno descuido: compreendi que só muita aplicação alcançaria o meu fito. (p. 60)

 

Até mesmo o elogio que lhe dedicara a professora logo após seu primeiro exame (“– Tem muito talento!...”, p. 61) é relativizado por ela: “Engano; o que eu tive sempre, isso sim, foi muito boa vontade” (p. 61). É notável como a narrativa desconstrói a imagem romântica da mulher sublime, sacrificada e heroica, substituindo-a por alguém que reconhece as próprias limitações, alguém mais humana, mais realista.

Por fim, Martha alcança a nomeação de professora e orgulha-se dessa condição, mesmo que, já então mais madura, perceba que ainda assim não teria a vida de luxo que imaginara. Sempre consciente de suas próprias limitações (pouco habilidosa, destituída de atrativos), sabe que o lugar que alcançou já representa uma distância razoável em relação ao destino que a sociedade reservava a uma mulher como ela. Até mesmo no que diz respeito ao ambiente escolar, convém não esquecer da menina Mathilde, menina negra marginalizada pelas colegas, demonstrando que o poder de integração daquele espaço tinha também suas limitações.

Da escola, as melhores lembranças de Martha são reservadas à professora que a acolheu desde o início, D. Anninha. A personagem surge na narrativa quase como uma rainha:

D. Anninha estava na sua cadeira de braços, sobre o estrado. À sua frente, em cima da mesa, misturando-se com os lápis e as lousas, raminhos de manjericão, rosas-de-alexandria e galhos de alecrim levados pelas discípulas. As rosas mais finas estavam colocadas num copo cheio de água. As adjuntas riscavam pedras, de cabeça baixa. (p. 35)

 

Retratada na “cadeira de braços, sobre o estrado”, a professora se coloca em um espaço de superioridade, como uma rainha em seu trono. Os ornamentos à sua volta evidenciam o afeto que lhe dedicam, enquanto as adjuntas “de cabeça baixa” encarnam a imagem da submissão. A impressão que ela provoca em Martha é semelhante:

Cumpria rigorosamente os seus deveres e não perdoava a quem não fizesse o mesmo. Ensinara-me desde o ABC e tinha por isso grande império sobre mim. (p. 62)

 

O fato de a memorialista sintetizar a influência que a professora exerce sobre ela com a palavra “império” apenas reforça a imagem inicial de realeza. De qualquer maneira, o retrato moral de D. Anninha é favorável, vista pela protagonista como uma mulher bondosa, que a recebe com gentilezas e agrados, amparando-a em momentos difíceis de sua vida e estimulando-a a seguir a carreira escolhida – escolha, aliás, que deve ter recebido alguma influência dela própria. Além disso, a personagem é associada à escola e ao campo, local para onde conduz a discípula Martha, e que correspondem a espaços mais amplos, iluminados e arejados do que aqueles frequentados pela protagonista, como o cortiço e o cômodo que ela e a mãe ocupam. Dessa forma, D. Anninha surge como uma espécie de frescor, de alívio para as dores de Martha. Por fim, convém ressaltar outra imagem produzida pela personagem da professora: seu lado doméstico. Durante o período em que leva Martha para o campo, mostra-se uma mulher prendada e próxima do marido e de familiares, como as sobrinhas.

No século XIX, e durante muito tempo ainda depois disso, a Escola Normal era o caminho a ser percorrido por quem quisesse seguir a carreira do magistério. O público dessa escola era constituído, sobretudo, por mulheres – as normalistas. Na literatura brasileira, o romance A normalista (1895), de Adolfo Caminha, ambienta-se parcialmente nesse espaço, retratado de forma bastante negativa, como evidencia a opinião de uma das personagens:

– Que é a Escola Normal, não me dirão? Uma escola sem mestres, um estabelecimento anacrônico, onde as moças vão tagarelar, vão passar o tempo a ler romances e a maldizer o próximo.

CAMINHA, Adolfo. A normalista. 5. ed. São Paulo: Ática, 1977. p. 147.

 

Não se pode dizer que o livro de Júlia Lopes de Almeida corrobore essa opinião, tendo em vista, em primeiro lugar, a própria figura de D. Anninha (afinal, resultante desse meio) e, em segundo, as referências reduzidas que sua narrativa faz ao convívio entre as normalistas. No processo formativo da personalidade de Martha, a Escola Normal surge como o lugar onde ela tem sua atenção despertada por um olhar masculino:

Quem seria aquele rapaz? Que fazia ali? Não o soube nunca. O que é certo é que os seus olhos não se desfitavam de mim e que eu tremia, corava, desfalecia de confusão e de enleio. (p. 56)

 

É na Escola Normal, portanto, que Martha descobre o amor, ou ao menos a sensação de se sentir desejada. No entanto, o episódio é efêmero e deixa nela a impressão de que, de fato, os olhares do rapaz não se dirigiam a ela, mas à mestra D. Anninha, que também exercia ali o seu ofício:

Entretanto, só agora, através de tantos dias de amarga experiência, me nasce no espírito esta dúvida que não me alvoroça e me faz ter piedade de mim mesma. Seria a mim ou à D. Anninha que aquele rapaz dos olhos negros seguia?

E tudo me faz crer... que era a ela! (p. 57)

 

Portanto, a passagem de Martha pela Escola Normal apenas repetiu e reafirmou as razões que ela tinha para se sentir desprezada e marginalizada.

 

Histórias paralelas

Enquanto conta suas memórias, Martha aponta para outras histórias paralelas. São trajetórias que poderiam ter sido a sua, não fosse seu envolvimento com a educação e o projeto pessoal de buscar a valorização social por intermédio do aprendizado técnico.

Entre os moradores do cortiço, os que têm sua história apresentada com mais detalhes são os amigos de infância de Martha, os irmãos Carolina, Maneco e Rita, que moravam na casa vizinha. Foi diante deles que Martha passou com seu vestido novo em direção ao primeiro dia de aula de sua vida, em uma imagem muito significativa, por sugerir que a protagonista seguia seu caminho, enquanto os amigos ficavam para trás.

A mais velha dos três irmãos, Carolina, era a mais sofrida de todas as crianças do grupo. Arcando com a responsabilidade dos cuidados com a casa, ainda suportava as seguidas agressões da mãe. Em razão disso, “estava sempre magra, espigada, e no seu rosto, oval e sardento, os olhos claros derramavam uma tristeza impressionadora” (p. 28) e manifestava sintomas de uma doença circulatória que provocava inchaços nas pernas (cf. p. 40). Carolina manteve sempre uma relação de afeto com Martha enquanto esta morou no cortiço, mostrando-se solidária com suas carências. Certa vez, dividiu com ela o pedaço de carne que lhe coubera, para ira da ilhoa (cf. p. 16),  que, como sempre, castigou a filha. Depois desse episódio, por alguns dias, Carolina ignorou a amiga (cf. p. 21), mostrando-se reprimida até mesmo nas demonstrações de afeto. Ela levaria consigo o sofrimento até a vida adulta, quando se casou com um marido que a explorava “de uma maneira feroz e ainda por cima a moía de pancada” (p. 108), continuando a viver em cortiços.

Maneco, irmão de Carolina, “cheirava sempre álcool” (p. 28) e entregou-se desde cedo ao hábito de beber, incentivado pelo dono da venda, que se divertia com a embriaguez do garoto. Ainda na infância, o vício o levou à morte, para desespero da mãe. Maneco também ficou pelo meio do caminho – ou no início dele, já que faleceu ainda criança –, sem escola e sem perspectiva de vida. Mais uma vez, trata-se de um caso representativo, evidenciando a sensibilidade da autora para dramas sociais que ela sabia serem comuns. A mais nova da casa, Rita, seria conduzida por Martha até a escola (cf. p. 35), o que parece projetar um futuro diferente para ela. No fim da narrativa, Martha recebe a informação de que Rita estava “para casar com um moço estabelecido de barbeiro” (p. 108), sem que se faça referência a nenhuma agressão sofrida.

Na escola, há a menina Mathilde, que, apesar de ter idade um pouco mais avançada (12 anos) e de estar ali há três anos, não conseguia passar do Segundo livro de leitura (cf. p. 24). Ela sofreria a marginalização reservada aos que não se enquadram ao ritmo de aprendizado determinado por uma pedagogia que não privilegiava o avanço individual, e aceitava passivamente o destino dos atrasados, os que ficavam para trás. A reação de Mathilde foi de inconformismo: a menina se tornou agressiva, e acabou sendo expulsa da escola (cf. p. 25) e das memórias de Martha, que não manifestou pelo caso nenhuma piedade mais acentuada, já que sua opção sempre foi pela integração social, e a marginalização sofrida por Mathilde representa justamente o caminho que ela rejeitava.

A companhia de Mathilde foi substituída, na escola, pela de Clara Sylvestre, menina “alegre, bonita e forte” (p. 25) que alimentava o sonho de “ter muito luxo” (p. 26). Martha a reencontra, já adultas ambas:

Eu olhava estupefata para o seu rosto alvíssimo, os seus formosos olhos verdes brilhantes expressivos, os seus cabelos pintados de uma cor de cenoura, os lábios cheios de carmim, e a comparava com a Clara Sylvestre de outro tempo, linda também, mas natural, inocente, com os seus caracóis castanhos e o seu doce rostinho muito redondo e alegre. (p. 94-95)

 

Clara visitava na ocasião uma criança, que alegou ser de uma criada sua que falecera, mas não é difícil ao leitor perceber que a criança era dela mesma, que realizara o sonho de “ter muito luxo” à custa da prática da prostituição. O reencontro suscitou em Martha “uma multidão de ideias, umas dolorosas, outras... Nem sei como defini-las!” (p. 97). As ideias indefiníveis passam, certamente, pelo reconhecimento de que a Clara “inocente” pertencia a “outro tempo”, um tempo em que seu “doce rostinho” não necessitava de “cabelos pintados” e de “lábios cheios de carmim” para ser belo. Em mais uma modificação entre as edições do romance, a narradora se refere à entrada do cortiço onde morava como “aquele grande portão em que nunca entrou Clara Sylvestre”. A alusão ganha alguma importância quando se considera que Clara cruzaria, sim, “aquele portão” de entrada em direção a um mundo mais sórdido e vulgar, mas de forma simbólica, ao se rebaixar moralmente. Talvez a falta de encantos com que Martha se autorretrata acabasse por vedar a ela esse destino, mas, de qualquer maneira, era sempre uma possibilidade que se apresentava a moças ambiciosas como ela e Clara, cuja trajetória, afinal, acaba por tangenciar a da protagonista.

 

Retrato social

Em seu primeiro romance, Júlia Lopes de Almeida parecia querer afastar qualquer concessão ao Romantismo, que ainda mantinha muitos adeptos e seguidores no fim do século XIX. Logo no primeiro capítulo, ao se referir ao pai, Martha afirma: “Amei-o? Talvez; mas não me lembro. A convivência era pouca ou nenhuma” (p. 13). Em seguida, descreve o comportamento da vizinha, “uma ilhoa bruta que batia nos filhos e injuriava o marido” (p. 15). São informações que colocam o leitor em um lugar muito distante de onde costumavam deixá-lo os folhetins românticos. Nestes, predominava o respeito aos pais e, entre membros de uma mesma família, a conduta geral nas narrativas era a de convívio harmonioso. A narrativa de Martha desfaz essas ilusões de imediato, e essa tendência prossegue pelo romance afora. Martha vive a experiência do encanto amoroso nos mesmos termos das heroínas românticas: “Eu amava! Amava aquele rapaz elegante que me plantou no coração um sentimento desconhecido e cruel!” (p. 60). No entanto, como já vimos, depois de desilusões amorosas, Martha assume uma postura antirromântica, a do casamento sem amor, e sua vida matrimonial é sintetizada em palavras desprovidas de paixão e repletas do equilíbrio racionalista usado no Realismo para definir as relações humanas: “Nunca no meu lar soaram as alegres e sonoras frases dos noivos apaixonados, nem tampouco houve nunca um arrufo” (p. 113). Assim, a instituição do casamento, tão presente nos finais felizes românticos, ocorre também aqui, mas é tratada com distanciamento.

Martha tem suas razões para considerar o casamento “uma vingança para os ultrajes que a minha imaginação de moça recebera sempre” (p. 104). Desde muito cedo, ela conheceu o desprezo social. No ambiente do cortiço, sofreu com o tratamento que lhe davam:

Eu, às vezes, ia para a porta brincar com umas crianças da vizinhança; mas as pequenas eram brutinhas e magoavam-me os pulsos, puxando com força por mim. (p. 14)

 

Mas as maiores evidências de exclusão na narrativa ficam por conta do registro da desigualdade social, da qual Martha vai tomando consciência aos poucos. Ainda criança, testemunhou a atitude da mãe de desviar-se de “uma senhora muito elegante que se aproximava” (p. 17) que logo depois declarou tratar-se de “uma amiga” (p. 17). A menina manifestou seu espanto diante desse comportamento e, em resposta, a mãe fez apenas um gesto conformado: “Minha mãe sorriu, desceu para mim seu olhar doce e úmido e suspirou sem me dizer mais nada” (p. 17). Martha só compreenderia o ocorrido mais tarde:

“A resposta tive-a anos depois, do tempo, da idade, do destino e dos desenganos” (p. 17). O encontro com uma amiga dos tempos de fartura envergonhava a mulher, agora às voltas com carências materiais.

A cena ocorreu enquanto se encaminhavam para a casa de uma das freguesas da mãe de Martha, local onde a menina teria sua própria lição de desigualdade social no encontro com uma das filhas da freguesa, Lucinda. Martha observou os vestidos, os brinquedos e os modos da moradora. Lucinda mostrou à visitante “o grande enxoval de Mlle Rosa”, sua boneca (p. 18), e isso deixou marcas na criança pobre, que passou a desprezar os brinquedos que possuía:

[...] para entreter-me, brincaria de vez em quando com a desgraçada bruxa que fora outrora adorada por mim, mas que votei ao desprezo desde que vira Mlle Rosa. (p. 27)

 

Em certo momento, Lucinda a conduz até “defronte do espelho, um grande espelho que vinha do teto ao chão, tomando uma parede toda” (p. 18). Na comparação entre as duas meninas retratadas nele, Martha concluiu: “Como me achei triste e feia ao lado daquela menina da minha idade!” (p. 18).

Quando se retiraram da casa, duas atitudes causaram profunda impressão em Martha. A primeira delas foi o pagamento aviltante, mas diante do qual a mãe se mostrou agradecida, para desconsolo da filha:

Quando minha mãe agradeceu a esmola, senti parar-me o coração.

Por que não teria eu igual direito a possuir tudo, como a Lucinda, sem pedir ou aceitar esmolas? (p. 20)

 

A segunda atitude diminuiu sua amargura:

Quando eu ia sair, a irmã mais velha de Lucinda apagou-me com um beijo a tristeza que sentia na consciência.

Aquele beijo nunca mais me esquece: foi nivelador, foi santo! (p. 20)

 

A narrativa aponta, assim, para a possibilidade de um nivelamento pelo afeto – talvez a única forma de anulação das diferenças sociais que poderia ocorrer à autora, naquele momento. Para Martha, a única forma de vencer as barreiras que enfrentaria na vida viria de pessoas que lhe dedicavam algum afeto: o amparo da mãe, o estímulo da professora D. Anninha, o acolhimento do marido Miranda. De certa maneira, pode-se entender que Martha assume um lugar de fala privilegiado. O fato de morar em um cortiço sórdido e eventualmente entrar em contato com o luxo das casas ricas para as quais a mãe trabalhava faz dela uma testemunha direta das diferenças entre as classes.

Ainda na casa rica, outro dado social salta aos olhos. Quando a dona ofereceu à filha da lavadeira um dos vestidos de Lucinda, acrescentou um comentário ao gesto:

É novo ainda – continuava ela, voltando-se para minha mãe –, mas não vai bem a Lucindinha e o pai não gosta da cor... (p. 19)

 

Note-se que o fato de o vestido não ir bem na filha já seria motivo suficiente para livrar-se dele, o que torna o acréscimo desnecessário. Talvez, do ponto de vista da personagem que enuncia a fala, possa haver o veneno sutil de certo orgulho da mulher bem-casada diante da viúva empobrecida; mas, da perspectiva da narrativa, talvez o dado mais importante seja o valor dado à opinião do pai. Trata-se de uma denúncia do patriarcalismo da sociedade brasileira, que, de resto, aparece ainda na situação em que ficam as mulheres que se veem desamparadas, como é o caso da própria mãe de Martha e da sogra de D. Anninha, cujo marido morrera na guerra (cf. p. 64-65). Tanto do ponto de vista material (caso da viúva pobre), quanto afetivo (caso da rica), a mulher não possui autonomia e, sem a presença do marido, tende a tornar-se um ser marginal. Convém notar, a esse respeito, que tanto a mãe de Martha quanto a sogra da professora não têm seus nomes contemplados na narrativa (sabe-se que Martha e a mãe são homônimas, mas seu nome é referido uma única vez), o que parece reforçar a ideia de marginalização.

Para tentar fugir a esse processo excludente, Martha e sua mãe lutavam para manter as aparências. É em nome disso, por exemplo, que a mãe justificava o fato de não enviar a filha à escola:

– É que eu não podia mandar minha filha tão pobrezinha para a escola... Agora que tem esta roupa, sim, posso trazê-la asseadinha e levá-la lá. (p. 21)

 

A filha, por sua vez, não compartilhava com as colegas de escola a situação de seus vizinhos pouco asseadinhos:

De Carolina e dos irmãos ranhosos não falei nunca no colégio. Referir-me às filhas da vizinha iria macular a minha reputação. (p. 27)

 

Porém, é preciso considerar que as aparências enganam. No fim da narrativa, quando, já adulta, Martha reencontrou Clara, alvo de suas aspirações e de sua inveja nos tempos escolares, a impressão que teve é que a superioridade da outra, que vestia roupas luxuosas, continuava evidente. No entanto, Clara, na despedida, disse que não merecia nada, o que provocou a estranheza de Martha:

Para mim, Clara mentira. Quem valia nada era eu, sempre ignorada por toda a gente, sempre feia, o que me torturava, sempre envergonhada dos meus vestidos mal-ajeitados, do meu calçado barato, do meu modo esquerdo e retraído! (p. 97)

 

Martha parece não perceber a condição atual de Clara, que se rebaixara para conquistar a vida luxuosa com a qual sempre sonhara. Isto é: da perspectiva moralista do século XIX, Clara é que apresentava uma prática que fazia dela uma mulher “feia”, com razões para se sentir “envergonhada” e com um “modo esquerdo”, no sentido metafórico do desvio da conduta direita e socialmente aceitável. A cena remete a outra do romance: aquela em que Lucinda e Martha se olham ao espelho, uma ao lado da outra, e Martha se compara negativamente à menina rica. Agora, se estivesse diante de um espelho ao lado de Clara, só teria a sensação de ser “sempre feia” porque se preocupava sobretudo com a aparência.

 

Casamento: um desfecho romântico?

O encerramento da trama com um casamento remeteria o leitor da época imediatamente aos finais felizes das narrativas românticas. É possível imaginar que, para o desfecho de sua narrativa, Júlia Lopes de Almeida tenha, por fim, sucumbido às convenções sociais, para as quais o casamento era o fim sempre almejado pelas mulheres.

Contudo, a narrativa traz algumas dúvidas quanto a esses pontos. O casamento romântico supunha a realização de uma felicidade permanente (do tipo “E foram felizes para sempre”), o que, como vimos, não ocorre:

Nunca no meu lar soaram as alegres e sonoras frases dos noivos apaixonados, nem tampouco houve nunca um arrufo. (p. 113) 

Martha não se casou por amor, em uma atitude que, no Romantismo, poderia representar a infelicidade eterna, mas que, na perspectiva realista, representa apenas uma decisão tomada de forma racional. Isto é: o casamento é encarado em moldes equilibrados, nem excessivamente feliz, nem completamente desastroso, apenas um evento capaz de satisfazer o projeto de Martha de inserção social. Para o marido, Miranda, o matrimônio também não deve ter sido a realização de sonhos longamente acalentados: não se pode esquecer que Martha se declara uma mulher sem atributos físicos e desprovida das habilidades manuais esperadas de uma dona de casa. É significativo que Miranda tenha se interessado por Martha a partir das cartas que ela escrevia à mãe, durante a temporada que passou no campo, em companhia de D. Anninha e sua família. Isso quer dizer que, para além dos atributos físicos, o que identifica Martha são os dotes de espírito, a sensibilidade e a capacidade de expressão – que justifica, inclusive, a escrita de suas memórias. Martha atinge seus objetivos por ser quem é, não por ser quem a sociedade gostaria que ela fosse. Isso faz dela e do desfecho um final que pode ser enquadrado em uma perspectiva realista.

 

Personagens

Martha

Martha é uma personagem tão realista que talvez possua até mesmo um fundo de verdade. Em uma nota manuscrita, a autora deixou a afirmação de que, em seu processo de alfabetização, contou com a ajuda da irmã e de uma certa dona Martha...

Se entendermos as Memórias de Martha como um romance de formação, no qual acompanhamos o desenvolvimento da personalidade da protagonista, podemos perceber na narrativa alguns momentos de particular importância para esse processo. Tais momentos podem ser classificados como ritos de passagem. Um exemplo é fornecido logo no início, com a morte do pai da protagonista (cap. I), episódio que a lançará, com a mãe, em uma vida de carências. Também na visita que faz à casa da freguesa rica da mãe, onde tem contato com Lucinda, a cena em que ambas se olham no espelho marca o momento em que nasce, na protagonista, a consciência de sua pobreza e da existência de condições sociais melhores que a sua. Outro episódio fundamental é o de sua entrada para a escola (cap. II), espaço que representaria a abertura de novos horizontes para a protagonista. Além disso, a descoberta provocada pelo olhar masculino (cap. V) dá a Martha sensações inéditas, que a acompanharão em sua busca pela felicidade, assim como quando participa de sua primeira reunião social, pelas mãos de sua protetora, D. Anninha (cap. VI). Todos esses são momentos fundamentais no processo de crescimento de Martha.

Há muito de transgressor na concepção dessa personagem, na medida em que se afasta dos estereótipos femininos construídos pela sociedade brasileira da época, que colocava a mulher na condição de ornamento – tanto na vida real quanto na ficção. Ao assumir o protagonismo de sua vida, Martha dá uma lição às leitoras: a de que é possível fugir dos modelos estabelecidos. De cor “trigueira” herdada do pai (ou seja, morena, embora mais clara do que ele, ou mais “pálida”, como diz a mãe), pobre e sem perspectivas, Martha estaria fadada a cumprir o destino da manca e bela Eugênia, a personagem de Memórias póstumas de Brás Cubas desprezada pelo protagonista por circunstâncias físicas (era manca), sociais (era pobre) e morais (era bastarda). Martha, sem ser manca, apresenta a marca física da feiura e, sem ser bastarda, é órfã de pai; esses dados fazem dela uma candidata natural ao mesmo destino de miséria e abandono, do qual ela foge às custas da educação e do trabalho.

Uma alternativa de vida para ela seria a prostituição, o que a aproximaria de outra personagem de nossa literatura, Pombinha, de O Cortiço: ambas tiveram uma infância confortável, interrompida pela perda do pai, o que impôs a elas e suas respectivas mães a moradia decadente de um cortiço. No entanto, Pombinha foi engolida pelo meio nefasto em que vivia, enquanto Martha se sobrepôs a ele e inventou seus próprios caminhos, escapando da miséria de Carolina e da prostituição de Clara Sylvestre.

É possível que a resistência de Martha a tais destinos e sua futura opção pela educação estejam ligadas à personalidade inquiridora que ela manifesta desde a infância:

Por que não teria eu igual direito a possuir tudo, como a Lucinda, sem pedir ou aceitar esmolas?

E por que me fazia tão mal essa palavra, a mim, que nada conhecia do mundo! (p. 20)

 

Ela se coloca distante, portanto, de qualquer aceitação conformista. Talvez por isso a religião, que poderia representar essa aceitação, não a tenha atraído. A fé lhe apareceu como um instrumento de punição:

Efetivamente, que ouvia eu desde manhã até a noite? “Menina, não faça assim, que Deus castiga.” Por isso eu tremia toda, pensando que me queriam levar com meu pai para a presença desse Deus tremendo, inflexível, tão alto que não poderia curvar-se até as minhas faces lacrimosas para um beijo de perdão ou de piedade. (p. 13)

 

Nessa certeza da distância que se encontrava Deus de suas próprias dores, Martha afastou-se da solução pela fé.

O aspecto físico de Martha só pode ser percebido pelo leitor por intermédio da imagem que ela faz de si mesma, como evidencia a seguinte passagem:

Eu, além de feia, era inabilidosa. Nunca soube fazer um laço, cortar um vestido, pregar uma flor. A pequenez dos meus olhos, de um verde sujo, a cor trigueira das minhas faces de maçãs salientes, a lonjura dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu andar, que eu nunca soube corrigir, assegurava-me que ninguém pousaria em mim a vista com prazer; que eu cortaria a vida, de ponta a ponta, sem deter os passos de quem quer que fosse num movimento espontâneo de simpatia... (p. 60)

 

Acrescente-se certa fragilidade física, que a coloca doente em mais de uma ocasião na narrativa.

As recordações de Martha são emolduradas por duas mortes: no início da narrativa, perde o pai; no final, a mãe. A primeira dessas mortes foi menos sentida, seja pela pouca idade da menina, seja pela superproteção da mãe: “Levantava-me tarde. Minha mãe deixava-me agasalhada no leito e ia trabalhar silenciosamente” (p. 15); “Minha mãe não permitia que eu me desembaraçasse como as outras; tinha sempre os olhos em mim, eu os sentia às vezes como brasas a queimarem-me a pele” (p. 15). Conforme crescia, ia tomando consciência do lugar em que vivia e se enchendo de vergonha, o que lhe dava a sensação de deslocamento, de alguém fora do lugar. Martha insiste em retratar seu ambiente de origem para reforçar sua disposição de encontrar seu lugar no mundo:

Oh! Mas o vexame daquele portão de cortiço, daqueles vizinhos que na fama de moderados se esmurravam e guinchavam impropérios dava-me alentos para a luta! (p. 41-42).

Diante dessas dificuldades, as atitudes de Martha são mais pragmáticas que passionais. Ela não era dada a expansões de afeto, como confessa ao relatar um dos raros momentos em que isso acontece, quando comunica à mãe que havia conseguido a vaga de ajudante de professora, o que significava receber algum salário para auxiliar em casa:

Falei voluvelmente, loquazmente, beijando-a repetidas vezes na face, na boca, nos olhos, com uma efusão de ternura pouco vulgar em mim. (p. 54)

 

Além deste, o único gesto mais passional de Martha ocorre quando manifesta à mãe sua relutância em aceitar a proposta de casamento de Miranda:

– Oh! O que eu quero não o alcançarei nunca!

Foi o meu primeiro grito de desespero. Minha mãe chorou; eu não. (p. 104)

 

Como se vê, mesmo essa expressão de rebeldia e de angústia não a conduz às lágrimas, mas à decisão de aceitar o pedido. Essa aceitação revela um traço importante da personalidade de Martha: seu senso prático. É ele que a leva às decisões mais importantes de sua vida, como seguir a carreira de professora e casar-se. A primeira dessas decisões surgiu a ela quando descobriu que o magistério lhe permitiria a ascensão social que desejava – não a riqueza, mas, ao menos, a fuga do ambiente do cortiço. Martha é movida por suas próprias ambições, e não por sentimentos nobres e elevados, como a compreensão do magistério como uma missão divina ou a concepção do casamento como a realização de um grande amor. Nesse sentido, é, definitivamente, uma personagem realista.

 

Família

Em uma cena do romance, a moradora da casa vizinha, no cortiço, chama a m‹e da protagonista pelo nome:

– Oh, senhora Martha! — gritou ela de fora à minha mãe.

– Deixe cá vir a sua pequena um nadinha, sim? (p. 28)

 

O leitor é informado, assim, que a protagonista e a mãe têm o mesmo nome. Pode-se pensar, portanto, que o título, mesmo que de maneira sutil, alude também às memórias de Martha, a mãe, na medida em que contar a história de uma é, necessariamente, contar a da outra. Isso supõe uma continuidade entre as duas trajetórias, mas o que ocorre é justamente o contrário.

As histórias de mãe e filha se relacionam, mas de forma invertida, como um espelho. O percurso de Martha-mãe é descendente, isto é, ela parte de uma situação financeira confortável para a precariedade do cortiço; já o da Martha-filha é ascendente, na medida em que ela sai do cortiço para uma moradia melhor. A mãe aceita o destino e se submete à condição de lavadeira; a filha rejeita herdar essa condição e se esforça para ser professora. A mãe vive de pagamentos aviltantes pelo seu trabalho, que a narradora considera “esmolas” (cf. p. 20); a filha consegue sua independência financeira. Aparentemente, a mãe segue na função de lavadeira por não ter sido preparada pela família a exercer nenhuma profissão (em certo momento, confessa à filha: “Eu, em casa, entretinha-me com serviços grosseiros, não tinha convivência, não tinha animação. Aprendera a ler e a escrever, mas isso mesmo mal”, p. 48), o que a filha rejeita, buscando exercer o magistério. A derrocada da mãe evidencia a dependência em que vivia do marido; a filha conquista sua autonomia sem precisar da ajuda de nenhum homem.

O pai de Martha é pouco lembrado por ela, em razão de ter morrido quando ela era muito pequena. Contudo, não deixa de ser significativo que sua presença esteja estampada no rosto de Martha, já que, para sua mãe, ambos se assemelhavam:

[...] tens uma certa maneira de olhar como só nele conheci. Era também trigueiro como tu, mas menos pálido. A testa é que se não parecia tanto com a tua, mas os olhos... Têm os teus a mesma cor castanho-escuro, e as pestanas curtas, como as dele [...]. Não era bonito, diziam os outros, eu o achava lindo... (p. 47)

 

Assim, apesar da ausência do pai, Martha podia tê-lo junto a si quando se olhava no espelho. Curiosamente, o mesmo ocorria com os filhos da vizinha, cujo pai, embora presente, estava sempre trabalhando e é pouco citado no romance. Provavelmente, essa circunstância aponta para uma realidade social de ausência paterna em lares de classes baixas. Mas, por outro lado, é possível que a autora quisesse criar uma nova perspectiva da sociedade, regida sobretudo por mulheres, em mais uma visão pelo avesso do sistema social baseado no patriarcalismo. Outra figura masculina da vida de Martha poderia ter sido seu avô paterno, mas, depois de se tornar viúvo, o homem se entregou à bebida e ao jogo (“Foi em uma casa de jogo que morreu de um ataque, num triste dia chuvoso”, p. 49).

Dessa forma, todo modelo de conduta que Martha tem em sua vida vem de mulheres, seja para o bem (a mãe, a professora, a generosa vizinha Carolina), seja para o mal (a ilhoa, que batia nos filhos; a menina Mathilde, sua colega de escola, flagrada roubando; a amiga Clara Sylvestre, que termina na prostituição). Os homens exercem na narrativa papéis secundários, efêmeros: assim como o pai e o avô, temos o marido de D. Anninha, as fugazes paixões que Martha experimentou; e até mesmo o marido, que, surgindo no fim da narrativa, não chega a exercer papel decisivo na trama.

 

Moradores do cortiço

Entre os moradores do cortiço, destaca-se a vizinha de Martha, chamada apenas de ilhoa. A imagem que Martha tem da vizinha em suas recordações infantis é a de uma mulher bruta e violenta; no entanto, no reencontro anos depois, já adulta, Martha não esconde a “verdadeira admiração” que sente por “aquela trabalhadora persistente e brutal, a quem a vida retalhava a alma sem que o corpo caísse” (p. 109). Assim, a personagem, a despeito de sua condição animalizada destacada por Martha na “busca do seu fardo de besta de carga” (p. 109), representa a resiliência diante da adversidade exercida pelos desamparados da sorte e da sociedade.

Entre as crianças que vivem pelos corredores do cortiço, estão os filhos da ilhoa, que atravessam a vida de Martha, sugerindo destinos alternativos que poderiam ter sido o dela, conforme já vimos. Há também o menino Lucas, um “mulatinho” que andava sempre “muito sujo, e que passava a vida a mentir” (p. 21), tendo ainda “o costume de pedir alimento a quem visse comer” (p. 43). Quando a oportunidade surge, trata de aproveitar o momento, como a rara ocasião em que a ilhoa dividiu com as crianças do lugar uns doces

que recebera de presente de uma freguesa: Lucas, perto da porta, empurrava com o dedo a mãe-benta que já não lhe cabia na boca, e de bochechas inchadas olhava ainda cobiçosamente para as mãos da ilhoa. (p. 29)

A cena tem algo de tragicômico, porque revela o suplício da fome, experimentado também pela menina Martha, em uma idade na qual, segundo ela, “o apetite não dorme” (p. 16).

Para outro frequentador do cortiço, o tio Bernardo, um “mina” (negro), Martha reserva palavras pouco lisonjeiras: ele é tratado como “idiota velho” (p. 43), sustentado pelo proprietário do cortiço em troca de pequenos serviços. Martha ainda se refere ao velho como “desgraçado demente, negro velho e hidrópico” (p. 44), que provocava nela “muita repugnância e muito dó” (p. 44). Essa visão degradante do personagem evidencia a falta de empatia da protagonista, em uma postura que, se tem algo do temor infantil, também tem da mulher que, já adulta, recorda o ambiente e os indivíduos dos quais se distanciou – sem esquecer que ela própria, Martha, é “trigueira”, isto é, morena, o que remete à mesma ancestralidade do tio Bernardo, que ela trata com desprezo.

A presença de imigrantes no cortiço é reveladora do momento vivido pelo país na época, de busca de mão de obra estrangeira, encarada como instrumento de civilização e aperfeiçoamento do trabalho. A imagem produzida em torno deles, porém, não é positiva na narrativa de Martha. Os membros de uma família galega, por exemplo, “fechavam-se às horas da comida para não repartirem os restos com o Lucas” (p. 43). Há ainda uma paraguaia (p. 43), cuja filha quase foi raptada por outro imigrante. Alguns moradores vivem tragédias pessoais, como os rapazes tiroleses que pareciam cultivar fortes laços de amizade entre si, até um deles matar o outro e fugir com suas economias (cf. p. 43-44). Há ainda uma “mulata gorda, a Eulália, lavadeira que, invariavelmente, todos os sábados vinha cambaleando da venda, a falar alto, sobraçando uma garrafa de parati” (p. 42) – que era, naquele tempo, sinônimo de cachaça. Como se vê, de forma geral os moradores exemplificam a perspectiva determinista de acordo com a qual eles seriam seres degradados por influência do meio em que vivem. Diante desse quadro, é difícil não pensar na narrativa de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado posteriormente.

 

Outros

A professora Anninha, tão acolhedora para com Martha, foi responsável por algumas de suas maiores alegrias, mas também, mesmo que indiretamente, por uma de suas experiências mais dolorosas: a desilusão amorosa. Isso porque foi um primo da professora, Luiz, quem primeiro despertou em Martha a sensação de se sentir apaixonada e correspondida em seus sentimentos, o que logo se revelou infundado, porque o rapaz a trocou rapidamente por uma norte-americana, hóspede de um hotel próximo (cf. p. 83), revelando uma volubilidade que desencantaria Martha e se manifestaria mais uma vez depois, quando ele se casou, por fim, não com a estrangeira, mas com uma das sobrinhas de dona Anninha. Ironicamente, motivada pelo amor por Luiz, Martha escreveu cartas repletas de lirismo à mãe, que não resistiu e as mostrou a um freguês, Miranda, “homem generoso e bom” (p. 70) que acabou desenvolvendo pela remetente uma paixão, digamos, epistolar. Em função desses sentimentos, e contando com o apoio explícito da mãe de Martha, Miranda se tornou vizinho das duas (cf. p. 89), sendo ele a avisar Martha da abertura do concurso para professora de escolas públicas (cf. p. 98). Por fim, foi ele que propôs casamento a Martha, que o aceitou, depois de alguma hesitação, e por razões pragmáticas. Como já vimos, o encontro de Martha e Miranda está muito distante do modelo romântico, inserindo-se, ao contrário, na banalidade das relações amorosas do Realismo. Para reforçar essa ideia, a narradora não conclui sua narrativa sem antes descrever o pretendente com cores bem pouco idealizadas:

Ele me sorriu. Era um homem de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos a luzirem-lhe na barba preta; de feições miúdas, dentes pequeninos; e peito robusto.

Havia alguma coisa de paternal nos seus olhos, uma expressão de lealdade, de doçura, que me inspirava confiança e tranquilidade. Falava sem preocupações de linguagem, incorrendo mesmo frequentemente em pequenos erros de pronúncia ou de gramática, muito vulgares. (p. 106)

 

Como se pode notar, Miranda é um personagem realista em toda a sua dimensão, razão pela qual parece formar o par perfeito para Martha. O olhar “paternal” talvez funcionasse, para ela, como substitutivo da figura paterna. E se ele não desperta nela os amores que Luiz a fizera sentir, sua “expressão de lealdade, de doçura” fornece “confiança e tranquilidade”, sentimentos que, distantes da passionalidade romântica, aproximam-se da racionalidade realista. Se a mãe de Martha estabelece com a filha uma relação de espelhamento pelo avesso, pode-se dizer o mesmo da comparação entre Luiz e Miranda: um é sedutor, enquanto o outro é desprovido de atrativos; um é representativo de sentimentos ilusórios e enganadores, enquanto o outro se apresenta como aquele que não é capaz de arrebatar, mas, sim, de acompanhar Martha em sua trajetória.

Por fim, deve-se referir a menina Lucinda, que pertence a uma família de posses e estabelece um contraste marcante com Martha, esclarecedor das diferenças sociais entre elas. Ela será o elemento catalizador dos desejos de Martha de buscar outro destino para si. No ambiente do cortiço, naturalizava-se o destino da pobre e infeliz Carolina, mas o encontro com Lucinda faz Martha perceber uma outra realidade, que será então perseguida por ela. Por outro lado, vem de Lucinda também a primeira experiência que Martha tem do preconceito e do racismo. Vendo a menina morena experimentar um dos seus vestidos, Lucinda comenta:

– Parece um macaquinho! – exclamava Lucinda desferindo umas risadinhas agudas a olhar para mim. (p. 19)

 

De uma só vez, Lucinda rebaixa Martha tanto em sua situação social quanto em sua condição humana. A cena em que ambas se olham no espelho pode ser entendida como uma imagem metafórica da sociedade brasileira: brancos e mulatos lado a lado apenas na aparência, porque, assim que se retira o espelho, percebe-se o quanto estão distantes uns dos outros.

 

Espaço

A casa onde Martha nasceu e viveu até os 5 anos de idade oferecia um relativo conforto. Em suas memórias, ela se recorda de alguns recantos que marcaram sua infância: “um ângulo de quintal, onde havia um banco tosco e um tanquezinho redondo” onde “lavava as roupas das bonecas”, “o papel da salinha de jantar, cheio de chins” (padrões inspirados em desenhos orientais). O lugar evidenciava certa abastança: a alusão que faz a “quartos”, “móveis” e “criados” mostra que ela e seus pais viviam em boa situação financeira, provavelmente equivalente ao que chamamos hoje de classe média.

A morte do pai determina uma transformação no espaço doméstico: mãe e filha são obrigadas a se transferir para “um cortiço de São Cristóvão” (p. 13). Os cortiços eram habitações coletivas ocupadas por pessoas de baixa renda, geralmente compostas por cômodos ou quartos, em cada um dos quais, por vezes, viviam famílias inteiras.

A imagem geral do Rio de Janeiro não é descrita no romance de forma elogiosa. Uma das personagens apresenta um quadro da vida urbana, quando a compara com a vida no campo:

[...] para dar valor condigno a todas essas maravilhas que se impõem ao mais rude, ao mais ingrato espírito, são necessários a mesquinhez da cidade, as ruas estreitas rumorejantes, o zum-zum do povo, o calor, os mosquitos, os benefícios das atrizes más, as reuniões dançantes a que não podemos faltar e a saturação de outras calamidades. (p. 74)

 

Se o leitor tiver em mente que o trecho se refere à maior cidade do país, a capital, a Corte, pode-se perceber a visão negativa que o ambiente urbano ainda provocava, notadamente quando contrastado ao campo, onde ainda vivia boa parte da população brasileira.

Contribuía para essa imagem pessimista a proliferação de cortiços no Rio de Janeiro, que sofria de uma permanente defasagem habitacional, presente até hoje, principalmente tendo em vista a chegada constante de imigrantes – que, como vimos, aparecem no romance de Júlia Lopes de Almeida. No ano de publicação do livro, cerca de ¼ da população carioca vivia em um dos 1300 cortiços da cidade10. Não por acaso, em uma nota em que se refere ao livro, a autora deixou registrado que a inspiração para compor esse cenário veio da vida real: apenas um muro separava o colégio administrado por seu pai de um cortiço, exatamente no bairro de São Cristóvão. As péssimas condições de higiene faziam desse tipo de moradia um espaço propício à proliferação de doenças de todo tipo, como registra a narradora de Memórias de Martha: “Desenvolveram-se no cortiço a epidemia de difteria e o sarampo” (p. 33).

Na literatura brasileira, a referência imediata, quando se trata de ambientação nessas moradias coletivas, é o romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890. Ambos os romances refletem uma mesma realidade, razão pela qual não é difícil encontrar semelhanças entre eles: os proprietários são portugueses; há imigrantes que vivem no lugar; alguns moradores se entregam à bebida com frequência; crianças entregues à própria sorte; violência doméstica; etc. Mas o que mais chama a atenção são as diferenças. A primeira delas diz respeito ao foco narrativo: para seguir o modelo cientificista da objetividade e da isenção, Aluísio Azevedo opta pela narração em terceira pessoa, enquanto Júlia Lopes de Almeida apresenta a perspectiva de uma narradora em primeira pessoa, que registra a realidade com fortes doses de subjetividade. Pode-se dizer que a narrativa de Aluísio Azevedo focaliza o espaço de forma a captar o aspecto geral, como os odores e os barulhos produzidos no lugar; a de Júlia Lopes de Almeida, por sua vez, mostra o espaço da perspectiva íntima de Martha, parecendo haver um interesse menor no registro fiel da realidade e maior nas impressões que esta provoca na protagonista. Aluísio Azevedo segue de perto o método determinista, concebendo personagens que agem sob a influência do meio em que vivem; em Memórias de Martha, ao contrário, a protagonista não se rende ao meio, rebela-se contra ele e luta para escapar do cortiço. Esse ponto de partida tem como desdobramento outra distinção entre as duas narrativas: enquanto Aluísio Azevedo opta pelo retrato da coletividade, Júlia Lopes de Almeida coloca em destaque as individualidades, sobretudo a de Martha, mas também outras que se sobressaem na narrativa, como as de Carolina, Maneco, Clara Sylvestre, etc. Disso decorre que, em O Cortiço, o próprio espaço exerça a condição de personagem central, enquanto em Memórias de Martha, esse papel cabe claramente à protagonista. Além disso, em O Cortiço, as personagens femininas são focalizadas a partir da sua sexualidade, por vezes limitando-se a ela, como Rita Baiana e Pombinha; já em Memórias de Martha, a personagem narradora apresenta outras faces, algumas até carregadas de sentimentalismo, como a busca amorosa, mas a maioria delas ligadas ao seu projeto de ascensão social.

A narradora não esconde o asco que sente do espaço onde passa a viver:

Eu, em começo, estranhava aquela moradia com tanta gente, tanto barulho, num corredor tão comprido e infecto que o ar entrava contrafeito e a água das barrelas empoçava entre as pedras desiguais da calçada. (p. 15)

 

Embora no trecho Martha se refira a uma sensação experimetada “em começo”, isto é, no início de sua vida, a verdade é que a impressão a acompanharia mesmo depois: ela se refere aos sentimentos provocados nela, já adulta, pelo “vexame daquele portão de cortiço” (p. 41). Martha chegou a pensar que um dos seus supostos pretendentes teria preferido se afastar dela ao saber que ela morava em lugar tão sórdido (cf. p. 57).

Martha informa que o cortiço em que vivia com a mãe “gozava da fama de ser um dos mais pacatos do bairro” (p. 41), o que seria explicado pelo fato de o proprietário viver ali com a família. No entanto, acrescenta que tal reputação era infundada, já que ali havia “vizinhos que na fama de moderados se esmurravam e guinchavam impropérios” (p. 41-42). O “quarto da ilhoa” (p. 29), vizinha de Martha, era um dos mais arrumados do cortiço, graças ao trabalho incessante de Carolina, mas o comportamento da matriarca nada tinha de ordenado: ela se mostrava violenta e agressiva com os filhos e o marido.

Nesse ambiente, Martha cresceria de forma acanhada, como se o espaço reprimisse sua formação natural:

Cresci vagarosamente, como se me não bastasse para o desenvolvimento o espaço estreito daquela alcova em que, de verão a inverno, minha mãe trabalhava, vestida com o pobre traje de viúva, já velho e ruço, mal-arranjado em seu corpo de tísica, muito delgado. (p. 14)

 

Como se pode notar, além de não permitir o “desenvolvimento” da menina, o ambiente prejudicava a própria sobrevivência da mãe. Apesar disso, ela não se deixa tolher pelo meio. Ao contrário, vai fazer dele um estímulo para estudar e trabalhar. Quando se vê preterida pelo rapaz que, segundo ela, fugiu dela por causa de sua moradia, ela revela:

Nunca mais o tornei a ver na escola nem em parte alguma, mas foi ele quem me decidiu a alugar definitivamente o pequeno chalé cor de pérola, de venezianas verdes e lambrequins de madeira a guarnecer o beiral do telhado. (p. 57)

 

O projeto de Martha pode ser sintetizado nas diferenças entre o espaço que habita e o que deseja habitar: sair da “alcova úmida e escura” (p. 27) para o “chalé cor de pérola” (p. 57) – da escuridão para a claridade. Essa pode ser ainda outra diferença em relação aO Cortiço, onde o sol é elemento aprisionador, porque representa a servidão dos instintos à natureza dos trópicos: em Memórias de Martha, o sol sempre provoca a sensação de libertação. Ainda criança, quando sai para acompanhar a mãe na entrega de roupas, essa impressão já é evidenciada: “O dia estava quente e luminoso. Eu sentia o calor das pedras da calçada e das paredes das casas onde ia roçando as mãos” (p. 17). O retorno à casa, nesse mesmo dia, é o reencontro com o fechamento opressor: “Voltei nesse dia mais alegre à nossa tristonha alcova da estalagem de São Cristóvão” (p. 21). Note-se: de um lado, o dia “quente e luminoso”; de outro, a “tristonha alcova”.

Da mesma forma, o prazer que Martha sente em estudar deve--se muito à sensação de libertação que ela experimenta na escola: “o sol não entrava arrojado e luminoso pela janela do ensombrado quarto do cortiço como pela janela de moldura envernizada da aula” (p. 27). Essa imagem da escola estabelece mais um curioso contraste entre Memórias de Martha e outro romance da época, O Ateneu, de Raul Pompeia, publicado também em 1888: enquanto, neste último, a escola é espaço de repressão e de encolhimento pessoal, para Martha ela representa a oportunidade de abertura, de descoberta de novos caminhos.

Assim, essas diferenças espaciais representam formas diferentes de viver para a protagonista. O espaço acanhado do cortiço simboliza a falta de perspectivas para a mulher “trigueira”, pobre e feia; a busca de outros lugares representa o extravasamento, a superação dos limites sociais impostos a ela.

 

Tempo

Em uma obra autobiográfica, é natural que a passagem do tempo seja demarcada pela idade da protagonista. Assim, Martha vive na casa onde foi criada com todo o conforto “até os cinco anos” (p. 11). Nesse momento, ocorre uma ruptura significativa em sua vida, que é a mudança para o cortiço com sua mãe, onde experimenta as dificuldades da miséria: “Eu tinha apenas sete anos e nessa idade o apetite não dorme” (p. 16). Aos 11 anos de idade, Martha percebe que não servia para os trabalhos manuais, para desencanto da mãe, que aconselhava: “Tu não nasceste para isto, mas, filha, é preciso que te habitues; bem vês, somos muito pobres e quando eu morrer deves saber sustentar-se com dignidade e firmeza” (p. 36). Martha vive, então, um impasse sobre o que fazer do próprio futuro. Logo em seguida, fica sabendo do desejo de uma professora de “tirar a cadeira” (p. 37) e dos benefícios que essa condição traria, decidindo seguir a mesma carreira.

A vida adulta de Martha começa sob o signo do trabalho e da dedicação aos estudos:

Assim, cheguei à idade de vinte anos, passando o melhor tempo da vida a estudar para ensinar ou curvada sobre a costura, ao lado de minha mãe, que enfraquecia muito e trabalhava sempre... (p. 61)

 

Ainda aos 20 anos, Martha vive uma experiência impactante: o reencontro com Clara Sylvestre, antiga colega de escola, então vivendo na prostituição. No momento do reencontro, Martha, envolvida com suas próprias desilusões pessoais, vertia “lágrimas choradas com a intensidade dos vinte anos” (p. 93), mas não manifesta plena consciência da condição de Clara. Contudo, ao recordar o episódio em suas Memórias, registra uma impressão mais assertiva:

A pobre Clara, em meio ao seu luxo, ao seu perfume de heliotrópio e aos seus enormes rubis dos brincos, inspirava-me grande interesse e mágoa. (p. 95)

 

A frase dita por Clara quando se despediram (“eu não mereço nada”, p. 97) surpreende Martha, que se achava, ela sim, pouco merecedora de qualquer consideração:

Quem valia nada era eu, sempre ignorada por toda a gente, sempre feia, o que me torturava, sempre envergonhada dos meus vestidos mal-ajeitados, do meu calçado barato, do meu modo esquerdo e retraído! (p. 97)

 

Desde então, dedica-se com mais afinco aos estudos, mas confessa que a sua “dor de viver, de ser feia, de ser pobre, de ser triste, durou ainda muito tempo” (p. 97). Passam-se quatro anos e, finalmente, ela se torna professora e é pedida em casamento por Miranda (cf. p. 102):

Bem cedo neste país ardente as mulheres ouvem dizer que as amam, e eu só aos vinte e quatro anos despertava no coração cansado de um velho uma paixão sossegada e mansa! (p. 104)

 

O “velho” Miranda contava então com “quarenta e tantos anos” (p. 102).

A passagem do tempo tem efeitos sobre Martha. Quando narra o episódio em que a mãe foge do encontro com uma amiga dos tempos de conforto material, revela não ter entendido, então, essa atitude materna. Mas, em seguida, ressalva: “A resposta tive-a anos depois, do tempo, da idade, do destino e dos desenganos” (p. 17). Assim, a vida que passa traz dores e sofrimentos, mas também um refinamento da percepção de mundo. Da mesma forma, quando relata o episódio da expulsão de sua colega Mathilde, de quem era próxima, recorda-se de ter se mantido distante e fria:

Vi-a sair sem que me viessem as lágrimas aos olhos, a mim, que lhe devia tanto; e agora, no fim de trinta e tantos anos, sinto na minha consciência como uma grande nódoa imperecível. (p. 25)

Como se pode perceber, Martha escreve suas Memórias também para acertar contas com o seu passado.




INTRODUÇÃO À OBRA: MEMÓRIAS DE MARTHA (2)

  QUESTÃO 01 Leia o trecho a seguir, retirado de Memórias de Martha . O cortiço em que morávamos gozava da fama de ser um dos mais pacatos d...