Introdução
A autora
Júlia
Valentina da Silveira Lopes (o Almeida só viria após o casamento) nasceu em
1862, no Rio de Janeiro, em uma casa repleta de livros, pois seu pai era
proprietário de um estabelecimento de ensino – que serviu de inspiração para a
ambientação de parte da trama de Memórias
de Martha em uma escola –, atividade que ele só encerrou ao se formar em
medicina e decidir seguir essa profissão. Em 1870, a família se transferiu para
Campinas, no interior de São Paulo, onde Júlia permaneceu até os 23 anos.
Alfabetizada em casa, pela mãe e pela irmã mais velha, também foi orientada
pelo pai na leitura de autores portugueses e franceses, além de ter aulas
particulares de música e língua inglesa. Eram hábitos incomuns para a época,
próprios de uma família que cultivava o refinamento intelectual.
A
vocação para a escrita surgiu ainda na adolescência, mas Júlia escondia seus
textos, temendo o preconceito da época contra mulheres escritoras. Foi a irmã
quem revelou seu segredo ao pai, que, então, passou a incentivar a filha.
Convidado pelo jornal Gazeta de Campinas
a escrever um artigo sobre um espetáculo teatral, ele delegou a tarefa a Júlia,
que produziu um texto tão bom que a levou a se tornar colaboradora constante da
imprensa local. Em 1885, durante uma viagem ao Rio de Janeiro, Júlia conheceu o
editor da revista A Semana, o poeta
português Filinto de Almeida, com quem se casou dois anos depois. O marido
ofereceu a ela o mesmo apoio que o pai lhe havia dado para o desenvolvimento de
sua vocação, elogiando incansavelmente o talento da esposa.
Dessa
forma, Júlia abraçou a carreira de escritora de forma profissional. Mantinha
anotações da venda de seus livros, dos preços que recebiam no mercado e da
quantia que cabia a ela. E ela deve ter tido muito o que anotar: seus artigos
eram bastante lidos, o que fez dela a escritora mais publicada da Primeira
República, a ponto de ser convidada a participar de conferências públicas, um
privilégio reservado a literatos famosos, como Olavo Bilac, Coelho Neto e João
do Rio. Ela também colaborou ativamente em diversas publicações, como o jornal
republicano e abolicionista O Paiz,
do Rio de Janeiro, onde suas crônicas apareciam logo na primeira página.
Apesar
de toda a efervescência profissional, Júlia nunca deixou em segundo plano a
condição de mãe e de esposa, justamente para provar que era possível conciliar
as atividades de casa com uma profissão liberal. Entre o final do século XIX e
o início do seguinte, publicou importantes romances, como A família Medeiros (1894), A
viúva Simões (1897) e A falência
(1901), além do volume de contos Ânsia
eterna (1903). As primeiras discussões em torno da criação da Academia
Brasileira de Letras (ABL) tiveram início por volta de 1897, justamente na casa
de Júlia e Filinto de Almeida. O casal se envolveu com o projeto, e o nome dela
chegou a constar da lista de possíveis membros fundadores. No entanto, sob a
justificativa de seguir o modelo francês, que só admitia homens em sua
Academia, a maioria dos membros que compunha a primeira turma de imortais
rejeitou a entrada da escritora. A ABL só admitiria uma mulher em 1977, quando
Rachel de Queiroz foi efetivada como membro.
Júlia
Lopes de Almeida faleceu em 1934, vítima de complicações oriundas de uma doença
contraída durante uma visita à filha caçula, que residia na África. Desde as
últimas décadas do século XX, sua obra vem sendo redescoberta e pesquisada,
incluindo Memórias de Martha, seu primeiro romance, publicado pela primeira vez
em 1888.
Contexto histórico
Sociedade
Quando
o romance Memórias de Martha começou
a ser publicado em folhetins, em dezembro de 1888, o Brasil já não era mais um
país escravocrata, devido à promulgação da Lei Áurea em maio daquele ano. O
país também se preparava para a transição de Monarquia para República, que
seria proclamada em novembro de 1889. No entanto, para compreender com precisão
os parâmetros históricos do romance, é preciso delinear um panorama social um pouco
mais amplo.
O século XIX foi o século da burguesia. O exercício do poder burguês na Europa determinou uma mudança de mentalidade em vários níveis. A concepção de família, por exemplo, conforme a conhecemos hoje, consolidou-se durante esse período, determinando a imagem do lar como local de intimidade e acolhimento e, em relação à mulher, o elogio da maternidade. Isso resultou em um modelo de comportamento no qual cabia ao homem a ocupação do espaço externo, do mundo do trabalho e das discussões políticas, enquanto à mulher estava reservado o cuidado da casa e dos filhos. Esse modelo, que acabou sendo erigido como ideal, só poderia ser atendido pela classe burguesa, já que as mulheres das classes populares precisavam se ausentar de casa para trabalhar. De acordo com esse modelo, impunha-se uma forte restrição moral à mulher, na medida em que sua imagem de boa mãe e de dona de casa exemplar era fundamental para o sucesso social e político do marido. A restrição da atuação feminina ao espaço do lar ganhou, com o decorrer do século, o respaldo da ciência, que estabelecia diferenças entre homens e mulheres. Para a medicina social do período, as mulheres eram fisicamente frágeis, naturalmente recatadas, dominadas sobretudo pelos sentimentos (entre eles, a fé e a caridade) mais do que pela racionalidade e carregavam consigo uma inata vocação para a maternidade; já os homens eram fisicamente fortes, naturalmente autoritários, mais racionais do que sentimentais e apresentavam uma inata tendência à sexualidade sem limites, exercida frequentemente fora do lar. Como consequência dessas supostas diferenças, uma conclusão equivocada se tornou lugar-comum: a mulher não possuía nenhuma autonomia, nenhum poder de decisão sobre seu próprio destino.
Uma das primeiras lutas pela valorização da condição feminina foi a de conquistar o acesso à educação. No Brasil, a luta pelo ensino foi bastante ampla; mas, embora a Constituição de 1824 garantisse ensino público de qualidade para toda a população, a verdade é que essa determinação demorou anos para ser colocada em prática – dez anos depois não havia nenhuma escola pública no Rio de Janeiro, por exemplo, deixando claro que existiam dificuldades a respeito da educação como um todo. Mas a luta das mulheres foi ainda mais intensa e difícil. A leitura e a escrita eram, até então, privilégios masculinos, salvo raríssimas exceções; a mentalidade machista e misógina da época acreditava que as jovens, ao aprenderem a ler, trocariam cartas com namorados.
As
primeiras metodologias de ensino feminino definiam alguns saberes também
ministrados aos meninos, como leitura, escrita, religião e noções básicas de
aritmética. Depois desse currículo comum, a ala masculina seguia com matérias
como geometria, enquanto à parte feminina cabia o aprendizado de bordado e
costura. Famílias mais abastadas podiam contratar professoras particulares (muitas
vezes estrangeiras), limitando as aulas das meninas ao espaço doméstico e a um
aprendizado de caráter mais ornamental, com aulas de música, canto, dança ou
artesanato, atividades pensadas para o entretenimento familiar e para a prática
de habilidades que serviriam para atrair bons maridos.
Para
as mulheres que desejavam se dedicar a atividades intelectuais, era sempre
lembrado que teriam dificuldades para conciliá-las com os papéis sociais vistos
como primordiais para a mulher: o casamento e a maternidade. A própria Júlia
Lopes de Almeida deixou muitos testemunhos de que, embora se dedicasse às
letras, prezava muito sua condição de mãe e de esposa. Mas aquelas que, ainda assim,
insistiam em seguir carreiras intelectuais eram vistas com reservas, como
anomalias sociais, como seres capazes de desmontar a ordem vigente, chegando-se
ao ponto de se criar uma imagem masculinizada dessa mulher, como se, ao seguir
esse caminho, ela estivesse abdicando de sua feminilidade.
A
mulher com instrução limitada não tinha acesso à vida pública. As que
pretendiam quebrar essa barreira enfrentavam a fúria dos conservadores. A luta
pelo direito ao voto, liderada no Brasil por Bertha Luz (1894-1976), só
chegaria ao fim em 1932, mesmo assim com algumas ressalvas: na Constituição de
1934, o voto feminino era facultativo, tornando-se obrigatório somente em 1965.
Nessa luta, não deixa de ser curiosa a posição de Júlia Lopes de Almeida, que
chegou a escrever artigos contrários ao voto feminino, argumentando que a
prioridade deveria ser a capacitação da mulher para o mercado de trabalho. A
autora também deixou registrada a sua intenção de abdicar do direito ao voto,
dizendo-se ignorante em política e desejosa de dedicar-se exclusivamente à sua
carreira de escritora.
De
forma geral, as mulheres das classes populares estavam ainda mais distantes
dessas discussões. No Brasil, o sistema judiciário, por meio de suas leis, e as
forças policiais, com ações rigorosas, estabeleciam normas e controlavam a ação
das mulheres mais pobres, sobretudo no que dizia respeito ao comportamento, que
deveria se pautar pelas “boas maneiras”. Na prática, isso representava uma estratégia
de silenciamento. Além dos serviços domésticos que desempenhavam em suas
próprias casas, as mulheres trabalhadoras ainda exerciam uma série de funções
menos valorizadas, como lavadeiras e engomadeiras, por exemplo, que é o caso da
mãe da protagonista de Memórias de Martha.
Outro
dado da vida familiar das classes populares que se apresenta no romance de
Júlia Lopes de Almeida é a violência doméstica.
De
forma geral, esta era exercida por maridos enfurecidos: quando se viam
impossibilitados de prover a família, extravasavam sua insegurança pessoal em
agressões físicas e verbais contra suas companheiras e filhos. Como veremos,
quando menina, Martha testemunhou brigas do casal que morava no cômodo vizinho
ao dela. Contudo, nesse caso, a violência partia também da mulher, que não se
submetia às imposições do marido. Esse dado é curioso, pois parece revelar que,
enquanto nas classes mais abastadas vigorava o modelo do homem que exercia
poder sobre a mulher submissa, nos lares mais pobres essa posição não era
exercida com tanta facilidade, porque enfrentava a resistência das mulheres.
Nesse contexto, inclusive, não era incomum que se encontrassem mães solteiras,
que recusavam o casamento para escapar de cerceamentos morais e de agressões
físicas.
Um
dos poucos caminhos permitidos às mulheres que desejavam se afastar de
atividades ligadas aos trabalhos manuais era o magistério. No Brasil, entre os
séculos XVI e XVIII, essa atividade era exercida pelos jesuítas.
Posteriormente, esse leque se abriu, mas a docência continuou a ser um ofício
preferencialmente masculino. A demanda crescente, provocada pela presença de
imigrantes e pelo crescimento das camadas médias, determinou que esse campo fosse
aberto às mulheres, as quais, a partir do final do século XIX, passaram a
constituir a maioria do professorado. Foi um processo árduo, que enfrentou
resistência daqueles que achavam que o exercício da docência era uma atividade
excessivamente racional para as mulheres, já que, na visão desses opositores,
elas tinham cérebros “pouco desenvolvidos”. Por outro lado, houve quem apoiasse
esse incremento da presença feminina no magistério, argumentando que se tratava
de uma atividade para a qual as mulheres tinham uma inclinação natural, tendo
em vista seu instinto materno. Dessa predominância feminina, surgiria a imagem
da professorinha ou da normalista, ou seja, a frequentadora de cursos
preparatórios para o exercício do magistério, como no romance A normalista, de
Adolfo Caminha, de 1893.
O
fato de as mulheres terem alcançado, finalmente, a permissão de exercer uma
atividade intelectual reconhecida socialmente não significou o fim das
perseguições e do preconceito. Embora fossem consideradas aptas para o
exercício pedagógico, nem sempre eram vistas como adequadas para cargos de
direção, que continuaram a ser exercidos, de forma geral, por homens – com
exceção de escolas religiosas, muitas das quais eram comandadas por madres
superioras. Além disso, acreditava-se que o magistério era o destino natural de
mulheres desprovidas de atrativos físicos – o que ocorre com Martha,
protagonista do romance de que tratamos aqui –, pois acreditava-se que, para
elas, estavam suspensas as alternativas mais convencionais do casamento e da
maternidade, e assim, como não seriam capazes de gerar filhos, deveriam se
dedicar à educação dos filhos de outras pessoas.
Cultura
O
século XIX também foi o século do romance, em função da proliferação de
narrativas que se voltavam para a contemporaneidade – mesmo aquelas de fundo
histórico estabeleciam alguma relação com seu próprio tempo. A linguagem perdeu
um pouco da sua erudição, assumindo um tom mais próximo da realidade dos leitores.
Os jornais passaram a veicular narrativas seriadas em seus números – conhecidas
como folhetins. O sucesso dessa
iniciativa fez surgirem escritores de grande apelo popular, como Victor Hugo, na
França, Camilo Castelo Branco, em Portugal, e José de Alencar, no Brasil, assim
como Ponson du Terrail, Manuel Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães, Machado
de Assis e tantos outros. No caso brasileiro, podemos lembrar ainda os nomes de
Teixeira e Sousa e Laurindo Rabelo, menos conhecidos hoje, mas que fazem parte
da história literária. Como se pode notar, esses exemplos são todos de autores
masculinos, e isso não é coincidência.
Em
um artigo de 1893, o escritor Osório Duque Estrada declarou, sem nenhum pudor:
“As maiores escritoras foram e hão de ser sempre inferiores a um literato
medíocre”. Devido a tais posições retrógradas, as escritoras do século XIX – e
anteriores – sofreram um processo de silenciamento. Seria possível argumentar
que essas escritoras alcançaram menor sucesso, mas essa afirmação não resiste a
uma pesquisa um pouco mais atenta. No Brasil, muitas foram as publicações
fundadas por mulheres. Um exemplo é O
Corymbo, lançado no Rio Grande do Sul pelas irmãs Revocata Heloísa de Melo e
Julieta de Melo Monteiro, que circulou por sessenta anos, entre 1884 e 1944.
Também tivemos o jornal O Sexo Feminino,
de propriedade de Francisca Senhorinha da Mota Diniz, que esclarecia seu
projeto
editorial no subtítulo – “Semanário dedicado aos interesses da mulher” – e
circulou no Rio de Janeiro no final do século XIX. Entre muitos outros
exemplos, podemos citar a revista A
Mensageira, de Priscilliana Duarte de Almeida, que, apesar de sua curta
duração (circulou entre 1897 e 1900), exerceu influência sobre as leitoras e teve
como uma de suas colaboradoras habituais Júlia Lopes de Almeida. Esses
periódicos comprovam o interesse suscitado pelo tema e a existência de uma
produção de autoras mulheres, destinada, sobretudo, a leitoras mulheres.
As obras dessas escritoras tiveram, em seu tempo, repercussão maior do que a de muitas escritas por homens que, embora esquecidos, figuram nas listas literárias, ao contrário das mulheres, relegadas ao quase total esquecimento. Já era tempo de trazer de volta à letra impressa autoras como Nísia Floresta, Maria Firmino dos Reis, Narcisa Amália, Maria Benedita Camara Bormann, e, claro, Júlia Lopes de Almeida – provavelmente a mais bem-sucedida de todas, cuja carreira de grande sucesso em seu tempo foi injustamente relegada a segundo plano.
O livro
A
primeira edição do romance Memórias de
Martha foi publicada em folhetins no jornal Tribuna Liberal, do Rio de Janeiro, entre dezembro de 1888 e
janeiro de 1889. Uma segunda edição surgiu dez anos depois, reunida em um
romance publicado pela Casa Durski Editora, sediada em Sorocaba (SP). A versão
em livro apresenta algumas diferenças em relação à original, dos folhetins, embora
sem alterar significativamente a narrativa. Para comparação, apresentamos o início
de cada uma dessas versões:
Houve ainda uma terceira edição, publicada nas primeiras décadas do século XX pela Livraria Francesa Truchy-Leroy, na qual também constam algumas diferenças em relação às versões anteriores.
Embora
não haja, de fato, nenhuma alteração significativa, algumas diferenças podem
incomodar o leitor que busca compreender as sutilezas do texto de Júlia Lopes
de Almeida, como apontaremos no decorrer desta análise. Para o presente
trabalho, adotamos a edição da editora Janela Amarela, do Rio de Janeiro,
publicada em 2020, que segue a primeira versão em livro, de 1899.
Este
foi o primeiro romance de Júlia Lopes de Almeida, que surgiu como escritora em
um momento particularmente feliz de nossa ficção: antes de Memórias de Martha, surgiram as Memórias
póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, obra inovadora e
fundamental para nossa evolução literária. No mesmo ano da publicação do
romance de Júlia, foi impresso O Ateneu,
de Raul Pompeia, um exemplo do nível alcançado pelas nossas letras. Finalmente,
em 1890, foi publicado O Cortiço, de
Aluísio Azevedo, ambientado no mesmo espaço social em que se passa parte da
ação de Memórias de Martha. Apesar da
concorrência de escritores já reconhecidos, Júlia Lopes de Almeida conseguiu
chamar a atenção da crítica de seu tempo. Em um artigo escrito em 1897, o
crítico Lúcio de Mendonça se refere a três escritoras brasileiras, que, por
coincidência, têm o mesmo nome – Francisca Júlia, Júlia Cortines (ambas poetas
de filiação parnasiana) e Júlia Lopes de Almeida, reconhecendo nesta última, a
“vasta reputação literária”. No entanto, convém destacar alguns trechos da
crítica: “há nas três uma feição comum – a índole máscula do seu talento”; “a
varonilidade do espírito destas três senhoras não lhes tira, mesmo
literariamente falando, as graças do sexo – a delicadeza do sentimento, a finura
da análise, a comoção mais vibrante de todo o encanto do recato”5. Como se vê,
mesmo em um artigo elogioso, revela-se a perspectiva machista da crítica, em expressões
como “índole máscula” ou “varonilidade do espírito”, demonstrando que o termo
de comparação continua a ser a produção literária masculina.
A
passagem do tempo apenas acentuou essa visão. Júlia Lopes de Almeida não teve
destaque em importantes estudos sobre a literatura brasileira, como História concisa da literatura brasileira,
de Alfredo Bosi; A literatura brasileira,
organizada por Afrânio Coutinho; o volume dedicado ao Realismo da coleção História da literatura brasileira,
escrito por Massaud Moisés; o estudo sobre o Realismo que consta da coleção A literatura brasileira, escrito por
João Pacheco. No estudo Prosa de ficção –
de 1870 a 1920, publicado em 1950, a pesquisadora Lúcia Miguel-Pereira
reserva para a escritora um espaço pouco lisonjeiro, citando-a no capítulo
“Sorriso da sociedade”, dedicado a tratar da produção literária de tom mais
superficial. Em seu texto, Lúcia Miguel-Pereira reconhece “inegáveis dons
literários” nos livros da escritora, mas afirma que eles “nada possuem de original”.
Talvez um dos primeiros críticos a desafinar esse coro de descontentes com a
obra de Júlia Lopes de Almeida tenha sido Wilson Martins, que, em sua História da inteligência brasileira,
afirma que a escritora “representa, talvez, o ponto mais alto do nosso romance
realista” – o que parece um exagero, tendo em vista Machado de Assis e outros
autores do período – e ainda que ela seja “um dos nossos romancistas do passado
a exigir urgente reavaliação” – julgamento que nos parece mais acertado.
Síntese da obra
Infância
Em
Memórias de Martha, acompanhamos a
vida da protagonista narrada por ela mesma. Até os cinco anos de idade, Martha
viveu em uma casa confortável, mas a morte do pai mudou drasticamente seu
destino: Martha e a mãe, também chamada Martha, tiveram de se mudar para um
cortiço no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A menina não guarda
muitas lembranças do pai e só mais tarde a mãe lhe contaria as circunstâncias
de sua morte.
Instalada
no cortiço com a filha, a mãe começou a trabalhar como lavadeira e engomadeira,
ofício que a fazia se ausentar frequentemente de casa, quando não podia levar a
menina consigo. Nesses momentos, Martha ficava sob os cuidados de uma vizinha,
chamada apenas de “ilhoa” (isto é, originária de ilha), que tinha três filhos
pequenos, Carolina, Maneco e Rita. Dos três, Martha recebia especial afeto da
mais velha, Carolina, que, certa vez, dividiu com ela um bife preparado pela
ilhoa, que ficou furiosa com essa atitude. A mãe de Martha mantinha a menina
sob vigilância estrita, mas, mesmo assim, ela brincava com os amigos da rua,
cujas brincadeiras às vezes eram violentas e faziam a menina voltar para casa
aos prantos.
Em
uma das ocasiões em que acompanhou a mãe a uma entrega de roupas, Martha
conheceu uma família rica. Uma das filhas da casa, Lucinda, tinha idade
semelhante à dela, mas possuía muito mais roupas e brinquedos de melhor
qualidade. Ao saber que Martha ainda não sabia ler, a dona da casa observou que
ela já tinha idade para isso, induzindo a lavadeira a matricular a filha em uma
escola.
Passados
os primeiros dias de aulas, Martha superou o estranhamento e passou a se sentir
bem. Fez novas amizade, entre as quais uma “menina mulata” (p. 24) chamada
Mathilde, que a ajudava nas lições. No entanto, quando a nova amiga foi
denunciada por furto, Martha se afastou, assim como as outras colegas, e a
menina acabou sendo expulsa da escola. Martha se aproximou, então, de Clara
Sylvestre, que, embora não a ajudasse com as tarefas, era “alegre, bonita e
forte” (p. 25) e dizia sonhar com uma vida de luxo e riqueza. Martha logo se
adaptou aos estudos e à escola. Gostava de estar ali, porque, dessa forma,
permanecia longe do cortiço onde morava. Por isso, as férias foram motivo de
tristeza para ela, quando voltou a conviver com as crianças da vizinhança e
assistiu à lenta degeneração física de um dos filhos da ilhoa, Maneco, que
desde cedo se tornou viciado em álcool.
No fim das férias, Martha ficou doente, vítima de uma epidemia de difteria que atingiu o cortiço. Recuperou-se após duas semanas, e, assim que as férias terminaram, retornou às aulas, levando consigo a filha mais nova da vizinha, Rita. Enciumada das atenções que Martha dedicava à nova aluna, Clara Sylvestre também tratou de arranjar novas amizades. A professora, D. Anninha, logo percebeu a disposição de Martha para os estudos e não escondeu sua preferência por ela, pedindo-lhe auxílio para tomar as lições das colegas. E assim se passou mais um ano na escola, ao final do qual Martha se submeteu a novos exames, saindo-se tão bem quanto em ocasiões anteriores.
A
mãe de Martha, acreditando que a filha fosse suficientemente instruída, tentou
introduzi-la nas tarefas domésticas, mas Martha demonstrou pouca habilidade nos
trabalhos manuais. A mãe insistiu, dizendo que ela teria que aprender para, no
futuro, conseguir se sustentar de forma digna. Os esforços foram inúteis,
porque Martha não conseguia desempenhar bem as tarefas diárias. Por outro lado,
na escola, ouviu uma conversa entre D. Anninha e uma professora-adjunta
(assistente), que falava de sua ansiedade em “tirar a cadeira” (p. 37), isto é,
em se habilitar para o exercício do magistério. A moça comentava que, quando
conseguisse isso, teria uma vida melhor. A ideia impressionou e atraiu Martha,
que, naquela mesma noite, sonhou que era professora. Ela se deu conta, então,
de que poderia garantir seu futuro seguindo essa profissão. Desse modo, escaparia
da situação em que vivia Carolina, a menina vizinha, que já começava a
apresentar sinais de envelhecimento precoce, como um inchaço nas pernas devido
ao trabalho incessante em casa.
Martha
passava a maior parte do tempo no colégio, evitando ao máximo retornar ao
ambiente sombrio do cortiço e do cômodo que ela e a mãe ocupavam. Incomodava-a
também a convivência com pessoas como a Eulália, “uma mulata gorda” (p. 42) que
vivia bêbada; o menino Lucas, que se aproximava sempre que via alguém comendo
alguma coisa; o Tio Bernardo, um “idiota velho” que era sustentado pelo dono do
cortiço em troca de pequenos favores. Um episódio de violência assustou-a ainda
mais. Havia no cortiço “dois rapazes tiroleses” (isto é, originários do Tirol,
região entre a Itália e a Áustria), que moravam juntos no cortiço e pareciam
ser muito amigos, até um deles matar o outro e fugir com as economias que
tinham feito. Passado o susto, a vida de Martha e de sua mãe voltou ao normal.
Durante uma conversa, a mãe revelou alguns fatos de seu passado. Ela e a família eram de Minas Gerais e seu pai, avô de Martha, já viúvo, era muito rigoroso na educação da filha. Em uma das raras festas que ele lhe deu permissão para frequentar, ela conheceu seu futuro marido. Dançaram e se apaixonaram imediatamente. Após vencerem a resistência do pai, conseguiram se casar. Depois de algum tempo, o velho, desgostoso da vida solitária e entregue ao vício do jogo, foi acolhido pelo casal, mas acabou morrendo em uma mesa de baralho. Ela e o marido mudaram-se para São Paulo. Ele passou a trabalhar com escrituração (documentação comercial) e logo prosperou. Viviam “em um chalé ajardinado” (p. 49), que mobiliaram com modéstia. Martha nasceu nesse período. Para constituir um futuro dote para a filha, o pai resolveu aumentar os rendimentos tornando-se caixeiro viajante (espécie de representante comercial) da firma Braga & Torres8. Certa vez, uma quantia pertencente aos patrões foi roubada enquanto estava sob seus cuidados, e ele foi acusado. Para evitar a prisão, suicidou-se.
Saída do cortiço
Martha
passou a frequentar a Escola Normal, que formava profissionais do magistério.
Enquanto estudava, podia ser convocada como professora-adjunta, e, para isso,
dedicou-se aos estudos com ainda mais afinco. Nesse meio tempo, a vida da
família vizinha foi marcada por uma tragédia. Maneco, cuja saúde já estava
debilitada por causa do vício em álcool, acabou falecendo, para desespero da mãe
e das irmãs.
De
sua parte, Martha recebeu, no dia seguinte, uma boa notícia: D. Anninha lhe
contou que sua nomeação para professora saíra e que ela começaria a receber
pagamento pelo trabalho. Imediatamente, ela e a mãe começaram a procurar uma
casa pequena para alugar. Encontraram o que queriam, mas o valor do aluguel
consumiria quase todo o seu salário, o que as fez hesitar em fechar o negócio.
No entanto, um episódio ocorrido alguns dias depois a levou a mudar de ideia.
Em uma aula da Escola Normal, percebeu que um rapaz a observava com
insistência. Quando foi embora, acompanhada da mestra, que tomava o mesmo
bonde, notou que o rapaz estava no veículo. Quando desceram, ele também desceu
e passou a segui-las. O cortiço onde morava Martha ficava antes da casa da
professora, portanto, ela se despediu e entrou. O rapaz passou pelo portão do cortiço
e seguiu caminho.
Recordando
a cena em suas memórias, Martha chegou à conclusão de que, na verdade, o rapaz
perseguia a professora, e não a ela. Mas, naquela ocasião, ela atribuiu o
desprezo dele ao fato de morar em um cortiço. Por isso, decidiu alugar a
pequena casa que havia encontrado. Nas novas acomodações, Martha não conseguia esquecer
os olhos do rapaz, embora nunca mais o tivesse visto.
Vinte anos
Martha
chegou aos 20 anos de idade dividindo seu tempo entre os estudos, o trabalho e
a costura ao lado da mãe, que estava cada vez mais enfraquecida. A tristeza
pela suposta perda de um amor a tornava melancólica, o que preocupava a mãe. Em
conversa com a professora e mentora de Martha, D. Anninha, a mãe comentou o estado
de ânimo da filha. Alguns dias depois, Martha recebeu um convite para
participar de um baile na casa da mestra, que celebraria o aniversário do
marido.
Na
noite da festa, a mãe a levou até a casa da professora e disse que ficaria
esperando “embaixo, na sala de entrada, onde a não vissem senão os criados” (p.
62). Martha ficou triste com a situação, mas, ao mesmo tempo, reconheceu que a
mãe não tinha sequer um vestido apresentável. Durante a festa, Martha observou
as pessoas conversando e dançando, mas permaneceu isolada de todos. D. Anninha
apresentou a aluna a algumas sobrinhas suas. Durante a organização de um
lanceiro (espécie de quadrilha), notou-se que faltava um par. A professora
solicitou a um amigo, um velho conselheiro, que interrompesse a jogatina para
fazer par com Martha. O velho aquiesceu com má vontade e a dança foi uma
tortura para a moça, que não sabia os passos, errava a todo momento e era motivo
de chacota.
Após
a dança, serviram o chá. Martha foi flagrada por um grupo de rapazes colocando
algumas pastilhas enfeitadas na algibeira para oferecer à mãe e ficou
envergonhada. A imagem da mãe fez com que se recordasse do que havia combinado
com ela, de sair até as 23 horas. Quando soube que já eram 2 horas, retirou-se
com pressa e encontrou a mãe em um banco do vestíbulo, “curvada e fria, olhando
para o chão” (p. 67). Martha retirou-se com a mãe sem sequer se despedir da
professora. No dia seguinte, ao reencontrá-la para se desculpar, notou que a
anfitriã não havia percebido sua ausência.
Uma temporada no
campo
Algum
tempo depois, nas férias, a saúde de Martha voltou a dar sinais de fragilidade.
Inicialmente, o médico aconselhou casamento, mas, vendo a expressão desalentada
da mãe e da filha, sugeriu que uma viagem poderia fazer bem à moça. Mais uma
vez, a mãe recorreu a D. Anninha. A ocasião era propícia, porque a professora
se preparava para passar uma temporada em uma casa alugada no interior do
estado, na companhia do marido, e convidou Martha para ir com eles. Os
preparativos para a viagem consumiram algum dinheiro, que a mãe conseguiu em
empréstimo adquirido junto a um freguês generoso, o Miranda.
No
campo, enquanto o marido de D. Anninha caçava, as mulheres passavam o tempo
lendo, costurando e apreciando a paisagem. Algumas vezes, passeavam pela
região. Em um desses passeios, encontraram por acaso um rapaz chamado Luiz,
primo de D. Anninha. Ele suspendera seus estudos de Medicina para descansar alguns
dias no interior. Sua conversa demonstrava refinamento e inteligência e,
naquela noite, em seus sonhos, Martha misturou a imagem de Luiz com a do rapaz
cujos olhos a haviam impressionado tanto, tempos antes.
Luiz
então passou a frequentar a casa onde D. Anninha e Martha estavam hospedadas.
Certa vez, enquanto conversavam amenidades durante um passeio, Martha sentiu os
olhos de Luiz fixos nela. Nesse dia, ao retornarem para casa, ele lhe ofereceu
o braço, e ambos vieram conversando sobre seus planos futuros. Martha experimentou
uma felicidade inédita em sua vida.
Luiz
passou a escrever poemas simples para Martha, que os guardava e os relia
sempre. Durante um novo passeio, no qual Luiz também estava presente,
enfrentaram uma tempestade que obrigou o grupo a se recolher em uma cabana.
Alguns minutos depois, passou por eles uma “rapariga nova, alta, bonita, rosto
cor de leite e rosas, de uma frescura encantadora” (p. 83). Era uma moça estadunidense
que estava hospedada em um hotel próximo, onde cuidava do pai paralítico.
Conversaram rapidamente e a moça manifestou sua paixão por temporais. Logo a
seguir, partiu. Martha percebeu que a estrangeira provocou forte impressão em
Luiz.
No
dia seguinte, ele não apareceu. Martha supôs que ele pudesse estar doente após
a chuva que tinham apanhado. Naquela noite, um telegrama da Corte noticiava a
fragilidade do estado de saúde da sogra de D. Anninha, e ela e o marido
decidiram voltar na manhã seguinte. De manhã, Martha pretextou que queria se
despedir do lugar antes de partirem e foi dar um passeio. Passou pelo hotel e
viu Luiz e a jovem norte-americana trocando carícias e algumas palavras em
inglês, que, mais tarde, seriam confirmadas pela professora como expressões de
amor. Ao retornar para casa, Martha pensou em suicídio. Por fim, tomada pela
forte emoção, caiu desmaiada. Foi acordada por vozes que se aproximavam. Era D.
Anninha, que a procurava, apressando-a para a partida.
A
mãe recebeu-a com alegria, e achou que a filha tinha recuperado a saúde. Como
única novidade, comentou que Miranda, o freguês generoso que lhe havia
emprestado o dinheiro para a viagem de Martha, era agora seu vizinho: “um bom
homem, aquele” (p. 89).
Um reencontro
Martha
se sentia emocionalmente exausta. A mãe, percebendo o estado da filha,
convidava-a para passeios pela cidade. Em uma dessas caminhadas, Martha deixou
a mãe descansando em uma praça e disse que daria uma volta pelo lugar.
Adiante,
deparou-se com algumas crianças brincando em um local pobre. De repente, passou
por perto dela uma “mulher elegantíssima” (p. 94), que entrou em uma das
pequenas casas. Ao sair, a mulher distribuiu dinheiro às crianças. Estava
acompanhada de uma velha, de quem logo se desembaraçou, e partiu. Ao passar
diante de Martha, as duas se olharam e se reconheceram: era Clara Sylvestre, a
antiga colega de escola. Conversaram, enquanto olhavam uma para a outra, cheias
de recordações. Demonstrando nervosismo, Clara explicou que estava ali porque
uma empregada sua morrera, deixando uma filha de 9 meses, e que ela pagava a
mulher para cuidar da criança. A conversa foi interrompida por alguns rapazes que,
de um carro estacionado próximo dali, chamaram por Clara. Ela se despediu,
dizendo que não merecia a amizade de Martha e afirmando que há muito tempo não
tinha uma alegria como a proporcionada por aquele reencontro. Martha retornou
ao lugar onde deixara a mãe, refletindo sobre as palavras da antiga colega: “eu
não mereço nada” (p. 97). Aos seus próprios olhos, era ela, Martha, que não
merecia nada do mundo. Guardou consigo a lembrança do olhar doce de Clara.
Professora
Aos
poucos, o estado de nervosismo de Martha foi melhorando. Em um encontro com D.
Anninha, esta lhe contou que seu primo Luiz se casaria em breve. Martha imaginou
que fosse com a estadunidense que o rapaz conhecera no campo, mas a professora
revelou que seria com uma de suas sobrinhas, que Martha recordou ter conhecido
durante o baile. Não conseguiu evitar o pensamento de que a norte-americana
também tinha sido iludida por Luiz. Quando chegou em casa, foi informada pela
mãe que Miranda trouxera um anúncio de jornal sobre um concurso para escolas
públicas. Imediatamente, Martha se pôs a estudar.
Após
o concurso, retornou à casa e encontrou a mãe animada. Miranda havia assistido
ao exame e lhe trouxe a notícia de que ela se saíra bem. De fato, algum tempo
depois, Martha recebeu a nomeação de professora, coincidentemente, no mesmo dia
do casamento de Luiz.
A
mãe contou a Martha que Miranda tinha pedido sua mão em casamento. Contou ainda
que o afeto do freguês crescera ao ler as cartas enviadas por Martha do campo,
mostradas a ele pela mãe. Martha recusou o pedido, dizendo que não pretendia se
casar, principalmente agora que tinha conquistado sua independência profissional.
A mãe lamentou essa decisão, dizendo que não queria morrer sem vê-la casada e
amparada. Martha passou a refletir sobre a possibilidade de aceitar o pedido.
Concluiu que seu casamento “seria uma vingança para os ultrajes que a minha
imaginação de moça recebera sempre” (p. 104).
Casamento
Miranda
era um homem simples, “de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios
brancos a luzirem-lhe na barba preta; de feições miúdas, dentes pequeninos; e
peito robusto” (p. 106), com 40 anos de idade, o que o tornava um pouco velho
para Martha.
Mãe
e filha passaram a se dedicar aos preparativos do enxoval e à mudança para uma
nova casa no bairro do Engenho Novo, próximo ao local onde Martha conseguira
sua colocação como professora. Em uma das vezes em que saíram às compras,
encontraram ilhoa, a antiga vizinha do cortiço, que lhes deu notícia dos
familiares. Carolina estava casada, tinha dois filhos, continuava com problemas
nas pernas e apanhava do marido. Rita estava para se casar com um barbeiro. Em
seguida, com o mesmo estouvamento, a ilhoa seguiu seu caminho.
Alguns
dias depois, Martha tomou posse da cadeira de professora. Adiou o casamento
duas vezes, mas finalmente definiu a data. A mãe preparou para ela um lindo
vestido de seda para as núpcias. Na véspera do casamento, Martha encontrou
dentro de um de seus
cadernos
de estudo um poema que Luiz havia escrito. Leu-o para a mãe e, em seguida,
queimou o papel.
Martha
casou-se “numa bela tarde de verão” (p. 113). A mãe ficou aliviada e não
escondeu sua felicidade, mas adoeceu oito dias depois da cerimônia. O médico
que a atendeu preparou a filha para o pior, manifestando surpresa diante da
resistência da mulher, cujo coração fraquejava há muito tempo. Nos últimos dias
de vida da mãe, Martha ficou ao seu lado o tempo todo. No momento da morte,
teve uma crise nervosa e foi amparada pelo marido.
Em
uma das edições do livro, a narrativa não termina aqui, mas com uma nota de
Martha, dedicando o livro à sua filha, Cecília.
Narradora
O
título do romance já anuncia tratar-se de uma obra memorialista, que geralmente
apresenta um narrador em primeira pessoa. A surpresa fica por conta da voz narradora
feminina, o que era pouco comum no século XIX, especialmente considerando que a
autora também é mulher. Na obra de Júlia Lopes de Almeida, o protagonismo
feminino é quase absoluto, mas a explicitação de uma narradora era pouco usual.
Embora
Martha seja tanto narradora quanto protagonista, convém discernir uma da outra.
Isso porque a narradora, já adulta e tendo vivido todas as experiências que
relata, por vezes se coloca em uma posição de relativo distanciamento, tecendo
considerações que ela faz no momento da escrita, julgando suas atitudes na
narrativa:
As crianças pensam; e
as impressões que sentem são as mais duráveis e profundas muitas vezes. Tenho
passado por grandes tempestades e nenhuma me deixou mais vestígios do que a que
abalou minha meninice, não sendo todavia essa a maior! (p. 20).
Como
se vê, Martha narra os acontecimentos da sua “meninice”, sem deixar de
manifestar impressões surgidas no momento em que escreve. Essas opiniões dão
uma amplitude maior à narrativa, permitindo compreendê-la como o registro da perspectiva
feminina, e não exclusivamente da de Martha. Mais especificamente, trata-se da
visão de uma mulher que ocupa o espaço da exclusão: pobre, marginalizada, sem
atributos físicos de destaque, sem habilidade para os trabalhos manuais então
valorizados para as mulheres, Martha escreve suas memórias não apenas para
denunciar o processo de marginalização que sofreu, mas sobretudo para contar
como o enfrentou e o superou, sem deixar de cumprir o papel social reservado à
mulher, ao finalizar a narrativa casada e mãe.
Em
alguns momentos, essa distância entre narradora e personagem é explicitada.
Quando, por exemplo, assiste à partida da colega Mathilde da escola, a
narradora comenta:
Vi-a sair sem que me
viessem as lágrimas aos olhos, a mim, que lhe devia tanto; e agora, no fim de
trinta e tantos anos, sinto na minha consciência como uma grande nódoa
imperecível! (p. 25)
Também
quando conta o esforço da mãe para compor o vestido que usaria em um dos exames
escolares a que se submeteu:
Aquele vestido,
aquela fita, quantas horas de trabalho custaram à minha pobre mãe! Hoje os vejo
através das lágrimas de saudade e reconhecimento; então via-os entre os risos
da vaidade e da ignorância, a ignorância natural na despreocupação da meninice!
(p. 26)
Estilo
Logo
nas primeiras linhas de suas Memórias,
Martha afirma: “Tenho uma ideia vaga da casa em que nasci” (p. 11). A seguir,
estabelece um paralelo curioso com o próprio registro das recordações:
Assim, as cenas.
Entre tantas coisas, tantos tipos e tantas palavras que se refletiram nas
minhas pupilas de criança, ou que vibraram em meus ouvidos, que ficou?” (p.
11).
Evidentemente,
a narradora se refere, aqui, às lembranças infantis. Mas a afirmação revela
algo de seu estilo: a opção por “cenas”, “coisas”, “tipos”, “palavras”. A
narradora apresenta sua trajetória por cenas esboçadas, nem sempre detalhadas.
É o que ocorre, por exemplo, com as recordações infantis da perda da casa após
a morte do pai:
Das cenas, lembra-me
a da mudança: um homem zangado, mandando pôr os nossos trastes na rua; e minha
mãe chorosa, aconchegando-me a si. (p. 12)
Mais
uma vez, a narradora trata de cenas da infância; mas, ainda aqui, temos uma
estratégia expositiva sugerida: ela se aterá a momentos significativos de sua
vida, não se incomodando em dar saltos temporais ou em focalizar apenas o que
considera fundamental. Assim, por exemplo, não há detalhes sobre seus estudos
ou sobre as aulas da Escola Normal, bem como de passagens da sua juventude, por
exemplo. O leitor é capaz de compreender o estado de espírito da personagem nas
cenas que ela escolhe registrar, mas é perceptível que ela não tem nenhuma
preocupação mais rigorosa ou documental.
Esse
dado é interessante pelo momento em que Júlia Lopes de Almeida produziu sua
obra literária. A cultura brasileira vivia o apogeu do Naturalismo, cujo maior
produto na literatura, o romance O
Cortiço, de Aluísio Azevedo, é apenas dois anos posterior às Memórias de Martha. Os naturalistas
produziam romances em que o detalhamento analítico chegava a ser minucioso,
como na descrição da vida na cidade de Santos presente em uma carta enviada por
um dos personagens de A carne, de
Júlio Ribeiro, ou na reprodução da fala do doutor Claudio sobre educação, em O Ateneu, de Raul Pompeia, duas obras
publicadas no mesmo ano do livro de Júlia Lopes de Almeida. Não há essa
tendência ao detalhamento em Memórias de
Martha.
Isso
não significa dizer, no entanto, que a autora tenha escapado ilesa às
concepções de seu tempo. A influência do meio sobre os personagens, aspecto
fundamental do Naturalismo, aparece nas Memórias
de Martha, por exemplo, na caracterização da personagem Carolina: “Era a
doença, era o cansaço, porque ela, estupidificada pelo meio, nem tinha
consciência do sofrimento” (p. 28). Mas, se Carolina é um produto do meio em
que vive, não se pode dizer o mesmo da própria Martha, que escapa de tais
influências nefastas, distanciando-se, assim, do modelo naturalista.
Por
outro lado, a filiação estética ao Realismo pode ser admitida, embora com
ressalvas. Como se sabe, o esforço realista em expor a verdade plena sobre o
ser humano fazia com que o foco narrativo mais adotado fosse o de terceira
pessoa – salvo as exceções de Machado de Assis. Já o livro de Júlia Lopes de
Almeida opta pelo foco em primeira pessoa. Contudo, Martha tem muito de
personagem realista. Em primeiro lugar, sua postura antirromântica leva-a a desprezar
o casamento por amor e a optar por uma união que atendesse a seus interesses
pessoais. Em segundo lugar, os traços que a caracterizam estão distantes da
idealização romântica, combatida pelos realistas, e não escondem sua ambição de
ascensão social, traço bastante comum em personagens do Realismo. Em terceiro lugar,
Martha não possui nenhum atributo especial, é uma mulher comum, como tantas de
seu tempo; nesse sentido, seu protagonismo se enquadra na opção realista de
evitar qualquer concepção heroica da personalidade humana.
Por
fim, convém notar a presença de alguns traços impressionistas – também
presentes com maior intensidade em obras contemporâneas como O Ateneu, de Raul Pompeia –, tais como:
a importância assumida pela memória; a perspectiva subjetiva da apresentação
dos acontecimentos ao leitor; a expressão dos estados emocionais da narradora,
por vezes confusos e vagos; a descrição do espaço de modo que, embora fiel à
realidade, permite entrever as sensações que ele provoca na narradora; etc.
Comentários sobre o
enredo
A condição feminina
Em
certo momento da narrativa, quando a mãe insiste com Martha para que ela aceite
o pedido de casamento recebido, um pensamento é registrado pela narradora: “A
reputação da mulher é essencialmente melindrosa. Como o cristal puro, o mínimo
sopro a enturva...” (p. 103). Trata-se de um senso comum da época: o casamento
era visto como salvaguarda da honra feminina; uma mulher solteira estaria
sempre sujeita a olhares desconfiados e preconceituosos. Martha pretende
enfrentar essa opinião generalizada, mantendo-se independente. Com essa postura
da protagonista, Júlia Lopes de Almeida chama a atenção de seus leitores (e, sobretudo,
de suas leitoras) para as mudanças sociais que se operavam no mundo. Entre o
final do século XIX e o início do XX, os progressos tecnológicos davam ao mundo
a sensação contínua de novidade e de uma modernidade que parecia não ter
freios. Novas forças sociais surgiam, entre elas, a de mulheres que tentavam conquistar
seu espaço.
A obra de Júlia Lopes de Almeida contribuiu para essas reflexões com narrativas nas quais as mulheres exerciam papeis decisivos, como se pode perceber apenas avaliando os títulos de alguns de seus romances: A Silveirinha, A viúva Simões, A intrusa, A caolha e, é claro, Memórias de Martha. Em seus livros, dois temas lutam para se inserir no universo das preocupações femininas: a educação e o trabalho. Em Memórias de Martha, ambos os temas são explorados. O trabalho é representado sobretudo pela mãe de Martha, que, após a morte do marido, se vê na contingência de trabalhar para sustentar a filha. Esta última também vê no trabalho uma alternativa – como revela no trecho:
Foi assim que
desabrochou em meu espírito essa flor imaculada e santa, de aroma fortalecedor
e doce – o amor ao trabalho. (p. 38)
Contudo,
recusa uma ocupação que, para ela, era desonrosa, por não fornecer o retorno
financeiro que esperava; descobre, então, que a educação poderia ser a chave
para a ascensão social que almejava. Nesse ponto, Martha segue os passos de sua
criadora. Em outro de seus livros, Júlia Lopes de Almeida escreveu:
Convenci-me hoje de que todas as mulheres
devem ter uma profissão.
Conheço duas senhoras desgraçadas. Uma ficou órfã, a outra viúva, e nenhuma está habilitada a bem ganhar a vida. Lembrei--lhes o comércio. Não sabem contabilidade. Lembrei-lhes a tipografia, a telegrafia, a gravura, a farmácia, mas de que expediente se hão de haver para sustentar a família enquanto estudem?
Este exemplo faz-me tremer: Se eu tiver
filhas... por Deus!
Que hei de prepará-las para poderem vencer
estas dificuldades!
ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das noivas. 3. ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1914. p. 128-129.
Como
se pode notar, as reflexões que ocupavam a escritora eram trazidas para a sua
literatura. Por outro lado, também as limitações impostas pelo tempo aparecem
em suas tramas. Em vida, a escritora recebeu muitos elogios de críticos que
apreciavam suas narrativas, mas que não deixavam de retratá-la como uma dona de
casa exemplar, mãe extremosa e apaixonada. Ela própria fazia questão de
reiterar essa imagem. Esta última citação foi retirada de uma de suas obras
mais lidas na época de seu lançamento, em 1896, o Livro das noivas. Embora se encontrem nele passagens de valorização
da autonomia feminina por meio do trabalho, como se lê no trecho anterior,
também se encontram frases como estas:
Ama sempre teu marido, sem humilhação, com sinceridade e alegria. Está nisto o segredo da ventura na terra. Que ele te ame igualmente, com o mesmo extremo, o mesmo carinho, e caminhem assim, fortes, unidos e serenos para os dias de risos ou lágrimas que hão de vir.
ALMEIDA, Júlia Lopes de. Livro das noivas. 3. ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1914. p. 14.
Em
Memórias de Martha, a protagonista a
princípio rejeita a proposta de casamento, mas acaba por aceitá-la, não apenas
para tranquilizar a mãe, mas também por ver nela uma solução para sua solidão e
seu futuro. Mesmo que se reconheça em Martha razões íntimas para aceitar a
proposta (“E refleti que o meu casamento seria uma vingança para os ultrajes
que a minha imaginação de moça recebera sempre”, p. 104), deve-se ver nessa
atitude uma aceitação das convenções sociais que o tempo impunha às mulheres.
Se a escritora não tivesse feito essas concessões, talvez sua obra não tivesse
tido a divulgação que teve, e esse era seu desejo maior: que sua mensagem
chegasse às leitoras. Além disso, Martha só aceita se casar depois de ter
conquistado uma posição no mundo do trabalho, para a qual se preparou com muita
dedicação aos estudos. Ao fazer isso, assume o controle sobre a própria vida. A
decisão de se casar faz parte desse controle, e atende ao seu projeto de alcançar
uma posição social estável.
Deve-se
recordar ainda uma circunstância importante da trama: “Recebi a nomeação de
professora no dia do casamento de Luiz” (p. 101). Essa coincidência aponta para
duas escolhas distintas: o casamento, escolhido pela esposa de Luiz, e o
trabalho, a escolha de
Martha.
Mesmo que depois ela aceite se casar, já faz isso na condição de mulher
emancipada pela profissão, capaz de se sustentar e de manter com o marido uma
relação de igualdade, para que ambos “caminhem assim, fortes, unidos e
serenos”, como propunha Júlia Lopes de Almeida no Livros das noivas.
Para
se ter uma noção mais precisa da ousadia de Martha, é preciso compará-la com a
própria mãe. Depois de ter tido uma vida confortável, mas dependente do marido,
a mãe viu-se obrigada a exercer atividades que, da perspectiva da filha, eram
subalternas. Nesse sentido, Martha representa uma superação em relação à condição
materna. É essa a lição transmitida às leitoras do livro. Júlia Lopes de
Almeida tem plena consciência de que suas leitoras fazem parte de uma classe
social na qual as mulheres tendem a abdicar do trabalho e a depender
financeiramente dos maridos. O livro pretende mostrar que essa mesma mulher
pode conquistar sua independência sem precisar abdicar do casamento. O fundamental
é afirmar que a realização pessoal da mulher não depende da ação do homem, mas
da sua própria, e que o casamento deve ser uma escolha, e não a única
alternativa de vida. A educação que Martha recebeu, a instrução que obteve por
esforço próprio, não são desperdiçadas com o casamento; afinal, é daí que sairá
uma nova geração, que começará desde cedo a valorizar o trabalho, sem esperar
que este seja uma imposição do destino, como no caso da viuvez de sua mãe. O
que subjaz ao casamento de Martha é a afirmação implícita de que ela será capaz
de formar melhores cidadãos e cidadãs para o mundo que se transforma. Em artigo
escrito em 1897 para a revista A
Mensageira, Júlia Lopes de Almeida explicitou seu pensamento de forma
clara:
Os povos mais fortes,
mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura
como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida
com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e
conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais.
Uma mãe instruída,
disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda,
indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo
e do trabalho, de que tanto carecemos.
ALMEIDA,
Júlia Lopes de. Entre amigas. A
Mensageira. Revista literária dedicada à mulher brasileira. São Paulo:
Imprensa Oficial do Estado; Secretaria de Educação e Cultura, 1987. p. 3.
Edição facsimilar.
Educação: uma imagem
realista
A
educação feminina foi uma causa defendida com afinco por Júlia Lopes de Almeida
em uma época em que essa possibilidade era tratada com desdém pelo patriarcado
machista e misógino que dominava a política e a cultura brasileiras. Suas
narrativas funcionam como verdadeiras propagandas de suas ideias, e Memórias de Martha não foge a essa
estratégia. No entanto, a defesa desse ideal não implica em referências apenas
elogiosas à educação, sem um olhar crítico para a prática educacional do tempo.
O
que pensa a protagonista de Memórias de Martha a respeito da educação? Ela o
declara com todas as letras:
Com que orgulho eu
penso na desvelada solicitude que tem, em geral, a mulher brasileira para o
filho amado! Não o repudia nunca, trabalha ou morre por ele. Coração cheio de
amor, perdoemos-lhe os erros da educação que lhe transmite e abençoemo-la pelo que
ama e pelo que padece! (p. 99)
A
entusiasmada afirmação traz uma crítica velada: embora a educação materna se
salve pelo afeto, há “erros” que precisam ser perdoados. A narrativa não deixa
muitas dúvidas a respeito da origem desses erros e de como podem ser sanados: a
origem está na falta de instrução, para a qual a educação formal é a solução.
Dito assim, parece que o livro se abre para a construção de uma imagem positiva
da escola. Contudo, de forma bem realista, a narrativa oferece um quadro sem
ilusões ou idealizações.
Parte
da imagem transgressora que a narrativa faz da protagonista diz respeito aos
sentimentos que a conduzem à educação. Posteriormente, ela escolherá a carreira
de professora, não exatamente pelo reconhecimento de uma missão santificada,
mas sobretudo motivada pela possibilidade de estabilidade financeira. Na infância,
enquanto acompanhava sua mãe em uma entrega de roupas para uma freguesa, esta
se surpreende ao saber que Martha ainda não sabia ler e pergunta: “– Mas por
que a não mete na escola? Ela já tem idade de aprender...” (p. 20). Até certo
ponto, o que leva a mãe de Martha a matriculá-la é a vergonha que passa diante
da freguesa. Quanto a Martha, ela é estimulada por outro sentimento pouco
elevado: a inveja. A filha da freguesa, uma menina chamada Lucinda, mostrara a
ela seus vestidos luxuosos e seus muitos brinquedos, enquanto lhe falava com
entusiasmo “da mestra, das amigas, de uma festa de Natal a que assistira, de
caixas de amêndoas forradas de seda, de bombons, de joias, de passeios” (p.
18), além de seus desenhos e sua habilidade ao piano; ou seja, de tudo o que
lhe fora fornecido por uma educação requintada. Martha passa, então, a associar
o ambiente escolar, onde atua “a mestra”, a todo esse uni- verso de refinamento
e de fartura material. Daí seu entusiasmo em ir para a escola, como aconteceu
em seguida.
No
primeiro dia de aula, passou orgulhosa diante dos vizinhos do cortiço, com seu
“vestido encarnado”, olhando “altivamente para [suas] companheiras de miséria”
(p. 23). Mais uma vez, os passos de Martha foram guiados pela vaidade, um
sentimento baixo que ela aprendera com Lucinda, que talvez o tivesse aprendido
na escola... O fato é que Martha logo superou o estranhamento inicial que o ambiente
escolar provocou nela, pela “sensação dolorosa de isolamento e saudade” (p.
23), confessando que “depois de um mês, aquilo até me divertia” (p. 24).
Note-se: ela se divertia com o próprio isolamento. Talvez por isso tenha se
aproximado de uma colega que parecia ocupar o mesmo espaço de marginalização,
Mathilde, “feia, escura, marcada de bexigas, com olhos pequeninos e
amortecidos, o cabelo muito encaracolado e curto” (p. 24). A estima que sentia pela
menina, no entanto, não resistiu a um episódio em que esta foi acusada de roubo
e exposta ao ridículo. Martha afastou-se dela, sugerindo que a escola não
transmite o sentimento da empatia e a virtude do perdão. O fato de a
protagonista se identificar com esse ambiente, portanto, funciona como elemento
crítico para a prática escolar da época.
Martha
se acostuma à escola rapidamente, a ponto de, durante as férias, sentir-se
triste e melancólica. Essa reação está intimamente relacionada ao fato de a
menina detestar o cortiço onde vivia, encontrando na escola um ambiente mais
agradável. Em nenhum momento, em suas memórias, Martha revela uma verdadeira
vocação para o estudo, apenas o esforço em busca de uma vida melhor para si e
para a mãe. De forma semelhante, decide tornar-se professora ao ouvir uma
adjunta afirmar: “só assim viverei tranquila” (p. 37). Desde esse momento, ser
professora tornou-se o objetivo maior da vida da menina:
Nessa noite sonhei
que era mestra: tinha uma casa grande, com jardim, onde cantavam doidamente, em
uma alegria exuberante e abençoada, os passarinhos. (p. 37)
Pode-se
considerar, contudo, que, a despeito de suas motivações, Martha desenvolveu um
grande esforço intelectual para conseguir alcançar a condição de professora. De
fato, ela se dedicou aos estudos, mas revela que o fez para compensar as
próprias deficiências:
Estudava muito,
porque a minha inteligência não me permitia o mais pequeno descuido: compreendi
que só muita aplicação alcançaria o meu fito. (p. 60)
Até
mesmo o elogio que lhe dedicara a professora logo após seu primeiro exame (“–
Tem muito talento!...”, p. 61) é relativizado por ela: “Engano; o que eu tive
sempre, isso sim, foi muito boa vontade” (p. 61). É notável como a narrativa
desconstrói a imagem romântica da mulher sublime, sacrificada e heroica,
substituindo-a por alguém que reconhece as próprias limitações, alguém mais
humana, mais realista.
Por
fim, Martha alcança a nomeação de professora e orgulha-se dessa condição, mesmo
que, já então mais madura, perceba que ainda assim não teria a vida de luxo que
imaginara. Sempre consciente de suas próprias limitações (pouco habilidosa,
destituída de atrativos), sabe que o lugar que alcançou já representa uma distância
razoável em relação ao destino que a sociedade reservava a uma mulher como ela.
Até mesmo no que diz respeito ao ambiente escolar, convém não esquecer da
menina Mathilde, menina negra marginalizada pelas colegas, demonstrando que o
poder de integração daquele espaço tinha também suas limitações.
Da
escola, as melhores lembranças de Martha são reservadas à professora que a
acolheu desde o início, D. Anninha. A personagem surge na narrativa quase como
uma rainha:
D. Anninha estava na
sua cadeira de braços, sobre o estrado. À sua frente, em cima da mesa,
misturando-se com os lápis e as lousas, raminhos de manjericão,
rosas-de-alexandria e galhos de alecrim levados pelas discípulas. As rosas mais
finas estavam colocadas num copo cheio de água. As adjuntas riscavam pedras, de
cabeça baixa. (p. 35)
Retratada
na “cadeira de braços, sobre o estrado”, a professora se coloca em um espaço de
superioridade, como uma rainha em seu trono. Os ornamentos à sua volta
evidenciam o afeto que lhe dedicam, enquanto as adjuntas “de cabeça baixa”
encarnam a imagem da submissão. A impressão que ela provoca em Martha é
semelhante:
Cumpria rigorosamente
os seus deveres e não perdoava a quem não fizesse o mesmo. Ensinara-me desde o
ABC e tinha por isso grande império sobre mim. (p. 62)
O
fato de a memorialista sintetizar a influência que a professora exerce sobre
ela com a palavra “império” apenas reforça a imagem inicial de realeza. De
qualquer maneira, o retrato moral de D. Anninha é favorável, vista pela
protagonista como uma mulher bondosa, que a recebe com gentilezas e agrados,
amparando-a em momentos difíceis de sua vida e estimulando-a a seguir a
carreira escolhida – escolha, aliás, que deve ter recebido alguma influência dela
própria. Além disso, a personagem é associada à escola e ao campo, local para
onde conduz a discípula Martha, e que correspondem a espaços mais amplos,
iluminados e arejados do que aqueles frequentados pela protagonista, como o
cortiço e o cômodo que ela e a mãe ocupam. Dessa forma, D. Anninha surge como
uma espécie de frescor, de alívio para as dores de Martha. Por fim, convém ressaltar
outra imagem produzida pela personagem da professora: seu lado doméstico.
Durante o período em que leva Martha para o campo, mostra-se uma mulher prendada
e próxima do marido e de familiares, como as sobrinhas.
No
século XIX, e durante muito tempo ainda depois disso, a Escola Normal era o
caminho a ser percorrido por quem quisesse seguir a carreira do magistério. O
público dessa escola era constituído, sobretudo, por mulheres – as normalistas.
Na literatura brasileira, o romance A
normalista (1895), de Adolfo Caminha, ambienta-se parcialmente nesse
espaço, retratado de forma bastante negativa, como evidencia a opinião de uma
das personagens:
– Que é a Escola
Normal, não me dirão? Uma escola sem mestres, um estabelecimento anacrônico,
onde as moças vão tagarelar, vão passar o tempo a ler romances e a maldizer o
próximo.
CAMINHA, Adolfo. A normalista. 5. ed. São Paulo: Ática, 1977. p. 147.
Não
se pode dizer que o livro de Júlia Lopes de Almeida corrobore essa opinião,
tendo em vista, em primeiro lugar, a própria figura de D. Anninha (afinal,
resultante desse meio) e, em segundo, as referências reduzidas que sua
narrativa faz ao convívio entre as normalistas. No processo formativo da
personalidade de Martha, a Escola Normal surge como o lugar onde ela tem sua
atenção despertada por um olhar masculino:
Quem seria aquele
rapaz? Que fazia ali? Não o soube nunca. O que é certo é que os seus olhos não
se desfitavam de mim e que eu tremia, corava, desfalecia de confusão e de
enleio. (p. 56)
É
na Escola Normal, portanto, que Martha descobre o amor, ou ao menos a sensação
de se sentir desejada. No entanto, o episódio é efêmero e deixa nela a
impressão de que, de fato, os olhares do rapaz não se dirigiam a ela, mas à
mestra D. Anninha, que também exercia ali o seu ofício:
Entretanto, só agora,
através de tantos dias de amarga experiência, me nasce no espírito esta dúvida
que não me alvoroça e me faz ter piedade de mim mesma. Seria a mim ou à D.
Anninha que aquele rapaz dos olhos negros seguia?
E tudo me faz crer... que era a ela! (p. 57)
Portanto,
a passagem de Martha pela Escola Normal apenas repetiu e reafirmou as razões
que ela tinha para se sentir desprezada e marginalizada.
Histórias paralelas
Enquanto
conta suas memórias, Martha aponta para outras histórias paralelas. São
trajetórias que poderiam ter sido a sua, não fosse seu envolvimento com a
educação e o projeto pessoal de buscar a valorização social por intermédio do
aprendizado técnico.
Entre
os moradores do cortiço, os que têm sua história apresentada com mais detalhes
são os amigos de infância de Martha, os irmãos Carolina, Maneco e Rita, que
moravam na casa vizinha. Foi diante deles que Martha passou com seu vestido
novo em direção ao primeiro dia de aula de sua vida, em uma imagem muito
significativa, por sugerir que a protagonista seguia seu caminho, enquanto os
amigos ficavam para trás.
A
mais velha dos três irmãos, Carolina,
era a mais sofrida de todas as crianças do grupo. Arcando com a
responsabilidade dos cuidados com a casa, ainda suportava as seguidas agressões
da mãe. Em razão disso, “estava sempre magra, espigada, e no seu rosto, oval e
sardento, os olhos claros derramavam uma tristeza impressionadora” (p. 28) e
manifestava sintomas de uma doença circulatória que provocava inchaços nas
pernas (cf. p. 40). Carolina manteve sempre uma relação de afeto com Martha
enquanto esta morou no cortiço, mostrando-se solidária com suas carências.
Certa vez, dividiu com ela o pedaço de carne que lhe coubera, para ira da ilhoa
(cf. p. 16), que, como sempre, castigou
a filha. Depois desse episódio, por alguns dias, Carolina ignorou a amiga (cf.
p. 21), mostrando-se reprimida até mesmo nas demonstrações de afeto. Ela
levaria consigo o sofrimento até a vida adulta, quando se casou com um marido
que a explorava “de uma maneira feroz e ainda por cima a moía de pancada” (p.
108), continuando a viver em cortiços.
Maneco, irmão de Carolina,
“cheirava sempre álcool” (p. 28) e entregou-se desde cedo ao hábito de beber,
incentivado pelo dono da venda, que se divertia com a embriaguez do garoto.
Ainda na infância, o vício o levou à morte, para desespero da mãe. Maneco também
ficou pelo meio do caminho – ou no início dele, já que faleceu ainda criança –,
sem escola e sem perspectiva de vida. Mais uma vez, trata-se de um caso representativo,
evidenciando a sensibilidade da autora para dramas sociais que ela sabia serem
comuns. A mais nova da casa, Rita, seria conduzida por Martha até a escola (cf.
p. 35), o que parece projetar um futuro diferente para ela. No fim da
narrativa, Martha recebe a informação de que Rita estava “para casar com um
moço estabelecido de barbeiro” (p. 108), sem que se faça referência a nenhuma
agressão sofrida.
Na
escola, há a menina Mathilde, que,
apesar de ter idade um pouco mais avançada (12 anos) e de estar ali há três
anos, não conseguia passar do Segundo
livro de leitura (cf. p. 24). Ela sofreria a marginalização reservada aos
que não se enquadram ao ritmo de aprendizado determinado por uma pedagogia que
não privilegiava o avanço individual, e aceitava passivamente o destino dos
atrasados, os que ficavam para trás. A reação de Mathilde foi de inconformismo:
a menina se tornou agressiva, e acabou sendo expulsa da escola (cf. p. 25) e
das memórias de Martha, que não manifestou pelo caso nenhuma piedade mais acentuada,
já que sua opção sempre foi pela integração social, e a marginalização sofrida
por Mathilde representa justamente o caminho que ela rejeitava.
A
companhia de Mathilde foi substituída, na escola, pela de Clara Sylvestre, menina “alegre, bonita e forte” (p. 25) que alimentava
o sonho de “ter muito luxo” (p. 26). Martha a reencontra, já adultas ambas:
Eu olhava estupefata
para o seu rosto alvíssimo, os seus formosos olhos verdes brilhantes expressivos,
os seus cabelos pintados de uma cor de cenoura, os lábios cheios de carmim, e a
comparava com a Clara Sylvestre de outro tempo, linda também, mas natural,
inocente, com os seus caracóis castanhos e o seu doce rostinho muito redondo e
alegre. (p. 94-95)
Clara
visitava na ocasião uma criança, que alegou ser de uma criada sua que falecera,
mas não é difícil ao leitor perceber que a criança era dela mesma, que
realizara o sonho de “ter muito luxo” à custa da prática da prostituição. O
reencontro suscitou em Martha “uma multidão de ideias, umas dolorosas, outras...
Nem sei como defini-las!” (p. 97). As ideias indefiníveis passam, certamente,
pelo reconhecimento de que a Clara “inocente” pertencia a “outro tempo”, um
tempo em que seu “doce rostinho” não necessitava de “cabelos pintados” e de
“lábios cheios de carmim” para ser belo. Em mais uma modificação entre as
edições do romance, a narradora se refere à entrada do cortiço onde morava como
“aquele grande portão em que nunca entrou Clara Sylvestre”. A alusão ganha
alguma importância quando se considera que Clara cruzaria, sim, “aquele portão”
de entrada em direção a um mundo mais sórdido e vulgar, mas de forma simbólica,
ao se rebaixar moralmente. Talvez a falta de encantos com que Martha se
autorretrata acabasse por vedar a ela esse destino, mas, de qualquer maneira,
era sempre uma possibilidade que se apresentava a moças ambiciosas como ela e
Clara, cuja trajetória, afinal, acaba por tangenciar a da protagonista.
Retrato social
Em
seu primeiro romance, Júlia Lopes de Almeida parecia querer afastar qualquer
concessão ao Romantismo, que ainda mantinha muitos adeptos e seguidores no fim
do século XIX. Logo no primeiro capítulo, ao se referir ao pai, Martha afirma:
“Amei-o? Talvez; mas não me lembro. A convivência era pouca ou nenhuma” (p.
13). Em seguida, descreve o comportamento da vizinha, “uma ilhoa bruta que
batia nos filhos e injuriava o marido” (p. 15). São informações que colocam o leitor
em um lugar muito distante de onde costumavam deixá-lo os folhetins românticos.
Nestes, predominava o respeito aos pais e, entre membros de uma mesma família,
a conduta geral nas narrativas era a de convívio harmonioso. A narrativa de
Martha desfaz essas ilusões de imediato, e essa tendência prossegue pelo
romance afora. Martha vive a experiência do encanto amoroso nos mesmos termos das
heroínas românticas: “Eu amava! Amava aquele rapaz elegante que me plantou no
coração um sentimento desconhecido e cruel!” (p. 60). No entanto, como já
vimos, depois de desilusões amorosas, Martha assume uma postura antirromântica,
a do casamento sem amor, e sua vida matrimonial é sintetizada em palavras
desprovidas de paixão e repletas do equilíbrio racionalista usado no Realismo
para definir as relações humanas: “Nunca no meu lar soaram as alegres e sonoras
frases dos noivos apaixonados, nem tampouco houve nunca um arrufo” (p. 113).
Assim, a instituição do casamento, tão presente nos finais felizes românticos,
ocorre também aqui, mas é tratada com distanciamento.
Martha
tem suas razões para considerar o casamento “uma vingança para os ultrajes que
a minha imaginação de moça recebera sempre” (p. 104). Desde muito cedo, ela
conheceu o desprezo social. No ambiente do cortiço, sofreu com o tratamento que
lhe davam:
Eu, às vezes, ia para
a porta brincar com umas crianças da vizinhança; mas as pequenas eram brutinhas
e magoavam-me os pulsos, puxando com força por mim. (p. 14)
Mas
as maiores evidências de exclusão na narrativa ficam por conta do registro da
desigualdade social, da qual Martha vai tomando consciência aos poucos. Ainda
criança, testemunhou a atitude da mãe de desviar-se de “uma senhora muito
elegante que se aproximava” (p. 17) que logo depois declarou tratar-se de “uma
amiga” (p. 17). A menina manifestou seu espanto diante desse comportamento e,
em resposta, a mãe fez apenas um gesto conformado: “Minha mãe sorriu, desceu
para mim seu olhar doce e úmido e suspirou sem me dizer mais nada” (p. 17).
Martha só compreenderia o ocorrido mais tarde:
“A
resposta tive-a anos depois, do tempo, da idade, do destino e dos desenganos”
(p. 17). O encontro com uma amiga dos tempos de fartura envergonhava a mulher,
agora às voltas com carências materiais.
A
cena ocorreu enquanto se encaminhavam para a casa de uma das freguesas da mãe
de Martha, local onde a menina teria sua própria lição de desigualdade social
no encontro com uma das filhas da freguesa, Lucinda. Martha observou os
vestidos, os brinquedos e os modos da moradora. Lucinda mostrou à visitante “o
grande enxoval de Mlle Rosa”, sua boneca (p. 18), e isso deixou
marcas na criança pobre, que passou a desprezar os brinquedos que possuía:
[...] para
entreter-me, brincaria de vez em quando com a desgraçada bruxa que fora outrora
adorada por mim, mas que votei ao desprezo desde que vira Mlle Rosa.
(p. 27)
Em
certo momento, Lucinda a conduz até “defronte do espelho, um grande espelho que
vinha do teto ao chão, tomando uma parede toda” (p. 18). Na comparação entre as
duas meninas retratadas nele, Martha concluiu: “Como me achei triste e feia ao
lado daquela menina da minha idade!” (p. 18).
Quando
se retiraram da casa, duas atitudes causaram profunda impressão em Martha. A
primeira delas foi o pagamento aviltante, mas diante do qual a mãe se mostrou
agradecida, para desconsolo da filha:
Quando minha mãe agradeceu a esmola, senti
parar-me o coração.
Por que não teria eu
igual direito a possuir tudo, como a Lucinda, sem pedir ou aceitar esmolas? (p.
20)
A
segunda atitude diminuiu sua amargura:
Quando eu ia sair, a
irmã mais velha de Lucinda apagou-me com um beijo a tristeza que sentia na
consciência.
Aquele beijo nunca mais me esquece: foi
nivelador, foi santo! (p. 20)
A
narrativa aponta, assim, para a possibilidade de um nivelamento pelo afeto –
talvez a única forma de anulação das diferenças sociais que poderia ocorrer à
autora, naquele momento. Para Martha, a única forma de vencer as barreiras que
enfrentaria na vida viria de pessoas que lhe dedicavam algum afeto: o amparo da
mãe, o estímulo da professora D. Anninha, o acolhimento do marido Miranda. De
certa maneira, pode-se entender que Martha assume um lugar de fala
privilegiado. O fato de morar em um cortiço sórdido e eventualmente entrar em
contato com o luxo das casas ricas para as quais a mãe trabalhava faz dela uma
testemunha direta das diferenças entre as classes.
Ainda
na casa rica, outro dado social salta aos olhos. Quando a dona ofereceu à filha
da lavadeira um dos vestidos de Lucinda, acrescentou um comentário ao gesto:
É novo ainda –
continuava ela, voltando-se para minha mãe –, mas não vai bem a Lucindinha e o
pai não gosta da cor... (p. 19)
Note-se
que o fato de o vestido não ir bem na
filha já seria motivo suficiente para livrar-se dele, o que torna o acréscimo
desnecessário. Talvez, do ponto de vista da personagem que enuncia a fala, possa
haver o veneno sutil de certo orgulho da mulher bem-casada diante da viúva empobrecida; mas, da perspectiva da narrativa,
talvez o dado mais importante seja o valor dado à opinião do pai. Trata-se de
uma denúncia do patriarcalismo da sociedade brasileira, que, de resto, aparece
ainda na situação em que ficam as mulheres que se veem desamparadas, como é o
caso da própria mãe de Martha e da sogra de D. Anninha, cujo marido morrera na guerra
(cf. p. 64-65). Tanto do ponto de vista material (caso da viúva pobre), quanto
afetivo (caso da rica), a mulher não possui autonomia e, sem a presença do
marido, tende a tornar-se um ser marginal. Convém notar, a esse respeito, que
tanto a mãe de Martha quanto a sogra da professora não têm seus nomes
contemplados na narrativa (sabe-se que Martha e a mãe são homônimas, mas seu
nome é referido uma única vez), o que parece reforçar a ideia de marginalização.
Para
tentar fugir a esse processo excludente, Martha e sua mãe lutavam para manter
as aparências. É em nome disso, por exemplo, que a mãe justificava o fato de
não enviar a filha à escola:
– É que eu não podia
mandar minha filha tão pobrezinha para a escola... Agora que tem esta roupa,
sim, posso trazê-la asseadinha e levá-la lá. (p. 21)
A
filha, por sua vez, não compartilhava com as colegas de escola a situação de
seus vizinhos pouco asseadinhos:
De Carolina e dos irmãos ranhosos não falei
nunca no colégio. Referir-me às filhas da vizinha iria macular a minha reputação.
(p. 27)
Porém,
é preciso considerar que as aparências enganam. No fim da narrativa, quando, já
adulta, Martha reencontrou Clara, alvo de suas aspirações e de sua inveja nos
tempos escolares, a impressão que teve é que a superioridade da outra, que
vestia roupas luxuosas, continuava evidente. No entanto, Clara, na despedida,
disse que não merecia nada, o que provocou a estranheza de Martha:
Para mim, Clara
mentira. Quem valia nada era eu, sempre ignorada por toda a gente, sempre feia,
o que me torturava, sempre envergonhada dos meus vestidos mal-ajeitados, do meu
calçado barato, do meu modo esquerdo e retraído! (p. 97)
Martha
parece não perceber a condição atual de Clara, que se rebaixara para conquistar
a vida luxuosa com a qual sempre sonhara. Isto é: da perspectiva moralista do
século XIX, Clara é que apresentava uma prática que fazia dela uma mulher
“feia”, com razões para se sentir “envergonhada” e com um “modo esquerdo”, no
sentido metafórico do desvio da conduta direita e socialmente aceitável. A cena
remete a outra do romance: aquela em que Lucinda e Martha se olham ao espelho,
uma ao lado da outra, e Martha se compara negativamente à menina rica. Agora,
se estivesse diante de um espelho ao lado de Clara, só teria a sensação de ser
“sempre feia” porque se preocupava sobretudo com a aparência.
Casamento: um
desfecho romântico?
O
encerramento da trama com um casamento remeteria o leitor da época
imediatamente aos finais felizes das narrativas românticas. É possível imaginar
que, para o desfecho de sua narrativa, Júlia Lopes de Almeida tenha, por fim,
sucumbido às convenções sociais, para as quais o casamento era o fim sempre
almejado pelas mulheres.
Contudo,
a narrativa traz algumas dúvidas quanto a esses pontos. O casamento romântico
supunha a realização de uma felicidade permanente (do tipo “E foram felizes
para sempre”), o que, como vimos, não ocorre:
Nunca no meu lar soaram as alegres e sonoras frases dos noivos apaixonados, nem tampouco houve nunca um arrufo. (p. 113)
Martha
não se casou por amor, em uma atitude que, no Romantismo, poderia representar a
infelicidade eterna, mas que, na perspectiva realista, representa apenas uma
decisão tomada de forma racional. Isto é: o casamento é encarado em moldes
equilibrados, nem excessivamente feliz, nem completamente desastroso, apenas um
evento capaz de satisfazer o projeto de Martha de inserção social. Para o
marido, Miranda, o matrimônio também não deve ter sido a realização de sonhos
longamente acalentados: não se pode esquecer que Martha se declara uma mulher
sem atributos físicos e desprovida das habilidades manuais esperadas de uma
dona de casa. É significativo que Miranda tenha se interessado por Martha a
partir das cartas que ela escrevia à mãe, durante a temporada que passou no campo,
em companhia de D. Anninha e sua família. Isso quer dizer que, para além dos
atributos físicos, o que identifica Martha são os dotes de espírito, a
sensibilidade e a capacidade de expressão – que justifica, inclusive, a escrita
de suas memórias. Martha atinge seus objetivos por ser quem é, não por ser quem
a sociedade gostaria que ela fosse. Isso faz dela e do desfecho um final que
pode ser enquadrado em uma perspectiva realista.
Personagens
Martha
Martha
é uma personagem tão realista que talvez possua até mesmo um fundo de verdade.
Em uma nota manuscrita, a autora deixou a afirmação de que, em seu processo de
alfabetização, contou com a ajuda da irmã e de uma certa dona Martha...
Se
entendermos as Memórias de Martha
como um romance de formação, no qual acompanhamos o desenvolvimento da personalidade
da protagonista, podemos perceber na narrativa alguns momentos de particular
importância para esse processo. Tais momentos podem ser classificados como
ritos de passagem. Um exemplo é fornecido logo no início, com a morte do pai da
protagonista (cap. I), episódio que a lançará, com a mãe, em uma vida de carências.
Também na visita que faz à casa da freguesa rica da mãe, onde tem contato com
Lucinda, a cena em que ambas se olham no espelho marca o momento em que nasce,
na protagonista, a consciência de sua pobreza e da existência de condições
sociais melhores que a sua. Outro episódio fundamental é o de sua entrada para a
escola (cap. II), espaço que representaria a abertura de novos horizontes para
a protagonista. Além disso, a descoberta provocada pelo olhar masculino (cap.
V) dá a Martha sensações inéditas, que a acompanharão em sua busca pela
felicidade, assim como quando participa de sua primeira reunião social, pelas
mãos de sua protetora, D. Anninha (cap. VI). Todos esses são momentos
fundamentais no processo de crescimento de Martha.
Há
muito de transgressor na concepção dessa personagem, na medida em que se afasta
dos estereótipos femininos construídos pela sociedade brasileira da época, que
colocava a mulher na condição de ornamento – tanto na vida real quanto na
ficção. Ao assumir o protagonismo de sua vida, Martha dá uma lição às leitoras:
a de que é possível fugir dos modelos estabelecidos. De cor “trigueira” herdada
do pai (ou seja, morena, embora mais clara do que ele, ou mais “pálida”, como
diz a mãe), pobre e sem perspectivas, Martha estaria fadada a cumprir o destino
da manca e bela Eugênia, a personagem de Memórias
póstumas de Brás Cubas desprezada pelo protagonista por circunstâncias
físicas (era manca), sociais (era pobre) e morais (era bastarda). Martha, sem
ser manca, apresenta a marca física da feiura e, sem ser bastarda, é órfã de
pai; esses dados fazem dela uma candidata natural ao mesmo destino de miséria e
abandono, do qual ela foge às custas da educação e do trabalho.
Uma
alternativa de vida para ela seria a prostituição, o que a aproximaria de outra
personagem de nossa literatura, Pombinha, de O Cortiço: ambas tiveram uma infância confortável, interrompida pela
perda do pai, o que impôs a elas e suas respectivas mães a moradia decadente de
um cortiço. No entanto, Pombinha foi engolida pelo meio nefasto em que vivia,
enquanto Martha se sobrepôs a ele e inventou seus próprios caminhos, escapando
da miséria de Carolina e da prostituição de Clara Sylvestre.
É
possível que a resistência de Martha a tais destinos e sua futura opção pela
educação estejam ligadas à personalidade inquiridora que ela manifesta desde a
infância:
Por que não teria eu
igual direito a possuir tudo, como a Lucinda, sem pedir ou aceitar esmolas?
E por que me fazia
tão mal essa palavra, a mim, que nada conhecia do mundo! (p. 20)
Ela
se coloca distante, portanto, de qualquer aceitação conformista. Talvez por
isso a religião, que poderia representar essa aceitação, não a tenha atraído. A
fé lhe apareceu como um instrumento de punição:
Efetivamente, que
ouvia eu desde manhã até a noite? “Menina, não faça assim, que Deus castiga.”
Por isso eu tremia toda, pensando que me queriam levar com meu pai para a
presença desse Deus tremendo, inflexível, tão alto que não poderia curvar-se
até as minhas faces lacrimosas para um beijo de perdão ou de piedade. (p. 13)
Nessa
certeza da distância que se encontrava Deus de suas próprias dores, Martha
afastou-se da solução pela fé.
O
aspecto físico de Martha só pode ser percebido pelo leitor por intermédio da
imagem que ela faz de si mesma, como evidencia a seguinte passagem:
Eu, além de feia, era
inabilidosa. Nunca soube fazer um laço, cortar um vestido, pregar uma flor. A
pequenez dos meus olhos, de um verde sujo, a cor trigueira das minhas faces de
maçãs salientes, a lonjura dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu
andar, que eu nunca soube corrigir, assegurava-me que ninguém pousaria em mim a
vista com prazer; que eu cortaria a vida, de ponta a ponta, sem deter os passos
de quem quer que fosse num movimento espontâneo de simpatia... (p. 60)
Acrescente-se
certa fragilidade física, que a coloca doente em mais de uma ocasião na
narrativa.
As
recordações de Martha são emolduradas por duas mortes: no início da narrativa,
perde o pai; no final, a mãe. A primeira dessas mortes foi menos sentida, seja
pela pouca idade da menina, seja pela superproteção da mãe: “Levantava-me
tarde. Minha mãe deixava-me agasalhada no leito e ia trabalhar silenciosamente”
(p. 15); “Minha mãe não permitia que eu me desembaraçasse como as outras; tinha
sempre os olhos em mim, eu os sentia às vezes como brasas a queimarem-me a
pele” (p. 15). Conforme crescia, ia tomando consciência do lugar em que vivia e
se enchendo de vergonha, o que lhe dava a sensação de deslocamento, de alguém
fora do lugar. Martha insiste em retratar seu ambiente de origem para reforçar sua
disposição de encontrar seu lugar no mundo:
Oh! Mas o vexame
daquele portão de cortiço, daqueles vizinhos que na fama de moderados se
esmurravam e guinchavam impropérios dava-me alentos para a luta! (p. 41-42).
Diante
dessas dificuldades, as atitudes de Martha são mais pragmáticas que passionais.
Ela não era dada a expansões de afeto, como confessa ao relatar um dos raros
momentos em que isso acontece, quando comunica à mãe que havia conseguido a
vaga de ajudante de professora, o que significava receber algum salário para auxiliar
em casa:
Falei voluvelmente,
loquazmente, beijando-a repetidas vezes na face, na boca, nos olhos, com uma
efusão de ternura pouco vulgar em mim. (p. 54)
Além
deste, o único gesto mais passional de Martha ocorre quando manifesta à mãe sua
relutância em aceitar a proposta de casamento de Miranda:
– Oh! O que eu quero não o alcançarei nunca!
Foi o meu primeiro grito de desespero. Minha
mãe chorou; eu não. (p. 104)
Como
se vê, mesmo essa expressão de rebeldia e de angústia não a conduz às lágrimas,
mas à decisão de aceitar o pedido. Essa aceitação revela um traço importante da
personalidade de Martha: seu senso prático. É ele que a leva às decisões mais
importantes de sua vida, como seguir a carreira de professora e casar-se. A
primeira dessas decisões surgiu a ela quando descobriu que o magistério lhe permitiria
a ascensão social que desejava – não a riqueza, mas, ao menos, a fuga do
ambiente do cortiço. Martha é movida por suas próprias ambições, e não por
sentimentos nobres e elevados, como a compreensão do magistério como uma missão
divina ou a concepção do casamento como a realização de um grande amor. Nesse sentido,
é, definitivamente, uma personagem realista.
Família
Em
uma cena do romance, a moradora da casa vizinha, no cortiço, chama a m‹e da
protagonista pelo nome:
– Oh, senhora Martha! — gritou ela de fora à
minha mãe.
– Deixe cá vir a sua pequena um nadinha, sim?
(p. 28)
O
leitor é informado, assim, que a protagonista e a mãe têm o mesmo nome. Pode-se
pensar, portanto, que o título, mesmo que de maneira sutil, alude também às
memórias de Martha, a mãe, na medida em que contar a história de uma é,
necessariamente, contar a da outra. Isso supõe uma continuidade entre as duas
trajetórias, mas o que ocorre é justamente o contrário.
As
histórias de mãe e filha se relacionam, mas de forma invertida, como um
espelho. O percurso de Martha-mãe é descendente, isto é, ela parte de uma
situação financeira confortável para a precariedade do cortiço; já o da
Martha-filha é ascendente, na medida em que ela sai do cortiço para uma moradia
melhor. A mãe aceita o destino e se submete à condição de lavadeira; a filha
rejeita herdar essa condição e se esforça para ser professora. A mãe vive de pagamentos
aviltantes pelo seu trabalho, que a narradora considera “esmolas” (cf. p. 20);
a filha consegue sua independência financeira. Aparentemente, a mãe segue na
função de lavadeira por não ter sido preparada pela família a exercer nenhuma
profissão (em certo momento, confessa à filha: “Eu, em casa, entretinha-me com
serviços grosseiros, não tinha convivência, não tinha animação. Aprendera a ler
e a escrever, mas isso mesmo mal”, p. 48), o que a filha rejeita, buscando
exercer o magistério. A derrocada da mãe evidencia a dependência em que vivia
do marido; a filha conquista sua autonomia sem precisar da ajuda de nenhum
homem.
O
pai de Martha é pouco lembrado por
ela, em razão de ter morrido quando ela era muito pequena. Contudo, não deixa
de ser significativo que sua presença esteja estampada no rosto de Martha, já
que, para sua mãe, ambos se assemelhavam:
[...] tens uma certa
maneira de olhar como só nele conheci. Era também trigueiro como tu, mas menos
pálido. A testa é que se não parecia tanto com a tua, mas os olhos... Têm os
teus a mesma cor castanho-escuro, e as pestanas curtas, como as dele [...]. Não
era bonito, diziam os outros, eu o achava lindo... (p. 47)
Assim,
apesar da ausência do pai, Martha podia tê-lo junto a si quando se olhava no
espelho. Curiosamente, o mesmo ocorria com os filhos da vizinha, cujo pai,
embora presente, estava sempre trabalhando e é pouco citado no romance.
Provavelmente, essa circunstância aponta para uma realidade social de ausência
paterna em lares de classes baixas. Mas, por outro lado, é possível que a autora
quisesse criar uma nova perspectiva da sociedade, regida sobretudo por
mulheres, em mais uma visão pelo avesso do sistema social baseado no
patriarcalismo. Outra figura masculina da vida de Martha poderia ter sido seu
avô paterno, mas, depois de se tornar viúvo, o homem se entregou à bebida e ao
jogo (“Foi em uma casa de jogo que morreu de um ataque, num triste dia
chuvoso”, p. 49).
Dessa
forma, todo modelo de conduta que Martha tem em sua vida vem de mulheres, seja
para o bem (a mãe, a professora, a generosa vizinha Carolina), seja para o mal
(a ilhoa, que batia nos filhos; a menina Mathilde, sua colega de escola,
flagrada roubando; a amiga Clara Sylvestre, que termina na prostituição). Os
homens exercem na narrativa papéis secundários, efêmeros: assim como o pai e o avô,
temos o marido de D. Anninha, as fugazes paixões que Martha experimentou; e até
mesmo o marido, que, surgindo no fim da narrativa, não chega a exercer papel
decisivo na trama.
Moradores do cortiço
Entre
os moradores do cortiço, destaca-se a vizinha de Martha, chamada apenas de ilhoa. A imagem que Martha tem da
vizinha em suas recordações infantis é a de uma mulher bruta e violenta; no entanto,
no reencontro anos depois, já adulta, Martha não esconde a “verdadeira
admiração” que sente por “aquela trabalhadora persistente e brutal, a quem a
vida retalhava a alma sem que o corpo caísse” (p. 109). Assim, a personagem, a
despeito de sua condição animalizada destacada por Martha na “busca do seu
fardo de besta de carga” (p. 109), representa a resiliência diante da
adversidade exercida pelos desamparados da sorte e da sociedade.
Entre
as crianças que vivem pelos corredores do cortiço, estão os filhos da ilhoa, que atravessam a vida
de Martha, sugerindo destinos alternativos que poderiam ter sido o dela,
conforme já vimos. Há também o menino Lucas, um “mulatinho” que andava sempre
“muito sujo, e que passava a vida a mentir” (p. 21), tendo ainda “o costume de
pedir alimento a quem visse comer” (p. 43). Quando a oportunidade surge, trata
de aproveitar o momento, como a rara ocasião em que a ilhoa dividiu com as
crianças do lugar uns doces
que
recebera de presente de uma freguesa: Lucas, perto da porta, empurrava com o
dedo a mãe-benta que já não lhe cabia na boca, e de bochechas inchadas olhava ainda
cobiçosamente para as mãos da ilhoa. (p. 29)
A
cena tem algo de tragicômico, porque revela o suplício da fome, experimentado
também pela menina Martha, em uma idade na qual, segundo ela, “o apetite não
dorme” (p. 16).
Para
outro frequentador do cortiço, o tio
Bernardo, um “mina” (negro), Martha reserva palavras pouco lisonjeiras: ele
é tratado como “idiota velho” (p. 43), sustentado pelo proprietário do cortiço
em troca de pequenos serviços. Martha ainda se refere ao velho como “desgraçado
demente, negro velho e hidrópico” (p. 44), que provocava nela “muita
repugnância e muito dó” (p. 44). Essa visão degradante do personagem evidencia
a falta de empatia da protagonista, em uma postura que, se tem algo do temor
infantil, também tem da mulher que, já adulta, recorda o ambiente e os
indivíduos dos quais se distanciou – sem esquecer que ela própria, Martha, é
“trigueira”, isto é, morena, o que remete à mesma ancestralidade do tio Bernardo,
que ela trata com desprezo.
A
presença de imigrantes no cortiço é
reveladora do momento vivido pelo país na época, de busca de mão de obra
estrangeira, encarada como instrumento de civilização e aperfeiçoamento do
trabalho. A imagem produzida em torno deles, porém, não é positiva na narrativa
de Martha. Os membros de uma família
galega, por exemplo, “fechavam-se às horas da comida para não repartirem os
restos com o Lucas” (p. 43). Há ainda uma paraguaia
(p. 43), cuja filha quase foi raptada por outro imigrante. Alguns moradores
vivem tragédias pessoais, como os rapazes
tiroleses que pareciam cultivar fortes laços de amizade entre si, até um
deles matar o outro e fugir com suas economias (cf. p. 43-44). Há ainda uma
“mulata gorda, a Eulália, lavadeira que, invariavelmente, todos os sábados
vinha cambaleando da venda, a falar alto, sobraçando uma garrafa de parati” (p.
42) – que era, naquele tempo, sinônimo de cachaça. Como se vê, de forma geral
os moradores exemplificam a perspectiva determinista de acordo com a qual eles
seriam seres degradados por influência do meio em que vivem. Diante desse
quadro, é difícil não pensar na narrativa de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado posteriormente.
Outros
A
professora Anninha, tão acolhedora
para com Martha, foi responsável por algumas de suas maiores alegrias, mas
também, mesmo que indiretamente, por uma de suas experiências mais dolorosas: a
desilusão amorosa. Isso porque foi um primo da professora, Luiz, quem primeiro
despertou em Martha a sensação de se sentir apaixonada e correspondida em seus
sentimentos, o que logo se revelou infundado, porque o rapaz a trocou
rapidamente por uma norte-americana, hóspede de um hotel próximo (cf. p. 83),
revelando uma volubilidade que desencantaria Martha e se manifestaria mais uma vez
depois, quando ele se casou, por fim, não com a estrangeira, mas com uma das
sobrinhas de dona Anninha. Ironicamente, motivada pelo amor por Luiz, Martha
escreveu cartas repletas de lirismo à mãe, que não resistiu e as mostrou a um
freguês, Miranda, “homem generoso e
bom” (p. 70) que acabou desenvolvendo pela remetente uma paixão, digamos, epistolar.
Em função desses sentimentos, e contando com o apoio explícito da mãe de
Martha, Miranda se tornou vizinho das duas (cf. p. 89), sendo ele a avisar Martha
da abertura do concurso para professora de escolas públicas (cf. p. 98). Por
fim, foi ele que propôs casamento a Martha, que o aceitou, depois de alguma
hesitação, e por razões pragmáticas. Como já vimos, o encontro de Martha e
Miranda está muito distante do modelo romântico, inserindo-se, ao contrário, na
banalidade das relações amorosas do Realismo. Para reforçar essa ideia, a
narradora não conclui sua narrativa sem antes descrever o pretendente com cores
bem pouco idealizadas:
Ele me sorriu. Era um
homem de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos a luzirem-lhe
na barba preta; de feições miúdas, dentes pequeninos; e peito robusto.
Havia alguma coisa de
paternal nos seus olhos, uma expressão de lealdade, de doçura, que me inspirava
confiança e tranquilidade. Falava sem preocupações de linguagem, incorrendo
mesmo frequentemente em pequenos erros de pronúncia ou de gramática, muito
vulgares. (p. 106)
Como
se pode notar, Miranda é um personagem realista em toda a sua dimensão, razão
pela qual parece formar o par perfeito para Martha. O olhar “paternal” talvez
funcionasse, para ela, como substitutivo da figura paterna. E se ele não
desperta nela os amores que Luiz a fizera sentir, sua “expressão de lealdade,
de doçura” fornece “confiança e tranquilidade”, sentimentos que, distantes da
passionalidade romântica, aproximam-se da racionalidade realista. Se a mãe de
Martha estabelece com a filha uma relação de espelhamento pelo avesso, pode-se
dizer o mesmo da comparação entre Luiz e Miranda: um é sedutor, enquanto o
outro é desprovido de atrativos; um é representativo de sentimentos ilusórios e
enganadores, enquanto o outro se apresenta como aquele que não é capaz de
arrebatar, mas, sim, de acompanhar Martha em sua trajetória.
Por
fim, deve-se referir a menina Lucinda,
que pertence a uma família de posses e estabelece um contraste marcante com
Martha, esclarecedor das diferenças sociais entre elas. Ela será o elemento catalizador
dos desejos de Martha de buscar outro destino para si. No ambiente do cortiço,
naturalizava-se o destino da pobre e infeliz Carolina, mas o encontro com
Lucinda faz Martha perceber uma outra realidade, que será então perseguida por
ela. Por outro lado, vem de Lucinda também a primeira experiência que Martha
tem do preconceito e do racismo. Vendo a menina morena experimentar um dos seus
vestidos, Lucinda comenta:
– Parece um
macaquinho! – exclamava Lucinda desferindo umas risadinhas agudas a olhar para
mim. (p. 19)
De uma só vez, Lucinda rebaixa Martha tanto em sua situação social quanto em sua condição humana. A cena em que ambas se olham no espelho pode ser entendida como uma imagem metafórica da sociedade brasileira: brancos e mulatos lado a lado apenas na aparência, porque, assim que se retira o espelho, percebe-se o quanto estão distantes uns dos outros.
Espaço
A
casa onde Martha nasceu e viveu até os 5 anos de idade oferecia um relativo
conforto. Em suas memórias, ela se recorda de alguns recantos que marcaram sua
infância: “um ângulo de quintal, onde havia um banco tosco e um tanquezinho
redondo” onde “lavava as roupas das bonecas”, “o papel da salinha de jantar,
cheio de chins” (padrões inspirados em desenhos orientais). O lugar evidenciava
certa abastança: a alusão que faz a “quartos”, “móveis” e “criados” mostra que
ela e seus pais viviam em boa situação financeira, provavelmente equivalente ao
que chamamos hoje de classe média.
A
morte do pai determina uma transformação no espaço doméstico: mãe e filha são
obrigadas a se transferir para “um cortiço de São Cristóvão” (p. 13). Os
cortiços eram habitações coletivas ocupadas por pessoas de baixa renda,
geralmente compostas por cômodos ou quartos, em cada um dos quais, por vezes,
viviam famílias inteiras.
A
imagem geral do Rio de Janeiro não é descrita no romance de forma elogiosa. Uma
das personagens apresenta um quadro da vida urbana, quando a compara com a vida
no campo:
[...] para dar valor
condigno a todas essas maravilhas que se impõem ao mais rude, ao mais ingrato
espírito, são necessários a mesquinhez da cidade, as ruas estreitas rumorejantes,
o zum-zum do povo, o calor, os mosquitos, os benefícios das atrizes más, as reuniões
dançantes a que não podemos faltar e a saturação de outras calamidades. (p. 74)
Se
o leitor tiver em mente que o trecho se refere à maior cidade do país, a capital,
a Corte, pode-se perceber a visão negativa que o ambiente urbano ainda provocava,
notadamente quando contrastado ao campo, onde ainda vivia boa parte da
população brasileira.
Contribuía
para essa imagem pessimista a proliferação de cortiços no Rio de Janeiro, que
sofria de uma permanente defasagem habitacional, presente até hoje, principalmente
tendo em vista a chegada constante de imigrantes – que, como vimos, aparecem no
romance de Júlia Lopes de Almeida. No ano de publicação do livro, cerca de ¼ da
população carioca vivia em um dos 1300 cortiços da cidade10. Não por acaso, em
uma nota em que se refere ao livro, a autora deixou registrado que a inspiração
para compor esse cenário veio da vida real: apenas um muro separava o colégio
administrado por seu pai de um cortiço, exatamente no bairro de São Cristóvão. As
péssimas condições de higiene faziam desse tipo de moradia um espaço propício à
proliferação de doenças de todo tipo, como registra a narradora de Memórias de Martha: “Desenvolveram-se no
cortiço a epidemia de difteria e o sarampo” (p. 33).
Na
literatura brasileira, a referência imediata, quando se trata de ambientação
nessas moradias coletivas, é o romance O
Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890. Ambos os romances refletem uma
mesma realidade, razão pela qual não é difícil encontrar semelhanças entre
eles: os proprietários são portugueses; há imigrantes que vivem no lugar;
alguns moradores se entregam à bebida com frequência; crianças entregues à
própria sorte; violência doméstica; etc. Mas o que mais chama a atenção são as
diferenças. A primeira delas diz respeito ao foco narrativo: para seguir o
modelo cientificista da objetividade e da isenção, Aluísio Azevedo opta pela
narração em terceira pessoa, enquanto Júlia Lopes de Almeida apresenta a perspectiva
de uma narradora em primeira pessoa, que registra a realidade com fortes doses
de subjetividade. Pode-se dizer que a narrativa de Aluísio Azevedo focaliza o
espaço de forma a captar o aspecto geral, como os odores e os barulhos
produzidos no lugar; a de Júlia Lopes de Almeida, por sua vez, mostra o espaço
da perspectiva íntima de Martha, parecendo haver um interesse menor no registro
fiel da realidade e maior nas impressões que esta provoca na protagonista. Aluísio
Azevedo segue de perto o método determinista, concebendo personagens que agem
sob a influência do meio em que vivem; em Memórias
de Martha, ao contrário, a protagonista não se rende ao meio, rebela-se
contra ele e luta para escapar do cortiço. Esse ponto de partida tem como
desdobramento outra distinção entre as duas narrativas: enquanto Aluísio
Azevedo opta pelo retrato da coletividade, Júlia Lopes de Almeida coloca em
destaque as individualidades, sobretudo a de Martha, mas também outras que se
sobressaem na narrativa, como as de Carolina, Maneco, Clara Sylvestre, etc.
Disso decorre que, em O Cortiço, o
próprio espaço exerça a condição de personagem central, enquanto em Memórias de
Martha, esse papel cabe claramente à protagonista. Além disso, em O Cortiço, as
personagens femininas são focalizadas a partir da sua sexualidade, por vezes
limitando-se a ela, como Rita Baiana e Pombinha; já em Memórias de Martha, a
personagem narradora apresenta outras faces, algumas até carregadas de
sentimentalismo, como a busca amorosa, mas a maioria delas ligadas ao seu
projeto de ascensão social.
A
narradora não esconde o asco que sente do espaço onde passa a viver:
Eu, em começo,
estranhava aquela moradia com tanta gente, tanto barulho, num corredor tão
comprido e infecto que o ar entrava contrafeito e a água das barrelas empoçava
entre as pedras desiguais da calçada. (p. 15)
Embora
no trecho Martha se refira a uma sensação experimetada “em começo”, isto é, no
início de sua vida, a verdade é que a impressão a acompanharia mesmo depois:
ela se refere aos sentimentos provocados nela, já adulta, pelo “vexame daquele
portão de cortiço” (p. 41). Martha chegou a pensar que um dos seus supostos pretendentes
teria preferido se afastar dela ao saber que ela morava em lugar tão sórdido
(cf. p. 57).
Martha
informa que o cortiço em que vivia com a mãe “gozava da fama de ser um dos mais
pacatos do bairro” (p. 41), o que seria explicado pelo fato de o proprietário
viver ali com a família. No entanto, acrescenta que tal reputação era
infundada, já que ali havia “vizinhos que na fama de moderados se esmurravam e
guinchavam impropérios” (p. 41-42). O “quarto da ilhoa” (p. 29), vizinha de
Martha, era um dos mais arrumados do cortiço, graças ao trabalho incessante de
Carolina, mas o comportamento da matriarca nada tinha de ordenado: ela se mostrava
violenta e agressiva com os filhos e o marido.
Nesse
ambiente, Martha cresceria de forma acanhada, como se o espaço reprimisse sua formação
natural:
Cresci vagarosamente,
como se me não bastasse para o desenvolvimento o espaço estreito daquela alcova
em que, de verão a inverno, minha mãe trabalhava, vestida com o pobre traje de viúva,
já velho e ruço, mal-arranjado em seu corpo de tísica, muito delgado. (p. 14)
Como
se pode notar, além de não permitir o “desenvolvimento” da menina, o ambiente
prejudicava a própria sobrevivência da mãe. Apesar disso, ela não se deixa
tolher pelo meio. Ao contrário, vai fazer dele um estímulo para estudar e
trabalhar. Quando se vê preterida pelo rapaz que, segundo ela, fugiu dela por
causa de sua moradia, ela revela:
Nunca mais o tornei a
ver na escola nem em parte alguma, mas foi ele quem me decidiu a alugar
definitivamente o pequeno chalé cor de pérola, de venezianas verdes e
lambrequins de madeira a guarnecer o beiral do telhado. (p. 57)
O projeto de Martha pode ser sintetizado nas diferenças entre o espaço que habita e o que deseja habitar: sair da “alcova úmida e escura” (p. 27) para o “chalé cor de pérola” (p. 57) – da escuridão para a claridade. Essa pode ser ainda outra diferença em relação aO Cortiço, onde o sol é elemento aprisionador, porque representa a servidão dos instintos à natureza dos trópicos: em Memórias de Martha, o sol sempre provoca a sensação de libertação. Ainda criança, quando sai para acompanhar a mãe na entrega de roupas, essa impressão já é evidenciada: “O dia estava quente e luminoso. Eu sentia o calor das pedras da calçada e das paredes das casas onde ia roçando as mãos” (p. 17). O retorno à casa, nesse mesmo dia, é o reencontro com o fechamento opressor: “Voltei nesse dia mais alegre à nossa tristonha alcova da estalagem de São Cristóvão” (p. 21). Note-se: de um lado, o dia “quente e luminoso”; de outro, a “tristonha alcova”.
Da
mesma forma, o prazer que Martha sente em estudar deve--se muito à sensação de
libertação que ela experimenta na escola: “o sol não entrava arrojado e
luminoso pela janela do ensombrado quarto do cortiço como pela janela de
moldura envernizada da aula” (p. 27). Essa imagem da escola estabelece mais um
curioso contraste entre Memórias de
Martha e outro romance da época, O
Ateneu, de Raul Pompeia, publicado também em 1888: enquanto, neste último,
a escola é espaço de repressão e de encolhimento pessoal, para Martha ela
representa a oportunidade de abertura, de descoberta de novos caminhos.
Assim,
essas diferenças espaciais representam formas diferentes de viver para a
protagonista. O espaço acanhado do cortiço simboliza a falta de perspectivas
para a mulher “trigueira”, pobre e feia; a busca de outros lugares representa o
extravasamento, a superação dos limites sociais impostos a ela.
Tempo
Em
uma obra autobiográfica, é natural que a passagem do tempo seja demarcada pela
idade da protagonista. Assim, Martha vive na casa onde foi criada com todo o
conforto “até os cinco anos” (p. 11). Nesse momento, ocorre uma ruptura
significativa em sua vida, que é a mudança para o cortiço com sua mãe, onde
experimenta as dificuldades da miséria: “Eu tinha apenas sete anos e nessa
idade o apetite não dorme” (p. 16). Aos 11 anos de idade, Martha percebe que
não servia para os trabalhos manuais, para desencanto da mãe, que aconselhava:
“Tu não nasceste para isto, mas, filha, é preciso que te habitues; bem vês,
somos muito pobres e quando eu morrer deves saber sustentar-se com dignidade e
firmeza” (p. 36). Martha vive, então, um impasse sobre o que fazer do próprio futuro.
Logo em seguida, fica sabendo do desejo de uma professora de “tirar a cadeira”
(p. 37) e dos benefícios que essa condição traria, decidindo seguir a mesma
carreira.
A
vida adulta de Martha começa sob o signo do trabalho e da dedicação aos
estudos:
Assim, cheguei à
idade de vinte anos, passando o melhor tempo da vida a estudar para ensinar ou
curvada sobre a costura, ao lado de minha mãe, que enfraquecia muito e
trabalhava sempre... (p. 61)
Ainda
aos 20 anos, Martha vive uma experiência impactante: o reencontro com Clara
Sylvestre, antiga colega de escola, então vivendo na prostituição. No momento
do reencontro, Martha, envolvida com suas próprias desilusões pessoais, vertia
“lágrimas choradas com a intensidade dos vinte anos” (p. 93), mas não manifesta
plena consciência da condição de Clara. Contudo, ao recordar o episódio em suas
Memórias, registra uma impressão mais assertiva:
A pobre Clara, em
meio ao seu luxo, ao seu perfume de heliotrópio e aos seus enormes rubis dos
brincos, inspirava-me grande interesse e mágoa. (p. 95)
A
frase dita por Clara quando se despediram (“eu não mereço nada”, p. 97)
surpreende Martha, que se achava, ela sim, pouco merecedora de qualquer
consideração:
Quem valia nada era
eu, sempre ignorada por toda a gente, sempre feia, o que me torturava, sempre
envergonhada dos meus vestidos mal-ajeitados, do meu calçado barato, do meu
modo esquerdo e retraído! (p. 97)
Desde
então, dedica-se com mais afinco aos estudos, mas confessa que a sua “dor de
viver, de ser feia, de ser pobre, de ser triste, durou ainda muito tempo” (p.
97). Passam-se quatro anos e, finalmente, ela se torna professora e é pedida em
casamento por Miranda (cf. p. 102):
Bem cedo neste país
ardente as mulheres ouvem dizer que as amam, e eu só aos vinte e quatro anos
despertava no coração cansado de um velho uma paixão sossegada e mansa! (p.
104)
O
“velho” Miranda contava então com “quarenta e tantos anos” (p. 102).
A
passagem do tempo tem efeitos sobre Martha. Quando narra o episódio em que a
mãe foge do encontro com uma amiga dos tempos de conforto material, revela não
ter entendido, então, essa atitude materna. Mas, em seguida, ressalva: “A
resposta tive-a anos depois, do tempo, da idade, do destino e dos desenganos”
(p. 17). Assim, a vida que passa traz dores e sofrimentos, mas também um refinamento
da percepção de mundo. Da mesma forma, quando relata o episódio da expulsão de
sua colega Mathilde, de quem era próxima, recorda-se de ter se mantido distante
e fria:
Vi-a sair sem que me
viessem as lágrimas aos olhos, a mim, que lhe devia tanto; e agora, no fim de
trinta e tantos anos, sinto na minha consciência como uma grande nódoa
imperecível. (p. 25)
Como
se pode perceber, Martha escreve suas Memórias também para acertar contas com o
seu passado.


