21 outubro 2022

GENEALOGIA DO SIMBOLISMO

 Ivan Junqueira

O que é um símbolo? Como, por que e a partir de quando o homem começou a se valer dos símbolos para expressar-se no âmbito do sistema da língua? Estas são questões cruciais quando abordamos o simbolismo literário, que, na verdade, é tão antigo quanto a própria origem da linguagem. Do grego symbolon, que significa também “marca, signo ou contra-senha”, o símbolo é, em sentido lato, um objeto natural, como o peixe, que simboliza Cristo, ou a coruja, que representa a filosofia.

            Oficialmente, o Simbolismo começou na França com a publicação, a 18 de setembro de 1886, no suplemento literário de Le Figaro, do manifesto de Jean Moréas. Poeta francês nascido na Grécia, ele afirmava a transcendência do real e declarava que o Simbolismo, em sua radical oposição ao Realismo e ao Naturalismo, era um movimento idealista e transcendente, contrário às descrições objetivas, à ciência positiva, ao intelectualismo e à rigidez formal parnasiana.

            Precursor apenas ou poeta maior do Simbolismo, o fato é que Charles Baudelaire exerceria influência decisiva para o triunfo do movimento, pois dele provêm, em linha quase direta, os três outros poetas franceses ligados ao Simbolismo: Rimbaud, Verlaine e Mallarmé.

            Rimbaud não foi somente um pré-simbolista, mas um elo sem o qual não haveria a evolução da poesia de Baudelaire para a do Simbolismo. Sem Rimbaud, o Simbolismo simplesmente não existiria. Sua grande lição morre com ele, com seu inexplicável e súbito mutismo, no estranho silêncio que assume logo após completar 17 anos. Neste sentido, ele foi muito mais longe do que o próprio Baudelaire, ou mesmo Lautréamont, que proclamou o fim da poesia. Rimbaud não proclamou nada. Ao contrário, simplesmente emudeceu.

            Outra corrente foi a da poesia intimista, à qual se filiaram os poetas egressos do Parnasianismo, com Verlaine e quase todos os verlainianos, marcados pelo misticismo, pessimismo e evasionismo.

            O núcleo do Simbolismo francês reside sem dúvida na obra de Mallarmé, com o qual começa também o hermetismo, a poesia pura da chamada “torre de marfim”, que deu origem a uma febril atividade exegética por parte dos seus admiradores.

            Mallarmé foi muito mais do que um simples simbolista e toda a poesia moderna leva a sua marca até Valéry, T. S. Eliot e o italiano Ungaretti, bem como os recentes movimentos da poesia concreta, cujos arautos nele vêem um mestre.

            O Simbolismo brasileiro, embora oposto ao Parnasianismo, foi contudo rapidamente absorvido por este último. Quando tentou revigorar-se, após o declínio Neoparnasiano, viu-se marginalizado pelos primeiros modernistas e passou a ser considerado um “corpo estranho” na literatura brasileira. Nem por isto, todavia, deixou de produzir alguns grandes talentos, marcando a obra de diversos autores do século 20, desde Augusto dos Anjos até Cecília Meireles.

            O primeiro grande simbolista brasileiro – e também o seu maior poeta – foi João da Cruz e Sousa, poeta negro de emoções autênticas, que se rebelou contra a sintaxe tradicional portuguesa e introduziu no Brasil as conquistas estilísticas da escola francesa. Sua obra inclui os versos de Broquéis (1893), Faróis (1900) e Últimos sonetos (1905), além da prosa poética de Missal (1893) e Evocações (1898).

            Outro grande simbolista da nossa literatura foi Alphonsus de Guimaraens, poeta intimista, dominado pelo sentimento da morte e por um suave misticismo, mas que pecou por algum preciosismo. Suas obras mais expressivas foram Dona Mística (1899), Kiriale (1902) e Pastoral dos crentes do amor e da morte (1923).

            Existiram outros poetas simbolistas, que merecem ser mencionados: Mário Pederneiras, Cassiano Machado, Ronald de Carvalho, Homero Prates, Euricles de Matos, Felipe d’Oliveira, Pedro Militão Kilkerrry, Murilo Araújo, Alvaro Reis, Durval de Morais e Marcelo Gama, alguns dos quais se transferiram depois para o Neoparnasianismo ou evoluíram para o Modernismo.

            Na prosa, os maiores escritores simbolistas foram Álvaro Moreyra, Arthur Lobo, Gonzaga Duque e Carlos Fernandes. O grande crítico e propagandista do movimento foi Nestor Vitor, seguido de Saturnino de Meireles e Manuel Azevedo da Silveira Neto.

            Mesmo sem ter sido propriamente um simbolista, o grande e originalíssimo poeta Augusto dos Anjos sofreu influência do Simbolismo, que é inconfundível nos seus versos. E há também o caso da poetisa Cecília Meireles, uma das mais finas sensibilidades da poesia brasileira, que, durante muito tempo, permaneceu simbolista dentro do Modernismo.

            O Simbolismo transcendeu imensamente os limites de suas atividades programáticas, dando origem à grande poesia pós-simbolista, que, a rigor, já pertence ao Modernismo. Seus representantes, porém, guardam muito da lição de Mallarmé, Baudelaire, Rimbaud e Maeterlinck. Essa herança é bem visível na alta poesia de Valéry de Rilke, de Eliot, de Yeats, de Jisménez e de Claudel.

            Ficcionistas como Proust e Joyce que são os dois maiores mestres do romance moderno, também pagam tributo à estética e ao estilo simbolistas, o mesmo acontecendo com Maurice Barrés, Alain Fournier, Thomas Mann e Knut Hamsun.

            Tudo isso vem confirmar a inestimável importância histórica do Simbolismo, que abriu as portas à renovação modernista. Obras como Le cimetière marin, de Valéry, ou Duineser Elegien, de Rilke, ou ainda The wild swans at Coole, de Yeats, provam quanto o Modernismo deve à poesia pós-simbolista.

            E uma dívida, aliás, que os modernistas têm pago ao Simbolismo com muita grandeza.

 

JB B2 22.12.2004




THE NORA BLOOM SHOW

LINK TO THE VIDEO A. Discuss the questions below. Then, fill in the chart with the pros and cons of getting a tattoo. - Why do people get ...