https://www.youtube.com/watch?v=ZO4NniEe5hQ&list=WL&index=65
15 novembro 2023
29 outubro 2023
URGÊNCIA EMOCIONAL
Se tudo é para ontem, se a vida
engata uma primeira e sai em disparada, se não há mais tempo para paradas
estratégicas, caímos fatalmente no vício de querer que os amores sejam
igualmente resolvidos num átimo de segundo.
Temos pressa para ouvir “EU TE
AMO”. Não vemos a hora de que fiquem estabelecidas as regras de convívio:
Somos namorados, ficantes, casados, amantes?
Urgência emocional. Uma cilada.
Associamos diversas palavras ao AMOR: Paixão, Romance, Sexo, Adrenalina,
Palpitação. Esquecemos, no entanto, da palavra que viabiliza esse sentimento: “Paciência”.
Amor sem paciência não vinga.
Amor não pode ser mastigado e engolido com emergência, com fome desesperada.
É preciso degustar cada
pedacinho do Amor, no que ele tem de amargo e de saboroso, no que ele tem de
duro e de macio. Os nervos do Amor, as gorduras do Amor, as proteínas do amor,
as propriedades todas que ele tem.
É uma refeição que pode durar
uma vida.
Mas, não. Temos urgência.
Queremos a resposta do e-mail ainda hoje, queremos que o telefone toque sem
parar, queremos que ele se apaixone assim que souber nosso nome, queremos que
ela se renda logo após o primeiro beijo, e não toleraremos recusas, e não respeitaremos
dúvidas, e não abriremos espaço na agenda para esperar.
Temos todo o tempo do mundo,
dizem uns; Não há tempo a perder, dizem outros: A gente fica perdido no meio
deste fogo cruzado, atingidos por informações várias, vivências diversas,
parece que todos sabem mais do que nós, pobres de nós, que só queremos uma
coisa nessa vida, “Sermos Amados”.
Podemos esperar por todo o
resto: emprego, dinheiro, sucesso, mas não passaremos mais um dia sequer
sozinhos. “Te adoro”, dizemos sei lá pra quem... Para quem tiver ouvidos e
souber responder.
“Eu também”, que a gente está
mais a fim de acreditar do que de selecionar. “Urgência Emocional”,
PRONTO-SOCORRO DO AMOR... Atiramos para todos os lados e somos baleados por
qualquer um.
E o coração leva um monte de
pontos por causa dessa tragédia: “PRESSA”.
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24 outubro 2023
VENHA VER O POR DO SOL
Ela subiu sem pressa a
tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas
espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem
calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam
de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado
a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos
crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
– Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E
olhou para os próprios sapatos.
– Veja que lama. Só
mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que ideia, Ricardo, que ideia!
Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele riu entre malicioso
e ingênuo.
– Jamais? Pensei que
viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância! Quando você
andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?
– Foi para me dizer isso
que você me fez subir até aqui? – perguntou ela, guardando o lenço na bolsa.
Tirou um cigarro. – Hem?!
– Ah, Raquel… – e ele
tomou-a pelo braço. – Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns
cigarrinhos pilantras, azul e dourado. Juro que eu tinha que ver ainda uma vez
toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?
– Podia ter escolhido um
outro lugar, não? – Abrandara a voz. – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o
velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela
ferrugem.
– Cemitério abandonado,
meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí
como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou apontando as crianças
rodando na sua ciranda.
Ela tragou lentamente.
Soprou a fumaça na cara do companheiro.
– Ricardo e suas ideias.
E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou
pela cintura.
– Conheço bem tudo isso,
minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do
sol mais lindo do mundo.
Ela encarou-o um
instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
– Ver o pôr do sol? Ah,
meu Deus… Fabuloso, fabuloso! Me implora um último encontro, me atormenta dias
seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais
uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério.
Ele riu também, afetando
encabulamento como um menino pilhado em falta.
– Raquel, minha querida,
não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu
apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro
agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco
da fechadura.
– E você acha que eu
iria?
– Não se zangue, sei que
não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um
pouco numa rua afastada… – disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o
braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas
foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de
rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem
como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar
vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento. – Você fez
bem em vir.
– Quer dizer que o
programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
– Estou sem dinheiro,
meu anjo, vê se entende.
– Mas eu pago.
– Com o dinheiro dele?
Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito
decente, não pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até
romântico.
Ela olhou em redor.
Puxou o braço que ele apertava.
– Foi um risco enorme,
Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos
pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas ideias vai
me consertar a vida.
– Mas me lembrei deste
lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar
mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado –
prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou
um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
– É um risco enorme, já
disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não
suporto enterros.
– Mas enterro de quem?
Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa? Há séculos ninguém
mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo,
pode me dar o braço, não tenha medo.
O mato rasteiro dominava
tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira
pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as
alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força
de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela
longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma
estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos.
Amuada, mas obediente,
ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por
uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
– É imenso, hem? E tão
miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente – exclamou ela,
atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. –
Vamos embora, Ricardo, chega.
– Ah, Raquel, olha um
pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza
não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse
meio-tom, nessa ambiguidade. Estou-lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se
queixa.
– Não gosto de
cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele
beijou-lhe a mão.
– Você prometeu dar um
fim de tarde a este seu escravo.
– É, mas fiz mal. Pode
ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
– Ele é tão rico assim?
– Riquíssimo. Vai me
levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente?
Vamos até o Oriente, meu caro.
Ele apanhou um
pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em
redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu,
envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
– Eu também te levei um
dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no
ombro do homem, ela retardou o passo.
– Sabe, Ricardo, acho
que você é mesmo meio tantã… Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele
tempo. Que ano aquele. Quando penso, não entendo como aguentei tanto, imagine,
um ano!
– É que você tinha lido A
Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance
você está lendo agora?
– Nenhum – respondeu ela
franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: – À
minha querida esposa, eternas saudades – leu em voz baixa. – Pois sim.
Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho
num canteiro ressequido.
– Mas é esse abandono na
morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos
vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja – disse apontando uma sepultura
fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda –, o musgo já cobriu
o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas…
Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a
ele. Bocejou.
– Está bem, mas agora
vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo
um cara como você podia me fazer divertir assim.
– Deu-lhe um rápido
beijo na face. – Chega, Ricardo, quero ir embora.
– Mais alguns passos…
– Mas este cemitério não
acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para trás. – Nunca andei tanto, Ricardo,
vou ficar exausta.
– A boa vida te deixou
preguiçosa? Que feio – lamentou ele, impelindo-a para a frente. – Dobrando esta
alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. Sabe,
Raquel, andei muitas vezes por aqui de
mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha
mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai.
Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo
tantos planos. Agora as duas estão mortas.
– Sua prima também?
– Também. Morreu quando
completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos… Eram
assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel,
extraordinário como vocês duas… Penso agora que toda a beleza dela residia
apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
– Vocês se amaram?
– Ela me amou. Foi a
única criatura que… – Fez um gesto. – Enfim, não tem importância.
Raquel tirou-lhe o
cigarro, tragou e depois devolveu-o.
– Eu gostei de você,
Ricardo.
– E eu te amei. E te amo
ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o
cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
– Esfriou, não? Vamos
embora.
– Já chegamos, meu anjo.
Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma
capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia
num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a
abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias
de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado,
coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada
opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma
aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de
um manto que alguém colocara sobre os ombros do Cristo. Na parede lateral, à
direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de
pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos
pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
– Que triste que é isto,
Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da
imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.
– Sei que você gostaria
de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação,
certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério é precisamente este
abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a
morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou
através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do
subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um
estreito retângulo cinzento.
– E lá embaixo?
– Pois lá estão as
gavetas. E nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó – murmurou ele. Abriu a
portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede,
segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra.
Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da
escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
– Todas essas gavetas
estão cheias?
– Cheias?… Só as que têm
o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui
ficou minha mãe – prosseguiu ele tocando com as pontas dos dedos num medalhão
esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços.
Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
– Vamos, Ricardo, vamos.
– Você está com medo.
– Claro que não, estou é
com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu.
Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo.
Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado.
– A priminha Maria
Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de
morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita?
Estou bonita? – Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. – Não é que
fosse bonita, mas os olhos… Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha
olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada,
encolhendo-se para não esbarrar em nada.
– Que frio faz aqui. E
que escuro, não estou enxergando!
Acendendo outro fósforo,
ele ofereceu-o à companheira.
– Pegue, dá para ver
muito bem… – Afastou-se para o lado. – Repare nos olhos.
– Mas está tão
desbotado, mal se vê que é uma moça… – Antes da chama se apagar, aproximou-a da
inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.
– Maria Emília, nascida
em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida… – Deixou cair o palito e ficou
um instante imóvel. – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de
cem anos! Seu menti…
Um baque metálico
decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou
o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola
fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
– Isto nunca foi o
jazigo da sua família, seu mentiroso!
Brincadeira mais
cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma,
ouviu?
Ele esperou que ela
chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à
chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
– Ricardo, abre isto
imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco. – Detesto
este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a
cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
– Uma réstia de sol vai
entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando
devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a
portinhola.
– Ricardo, chega, já
disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! – Sacudiu a portinhola com
mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou
ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. – Ouça, meu bem, foi
engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…
Ele já não sorria.
Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas
abertas em leque.
– Boa noite, Raquel.
– Chega, Ricardo! Você
vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando
agarrá-lo. – Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! – exigiu, examinando
a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma
crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele
balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a
face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi
escorregando. – Não, não…
Voltado ainda para ela,
ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas
escancaradas.
– Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se
pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam
pesadamente numa expressão embrutecida.
– Não…
Guardando a chave no
bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos
pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho,
inumano:
– NÃO!
22 outubro 2023
CONEXÕES COM O LIVRO "MENSAGEM", DE FERNANDO PESSOA.
O SENTIDO DO TÍTULO
Pessoa havia, inicialmente, decidido
chamar seu livro de Poemas de Portugal. Concordando com a opinião do
amigo Cunha Dias de que esse título já estava muito banalizado, o poeta resolve
fazer uma série de estudos com uma citação extraída da obra de Virgílio: Mens
Agitat Molem (A mente move a matéria). A divisão em três partes resultou no
título do livro: MENS AG/(ITAT MOL)/EM.
Em 1921, Pessoa fundou, com amigos, uma
casa editora e comercial chamada Olisipo. O nome é uma referência ao
nome mítico de Lisboa, Olisipone, cujo fundador teria sido o herói grego
Ulisses. O logotipo foi criado pelo próprio poeta.
O que Fernando Pessoa quer dizer no
livro? Se Dom Sebastião de carne e osso não vai voltar, quem sabe o espírito
sebastianista, ou seja, o espírito aventureiro, a vontade de superar limites, a
sede de grandeza ou, resumindo numa só palavra, a loucura. Loucura positiva, é
aquela que faz sair de casa, que faz ir atrás dos nossos sonhos, superar os
nossos medos. Esse espírito é que deveria voltar aos portugueses. Contra o
derrotismo, o pessimismo, a mediocridade que imperavam nesse Portugal em crise
no início do século 20 no qual Fernando Pessoa vivia. No fundo, a mensagem é o
desejo de contaminar, enraizar nos portugueses esse espírito sebastianista,
espírito de renascença, ressurgimento de Portugal apontando para o futuro, para
um sonho e para uma utopia que é a grande utopia de Pessoa.
20 outubro 2023
AVALIAÇÃO BIMESTRAL 4 - 1ª SÉRIE 2023
QUESTÃO 01
Assiste à
demolição
- Morou mais de vinte anos nesta casa? Então vai
sentir “uma coisa” quando ela for demolida. Começou a demolição. Passando pela
rua, ele viu a casa já sem telhado, e operários, na poeira, removendo caibros.
Aquele telhado que lhe dera tanto trabalho por causa das goteiras, tapadas
aqui, reaparecendo ali. Seu quarto de dormir estava exposto ao céu, no calor da
manhã. Ao fundo, no terraço, tinham desaparecido as colunas da pérgula,
e a cobertura de ramos de buganvília – dois troncos subindo do
pátio lá embaixo e enchendo de florinhas vermelhas o chão de ladrilho, onde
gatos da vizinhança amavam fazer sesta e surpreender tico-ticos.
Passou nos dias seguintes e viu o progressivo
desfazer-se das paredes, que escancarava a casa de frente e de flancos jogando-a
por assim dizer na rua. Os marcos das portas apareciam
emoldurando o vazio. O azul e as nuvens circulavam pelos cômodos, em composição
surrealista. E o pequeno balcão da fachada, cercado de ar, parecia um mirante
espacial, baixado ao nível dos míopes.
A demolição prosseguiu à noite, espontaneamente. Um
lanço de parede desabou sozinho, para fora do tapume, quando já
cessara na rua o movimento das lotações. Caiu discreto, sem ferir ninguém,
apenas avariando – desculpem – a rede telefônica.
A casa encolhera-se, em processo involutivo. Já
agora de um só pavimento, sem teto, aspirava mesmo à desintegração. Chegou
a vez da pequena sala de estar, da sala de jantar com seu lambri envernizado
a preto, que ele passara meses raspando a poder de gilete, para recuperar a cor
da madeira. E a vez do escritório, parte pensante e sentinte de seu mecanismo
individual, do eu mais íntimo e simultaneamente mais público, eu de gavetas
sigilosas, manuseadas por um profissional da escrita. De todo o tempo que
vivera na casa, fora ali que passara o maior número de horas, sentado, meio
corcunda, desligado de acontecimentos, ouvindo, sem escutar, rumores que
chegavam de outro mundo – cantoria de bêbados, motor de avião, chorinho de
bebê, galo na madrugada.
E não sentiu dor vendo esfarinharem-se esses
compartimentos de sua história pessoal. Nem sequer a melancolia do
desvanecimento das coisas físicas. Elas tinham durado, cumprido a tarefa. Chega
o instante em que compreendemos a demolição como um resgate de formas cansadas,
sentença de liberdade. Talvez sejamos levados a essa compreensão pelo trabalho
similar, mais surdo, que se vai desenvolvendo em nós. E não é preciso imaginar
a alegria de formas novas, mais claras, a surgirem constantemente de formas
caducas, para aceitar de coração sereno o fim das coisas que se ligaram à nossa
vida.
Fitou tranquilo o que tinha sido sua casa e era um
amontoado de caliça e tijolo, a ser removido. Em breve
restaria o lote, à espera de outra casa maior, sem sinal dele e dos
seus, mas destinada a concentrar outras vivências. Uma ordem, um estatuto
pairava sobre os destroços, e tudo era como devia ser, sem ilusão de
permanência.
ANDRADE, Carlos Drummond
de. Cadeira de balanço. 12. ed. Rio de Janeiro: Livraria José
Olympio Editora, 1979.
GLOSSÁRIO
caibro: elemento
estrutural de um telhado, geralmente peças de madeira que se dispõem da
cumeeira ao frechal, a intervalos regulares e paralelas umas às outras, em que
se cruzam e assentam as ripas, frequentemente mais finas e compridas, e sobre
as quais se apoiam e se encaixam as telhas.
pérgula: espécie de
galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares, geralmente
guarnecida de trepadeiras
buganvília: designação
comum às plantas do gênero bougainvillea, trepadeira, muito cultivadas como
ornamentais
de flanco: pela lateral
marco: parte fixa
que guarnece o vão de portas e janelas, e onde as folhas destas se encaixam,
prendendo-se por meio de dobradiças
tapume: cerca ou vala
guarnecida de sebe que defende uma área; anteparo, geralmente de madeira, com
que se veda a entrada numa área, numa construção
lambri: revestimento
interno de parede, usado com fim decorativo ou para proteger contra frio,
umidade ou barulho; feito de madeira, mármore, estuque, numa só peça ou
composto por painéis, que vão até certa altura ou do chão ao teto (mais usado
no plural)
caliça: conjunto de
resíduos de uma obra de alvenaria demolida ou em desmoronamento, formado por pó
ou fragmentos dos materiais diversos do reboco (cal, argamassa ressequida) e de
pedras, tijolos desfeitos
lote: porção de
terra autônoma que resulta de loteamento ou desmembramento; terreno de pequenas
dimensões, urbano ou rural, que se destina a construções ou à pequena
agricultura
Marque a alternativa em que a forma verbal
substitui corretamente a locução verbal sublinhada na seguinte oração: “Ao
fundo, no terreno, tinham desaparecido as colunas da
pérgula…”.
a) havia desaparecido
b) havia desaparecidas
c) haviam desaparecidas
d) haviam desaparecido
e) haviam desaparecidos
QUESTÃO 02
Luc Boltanski e Ève Chiapello demonstram com
clareza e sagacidade a capacidade antropofágica do capitalismo financeiro que
“engole” a linguagem do protesto e da libertação para transformá-la e
utilizá-la para legitimar a dominação social e política a partir do próprio
mercado.
Na dimensão do mundo do trabalho, por exemplo, todo
um novo vocabulário teve que ser inventado para escamotear as novas
transformações e melhor oprimir o trabalhador. Com essa linguagem aparentemente
libertadora, passa-se a impressão de que o ambiente de
trabalho melhorou e o trabalhador se emancipou.
Assim houve um esforço dirigido para transformar o
trabalhador em “colaborador”, para eufemizar e esconder a consciência de sua
superexploração; tenta-se também exaltar os supostos
valores de liderança para possibilitar que, a partir de agora, o próprio
funcionário, não mais o patrão, passe a controlar e vigiar o colega de
trabalho. Ou, ainda, há a intenção de difundir a cultura do empreendedorismo,
segundo a qual todo mundo pode ser empresário de si mesmo. E, o mais
importante, se ele falhar nessa empreitada, a culpa é apenas dele. É necessário
sempre culpar individualmente a vítima pelo fracasso socialmente construído.
SOUZA, Jessé.
Como o racismo criou o Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2021.
O uso dos verbos “passar” (2° parágrafo) e “tentar”
(3° parágrafo) no texto, em sua forma pronominal, revela
a) adequação à forma analítica da voz passiva.
b) construção com conjunção integrante.
c) marcação da impessoalidade do discurso.
d) informalidade correspondente ao gênero
discursivo.
e) ênfase na reciprocidade da linguagem.
QUESTÃO 03
O principal enfoque em O erro de Descartes é
a relação entre emoção e razão. Baseado em meu estudo de pacientes neurológicos
que apresentavam deficiências na tomada de decisão e distúrbios da emoção,
construí a hipótese de que a emoção era parte integrante do processo de
raciocínio e poderia auxiliar esse processo ao invés de, como se costumava
supor, necessariamente perturbá-lo. Hoje em dia essa ideia já não causa
espécie, mas na época em que a apresentei muita gente estranhou, e mesmo a
recebeu com certo ceticismo. Tudo sopesado, a ideia, em grande medida, foi
aceita e até, em certos casos, acolhida com tanta sofreguidão que acabou
deturpada. Por exemplo, nunca afirmei que a emoção era um substituto para a
razão, mas em algumas versões superficiais depreendia-se que minha ideia era
que se você seguisse o coração em vez da razão tudo daria certo.
Na verdade, em certas ocasiões a emoção pode ser um
substituto para a razão. O programa de ação emocional que denominamos medo pode
afastar rapidamente do perigo a maioria dos seres humanos com pouca ou nenhuma
ajuda da razão. Um esquilo ou um pássaro não pensa para reagir a uma ameaça, e
o mesmo pode acontecer a um humano. Aí é que está a beleza no modo como a
emoção tem funcionado no decorrer da evolução: ela abre a possibilidade de
levar seres vivos a agir de maneira inteligente sem precisar pensar com
inteligência. Acontece que, nos humanos, essa história tornou-se mais
complexa, para o bem e para o mal. O raciocínio faz o que fazem as emoções, mas
alcança o resultado conscientemente. O raciocínio nos dá a opção de pensar com
inteligência antes de agir de maneira inteligente, e isso é bom: descobrimos
que muitos dos problemas que encontramos em nosso complexo ambiente podem ser
resolvidos apenas com emoções, porém não todos, e nestas ocasiões as soluções que
a emoção oferece são, na realidade, contraproducentes.
Mas como evoluiu nas espécies complexas o sistema
de raciocínio inteligente? A proposta inovadora em O erro de Descartes é
que o sistema de raciocínio evoluiu como uma extensão do sistema emocional automático,
com a emoção desempenhando vários papéis no processo de raciocínio.
O erro de
Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. 2012. (Adaptado).
O verbo sublinhado, na conjugação em que se
apresenta, indica um fato pontual no passado no seguinte trecho:
a) “se você seguisse o coração em vez da razão
tudo daria certo” (1º parágrafo).
b) “a emoção era um substituto
para a razão” (1º parágrafo).
c) “construí a hipótese de que a
emoção era parte integrante do processo de raciocínio” (1º parágrafo).
d) “Baseado em meu estudo de pacientes
neurológicos que apresentavam deficiências na tomada de
decisão” (1º parágrafo).
e) “O raciocínio nos dá a opção
de pensar com inteligência antes de agir de maneira inteligente” (2º
parágrafo).
QUESTÃO 04
Leia o trecho do ensaio O filtro da leitura,
de Luís Augusto Fischer.
Num exemplo esquemático: imaginemos que, quando
menino, um filho tenha um momento de raiva contra o pai, uma daquelas raivas
radicais que qualquer um tem, mas não confessa; e suponhamos que, bem na hora
em que o menino esteja vivendo essa raiva, chegue a notícia de que o pai sofreu
um acidente de carro, um terrível acidente, que o deixa estragado, que talvez
até o mate. Na cabeça do menino, se estabelece uma relação de causa e consequência
entre a raiva e o acidente, de forma que ele passe a viver, inconscientemente,
como um culpado pelo problema todo. Será capaz de viver décadas carregando essa
culpa, arrastando-a para onde for, sem sequer saber que ela existe, porque a
relação de causa e efeito se estabeleceu num nível totalmente inconsciente,
inacessível para a consciência racional, salvo, segundo Freud, pela análise.
Análise que, nesse exemplo, trataria de trazer tal nexo causal para a
consciência, para desfazê-lo, para mostrar que ele não tem cabimento, porque
é uma falsa crença.
Filosofia mínima: ler,
escrever, ensinar, aprender. 2011.
O autor do ensaio inclui o leitor em seu texto no
seguinte trecho:
a) “de forma que ele passe a viver,
inconscientemente, como um culpado pelo problema todo”.
b) “Num exemplo esquemático: imaginemos que,
quando menino, um filho tenha um momento de raiva contra o pai”.
c) “Na cabeça do menino, se estabelece uma
relação de causa e consequência entre a raiva e o acidente”.
d) “porque a relação de causa e efeito se
estabeleceu num nível totalmente inconsciente, inacessível para a consciência
racional”.
e) “Será capaz de viver décadas carregando essa
culpa, arrastando-a para onde for, sem sequer saber que ela existe”.
QUESTÃO
O livro Últimos Cantos, de Gonçalves
Dias, reúne poemas de gêneros e temáticas variados. Há elegia, idílio,
poema épico, lírico, de temática nacionalista, indianista, amorosa, etc.
Em cada alternativa abaixo, há uma estrofe de um
poema desse livro; entre parênteses está o título do poema. Citam-se estrofes
de poemas narrativos e apenas uma estrofe de poema não narrativo. Assinale a
alternativa que contém uma estrofe não narrativa.
a) “Eu sob a copa da mangueira altiva/ Nosso
leito gentil cobri zelosa/ Com mimoso tapiz de folhas brandas,/ Onde o frouxo
luar brinca entre flores.” (Leito de Folhas Verdes).
b) “Meu pai a meu lado/ Já cego e quebrado,/ De
penas ralado,/ Firmava-se em mi:/ Nós ambos, mesquinhos,/ Por ínvios caminhos,/
Cobertos d’espinhos/ Chegamos aqui!” (I-Juca-Pirama).
c) “Vem meu amigo, dizia/ A bela fada
engraçada,/ Pulsando a harpa dourada:/ — Sou boa, não faço mal,/ Vem ver meus
belos palácios,/ Meus domínios dilatados,/ Meus tesouros encantados/ No meu
reino de cristal.” (A Mãe d’Água).
d) “Para as serras do Gerez/ Toca a rês,/ Toca a
rês, gentil pastora;/ Lá te aguarda o bom pastor,/ Teu amor,/ Que te chama
encantadora.” (A pastora).
e) “Beijos que são? — Ai do peito,/ Selo breve,
laço estreito/ Dum cansado bem querer;/ Saibo de gozos divinos,/ Que nos lábios
femininos/ Quis Deus bondoso verter.” (Os beijos).
- Os textos a seguir serão utilizados nas questões 6 e 7.
TEXTO I
É ela! é ela! – murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou – é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura –
a minha lavadeira na janela.
Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
AZEVEDO, Álvares de. É ela! É ela! É ela! É ela.
In: Álvares de Azevedo. São Paulo: Abril Educação, 1982. p. 44.
TEXTO
![]() |
MARTIN-KAVEL, François. Sem título. |
QUESTÃO 06
Tanto a pintura quanto o excerto apresentados
pertencem ao Romantismo. A diferença entre ambos, porém, diz respeito ao
fato de que
a) no fragmento verifica-se o retrato de um ser
idealizado, ao passo que no quadro tem-se uma figura retratada de modo
pejorativo.
b) na pintura tem-se o retrato de uma mulher de
feições austeras, ao passo que no poema nota-se a descrição de uma mulher
sofisticada.
c) no excerto tem-se a descrição realista e não
idealizada de uma mulher, ao passo que na pintura retrata-se uma mulher
pertencente à burguesia.
d) na imagem tem-se uma moça cuja caracterização
é abstrata, ao passo que no poema tem-se uma mulher cujo aspecto é burguês e
requintado.
e) no quadro constata-se a imagem de uma moça
simplória, ao passo que no poema nota-se a caracterização de uma donzela de
vida airada.
QUESTÃO 07
Nas estrofes iniciais de É ela! É ela!,
de Álvares de Azevedo, o sujeito lírico mostra-se atordoado diante das facetas
discrepantes de sua amada, que ora lhe aparece como “fada aérea e pura”, ora
como simples “lavadeira”. O autor explora essa duplicidade da figura da amada
com o propósito evidente de ___ uma das características centrais da
estética ultrarromântica, qual seja, ___.
Assinale a alternativa cujas informações preenchem
corretamente as lacunas do enunciado.
a) ridicularizar / a representação das classes
operárias.
b) ilustrar / a religiosidade.
c) ironizar / o uso do poema-piada.
d) ilustrar / a preocupação com a atividade
econômica.
e) ironizar / a idealização da figura feminina.
QUESTÃO 08
O tédio profundo
O excesso de positividade se manifesta também como
excesso de estímulos, informações e impulsos. Modifica radicalmente a estrutura
e economia da atenção. Com isso se fragmenta e destrói a atenção. Também a
crescente sobrecarga de trabalho torna necessária uma técnica específica
relacionada ao tempo e à atenção, que tem efeitos novamente na estrutura da
atenção. A técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa)
não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma
capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de
informação pós-moderna. Trata-se1 antes de um
retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em
estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para
sobreviver na vida selvagem.
Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua
comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo com outras atividades. Deve cuidar para
que2, ao comer, ele próprio não acabe comido. Na vida selvagem,
o animal está obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades. Por
isso3, não é capaz de aprofundamento contemplativo – nem para
comer, nem no copular. O animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem
diante de si, pois tem de elaborar ao mesmo tempo o que tem atrás
de si. Não apenas a multitarefa, mas também
atividades como jogos de computador geram uma atenção ampla, mas rasa, que
se assemelha4 à atenção de um animal selvagem. As mais
recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura da atenção aproximam cada
vez mais a sociedade humana da vida selvagem.
HAN, Byung-Chul. Sociedade
do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. p. 31-32. (Adaptado.)
Para a adequada interpretação do texto, é
necessário identificar a que informações, apresentadas previamente,
correspondem algumas expressões de sentido vago e empregadas pelo autor. Isso
posto, considere as seguintes afirmativas:
1) Na expressão “para que”, ref. 2, “que” é pronome
relativo cujo referente é “ele próprio”.
2) O termo “se” na expressão “trata-se”, ref. 1,
refere-se a “técnica de atenção”.
3) O termo “se” na expressão “que se assemelha”,
ref. 4, é marca de indeterminação.
4) “Por isso”, ref. 3, estabelece relação
conclusiva com o período imediatamente anterior.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente a afirmativa 4 é verdadeira.
b) Somente as afirmativas 1 e 4 são verdadeiras.
c) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
d) Somente as afirmativas 1, 2 e 3 são
verdadeiras.
e) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.
QUESTÃO 09
Temple Grandin empacou diante da porteira. Alguns
parafusos cravados na madeira lhe saltaram aos olhos. “Tem que limar a cabeça
desses parafusos, se não o gado pode se machucar”, aconselhou à dona da
fazenda, Carmen Perez, que ao lembrar a cena comentou: “Sempre passo no curral
antes do manejo, observo tudo, dizem que tenho olho biônico, e ela notou uma
coisa que eu não tinha visto.”. Grandin tem um parafuso a mais quando se trata
do bem-estar dos bichos. Professora de ciência animal, ela é autista e dona de
uma hipersensibilidade visual e auditiva. Tocada pelas angústias do gado desde
a juventude, ela compreendia por que a rês recuava na hora da vacinação, por
que atacava um vaqueiro, por que tropeçava, por que mugia. Grandin traduziu
esse entendimento em projetos que propunham mudanças no manejo. Hoje,
instalações criadas por ela são familiares a quase metade dos bovinos nos
Estados Unidos. O Brasil, com seus quase 172 milhões de cabeças de gado,
segundo o Censo Agropecuário de 2017, vem aos poucos fazendo ajustes alinhados
com as propostas da americana.
Em julho passado, Grandin, hoje com 71 anos, veio
ao Brasil pela sexta vez. Na fazenda Orvalho das Flores, localizada em Barra do
Garças (MT), ela testemunhou como a equipe de Perez conduz suas 2 980 cabeças
de Nelore, raça predominante no país. Os vaqueiros massageiam os bezerros, não
gritam com os bois, tampouco deixam capas de chuva, correntes ou chapéus no
caminho dos animais.
A engenheira agrônoma Maria Lucia Pereira Lima foi
aluna de pós-doutorado de Grandin na Universidade do Estado do Colorado, em
Fort Collins, em 2013. Viajara aos Estados Unidos para aprender como medir o
bem-estar dos bovinos e se inteirar de inovações que pudessem ser implantadas
em currais brasileiros. Uma delas, por exemplo, tranquiliza o animal conduzido
à vacinação: o gado em geral se via obrigado a passar espremido por espaços
afunilados. Grandin projetou um acesso em curva, sem cantos, que dá à rês a
ilusão de que voltará ao ponto de partida. Outra: uma lâmpada acesa na entrada
do tronco de contenção – o equipamento que permite o manejo individual do boi –
a indicar o trajeto reduziu em até 90% o uso de choque elétrico durante o
processo. [...]
No auditório da universidade, outros pesquisadores
se revezavam no palco discutindo aspectos econômicos e sociais relacionados ao
bem-estar animal. O tempo de manejo cai pela metade nos estabelecimentos
agropecuários que seguem os manuais de Grandin. De ovos transportados com
cuidado nascem pintinhos sadios. Sem falar na melhor qualidade de vida de quem
lida com esses bichos. Vaqueiros bem treinados sofrem menos acidentes no
trabalho e desenvolvem uma relação mais harmoniosa nos casamentos. “A
melhoria do bem-estar animal melhora o bem-estar humano”, afirmou o zootecnista
Mateus Paranhos da Costa, da Universidade Estadual Paulista.
Disponível em:
https://piaui.folha.uol.com.br/materia/encantadora-de-bois/ (Adaptado.)
Observe os elementos destacados na passagem: “Sempre
passo no curral antes do manejo, observo tudo, dizem que tenho
olho biônico, e ela notou uma coisa que eu não tinha
visto”, presente no primeiro parágrafo.
As palavras destacadas exercem
a) funções diferentes, pois o primeiro “que” é
conjunção integrante e introduz uma oração coordenada, enquanto o segundo “que”
é pronome relativo e introduz uma oração explicativa.
b) funções diferentes, pois o primeiro “que” é
uma conjunção subordinativa, enquanto o segundo é um pronome relativo, tendo
como antecedente o termo “coisa”.
c) mesma função, pois ambos são conjunções
subordinativas, sendo que o primeiro introduz uma oração substantiva, enquanto
o segundo, uma oração adverbial restritiva.
d) mesma função, pois ambos os pronomes “que”
retomam vocábulos anteriores, sendo o verbo “dizem” e o substantivo “coisa”
seus antecedentes respectivamente.
e) mesma função, pois ambos são conjunções,
porém o primeiro “que” é uma conjunção subordinativa, enquanto o segundo, uma
conjunção coordenativa.
QUESTÃO 1
Assinale a alternativa correta quanto ao emprego do
pronome relativo.
a) Aquele era o homem do qual Miguel
devia favores.
b) Eis um homem de quem o
caráter é excepcional.
c) Refiro-me ao livro que está
sobre a mesa.
d) Aquele foi um momento onde eu
tive grande alegria.
e) As pessoas que falei
são muito ricas.
Leia o texto para responder às questões 11 e 12.
Canção do exílio
Gonçalves Dias
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Cinco estrelas. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2001. Coleção Literatura em Minha Casa.
QUESTÃO 11
Os temas nacionalistas tiveram grande
preponderância em uma das gerações do romantismo. Esse tipo de abordagem foi
comum na:
a) Primeira geração.
b) Segunda geração.
c) Terceira geração.
d) Geração condoreira.
e) Geração ultrarromântica.
QUESTÃO 12
A presença de alguns advérbios denota o local em
que se encontra o eu lírico no momento da enunciação do poema. Esses advérbios
atuam semanticamente indicando:
a) Presença
b) Causa
c) Espacialidade
d) Temporalidade
e) Exterioridade
QUESTÃO 13
Mas, para garantir um trajeto tranquilo e sem
grandes aborrecimentos, existem algumas regras de etiqueta que podem ser
seguidas. Confira as dicas dadas pelo vice-presidente do Sindicato Nacional dos
Aeronautas (SNA), Cláuver Castilho, e pela criadora do blog Aerolindas, que
retrata o dia a dia de aeromoças, Letícia Ramos.
Disponível em:
https://g1.globo.com/turismo-e-viagem/noticia/2023/07/13/controle-da-janela-levar-lanchinho-perturbar-ocomissario-veja-regras-de-etiqueta-durante-o-voo.ghtml.
Os pronomes relativos do trecho podem ser
substituídos respectivamente por:
a) As quais; o qual
b) À qual; a que
c) As quais; a qual
d) Cujas; a qual
e) Os quais; em que
QUESTÃO 14
Marque a alternativa em que o verbo marque ideia
semântica de hipótese:
a) Os problemas são complexos em sua estrutura.
b) Ele voltaria em breve.
c) Os olhos brilharam em súbito desejo.
d) A moça arraigava suas intenções.
e) Passaremos a virada do ano em júbilo.
QUESTÃO 15
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que
horror!”
ALVES, Castro. O navio negreiro.
In: Os escravos. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1977.
Uma característica marcante da 3ª fase do
romantismo brasileiro presente no poema é:
a) Nacionalismo ufanista
b) Adjetivação abundante
c) Tom exclamativo
d) Morte como escapismo
e) Indianismo
QUESTÃO 16
As filhas ___ mães estão envelhecidas já
não se encontram aqui.
Preenche-se corretamente a lacuna com:
a) Que
b) As quais
c) Os quais
d) Cujo
e) Cujas
- Leia o texto a seguir para responder às questões 17 e 18.
No
meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas
de troncos – cobertos de flores,
Alteiam-se
os tetos d’altiva nação;
São
muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis
na guerra, que em densas coortes
Assombram
das matas a imensa extensão.
São
rudos, severos, sedentos de glória,
Já
prélios incitam, já cantam vitória,
Já
meigos atendem à voz do cantor:
São
todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu
nome lá voa na boca das gentes,
Condão
de prodígios, de glória e terror!
As
tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As
armas quebrando, lançando-as ao rio,
O
incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos
das guerras que os fortes acendem,
Custosos
tributos ignavos lá rendem,
Aos
duros guerreiros sujeitos na paz.
No
centro da taba se estende um terreiro,
Onde
ora se aduna o concílio guerreiro
Da
tribo senhora, das tribos servis:
Os
velhos sentados praticam d’outrora,
E
os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se
em torno dum índio infeliz.
Disponível em:
www.biblio.com.br/conteudo/GoncalvesDias/IJucaPirama.htm.
QUESTÃO 17
Sobre os elementos formais do poema, é correto
dizer que possui:
a) Forma de soneto.
b) Versos sem rima.
c) Métrica regular.
d) Versos livres.
e) Construção em prosa.
QUESTÃO 18
O poema possui temática:
a) Indianista
b) Intimista
c) Separatista
d) Medievalista
e) Ultrarromântica
- Leia o texto para responder às questões 19 e 20.
Meus oito anos
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
ABREU, Casimiro. Disponível em:
www.aoredor.blog.br/post/meus-oito-anos-casimiro-de-abreu.
QUESTÃO 19
O poema possui majoritariamente um tom:
a) Amoroso
b) Saudosista
c) Materialista
d) Universalista
e) Minimalista
QUESTÃO 20
Sobre a relação entre o poema e o Romantismo, é
correto dizer que:
a) Foge da perspectiva típica do Romantismo.
b) Está inadequado por possuir caráter barroco.
c) Adequa-se ao escapismo temporal tipicamente
romântico.
d) Aproxima-se do Romantismo por sua temática
social.
e) Afasta-se do Romantismo por ter
características góticas.
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C |
A |
B |
C |
DID YOU HEAR THAT?
A) Watch the video excerpt. How impressionable are the characters? LINK TO THE VIDEO B) The end - What will happen if Tom decides to...
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QUESTÃO 1 Examine a tirinha do cartunista Jean Galvão. Na construção do sentido de sua tirinha, o cartunista explora, sobretudo, o r...
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QUESTÃO 1 Choose the best option to describe the boy’s feelings about going back to school. a) In August 2019, the boy looks scared but ...
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O cruzeiro do coracle Não sei quanto tempo eu dormi, mas já era dia claro quando acordei e vi que estava a sudoeste da Ilha do Tesouro...



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