1. Fonética vs. Fonologia
Para iniciarmos nossas reflexões teóricas,
precisamos responder a uma pergunta primordial: o que constitui o objeto de
estudo da Fonética e como ele se diferencia do objeto da Fonologia?
A Fonética é a ciência linguística que se
dedica à investigação dos aspectos físicos, fisiológicos e acústicos da
produção e percepção dos sons da fala humana. Seu foco recai sobre a
articulação motora, a transmissão das ondas sonoras pelo ar e a recepção
auditiva dos segmentos fônicos, investigando a substância do som em sua
concretude empírica, independentemente de sua função gramatical ou da alteração
de significado em uma língua específica. O objeto concreto da Fonética é o fone
(ou som da fala), que corresponde à realização física e individual da emissão
vocal, representado obrigatoriamente entre colchetes.
Em contrapartida, a Fonologia ocupa-se da
dimensão abstrata, funcional e sistêmica da linguagem. Seu objeto de estudo é o
fonema, representado entre barras inclinadas. O fonema não é o
som físico em si, mas uma unidade mental mínima capaz de estabelecer contraste
e opor significados dentro do sistema de uma língua (por exemplo, a oposição
funcional entre /p/ e /b/ que estabelece a diferença de sentido entre as
palavras pato e bato).
O quadro a seguir sintetiza e compara as
divergências teóricas e metodológicas entre ambos os campos da Linguística:
|
Critério |
Fonética |
Fonologia |
|
Natureza do objeto |
Concreta,
física, fisiológica e acústica. |
Abstrata,
mental, funcional e sistêmica. |
|
Unidade de análise |
Fone
(som da fala concretamente realizado). |
Fonema
(unidade fônica mínima com valor distintivo) |
|
Representação |
Entre
colchetes: [...] |
Entre
barras inclinadas: /.../ |
|
Foco da abordagem |
Produção
anatômica, propriedades acústicas e percepção auditiva. |
Função
linguística, valor opositivo e regras de distribuição no sistema. |
|
Sensibilidade à variação |
Captura
variações individuais, geográficas, sociais e contextuais. |
Neutraliza
variações não distintivas (alofonia), focando na abstração formal. |
Importante: Esteja atento à convenção formal! Quando
estivermos descrevendo a realização física e articulatória de um som concreto,
utilizaremos obrigatoriamente colchetes, como em [t]. Quando nos referirmos à
unidade abstrata e funcional pertencente ao sistema mental da língua,
utilizaremos barras inclinadas, como em /t/.
2. Anatomia do aparelho fonador
A produção da fala humana é um fenômeno fisiológico
que reaproveita estruturas anatômicas cujas funções primárias são vitais para a
sobrevivência, como a respiração e a mastigação. O conjunto integrado dessas
estruturas recebe o nome de Aparelho Fonador.
Antes de detalharmos a anatomia, convido você a
fazer uma breve experiência cinestésica:
Prática Articulatória: Coloque os dedos levemente
sobre a sua laringe (na região do pomo de Adão) e pronuncie o som sustentado
[sssss]. Em seguida, sem interromper o fluxo de ar, transicione para o som
[zzzzz]. Percebeu a nítida vibração que surge sob os seus dedos durante o
segundo som? Essa vibração é a sua glote em plena atividade!
Didaticamente,
dividimos o aparelho fonador em três partes constituintes, responsáveis pela
geração de energia, produção do som base e modulação acústica:
a) Órgãos
respiratórios (sistema respiratório)
Compreende os pulmões, os brônquios, a traqueia e a
musculatura torácica (músculos intercostais e diafragma). Na imensa maioria das
línguas do mundo, incluindo o português, a fala é produzida por meio de um
fluxo de ar egressivo (que sai dos pulmões em direção ao exterior). Os
pulmões funcionam como um fole dinâmico que fornece a energia necessária: a
corrente de ar sob pressão que subirá pela traqueia até atingir a laringe.
b)
Laringe e glote (sistema fonatório)
Localizado na região anterior do pescoço, o sistema
fonatório é constituído pelo arcabouço cartilaginoso da laringe e pelas pregas
vocais (estruturas musculomembranosas). O espaço variável entre as pregas
vocais recebe o nome de glote. Quando o ar egressivo passa pela glote,
as pregas vocais podem se aproximar e vibrar rapidamente em resposta à pressão
subglótica (efeito Bernoulli), gerando os sons vozeados (ou sonoros).
Caso as pregas vocais permaneçam relaxadas e afastadas, o ar escoa sem provocar
vibração, produzindo sons não-vozeados (ou surdos).
c)
Cavidades de ressonância (sistema articulatório)
Situam-se acima da laringe e abrangem as cavidades
faríngea, oral (boca) e nasal. Este sistema atua como uma caixa de ressonância
acústica e um filtro modulador flexível. Conforme o ar passa por essas
cavidades, o movimento e a configuração dos órgãos articuladores alteram a
forma do trato vocal, transformando o som primário emitido pela laringe nos
múltiplos fones consonânticos e vocálicos da língua.
Sintetizando
as funções de parte na produção fônica:
Orgãos respiratórios: fornecem a fonte energética
(corrente de ar pulmonar egressiva).
Laringe e glote: Atuam como gerador acústico primário (vibração ou
ausência de vibração das pregas vocais na glote).
Cavidades de ressonância: Funcionam como filtro ressonador
e articulador final (modulação acústica nas cavidades faríngea, oral e nasal).
3. Dinâmica articulatória: articuladores ativos e
passivos
No interior das cavidades de ressonância, a
variedade de sons que conseguimos emitir resulta do encontro ou da aproximação
entre duas categorias de estruturas anatômicas: os articuladores ativos
e os articuladores passivos.
Articuladores ativos: são as estruturas móveis que se
deslocam ativamente no espaço do trato vocal para provocar oclusões,
estreitamentos ou desvios na passagem da corrente de ar.
- Língua: o articulador mais dinâmico e flexível,
subdividido em ápice (ponta), lâmina, dorso e raiz.
- Lábio inferior: estrutura flexível que pode se mover em direção ao
lábio superior ou aos dentes incisivos superiores.
- Véu palatino (palato mole): estrutura muscular móvel
localizada na porção posterior do teto da boca, capaz de se elevar ou abaixar.
Articuladores passivos: São as estruturas fixas ou
imóveis contra as quais os articuladores ativos se apoiam ou se aproximam para
moldar o som.
- Lábio superior: ao contrário do inferior, o lábio superior não se
move na articulação.
- Dentes superiores: especialmente os incisivos
centrais superiores.
- Alvéolos: a região saliente e rugosa situada imediatamente
atrás dos dentes incisivos superiores.
- Palato duro: a abóbada óssea rígida que constitui o teto
anatômico da cavidade oral (céu da boca).
- Úvula: pequeno apêndice cônico de tecido muscular e
mucosa localizado na parte posterior do palato mole.
Teste articulatório: Faça a experiência agora mesmo
– pronuncie devagar a palavra tatu e perceba exatamente onde o ápice da
sua língua toca. Em seguida, diga faca e observe o contato do seu lábio
inferior com os dentes superiores. Notou como o seu cérebro e seu trato vocal
coordenam esses movimentos em milissegundos?
Importante: O véu palatino desempenha um papel de
“válvula” decisiva na definição do caminho acústico do som. Quando o véu
palatino está elevado e pressionado contra a parede posterior da faringe,
a passagem para a cavidade nasal fica completamente bloqueada; o ar é forçado a
sair exclusivamente pela boca, produzindo sons orais (como [a], [p],
[s]). Quando o véu palatino se abaixa, o ar ganha acesso livre à
cavidade nasal e ressoa nela, produzindo sons nasais (como [m], [n],
[ɐ̃]).
4. Parâmetros de classificação fonética e
transcrição em IPA
Para descrever e registrar qualquer som da fala
humana de maneira rigorosa e globalmente compreensível, a Linguística utiliza o
Alfabeto Fonético Internacional (IPA - International
Phonetic Alphabet). A classificação dos segmentos fônicos divide-se
entre consoantes e vogais, aplicando critérios articulatórios delimitados.
Classificação
das consoantes
As consoantes são produzidas por meio de algum tipo
de obstrução ou estreitamento significativo na passagem do ar pelo trato vocal.
São classificadas a partir de três critérios primordiais:
1. Modo de articulação: refere-se ao tipo de obstáculo
ou modificação imposta à corrente de ar.
- Oclusivas: fechamento total do trato vocal seguido de soltura
repentina do ar (ex.: [p], [b], [t], [d]).
- Fricativas: estreitamento parcial que gera um ruído de fricção
audível (ex.: [f], [v], [s], [z], [ʃ], [ʒ]).
- Africadas: segmentos complexos que combinam uma fase de
oclusão seguida de imediatamente por uma soltura fricativa no mesmo ponto
articulatório (ex.: [tʃ] em tia; [dʒ] em dia).
- Nasais: oclusão na cavidade oral com abaixamento do véu
palatino, permitindo a saída livre do ar pela cavidade nasal (ex.: [m], [n],
[ɲ]).
- Laterais: a língua bloqueia a passagem central da boca,
forçando o ar a escoar pelas laterais da cavidade oral (ex.: [l], [ʎ]).
- Vibrantes simples (tepes/flepes): golpe rápido e único de um
articulador ativo com um articulador passivo (no caso do português, da língua
contra a região alveolar, já que temos apenas [ɾ] como em caro).
2. Ponto de articulação: identifica a região anatômica
precisa onde o articulador ativo se aproxima ou toca o articulador passivo.
- Bilabial: contato entre o lábio inferior e o lábio superior
(ex.: [p], [b], [m]).
- Labiodental: aproximação entre o lábio inferior e os dentes
incisivos superiores (ex.: [f], [v]).
- Dental/alveolar: o ápice ou lâmina da língua toca
os dentes superiores ou a região alveolar (ex.: [t], [d], [s], [z], [l], [n],
[ɾ]).
- Palatal: o dorso da língua aproxima-se ou toca o palato
duro (ex.: [ɲ], [ʎ], [ʃ], [ʒ], [tʃ], [dʒ]).
- Velar: o dorso posterior da língua aproxima-se ou toca o
véu palatino (ex.: [k], [g]).
- Glotal: feitos com a manipulação da abertura/fechamento
das pregas vocais, havendo em português apenas as fricativas [h] e [ɦ].
3. Vozeamento/Sonoridade: Refere-se à atividade das pregas
vocais na laringe.
- Surdas / Não vozeadas: Produzidas sem vibração das
pregas vocais (ex.: [p], [t], [k], [f], [s], [ʃ], [tʃ]).
- Sonoras / Vozeadas: Produzidas com vibração ativa
das pregas vocais (ex.: [b], [d], [g], [v], [z], [ʒ], [m], [n], [l], [ɾ],
[dʒ]).
Classificação
das vogais
As vogais são produzidas por uma passagem contínua
e livre da corrente de ar egressiva, sem oclusões ou fricções audíveis no trato
vocal. São classificadas a partir de quatro parâmetros fundamentais:
a) Altura da língua (eixo vertical): altas/fechadas (ex.: [i], [u]),
médias-fechadas (ex.: [e], [o]), médias-abertas (ex.: [ɛ], [ɔ]) e
baixas/abertas (ex.: [a]).
b) Anterioridade/posterioridade (eixo horizontal): anteriores (ex.: [i], [e],
[ɛ]), centrais (ex.: [a]) e posteriores (ex.: [u], [o], [ɔ]).
c) Arredondamento dos lábios: Arredondadas (ex.: [u], [o],
[ɔ]) e não arredondadas (ex.: [i], [e], [ɛ], [a]).
d) Ressonância (caminho do ar): orais (ar escoa exclusivamente
pela boca) e nasais (ar passa também pela cavidade nasal, como [ɐ̃], [ĩ], [ũ]).
Exercício: você pode perceber como funciona a classificação
se tentar pronunciar, em sequência, <a é ê i u ô ó a>. A cavidade oral e
a língua estão numa configuração neutra com [a], e ficam em posição anterior em
[ɛ], [e], [i], o que é perceptível ao vermos os nossos dentes. A cada vogal, a
boca se fecha um pouco mais. Já em [u], vai-se ao fundo da boca e os lábios
formam um bico (arredondamento). Em [o] e [ɔ], mantém-se a posição posterior,
mas a boca se abre um pouco mais a cada vogal, até retornarmos ao [a]. Repita a
sequência algumas vezes.
O quadro a seguir apresenta um inventário fonético
com alguns dos segmentos representativos do Português do Brasil, seus símbolos
no IPA, a descrição articulatória completa e exemplos contextualizados:
|
Símbolo |
Descrição articulatória |
Exemplo no português |
|
[p] |
Consoante
oclusiva bilabial surda |
pato
['pa.tu] |
|
[b] |
Consoante
oclusiva bilabial sonora |
bato
['ba.tu] |
|
[t] |
Consoante
oclusiva alveolar surda |
tatu
[ta'.tu] |
|
[tʃ] |
Consoante
africada pós-alveolar surda |
tia
['tʃi.ɐ] |
|
[dʒ] |
Consoante
africada pós-alveolar sonora |
dia
['dʒi.ɐ] |
|
[f] |
Consoante
fricativa labiodental surda |
faca
['fa.kɐ] |
|
[s] |
Consoante
fricativa alveolar surda |
sapo
['sa.pu] |
|
[m] |
Consoante
nasal bilabial sonora |
mapa
['ma.pɐ] |
|
[ɾ] |
Consoante
tepe alveolar sonora |
caro
['ka.ɾu] |
|
[i] |
Vogal
alta anterior não-arredondada |
vida
['vi.dɐ] |
|
[e] |
Vogal
média-alta anterior não arredondada |
vê
['ve] |
|
[ɛ] |
Vogal
média-alta anterior não-arredondada |
pé
['pɛ] |
|
[a] |
Vogal
baixa central não-arredondada |
pai
['paj] |
|
[ɔ] |
Vogal
média-baixa posterior arredondada |
avó
[a'vɔ] |
|
[o] |
Vogal
média-alta posterior arredondada |
avô
[a'vo] |
|
[u] |
Vogal
alta posterior arredondada |
tudo
['tu.du] |
|
[ɐ̃] |
Vogal
baixa central não-arredondada nasalizada |
fã
['fɐ̃] |
Numa representação mais próxima do Alfabeto
Fonético Internacional, podemos representar o inventário fonético do português
brasileiro também como no quadro a seguir (ver Barbosa e Albano, 2004):
Consoantes
|
Modo / Lugar |
Bilabial |
Labiodental |
Dento-alveolar |
Pós-alveolar |
Palatal |
Velar |
Glotal |
|
Oclusiva |
p b |
|
t d |
|
|
k ɡ |
|
|
Africada |
|
|
|
(tʃ) (dʒ) |
|
|
|
|
Nasal |
m |
|
n |
|
ŋ |
|
|
|
Tepe |
|
|
ɾ |
|
|
|
|
|
Fricativa |
|
f v |
s z |
ʃ ʒ |
|
(x) (ɣ) |
(h) (ɦ) |
|
Lateral |
|
|
l |
|
ʎ |
|
|
Vogais orais
|
|
Anterior |
Central |
Posterior |
|
Alta |
i (ɪ) |
|
u (ʊ) |
|
Média-alta |
e |
|
o |
|
Média-baixa |
ɛ |
|
ɔ |
|
Baixa |
|
a (ɐ) |
|
Vogais nasalizadas
|
|
Anterior |
Central |
Posterior |
|
Alta |
ĩ |
|
ũ |
|
Média |
ẽ |
ɐ̃ |
õ |
|
Baixa |
|
|
|
Existe ainda uma última categoria de sons que é o
das semivogais ou semiconsoantes, assim chamadas por sua
transitoriedade entre as duas classes. No que tange à articulação, são aproximantes:
os articuladores se aproximam até quase se tocarem, mas sem haver obstrução de
fato. Em português brasileiro, há a aproximante palatal sonora [j] e a aproximante
lábio-velar sonora [w]. Quando ocorrem em ditongos, alguns autores
consideram que são variantes não silábicas (que não são núcleo de sílaba) de
/i/ e /u/: mais [ˈmajs], mau [ˈmaw].
P.s.: Estão entre parênteses os fones de ocorrência
restrita a alguns casos de alofonia.
5. Assimetria entre fala e escrita e aplicações no
ensino de português como língua estrangeira (PLE)
Um dos maiores equívocos no estudo e no ensino da
linguagem é confundir o som da fala com a letra da escrita. Entre o sistema
fônico (realidade acústica e articulatória) e o sistema ortográfico (convenção
gráfica e visual), existe uma marcante assimetria (não biunivocidade).
Isso significa que não existe uma correspondência direta e rígida de um para um
entre fones e grafemas.
Observemos
como essa assimetria se manifesta no Português do Brasil:
- Um mesmo grafema representando múltiplos fones: O grafema <x> pode
representar fones fricativos e complexos distintos dependendo do contexto
vocabular: [ʃ] em enxame, [z] em exame, [ks] em táxi, e
[s] em texto.
- Múltiplos grafemas representando um mesmo fone: O fone fricativo alveolar
vozeado [z] é representado graficamente por letras totalmente distintas em zebra,
casa e exame.
- Grafemas sem qualquer correspondência fônica: A letra <h> em início de
palavras (hoje, história) não possui realização no português
contemporâneo.
Implicações
no ensino de português como língua estrangeira (PLE)
Essa assimetria exige atenção metodológica
redobrada dos educadores de Português como Língua Estrangeira (PLE). Aprendizes
estrangeiros fazer trocas devido a interferência ortográfica, tentando
pronunciar o texto escrito com base nas regras de correspondência grafema-fone
de sua língua materna ou aplicando uma leitura estritamente literal das letras.
Ao realizarmos uma análise contrastiva,
percebemos desafios específicos a depender da língua de origem do estudante
(seguem alguns exemplos):
a) Falantes nativos de espanhol: tendo um sistema vocálico
composto por apenas 5 vogais orais /a, e, i, o, u/, aprendizes hispanofalantes
enfrentam enorme dificuldade para perceber e produzir as oposições entre vogais
médias-altas e médias-baixas no português ([e] vs. [ɛ] em ele/ela; [o]
vs. [ɔ] em post/poste). Além disso, como o espanhol não possui as
fricativas vozeadas [v] e [z], é comum que fundam [v] com [b] (pronunciando vaca
como ['ba.ka]) ou [z] com [s] (pronunciando casa como ['ka.sa]).
b) Falantes nativos de inglês: Estudantes anglófonos
frequentemente enfrentam grandes barreiras para produzir as vogais nasais
do português ([ɐ̃], [õ], [ĩ]). Em vez de abaixarem o véu palatino durante a
emissão da vogal, eles tendem a pronunciar uma vogal oral seguida de uma
consoante nasal implosiva [n] ou [ŋ] (pronunciando pão como [paŋ] ou mão
como [man]).
Aplicação
no ensino de PLE
Para o ensino de fonética em turmas de PLE, o
professor pode considerar as seguintes diretrizes pedagógicas em sala de aula:
- Separação conceitual explícita: Demonstre desde a primeira aula
a distinção entre letra (grafema visual) e som (fone acústico), desmistificando
a leitura literal.
- Uso consciente de transcrições em IPA: Utilize símbolos do IPA no
quadro para explicitar visualmente a pronúncia de palavras altamente
assimétricas (ex.: demonstrando a diferença entre sede ['se.dʒi] e sede
['sɛ.dʒi]).
- Treinamento auditivo discriminativo: Antes de cobrar a produção
motora perfeita de um fone, promova exercícios de escuta ativa para que o
aprendiz consiga primeiramente discriminar auditivamente as oposições
inexistentes em sua língua materna.
- Trabalho com pares mínimos: Empregue pares de palavras que
se diferenciem por apenas um segmento fônico (ex.: pau ['paw] vs. mau
['maw]; caça ['ka.sɐ] vs. casa ['ka.zɐ]; vovô [vo'vo] vs. vovó
[vo'vɔ]) para consolidar a percepção articulatória e fonológica.
Em síntese:
- A Fonética estuda a realização física e
concreta do som ([...]), ao passo que a Fonologia investiga a unidade
mental abstrata e funcional (/.../).
- O Aparelho fonador é tripartite: sistema
respiratório (fonte de energia pulmonar), sistema fonatório (gerador de som
primário na glote) e sistema articulatório (modulador e ressonador acústico).
- A articulação dos sons decorre do encontro
dinâmico entre articuladores ativos (língua, lábio inferior, véu
palatino) e articuladores passivos (dentes superiores, alvéolos, palato
duro).
- O IPA fornece uma notação objetiva para
classificar consoantes (modo, ponto e vozeamento) e vogais (altura,
anterioridade e arredondamento).
- Existe uma assimetria estrutural entre
fala e escrita, cuja compreensão através da análise contrastiva é indispensável
para o ensino de PLE.
Referências
COLLISCHONN,
Gisela. Fonologia do português brasileiro: da sílaba à frase. Porto
Alegre: UFRGS, 2008.
SEARA, Izabel Christine; NUNES, Vanessa Gonzaga;
LAZZAROTTO-VOLCÃO, Cristiane. Fonética e Fonologia do português brasileiro. Disponível em: http://ppglin.posgrad.ufsc.br/files/2013/04/Livro_Fonetica_e_Fonologia.pdf.
CRISTÓFARO,
Thaïs. Fonética e Fonologia. 2025. Disponível em:
https://fonologia.org/. Acesso em: 19 set. 2026.
KELLER,
Tatiana. Caderno didático: fonética e fonologia do português. Santa
Maria: UFSM, 2019. Disponível em: http://repositorio.ufsm.br/handle/1/19989.
Acesso em: 19 set. 2026.
