Introdução
Um autor silenciado
Ao
nos debruçarmos sobre o penúltimo livro publicado por Lima Barreto em vida, em
1919, fica evidente que estamos diante de um autor que foi vítima de um
processo de silenciamento, cujas razões transcenderam sua origem simples e a
cor de sua pele. Lima também carregou o estigma criado em torno dos que sofrem
de depressão e de alcoolismo e acabou tornando-se conhecido por um estilo
considerado descuidado e repleto de incorreções gramaticais à época.
É
importante destacar que a crítica literária em atividade no Rio de Janeiro do
início do século XX era formada por um pequeno grupo de intelectuais e
escritores influentes, que tinham o poder de determinar quais obras e quais
autores seriam valorizados e reconhecidos. Não faltavam razões, em uma
República fixada sobre uma sociedade classista e racista, na esteira da
abolição tardia da escravatura, para que um escritor mulato, pobre e com
problemas de alcoolismo fosse completamente ignorado pela elite intelectual da
então capital federal.
No
entanto, a tentativa de apagamento do trabalho de Lima Barreto – que era o de
colocar em crônica situações cotidianas dos subúrbios cariocas – está muito
mais relacionada às opiniões controversas do autor e aos seus ataques diretos
ao racismo, à desigualdade social, à corrupção política e às injustiças
presentes na sociedade brasileira, que expunham contradições e hipocrisias da
elite e desafiavam as estruturas de poder estabelecidas.
Pode-se
dizer também que a forma como o autor desenvolveu seus enredos, entremeados de
discursos panfletários e/ou descrições com alto grau de lirismo, contribuiu
para o afastamento do público leitor, que era mais afeito aos romances
produzidos dentro das convenções estéticas e ideológicas do período, como José
de Alencar e Machado de Assis.
Neste
trabalho, apresentam-se as razões e consequências do processo de silenciamento
histórico sofrido pelo autor com base na análise de uma obra concebida por ele
em 1906, antes da publicação de seu primeiro livro, mas que só veio a público
três anos antes de sua morte: Vida e
morte de M. J. Gonzaga de Sá.
Lima Barreto: aspectos biográficos
Nascido em 13 de maio de 1881, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Afonso Henriques de Lima Barreto é autor de uma obra literária significativa, que analisa criticamente o Brasil do início do século XX. Especialmente empenhado em abordar temas como o arrivismo social, a disseminação do preconceito racial na sociedade e o excesso de burocracia que impedia o desenvolvimento do país, Lima Barreto, descendente de uma família de mestiços pobres, filho de pai tipógrafo e mãe professora, por quem foi iniciado nos estudos, tornou-se um cronista da realidade na capital federal, apresentada sob a ótica de moradores da periferia da cidade. Órfão de mãe aos 6 anos, ele teve condições de estudar e ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas abandonou a faculdade no terceiro ano por se tornar responsável pelo sustento dos três irmãos após o enlouquecimento e a internação de seu pai. Prestou concurso, passou e trabalhou, desde 1904 até sua aposentadoria – por questões de saúde, em 1918 –, como escriturário do Ministério da Guerra.
As
primeiras contribuições literárias do autor para uma revista de grande
circulação se deram em 1907 e, depois disso, Lima Barreto fundou sua própria
revista: Floreal. Sua primeira publicação em livro, paga do próprio bolso, foi
o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha
(1909), em que são narradas as dificuldades de um jornalista honesto, bem
formado e negro em uma sociedade dominada pelo preconceito e que não dá
oportunidades aos negros e aos mestiços. O livro foi muito mal recebido por referir-se
a personalidades da imprensa e da literatura da época e, por esse mesmo motivo,
considerado datado e de pouco interesse para futuros leitores pelo importante crítico
José Veríssimo – o que provou-se um equívoco. Sua linguagem oral também foi
alvo da crítica especializada e acabou se tornando um aspecto, dentre os vários
de sua obra, que relaciona seu trabalho aos modernistas.
Mais
tarde, publicou sua obra mais conhecida – Triste
fim de Policarpo Quaresma –, primeiro nas páginas do Jornal do Comércio, depois em livro, em 1915, mais uma vez com
recursos próprios. Foi nesse período que Lima Barreto foi internado pela
primeira vez em decorrência de crises de depressão e alcoolismo. Em 1916,
porém, voltou a contribuir com contos e crônicas na revista ABC, em que
publicou textos de claro viés socialista. Uma das últimas obras publicadas em
vida, dessa vez pela editora de Monteiro Lobato, que arcou com os custos, foi Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, em
1919. A publicação, que, embora tenha concorrido ao prêmio de melhor livro do
ano da Academia Brasileira de Letras em 1920 e recebido uma menção honrosa, não
teve a aceitação esperada e vendeu muito pouco.
Apesar
de ter sido um crítico contumaz da tradição artístico-literária modelada e
validada pelas elites, Lima Barreto candidatou-se três vezes a uma cadeira na
Academia Brasileira de Letras, tendo sido recusado em duas delas e desistido da
candidatura na terceira, antes mesmo da realização da eleição. Foi ignorado
pela elite cultural de seu tempo pela postura combativa de seus textos, pelas
ideias que se aproximavam do anarquismo e do socialismo e pela adoção de um
estilo considerado desleixado. O trabalho do autor é marcado por citações
eruditas e por descrições de paisagens dos subúrbios do Rio de Janeiro e de
agrupamentos humanos em seu cotidiano, mas sem renunciar à oralidade, que, para
alguns, mesmo que registrasse a fala brasileira, não era considerada
suficientemente refinada para ser nomeada literatura.
Em
meados de 1919, vivenciando fortes crises nervosas, Lima Barreto voltou a ser
internado, período no qual escreveu a base do romance Cemitério dos vivos, que deixou inacabado, e seu Diário íntimo, publicado postumamente. O
autor morreu de colapso cardíaco, aos 41 anos de idade, em novembro do
emblemático ano de 1922.
O contexto da publicação
Vida e morte de M. J.
Gonzaga de Sá
foi publicado pela primeira vez na Revista
do Brasil, em São Paulo, em 1919, período da Primeira República do Brasil
(1889-1930), que se iniciou com a promessa de liberdade e avanço dos direitos
de todos os cidadãos, mas acabou por tornar-se totalmente dominado pelas
oligarquias. Os grandes proprietários de terra e detentores de maior poder
financeiro comandaram o desenvolvimento de uma República cujo sistema de
valores e crenças reforçava a exclusão e o preconceito contra determinada
camada da população.
Nessa
época, eram prestigiadas teorias raciais pseudocientíficas que afirmavam a
superioridade dos brancos em relação aos negros e aos mestiços, o que
contribuiu diretamente para o aumento do preconceito racial e, consequentemente,
para a crescente desigualdade social no país. Desenvolveu-se um projeto para o
branqueamento da população brasileira, apresentado à comunidade científica
mundial no Primeiro Congresso Universal das Raças, em 1911, pelo médico e
diretor do Museu Nacional no Rio de Janeiro, João Baptista de Lacerda.
Cientistas e estudiosos apoiavam a empreitada, que prometia a eliminação total
da população negra no país em um prazo de 100 anos.
Há
registros sobre a redação de Vida e morte
de M. J. Gonzaga de Sá nos diários do autor desde 1906, ainda que a obra só
tenha sido publicada em 1919. Lima Barreto fundou a revista Floreal com seus
amigos em 1907 e nela publicou os primeiros capítulos de sua obra de estreia, Recordações do escrivão Isaías Caminha.
Tendo sido elogiado pelo importante crítico José Veríssimo, o autor resolveu procurar
um editor para viabilizar seus projetos e decidiu mandar o livro para a
apreciação de uma editora portuguesa. Na ocasião, em carta a um amigo, explicou
que optou por uma obra que fosse mais ousada e chocasse o público leitor pelas
denúncias que fazia. Nessa explicação, Lima Barreto mencionava o protagonista
de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá:
Era um tanto
cerebrino, o Gonzaga de Sá, muito calmo e solene, pouco acessível, portanto.
Mandei as Recordações do escrivão Isaías
Caminha, um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal por vezes, mas
sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar, e temo não
que ele te escandalize, mas que te desagrade.
LIMA BARRETO. Correspondência ativa e passiva. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1961.
v. 1. p. 169.
Há
três informações relevantes para este trabalho nesse curto fragmento: 1) Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá já
estava pronto, ou muito adiantado, em fevereiro de 1909, data da carta enviada;
2) Lima Barreto considerava o livro “cerebrino”, além de “muito calmo e
solene”, e sabia que o estilo da obra era muito diferente do que empregara em Recordações do escrivão Isaías Caminha,
mais virulento e direto em sua crítica à imprensa da época; 3) o propósito
claro do autor, antes de publicar sua primeira obra em livro, era atacar diretamente
a imprensa e os intelectuais da época e causar escândalo com suas opiniões.
Lima
Barreto teria alcançado seu propósito? Sim. Ele causou tanto escândalo que
acabou rapidamente excluído do círculo de autores que mereciam ser lidos e respeitados,
segundo a elite cultural da época.
Não
deixa de ser curioso que Lima Barreto tenha produzido uma obra tão singular e
amadurecida ainda na juventude. Geralmente, esse tipo de obra é produto da
prática, da experiência e do próprio amadurecimento do autor. Podemos, então,
concluir que Lima Barreto já tinha consciência, antes mesmo de publicar o primeiro
livro, das especificidades e possibilidades de seu estilo literário e conseguia
perceber como alguns de seus textos eram mais diretos e combativos, enquanto
outros lançavam mão de alegorias e metáforas para destilar sua crítica.
Em
setembro de 1918, depois de já ter passado pela primeira internação em um
hospício, Lima Barreto recebeu uma proposta da editora de Monteiro Lobato:
Prezadíssimo Lima Barreto.
A Revista do Brasil deseja ardentemente
vê-lo entre os seus colaboradores. Ninho de medalhões e perobas, ela clama por gente
interessante, que dê coisas que caiam no gosto do público. E Lima Barreto, mais
do que nenhum outro, possui o segredo de bem ver e melhor dizer, sem nenhuma
dessas preocupaçõeszinhas de toilette
gramatical que inutiliza metade dos nossos autores. Queremos contos, romances,
o diabo, mas à moda de Policarpo Quaresma,
da Bruzundanga, etc. A confraria é
pobre, mas paga, por isso não há razão para Lima Barreto deixar de acudir ao
nosso apelo.
Aguardamos, pois, ansiosos a resposta, uma
resposta favorável.
LIMA BARRETO. Correspondência ativa e
passiva. São Paulo. Brasiliense, 1961. v. 1. p. 126.
O
convite do editor-chefe da Revista do
Brasil, em tom amistoso e elogioso, revela alguns traços positivos da
literatura barretiana que, considerando as palavras de Lobato, já eram
conhecidos pelos críticos da época. Acreditava-se no potencial de as obras
caírem no gosto do público, reconhecia-se a habilidade do autor em “bem ver e
melhor dizer” além da peculiaridade de seu estilo: “sem nenhuma dessas
preocupaçõeszinhas de toilette
gramatical”.
O
tino comercial do editor Monteiro Lobato previa que a forma como Lima Barreto
descrevia a cidade do Rio de Janeiro, sob uma nova perspectiva, tinha todas as
chances de se tornar um sucesso editorial e reconhecia as qualidades do
trabalho do escritor. O convite foi prontamente aceito pelo autor e seguiu-se,
entre os dois, uma correspondência frequente e entusiasmada em torno das expectativas
e primeiras opiniões sobre o livro.
Mas,
com o baixo número de exemplares vendidos, o entusiasmo de Lobato foi diminuindo,
assim como a correspondência entre ele e Lima Barreto. Os últimos registros de
mensagens trocadas entre os dois são de novembro de 1919, e, nelas, Lobato
afirma:
O teu livro sai
pouco, sabe por quê? O título! O título não é psicologicamente comercial. Um
bom título é metade do a biografia de... um ilustre desconhecido.
LIMA BARRETO. Correspondência ativa e passiva. São Paulo: Brasiliense, 1961. v.
1. p. 263.
Síntese e análise da
obra
A dedicatória
O
livro é dedicado a Antônio Noronha Santos, que, para Francisco de Assis
Barbosa, um dos biógrafos de Lima Barreto, é “o maior e mais constante de todos
os amigos do romancista”. Noronha foi companheiro do autor na fundação da
revista Floreal e com ele manteve vasta correspondência. Na primeira edição do
livro, Lima fez questão de dar grande destaque ao nome do amigo, que abre a obra
sem qualquer explicação ao leitor.
As epígrafes
São
duas as epígrafes escolhidas por Lima Barreto para introduzir a biografia de
Gonzaga de Sá. A primeira – “Seul le
silence est grand: tout le reste est faiblesse” (Apenas o silêncio é
grande: todo o resto é frágil) – é um verso do poema “A morte do Lobo”, do
poeta francês Alfred de Vigny (1797-1863). Nesse texto, uma matilha de lobos é
atacada por caçadores e um dos lobos se lança em defesa do grupo, e é morto. O
verso é o aprendizado deixado pelo último olhar do lobo para o homem que o
matou, a respeito da fragilidade da
vida. Sabe-se que o autor foi vítima de um câncer de estômago que lhe causou
grande sofrimento até a morte, o que explica a conexão do poema à vida de
Vigny. Entende-se que a relação entre a vida do autor e a obra desenvolvida por
ele é um aspecto marcante no trabalho de Lima Barreto, que expõe sua indignação
e ressentimento frente a várias situações que viveu. Essa é uma possível razão para
a escolha da primeira epígrafe.
A
segunda epígrafe é o verso “La plaie du
coeur est le silence” (A chaga do coração é o silêncio), do romance francês
Andrés Cornélis, de Paul Bourget (1852-1935). A frase atribuída ao autor não
foi citada em sua versão original, que, na verdade, é: “O grande veneno do coração
é o silêncio”. Uma possibilidade é que Lima Barreto esteja se referindo ao fato
de o protagonista – M. J. Gonzaga de Sá – não ter conseguido escrever nada
durante a vida que registrasse seu conhecimento de mundo e suas opiniões.
Assim, é o silêncio a verdadeira causa de seu sofrimento – causa essa que, ao
dedicar-se a escrever a biografia do amigo, Augusto Machado, procura minimizar.
O biografado
M.
J. Gonzaga de Sá, funcionário público, branco, filho de um general titular do
exército, bem formado, 60 e poucos anos.
O biógrafo
Augusto
Machado, funcionário público, negro, de origem humilde, bem formado, 20 anos.
A questão do gênero
da obra
Partamos
do pressuposto de que o estabelecimento de um enredo marcado por relações de causalidade
e lógica temporal costuma ser a base primeira na construção de um romance,
dentro dos modelos de narrativas popularizadas ao longo do século XIX. Neles, os
autores e suas reflexões sobre a sociedade e seu modo de vida estão a serviço
de uma história a ser contada, dentro de um contexto estabelecido. Para que
essa perspectiva faça mais sentido, são desenvolvidos personagens que, por meio
de suas ações e das relações praticadas entre si, tecem a trama onde reside o
sentido principal de uma obra literária em prosa daquele período.
No
entanto, Vida e morte de M. J. Gonzaga de
Sá não é um romance que siga modelos preestabelecidos. Ele é apresentado
como biografia, feitas algumas ressalvas que se explicarão a seguir, mas, talvez,
não seja nem uma biografia, nem um romance, mas um conjunto de quadros,
conforme define o crítico Marcos Scheffel:
cenas do cotidiano:
da rua, da repartição pública, da casa de Gonzaga, do funeral no subúrbio (que
descreve a arquitetura suburbana), dos cafés, dos correios, do Passeio Público,
do interior dos bondes e trens, do interior do teatro etc. Nesse sentido, os
capítulos poderiam até ser cambiáveis em sua ordem, já que a única grande
revelação do enredo é dada desde o título: a morte de Gonzaga de Sá.
SCHEFFEL,
Marcos. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá – Possibilidades éticas e estéticas
do romance moderno brasileiro. In:
LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J.
Gonzaga de Sá. Apresentação e notas de Marcos Scheffel. Cotia: Ateliê
Editorial, 2023. p. 19.
Lima
Barreto é daqueles autores cujos propósitos são colocados em primeiro lugar e
em que o mais importante, nos textos, passa a ser a transmissão de uma visão de
mundo, o que torna a obra, em certos casos, um veículo de divulgação de
determinadas pautas. Não cabe aqui qualquer julgamento a respeito da questão,
mesmo porque a estrutura da obra funciona de forma orgânica e coesa, mas faz-se
necessário o esclarecimento de que o enredo não é o aspecto mais relevante, mas
um pretexto para a apresentação de um Rio de Janeiro em rápida transformação na
Primeira República do Brasil. Além da cidade, revelada sob um ponto de vista
específico, Lima Barreto cria personagens do funcionalismo público que observam
e discutem as transformações pelas quais o país passa, o que inclui uma
engenhosa situação de enunciação, além da provocação metalinguística a respeito
do gênero do livro.
Comentários sobre o
enredo
Advertência
Síntese
Lima
Barreto adverte que, após ter recebido de um antigo colega de escola, Augusto
Machado, em abril de 1918, um pedido para que revisse e publicasse sua pequena
obra, concluiu ter nada ou muito pouco a retocar, achando necessário apenas um breve comentário sobre a classificação
escolhida pelo autor – biografia – que, para ele, não seria precisa para
definir a obra em questão. Para Lima, uma biografia precisaria ter “a rigorosa
exatidão de certos dados, a explanação minuciosa de algumas passagens da vida
do principal personagem e as datas indispensáveis em trabalho que queira ser
classificado de tal forma” (p. 31). Além disso, ele também aponta para o fato
de que, na obra, a pessoa do autor se sobressai mais do que a do próprio
biografado. À parte esses apontamentos, considerados insignificantes defeitos,
Lima Barreto declara que a rápida publicação da obra animará a vocação
literária que Augusto Machado demonstra no trabalho que escreveu.
Comentário
Lima
Barreto coloca a si mesmo como editor de sua obra, marcando a data de abril de
1918, ano anterior ao da publicação. O aviso a respeito da inclusão de aspectos
da vida do biógrafo na apresentação do biografado serve também como alerta de
que a obra como um todo terá muito de seu autor, cujas ideias se desdobram nos
dois personagens criados. É interessante observar o recurso utilizado pelo autor
para fundir realidade e ficção. De um lado, um editor forjado – Lima Barreto –
que é, na verdade, o autor do livro, e, de outro, um narrador inventado –
Augusto Machado –, homem mestiço e de origem humilde, funcionário público muito
bem formado. O prólogo cumpre a função de desdobrar autor em narrador e deixar
clara a situação de enunciação desenvolvida na obra.
Além
disso, a provocação metalinguística sobre a classificação da obra alerta o
leitor sobre pontos a serem observados na leitura, como a estrutura do próprio
livro e os recursos expressivos escolhidos
para dar vida aos personagens, o que coloca Lima Barreto em uma interessante
posição de guia de leitura, conduzindo o olhar do leitor para os aspectos que
considera mais relevantes. O questionamento da precisão de definição do gênero
da obra, com a breve enumeração dos traços fundamentais de uma biografia, é
marca da ironia do autor, que não adotou a biografia como gênero exatamente por
desejar questionar a validade dessas definições teóricas.
Explicação necessária
Síntese
Augusto
Machado, em nota assinada em outubro de 1906, esclarece que resolveu dedicar-se
à biografia de M. J. Gonzaga de Sá por interessar-se pela vida de um amanuense
que cumpria a função de escriba ministerial no início da República brasileira.
A inspiração para esse trabalho teria surgido da leitura permanente de
biografias do doutor Pelino Guedes.
O
autor (Augusto Machado) afirma ter feito uma grande descoberta – que o tornou
merecedor do agradecimento do mundo – sobre a “lei da divisão do trabalho”,
aplicando-a ao universo das biografias. Se havia biógrafos para os ministros,
como o doutor Pelino Guedes, era natural que também os houvesse para os
amanuenses. A partir dessa descoberta, Augusto Machado curvou-se à lei e a
obedeceu, passando a escrever sobre M. J. Gonzaga de Sá.
O
estilo empregado nesse trabalho é uma questão também apresentada pelo autor,
que se desculpa por colocar no texto muitas informações sobre si mesmo, falha
que atribui ao seu “incorrigível e elementar egotismo”. Lamenta-se ainda por
não ter sido capaz de imitar a “concisão telegráfica” e a “impersonalidade” que
seu modelo usava nas biografias que escrevia.
O
autor justifica-se e explica que não teve formação literária e que não sabe
grego nem latim. Além disso, nunca se dedicou a estudar a gramática do senhor
Cândido de Lago, mas tem a inspiração em seu mestre na Escola Politécnica, o
doutor Licínio Cardoso, que se dedicou ao estudo da Matemática, mas acabou
curando-se pela homeopatia. Para Augusto, os julgamentos do professor Licínio
eram sempre imparciais, e foram sua inflexibilidade e retidão que ensinaram
justiça ao autor que agora se aventurava na composição da biografia de um homem
comum, um escriba ministerial.
Feitas
as explicações e as ressalvas, Augusto Machado pede mais uma vez que seja
perdoado por seu “opúsculo aliterado” e afirma que o produziu movido pela busca
de um estimulante e pela tentativa de imitação de mestres como Pelino Guedes e
Plutarco, biógrafo grego do século I d.C.
Comentário
Lima
Barreto escreveu um texto sobre uma das biografias escritas por Pelino Guedes
em que criticava a postura do biógrafo, por utilizar seu trabalho para agradar
autoridades e conquistar favores. A homenagem que Augusto Machado faz a ele,
portanto, é uma ironia. Ao mencionar o autor uma segunda vez, fica claro que
sua proposta de biografar Gonzaga de Sá é uma reação ao trabalho de Pelino
Guedes, uma vez que os biografados que interessavam a Augusto eram sempre
pessoas sem importância.
A
prática de inserção de pessoas reais na ficção é uma constante no trabalho de
Lima Barreto e foi especialmente criticada quando da publicação de Recordações do escrivão Isaías Caminha
porque gerou polêmica nos leitores da época, que ora se sentiam ofendidos, ora
representados, mas tornou o livro muito ligado ao período e às situações que
retratava, o que poderia causar perda de relevância e de interesse em leitores
de outros tempos.
Augusto
também comenta sobre o gênero da obra, reconhecendo que o livro se afasta de
uma biografia tradicional, que era sua intenção inicial produzir, mas foi atrapalhada
pelo egotismo do biógrafo, o que também tem sua dose de ironia. O narrador é
personagem fundamental no texto que escreve, ainda que não tenhamos informações
detalhadas sobre sua família de origem e sobre os anos que antecedem a
narração, e nos é apresentado em meio à complexidade de suas dúvidas no que se
refere, principalmente, ao lugar que ocupa na sociedade. Nota-se, antes mesmo
do início da narrativa, uma certa sensação de inferioridade – muito presente em
personagens de Lima Barreto – que obriga o autor a se desculpar pela falta de
formação específica para a escrita.
A
questão mais relevante desse segundo prólogo é a explicação da escolha do biografado
que, em contraste com os ministros respeitados e valorizados, é um simples
amanuense, o que, nas palavras de Augusto, respeita a lei da divisão do
trabalho e a aplica ao universo das biografias, estabelecendo uma diferença
clara entre aqueles que trabalham no funcionalismo público. Além disso,
entende-se pela data do texto – outubro de 1906 – que a obra estava pronta 12 anos
antes de Lima Barreto (o editor) fazê-la publicar.
O
doutor Licínio Cardoso é outra referência importante para compreender a ironia
utilizada pelo autor na menção a personagens reais. Lima, que realmente foi
aluno do professor citado, viu-se obrigado a deixar a Escola Politécnica do Rio
de Janeiro por não conseguir ser aprovado nas disciplinas ministradas por
Cardoso.
Capítulo I – O
inventor e a aeronave
· Espaços:
gabinete de Gonzaga de Sá, Passeio Público, terraço do Passeio Público, jardim
da casa de Gonzaga de Sá.
· Temas
principais: a origem do narrador e sua identificação com o Rio de Janeiro,
o cotidiano burocratizado nas repartições públicas, a morte de Gonzaga de Sá e
o pequeno e pessimista texto que deixou como legado, os primeiros encontros
entre biógrafo e biografado.
Síntese
Augusto
Machado conhece Gonzaga de Sá na Secretaria dos Cultos, onde este dedicava todo
seu tempo à resolução de questões burocráticas complexas e pouco relevantes,
como uma dúvida a respeito da quantidade de “salvas” devidas a um bispo na
entrada do porto de Belém. Para uma resposta exata, eram necessárias averiguações
que dessem conta de checar o procedimento em outros países e segundo diferentes
religiões, e Augusto tinha sido mandado para a Secretaria dos Cultos para
tentar resolver essas dúvidas em torno da questão das salvas devidas ao bispo,
concluindo que, apesar de pouco conhecida e valorizada, a Secretaria merecia “o
respeito e a consideração da nossa população” (p. 118).
A
impressão que Augusto tem da repartição em que Gonzaga trabalha é ótima: “Na
linda repartição das delicadas coisas internacionais, fizeram sábias
transposições de uma religião para outra [...]. Foi organizado um quadro, muito
bem riscadinho em que os nomes dos sacerdotes de cada religião foram escritos,
respeitando-se a índole ortográfica de suas línguas próprias” (p. 92). Quando
Augusto vê Gonzaga, o amanuense está afogado em um mar de papéis e trabalha com
afinco na resolução de outra questão urgente e fundamental: o número de setas
que deveria ter a imagem de São Sebastião.
Gonzaga
de Sá era, na ocasião, um senhor de mais de 60 anos, de pele amarelada, que
nunca se casara, mesmo tendo se apaixonado duas vezes: a primeira pela filha de
um visconde e a segunda por uma moça que trabalhava para ele como lavadeira.
Augusto simpatiza imediatamente com ele, trata-o com deferência em função de
sua idade e intui se tratar de um homem inteligente, ilustrado e bondoso, cujas
origens familiares remontavam à fundação da cidade do Rio de Janeiro. Gonzaga
era cético, identificava-se com o filósofo Voltaire, defendia regalias do
Estado, sobretudo em relação à Igreja católica, mas costumava frequentar
cerimônias religiosas para “estar em dia com o seu Deus” (p. 145).
Augusto
diz que prefere contar primeiro a morte do amigo para depois revelar-lhe a vida
e acredita que o momento da morte explica algo sobre quem a pessoa foi. Lord
Bacon, que teve a vida cheia de vilanias, morreu de um resfriado ao tentar
conservar uma galinha morta, preenchendo-a com gelo, em suas pesquisas sobre
como conservar alimentos resfriando-os. No dia da morte de Gonzaga de Sá,
Augusto sai de casa para encontrar-se com ele no Passeio Público, onde
observariam as cores do pôr do sol.
No
caminho, Augusto contempla o mar, o céu e a serra da cidade e percebe-se
completamente identificado com o lugar, inclusive historicamente, porque
reconhece sua origem mestiça como a origem do próprio Rio de Janeiro, formado
pela união dos povos vindos de Portugal e da África: “E, assim, fui sentindo
com orgulho que as condições de meu nascimento e o movimento de minha vida se harmonizavam
– umas supunham o outro que se continha nelas; e também foi com orgulho que
verifiquei nada ter perdido das aquisições de meus avós, desde que se
desprenderam de Portugal e da África” (p. 199).
Sentindo-se
assim, Augusto repudia a influência dos germanos e dos gregos, que em nada se
relacionam a sua origem. Ainda antes de encontrar-se com Gonzaga de Sá, Augusto
vê, com antipatia, um grupo de turistas ingleses que levavam algumas ramas de
arbustos e sente-se roubado por eles. Ao mesmo tempo, ao pensar nos europeus,
reconhece que toda sua formação está baseada em autores e filósofos
estrangeiros, principalmente franceses e ingleses. Gonzaga de Sá chega ao local
e ambos permanecem ali conversando. Gonzaga também expressa irritação com a
presença de outro grupo inglês, especialmente pela pressa que demonstram. Ele
diz não correr nem para morte, a quem ama, o que espanta Augusto, que só tem 20
anos de idade, sonha em tornar-se diretor e não pensa sobre a morte. Gonzaga
convida Augusto para jantar em sua casa e decidem fazer o caminho mais longo, a
pé.
Ao
passarem por Santa Teresa, Gonzaga de Sá aponta para o convento, envolto em uma
atmosfera sorridente e alegre, e afirma que lá dentro vive a memória de pessoas
que passaram por aquele lugar, ao contrário de um casarão que também observam,
que não guarda “mortos” e, por isso, está desabando. Os amigos sobem mais um
pouco até chegarem ao jardim da casa de Gonzaga de Sá. Lá, olhando para o
horizonte e vislumbrando a Lapa, a Glória, a Armação e Niterói, abaixa-se para
colher uma flor, cai e morre. Após sua morte, Augusto encontra, entre os livros
que Gonzaga deixara, uma folha de papel almaço com uma narração completa
intitulada “O inventor e a aeronave”. Por acreditar que sua reprodução poderia
contribuir na compreensão da personalidade de seu biografado, Augusto divulga
seu conteúdo. Antes, porém, avisa que a inteligência de Gonzaga não se
comunicava bem por escrito e que só sua palavra viva seria capaz de revelar
verdadeiramente seu espírito.
O texto de Gonzaga
Um
homem dedica-se completamente ao projeto de desenvolver uma máquina que voasse.
Estuda, faz desenhos, procura materiais, sempre com muito afinco e disciplina. Permanece na oficina, ao lado dos
trabalhadores, durante toda a execução do projeto, com especial atenção aos
detalhes. A máquina fica pronta, linda e ligeira como uma libélula, e ele
poderia partir para uma vida “quase fora da fatalidade da Terra”. O homem não
dorme à noite pois sabia que o dia seguinte seria o da realização de um sonho
que acalentara e pelo qual trabalhara durante muito tempo. Após fazer os
últimos ajustes, acionar o motor e posicionar-se em seu lugar, o homem esperou.
A máquina não subiu.
Augusto
afirma não ter entendido logo o sentido do texto escrito pelo amigo, mas, pelo
que conhecia de Gonzaga, o texto falava sobre “o Acaso, mais do que outro
qualquer Deus, é capaz de perturbar imprevistamente os mais sábios planos que
tenhamos traçado e zombar da nossa ciência e da nossa vontade. E o Acaso não tem
predileções...” (p. 283).
Comentário
O
encontro entre biografado e biógrafo se dá no ambiente de uma repartição
pública, cujas características constitutivas e funções desempenhadas pelos
funcionários são ironicamente detalhadas. Fica claro o desprezo do autor pelas
estruturas hierarquizadas em torno de questões fúteis e sem nenhuma importância
prática. Há um grande grupo de indivíduos, muitas vezes extremamente bem formados
e cultos, cuja inteligência e preparo são colocados a serviço de um Estado
burocratizado e inerte.
Augusto
Machado é um homem negro e Gonzaga de Sá, branco; o primeiro tem em torno de 20
anos e o segundo já passou dos 60. O comportamento de Gonzaga de Sá é descrito
como complexo e contraditório, o que se nota no fato de ele próprio usufruir de
regalias do Estado, mas ser teoricamente adepto de Voltaire, filósofo que lutou
pela eliminação de qualquer privilégio.
Lima
Barreto não deixa dúvidas ao revelar as origens étnicas do biógrafo que criou e
que, tantas vezes, confunde-se com ele mesmo. Nas reflexões que Augusto Machado
faz andando pelas ruas do Rio de Janeiro, antes de encontrar-se com Gonzaga de
Sá, o narrador funde sua história à história da própria cidade e identifica-se
como alguém que está totalmente integrado à terra e à paisagem que presencia,
uma vez que é a representação do povo mestiço que ocupa o país.
A
morte do biografado não tem nada de especial ou surpreendente. Ao abaixar-se
para colher uma flor que desejava entregar a Augusto, Gonzaga cai no chão e não
se levanta mais. O autor deixa clara a insignificância dessa morte,
considerando que Gonzaga de Sá não gozava de grande importância na secretaria
em que trabalhava e não tinha habilidade na produção de textos que pudessem reunir
suas ideias para serem deixadas como legado. O que resta do funcionário da
Secretaria dos Cultos após sua morte é a lembrança daqueles que conviveram com
ele e tiveram a oportunidade de entrar em contato com sua visão de mundo por
meio da expressão oral inteligente e clara.
O
singelo texto deixado por Gonzaga em uma folha de papel almaço amarelada revela
o ceticismo do personagem, que, após ter se preparado para a vida, com uma
formação primorosa, interessando-se pelas questões da pátria, refletindo sobre
os filósofos e literatos que lera, não consegue aplicar esses conhecimentos
para obter glória ou fortuna. Pior do que isso, toda a consciência obtida nos
anos de sua formação não lhe proporcionou alegrias nem momentos de tranquilidade.
Pelo contrário, a percepção clara da desigualdade e das injustiças sociais só
trouxe melancolia e desencanto. A máquina de voar não decola. Não há espaço
para o voo intelectual de um simples e insignificante funcionário público sem
nenhum talento para a escrita, que seria sua única chance de tornar-se eterno –
uma lacuna que Augusto Machado procura minimizar com seu livro.
Capítulo II – Primeiras
informações
· Espaços:
repartição pública na Secretaria dos Cultos.
· Temas
principais: a boa formação de parte do funcionalismo público e o desprezo
pelo estudo das humanidades no Brasil.
Síntese
Gonzaga
de Sá, filho de um general titular do Império, era bacharel em Letras pelo
Colégio Pedro II, e, sem maiores pretensões profissionais, tinha ingressado no
serviço público, onde se encontram muitas vezes profissionais dotados de
aptidões como o ensaio crítico, a filosofia e as ciências sociais, que não são
reconhecidas como importantes e acabam encontrando algum espaço nas repartições
públicas, apesar da “depressão mental do ambiente” (p. 311).
Era
o caso do biografado, que “conhecia psicologia clássica e metafísica de todos
os tempos” (p. 285) e cuja “ânsia e febre de conhecimentos, [...] sempre a par do
movimento intelectual do mundo, fazendo árduas leituras difíceis, deviam
procurar transformar-se em obra própria” (p. 334). Ele, entretanto, não tinha
nenhuma intenção de registrar seus conhecimentos em textos publicados. Tinha receio
da opinião da imprensa. Personalidade viva, que mantinha o pensamento ágil e
produtivo, mesmo sendo financeiramente remediado e sentindo-se seguro no
emprego.
Gonzaga
teve poucas experiências sentimentais e declarou ter se apaixonado apenas duas
vezes na vida: a primeira pela filha de um visconde e a segunda por uma moça
que servia como sua lavadeira. Fez um curso universitário composto de matérias
isoladas e gostava muito de revistas, assinando muitas delas. “A variada instrução
que recebeu, e o seu gosto policrômico permitiam-lhe seguir, sem esforço, a
anarquia dos seus artigos.” (p. 357).
Comentário
A
apresentação do biografado é feita de maneira mais direta e textual. São
citadas sua família de origem, sua formação intelectual, sua opção pelo
funcionalismo público e algumas de suas experiências, com destaque para a vida
sentimental pouco desenvolvida, o que fazia dele um homem totalmente dedicado
ao trabalho e debruçado sobre reflexões do universo da inteligência, com pouco espaço
para sentimentalismos.
Já
fica claro, a essa altura do livro – principalmente pelo relato do
acontecimento anunciado no título, que poderia gerar interesse e curiosidade no
leitor: a morte do biografado –, ter sido apresentado, no capítulo inicial, que
a obra não se desenvolverá a partir de acontecimentos que constroem um enredo,
mas, sim, de capítulos episódicos que trariam as reflexões de Gonzaga de Sá e
de seu jovem biógrafo sobre a cidade em que viviam e as ideias em voga à época.
Capítulo III –
Emblemas públicos
· Espaços:
Largo do Paço e Correio.
· Temas
principais: diferenças entre símbolos da República e do Império.
Síntese
Em
um passeio pelo Largo do Paço, Augusto Machado e Gonzaga de Sá observam um
chafariz que Gonzaga chama de feio e massudo, embora reconheça que a esfera
armilar colocada no alto dá ao monumento certa grandeza e majestade. De forma
geral, Gonzaga não gosta das artes do desenho brasileiras, as quais, para ele,
se não pecam quanto à execução são muito insuficientes no que se refere à
imaginação criadora. A prova são os mapas das províncias do Brasil no Almanaque Garnier, ladeados por
extravagantes emblemas heráldicos. O funcionário da Secretaria dos Cultos
também acha que as armas da República corroboram a falta de gosto dos desenhistas
brasileiros e afirma que, no período colonial, havia muito mais gosto, com a
honrosa exceção do brasão de armas da cidade do Rio de Janeiro, esse sim,
elegante e bem-proporcionado.
A
noite cai e os amigos, com as “almas inteiramente mergulhadas na sombra” e com
os “corpos a pedir amor” (p. 385), veem moças simples e desconfiadas passando
rapidamente por eles. Discutem o quanto as mulheres temem os homens que não são
bons e sempre desejam enganá-las: pais, maridos, amantes e irmãos. Ambos concluem
que, frente a isso, nada vale o adultério.
No
dia seguinte, indo ao Correio postar uma carta que escrevera para parentes de
Minas, Augusto encontra Gonzaga observando os selos, que não colecionava, mas
olhava pela admiração que tinha pelos homens ilustres retratados neles:
“Aristides Lobo, Benjamin Constant, Pedr’Álvares, Wandenkolk, Deodoro e
Prudente” (p. 417). A ideia de Gonzaga, aprovada por Augusto, é a de que dados
biográficos dos homens donos de “boas sentenças morais” também deveriam constar
nos selos. As figuras públicas estão associadas a valores em dinheiro.
Aristides Lobo vale 10 réis, Benjamin Constant vale vintém (20 réis),
Wandenkolk vale 100 réis, Deodoro, 200 réis, Prudente, 400 réis e Pedr’Álvares
apenas 50 réis. Gonzaga justifica sua reflexão sobre os selos com a conclusão
de que aqueles pensamentos eram dos mais modestos propósitos intelectuais.
Comentário
O
trabalho detalhista do cronista é evidente na apresentação do cotidiano no
prédio do Correio e nos comentários minuciosos que Gonzaga de Sá faz de cada um
dos selos e das correspondentes figuras históricas associadas ao valor numérico
impresso ao lado das imagens. Assim, os personagens são definidos e
hierarquizados de acordo com uma cifra financeira.
As
referências elogiosas aos símbolos imperiais sugerem uma postura monarquista de
Gonzaga de Sá, que aponta enfaticamente para a superioridade dos emblemas do
Império em relação aos da República. De fato, o protagonista é um homem ligado
ao passado, em função de sua formação. Não se mostra satisfeito com o desenvolvimento
da República e acredita que os novos governantes são estrangeiros de mau gosto
sem condições de contribuir para o crescimento do país.
Capítulo IV –
Petrópolis
· Espaços:
bairro de São Cristóvão, trem de passageiros, Bonsucesso, Ilha do Governador.
· Temas
principais: o arrivismo social, a mania de aristocracia dos brasileiros, as
paisagens pouco conhecidas do Rio de Janeiro.
Síntese
Gonzaga
de Sá explica o arrivismo social existente no Rio de Janeiro, quando
“descendentes de fazendeiros arrebentados e sem nenhuma nobreza” se casam com “filhas
de portugueses enriquecidos”. Diz-se avesso aos preconceitos de raça, cor,
sangue e casta, embora julgue ter todos os motivos para tê-los, por ser descendente
dos fundadores da cidade. Só não manifestava sua ascendência nobre por não ter
a documentação que comprovava sua origem destacada, uma vez que seus
antepassados não se preocuparam com isso. Conclui da apresentação desse exemplo
que “uma instituição só é válida quando é mantida com as suas leis”.
Os
amigos embarcam em um trem que leva passageiros do Rio a Petrópolis, passando
por várias estações da periferia da cidade. Gonzaga critica o desconhecimento
de Augusto sobre locais menos populares do Rio de Janeiro e o acusa de só
conhecer Tijuca e Botafogo e fechar os olhos para outros lugares belos da
cidade, como a Penha. No trem, estão muitos dos arrivistas comentados. Gonzaga diz
que se afasta de Petrópolis por considerar as pessoas que vivem lá estrangeiros,
invasores, “sem nenhuma cultura e sempre rapinantes” (p. 458). Gonzaga descreve
a si mesmo como “o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos,
seus cafuzos e seus galegos também” e insiste no caráter ultrapassado das
notícias de Petrópolis. Ao mesmo tempo, aconselha Augusto a se interessar por Petrópolis
e suas notícias porque o insignificante merece atenção.
De
frente para o mar, Gonzaga mostra o Cambembe, uma ilhota onde funcionava uma
venda na época anterior às estradas de ferro e onde era feita a comunicação com
o interior. Gonzaga conta também que Estácio de Sá, seu antepassado, morreu em
decorrência de um ferimento à flecha em um combate que acontecera naquele
local: a Ilha do Governador.
Comentário
Da
mesma forma que o narrador se revelou plenamente identificado com o Rio de
Janeiro, Gonzaga também se compara à cidade. Por motivos diferentes, ambos os
personagens podem ser considerados diferentes facetas da cidade em que vivem.
As trajetórias de biógrafo e biografado, que se aproximam cada vez mais,
revelam dois tipos diferentes de funcionários públicos.
Há
aqueles que optam pelo funcionalismo como uma das únicas opções de ascensão
social e algum conforto material e os que, bem formados e herdeiros de um
passado monárquico e/ou militar, não encontram utilidade prática para seus conhecimentos
sobre a sociedade e as humanidades, e acabam encostados em repartições públicas
inúteis e burocráticas.
Capítulo V – O
Passeador
· Espaços:
referências a muitos bairros do Rio de Janeiro e sua organização na topografia
da cidade: Copacabana, Méier, Rio Comprido, Laranjeiras, São Cristóvão,
Botafogo, Saúde, Gamboa, Prainha, Real Grandeza, Catete, Gávea, Jardim
Botânico, Tijuca, Santa Teresa, etc.
· Temas
principais: preservação do patrimônio histórico, topografia do Rio de
Janeiro, divisão do território em bairros e meios de locomoção na cidade.
Síntese
Augusto
admira o fato de encontrar Gonzaga de Sá, com muita frequência, em diferentes
horários do dia e em regiões distantes uma da outra, e entende que se trata de
um passeador, acostumado a locomover-se livremente e sem pressa, subindo
morros, olhando antigas construções e se entretendo com o movimento da cidade.
Augusto percebe que aquele movimento indicava que o amigo tinha saudades da
infância e da juventude e procurava essas lembranças pelos prédios e ruas do
Rio, para que as sensações do passado permanecessem vivas.
Seu
apreço por essas construções e paisagens é tão grande, que Gonzaga de Sá conta
a Augusto que um dia faltou à repartição para poder contemplar um casebre no
Morro do Castelo, ao sol do-meio-dia, pois se lembrava de tê-lo visto a essa
hora, durante a infância, em um dia em que faltara à escola. Mas o casebre
havia sido demolido, o que lhe causou grande tristeza. Gonzaga falava muito
sobre seu amor especial aos subúrbios, que admirava como se fossem obras de
arte, e à cidade, e os descrevia com grande habilidade, especialmente os casos
pequenos e tristes, agindo como um contador de histórias, sempre com
referências eruditas.
Ao
ser perguntado por Augusto sobre o Rio e sua condição de se tornar uma grande
cidade, com aspecto de uma grande capital, Gonzaga faz uma explanação sobre a
topografia do local e sua esperança de que o aperfeiçoamento dos meios de
transporte e a abertura de túneis pudessem facilitar a locomoção entre partes
da cidade que, embora não tão distantes, eram de difícil acesso. Falando da
história da cidade, que começara tímida no topo do Morro do Castelo e foi se
desenvolvendo e se adaptando em função do desenho das montanhas e das
movimentações históricas que transformaram o local, como o tráfico de escravos,
e citando o advento do bonde, que contribuiu para a aproximação de locais
afastados da cidade, Gonzaga diz:
esse veículo alastra
a cidade; mas serve aos caprichos de cada um, de forma a fazer o rico morar num
bairro pobre e o pobre morar num bairro rico. O mal é o isolamento entre eles; é
a falta de penetração mútua, fazendo que sejam verdadeiras cidades próximas,
pedindo, portanto, órgãos próprios para levarem até aos ouvidos das autoridades
as suas necessidades e os seus anseios, mas o aperfeiçoamento da viação sanará
tudo isto. Mas, se a sua topografia criou essas dificuldades, deu à nossa
cidade essa moldura de poesia de sonho e de grandeza. É o bastante! (p. 577)
Comentário
Gonzaga
de Sá é um homem claramente ligado ao passado e procura recordar-se das
experiências que viveu na infância e na juventude por meio das construções do
Rio de Janeiro. O capítulo é especialmente rico em descrições das paisagens e
do movimento urbano da cidade, valorizando espaços menos conhecidos e retratados
na literatura do período.
O
capítulo pode ser entendido como uma defesa da preservação do patrimônio
histórico como forma de manutenção da história dos lugares e do desenvolvimento
da sociedade, com seus comportamentos e seus valores.
Capítulo VI – O
Barão, as Costureiras e Outras Coisas
· Espaços:
Campo de Santana, Largo do Rocio, Rua da Constituição e Rua do Ouvidor.
· Temas
principais: os desmandos do Barão do Rio Branco, a importância do trabalho
das costureiras e os pensamentos filosóficos de Gonzaga de Sá.
Síntese
Gonzaga
de Sá narra um inusitado encontro entre o Barão do Rio Branco, ministro das
Relações Exteriores, a quem conhece e trata por “Juca Paranhos”, e um poeta que
o procurou para saber se a palavra “Amor” deveria ser grafada em letra
maiúscula, ao que o Barão teria respondido que apenas se estivesse no início do
verso. Gonzaga comenta ironicamente os caminhos das letras brasileiras sob a
influência do Rio Branco. Ainda que dissesse várias vezes que o ministro era
medíocre, Gonzaga impressionava-se com o título de Barão, recebido do
Imperador. Achava-o um homem ultrapassado e preso a tolices diplomáticas, que
só ganhara importância e reconhecimento por feitos que os jornais exageravam ao
contar. Ele descreve da seguinte forma o comportamento do Barão:
Este Juca Paranhos
(era outro modo dele tratar o Barão do Rio Branco) faz do Rio de Janeiro a sua
chácara... Não dá satisfação a ninguém... Julga-se acima da Constituição e das
leis... Distribui o dinheiro do Tesouro como bem entende... É uma espécie de
Roberto Walpole... O seu sistema de governo é a corrupção... Mora em um palácio
do Estado, sem autorização legal; salta por cima de todas as leis e
regulamentos para prover nos cargos de seu Ministério os bonifrates que lhe
caem em graça.
Em falta de
complicações diplomáticas, ele as arma, para mostrar o seu atilamento de Taylerand
ou a sua astúcia Bismarkeana. (p. 599)
Gonzaga
de Sá refere-se ao Barão como alguém a quem julga egoísta, vaidoso e ingrato,
que imita dom João VI, de Portugal, e também tem “pontos de contato” com Luís
XIV, da França. Os dois amigos estão sentados em um banco no Campo de Santana,
conversando, quando são surpreendidos por uma menina bonita que desfila
vagarosamente diante deles e faz com que Gonzaga comente que se ressente de não
ter tido nenhum envolvimento íntimo com uma costureira, o que faz Augusto
deduzir que Gonzaga sabe que essas profissionais são dotadas de um espírito
especial e raro, capazes que são de decifrar, ainda que inconscientemente, as
reações psíquicas que as vestimentas podem gerar. Gonzaga valoriza as costureiras
por admirar sua importância na constituição das altas rodas sociais, sem que
recebam qualquer valorização por isso.
Gonzaga
afirma não ter apreço por aquilo que considera apenas criações abstratas, como
classes, povos e raças, mas sente-se enternecido por indivíduos isolados.
Afirma detestar a antropologia, mas amar a crítica religiosa. Foi isso o que
mais o encantou quando leu Renan e Rousseau, filósofos franceses que o
interessaram muito e o fizeram ter o desejo de partir para a Europa para
estudar, coisa que não pôde fazer. Gonzaga acredita que a felicidade não é um
estado que possa ser alcançado por centenas, milhares ou milhões de seres
humanos. Para ele, que se declara “conceitualista”, a felicidade não depende da
condição social do indivíduo e de seus hábitos, mas da forma como cada um lida
com a realidade.
Comentário
O
capítulo traz uma sátira de Lima Barreto ao Ministério das Relações Exteriores,
que o Barão do Rio Branco chefiou entre 1902 e 1912. Em contraste com a análise
do comportamento dessa grande personalidade do universo político brasileiro,
Augusto e Gonzaga conversam sobre a importância das costureiras como aquelas
que, ignoradas pela sociedade em seu trabalho considerado de menor importância,
são agentes da grandeza e da majestade das altas camadas representativas do
país.
A
discussão entre os dois retoma a intenção de Augusto, relatada no prólogo
“Explicação necessária”, de retratar a vida de um amanuense em vez de um
ministro de Estado, exatamente pelo desejo de observar a realidade sob o ponto
de vista daqueles considerados insignificantes.
Capítulo VII – Pleno
contato
· Espaços:
sala de leitura da casa de Gonzaga de Sá.
· Temas
principais: a desigualdade social, a vida no subúrbio, rica em ideias e
hábitos, o estilo das notícias que chegam da província e a alienação de certos
setores da sociedade.
Síntese
Quando
Augusto foi falar pela primeira vez à Secretaria dos Cultos, dirigiu-se
primeiramente ao Barão de Inhangá, velho funcionário da época do Império, a
quem considerou inteligente, porém vadio. Quando se tornou diretor, ele
acomodou-se no cargo e, pela falta de qualquer atividade de maior interesse
público, passava os dias inteiros apontando lápis. Aos 25 anos de repartição,
foi feito barão.
A
primeira impressão que Augusto teve de Gonzaga de Sá, na seção de “Alfaias e
Paramentos”, foi a de que ele se mantinha escondido no trabalho, como se tivesse
uma personalidade formal e solene e outra de inteligência livre. “[...] eu pude
ir percebendo que se ocultava, sob o seu azedume habitual, uma grande alma
compassiva” (p. 755). Ambos se encontram várias vezes e trocam cumprimentos.
Augusto, curioso quanto ao comportamento e à personalidade de Gonzaga de Sá, um
dia, pela manhã, percebe que ele faz um desenho de uma figura humana, mas não
consegue ver bem o que era, pois Gonzaga, constrangido, esconde grosseiramente
o papel. Augusto conjectura sobre quais seriam as mágoas que a personalidade
dele guardava, se seriam desilusões amorosas ou dramas de inteligência. Augusto
não encontra uma resposta e dá ao leitor a opção de construir sua própria
versão.
Em
uma tarde de quinta-feira, Augusto vai à casa de Gonzaga de Sá muito
interessado e curioso com o cotidiano da intimidade de seu amigo. Sua sala de
estudos possui reproduções de obras de arte, como a Primavera, de Botticelli, e estantes que ocupam todas as paredes
até o peitoril das janelas. Gonzaga havia visitado seu compadre Romualdo, que
enviuvara e não passava bem. Gonzaga aproveita para comentar sobre a beleza dos
subúrbios e falar das feministas que pregam teorias avançadas e podem, de tanto
estudarem, deixar o papel de mães em segundo lugar. Augusto afirma que, com o
matrimônio, as mulheres deixam o estudo de lado e passam a cumprir a rotina
enfadonha de todos os casamentos. A conclusão de Gonzaga é a de que a sociedade
se baseia em princípios sólidos.
Tia
Escolástica – “Muito clara, com uns olhinhos verdes e um miúdo perfil de
criança” – é apresentada e, enquanto Gonzaga sai da sala com ela, Augusto
repara nos rascunhos que o amigo fizera: vários modelos de narizes, como se ele
tentasse desenhar uma expressão conhecida. Na volta, Gonzaga comenta sobre sua
criação de pombos, sobre o vinho branco que mandara trazer e exalta a condição
de Inácio, o homem que o servia com toda deferência, embora fosse livre. Era da
mesma idade de Gonzaga e o acompanhara em muitos momentos da vida, desde a
infância. A dedicaçãocontínua do negro é o que encanta Gonzaga, que reluta em
defini-la como uma subalterna dedicação animal ou um sentimento divino. Conclui
apenas que é grandioso e que o ama.
Os dois comentam a leitura de jornais da província, como a Gazeta de Uberaba, que interessa a Gonzaga por refletir as extravagâncias inventivas dos principiantes. Folheiam e comentam edições da revista A pesquisa, de Cascadura. Augusto admirava-se da quantidade de referências que poderiam existir nos subúrbios, onde fervilham ideias e discussões muito interessantes. Os amigos discutem sobre os meios de divulgação dos textos de que se dispunha – jornais, revistas e livros – e sobre a dificuldade de circulação desses periódicos e de tantas vozes interessantes que não encontram espaço de expressão.
Tia
Escolástica avisa que o jantar está servido.
Comentário
Um
procedimento não comum no romance se destaca neste capítulo: a metalinguagem.
Convém apontar, entretanto, que a obra toda pode ser lida pela chave da
metalinguagem, considerando que os prólogos (“Advertência” e “Explicação
necessária”) questionam o gênero do trabalho de Augusto Machado. Aqui, o
narrador afirma não querer cansar o leitor com suas conjecturas e cita Edgard
Alan Poe e Augusto Comte para sugerir que cada leitor, com simplicidade, crie
suas próprias hipóteses para explicar as opiniões e as contradições de Gonzaga
de Sá.
É
nessa passagem que é apresentada parte da casa de Gonzaga de Sá, e o estilo de
decoração de sua sala de estudo revela o interesse do amanuense bem formado por
artistas e referências intelectuais que, em sua maioria, vinham da Europa.
Ainda que Gonzaga diga se interessar muito por publicações provincianas, exatamente
por seu caráter simples e verdadeiro, só encontrado em veículos de imprensa
novos com seus jornalistas iniciantes e apaixonados, sua atitude é a de ridicularizar
essas publicações exatamente por noticiarem fatos que ele considera
desimportantes, em um estilo que revela ignorância e excessiva simplicidade.
Capítulo VIII – O
Jantar
· Espaços:
casa de Gonzaga de Sá.
· Temas
principais: a solidez das instituições, o peso das tradições e os hábitos e
privilégios que restaram do Império.
Síntese
No
trajeto até a sala de jantar, Augusto admira retratos da família expostos na
sala principal. Gonzaga lhe mostra a avó, que viveu na França e assistiu à
Revolução, e comenta sua semelhança com a tia Escolástica. Os móveis de
jacarandá também chamam a atenção de Augusto, e Gonzaga fala das dificuldades
que teve na Justiça para conseguir ficar com a casa que era de seu pai. Todos
sentam-se à mesa – Gonzaga na cabeceira e Augusto à sua direita – e olham uma
palmeira na janela. Augusto admira a elegância altiva da árvore que “há mais de
vinte anos sofria a violência inconstante dos ventos; há mais de vinte anos
suportava o rugido inofensivo do trovão...” (p. 964). Durante o jantar, Gonzaga
lê e comenta passagens ridículas em uma das reportagens da Gazeta de Uberaba.
Tia Escolástica diz que nunca se acostumou com a vida estranha do sobrinho, sem
nenhuma rotina ou método, acrescentando que ele sempre fora extravagante e que
uma vez subira sozinho ao sótão decidido a tentar voar.
Gonzaga
conta que perdeu a mãe aos 8 anos e foi criado por Escolástica, e que seus
irmãos mais velhos morreram sem descendentes, mas uma das irmãs, que ele não
via há trinta anos, tinha tido filhos. Depois do jantar, o café é servido na
sala, com pouca luz e as janelas com vista para Niterói abertas. Gonzaga conta
a tia Escolástica que Romualdo não está bem e que o menino Aleixo, seu afilhado,
é muito esperto, já sabe ler e calcular, mas está sem o amparo do pai e já não
tem mais a mãe. As luzes são acesas e revela-se um lindo piano Érard de cauda.
A conversa entre eles envereda pelo assunto da música e tia Escolástica diz que,
depois de ter ouvido o pianista Gottschalk, nunca mais teve coragem de
sentar-se ao piano, tamanha era a maciez com que ele tocava.
Gonzaga
e tia Escolástica falam das experiências em óperas e espetáculos musicais e
Augusto admira o funcionamento daquela sociedade, que classifica como ingênua.
Gonzaga avança explicando a importância da influência do Império na criação do
Lírico, uma “casa elegante para poli-los com o auxílio da arte” (p. 1085). Foi ideia
do Imperador aproveitar a ópera (que, para Gonzaga, todos são capazes de
entender, mesmo aqueles que estão distantes das coisas da inteligência) para
unir a sociedade e forçar as pessoas a se encontrarem. Mas o intento falhou, a
nobreza não se fez e o Lírico foi degenerado.
Augusto
sai da casa de Gonzaga e volta caminhando e refletindo sobre a tradição que
acabara de presenciar, o que o leva a perceber ideias das gerações que o
precederam, suas virtudes, seus erros e seus crimes.
Comentário
Nessa
passagem, ocorre pela primeira vez uma continuidade clara do enredo, entre os
capítulos VII e VIII, e a descrição da casa de Gonzaga de Sá é um recurso
importante e revelador sobre a personalidade e a intimidade do protagonista,
que o narrador sente muito prazer em conhecer.
O
peso das tradições é a principal discussão do capítulo, especialmente no que se
refere ao comportamento das mulheres, considerado ousado pelo autor e
classificado pejorativamente como produto de ideias feministas que não
contribuem para o desenvolvimento e a evolução da sociedade. Gonzaga de Sá
mostra-se ligado às tradições que se materializam tanto na arquitetura e na
decoração da casa em que vive quanto nas ideias que demonstra durante o jantar.
A
ridicularização do estilo jornalístico das notícias da Gazeta de Uberaba dá a clara noção de que Gonzaga de Sá sente-se
superior por viver na capital federal e ser dotado de conhecimento e capacidade de análise. Seu
olhar para os desfavorecidos, a exemplo de Romualdo e seu afilhado Aleixo, é
compassivo e superior, de alguém dotado de consciência social, mas, até certo
ponto, impotente para mudar a realidade em que vivem.
Capítulo IX – O
Padrinho
· Espaços:
centro do Rio de Janeiro (Café Papagaio), trajeto até o subúrbio de Todos os
Santos, onde fica o chalé em que vivia Romualdo e onde acontece seu velório.
· Temas
principais: a vida noturna do Rio de Janeiro, a vida e o amor sob a
perspectiva da morte, o perfil dos moradores do subúrbio, as teorias de raça
pseudocientíficas e o preconceito racial.
Síntese
Augusto
Machado está no Café Papagaio, na rua Gonçalves Dias, no centro do Rio de
Janeiro, muito próximo à rua do Ouvidor, e vê um grupo de prostitutas francesas
que passa pelo local. Augusto observa seus trajes elegantes e as joias que usam
e reflete sobre o fascínio que aquelas mulheres causam na população como um
todo, mesmo que tenham chegado muito empobrecidas e com as malas vazias, “com a
sua alvura polar, com as faces rubras, com seus estranhos olhos azuis e o
prestígio das velhas raças de que se originaram” (p. 1110), elas são capazes de
fazer estremecer as almas da cidade.
A
reflexão faz Augusto se lembrar de duas ideias de Gonzaga de Sá sobre aquelas
mulheres: a primeira é “a dama fácil é o eixo da vida” (p. 1105) e a segunda se
refere ao fato de que, na opinião dele, elas estavam “se dando ao trabalho de
nos polir” (p. 1133) por trazerem ao Brasil as últimas tendências de moda e
comportamento de Paris. Além disso, essas mulheres distraem os locais dos
problemas nacionais, motivam a criação de versos por apaixonados e instruem os
maridos que as visitam sobre objetos de decoração mais modernos. Elas eram o
contato entre a terra brasileira e os grandes centros do mundo, agindo como uma
espécie de “continuadoras [...] da missão dos conquistadores” (p. 1145).
Nesse
mesmo bar, Augusto encontra alguns amigos, deixa seus pensamentos de lado e
mantém com seus camaradas palestras instáveis. Os assuntos variam muito, desde
as confusões que aconteciam no Cassino até as necessárias reformas: moral e
literária. Quatro funcionários públicos encontravam-se ali na quele dia:
Augusto, Amorim, Domingos e Rangel, os quais, juntos, formavam um grupo a que chamavam
“Esplendor dos Amanuenses”. Todos buscavam momentos de satisfação que
compensassem os problemas em casa e na repartição. Falavam sempre de uma peça
de teatro, citavam obras e filósofos e acabavam frequentemente falando sobre
amor.
Gonzaga
de Sá (que achava os bares importantes locais de encontros para a troca de
ideias que constrói a sociedade, espaços em que os indivíduos mais obscuros se
revelavam, mas normalmente não os frequentava) surge no bar, avisa a Augusto
que seu compadre faleceu e pede ajuda para segurar o caixão. Os dois afastam-se
do grupo e caminham lado a lado em direção ao local em que o corpo está sendo
velado. No caminho, Augusto prevê o cadáver frio e reflete sobre o mistério do
que nos espera após a vida. A paisagem em torno e as moças que passam pela rua
adquirem uma especial beleza para Augusto, que olha para o mundo de forma
diferente, pois está prestes a ver um morto.
O
caminho é longo, do centro da cidade, onde estão, até o bairro de Todos os
Santos, passando pela estação da Rocha, no bairro do Engenho Novo, e pelo
Méier. Augusto e Gonzaga de Sá não conversam, pegam o bonde no Largo São
Francisco e depois o trem. Os personagens em torno chamam a atenção de Augusto,
tanto as pessoas simples, de riso fácil e brincadeiras pueris, até os supostos intelectuais.
Ao refletir sobre a simplicidade de alguns, Augusto lamenta a consciência que a
educação que teve lhe trouxe, pois preferia não perceber as hipocrisias e
contradições do mundo.
Um
senhor, de anel no dedo, indicando sua formação universitária, defende, a um
jovem que o escuta, a teoria racial, segundo a qual os negros têm capacidades
mental e intelectual limitadas, como, segundo ele, a ciência já provara. Ainda
sem conversar com Gonzaga de Sá, Augusto sente que suas reflexões estão sendo
compartilhadas com o amigo, acredita que é possível estabelecer uma comunicação
cerebral com ele por desenvolverem tão estreita amizade. Na sequência, o mesmo
homem, supostamente sábio, que defendia a teoria racial, responde ao jovem que
os pássaros que pousam nos fios elétricos da rua não morrem eletrocutados
porque a energia está desligada, dando evidente demonstração de ignorância. A
presença de um casal de namorados no trem motiva Gonzaga de Sá a perguntar a
Augusto se ele já namorara. Augusto responde que namorara uma vez, aos 16 anos
e, com o conselho de Gonzaga para que namorasse mais, que experimentasse aquela
emoção enquanto tinha tempo, diz que acha que “o namoro é a negação do amor...”
(p. 1242).
Na
chegada à estação de destino, Augusto e Gonzaga sobem uma rua e veem “graves
homens de fisionomia triste, curvados ao peso da vida, sobraçando alongados
embrulhos de pão [...] com o passo tardo e econômico, poupado de velhos bois de
carro. A estrada da vida era má, areenta, aqui; encharcada, ali; e, mais além,
íngreme e empedrouçada...” (p. 1250). A subida continua e Augusto relembra um
episódio da infância em que viu uma sequência de carros de bois cheios de verduras,
carvão e lenha e teve a percepção de que era a força dos bois que mantinha a
cidade funcionando. Caminhando ao lado daqueles homens simples, Augusto
compreende que é a força deles que mantém a cidade naquele momento: “Aqueles
homens, pacientes e tardos, que eu via naquele ambiente de vila, eram o esteio,
a base, a grossa pedra alicerçal da sociedade... Operários e pequenos burgueses,
eram eles que formavam a trama na nossa vida social, trama imortal, depósito
sagrado, fonte de onde saem e sairão os grandes exemplares da pátria...” (p.
1266).
Gonzaga
de Sá aponta a casa e avisa que estão chegando enquanto Augusto continua a
observar a peculiar composição das ruas, das construções, da vegetação e da
população que definem o subúrbio. A casa do compadre de Gonzaga de Sá é um
chalé, onde eles são recebidos por dona Gabriela, uma mulher negra, viúva, mãe de
quatro filhos, que tinha parentesco com a esposa do falecido. O enterro estava
marcado para as 9 horas da manhã do dia seguinte. Augusto observa o morto, que
era servente na Secretaria dos Cultos e com quem havia se encontrado poucas
vezes. O velório dura a noite toda e Augusto fica em uma sala contígua, onde
estavam algumas pessoas. Lá surge dona Alcmena, moça solteira que vivia há dois
anos naquele bairro, era vizinha de Romualdo e sonhava com uma casa em Botafogo
porque achava a vida na cidade muito melhor, além de preferir ter um carro a um
marido. Augusto sente-se fisicamente atraído por ela.
Nessa rápida postura,
a moça atraía fortemente. Seus seios pareciam intumescidos, o pescoço, longo e
roliço, saía todo do corpete, e as formas miúdas desenhavam-na com relevo por entre
as dobras do vestido. Aquela desenvoltura tão longe da Rua do Ouvidor!
Compreendia-se? Ainda lhe vi a tez macia, os cabelos castanhos, as mãos longas
e bonitas, um pouco estragadas pelo trabalho doméstico… Depois, nasceram-me
coisas obscenas; vagos e indefinidos desejos cresceram em tumulto, de roldão;
borbulhavam, subiam e desciam dentro de mim; encontravam-se, faziam-se outros a
exigir satisfações, carícias, estados enervados e deliciosos... (p. 1347)
A
imagem do morto e o desejo pela moça se alternam na cabeça de Augusto, que se
sente culpado pelos pensamentos libidinosos durante o velório, mas reflete sobre
a relação entre seu desejo e a morte que contempla ali. Gonzaga de Sá se
aproxima dele, diz que é recomendável que esteja mais na sala, próximo ao
cadáver, para que aprenda com a observação da morte, mas também para que
perceba o quanto estão errados aqueles que defendem a ideia de que há diferentes
feitios de sentir dependendo da raça a que se pertence. Gonzaga lamenta esse
tipo de postura, que atribui à influência de “diplomatas viajados, acovardados
diante da opinião americana, querendo deitar esconjuros e exorcismos...” (p.
1394). Declara-se contrário a tais crenças e argumenta: “Se, no Século XVII, o
que separava os homens de raças várias era o conceito religioso, há de ser o
científico que separará daqui a tempos... A benéfica ciência...” (p. 1399).
Augusto
e Gonzaga voltam ao local em que aproximadamente 30 pessoas se despediam do
falecido, dentre as quais a sogra do compadre, que chorava muito a perda do
genro; e seu neto, Aleixo, filho de
Romualdo e afilhado de Gonzaga de Sá. Ao observá-lo, Augusto lamenta o fato de
que a expressão inteligente e curiosa do menino não valeria de nada sem a
ascendência do padrinho, que o levaria a estudar e aplicar-se aos livros. Mesmo
bem formado, o menino seria barrado pela sociedade, “com a sua trama de conceitos
e preconceitos, justos e injustos, bons e maus...” (p. 1420). O menino começa a
chorar com muita força e é amparado pelo padrinho, que o chama de filho
enquanto o ergue no colo.
Comentário
O
capítulo traça um panorama complexo de dois lugares distantes e antagônicos na
cidade do Rio de Janeiro: o Café Papagaio, em que Augusto se reúne com amigos,
e o chalé em que ocorre o velório de Romualdo, além da distância percorrida
pelos amigos entre um ambiente e outro.
O
ambiente da cidade revela a agitação da vida noturna do Rio de Janeiro no
início do século XX. As prostitutas francesas, como referência de beleza e
elegância, desempenham um papel de formadoras do gosto afrancesado do
brasileiro. Os cafés são locais de encontros e de trocas de ideias entre os jovens
funcionários públicos, que falam sobre o cotidiano, a filosofia, o teatro e o
amor.
O
destaque dado ao ambiente, no texto, revela o quanto esse cenário corresponde a
um espaço de encontro entre figuras interessantes que povoavam a vida urbana
noturna e pertencem à galeria de personagens de Lima Barreto, como o
funcionário público com alguma formação intelectual e a mulher sedutora que
exala exotismos europeus.
É
interessante notar que a discussão sobre a influência europeia na formação da
cultura nacional foi um dos controversos temas da Semana de Arte Moderna. O
fato de Lima Barreto abordar a questão em seu texto é mais um aspecto que
aproxima sua obra das discussões que pautaram o início do Modernismo nacional.
O
percurso silencioso feito até o velório de Romualdo é pretexto para a descrição
das diferenças que se acentuam à medida que os personagens se afastam do centro
em direção à periferia do bairro de Todos os Santos, local em que o próprio
Lima Barreto viveu. No trem, a presença de um senhor, identificado pelo anel de
doutor, que manifesta apreço às teorias racistas pseudocientíficas é um episódio
por meio do qual Lima Barreto procurou denunciar a circulação dessas teorias
que contribuíram para disseminação do preconceito racial no Brasil.
O
retrato do ambiente específico do velório é carregado de simplicidade e
lirismo. O autor representa os parentes e os amigos do falecido compadre de
Gonzaga, como dona Gabriela e dona Alcmena, por quem o narrador, inclusive, se
sente fisicamente atraído.
Lima
Barreto consegue apresentar as diferenças entre os ambientes e os personagens
que os frequentam para além da descrição dos aspectos físicos dos locais.
Capítulo X – O
enterro
· Espaços:
casa de Romualdo (bairro de Todos os Santos), cemitério do Caju.
· Temas
principais: a importância e a utilidade da morte, a desigualdade social, a
falta de sentido e de perspectiva na vida dos menos favorecidos, a bênção da
inconsciência de parte da população.
Síntese
O
dia seguinte, dia do enterro, é um domingo ensolarado, o que, na percepção de
Augusto, parece não ter lógica. O caixão é levado pelos presentes, que se
revezam no trabalho, vencendo as ruas acidentadas e sendo saudado por pessoas
que passavam e paravam para observar o grupo. Todos embarcam no carro fúnebre
de um trem que conduz o cadáver do subúrbio até a estação Central do Brasil, de
onde pegam um coche até o cemitério do Caju.
No
trajeto, Gonzaga de Sá comenta sobre a indiferença das pessoas quando veem um
caixão sendo transportado, só superada pelo desagravo. Augusto está confuso e
abatido como consequência da noite em
claro e responde sinteticamente às colocações do amigo, que reflete sobre a
utilidade da morte, julgando-a fundamental para a civilização. Os dois chegam
ao cemitério e o funeral acontece. Augusto não está triste e jogou a pá de cal
sobre o caixão com certo constrangimento. Está reflexivo com a situação e
atônito pela noite em claro. Caminha ao lado de Gonzaga de Sá, que anda quieto,
observando a cidade. Augusto olha para o mar, vislumbra países, reflete sobre o
formato da terra e entra em um bonde para o centro da cidade ao lado de
Gonzaga.
Gonzaga
de Sá é observado com curiosidade por Augusto, que tenta compreender a natureza
daquele homem com quem dividiu o episódio da morte nos dois últimos dias. Ele
se comportara tantas vezes como um homem frio, racional e prático, mas, nas
reflexões que fazia desde o cemitério, soava romântico e pueril. Gonzaga cita Schopenhauer
e defende a ideia do filósofo de suicídio da humanidade, mesma considerando-a
um pouco exagerada. Fala do quanto seria melhor a morte para os que vivem uma
vida desgraçada. Sabe que eles não aceitariam morrer porque vivem iludidos e
alegres em sua ignorância. Gonzaga também fala das diferenças culturais entre o
Brasil e a Europa, citando autores e pensadores que explicam a superioridade
dos estrangeiros, criticando a literatura brasileira por um interesse que julga
excessivo pelos populares do sertão, unicamente porque são pitorescos ou porque
repetem-se os enredos que reforçam a estrutura viciada da sociedade. Ele
próprio sente que, se tivesse qualquer talento para escritor e fosse capaz de
colocar suas ideias no papel, poderia ser alguém que, como Rousseau, pregaria
às massas ideais de vigor, força e violência para que pudessem se defender.
Os
dois permanecem juntos na cidade e sentam-se em um lugar calmo e retirado,
próximo ao Passeio Público, para continuarem conversando. Gonzaga de Sá, tocado
pela morte do compadre, reflete mais uma vez sobre a desigualdade e as injustiças
sociais a que Romualdo se submeteu a vida toda:
– [...] Eu não
compreendo, acrescentou depois de uma pausa, que um homem – um animal dotado de
senso crítico, capaz de colher analogias – levante-se às quatro horas da madrugada,
para vir trabalhar no Arsenal da Marinha, enquanto o Ministro dorme até às 11,
e, ainda por cima, vem de carro ou automóvel. Eu não compreendo, continuou, que
haja quem se resigne a viver desse modo e organizar família dentro de uma sociedade
cujos dirigentes não admitem, para esses lares humildes, os mesmos princípios
diretos com que mantêm os deles luxuosos, em Botafogo ou na Tijuca. (p. 1546)
De
lá, os amigos passam horas observando os patos no lago, até irem a um
restaurante de uma rua central, onde tomam sopa. Gonzaga desculpa-se pelo
exagero de suas falas e atribui sua emoção à morte de Romualdo. Conta a vida do
amigo e os sofrimentos que ele passou na infância e na escola militar até
tornar-se servente na repartição pública em que trabalhara, sofrendo
humilhações de funcionários pretensiosos. Após o restaurante, Augusto e Gonzaga
vão observar o movimento noturno do domingo na Avenida Central, onde há uma
rica diversidade de tipos, como artistas, moças de bairros distantes, mendigos
e camelôs. Observar as pessoas reforça a tese de Gonzaga de que são felizes por
não terem nenhuma consciência.
Antes
de se despedirem, os amigos ainda param em um botequim para tomarem chopes.
Gonzaga afirma, lembrando-se de Aleixo, que vai criar o menino e que pretende
fazer dele um Tito Lívio de Castro, deixando Augusto se perguntando se o
esforço valeria a pena.
Comentário
É
importante notar que há uma relação de continuidade do enredo entre os
capítulos IX e X, o que não é padrão na estrutura do livro. Nesses capítulos,
há uma série de descrições de aspectos do Rio de Janeiro, do passeio público a
bairros periféricos, como o de Todos os Santos e o Caju, onde se localizava o
cemitério. Todos esses percursos são apresentados com riqueza de detalhes e
alternando as observações da natureza e da paisagem de forma geral com os tipos
humanos que povoam a cidade.
Ainda
que o principal aspecto do capítulo seja o acompanhamento do cortejo do enterro
até o cemitério, pode-se dizer que a digressão em que o narrador está
mergulhado durante o processo é mais reveladora do que os fatos em si. A
reflexão sobre a morte, a menção às teorias de Schopenhauer e a inversão do
percurso desenvolvido no capítulo anterior – dessa vez da periferia do bairro de
Todos os Santos para o centro da cidade – fazem com que os dois capítulos
componham uma espécie de díptico, em que ação e reflexão contêm os principais
temas da obra como um todo.
Capítulo XI – Era
feriado nacional...
· Espaços:
Campo de Santana, Largo do Rocio, casa de Gonzaga de Sá, Teatro D. Pedro II.
· Temas
principais: a ignorância, a inveja e a irrelevância que domina os
funcionários da repartição pública, a solidão de Gonzaga de Sá, o comportamento
elitista e arrogante da fina flor da sociedade carioca.
Síntese
Depois
de uma noite maldormida, Augusto sai de casa em um dia de feriado nacional e
resolve se integrar à multidão que festeja a data nas ruas. Vê a preparação das
tropas que desfilam no Catete para o presidente, admira o entusiasmo de alguns
populares ao contabilizarem as forças da pátria em mar e terra e conclui mais
uma vez que “A sociedade repousa sobre a resignação dos humildes!”. Augusto não
sente nenhuma espécie de patriotismo e não se sente empolgado com a festa,
ainda que a ache brilhante.
Mais
reflexões surgem a partir do comportamento dos entusiastas dos símbolos da
pátria: “Por que aqueles homens maltratados pela vida, pela engrenagem social,
cheios de necessidades, excomungados, falariam tão santamente entusiasmados
pelas coisas de uma sociedade em que sofriam? Por que a queriam de pé, vitoriosa
– eles que nada recebiam dela, eles que seriam espezinhados pela mais alta ou
pela mais baixa das autoridades se alguma vez caíssem na asneira de ter
negócios a liquidar com alguma delas?” (p. 1653).
Augusto
vislumbra uma sociedade utópica, com dias de Bem, de Satisfação e de
Contentamento, em que não haveria angústia nas faces das pessoas, e questiona
se seria possível alcançar tal estado sem as regras e as leis do corpo social
em que vive. No fim de seu devaneio, Augusto reconhece que não é feliz e que
talvez fosse melhor viver na terra sem a humanidade.
O
desfile começa com o toque do clarim, e o que intriga Augusto é ver pessoas de
origens tão diferentes caminhando e movimentando o corpo na mesma direção e com
a mesma intenção, como em “obediência a um mesmo ideal e a uma mesma ordem” (p.
1680). Com a passagem do desfile, Augusto caminha até o Largo do Rocio, onde
encontra Xisto Beldroegas, um colega de Gonzaga de Sá apaixonado pela
legislação cultural do Brasil e que acreditava na necessidade de todas as
coisas terem sempre um papel oficial correspondente. Xisto ia mais longe e
insistia na necessidade de também regulamentar o movimento dos astros, o
crescimento das plantas e de toda a natureza e defendia que todos os pedidos
recebidos nas repartições deveriam ser indeferidos.
Augusto
tenta cumprimentar Xisto, que anda distraído e responde apenas com um grunhido
de suíno, para cumprir uma obrigação burocrática. Com a insistência de Augusto,
Xisto conta que sua preocupação se deve à falta de padrão para o número de
linhas que os avisos que circulam na repartição devem ter e outros grandes desgostos
de sua vida de funcionário público. Passam a falar de Gonzaga, e Xisto diz que
ele esteve adoentado e está prestes a ser aposentado, que não entende do serviço
e, embora seja um bom camarada, não serve para o trabalho público, pois sabe
apenas sobre romances, filosofia e revistas. Xisto ainda confessa que há aqueles
que julgam que ele gosta da ideia da aposentadoria do colega porque será
beneficiado por ela, mas ele afirma que não é verdade e que sente pena.
Depois dessa conversa, Augusto decide visitar Gonzaga de Sá e não o encontra doente, mas aborrecido e entediado por sentir-se só, por perceber-se incapaz de empregar as noções que acumulou para sua glória ou para sua fortuna. Sente-se estéril e sem habilidade para encontrar expressões adequadas para articular suas próprias ideias. Sente que está no fim da vida e desperdiçou toda a sua existência em coisas fúteis, girando em torno de si mesmo e cercado de imbecis. Cita a ideia absurda do chefe que organizou um sistema de nomeação a presidente da República por promoções, desde o início como amanuense.
Augusto
se preocupa com a visível transformação de Gonzaga de Sá, que está cada vez
mais irritadiço, deprimido e sem conseguir se conter, perdendo sua ironia aguda
e encolerizando-se facilmente. Sem tentar consolar o amigo, Augusto olha pela
janela e observa o movimento da cidade, indiferente ao sofrimento e às
reflexões. Depois de uma pausa, Gonzaga pergunta quem é que havia dito que ele
estava doente e Augusto responde que tinha sido seu colega, Xisto. Gonzaga
ridiculariza a tentativa que presenciou de Xisto tentando discutir filosofia
com outro funcionário da repartição e confessa que a pena que sentia do colega
transformou-se em ódio. Augusto vê outra vez os desenhos de rostos que o amigo
rabiscara.
O
descontentamento de Gonzaga é o maior que Augusto já presenciara e o que o
ressente é a sensação de que foi covarde por nunca ter se revoltado e tomado
posição contra a ignorância que ele julgava dominar os que o cercavam, os quais
chama de patos, perus e burros. Agora, como consequência, chegou à idade em que
está vazio de glória e de amizade e isolado daqueles que podiam entendê-lo.
Augusto compreende que Gonzaga tinha um temperamento de grandes paixões, que
vivia camuflado por sua ironia. O amigo se desculpa por sua emoção exagerada e
convida Augusto para jantarem e depois irem ao Lírico, pois acredita que,
assim, poderá melhorar com a companhia da mocidade dele e se lembrar dos seus
próprios 25 anos esperançosos.
Na
porta do teatro, há muitos carros chegando e cocheiros próprios trazendo
famílias inteiras, enquanto outras pessoas saltam dos bondes coletivos, sempre
muito bem-vestidas. Augusto tinha ido poucas vezes ao Lírico e se sente
intimidado ao ver aquela sociedade brilhante formigando entre as cadeiras e os
camarotes do teatro Pedro II. Ao comentar a beleza do lugar e a elegância das pessoas
com Gonzaga de Sá, este afirma que metade dessas pessoas ricas e chiques não
pagou ingresso. Os amigos observam e comentam os tipos presentes na plateia,
ora pela elegância, ora pelo comportamento questionável.
No
intervalo, após os efusivos aplausos pelo final do primeiro ato, Augusto pode
observar as moças mais de perto e examinar suas delicadas feições. Ele olha
para todos e pensa nos caracteres negativos que Gonzaga de Sá lhe revelara,
achando que as pessoas mantinham, em geral, um quê de inquietude e desassossego
no olhar. Gonzaga fala sobre o rompimento dos jovens com os antigos destronados,
referindo-se à Proclamação da República, defendendo que o país está dominado
por estrangeiros: “resumindo – continuou Gonzaga –, vocês arranjaram novos
dominadores, com os quais vocês não se poderão entender nunca; e expulsaram os
antigos com os quais, certamente, se viriam a entender um dia. Erraram, e profundamente”
(p. 1892).
O
sinal de recomeço do espetáculo soa e todos tomam seus lugares. Pilar, uma das
moças observadas por Augusto, já estava no camarote e ele tem a impressão de
estar sendo olhado por ela com desdém. A ópera recomeça e estende-se até depois
da meia-noite. Os dois saem tristes do teatro, ao contrário do que Augusto
sentia quando o frequentava em seu tempo de estudante. Ele percebe que o
sentimento de inferioridade que tivera ao contemplar aquelas pessoas ricas não
tinha outro motivo além do sangue que corria em suas veias, e que ele intuía
ser igual ao sangue daqueles que o diminuíam. Percebe também a injustiça da
sociedade que premia aqueles que vieram de fora, roubaram e mataram tantos com
sua ganância.
Quem
se sente covarde agora é Augusto, por ter sempre obedecido preceitos morais e
se comportado de forma subserviente. Os amigos vão beber uma cerveja em um café
de notívagos e Gonzaga de Sá afirma que também saiu do teatro triste, no seu
caso por perceber que, em quarenta anos, o público que frequenta o teatro ainda
é o mesmo: “os mesmos fazendeiros sugadores de sangue humano; são os mesmos
políticos sem ideias, são os mesmos sábios decoradores de compêndios
estrangeiros e sem uma ideia própria” (p. 1934). Após terem tomado as cervejas,
Gonzaga de Sá convida Augusto Machado para dormir em sua casa e estar lá no
outro dia para ajudá-lo a arrumar alguns livros. Os dois fazem a viagem em um
bonde com poucos passageiros, onde Gonzaga observa uma moça e reflete que ela
deveria ser igual às moças da sociedade e, por isso, ele não poderia experimentar.
Quase ao amanhecer, chegam à casa e são recebidos pelo velho Inácio.
Comentário
A
comemoração de uma data histórica em um feriado nacional é uma oportunidade
para que o narrador, sozinho em mais da metade do capítulo, reflita sobre o
comportamento da população em relação à República. Uma população sem
consciência e que permanece vivendo feliz e participando de celebrações como
aquela, mesmo sendo ignorada pelos governantes que, corruptos e fascinados pelo
poder, não se preocupam com assuntos que sejam de real interesse público.
O
estado de espírito alterado de Gonzaga de Sá, que Augusto encontra na visita
que faz ao amigo, cuja companhia se estende até um espetáculo no Lírico D.
Pedro II, é produto do desenvolvimento agudo da mesma consciência que falta aos
populares. Ele percebe o caráter cruel e excludente da desigualdade social e do
preconceito, mas compreende que é impotente para transformar esse cenário. Mais
do que isso, lamenta sua falta de coragem em romper com toda a hipocrisia e a
ignorância que o cercaram a vida toda. Em vez de fazer com que suas opiniões e
posturas fossem ouvidas e seguidas, prefere manter um comportamento na maioria
das vezes cordato e submisso, exatamente por se considerar incapaz de operar
qualquer transformação naquele ambiente. O resultado, que o angustia, é uma velhice
sem companhia, sem amor e sem a compreensão dos amigos.
O
trecho que retrata a visita dos amigos ao teatro desenha toda a fina flor da
sociedade carioca no microcosmos de uma apresentação de ópera. Lima Barreto apresenta
hábitos sociais e de comportamento da elite de forma irônica e marcada também
por melancolia e desesperança.
Capítulo XII –
Últimos encontros
· Espaços:
casa de Gonzaga de Sá: quarto, sala de jantar e escritório.
· Temas
principais: desigualdade social e o tratamento dado aos negros na Primeira
República do Brasil.
Síntese
Quando
Augusto acorda na ampla casa que, para ele, dava a clara noção do conforto da
burguesia na metade do século XIX, Gonzaga de Sá estava no escritório e dona
Escolástica dava o café da manhã para o menino Aleixo Manuel, antes de mandá-lo
à escola. O olhar interrogativo do menino faz com que Augusto se lembre de sua infância.
Antes que o menino saia, Augusto conversa com ele sobre os estudos, a
descoberta do Brasil e da América e fica surpreso com a prontidão e a segurança
das respostas. Escolástica se refere ao grande interesse de Aleixo pelos livros
e lamenta que talvez não continue assim quando amadurecer, porque muitos
começam bem e depois abandonam os estudos. Gonzaga questiona se as razões do
desinteresse pelo estudo são próprias dos indivíduos ou derivadas de causas externas
a eles. Dona Escolástica, que trata Augusto por “doutor”, reafirma, como uma
grande e infalível sábia brasileira, que “É assim mesmo!”.
Augusto
encontra-se com Gonzaga de Sá no escritório lendo exemplares do jornal Figaro, o qual recebe com atraso, mas lê
como se fosse entregue diariamente, sabendo estar pelo menos 15 dias defasado
em relação aos acontecimentos do mundo. Sobre a noção de tempo, Gonzaga
filosofa: “Ora! O tempo... Uma noção subjetiva, que só existe para nós... Uma
fatalidade da nossa organização cerebral, independente da experiência. Um
critério, uma categoria para a nossa interpretação humana dos fenômenos... De
que vale?” (p. 2020). Na saída, Gonzaga pergunta o que Augusto achou de Aleixo
e pede que ele o visite mais vezes para também conversar com o menino, que vive
muito só. Gonzaga, como padrinho, preocupava-se em garantir as necessidades do
afilhado e oferecer-lhe boa educação. Para Augusto, que nunca sabia o que
responder quando o assunto era Aleixo e seu futuro, cuidar do menino trouxe novas
preocupações que Gonzaga nunca tivera, mas dava às palavras dirigidas ao menino
“a meiguice e a doçura de pai” (p. 2033).
As
mudanças de humor de Gonzaga ficam mais claras e, ainda que sempre mantivesse
uma tristeza filosófica sobre a mesquinhez da condição humana, tornava-se cada
vez mais reflexivo, lembrando-se de dores sepultadas de sua infância, que
Augusto nunca chegaria a decifrar. Em uma oportunidade, Gonzaga lhe perguntara
se já tinha tido algum amor, reafirmando a necessidade de tê-lo, uma vez que
Vênus era uma deusa muito vingativa. Augusto retruca dizendo que a deusa não
existe e que nunca tivera nenhum amor.
Em
acelerado processo de decadência física e moral, Gonzaga tem repentinas
explosões de irritação, faces cada vez mais encovadas e olhos sem brilho.
Augusto atribui essa transformação à chegada de Aleixo, que, sempre muito obediente
e dócil, trouxe a Gonzaga a consciência de sua obrigação de “fazê-lo gente”. A
educação do menino acabou a cargo de dona Escolástica, já que Gonzaga morreu
quando Aleixo começou a escola preparatória.
Augusto
acredita que a educação desenvolve uma consciência que gera uma “mágoa
constante e um fatal princípio permanente de inadaptação ao meio, criando-lhe
um mal-estar irremediável e, consequentemente, um desgosto da Vida mais atroz
do que o pensamento sempre presente da Morte!” (p. 2063). Apesar disso, há sempre
a esperança de que o sofrimento possa ser exteriorizado em atos ou obras que
tragam contentamento a seus iguais, concluindo: “A felicidade final dos homens
e o seu mútuo entendimento têm exigido até aqui maiores sacrifícios...” (p.
2077).
Comentário
No
último “quadro” do livro de Lima Barreto, as discussões recaem sobre o destino
do menino Aleixo, filho do falecido Romualdo e agora criado por seu padrinho,
Gonzaga de Sá. O primeiro ponto a ser destacado é a visão de dona Escolástica a
respeito da impossibilidade de o menino seguir estudando e obter, assim, algum sucesso
na vida adulta. Seu discurso é claramente preconceituoso e revela a opinião corrente
à época sobre a ascensão de um mestiço à condição de homem letrado. Augusto
retruca inutilmente, tentando afirmar que a responsabilidade sobre o fracasso
de um jovem de origem pobre e mestiça muitas vezes é de causas externas à sua vontade
e ao seu esforço.
A
denúncia sobre o tratamento dado aos negros, a quem se concedera tardiamente a
liberdade com a Lei Áurea, é tema recorrente no trabalho de Lima Barreto e, neste
livro, Aleixo é o personagem representativo dessa questão. É exatamente em
função da educação do menino e da consciência sobre as injustiças sociais que o
estudo e o hábito da reflexão ajudam a desenvolver que se apresenta a dúvida de
que, talvez, a melhor opção seria manter a consciência da criança “restrita aos
dados elementares para o uso do viver comum” (p. 2063).
É
a mesma questão que concorre para acelerar o processo de envelhecimento de
Gonzaga de Sá. Suas constantes mudanças de humor e crises de irritação estão diretamente
relacionadas à consciência da diferença entre ele e o afilhado, e a percepção
dolorosa do preconceito e da injustiça social são os dados da realidade que tornam
o futuro do menino uma incerteza que merece atenção e que causa não só
preocupação, mas, e principalmente, tristeza.
Com
a morte de Gonzaga, o menino fica aos cuidados de dona Escolástica, que “levou
o menino até o fim, com todo carinho e abnegação” (p. 2063). Não se pode
esquecer, porém, que é dela o discurso preconceituoso segundo o qual não havia
esperança de um futuro letrado para o menino. Seu futuro, ainda que não seja descrito
no livro, é o motivo da reflexão final do autor: o sofrimento que,
inexoravelmente, atingirá Aleixo, pode ser exteriorizado em grandes obras ou
grandes atos e trazer contentamento a gerações futuras. Esse sacrifício terá valido
a pena por contribuir com a felicidade final dos homens e seu mútuo
entendimento.
Lima
Barreto fala abertamente de si mesmo, projetando uma de suas questões mais
caras e pessoais, sua origem, duplamente em Augusto Machado e no menino Aleixo.
Um autor em início de carreira (lembremos que, embora publicado apenas em 1919,
as anotações dos diários do artista e as “Explicações necessárias” datam de
1906) que já previa a dificuldade de sua aceitação nos meios intelectuais
brancos e elitistas do Rio de Janeiro da época, pelas próprias experiências de
preconceito e exclusão, mas que se declara disposto a se sacrificar e a sofrer
as consequências de uma sociedade excludente e injusta pela possibilidade de,
um dia, no futuro, ter sua consciência e seu sofrimento transformados em contentamento
para “muitos de seus iguais” (p. 2077).
Referências
importantes para a leitura
Vida e morte de M. J.
Gonzaga de Sá
é a obra de Lima Barreto com a maior quantidade de referências intertextuais e
citações de autores e personagens históricos significativos. Para facilitar a
compreensão e o acesso rápido a informações que contribuam para a leitura, apresentamos
uma lista, em ordem alfabética, de breves dados biográficos dos personagens
mencionados, para auxiliar no entendimento dos discursos desenvolvidos no
livro.
· Aristides da Silveira Lobo (1838-1896):
jurista, político, jornalista republicano e abolicionista brasileiro do tempo do
Império.
· Arthur Schopenhauer (1788-1860): filósofo
alemão cuja obra mais conhecida é O mundo
como vontade e representação.
· Auguste Comte (1798-1857): filósofo francês
fundador do Positivismo, doutrina cujas ideias circularam fortemente no Brasil
no início da República.
· Auguste-Maurice Barrès (1862-1923): escritor
do Simbolismo francês que faz apologia ao prazer dos sentidos em suas obras.
· Benjamin Constant Botelho de Magalhães
(1836-1891): militar e político brasileiro, foi um dos articuladores da República,
adepto do Positivismo e participante da Guerra do Paraguai.
· Cândido Lago (?-1929): gramático purista que resolvia dúvidas gramaticais em uma coluna no jornal Correio da Manhã. Ensinava o uso da gramática portuguesa e não aceitava a língua falada no Brasil como correta.
· Charles Darwin (1809-1882): naturalista
inglês criador da teoria da evolução, conhecido por sua obra A origem das espécies.
· Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord
(1754-1838): diplomata francês que atuou durante vários governos e, por ter se
adaptado a diferentes orientações ideológicas, costuma ser usado como sinônimo
de uma política diplomática desonesta e oportunista.
· Eduardo Wandenkolk (1838-1902): militar da
marinha do Brasil, político e senador da República.
· Edgard Alan Poe (1809-1849): escritor e poeta
norte-americano, referido no livro de Lima Barreto em função do conto “A carta
roubada”.
· Estácio de Sá (1520-1567): militar português,
fundador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e primeiro governador-geral
da capitania do Rio de Janeiro, no período colonial.
· Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881):
filósofo, jornalista e escritor do Império russo. Uma de suas grandes obras é o
romance Crime e castigo.
· Francis Bacon (1561-1626): político, filósofo
empirista, cientista e ensaísta inglês. Morreu de um resfriado enquanto tentava
encontrar uma forma de resfriar alimentos para conservá-los.
· François-Marie Arouet – Voltaire (1694-1778):
filósofo e escritor francês cujo conjunto de ideias é a base do pensamento
liberalista, o que inclui críticas à Igreja católica e defesa ferrenha da
liberdade de expressão.
· Henri Poincaré (1854-1912): matemático,
físico e filósofo francês, professor da Sorbonne, conhecido pela obra A ciência e a hipótese.
· Hippolyte Taine (1828-1893): pensador
positivista francês do século XIX, considerado o pai da teoria determinista.
· Hugues-Felicité Robert de Lamennais
(1782-1854): filósofo, escritor e padre francês que procurou conciliar os
ideais liberais com o cristianismo. Suas ideias não eram bem aceitas pela
Igreja católica da época.
· Jean-Baptiste Colbert (1619-1683): ministro
de Estado e da Economia de Luís XVI. Costumava declarar ascendência na nobreza
escocesa, mas teria renunciado à condição de nobre.
· Jean de La Fontaine (1621-1695): conhecido
autor de fábulas que previam obstáculos que precisavam ser ultrapassados para
se concluir um desafio.
· Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): filósofo,
teórico político, escritor e compositor. Do
contrato social é uma de suas obras mais conhecidas.
· Dom João VI (1767-1836): rei de Portugal por
43 anos, estava no poder quando foi encontrado ouro no Brasil. Acabou marcado
por ser um rei que ostentava riquezas.
· Joaquim Caetano (1810-1873): médico e
diplomata que deu início às discussões sobre as questões de fronteira entre o
Brasil e a Guiana.
· José Alexandre Teixeira de Melo (1833-1907):
jornalista e escritor brasileiro que foi chefe da seção de manuscritos da
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e realizou pesquisas que foram muito
importantes para a futura definição de políticas fronteiriças do país.
· José Maria da Silva Paranhos Júnior – Barão
do Rio Branco (1845-1912): jornalista, político e diplomata brasileiro que foi
ministro das Relações Exteriores entre 1902 e 1912. Ganhou fama por vencer disputas,
em tribunais internacionais, que aumentaram o território brasileiro. Sempre
gozou de muito prestígio popular e foi cotado para ser presidente da República.
Lima Barreto não concordava com a fama que o Barão tinha e chegou a expressar
essas opiniões em uma crônica de 23 de janeiro de 1915.
·
Joseph Ernest Renan (1823-1892):
filósofo e historiador francês, conhecido por seu ensaio “O que é uma Nação?”, que
influenciou Lima Barreto na classificação da ideia de nacionalismo como produto
de uma construção histórica.
· Lev Nikolaevitch Tolstoi (1828-1910):
escritor russo, também conhecido como Liev Tolstoi, autor de obras como Anna Karenina e Guerra e paz. Celebrado como um dos grandes autores de todos os
tempos.
· Licínio Atanásio Cardoso (1852-1926):
rigoroso professor de Mecânica da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde o
próprio Lima Barreto estudou e não conseguiu concluir o curso, exatamente por
não ser aprovado na disciplina de Cardoso. Após estudar matemática por longos
anos, tornou-se um dos introdutores da homeopatia no Brasil.
· Louis Moreau Gottschalk (1829-1869): pianista
e compositor norte-americano.
· Luís XIV (1638-1715): conhecido como o
Rei-Sol, foi um monarca absolutista francês que é lembrado por sua frase “O
Estado sou eu”.
· Manuel Deodoro da Fonseca (1827-1892): militar
e político brasileiro, primeiro presidente do Brasil e figura central da
Proclamação da República.
· Numa Denis Fustel de Coulanges (1830-1889):
historiador e professor universitário francês.
· Otto Eduard Leopold von Bismarck-Schönhausen
(1815-1898): nobre, diplomata e político prussiano que ganhou muito destaque no
século XIX e ficou conhecido como “chanceler de ferro”, por sua atuação no
governo alemão.
· Pedro Álvares Cabral (1467-1520): comandante
militar, navegador e explorador português, considerado o responsável pelo
“descobrimento” do Brasil pelos portugueses.
· Doutor Pelino Joaquim da Costa Guedes
(1858-1919): poeta, biógrafo, jornalista, advogado, professor, funcionário da
Secretaria dos Negócios do Interior e da Justiça, diretor da Secretaria do MJNI
e fundador da Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro.
· Pierre Abélard (1079-1142): teólogo e
filósofo escolástico francês que defendia o “conceitualismo”, afastando-se do “nominalismo”.
· Plutarco (46 d.C.-120 d.C.): historiador, biógrafo,
ensaísta e filósofo grego. Conhecido por suas obras Vidas paralelas e Morália.
· Prudente José de Morais Barros (1841-1902):
advogado e político brasileiro, presidente do Estado de São Paulo, senador,
presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1891 e terceiro presidente do
Brasil, o primeiro civil e o primeiro eleito por eleições diretas.
· Robert Walpole (1676-1745): considerado o
primeiro e o mais longevo primeiro-ministro do Reino Unido, nomeado conde de
Orford. Subsidiou escritores para que escrevessem sobre ele, livrando-o de
acusações de corrupção.
Outras referências dignas de nota
· Café Papagaio: importante café do início do
século XX, situado à rua Gonçalves Dias, no centro do Rio de Janeiro, e
frequentado por intelectuais, jornalistas, escritores e funcionários públicos,
como Lima Barreto e seus amigos.
· Jornal Le
Figaro: jornal francês de orientação conservadora, fundado em 1826 e que
ainda continua em circulação.
· Julgamento de Minos: Minos, na mitologia
grega, era um dos três juízes mortos no submundo, juntamente com Éaco e
Radamanto. Conhecido por sua sabedoria e imparcialidade na tomada de decisões
judiciais. Para a mitologia, os indivíduos são julgados por Minos depois da
morte e sempre são avaliados de forma justa e incorruptível.
Narrador
1ª pessoa – narrador testemunha
Augusto
Machado observa e descreve o amigo Gonzaga de Sá e faz uso do recurso do narrador em movimento, como definido pelo
pesquisador Antonio Arnoni Prado, o que dá à obra a possibilidade de apresentar
diferentes pontos da cidade, em uma visão de 360 graus, acompanhando suas
andanças pelas ruas do Rio, tanto a pé, como em bondes e trens, que também dão
a dimensão dos habitantes, seus trajetos, costumes e posturas.
A
juventude do narrador é um recurso utilizado por Lima Barreto em alguns de seus
romances e contos. O efeito é o desenvolvimento de uma narrativa em que
narrador e leitor descobrem situações e personagens ao mesmo tempo, criando uma
espécie de cumplicidade e aproximando as discussões do ponto de vista do jovem
funcionário público bem formado e mestiço, identificado com a condição do
próprio autor.
Personagens
· M. J.
Gonzaga de Sá: amanuense da Secretaria dos Cultos, dedicado a questões
burocráticas aparentemente complexas e pouco relevantes, “Manuel Joaquim
Gonzaga de Sá era bacharel em letras pelo antigo Imperial Colégio D. Pedro II.
Possuía boas luzes e teve sólidos princípios de educação e instrução. Conhecia
psicologia clássica e a metafísica de todos os tempos. Comparava opiniões do
Visconde de Araguaia com as do Sr. Teixeira Mendes” (p. 287).
Tem
toda sua formação familiar e acadêmica conectada à Monarquia, pela função
desempenhada por seu pai, general titular do Império. “Sua história sentimental
é limitada. Não foi casado, esqueceu-se disso; embora tivesse amado duas vezes:
a primeira, à filha de um Visconde, num baile de um marquês; a outra, a uma sua
lavadeira, não sabe em que ocasião.” (p. 287)
“Era
Gonzaga um velho alto, já não de todo grisalho, mas avançado em idade, todo
seco, com um longo pescoço de ave, um grande gogó, certa macieza na voz grave,
tendo uns longes de doçura e sofrimento no olhar enérgico. A sua tez era
amarelada, quase dessa cera amarela de certos círios.” (p. 129)
· Augusto
Machado: amanuense afrodescendente, autor da biografia de M. J. Gonzaga de
Sá, pouco preparado em estudos clássicos, com forte influência de pensadores e autores
franceses do Iluminismo e do Liberalismo. Funciona como uma espécie de alterego
do próprio Lima Barreto. Suas origens mestiças não são explicadas, apenas
mencionadas, e sua identificação com o Rio de Janeiro é absoluta. Pode ser
entendido como o próprio Rio de Janeiro mestiço.
· Romualdo
de Araújo: servente da Secretaria dos Cultos, era compadre de Gonzaga de
Sá, que batizara seu filho, Aleixo.
· Dona
Alcmena: moça por quem Augusto sente-se atraído no velório de Romualdo.
· Barão
de Inhangá: “velho funcionário do tempo do Império que se fizera diretor e
barão, graças ao seu nascimento e à sua antiguidade de funcionário” (p. 735).
· Xisto
Beldroegas: funcionário da Secretaria de Cultos, apaixonado pela
Legislação. Queria indeferir todas as solicitações recebidas e achava que
Gonzaga de Sá não tinha aptidões para o trabalho na repartição, sentindo pena
por sua aposentadoria próxima, mesmo sabendo que seria pessoalmente beneficiado
por ela em uma possível promoção.
· Aleixo:
menino órfão de mãe que também perde o pai. É afilhado de Gonzaga de Sá, que o
julga inteligente e muito avançado na escola e está disposto a fazer dele um
grande homem. Representa o mestiço carioca que tem a sorte de ter um padrinho
contribuindo em sua formação; mas, ainda assim, provavelmente terá pouco espaço
na sociedade elitista e racista. Pode-se dizer que Aleixo é também uma representação
do próprio Lima Barreto no livro.
Tempo e espaço
O
Rio de Janeiro em transformação pode ser considerado o grande tema do livro,
que apresenta as descrições de sua topografia e de locais menos retratados em
obras literárias, a diferença entre os bairros, a relação entre o mar e as
montanhas e sua influência no desenvolvimento da capital federal.
Não
há datas precisas mencionadas, mas o período retratado pelo autor é o mesmo
experienciado por ele em vida: a Primeira República brasileira. O momento
histórico de transição entre o Império e a República que o país viveu permite
entender que o tempo de convivência entre Augusto Machado e Gonzaga de Sá não
tenha ultrapassado um ano. Os encontros e as conversas entre os personagens não
são cronologicamente organizados, e a ordem exata em que aconteceram não é uma
informação relevante para a compreensão da obra.
Estilo do autor e da obra
Durante
a maior parte de sua carreira como escritor, Lima Barreto contribuiu em jornais
e revistas com crônicas que consagraram seu estilo crítico, marcado por uma ironia ressentida quanto aos desmandos
da República, ao arrivismo social
e ao preconceito racial – temas
recorrentes em sua obra. A linguagem direta do texto curto e o caráter combativo das crônicas
tornaram-se marcas características do trabalho do autor. Acusado de desleixado,
por não respeitar todas as convenções gramaticais consideradas necessárias para
alcançar o que se entendia como linguagem elevada, Lima Barreto amargou a
indiferença de muitos dos seus pares e o desprezo da elite intelectual do Rio
de Janeiro no início do século XX.
O
que se compreende, mais de 100 anos após a morte do autor, é que é possível
encontrar em seus textos uma maneira específica de apresentar os subúrbios
cariocas, do ponto de vista de um habitante dessas regiões periféricas da então
capital federal, desprivilegiado e impotente para quebrar a barreira do
preconceito social e racial que sente na pele. Há, nesse olhar desenvolvido por
Lima Barreto, uma pessoalidade que
se revela no tom confessional de muitas
de suas obras. A presença do autor e de suas experiências de vida é marcada em
discursos combativos de muitos dos personagens de suas crônicas e de seus
romances.
É
importante ressaltar diferenças significativas que se destacam na redação de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá em
relação ao estilo normalmente identificado nas crônicas e em outros romances do
autor. O próprio Lima Barreto considerava esse seu trabalho “cerebrino” e o compreendia como uma
obra em que utiliza uma linguagem menos
agressiva, em que tece as críticas à sociedade carioca por meio de alegorias, lançando mão do humor na
apresentação de personagens caricaturais,
que compõem o quadro completo da movimentação urbana que o autor deseja
apresentar ao leitor, muitas vezes permeado pelo olhar e pela visão de mundo de
seu biografado, Gonzaga de Sá.
Analisemos
a forma que Lima Barreto dá a alguns desses temas recorrentes na redação de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.
Os traços reforçados
do ridículo
Beldroegas era o depositário
das tradições contenciosas da Secretaria de Cultos. Apaixonado pela legislação
cultural do Brasil, vivia obsedado com os avisos, portarias, leis, decretos e acórdãos.
Certa vez foi atacado de uma pequena crise de nervos, porque, por mais papéis
que consultasse no Arquivo, não havia meio de encontrar uma disposição que
fixasse o número de setas que atravessavam a imagem de S. Sebastião. Gonzaga de
Sá contava coisas bem engraçadas de seu colega bacharel. Notava muito a sua
necessidade espiritual da fixação, da resolução em papel oficial de tudo e
todas as coisas. Beldroegas não podia compreender que o número de dias que
chove no ano não pudesse ser fixado; e se ainda não o estava, em Aviso ou Portaria,
era porque o Congresso e os ministros não prestavam. Se fosse ele...Ah!... O
movimento dos astros, o crescimento das plantas, as combinações químicas, toda
a natureza, no seu entender, era governada por avisos, portarias e decretos,
emanados de certos congressos, ministros e outras espécies de governantes que
tinham existido há muito tempo. Não acreditava que outras vontades ou forças
mais poderosas do que as dos membros ostensivos do poder político governassem.
Eram eles, só eles, o voto... Tolice!...
LIMA
BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de
Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p.
1671-1691.
Por
meio de um personagem secundário, colega de Gonzaga de Sá na Secretaria dos
Cultos, Augusto Machado tece uma crítica
contundente à administração pública. Xisto Beldroegas é caricaturado como
alguém “apaixonado” pela legislação do país, empenhado em burocratizar tudo o
que for possível e que sofre de “uma pequena crise de nervos” por uma questão
totalmente irrelevante. Sua postura
positivista crê na previsibilidade de todos os movimentos da natureza a
ponto de poderem ser determinados pela força da lei.
É
importante reforçar que, quando se diz que Lima Barreto retratou, de modo
inédito até aquele momento, o funcionário público do subúrbio carioca, não se trata
de uma generalização que compreende todo o funcionalismo. Lima desenha
diferentes tipos de comportamento que compõem a administração pública. No caso de
Xisto, trata-se de um homem reificado
pela máquina pública, por seus avisos, decretos e portarias. Ele é
retratado como um homem de total dedicação a causas fúteis e de nenhum
interesse social. Outro aspecto relevante na caracterização de Beldroegas é que
Lima Barreto não se prendeu à caracterização física do personagem, como é comum
que se faça na composição de uma caricatura. O funcionário é caricaturado por
suas ideias e comportamentos, mas, ainda assim, o leitor é capaz de criar uma
imagem do homem, a partir de pequenos elementos como o fato de usar “pincenê” e
de sua constante agitação, como se estivesse envolto em uma nuvem de documentos,
pelos quais é apaixonado e dos quais não consegue se desvencilhar.
Mais
um dado importante do estilo de Lima Barreto, nesta obra, é o uso do discurso indireto livre, como se pode
notar em “Se fosse ele...Ah!...”, recurso expressivo cujo efeito é a
aproximação entre o leitor e o personagem na descrição do narrador que se deixa
sobrepor pela fala ou pensamento de quem apresenta. O resultado é o contato
direto com a figura descrita.
Mais
adiante, no texto, quando o narrador se encontra com o personagem na rua, ele
faz a seguinte observação sobre Xisto:
Ele não me respondeu
claramente, articulou unicamente um grunhido de suíno, como exigia a sua
respeitabilidade burocrática.
LIMA
BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de
Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p.
1712.
Há
uma ligeira tendência à animalização
de Xisto, por meio da referência ao seu grunhido de suíno, seguida de uma
ironia a respeito da relação direta desse grunhido com a dita respeitabilidade
burocrática.
Entende-se
que a apresentação de um personagem menor, que não tem relação direta com o
tronco principal do romance, é uma das estratégias que o autor usa para abordar
temas frequentes em sua obra, destilar sua ironia, revelar seu ressentimento pela condição de silenciado e
excluído e praticar sua literatura combativa contra os desmandos da
Primeira República do Brasil.
O retrato específico
de um certo Rio de Janeiro
Há
muitos trechos do livro em que são apresentadas cenas de paisagens do Rio de
Janeiro, algumas vezes com figuras que compõem a população local e outras com
clara ênfase na descrição da natureza, como é possível perceber no fragmento
que segue:
Quando cheguei ao
terraço do Passeio, já os morros de Jurujuba e de Niterói haviam perdido o
violeta com que eu os vinha vendo cobertos pela viagem de bonde afora; sobre a
Armação, porém, pairava ainda o jorro de densas nuvens luminosas, por onde, nas
oleografias devotas, acostumamos a ver surgir os santos e anjos da nossa fé,
ameaçando tempestade; mas a minha secreta correspondência com o meio avisara-me
que não choveria. Chegado que fui, sentei-me a um banco embutido no muro, bem
defronte a uma das novas escadarias que levam à gabada avenida “Beira-mar”. Em
seguida puxei um cigarro e pus-me a fumá-lo com paixão, olhando as montanhas do
fundo, afogadas em nuvens de tumbo; e, engastado na barra de anil, um farrapo
de púrpura, que se estendia por sobre os ilhotes de fora da baía.
LIMA
BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de
Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p.
164.
A
descrição da paisagem carioca, que não corresponde à gasta imagem turística da
zona sul do Rio de Janeiro, muito usada para caracterizar a cidade, ganha
contornos impressionistas pelas cores e pelos movimentos sugeridos pela escolha
lexical do autor. Trechos como “jorro de densas nuvens luminosas” e “engastado
na barra de anil” são exemplos de uma linguagem que valoriza a impressão do observador
mais do que a descrição objetiva daquilo que se observa. O resultado surpreende
pelo lirismo e pela naturalidade com
que os comentários reveladores do narrador são inseridos na descrição, como
ocorre em “a minha secreta correspondência com o meio avisara-me que não
choveria”.
Pode-se
considerar a identificação do narrador com a cidade um efeito de sentido da
descrição apresentada, uma vez que a paisagem externa se confunde com as
percepções e as sensações internas daquele que a vê. Augusto Machado identifica
a proximidade de sua trajetória com a da cidade e se percebe vivo nos
diferentes fluxos e contrafluxos que cortam o Rio de Janeiro. Em momentos que
fundem descrição e reflexão pessoal, o lírico se estabelece e o trecho se
aproxima da prosa poética.
Outro
aspecto que se destaca na apresentação do Rio de Janeiro, na obra, é a
descrição de personagens locais e seus hábitos cotidianos:
Deixando o hotel, ao
chegarmos à Avenida Central, havia um movimento por ela acima. Subimos até o
pavilhão Monroe. O público noturno de domingo, nas ruas, tem uma certa nota própria.
Há os mesmos flaneurs, artistas e escritores e boêmios; os mesmos camelots,
mendigos e rodeuses, que dão encanto do pitoresco à via pública. No domingo,
porém, como eles, vêm as moças dos arrabaldes distantes, com seus pálidos
semblantes e os vestidos característicos. Vêm as armênias das adjacências da rua
Larga, em cujos grandes olhos negros, guarnecidos de longos cílios, e com uns
duros reflexos de turmalina, a gente vê por vezes passar alguma coisa de
ferocidade asiática. Além desses há operárias em passeio, com suas roupas
amarfanhadas pela longa estadia nos baús. Há caixeiros com roupas eternamente novas
e grandes pés violentamente calçados... Por entre essa gente, fomos indo até a
balaustrada que dá para o mar, junto à qual nos encostamos, olhando em todo o
comprimento a avenida iluminada e movimentada.
LIMA
BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de
Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p.
1618.
Há
ainda uma peculiaridade no estilo barretiano que é digna de nota: trata-se da inserção de reflexões opinativas acerca
de determinado tema de forma quase artificial. No meio de uma conversa cotidiana,
como no exemplo que segue, o autor muda o tom do discurso e passa a apresentar
teorias e/ou argumentos para as teses que pretende defender:
– É verdade! Mas, virá
deles mesmos a perda de vontade, o enfraquecimento do amor, da dedicação aos
estudos; ou tem tal fato raízes
em motivos externos, estranhos a eles que, só numa idade mais avançada, acabam
percebendo, quando a consciência lhes revela o justo e o injusto, fazendo que
se lhes enfraqueça deploravelmente o ímpeto inicial?
LIMA
BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de
Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p.
1995.

