05 maio 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ (1)

 


Introdução

Um autor silenciado

Ao nos debruçarmos sobre o penúltimo livro publicado por Lima Barreto em vida, em 1919, fica evidente que estamos diante de um autor que foi vítima de um processo de silenciamento, cujas razões transcenderam sua origem simples e a cor de sua pele. Lima também carregou o estigma criado em torno dos que sofrem de depressão e de alcoolismo e acabou tornando-se conhecido por um estilo considerado descuidado e repleto de incorreções gramaticais à época.

É importante destacar que a crítica literária em atividade no Rio de Janeiro do início do século XX era formada por um pequeno grupo de intelectuais e escritores influentes, que tinham o poder de determinar quais obras e quais autores seriam valorizados e reconhecidos. Não faltavam razões, em uma República fixada sobre uma sociedade classista e racista, na esteira da abolição tardia da escravatura, para que um escritor mulato, pobre e com problemas de alcoolismo fosse completamente ignorado pela elite intelectual da então capital federal.

No entanto, a tentativa de apagamento do trabalho de Lima Barreto – que era o de colocar em crônica situações cotidianas dos subúrbios cariocas – está muito mais relacionada às opiniões controversas do autor e aos seus ataques diretos ao racismo, à desigualdade social, à corrupção política e às injustiças presentes na sociedade brasileira, que expunham contradições e hipocrisias da elite e desafiavam as estruturas de poder estabelecidas.

Pode-se dizer também que a forma como o autor desenvolveu seus enredos, entremeados de discursos panfletários e/ou descrições com alto grau de lirismo, contribuiu para o afastamento do público leitor, que era mais afeito aos romances produzidos dentro das convenções estéticas e ideológicas do período, como José de Alencar e Machado de Assis.

Neste trabalho, apresentam-se as razões e consequências do processo de silenciamento histórico sofrido pelo autor com base na análise de uma obra concebida por ele em 1906, antes da publicação de seu primeiro livro, mas que só veio a público três anos antes de sua morte: Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.

 

Lima Barreto: aspectos biográficos

Nascido em 13 de maio de 1881, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, Afonso Henriques de Lima Barreto é autor de uma obra literária significativa, que analisa criticamente o Brasil do início do século XX. Especialmente empenhado em abordar temas como o arrivismo social, a disseminação do preconceito racial na sociedade e o excesso de burocracia que impedia o desenvolvimento do país, Lima Barreto, descendente de uma família de mestiços pobres, filho de pai tipógrafo e mãe professora, por quem foi iniciado nos estudos, tornou-se um cronista da realidade na capital federal, apresentada sob a ótica de moradores da periferia da cidade. Órfão de mãe aos 6 anos, ele teve condições de estudar e ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas abandonou a faculdade no terceiro ano por se tornar responsável pelo sustento dos três irmãos após o enlouquecimento e a internação de seu pai. Prestou concurso, passou e trabalhou, desde 1904 até sua aposentadoria – por questões de saúde, em 1918 –, como escriturário do Ministério da Guerra.

As primeiras contribuições literárias do autor para uma revista de grande circulação se deram em 1907 e, depois disso, Lima Barreto fundou sua própria revista: Floreal. Sua primeira publicação em livro, paga do próprio bolso, foi o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), em que são narradas as dificuldades de um jornalista honesto, bem formado e negro em uma sociedade dominada pelo preconceito e que não dá oportunidades aos negros e aos mestiços. O livro foi muito mal recebido por referir-se a personalidades da imprensa e da literatura da época e, por esse mesmo motivo, considerado datado e de pouco interesse para futuros leitores pelo importante crítico José Veríssimo – o que provou-se um equívoco. Sua linguagem oral também foi alvo da crítica especializada e acabou se tornando um aspecto, dentre os vários de sua obra, que relaciona seu trabalho aos modernistas.

Mais tarde, publicou sua obra mais conhecida – Triste fim de Policarpo Quaresma –, primeiro nas páginas do Jornal do Comércio, depois em livro, em 1915, mais uma vez com recursos próprios. Foi nesse período que Lima Barreto foi internado pela primeira vez em decorrência de crises de depressão e alcoolismo. Em 1916, porém, voltou a contribuir com contos e crônicas na revista ABC, em que publicou textos de claro viés socialista. Uma das últimas obras publicadas em vida, dessa vez pela editora de Monteiro Lobato, que arcou com os custos, foi Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, em 1919. A publicação, que, embora tenha concorrido ao prêmio de melhor livro do ano da Academia Brasileira de Letras em 1920 e recebido uma menção honrosa, não teve a aceitação esperada e vendeu muito pouco.

Apesar de ter sido um crítico contumaz da tradição artístico-literária modelada e validada pelas elites, Lima Barreto candidatou-se três vezes a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, tendo sido recusado em duas delas e desistido da candidatura na terceira, antes mesmo da realização da eleição. Foi ignorado pela elite cultural de seu tempo pela postura combativa de seus textos, pelas ideias que se aproximavam do anarquismo e do socialismo e pela adoção de um estilo considerado desleixado. O trabalho do autor é marcado por citações eruditas e por descrições de paisagens dos subúrbios do Rio de Janeiro e de agrupamentos humanos em seu cotidiano, mas sem renunciar à oralidade, que, para alguns, mesmo que registrasse a fala brasileira, não era considerada suficientemente refinada para ser nomeada literatura.

Em meados de 1919, vivenciando fortes crises nervosas, Lima Barreto voltou a ser internado, período no qual escreveu a base do romance Cemitério dos vivos, que deixou inacabado, e seu Diário íntimo, publicado postumamente. O autor morreu de colapso cardíaco, aos 41 anos de idade, em novembro do emblemático ano de 1922.

 

O contexto da publicação

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá foi publicado pela primeira vez na Revista do Brasil, em São Paulo, em 1919, período da Primeira República do Brasil (1889-1930), que se iniciou com a promessa de liberdade e avanço dos direitos de todos os cidadãos, mas acabou por tornar-se totalmente dominado pelas oligarquias. Os grandes proprietários de terra e detentores de maior poder financeiro comandaram o desenvolvimento de uma República cujo sistema de valores e crenças reforçava a exclusão e o preconceito contra determinada camada da população.

Nessa época, eram prestigiadas teorias raciais pseudocientíficas que afirmavam a superioridade dos brancos em relação aos negros e aos mestiços, o que contribuiu diretamente para o aumento do preconceito racial e, consequentemente, para a crescente desigualdade social no país. Desenvolveu-se um projeto para o branqueamento da população brasileira, apresentado à comunidade científica mundial no Primeiro Congresso Universal das Raças, em 1911, pelo médico e diretor do Museu Nacional no Rio de Janeiro, João Baptista de Lacerda. Cientistas e estudiosos apoiavam a empreitada, que prometia a eliminação total da população negra no país em um prazo de 100 anos.

Há registros sobre a redação de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá nos diários do autor desde 1906, ainda que a obra só tenha sido publicada em 1919. Lima Barreto fundou a revista Floreal com seus amigos em 1907 e nela publicou os primeiros capítulos de sua obra de estreia, Recordações do escrivão Isaías Caminha. Tendo sido elogiado pelo importante crítico José Veríssimo, o autor resolveu procurar um editor para viabilizar seus projetos e decidiu mandar o livro para a apreciação de uma editora portuguesa. Na ocasião, em carta a um amigo, explicou que optou por uma obra que fosse mais ousada e chocasse o público leitor pelas denúncias que fazia. Nessa explicação, Lima Barreto mencionava o protagonista de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá:

Era um tanto cerebrino, o Gonzaga de Sá, muito calmo e solene, pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal por vezes, mas sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar, e temo não que ele te escandalize, mas que te desagrade.

LIMA BARRETO. Correspondência ativa e passiva. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1961. v. 1. p. 169.

 

Há três informações relevantes para este trabalho nesse curto fragmento: 1) Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá já estava pronto, ou muito adiantado, em fevereiro de 1909, data da carta enviada; 2) Lima Barreto considerava o livro “cerebrino”, além de “muito calmo e solene”, e sabia que o estilo da obra era muito diferente do que empregara em Recordações do escrivão Isaías Caminha, mais virulento e direto em sua crítica à imprensa da época; 3) o propósito claro do autor, antes de publicar sua primeira obra em livro, era atacar diretamente a imprensa e os intelectuais da época e causar escândalo com suas opiniões.

Lima Barreto teria alcançado seu propósito? Sim. Ele causou tanto escândalo que acabou rapidamente excluído do círculo de autores que mereciam ser lidos e respeitados, segundo a elite cultural da época.

Não deixa de ser curioso que Lima Barreto tenha produzido uma obra tão singular e amadurecida ainda na juventude. Geralmente, esse tipo de obra é produto da prática, da experiência e do próprio amadurecimento do autor. Podemos, então, concluir que Lima Barreto já tinha consciência, antes mesmo de publicar o primeiro livro, das especificidades e possibilidades de seu estilo literário e conseguia perceber como alguns de seus textos eram mais diretos e combativos, enquanto outros lançavam mão de alegorias e metáforas para destilar sua crítica.

Em setembro de 1918, depois de já ter passado pela primeira internação em um hospício, Lima Barreto recebeu uma proposta da editora de Monteiro Lobato:

Prezadíssimo Lima Barreto.

A Revista do Brasil deseja ardentemente vê-lo entre os seus colaboradores. Ninho de medalhões e perobas, ela clama por gente interessante, que dê coisas que caiam no gosto do público. E Lima Barreto, mais do que nenhum outro, possui o segredo de bem ver e melhor dizer, sem nenhuma dessas preocupaçõeszinhas de toilette gramatical que inutiliza metade dos nossos autores. Queremos contos, romances, o diabo, mas à moda de Policarpo Quaresma, da Bruzundanga, etc. A confraria é pobre, mas paga, por isso não há razão para Lima Barreto deixar de acudir ao nosso apelo.

Aguardamos, pois, ansiosos a resposta, uma resposta favorável.

LIMA BARRETO. Correspondência ativa e passiva. São Paulo. Brasiliense, 1961. v. 1. p. 126.

 

O convite do editor-chefe da Revista do Brasil, em tom amistoso e elogioso, revela alguns traços positivos da literatura barretiana que, considerando as palavras de Lobato, já eram conhecidos pelos críticos da época. Acreditava-se no potencial de as obras caírem no gosto do público, reconhecia-se a habilidade do autor em “bem ver e melhor dizer” além da peculiaridade de seu estilo: “sem nenhuma dessas preocupaçõeszinhas de toilette gramatical”.

O tino comercial do editor Monteiro Lobato previa que a forma como Lima Barreto descrevia a cidade do Rio de Janeiro, sob uma nova perspectiva, tinha todas as chances de se tornar um sucesso editorial e reconhecia as qualidades do trabalho do escritor. O convite foi prontamente aceito pelo autor e seguiu-se, entre os dois, uma correspondência frequente e entusiasmada em torno das expectativas e primeiras opiniões sobre o livro.

Mas, com o baixo número de exemplares vendidos, o entusiasmo de Lobato foi diminuindo, assim como a correspondência entre ele e Lima Barreto. Os últimos registros de mensagens trocadas entre os dois são de novembro de 1919, e, nelas, Lobato afirma:

O teu livro sai pouco, sabe por quê? O título! O título não é psicologicamente comercial. Um bom título é metade do a biografia de... um ilustre desconhecido.

LIMA BARRETO. Correspondência ativa e passiva. São Paulo: Brasiliense, 1961. v. 1. p. 263.

 

Síntese e análise da obra

A dedicatória

O livro é dedicado a Antônio Noronha Santos, que, para Francisco de Assis Barbosa, um dos biógrafos de Lima Barreto, é “o maior e mais constante de todos os amigos do romancista”. Noronha foi companheiro do autor na fundação da revista Floreal e com ele manteve vasta correspondência. Na primeira edição do livro, Lima fez questão de dar grande destaque ao nome do amigo, que abre a obra sem qualquer explicação ao leitor.

As epígrafes

São duas as epígrafes escolhidas por Lima Barreto para introduzir a biografia de Gonzaga de Sá. A primeira – “Seul le silence est grand: tout le reste est faiblesse” (Apenas o silêncio é grande: todo o resto é frágil) – é um verso do poema “A morte do Lobo”, do poeta francês Alfred de Vigny (1797-1863). Nesse texto, uma matilha de lobos é atacada por caçadores e um dos lobos se lança em defesa do grupo, e é morto. O verso é o aprendizado deixado pelo último olhar do lobo para o homem que o matou, a respeito da  fragilidade da vida. Sabe-se que o autor foi vítima de um câncer de estômago que lhe causou grande sofrimento até a morte, o que explica a conexão do poema à vida de Vigny. Entende-se que a relação entre a vida do autor e a obra desenvolvida por ele é um aspecto marcante no trabalho de Lima Barreto, que expõe sua indignação e ressentimento frente a várias situações que viveu. Essa é uma possível razão para a escolha da primeira epígrafe.

A segunda epígrafe é o verso “La plaie du coeur est le silence” (A chaga do coração é o silêncio), do romance francês Andrés Cornélis, de Paul Bourget (1852-1935). A frase atribuída ao autor não foi citada em sua versão original, que, na verdade, é: “O grande veneno do coração é o silêncio”. Uma possibilidade é que Lima Barreto esteja se referindo ao fato de o protagonista – M. J. Gonzaga de Sá – não ter conseguido escrever nada durante a vida que registrasse seu conhecimento de mundo e suas opiniões. Assim, é o silêncio a verdadeira causa de seu sofrimento – causa essa que, ao dedicar-se a escrever a biografia do amigo, Augusto Machado, procura minimizar.

O biografado

M. J. Gonzaga de Sá, funcionário público, branco, filho de um general titular do exército, bem formado, 60 e poucos anos.

O biógrafo

Augusto Machado, funcionário público, negro, de origem humilde, bem formado, 20 anos.

 

A questão do gênero da obra

Partamos do pressuposto de que o estabelecimento de um enredo marcado por relações de causalidade e lógica temporal costuma ser a base primeira na construção de um romance, dentro dos modelos de narrativas popularizadas ao longo do século XIX. Neles, os autores e suas reflexões sobre a sociedade e seu modo de vida estão a serviço de uma história a ser contada, dentro de um contexto estabelecido. Para que essa perspectiva faça mais sentido, são desenvolvidos personagens que, por meio de suas ações e das relações praticadas entre si, tecem a trama onde reside o sentido principal de uma obra literária em prosa daquele período.

No entanto, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá não é um romance que siga modelos preestabelecidos. Ele é apresentado como biografia, feitas algumas ressalvas que se explicarão a seguir, mas, talvez, não seja nem uma biografia, nem um romance, mas um conjunto de quadros, conforme define o crítico Marcos Scheffel:

cenas do cotidiano: da rua, da repartição pública, da casa de Gonzaga, do funeral no subúrbio (que descreve a arquitetura suburbana), dos cafés, dos correios, do Passeio Público, do interior dos bondes e trens, do interior do teatro etc. Nesse sentido, os capítulos poderiam até ser cambiáveis em sua ordem, já que a única grande revelação do enredo é dada desde o título: a morte de Gonzaga de Sá.

SCHEFFEL, Marcos. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá – Possibilidades éticas e estéticas do romance moderno brasileiro. In: LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá. Apresentação e notas de Marcos Scheffel. Cotia: Ateliê Editorial, 2023. p. 19.

 

Lima Barreto é daqueles autores cujos propósitos são colocados em primeiro lugar e em que o mais importante, nos textos, passa a ser a transmissão de uma visão de mundo, o que torna a obra, em certos casos, um veículo de divulgação de determinadas pautas. Não cabe aqui qualquer julgamento a respeito da questão, mesmo porque a estrutura da obra funciona de forma orgânica e coesa, mas faz-se necessário o esclarecimento de que o enredo não é o aspecto mais relevante, mas um pretexto para a apresentação de um Rio de Janeiro em rápida transformação na Primeira República do Brasil. Além da cidade, revelada sob um ponto de vista específico, Lima Barreto cria personagens do funcionalismo público que observam e discutem as transformações pelas quais o país passa, o que inclui uma engenhosa situação de enunciação, além da provocação metalinguística a respeito do gênero do livro.

 

Comentários sobre o enredo

Advertência

Síntese

Lima Barreto adverte que, após ter recebido de um antigo colega de escola, Augusto Machado, em abril de 1918, um pedido para que revisse e publicasse sua pequena obra, concluiu ter nada ou muito pouco a retocar, achando necessário apenas um  breve comentário sobre a classificação escolhida pelo autor – biografia – que, para ele, não seria precisa para definir a obra em questão. Para Lima, uma biografia precisaria ter “a rigorosa exatidão de certos dados, a explanação minuciosa de algumas passagens da vida do principal personagem e as datas indispensáveis em trabalho que queira ser classificado de tal forma” (p. 31). Além disso, ele também aponta para o fato de que, na obra, a pessoa do autor se sobressai mais do que a do próprio biografado. À parte esses apontamentos, considerados insignificantes defeitos, Lima Barreto declara que a rápida publicação da obra animará a vocação literária que Augusto Machado demonstra no trabalho que escreveu.

 

Comentário

Lima Barreto coloca a si mesmo como editor de sua obra, marcando a data de abril de 1918, ano anterior ao da publicação. O aviso a respeito da inclusão de aspectos da vida do biógrafo na apresentação do biografado serve também como alerta de que a obra como um todo terá muito de seu autor, cujas ideias se desdobram nos dois personagens criados. É interessante observar o recurso utilizado pelo autor para fundir realidade e ficção. De um lado, um editor forjado – Lima Barreto – que é, na verdade, o autor do livro, e, de outro, um narrador inventado – Augusto Machado –, homem mestiço e de origem humilde, funcionário público muito bem formado. O prólogo cumpre a função de desdobrar autor em narrador e deixar clara a situação de enunciação desenvolvida na obra.

Além disso, a provocação metalinguística sobre a classificação da obra alerta o leitor sobre pontos a serem observados na leitura, como a estrutura do próprio livro e os recursos   expressivos escolhidos para dar vida aos personagens, o que coloca Lima Barreto em uma interessante posição de guia de leitura, conduzindo o olhar do leitor para os aspectos que considera mais relevantes. O questionamento da precisão de definição do gênero da obra, com a breve enumeração dos traços fundamentais de uma biografia, é marca da ironia do autor, que não adotou a biografia como gênero exatamente por desejar questionar a validade dessas definições teóricas.

 

Explicação necessária

Síntese

Augusto Machado, em nota assinada em outubro de 1906, esclarece que resolveu dedicar-se à biografia de M. J. Gonzaga de Sá por interessar-se pela vida de um amanuense que cumpria a função de escriba ministerial no início da República brasileira. A inspiração para esse trabalho teria surgido da leitura permanente de biografias do doutor Pelino Guedes.

O autor (Augusto Machado) afirma ter feito uma grande descoberta – que o tornou merecedor do agradecimento do mundo – sobre a “lei da divisão do trabalho”, aplicando-a ao universo das biografias. Se havia biógrafos para os ministros, como o doutor Pelino Guedes, era natural que também os houvesse para os amanuenses. A partir dessa descoberta, Augusto Machado curvou-se à lei e a obedeceu, passando a escrever sobre M. J. Gonzaga de Sá.

O estilo empregado nesse trabalho é uma questão também apresentada pelo autor, que se desculpa por colocar no texto muitas informações sobre si mesmo, falha que atribui ao seu “incorrigível e elementar egotismo”. Lamenta-se ainda por não ter sido capaz de imitar a “concisão telegráfica” e a “impersonalidade” que seu modelo usava nas biografias que escrevia.

O autor justifica-se e explica que não teve formação literária e que não sabe grego nem latim. Além disso, nunca se dedicou a estudar a gramática do senhor Cândido de Lago, mas tem a inspiração em seu mestre na Escola Politécnica, o doutor Licínio Cardoso, que se dedicou ao estudo da Matemática, mas acabou curando-se pela homeopatia. Para Augusto, os julgamentos do professor Licínio eram sempre imparciais, e foram sua inflexibilidade e retidão que ensinaram justiça ao autor que agora se aventurava na composição da biografia de um homem comum, um escriba ministerial.

Feitas as explicações e as ressalvas, Augusto Machado pede mais uma vez que seja perdoado por seu “opúsculo aliterado” e afirma que o produziu movido pela busca de um estimulante e pela tentativa de imitação de mestres como Pelino Guedes e Plutarco, biógrafo grego do século I d.C.

 

Comentário

Lima Barreto escreveu um texto sobre uma das biografias escritas por Pelino Guedes em que criticava a postura do biógrafo, por utilizar seu trabalho para agradar autoridades e conquistar favores. A homenagem que Augusto Machado faz a ele, portanto, é uma ironia. Ao mencionar o autor uma segunda vez, fica claro que sua proposta de biografar Gonzaga de Sá é uma reação ao trabalho de Pelino Guedes, uma vez que os biografados que interessavam a Augusto eram sempre pessoas sem importância.

A prática de inserção de pessoas reais na ficção é uma constante no trabalho de Lima Barreto e foi especialmente criticada quando da publicação de Recordações do escrivão Isaías Caminha porque gerou polêmica nos leitores da época, que ora se sentiam ofendidos, ora representados, mas tornou o livro muito ligado ao período e às situações que retratava, o que poderia causar perda de relevância e de interesse em leitores de outros tempos.

Augusto também comenta sobre o gênero da obra, reconhecendo que o livro se afasta de uma biografia tradicional, que era sua intenção inicial produzir, mas foi atrapalhada pelo egotismo do biógrafo, o que também tem sua dose de ironia. O narrador é personagem fundamental no texto que escreve, ainda que não tenhamos informações detalhadas sobre sua família de origem e sobre os anos que antecedem a narração, e nos é apresentado em meio à complexidade de suas dúvidas no que se refere, principalmente, ao lugar que ocupa na sociedade. Nota-se, antes mesmo do início da narrativa, uma certa sensação de inferioridade – muito presente em personagens de Lima Barreto – que obriga o autor a se desculpar pela falta de formação específica para a escrita.

A questão mais relevante desse segundo prólogo é a explicação da escolha do biografado que, em contraste com os ministros respeitados e valorizados, é um simples amanuense, o que, nas palavras de Augusto, respeita a lei da divisão do trabalho e a aplica ao universo das biografias, estabelecendo uma diferença clara entre aqueles que trabalham no funcionalismo público. Além disso, entende-se pela data do texto – outubro de 1906 – que a obra estava pronta 12 anos antes de Lima Barreto (o editor) fazê-la publicar.

O doutor Licínio Cardoso é outra referência importante para compreender a ironia utilizada pelo autor na menção a personagens reais. Lima, que realmente foi aluno do professor citado, viu-se obrigado a deixar a Escola Politécnica do Rio de Janeiro por não conseguir ser aprovado nas disciplinas ministradas por Cardoso.

 

Capítulo I – O inventor e a aeronave

·  Espaços: gabinete de Gonzaga de Sá, Passeio Público, terraço do Passeio Público, jardim da casa de Gonzaga de Sá.

·  Temas principais: a origem do narrador e sua identificação com o Rio de Janeiro, o cotidiano burocratizado nas repartições públicas, a morte de Gonzaga de Sá e o pequeno e pessimista texto que deixou como legado, os primeiros encontros entre biógrafo e biografado.

Síntese

Augusto Machado conhece Gonzaga de Sá na Secretaria dos Cultos, onde este dedicava todo seu tempo à resolução de questões burocráticas complexas e pouco relevantes, como uma dúvida a respeito da quantidade de “salvas” devidas a um bispo na entrada do porto de Belém. Para uma resposta exata, eram necessárias averiguações que dessem conta de checar o procedimento em outros países e segundo diferentes religiões, e Augusto tinha sido mandado para a Secretaria dos Cultos para tentar resolver essas dúvidas em torno da questão das salvas devidas ao bispo, concluindo que, apesar de pouco conhecida e valorizada, a Secretaria merecia “o respeito e a consideração da nossa população” (p. 118).

A impressão que Augusto tem da repartição em que Gonzaga trabalha é ótima: “Na linda repartição das delicadas coisas internacionais, fizeram sábias transposições de uma religião para outra [...]. Foi organizado um quadro, muito bem riscadinho em que os nomes dos sacerdotes de cada religião foram escritos, respeitando-se a índole ortográfica de suas línguas próprias” (p. 92). Quando Augusto vê Gonzaga, o amanuense está afogado em um mar de papéis e trabalha com afinco na resolução de outra questão urgente e fundamental: o número de setas que deveria ter a imagem de São Sebastião.

Gonzaga de Sá era, na ocasião, um senhor de mais de 60 anos, de pele amarelada, que nunca se casara, mesmo tendo se apaixonado duas vezes: a primeira pela filha de um visconde e a segunda por uma moça que trabalhava para ele como lavadeira. Augusto simpatiza imediatamente com ele, trata-o com deferência em função de sua idade e intui se tratar de um homem inteligente, ilustrado e bondoso, cujas origens familiares remontavam à fundação da cidade do Rio de Janeiro. Gonzaga era cético, identificava-se com o filósofo Voltaire, defendia regalias do Estado, sobretudo em relação à Igreja católica, mas costumava frequentar cerimônias religiosas para “estar em dia com o seu Deus” (p. 145).

Augusto diz que prefere contar primeiro a morte do amigo para depois revelar-lhe a vida e acredita que o momento da morte explica algo sobre quem a pessoa foi. Lord Bacon, que teve a vida cheia de vilanias, morreu de um resfriado ao tentar conservar uma galinha morta, preenchendo-a com gelo, em suas pesquisas sobre como conservar alimentos resfriando-os. No dia da morte de Gonzaga de Sá, Augusto sai de casa para encontrar-se com ele no Passeio Público, onde observariam as cores do pôr do sol.

No caminho, Augusto contempla o mar, o céu e a serra da cidade e percebe-se completamente identificado com o lugar, inclusive historicamente, porque reconhece sua origem mestiça como a origem do próprio Rio de Janeiro, formado pela união dos povos vindos de Portugal e da África: “E, assim, fui sentindo com orgulho que as condições de meu nascimento e o movimento de minha vida se harmonizavam – umas supunham o outro que se continha nelas; e também foi com orgulho que verifiquei nada ter perdido das aquisições de meus avós, desde que se desprenderam de Portugal e da África” (p. 199).

Sentindo-se assim, Augusto repudia a influência dos germanos e dos gregos, que em nada se relacionam a sua origem. Ainda antes de encontrar-se com Gonzaga de Sá, Augusto vê, com antipatia, um grupo de turistas ingleses que levavam algumas ramas de arbustos e sente-se roubado por eles. Ao mesmo tempo, ao pensar nos europeus, reconhece que toda sua formação está baseada em autores e filósofos estrangeiros, principalmente franceses e ingleses. Gonzaga de Sá chega ao local e ambos permanecem ali conversando. Gonzaga também expressa irritação com a presença de outro grupo inglês, especialmente pela pressa que demonstram. Ele diz não correr nem para morte, a quem ama, o que espanta Augusto, que só tem 20 anos de idade, sonha em tornar-se diretor e não pensa sobre a morte. Gonzaga convida Augusto para jantar em sua casa e decidem fazer o caminho mais longo, a pé.

Ao passarem por Santa Teresa, Gonzaga de Sá aponta para o convento, envolto em uma atmosfera sorridente e alegre, e afirma que lá dentro vive a memória de pessoas que passaram por aquele lugar, ao contrário de um casarão que também observam, que não guarda “mortos” e, por isso, está desabando. Os amigos sobem mais um pouco até chegarem ao jardim da casa de Gonzaga de Sá. Lá, olhando para o horizonte e vislumbrando a Lapa, a Glória, a Armação e Niterói, abaixa-se para colher uma flor, cai e morre. Após sua morte, Augusto encontra, entre os livros que Gonzaga deixara, uma folha de papel almaço com uma narração completa intitulada “O inventor e a aeronave”. Por acreditar que sua reprodução poderia contribuir na compreensão da personalidade de seu biografado, Augusto divulga seu conteúdo. Antes, porém, avisa que a inteligência de Gonzaga não se comunicava bem por escrito e que só sua palavra viva seria capaz de revelar verdadeiramente seu espírito.

O texto de Gonzaga

Um homem dedica-se completamente ao projeto de desenvolver uma máquina que voasse. Estuda, faz desenhos, procura materiais, sempre com muito afinco e disciplina.  Permanece na oficina, ao lado dos trabalhadores, durante toda a execução do projeto, com especial atenção aos detalhes. A máquina fica pronta, linda e ligeira como uma libélula, e ele poderia partir para uma vida “quase fora da fatalidade da Terra”. O homem não dorme à noite pois sabia que o dia seguinte seria o da realização de um sonho que acalentara e pelo qual trabalhara durante muito tempo. Após fazer os últimos ajustes, acionar o motor e posicionar-se em seu lugar, o homem esperou. A máquina não subiu.

Augusto afirma não ter entendido logo o sentido do texto escrito pelo amigo, mas, pelo que conhecia de Gonzaga, o texto falava sobre “o Acaso, mais do que outro qualquer Deus, é capaz de perturbar imprevistamente os mais sábios planos que tenhamos traçado e zombar da nossa ciência e da nossa vontade. E o Acaso não tem predileções...” (p. 283).

Comentário

O encontro entre biografado e biógrafo se dá no ambiente de uma repartição pública, cujas características constitutivas e funções desempenhadas pelos funcionários são ironicamente detalhadas. Fica claro o desprezo do autor pelas estruturas hierarquizadas em torno de questões fúteis e sem nenhuma importância prática. Há um grande grupo de indivíduos, muitas vezes extremamente bem formados e cultos, cuja inteligência e preparo são colocados a serviço de um Estado burocratizado e inerte.

Augusto Machado é um homem negro e Gonzaga de Sá, branco; o primeiro tem em torno de 20 anos e o segundo já passou dos 60. O comportamento de Gonzaga de Sá é descrito como complexo e contraditório, o que se nota no fato de ele próprio usufruir de regalias do Estado, mas ser teoricamente adepto de Voltaire, filósofo que lutou pela eliminação de qualquer privilégio.

Lima Barreto não deixa dúvidas ao revelar as origens étnicas do biógrafo que criou e que, tantas vezes, confunde-se com ele mesmo. Nas reflexões que Augusto Machado faz andando pelas ruas do Rio de Janeiro, antes de encontrar-se com Gonzaga de Sá, o narrador funde sua história à história da própria cidade e identifica-se como alguém que está totalmente integrado à terra e à paisagem que presencia, uma vez que é a representação do povo mestiço que ocupa o país.

A morte do biografado não tem nada de especial ou surpreendente. Ao abaixar-se para colher uma flor que desejava entregar a Augusto, Gonzaga cai no chão e não se levanta mais. O autor deixa clara a insignificância dessa morte, considerando que Gonzaga de Sá não gozava de grande importância na secretaria em que trabalhava e não tinha habilidade na produção de textos que pudessem reunir suas ideias para serem deixadas como legado. O que resta do funcionário da Secretaria dos Cultos após sua morte é a lembrança daqueles que conviveram com ele e tiveram a oportunidade de entrar em contato com sua visão de mundo por meio da expressão oral inteligente e clara.

O singelo texto deixado por Gonzaga em uma folha de papel almaço amarelada revela o ceticismo do personagem, que, após ter se preparado para a vida, com uma formação primorosa, interessando-se pelas questões da pátria, refletindo sobre os filósofos e literatos que lera, não consegue aplicar esses conhecimentos para obter glória ou fortuna. Pior do que isso, toda a consciência obtida nos anos de sua formação não lhe proporcionou alegrias nem momentos de tranquilidade. Pelo contrário, a percepção clara da desigualdade e das injustiças sociais só trouxe melancolia e desencanto. A máquina de voar não decola. Não há espaço para o voo intelectual de um simples e insignificante funcionário público sem nenhum talento para a escrita, que seria sua única chance de tornar-se eterno – uma lacuna que Augusto Machado procura minimizar com seu livro.

 

Capítulo II – Primeiras informações

·   Espaços: repartição pública na Secretaria dos Cultos.

·  Temas principais: a boa formação de parte do funcionalismo público e o desprezo pelo estudo das humanidades no Brasil.

Síntese

Gonzaga de Sá, filho de um general titular do Império, era bacharel em Letras pelo Colégio Pedro II, e, sem maiores pretensões profissionais, tinha ingressado no serviço público, onde se encontram muitas vezes profissionais dotados de aptidões como o ensaio crítico, a filosofia e as ciências sociais, que não são reconhecidas como importantes e acabam encontrando algum espaço nas repartições públicas, apesar da “depressão mental do ambiente” (p. 311).

Era o caso do biografado, que “conhecia psicologia clássica e metafísica de todos os tempos” (p. 285) e cuja “ânsia e febre de conhecimentos, [...] sempre a par do movimento intelectual do mundo, fazendo árduas leituras difíceis, deviam procurar transformar-se em obra própria” (p. 334). Ele, entretanto, não tinha nenhuma intenção de registrar seus conhecimentos em textos publicados. Tinha receio da opinião da imprensa. Personalidade viva, que mantinha o pensamento ágil e produtivo, mesmo sendo financeiramente remediado e sentindo-se seguro no emprego.

Gonzaga teve poucas experiências sentimentais e declarou ter se apaixonado apenas duas vezes na vida: a primeira pela filha de um visconde e a segunda por uma moça que servia como sua lavadeira. Fez um curso universitário composto de matérias isoladas e gostava muito de revistas, assinando muitas delas. “A variada instrução que recebeu, e o seu gosto policrômico permitiam-lhe seguir, sem esforço, a anarquia dos seus artigos.” (p. 357).

Comentário

A apresentação do biografado é feita de maneira mais direta e textual. São citadas sua família de origem, sua formação intelectual, sua opção pelo funcionalismo público e algumas de suas experiências, com destaque para a vida sentimental pouco desenvolvida, o que fazia dele um homem totalmente dedicado ao trabalho e debruçado sobre reflexões do universo da inteligência, com pouco espaço para sentimentalismos.

Já fica claro, a essa altura do livro – principalmente pelo relato do acontecimento anunciado no título, que poderia gerar interesse e curiosidade no leitor: a morte do biografado –, ter sido apresentado, no capítulo inicial, que a obra não se desenvolverá a partir de acontecimentos que constroem um enredo, mas, sim, de capítulos episódicos que trariam as reflexões de Gonzaga de Sá e de seu jovem biógrafo sobre a cidade em que viviam e as ideias em voga à época.

 

Capítulo III – Emblemas públicos

·   Espaços: Largo do Paço e Correio.

·  Temas principais: diferenças entre símbolos da República e do Império.

Síntese

Em um passeio pelo Largo do Paço, Augusto Machado e Gonzaga de Sá observam um chafariz que Gonzaga chama de feio e massudo, embora reconheça que a esfera armilar colocada no alto dá ao monumento certa grandeza e majestade. De forma geral, Gonzaga não gosta das artes do desenho brasileiras, as quais, para ele, se não pecam quanto à execução são muito insuficientes no que se refere à imaginação criadora. A prova são os mapas das províncias do Brasil no Almanaque Garnier, ladeados por extravagantes emblemas heráldicos. O funcionário da Secretaria dos Cultos também acha que as armas da República corroboram a falta de gosto dos desenhistas brasileiros e afirma que, no período colonial, havia muito mais gosto, com a honrosa exceção do brasão de armas da cidade do Rio de Janeiro, esse sim, elegante e bem-proporcionado.

A noite cai e os amigos, com as “almas inteiramente mergulhadas na sombra” e com os “corpos a pedir amor” (p. 385), veem moças simples e desconfiadas passando rapidamente por eles. Discutem o quanto as mulheres temem os homens que não são bons e sempre desejam enganá-las: pais, maridos, amantes e irmãos. Ambos concluem que, frente a isso, nada vale o adultério.

No dia seguinte, indo ao Correio postar uma carta que escrevera para parentes de Minas, Augusto encontra Gonzaga observando os selos, que não colecionava, mas olhava pela admiração que tinha pelos homens ilustres retratados neles: “Aristides Lobo, Benjamin Constant, Pedr’Álvares, Wandenkolk, Deodoro e Prudente” (p. 417). A ideia de Gonzaga, aprovada por Augusto, é a de que dados biográficos dos homens donos de “boas sentenças morais” também deveriam constar nos selos. As figuras públicas estão associadas a valores em dinheiro. Aristides Lobo vale 10 réis, Benjamin Constant vale vintém (20 réis), Wandenkolk vale 100 réis, Deodoro, 200 réis, Prudente, 400 réis e Pedr’Álvares apenas 50 réis. Gonzaga justifica sua reflexão sobre os selos com a conclusão de que aqueles pensamentos eram dos mais modestos propósitos intelectuais.

Comentário 

O trabalho detalhista do cronista é evidente na apresentação do cotidiano no prédio do Correio e nos comentários minuciosos que Gonzaga de Sá faz de cada um dos selos e das correspondentes figuras históricas associadas ao valor numérico impresso ao lado das imagens. Assim, os personagens são definidos e hierarquizados de acordo com uma cifra financeira.

As referências elogiosas aos símbolos imperiais sugerem uma postura monarquista de Gonzaga de Sá, que aponta enfaticamente para a superioridade dos emblemas do Império em relação aos da República. De fato, o protagonista é um homem ligado ao passado, em função de sua formação. Não se mostra satisfeito com o desenvolvimento da República e acredita que os novos governantes são estrangeiros de mau gosto sem condições de contribuir para o crescimento do país.

 

Capítulo IV – Petrópolis

·  Espaços: bairro de São Cristóvão, trem de passageiros, Bonsucesso, Ilha do Governador.

·  Temas principais: o arrivismo social, a mania de aristocracia dos brasileiros, as paisagens pouco conhecidas do Rio de Janeiro.

Síntese

Gonzaga de Sá explica o arrivismo social existente no Rio de Janeiro, quando “descendentes de fazendeiros arrebentados e sem nenhuma nobreza” se casam com “filhas de portugueses enriquecidos”. Diz-se avesso aos preconceitos de raça, cor, sangue e casta, embora julgue ter todos os motivos para tê-los, por ser descendente dos fundadores da cidade. Só não manifestava sua ascendência nobre por não ter a documentação que comprovava sua origem destacada, uma vez que seus antepassados não se preocuparam com isso. Conclui da apresentação desse exemplo que “uma instituição só é válida quando é mantida com as suas leis”.

Os amigos embarcam em um trem que leva passageiros do Rio a Petrópolis, passando por várias estações da periferia da cidade. Gonzaga critica o desconhecimento de Augusto sobre locais menos populares do Rio de Janeiro e o acusa de só conhecer Tijuca e Botafogo e fechar os olhos para outros lugares belos da cidade, como a Penha. No trem, estão muitos dos arrivistas comentados. Gonzaga diz que se afasta de Petrópolis por considerar as pessoas que vivem lá estrangeiros, invasores, “sem nenhuma cultura e sempre rapinantes” (p. 458). Gonzaga descreve a si mesmo como “o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus galegos também” e insiste no caráter ultrapassado das notícias de Petrópolis. Ao mesmo tempo, aconselha Augusto a se interessar por Petrópolis e suas notícias porque o insignificante merece atenção.

De frente para o mar, Gonzaga mostra o Cambembe, uma ilhota onde funcionava uma venda na época anterior às estradas de ferro e onde era feita a comunicação com o interior. Gonzaga conta também que Estácio de Sá, seu antepassado, morreu em decorrência de um ferimento à flecha em um combate que acontecera naquele local: a Ilha do Governador.

Comentário

Da mesma forma que o narrador se revelou plenamente identificado com o Rio de Janeiro, Gonzaga também se compara à cidade. Por motivos diferentes, ambos os personagens podem ser considerados diferentes facetas da cidade em que vivem. As trajetórias de biógrafo e biografado, que se aproximam cada vez mais, revelam dois tipos diferentes de funcionários públicos.

Há aqueles que optam pelo funcionalismo como uma das únicas opções de ascensão social e algum conforto material e os que, bem formados e herdeiros de um passado monárquico e/ou militar, não encontram utilidade prática para seus conhecimentos sobre a sociedade e as humanidades, e acabam encostados em repartições públicas inúteis e burocráticas.

Capítulo V – O Passeador

·  Espaços: referências a muitos bairros do Rio de Janeiro e sua organização na topografia da cidade: Copacabana, Méier, Rio Comprido, Laranjeiras, São Cristóvão, Botafogo, Saúde, Gamboa, Prainha, Real Grandeza, Catete, Gávea, Jardim Botânico, Tijuca, Santa Teresa, etc.

·  Temas principais: preservação do patrimônio histórico, topografia do Rio de Janeiro, divisão do território em bairros e meios de locomoção na cidade.

Síntese

Augusto admira o fato de encontrar Gonzaga de Sá, com muita frequência, em diferentes horários do dia e em regiões distantes uma da outra, e entende que se trata de um passeador, acostumado a locomover-se livremente e sem pressa, subindo morros, olhando antigas construções e se entretendo com o movimento da cidade. Augusto percebe que aquele movimento indicava que o amigo tinha saudades da infância e da juventude e procurava essas lembranças pelos prédios e ruas do Rio, para que as sensações do passado permanecessem vivas.

Seu apreço por essas construções e paisagens é tão grande, que Gonzaga de Sá conta a Augusto que um dia faltou à repartição para poder contemplar um casebre no Morro do Castelo, ao sol do-meio-dia, pois se lembrava de tê-lo visto a essa hora, durante a infância, em um dia em que faltara à escola. Mas o casebre havia sido demolido, o que lhe causou grande tristeza. Gonzaga falava muito sobre seu amor especial aos subúrbios, que admirava como se fossem obras de arte, e à cidade, e os descrevia com grande habilidade, especialmente os casos pequenos e tristes, agindo como um contador de histórias, sempre com referências eruditas.

Ao ser perguntado por Augusto sobre o Rio e sua condição de se tornar uma grande cidade, com aspecto de uma grande capital, Gonzaga faz uma explanação sobre a topografia do local e sua esperança de que o aperfeiçoamento dos meios de transporte e a abertura de túneis pudessem facilitar a locomoção entre partes da cidade que, embora não tão distantes, eram de difícil acesso. Falando da história da cidade, que começara tímida no topo do Morro do Castelo e foi se desenvolvendo e se adaptando em função do desenho das montanhas e das movimentações históricas que transformaram o local, como o tráfico de escravos, e citando o advento do bonde, que contribuiu para a aproximação de locais afastados da cidade, Gonzaga diz:

esse veículo alastra a cidade; mas serve aos caprichos de cada um, de forma a fazer o rico morar num bairro pobre e o pobre morar num bairro rico. O mal é o isolamento entre eles; é a falta de penetração mútua, fazendo que sejam verdadeiras cidades próximas, pedindo, portanto, órgãos próprios para levarem até aos ouvidos das autoridades as suas necessidades e os seus anseios, mas o aperfeiçoamento da viação sanará tudo isto. Mas, se a sua topografia criou essas dificuldades, deu à nossa cidade essa moldura de poesia de sonho e de grandeza. É o bastante! (p. 577)

Comentário

Gonzaga de Sá é um homem claramente ligado ao passado e procura recordar-se das experiências que viveu na infância e na juventude por meio das construções do Rio de Janeiro. O capítulo é especialmente rico em descrições das paisagens e do movimento urbano da cidade, valorizando espaços menos conhecidos e retratados na literatura do período.

O capítulo pode ser entendido como uma defesa da preservação do patrimônio histórico como forma de manutenção da história dos lugares e do desenvolvimento da sociedade, com seus comportamentos e seus valores.

 

Capítulo VI – O Barão, as Costureiras e Outras Coisas

·  Espaços: Campo de Santana, Largo do Rocio, Rua da Constituição e Rua do Ouvidor.

·  Temas principais: os desmandos do Barão do Rio Branco, a importância do trabalho das costureiras e os pensamentos filosóficos de Gonzaga de Sá.

Síntese

Gonzaga de Sá narra um inusitado encontro entre o Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, a quem conhece e trata por “Juca Paranhos”, e um poeta que o procurou para saber se a palavra “Amor” deveria ser grafada em letra maiúscula, ao que o Barão teria respondido que apenas se estivesse no início do verso. Gonzaga comenta ironicamente os caminhos das letras brasileiras sob a influência do Rio Branco. Ainda que dissesse várias vezes que o ministro era medíocre, Gonzaga impressionava-se com o título de Barão, recebido do Imperador. Achava-o um homem ultrapassado e preso a tolices diplomáticas, que só ganhara importância e reconhecimento por feitos que os jornais exageravam ao contar. Ele descreve da seguinte forma o comportamento do Barão:

Este Juca Paranhos (era outro modo dele tratar o Barão do Rio Branco) faz do Rio de Janeiro a sua chácara... Não dá satisfação a ninguém... Julga-se acima da Constituição e das leis... Distribui o dinheiro do Tesouro como bem entende... É uma espécie de Roberto Walpole... O seu sistema de governo é a corrupção... Mora em um palácio do Estado, sem autorização legal; salta por cima de todas as leis e regulamentos para prover nos cargos de seu Ministério os bonifrates que lhe caem em graça.

Em falta de complicações diplomáticas, ele as arma, para mostrar o seu atilamento de Taylerand ou a sua astúcia Bismarkeana. (p. 599)

 

Gonzaga de Sá refere-se ao Barão como alguém a quem julga egoísta, vaidoso e ingrato, que imita dom João VI, de Portugal, e também tem “pontos de contato” com Luís XIV, da França. Os dois amigos estão sentados em um banco no Campo de Santana, conversando, quando são surpreendidos por uma menina bonita que desfila vagarosamente diante deles e faz com que Gonzaga comente que se ressente de não ter tido nenhum envolvimento íntimo com uma costureira, o que faz Augusto deduzir que Gonzaga sabe que essas profissionais são dotadas de um espírito especial e raro, capazes que são de decifrar, ainda que inconscientemente, as reações psíquicas que as vestimentas podem gerar. Gonzaga valoriza as costureiras por admirar sua importância na constituição das altas rodas sociais, sem que recebam qualquer valorização por isso.

Gonzaga afirma não ter apreço por aquilo que considera apenas criações abstratas, como classes, povos e raças, mas sente-se enternecido por indivíduos isolados. Afirma detestar a antropologia, mas amar a crítica religiosa. Foi isso o que mais o encantou quando leu Renan e Rousseau, filósofos franceses que o interessaram muito e o fizeram ter o desejo de partir para a Europa para estudar, coisa que não pôde fazer. Gonzaga acredita que a felicidade não é um estado que possa ser alcançado por centenas, milhares ou milhões de seres humanos. Para ele, que se declara “conceitualista”, a felicidade não depende da condição social do indivíduo e de seus hábitos, mas da forma como cada um lida com a realidade.

Comentário

O capítulo traz uma sátira de Lima Barreto ao Ministério das Relações Exteriores, que o Barão do Rio Branco chefiou entre 1902 e 1912. Em contraste com a análise do comportamento dessa grande personalidade do universo político brasileiro, Augusto e Gonzaga conversam sobre a importância das costureiras como aquelas que, ignoradas pela sociedade em seu trabalho considerado de menor importância, são agentes da grandeza e da majestade das altas camadas representativas do país.

A discussão entre os dois retoma a intenção de Augusto, relatada no prólogo “Explicação necessária”, de retratar a vida de um amanuense em vez de um ministro de Estado, exatamente pelo desejo de observar a realidade sob o ponto de vista daqueles considerados insignificantes.

 

Capítulo VII – Pleno contato

·  Espaços: sala de leitura da casa de Gonzaga de Sá.

·  Temas principais: a desigualdade social, a vida no subúrbio, rica em ideias e hábitos, o estilo das notícias que chegam da província e a alienação de certos setores da sociedade.

Síntese

Quando Augusto foi falar pela primeira vez à Secretaria dos Cultos, dirigiu-se primeiramente ao Barão de Inhangá, velho funcionário da época do Império, a quem considerou inteligente, porém vadio. Quando se tornou diretor, ele acomodou-se no cargo e, pela falta de qualquer atividade de maior interesse público, passava os dias inteiros apontando lápis. Aos 25 anos de repartição, foi feito barão.

A primeira impressão que Augusto teve de Gonzaga de Sá, na seção de “Alfaias e Paramentos”, foi a de que ele se mantinha escondido no trabalho, como se tivesse uma personalidade formal e solene e outra de inteligência livre. “[...] eu pude ir percebendo que se ocultava, sob o seu azedume habitual, uma grande alma compassiva” (p. 755). Ambos se encontram várias vezes e trocam cumprimentos. Augusto, curioso quanto ao comportamento e à personalidade de Gonzaga de Sá, um dia, pela manhã, percebe que ele faz um desenho de uma figura humana, mas não consegue ver bem o que era, pois Gonzaga, constrangido, esconde grosseiramente o papel. Augusto conjectura sobre quais seriam as mágoas que a personalidade dele guardava, se seriam desilusões amorosas ou dramas de inteligência. Augusto não encontra uma resposta e dá ao leitor a opção de construir sua própria versão.

Em uma tarde de quinta-feira, Augusto vai à casa de Gonzaga de Sá muito interessado e curioso com o cotidiano da intimidade de seu amigo. Sua sala de estudos possui reproduções de obras de arte, como a Primavera, de Botticelli, e estantes que ocupam todas as paredes até o peitoril das janelas. Gonzaga havia visitado seu compadre Romualdo, que enviuvara e não passava bem. Gonzaga aproveita para comentar sobre a beleza dos subúrbios e falar das feministas que pregam teorias avançadas e podem, de tanto estudarem, deixar o papel de mães em segundo lugar. Augusto afirma que, com o matrimônio, as mulheres deixam o estudo de lado e passam a cumprir a rotina enfadonha de todos os casamentos. A conclusão de Gonzaga é a de que a sociedade se baseia em princípios sólidos.

Tia Escolástica – “Muito clara, com uns olhinhos verdes e um miúdo perfil de criança” – é apresentada e, enquanto Gonzaga sai da sala com ela, Augusto repara nos rascunhos que o amigo fizera: vários modelos de narizes, como se ele tentasse desenhar uma expressão conhecida. Na volta, Gonzaga comenta sobre sua criação de pombos, sobre o vinho branco que mandara trazer e exalta a condição de Inácio, o homem que o servia com toda deferência, embora fosse livre. Era da mesma idade de Gonzaga e o acompanhara em muitos momentos da vida, desde a infância. A dedicaçãocontínua do negro é o que encanta Gonzaga, que reluta em defini-la como uma subalterna dedicação animal ou um sentimento divino. Conclui apenas que é grandioso e que o ama.

Os dois comentam a leitura de jornais da província, como a Gazeta de Uberaba, que interessa a Gonzaga por refletir as extravagâncias inventivas dos principiantes. Folheiam e comentam edições da revista A pesquisa, de Cascadura. Augusto admirava-se da quantidade de referências que poderiam existir nos subúrbios, onde fervilham ideias e discussões muito interessantes. Os amigos discutem sobre os meios de divulgação dos textos de que se dispunha – jornais, revistas e livros – e sobre a dificuldade de circulação desses periódicos e de tantas vozes interessantes que não encontram espaço de expressão.

Tia Escolástica avisa que o jantar está servido.

Comentário

Um procedimento não comum no romance se destaca neste capítulo: a metalinguagem. Convém apontar, entretanto, que a obra toda pode ser lida pela chave da metalinguagem, considerando que os prólogos (“Advertência” e “Explicação necessária”) questionam o gênero do trabalho de Augusto Machado. Aqui, o narrador afirma não querer cansar o leitor com suas conjecturas e cita Edgard Alan Poe e Augusto Comte para sugerir que cada leitor, com simplicidade, crie suas próprias hipóteses para explicar as opiniões e as contradições de Gonzaga de Sá.

É nessa passagem que é apresentada parte da casa de Gonzaga de Sá, e o estilo de decoração de sua sala de estudo revela o interesse do amanuense bem formado por artistas e referências intelectuais que, em sua maioria, vinham da Europa. Ainda que Gonzaga diga se interessar muito por publicações provincianas, exatamente por seu caráter simples e verdadeiro, só encontrado em veículos de imprensa novos com seus jornalistas iniciantes e apaixonados, sua atitude é a de ridicularizar essas publicações exatamente por noticiarem fatos que ele considera desimportantes, em um estilo que revela ignorância e excessiva simplicidade.

 

Capítulo VIII – O Jantar

·  Espaços: casa de Gonzaga de Sá.

·  Temas principais: a solidez das instituições, o peso das tradições e os hábitos e privilégios que restaram do Império.

Síntese 

No trajeto até a sala de jantar, Augusto admira retratos da família expostos na sala principal. Gonzaga lhe mostra a avó, que viveu na França e assistiu à Revolução, e comenta sua semelhança com a tia Escolástica. Os móveis de jacarandá também chamam a atenção de Augusto, e Gonzaga fala das dificuldades que teve na Justiça para conseguir ficar com a casa que era de seu pai. Todos sentam-se à mesa – Gonzaga na cabeceira e Augusto à sua direita – e olham uma palmeira na janela. Augusto admira a elegância altiva da árvore que “há mais de vinte anos sofria a violência inconstante dos ventos; há mais de vinte anos suportava o rugido inofensivo do trovão...” (p. 964). Durante o jantar, Gonzaga lê e comenta passagens ridículas em uma das reportagens da Gazeta de Uberaba. Tia Escolástica diz que nunca se acostumou com a vida estranha do sobrinho, sem nenhuma rotina ou método, acrescentando que ele sempre fora extravagante e que uma vez subira sozinho ao sótão decidido a tentar voar.

Gonzaga conta que perdeu a mãe aos 8 anos e foi criado por Escolástica, e que seus irmãos mais velhos morreram sem descendentes, mas uma das irmãs, que ele não via há trinta anos, tinha tido filhos. Depois do jantar, o café é servido na sala, com pouca luz e as janelas com vista para Niterói abertas. Gonzaga conta a tia Escolástica que Romualdo não está bem e que o menino Aleixo, seu afilhado, é muito esperto, já sabe ler e calcular, mas está sem o amparo do pai e já não tem mais a mãe. As luzes são acesas e revela-se um lindo piano Érard de cauda. A conversa entre eles envereda pelo assunto da música e tia Escolástica diz que, depois de ter ouvido o pianista Gottschalk, nunca mais teve coragem de sentar-se ao piano, tamanha era a maciez com que ele tocava.

Gonzaga e tia Escolástica falam das experiências em óperas e espetáculos musicais e Augusto admira o funcionamento daquela sociedade, que classifica como ingênua. Gonzaga avança explicando a importância da influência do Império na criação do Lírico, uma “casa elegante para poli-los com o auxílio da arte” (p. 1085). Foi ideia do Imperador aproveitar a ópera (que, para Gonzaga, todos são capazes de entender, mesmo aqueles que estão distantes das coisas da inteligência) para unir a sociedade e forçar as pessoas a se encontrarem. Mas o intento falhou, a nobreza não se fez e o Lírico foi degenerado.

Augusto sai da casa de Gonzaga e volta caminhando e refletindo sobre a tradição que acabara de presenciar, o que o leva a perceber ideias das gerações que o precederam, suas virtudes, seus erros e seus crimes.

Comentário

Nessa passagem, ocorre pela primeira vez uma continuidade clara do enredo, entre os capítulos VII e VIII, e a descrição da casa de Gonzaga de Sá é um recurso importante e revelador sobre a personalidade e a intimidade do protagonista, que o narrador sente muito prazer em conhecer.

O peso das tradições é a principal discussão do capítulo, especialmente no que se refere ao comportamento das mulheres, considerado ousado pelo autor e classificado pejorativamente como produto de ideias feministas que não contribuem para o desenvolvimento e a evolução da sociedade. Gonzaga de Sá mostra-se ligado às tradições que se materializam tanto na arquitetura e na decoração da casa em que vive quanto nas ideias que demonstra durante o jantar.

A ridicularização do estilo jornalístico das notícias da Gazeta de Uberaba dá a clara noção de que Gonzaga de Sá sente-se superior por viver na capital federal e ser dotado de  conhecimento e capacidade de análise. Seu olhar para os desfavorecidos, a exemplo de Romualdo e seu afilhado Aleixo, é compassivo e superior, de alguém dotado de consciência social, mas, até certo ponto, impotente para mudar a realidade em que vivem.

 

Capítulo IX – O Padrinho

·  Espaços: centro do Rio de Janeiro (Café Papagaio), trajeto até o subúrbio de Todos os Santos, onde fica o chalé em que vivia Romualdo e onde acontece seu velório.

·  Temas principais: a vida noturna do Rio de Janeiro, a vida e o amor sob a perspectiva da morte, o perfil dos moradores do subúrbio, as teorias de raça pseudocientíficas e o preconceito racial.

Síntese

Augusto Machado está no Café Papagaio, na rua Gonçalves Dias, no centro do Rio de Janeiro, muito próximo à rua do Ouvidor, e vê um grupo de prostitutas francesas que passa pelo local. Augusto observa seus trajes elegantes e as joias que usam e reflete sobre o fascínio que aquelas mulheres causam na população como um todo, mesmo que tenham chegado muito empobrecidas e com as malas vazias, “com a sua alvura polar, com as faces rubras, com seus estranhos olhos azuis e o prestígio das velhas raças de que se originaram” (p. 1110), elas são capazes de fazer estremecer as almas da cidade.

A reflexão faz Augusto se lembrar de duas ideias de Gonzaga de Sá sobre aquelas mulheres: a primeira é “a dama fácil é o eixo da vida” (p. 1105) e a segunda se refere ao fato de que, na opinião dele, elas estavam “se dando ao trabalho de nos polir” (p. 1133) por trazerem ao Brasil as últimas tendências de moda e comportamento de Paris. Além disso, essas mulheres distraem os locais dos problemas nacionais, motivam a criação de versos por apaixonados e instruem os maridos que as visitam sobre objetos de decoração mais modernos. Elas eram o contato entre a terra brasileira e os grandes centros do mundo, agindo como uma espécie de “continuadoras [...] da missão dos conquistadores” (p. 1145).

Nesse mesmo bar, Augusto encontra alguns amigos, deixa seus pensamentos de lado e mantém com seus camaradas palestras instáveis. Os assuntos variam muito, desde as confusões que aconteciam no Cassino até as necessárias reformas: moral e literária. Quatro funcionários públicos encontravam-se ali na quele dia: Augusto, Amorim, Domingos e Rangel, os quais, juntos, formavam um grupo a que chamavam “Esplendor dos Amanuenses”. Todos buscavam momentos de satisfação que compensassem os problemas em casa e na repartição. Falavam sempre de uma peça de teatro, citavam obras e filósofos e acabavam frequentemente falando sobre amor.

Gonzaga de Sá (que achava os bares importantes locais de encontros para a troca de ideias que constrói a sociedade, espaços em que os indivíduos mais obscuros se revelavam, mas normalmente não os frequentava) surge no bar, avisa a Augusto que seu compadre faleceu e pede ajuda para segurar o caixão. Os dois afastam-se do grupo e caminham lado a lado em direção ao local em que o corpo está sendo velado. No caminho, Augusto prevê o cadáver frio e reflete sobre o mistério do que nos espera após a vida. A paisagem em torno e as moças que passam pela rua adquirem uma especial beleza para Augusto, que olha para o mundo de forma diferente, pois está prestes a ver um morto.

O caminho é longo, do centro da cidade, onde estão, até o bairro de Todos os Santos, passando pela estação da Rocha, no bairro do Engenho Novo, e pelo Méier. Augusto e Gonzaga de Sá não conversam, pegam o bonde no Largo São Francisco e depois o trem. Os personagens em torno chamam a atenção de Augusto, tanto as pessoas simples, de riso fácil e brincadeiras pueris, até os supostos intelectuais. Ao refletir sobre a simplicidade de alguns, Augusto lamenta a consciência que a educação que teve lhe trouxe, pois preferia não perceber as hipocrisias e contradições do mundo.

Um senhor, de anel no dedo, indicando sua formação universitária, defende, a um jovem que o escuta, a teoria racial, segundo a qual os negros têm capacidades mental e intelectual limitadas, como, segundo ele, a ciência já provara. Ainda sem conversar com Gonzaga de Sá, Augusto sente que suas reflexões estão sendo compartilhadas com o amigo, acredita que é possível estabelecer uma comunicação cerebral com ele por desenvolverem tão estreita amizade. Na sequência, o mesmo homem, supostamente sábio, que defendia a teoria racial, responde ao jovem que os pássaros que pousam nos fios elétricos da rua não morrem eletrocutados porque a energia está desligada, dando evidente demonstração de ignorância. A presença de um casal de namorados no trem motiva Gonzaga de Sá a perguntar a Augusto se ele já namorara. Augusto responde que namorara uma vez, aos 16 anos e, com o conselho de Gonzaga para que namorasse mais, que experimentasse aquela emoção enquanto tinha tempo, diz que acha que “o namoro é a negação do amor...” (p. 1242).

Na chegada à estação de destino, Augusto e Gonzaga sobem uma rua e veem “graves homens de fisionomia triste, curvados ao peso da vida, sobraçando alongados embrulhos de pão [...] com o passo tardo e econômico, poupado de velhos bois de carro. A estrada da vida era má, areenta, aqui; encharcada, ali; e, mais além, íngreme e empedrouçada...” (p. 1250). A subida continua e Augusto relembra um episódio da infância em que viu uma sequência de carros de bois cheios de verduras, carvão e lenha e teve a percepção de que era a força dos bois que mantinha a cidade funcionando. Caminhando ao lado daqueles homens simples, Augusto compreende que é a força deles que mantém a cidade naquele momento: “Aqueles homens, pacientes e tardos, que eu via naquele ambiente de vila, eram o esteio, a base, a grossa pedra alicerçal da sociedade... Operários e pequenos burgueses, eram eles que formavam a trama na nossa vida social, trama imortal, depósito sagrado, fonte de onde saem e sairão os grandes exemplares da pátria...” (p. 1266).

Gonzaga de Sá aponta a casa e avisa que estão chegando enquanto Augusto continua a observar a peculiar composição das ruas, das construções, da vegetação e da população que definem o subúrbio. A casa do compadre de Gonzaga de Sá é um chalé, onde eles são recebidos por dona Gabriela, uma mulher negra, viúva, mãe de quatro filhos, que tinha parentesco com a esposa do falecido. O enterro estava marcado para as 9 horas da manhã do dia seguinte. Augusto observa o morto, que era servente na Secretaria dos Cultos e com quem havia se encontrado poucas vezes. O velório dura a noite toda e Augusto fica em uma sala contígua, onde estavam algumas pessoas. Lá surge dona Alcmena, moça solteira que vivia há dois anos naquele bairro, era vizinha de Romualdo e sonhava com uma casa em Botafogo porque achava a vida na cidade muito melhor, além de preferir ter um carro a um marido. Augusto sente-se fisicamente atraído por ela.

Nessa rápida postura, a moça atraía fortemente. Seus seios pareciam intumescidos, o pescoço, longo e roliço, saía todo do corpete, e as formas miúdas desenhavam-na com relevo por entre as dobras do vestido. Aquela desenvoltura tão longe da Rua do Ouvidor! Compreendia-se? Ainda lhe vi a tez macia, os cabelos castanhos, as mãos longas e bonitas, um pouco estragadas pelo trabalho doméstico… Depois, nasceram-me coisas obscenas; vagos e indefinidos desejos cresceram em tumulto, de roldão; borbulhavam, subiam e desciam dentro de mim; encontravam-se, faziam-se outros a exigir satisfações, carícias, estados enervados e deliciosos... (p. 1347)

 

A imagem do morto e o desejo pela moça se alternam na cabeça de Augusto, que se sente culpado pelos pensamentos libidinosos durante o velório, mas reflete sobre a relação entre seu desejo e a morte que contempla ali. Gonzaga de Sá se aproxima dele, diz que é recomendável que esteja mais na sala, próximo ao cadáver, para que aprenda com a observação da morte, mas também para que perceba o quanto estão errados aqueles que defendem a ideia de que há diferentes feitios de sentir dependendo da raça a que se pertence. Gonzaga lamenta esse tipo de postura, que atribui à influência de “diplomatas viajados, acovardados diante da opinião americana, querendo deitar esconjuros e exorcismos...” (p. 1394). Declara-se contrário a tais crenças e argumenta: “Se, no Século XVII, o que separava os homens de raças várias era o conceito religioso, há de ser o científico que separará daqui a tempos... A benéfica ciência...” (p. 1399).

Augusto e Gonzaga voltam ao local em que aproximadamente 30 pessoas se despediam do falecido, dentre as quais a sogra do compadre, que chorava muito a perda do genro; e  seu neto, Aleixo, filho de Romualdo e afilhado de Gonzaga de Sá. Ao observá-lo, Augusto lamenta o fato de que a expressão inteligente e curiosa do menino não valeria de nada sem a ascendência do padrinho, que o levaria a estudar e aplicar-se aos livros. Mesmo bem formado, o menino seria barrado pela sociedade, “com a sua trama de conceitos e preconceitos, justos e injustos, bons e maus...” (p. 1420). O menino começa a chorar com muita força e é amparado pelo padrinho, que o chama de filho enquanto o ergue no colo.

Comentário

O capítulo traça um panorama complexo de dois lugares distantes e antagônicos na cidade do Rio de Janeiro: o Café Papagaio, em que Augusto se reúne com amigos, e o chalé em que ocorre o velório de Romualdo, além da distância percorrida pelos amigos entre um ambiente e outro.

O ambiente da cidade revela a agitação da vida noturna do Rio de Janeiro no início do século XX. As prostitutas francesas, como referência de beleza e elegância, desempenham um papel de formadoras do gosto afrancesado do brasileiro. Os cafés são locais de encontros e de trocas de ideias entre os jovens funcionários públicos, que falam sobre o cotidiano, a filosofia, o teatro e o amor.

O destaque dado ao ambiente, no texto, revela o quanto esse cenário corresponde a um espaço de encontro entre figuras interessantes que povoavam a vida urbana noturna e pertencem à galeria de personagens de Lima Barreto, como o funcionário público com alguma formação intelectual e a mulher sedutora que exala exotismos europeus.

É interessante notar que a discussão sobre a influência europeia na formação da cultura nacional foi um dos controversos temas da Semana de Arte Moderna. O fato de Lima Barreto abordar a questão em seu texto é mais um aspecto que aproxima sua obra das discussões que pautaram o início do Modernismo nacional.

O percurso silencioso feito até o velório de Romualdo é pretexto para a descrição das diferenças que se acentuam à medida que os personagens se afastam do centro em direção à periferia do bairro de Todos os Santos, local em que o próprio Lima Barreto viveu. No trem, a presença de um senhor, identificado pelo anel de doutor, que manifesta apreço às teorias racistas pseudocientíficas é um episódio por meio do qual Lima Barreto procurou denunciar a circulação dessas teorias que contribuíram para disseminação do preconceito racial no Brasil.

O retrato do ambiente específico do velório é carregado de simplicidade e lirismo. O autor representa os parentes e os amigos do falecido compadre de Gonzaga, como dona Gabriela e dona Alcmena, por quem o narrador, inclusive, se sente fisicamente atraído.

Lima Barreto consegue apresentar as diferenças entre os ambientes e os personagens que os frequentam para além da descrição dos aspectos físicos dos locais.

 

Capítulo X – O enterro

·  Espaços: casa de Romualdo (bairro de Todos os Santos), cemitério do Caju.

·  Temas principais: a importância e a utilidade da morte, a desigualdade social, a falta de sentido e de perspectiva na vida dos menos favorecidos, a bênção da inconsciência de parte da população.

Síntese

O dia seguinte, dia do enterro, é um domingo ensolarado, o que, na percepção de Augusto, parece não ter lógica. O caixão é levado pelos presentes, que se revezam no trabalho, vencendo as ruas acidentadas e sendo saudado por pessoas que passavam e paravam para observar o grupo. Todos embarcam no carro fúnebre de um trem que conduz o cadáver do subúrbio até a estação Central do Brasil, de onde pegam um coche até o cemitério do Caju.

No trajeto, Gonzaga de Sá comenta sobre a indiferença das pessoas quando veem um caixão sendo transportado, só superada pelo desagravo. Augusto está confuso e abatido  como consequência da noite em claro e responde sinteticamente às colocações do amigo, que reflete sobre a utilidade da morte, julgando-a fundamental para a civilização. Os dois chegam ao cemitério e o funeral acontece. Augusto não está triste e jogou a pá de cal sobre o caixão com certo constrangimento. Está reflexivo com a situação e atônito pela noite em claro. Caminha ao lado de Gonzaga de Sá, que anda quieto, observando a cidade. Augusto olha para o mar, vislumbra países, reflete sobre o formato da terra e entra em um bonde para o centro da cidade ao lado de Gonzaga.

Gonzaga de Sá é observado com curiosidade por Augusto, que tenta compreender a natureza daquele homem com quem dividiu o episódio da morte nos dois últimos dias. Ele se comportara tantas vezes como um homem frio, racional e prático, mas, nas reflexões que fazia desde o cemitério, soava romântico e pueril. Gonzaga cita Schopenhauer e defende a ideia do filósofo de suicídio da humanidade, mesma considerando-a um pouco exagerada. Fala do quanto seria melhor a morte para os que vivem uma vida desgraçada. Sabe que eles não aceitariam morrer porque vivem iludidos e alegres em sua ignorância. Gonzaga também fala das diferenças culturais entre o Brasil e a Europa, citando autores e pensadores que explicam a superioridade dos estrangeiros, criticando a literatura brasileira por um interesse que julga excessivo pelos populares do sertão, unicamente porque são pitorescos ou porque repetem-se os enredos que reforçam a estrutura viciada da sociedade. Ele próprio sente que, se tivesse qualquer talento para escritor e fosse capaz de colocar suas ideias no papel, poderia ser alguém que, como Rousseau, pregaria às massas ideais de vigor, força e violência para que pudessem se defender.

Os dois permanecem juntos na cidade e sentam-se em um lugar calmo e retirado, próximo ao Passeio Público, para continuarem conversando. Gonzaga de Sá, tocado pela morte do compadre, reflete mais uma vez sobre a desigualdade e as injustiças sociais a que Romualdo se submeteu a vida toda:

– [...] Eu não compreendo, acrescentou depois de uma pausa, que um homem – um animal dotado de senso crítico, capaz de colher analogias – levante-se às quatro horas da madrugada, para vir trabalhar no Arsenal da Marinha, enquanto o Ministro dorme até às 11, e, ainda por cima, vem de carro ou automóvel. Eu não compreendo, continuou, que haja quem se resigne a viver desse modo e organizar família dentro de uma sociedade cujos dirigentes não admitem, para esses lares humildes, os mesmos princípios diretos com que mantêm os deles luxuosos, em Botafogo ou na Tijuca. (p. 1546)

 

De lá, os amigos passam horas observando os patos no lago, até irem a um restaurante de uma rua central, onde tomam sopa. Gonzaga desculpa-se pelo exagero de suas falas e atribui sua emoção à morte de Romualdo. Conta a vida do amigo e os sofrimentos que ele passou na infância e na escola militar até tornar-se servente na repartição pública em que trabalhara, sofrendo humilhações de funcionários pretensiosos. Após o restaurante, Augusto e Gonzaga vão observar o movimento noturno do domingo na Avenida Central, onde há uma rica diversidade de tipos, como artistas, moças de bairros distantes, mendigos e camelôs. Observar as pessoas reforça a tese de Gonzaga de que são felizes por não terem nenhuma consciência.

Antes de se despedirem, os amigos ainda param em um botequim para tomarem chopes. Gonzaga afirma, lembrando-se de Aleixo, que vai criar o menino e que pretende fazer dele um Tito Lívio de Castro, deixando Augusto se perguntando se o esforço valeria a pena.

Comentário

É importante notar que há uma relação de continuidade do enredo entre os capítulos IX e X, o que não é padrão na estrutura do livro. Nesses capítulos, há uma série de descrições de aspectos do Rio de Janeiro, do passeio público a bairros periféricos, como o de Todos os Santos e o Caju, onde se localizava o cemitério. Todos esses percursos são apresentados com riqueza de detalhes e alternando as observações da natureza e da paisagem de forma geral com os tipos humanos que povoam a cidade.

Ainda que o principal aspecto do capítulo seja o acompanhamento do cortejo do enterro até o cemitério, pode-se dizer que a digressão em que o narrador está mergulhado durante o processo é mais reveladora do que os fatos em si. A reflexão sobre a morte, a menção às teorias de Schopenhauer e a inversão do percurso desenvolvido no capítulo anterior – dessa vez da periferia do bairro de Todos os Santos para o centro da cidade – fazem com que os dois capítulos componham uma espécie de díptico, em que ação e reflexão contêm os principais temas da obra como um todo.

 

Capítulo XI – Era feriado nacional...

·  Espaços: Campo de Santana, Largo do Rocio, casa de Gonzaga de Sá, Teatro D. Pedro II.

·  Temas principais: a ignorância, a inveja e a irrelevância que domina os funcionários da repartição pública, a solidão de Gonzaga de Sá, o comportamento elitista e arrogante da fina flor da sociedade carioca.

Síntese

Depois de uma noite maldormida, Augusto sai de casa em um dia de feriado nacional e resolve se integrar à multidão que festeja a data nas ruas. Vê a preparação das tropas que desfilam no Catete para o presidente, admira o entusiasmo de alguns populares ao contabilizarem as forças da pátria em mar e terra e conclui mais uma vez que “A sociedade repousa sobre a resignação dos humildes!”. Augusto não sente nenhuma espécie de patriotismo e não se sente empolgado com a festa, ainda que a ache brilhante.

Mais reflexões surgem a partir do comportamento dos entusiastas dos símbolos da pátria: “Por que aqueles homens maltratados pela vida, pela engrenagem social, cheios de necessidades, excomungados, falariam tão santamente entusiasmados pelas coisas de uma sociedade em que sofriam? Por que a queriam de pé, vitoriosa – eles que nada recebiam dela, eles que seriam espezinhados pela mais alta ou pela mais baixa das autoridades se alguma vez caíssem na asneira de ter negócios a liquidar com alguma delas?” (p. 1653).

Augusto vislumbra uma sociedade utópica, com dias de Bem, de Satisfação e de Contentamento, em que não haveria angústia nas faces das pessoas, e questiona se seria possível alcançar tal estado sem as regras e as leis do corpo social em que vive. No fim de seu devaneio, Augusto reconhece que não é feliz e que talvez fosse melhor viver na terra sem a humanidade.

O desfile começa com o toque do clarim, e o que intriga Augusto é ver pessoas de origens tão diferentes caminhando e movimentando o corpo na mesma direção e com a mesma intenção, como em “obediência a um mesmo ideal e a uma mesma ordem” (p. 1680). Com a passagem do desfile, Augusto caminha até o Largo do Rocio, onde encontra Xisto Beldroegas, um colega de Gonzaga de Sá apaixonado pela legislação cultural do Brasil e que acreditava na necessidade de todas as coisas terem sempre um papel oficial correspondente. Xisto ia mais longe e insistia na necessidade de também regulamentar o movimento dos astros, o crescimento das plantas e de toda a natureza e defendia que todos os pedidos recebidos nas repartições deveriam ser indeferidos.

Augusto tenta cumprimentar Xisto, que anda distraído e responde apenas com um grunhido de suíno, para cumprir uma obrigação burocrática. Com a insistência de Augusto, Xisto conta que sua preocupação se deve à falta de padrão para o número de linhas que os avisos que circulam na repartição devem ter e outros grandes desgostos de sua vida de funcionário público. Passam a falar de Gonzaga, e Xisto diz que ele esteve adoentado e está prestes a ser aposentado, que não entende do serviço e, embora seja um bom camarada, não serve para o trabalho público, pois sabe apenas sobre romances, filosofia e revistas. Xisto ainda confessa que há aqueles que julgam que ele gosta da ideia da aposentadoria do colega porque será beneficiado por ela, mas ele afirma que não é verdade e que sente pena.

Depois dessa conversa, Augusto decide visitar Gonzaga de Sá e não o encontra doente, mas aborrecido e entediado por sentir-se só, por perceber-se incapaz de empregar as noções que acumulou para sua glória ou para sua fortuna. Sente-se estéril e sem habilidade para encontrar expressões adequadas para articular suas próprias ideias. Sente que está no fim da vida e desperdiçou toda a sua existência em coisas fúteis, girando em torno de si mesmo e cercado de imbecis. Cita a ideia absurda do chefe que organizou um sistema de nomeação a presidente da República por promoções, desde o início como amanuense.

Augusto se preocupa com a visível transformação de Gonzaga de Sá, que está cada vez mais irritadiço, deprimido e sem conseguir se conter, perdendo sua ironia aguda e encolerizando-se facilmente. Sem tentar consolar o amigo, Augusto olha pela janela e observa o movimento da cidade, indiferente ao sofrimento e às reflexões. Depois de uma pausa, Gonzaga pergunta quem é que havia dito que ele estava doente e Augusto responde que tinha sido seu colega, Xisto. Gonzaga ridiculariza a tentativa que presenciou de Xisto tentando discutir filosofia com outro funcionário da repartição e confessa que a pena que sentia do colega transformou-se em ódio. Augusto vê outra vez os desenhos de rostos que o amigo rabiscara.

O descontentamento de Gonzaga é o maior que Augusto já presenciara e o que o ressente é a sensação de que foi covarde por nunca ter se revoltado e tomado posição contra a ignorância que ele julgava dominar os que o cercavam, os quais chama de patos, perus e burros. Agora, como consequência, chegou à idade em que está vazio de glória e de amizade e isolado daqueles que podiam entendê-lo. Augusto compreende que Gonzaga tinha um temperamento de grandes paixões, que vivia camuflado por sua ironia. O amigo se desculpa por sua emoção exagerada e convida Augusto para jantarem e depois irem ao Lírico, pois acredita que, assim, poderá melhorar com a companhia da mocidade dele e se lembrar dos seus próprios 25 anos esperançosos.

Na porta do teatro, há muitos carros chegando e cocheiros próprios trazendo famílias inteiras, enquanto outras pessoas saltam dos bondes coletivos, sempre muito bem-vestidas. Augusto tinha ido poucas vezes ao Lírico e se sente intimidado ao ver aquela sociedade brilhante formigando entre as cadeiras e os camarotes do teatro Pedro II. Ao comentar a beleza do lugar e a elegância das pessoas com Gonzaga de Sá, este afirma que metade dessas pessoas ricas e chiques não pagou ingresso. Os amigos observam e comentam os tipos presentes na plateia, ora pela elegância, ora pelo comportamento questionável.

No intervalo, após os efusivos aplausos pelo final do primeiro ato, Augusto pode observar as moças mais de perto e examinar suas delicadas feições. Ele olha para todos e pensa nos caracteres negativos que Gonzaga de Sá lhe revelara, achando que as pessoas mantinham, em geral, um quê de inquietude e desassossego no olhar. Gonzaga fala sobre o rompimento dos jovens com os antigos destronados, referindo-se à Proclamação da República, defendendo que o país está dominado por estrangeiros: “resumindo – continuou Gonzaga –, vocês arranjaram novos dominadores, com os quais vocês não se poderão entender nunca; e expulsaram os antigos com os quais, certamente, se viriam a entender um dia. Erraram, e profundamente” (p. 1892).

O sinal de recomeço do espetáculo soa e todos tomam seus lugares. Pilar, uma das moças observadas por Augusto, já estava no camarote e ele tem a impressão de estar sendo olhado por ela com desdém. A ópera recomeça e estende-se até depois da meia-noite. Os dois saem tristes do teatro, ao contrário do que Augusto sentia quando o frequentava em seu tempo de estudante. Ele percebe que o sentimento de inferioridade que tivera ao contemplar aquelas pessoas ricas não tinha outro motivo além do sangue que corria em suas veias, e que ele intuía ser igual ao sangue daqueles que o diminuíam. Percebe também a injustiça da sociedade que premia aqueles que vieram de fora, roubaram e mataram tantos com sua ganância.

Quem se sente covarde agora é Augusto, por ter sempre obedecido preceitos morais e se comportado de forma subserviente. Os amigos vão beber uma cerveja em um café de notívagos e Gonzaga de Sá afirma que também saiu do teatro triste, no seu caso por perceber que, em quarenta anos, o público que frequenta o teatro ainda é o mesmo: “os mesmos fazendeiros sugadores de sangue humano; são os mesmos políticos sem ideias, são os mesmos sábios decoradores de compêndios estrangeiros e sem uma ideia própria” (p. 1934). Após terem tomado as cervejas, Gonzaga de Sá convida Augusto Machado para dormir em sua casa e estar lá no outro dia para ajudá-lo a arrumar alguns livros. Os dois fazem a viagem em um bonde com poucos passageiros, onde Gonzaga observa uma moça e reflete que ela deveria ser igual às moças da sociedade e, por isso, ele não poderia experimentar. Quase ao amanhecer, chegam à casa e são recebidos pelo velho Inácio.

Comentário

A comemoração de uma data histórica em um feriado nacional é uma oportunidade para que o narrador, sozinho em mais da metade do capítulo, reflita sobre o comportamento da população em relação à República. Uma população sem consciência e que permanece vivendo feliz e participando de celebrações como aquela, mesmo sendo ignorada pelos governantes que, corruptos e fascinados pelo poder, não se preocupam com assuntos que sejam de real interesse público.

O estado de espírito alterado de Gonzaga de Sá, que Augusto encontra na visita que faz ao amigo, cuja companhia se estende até um espetáculo no Lírico D. Pedro II, é produto do desenvolvimento agudo da mesma consciência que falta aos populares. Ele percebe o caráter cruel e excludente da desigualdade social e do preconceito, mas compreende que é impotente para transformar esse cenário. Mais do que isso, lamenta sua falta de coragem em romper com toda a hipocrisia e a ignorância que o cercaram a vida toda. Em vez de fazer com que suas opiniões e posturas fossem ouvidas e seguidas, prefere manter um comportamento na maioria das vezes cordato e submisso, exatamente por se considerar incapaz de operar qualquer transformação naquele ambiente. O resultado, que o angustia, é uma velhice sem companhia, sem amor e sem a compreensão dos amigos.

O trecho que retrata a visita dos amigos ao teatro desenha toda a fina flor da sociedade carioca no microcosmos de uma apresentação de ópera. Lima Barreto apresenta hábitos sociais e de comportamento da elite de forma irônica e marcada também por melancolia e desesperança.

 

Capítulo XII – Últimos encontros

·  Espaços: casa de Gonzaga de Sá: quarto, sala de jantar e escritório.

·  Temas principais: desigualdade social e o tratamento dado aos negros na Primeira República do Brasil.

Síntese

Quando Augusto acorda na ampla casa que, para ele, dava a clara noção do conforto da burguesia na metade do século XIX, Gonzaga de Sá estava no escritório e dona Escolástica dava o café da manhã para o menino Aleixo Manuel, antes de mandá-lo à escola. O olhar interrogativo do menino faz com que Augusto se lembre de sua infância. Antes que o menino saia, Augusto conversa com ele sobre os estudos, a descoberta do Brasil e da América e fica surpreso com a prontidão e a segurança das respostas. Escolástica se refere ao grande interesse de Aleixo pelos livros e lamenta que talvez não continue assim quando amadurecer, porque muitos começam bem e depois abandonam os estudos. Gonzaga questiona se as razões do desinteresse pelo estudo são próprias dos indivíduos ou derivadas de causas externas a eles. Dona Escolástica, que trata Augusto por “doutor”, reafirma, como uma grande e infalível sábia brasileira, que “É assim mesmo!”.

Augusto encontra-se com Gonzaga de Sá no escritório lendo exemplares do jornal Figaro, o qual recebe com atraso, mas lê como se fosse entregue diariamente, sabendo estar pelo menos 15 dias defasado em relação aos acontecimentos do mundo. Sobre a noção de tempo, Gonzaga filosofa: “Ora! O tempo... Uma noção subjetiva, que só existe para nós... Uma fatalidade da nossa organização cerebral, independente da experiência. Um critério, uma categoria para a nossa interpretação humana dos fenômenos... De que vale?” (p. 2020). Na saída, Gonzaga pergunta o que Augusto achou de Aleixo e pede que ele o visite mais vezes para também conversar com o menino, que vive muito só. Gonzaga, como padrinho, preocupava-se em garantir as necessidades do afilhado e oferecer-lhe boa educação. Para Augusto, que nunca sabia o que responder quando o assunto era Aleixo e seu futuro, cuidar do menino trouxe novas preocupações que Gonzaga nunca tivera, mas dava às palavras dirigidas ao menino “a meiguice e a doçura de pai” (p. 2033).

As mudanças de humor de Gonzaga ficam mais claras e, ainda que sempre mantivesse uma tristeza filosófica sobre a mesquinhez da condição humana, tornava-se cada vez mais reflexivo, lembrando-se de dores sepultadas de sua infância, que Augusto nunca chegaria a decifrar. Em uma oportunidade, Gonzaga lhe perguntara se já tinha tido algum amor, reafirmando a necessidade de tê-lo, uma vez que Vênus era uma deusa muito vingativa. Augusto retruca dizendo que a deusa não existe e que nunca tivera nenhum amor.

Em acelerado processo de decadência física e moral, Gonzaga tem repentinas explosões de irritação, faces cada vez mais encovadas e olhos sem brilho. Augusto atribui essa transformação à chegada de Aleixo, que, sempre muito obediente e dócil, trouxe a Gonzaga a consciência de sua obrigação de “fazê-lo gente”. A educação do menino acabou a cargo de dona Escolástica, já que Gonzaga morreu quando Aleixo começou a escola preparatória.

Augusto acredita que a educação desenvolve uma consciência que gera uma “mágoa constante e um fatal princípio permanente de inadaptação ao meio, criando-lhe um mal-estar irremediável e, consequentemente, um desgosto da Vida mais atroz do que o pensamento sempre presente da Morte!” (p. 2063). Apesar disso, há sempre a esperança de que o sofrimento possa ser exteriorizado em atos ou obras que tragam contentamento a seus iguais, concluindo: “A felicidade final dos homens e o seu mútuo entendimento têm exigido até aqui maiores sacrifícios...” (p. 2077).

Comentário

No último “quadro” do livro de Lima Barreto, as discussões recaem sobre o destino do menino Aleixo, filho do falecido Romualdo e agora criado por seu padrinho, Gonzaga de Sá. O primeiro ponto a ser destacado é a visão de dona Escolástica a respeito da impossibilidade de o menino seguir estudando e obter, assim, algum sucesso na vida adulta. Seu discurso é claramente preconceituoso e revela a opinião corrente à época sobre a ascensão de um mestiço à condição de homem letrado. Augusto retruca inutilmente, tentando afirmar que a responsabilidade sobre o fracasso de um jovem de origem pobre e mestiça muitas vezes é de causas externas à sua vontade e ao seu esforço.

A denúncia sobre o tratamento dado aos negros, a quem se concedera tardiamente a liberdade com a Lei Áurea, é tema recorrente no trabalho de Lima Barreto e, neste livro, Aleixo é o personagem representativo dessa questão. É exatamente em função da educação do menino e da consciência sobre as injustiças sociais que o estudo e o hábito da reflexão ajudam a desenvolver que se apresenta a dúvida de que, talvez, a melhor opção seria manter a consciência da criança “restrita aos dados elementares para o uso do viver comum” (p. 2063).

É a mesma questão que concorre para acelerar o processo de envelhecimento de Gonzaga de Sá. Suas constantes mudanças de humor e crises de irritação estão diretamente relacionadas à consciência da diferença entre ele e o afilhado, e a percepção dolorosa do preconceito e da injustiça social são os dados da realidade que tornam o futuro do menino uma incerteza que merece atenção e que causa não só preocupação, mas, e principalmente, tristeza.

Com a morte de Gonzaga, o menino fica aos cuidados de dona Escolástica, que “levou o menino até o fim, com todo carinho e abnegação” (p. 2063). Não se pode esquecer, porém, que é dela o discurso preconceituoso segundo o qual não havia esperança de um futuro letrado para o menino. Seu futuro, ainda que não seja descrito no livro, é o motivo da reflexão final do autor: o sofrimento que, inexoravelmente, atingirá Aleixo, pode ser exteriorizado em grandes obras ou grandes atos e trazer contentamento a gerações futuras. Esse sacrifício terá valido a pena por contribuir com a felicidade final dos homens e seu mútuo entendimento.

Lima Barreto fala abertamente de si mesmo, projetando uma de suas questões mais caras e pessoais, sua origem, duplamente em Augusto Machado e no menino Aleixo. Um autor em início de carreira (lembremos que, embora publicado apenas em 1919, as anotações dos diários do artista e as “Explicações necessárias” datam de 1906) que já previa a dificuldade de sua aceitação nos meios intelectuais brancos e elitistas do Rio de Janeiro da época, pelas próprias experiências de preconceito e exclusão, mas que se declara disposto a se sacrificar e a sofrer as consequências de uma sociedade excludente e injusta pela possibilidade de, um dia, no futuro, ter sua consciência e seu sofrimento transformados em contentamento para “muitos de seus iguais” (p. 2077).

 

Referências importantes para a leitura

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá é a obra de Lima Barreto com a maior quantidade de referências intertextuais e citações de autores e personagens históricos significativos. Para facilitar a compreensão e o acesso rápido a informações que contribuam para a leitura, apresentamos uma lista, em ordem alfabética, de breves dados biográficos dos personagens mencionados, para auxiliar no entendimento dos discursos desenvolvidos no livro.

·  Aristides da Silveira Lobo (1838-1896): jurista, político, jornalista republicano e abolicionista brasileiro do tempo do Império.

·  Arthur Schopenhauer (1788-1860): filósofo alemão cuja obra mais conhecida é O mundo como vontade e representação.

·  Auguste Comte (1798-1857): filósofo francês fundador do Positivismo, doutrina cujas ideias circularam fortemente no Brasil no início da República.

·  Auguste-Maurice Barrès (1862-1923): escritor do Simbolismo francês que faz apologia ao prazer dos sentidos em suas obras.

·  Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836-1891): militar e político brasileiro, foi um dos articuladores da República, adepto do Positivismo e participante da Guerra do Paraguai.

·  Cândido Lago (?-1929): gramático purista que resolvia dúvidas gramaticais em uma coluna no jornal Correio da Manhã. Ensinava o uso da gramática portuguesa e não aceitava a língua falada no Brasil como correta.

·  Charles Darwin (1809-1882): naturalista inglês criador da teoria da evolução, conhecido por sua obra A origem das espécies.

·  Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838): diplomata francês que atuou durante vários governos e, por ter se adaptado a diferentes orientações ideológicas, costuma ser usado como sinônimo de uma política diplomática desonesta e oportunista.

·  Eduardo Wandenkolk (1838-1902): militar da marinha do Brasil, político e senador da República.

·  Edgard Alan Poe (1809-1849): escritor e poeta norte-americano, referido no livro de Lima Barreto em função do conto “A carta roubada”.

·  Estácio de Sá (1520-1567): militar português, fundador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e primeiro governador-geral da capitania do Rio de Janeiro, no período colonial.

·  Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881): filósofo, jornalista e escritor do Império russo. Uma de suas grandes obras é o romance Crime e castigo.

·  Francis Bacon (1561-1626): político, filósofo empirista, cientista e ensaísta inglês. Morreu de um resfriado enquanto tentava encontrar uma forma de resfriar alimentos para conservá-los.

·  François-Marie Arouet – Voltaire (1694-1778): filósofo e escritor francês cujo conjunto de ideias é a base do pensamento liberalista, o que inclui críticas à Igreja católica e defesa ferrenha da liberdade de expressão.

·  Henri Poincaré (1854-1912): matemático, físico e filósofo francês, professor da Sorbonne, conhecido pela obra A ciência e a hipótese.

·  Hippolyte Taine (1828-1893): pensador positivista francês do século XIX, considerado o pai da teoria determinista.

·  Hugues-Felicité Robert de Lamennais (1782-1854): filósofo, escritor e padre francês que procurou conciliar os ideais liberais com o cristianismo. Suas ideias não eram bem aceitas pela Igreja católica da época.

·  Jean-Baptiste Colbert (1619-1683): ministro de Estado e da Economia de Luís XVI. Costumava declarar ascendência na nobreza escocesa, mas teria renunciado à condição de nobre.

·  Jean de La Fontaine (1621-1695): conhecido autor de fábulas que previam obstáculos que precisavam ser ultrapassados para se concluir um desafio.

·  Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): filósofo, teórico político, escritor e compositor. Do contrato social é uma de suas obras mais conhecidas.

·  Dom João VI (1767-1836): rei de Portugal por 43 anos, estava no poder quando foi encontrado ouro no Brasil. Acabou marcado por ser um rei que ostentava riquezas.

·  Joaquim Caetano (1810-1873): médico e diplomata que deu início às discussões sobre as questões de fronteira entre o Brasil e a Guiana.

·  José Alexandre Teixeira de Melo (1833-1907): jornalista e escritor brasileiro que foi chefe da seção de manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e realizou pesquisas que foram muito importantes para a futura definição de políticas fronteiriças do país.

·  José Maria da Silva Paranhos Júnior – Barão do Rio Branco (1845-1912): jornalista, político e diplomata brasileiro que foi ministro das Relações Exteriores entre 1902 e 1912. Ganhou fama por vencer disputas, em tribunais internacionais, que aumentaram o território brasileiro. Sempre gozou de muito prestígio popular e foi cotado para ser presidente da República. Lima Barreto não concordava com a fama que o Barão tinha e chegou a expressar essas opiniões em uma crônica de 23 de janeiro de 1915.

·  Joseph Ernest Renan (1823-1892): filósofo e historiador francês, conhecido por seu ensaio “O que é uma Nação?”, que influenciou Lima Barreto na classificação da ideia de nacionalismo como produto de uma construção histórica.

·  Lev Nikolaevitch Tolstoi (1828-1910): escritor russo, também conhecido como Liev Tolstoi, autor de obras como Anna Karenina e Guerra e paz. Celebrado como um dos grandes autores de todos os tempos.

·  Licínio Atanásio Cardoso (1852-1926): rigoroso professor de Mecânica da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde o próprio Lima Barreto estudou e não conseguiu concluir o curso, exatamente por não ser aprovado na disciplina de Cardoso. Após estudar matemática por longos anos, tornou-se um dos introdutores da homeopatia no Brasil.

·  Louis Moreau Gottschalk (1829-1869): pianista e compositor norte-americano.

·  Luís XIV (1638-1715): conhecido como o Rei-Sol, foi um monarca absolutista francês que é lembrado por sua frase “O Estado sou eu”.

·  Manuel Deodoro da Fonseca (1827-1892): militar e político brasileiro, primeiro presidente do Brasil e figura central da Proclamação da República.

·  Numa Denis Fustel de Coulanges (1830-1889): historiador e professor universitário francês.

·  Otto Eduard Leopold von Bismarck-Schönhausen (1815-1898): nobre, diplomata e político prussiano que ganhou muito destaque no século XIX e ficou conhecido como “chanceler de ferro”, por sua atuação no governo alemão.

·  Pedro Álvares Cabral (1467-1520): comandante militar, navegador e explorador português, considerado o responsável pelo “descobrimento” do Brasil pelos portugueses.

·  Doutor Pelino Joaquim da Costa Guedes (1858-1919): poeta, biógrafo, jornalista, advogado, professor, funcionário da Secretaria dos Negócios do Interior e da Justiça, diretor da Secretaria do MJNI e fundador da Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro. 

·  Pierre Abélard (1079-1142): teólogo e filósofo escolástico francês que defendia o “conceitualismo”, afastando-se do “nominalismo”.

·  Plutarco (46 d.C.-120 d.C.): historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo grego. Conhecido por suas obras Vidas paralelas e Morália.

·  Prudente José de Morais Barros (1841-1902): advogado e político brasileiro, presidente do Estado de São Paulo, senador, presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1891 e terceiro presidente do Brasil, o primeiro civil e o primeiro eleito por eleições diretas.

·  Robert Walpole (1676-1745): considerado o primeiro e o mais longevo primeiro-ministro do Reino Unido, nomeado conde de Orford. Subsidiou escritores para que escrevessem sobre ele, livrando-o de acusações de corrupção.

 

Outras referências dignas de nota

·  Café Papagaio: importante café do início do século XX, situado à rua Gonçalves Dias, no centro do Rio de Janeiro, e frequentado por intelectuais, jornalistas, escritores e funcionários públicos, como Lima Barreto e seus amigos.

·  Jornal Le Figaro: jornal francês de orientação conservadora, fundado em 1826 e que ainda continua em circulação.

·  Julgamento de Minos: Minos, na mitologia grega, era um dos três juízes mortos no submundo, juntamente com Éaco e Radamanto. Conhecido por sua sabedoria e imparcialidade na tomada de decisões judiciais. Para a mitologia, os indivíduos são julgados por Minos depois da morte e sempre são avaliados de forma justa e incorruptível.

 

Narrador

1ª pessoa – narrador testemunha

Augusto Machado observa e descreve o amigo Gonzaga de Sá e faz uso do recurso do narrador em movimento, como definido pelo pesquisador Antonio Arnoni Prado, o que dá à obra a possibilidade de apresentar diferentes pontos da cidade, em uma visão de 360 graus, acompanhando suas andanças pelas ruas do Rio, tanto a pé, como em bondes e trens, que também dão a dimensão dos habitantes, seus trajetos, costumes e posturas.

A juventude do narrador é um recurso utilizado por Lima Barreto em alguns de seus romances e contos. O efeito é o desenvolvimento de uma narrativa em que narrador e leitor descobrem situações e personagens ao mesmo tempo, criando uma espécie de cumplicidade e aproximando as discussões do ponto de vista do jovem funcionário público bem formado e mestiço, identificado com a condição do próprio autor.

Personagens

·  M. J. Gonzaga de Sá: amanuense da Secretaria dos Cultos, dedicado a questões burocráticas aparentemente complexas e pouco relevantes, “Manuel Joaquim Gonzaga de Sá era bacharel em letras pelo antigo Imperial Colégio D. Pedro II. Possuía boas luzes e teve sólidos princípios de educação e instrução. Conhecia psicologia clássica e a metafísica de todos os tempos. Comparava opiniões do Visconde de Araguaia com as do Sr. Teixeira Mendes” (p. 287).

Tem toda sua formação familiar e acadêmica conectada à Monarquia, pela função desempenhada por seu pai, general titular do Império. “Sua história sentimental é limitada. Não foi casado, esqueceu-se disso; embora tivesse amado duas vezes: a primeira, à filha de um Visconde, num baile de um marquês; a outra, a uma sua lavadeira, não sabe em que ocasião.” (p. 287)

“Era Gonzaga um velho alto, já não de todo grisalho, mas avançado em idade, todo seco, com um longo pescoço de ave, um grande gogó, certa macieza na voz grave, tendo uns longes de doçura e sofrimento no olhar enérgico. A sua tez era amarelada, quase dessa cera amarela de certos círios.” (p. 129)

·  Augusto Machado: amanuense afrodescendente, autor da biografia de M. J. Gonzaga de Sá, pouco preparado em estudos clássicos, com forte influência de pensadores e autores franceses do Iluminismo e do Liberalismo. Funciona como uma espécie de alterego do próprio Lima Barreto. Suas origens mestiças não são explicadas, apenas mencionadas, e sua identificação com o Rio de Janeiro é absoluta. Pode ser entendido como o próprio Rio de Janeiro mestiço.

·  Romualdo de Araújo: servente da Secretaria dos Cultos, era compadre de Gonzaga de Sá, que batizara seu filho, Aleixo.

·  Dona Alcmena: moça por quem Augusto sente-se atraído no velório de Romualdo.

·  Barão de Inhangá: “velho funcionário do tempo do Império que se fizera diretor e barão, graças ao seu nascimento e à sua antiguidade de funcionário” (p. 735).

·  Xisto Beldroegas: funcionário da Secretaria de Cultos, apaixonado pela Legislação. Queria indeferir todas as solicitações recebidas e achava que Gonzaga de Sá não tinha aptidões para o trabalho na repartição, sentindo pena por sua aposentadoria próxima, mesmo sabendo que seria pessoalmente beneficiado por ela em uma possível promoção.

·  Aleixo: menino órfão de mãe que também perde o pai. É afilhado de Gonzaga de Sá, que o julga inteligente e muito avançado na escola e está disposto a fazer dele um grande homem. Representa o mestiço carioca que tem a sorte de ter um padrinho contribuindo em sua formação; mas, ainda assim, provavelmente terá pouco espaço na sociedade elitista e racista. Pode-se dizer que Aleixo é também uma representação do próprio Lima Barreto no livro.

 

Tempo e espaço

O Rio de Janeiro em transformação pode ser considerado o grande tema do livro, que apresenta as descrições de sua topografia e de locais menos retratados em obras literárias, a diferença entre os bairros, a relação entre o mar e as montanhas e sua influência no desenvolvimento da capital federal.

Não há datas precisas mencionadas, mas o período retratado pelo autor é o mesmo experienciado por ele em vida: a Primeira República brasileira. O momento histórico de transição entre o Império e a República que o país viveu permite entender que o tempo de convivência entre Augusto Machado e Gonzaga de Sá não tenha ultrapassado um ano. Os encontros e as conversas entre os personagens não são cronologicamente organizados, e a ordem exata em que aconteceram não é uma informação relevante para a compreensão da obra.

 

Estilo do autor e da obra

Durante a maior parte de sua carreira como escritor, Lima Barreto contribuiu em jornais e revistas com crônicas que consagraram seu estilo crítico, marcado por uma ironia ressentida quanto aos desmandos da República, ao arrivismo social e ao preconceito racial – temas recorrentes em sua obra. A linguagem direta do texto curto e o caráter combativo das crônicas tornaram-se marcas características do trabalho do autor. Acusado de desleixado, por não respeitar todas as convenções gramaticais consideradas necessárias para alcançar o que se entendia como linguagem elevada, Lima Barreto amargou a indiferença de muitos dos seus pares e o desprezo da elite intelectual do Rio de Janeiro no início do século XX.

O que se compreende, mais de 100 anos após a morte do autor, é que é possível encontrar em seus textos uma maneira específica de apresentar os subúrbios cariocas, do ponto de vista de um habitante dessas regiões periféricas da então capital federal, desprivilegiado e impotente para quebrar a barreira do preconceito social e racial que sente na pele. Há, nesse olhar desenvolvido por Lima Barreto, uma pessoalidade que se revela no tom confessional de muitas de suas obras. A presença do autor e de suas experiências de vida é marcada em discursos combativos de muitos dos personagens de suas crônicas e de seus romances.

É importante ressaltar diferenças significativas que se destacam na redação de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá em relação ao estilo normalmente identificado nas crônicas e em outros romances do autor. O próprio Lima Barreto considerava esse seu trabalho “cerebrino” e o compreendia como uma obra em que utiliza uma linguagem menos agressiva, em que tece as críticas à sociedade carioca por meio de alegorias, lançando mão do humor na apresentação de personagens caricaturais, que compõem o quadro completo da movimentação urbana que o autor deseja apresentar ao leitor, muitas vezes permeado pelo olhar e pela visão de mundo de seu biografado, Gonzaga de Sá.

Analisemos a forma que Lima Barreto dá a alguns desses temas recorrentes na redação de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.

 

Os traços reforçados do ridículo

Beldroegas era o depositário das tradições contenciosas da Secretaria de Cultos. Apaixonado pela legislação cultural do Brasil, vivia obsedado com os avisos, portarias, leis, decretos e acórdãos. Certa vez foi atacado de uma pequena crise de nervos, porque, por mais papéis que consultasse no Arquivo, não havia meio de encontrar uma disposição que fixasse o número de setas que atravessavam a imagem de S. Sebastião. Gonzaga de Sá contava coisas bem engraçadas de seu colega bacharel. Notava muito a sua necessidade espiritual da fixação, da resolução em papel oficial de tudo e todas as coisas. Beldroegas não podia compreender que o número de dias que chove no ano não pudesse ser fixado; e se ainda não o estava, em Aviso ou Portaria, era porque o Congresso e os ministros não prestavam. Se fosse ele...Ah!... O movimento dos astros, o crescimento das plantas, as combinações químicas, toda a natureza, no seu entender, era governada por avisos, portarias e decretos, emanados de certos congressos, ministros e outras espécies de governantes que tinham existido há muito tempo. Não acreditava que outras vontades ou forças mais poderosas do que as dos membros ostensivos do poder político governassem. Eram eles, só eles, o voto... Tolice!...

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 1671-1691.

 

Por meio de um personagem secundário, colega de Gonzaga de Sá na Secretaria dos Cultos, Augusto Machado tece uma crítica contundente à administração pública. Xisto Beldroegas é caricaturado como alguém “apaixonado” pela legislação do país, empenhado em burocratizar tudo o que for possível e que sofre de “uma pequena crise de nervos” por uma questão totalmente irrelevante. Sua postura positivista crê na previsibilidade de todos os movimentos da natureza a ponto de poderem ser determinados pela força da lei.

É importante reforçar que, quando se diz que Lima Barreto retratou, de modo inédito até aquele momento, o funcionário público do subúrbio carioca, não se trata de uma generalização que compreende todo o funcionalismo. Lima desenha diferentes tipos de comportamento que compõem a administração pública. No caso de Xisto, trata-se de um homem reificado pela máquina pública, por seus avisos, decretos e portarias. Ele é retratado como um homem de total dedicação a causas fúteis e de nenhum interesse social. Outro aspecto relevante na caracterização de Beldroegas é que Lima Barreto não se prendeu à caracterização física do personagem, como é comum que se faça na composição de uma caricatura. O funcionário é caricaturado por suas ideias e comportamentos, mas, ainda assim, o leitor é capaz de criar uma imagem do homem, a partir de pequenos elementos como o fato de usar “pincenê” e de sua constante agitação, como se estivesse envolto em uma nuvem de documentos, pelos quais é apaixonado e dos quais não consegue se desvencilhar.

Mais um dado importante do estilo de Lima Barreto, nesta obra, é o uso do discurso indireto livre, como se pode notar em “Se fosse ele...Ah!...”, recurso expressivo cujo efeito é a aproximação entre o leitor e o personagem na descrição do narrador que se deixa sobrepor pela fala ou pensamento de quem apresenta. O resultado é o contato direto com a figura descrita.

Mais adiante, no texto, quando o narrador se encontra com o personagem na rua, ele faz a seguinte observação sobre Xisto:

Ele não me respondeu claramente, articulou unicamente um grunhido de suíno, como exigia a sua respeitabilidade burocrática.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 1712.

 

Há uma ligeira tendência à animalização de Xisto, por meio da referência ao seu grunhido de suíno, seguida de uma ironia a respeito da relação direta desse grunhido com a dita respeitabilidade burocrática.

Entende-se que a apresentação de um personagem menor, que não tem relação direta com o tronco principal do romance, é uma das estratégias que o autor usa para abordar temas frequentes em sua obra, destilar sua ironia, revelar seu ressentimento pela condição de silenciado e excluído e praticar sua literatura combativa contra os desmandos da Primeira República do Brasil.

 

O retrato específico de um certo Rio de Janeiro

Há muitos trechos do livro em que são apresentadas cenas de paisagens do Rio de Janeiro, algumas vezes com figuras que compõem a população local e outras com clara ênfase na descrição da natureza, como é possível perceber no fragmento que segue:

Quando cheguei ao terraço do Passeio, já os morros de Jurujuba e de Niterói haviam perdido o violeta com que eu os vinha vendo cobertos pela viagem de bonde afora; sobre a Armação, porém, pairava ainda o jorro de densas nuvens luminosas, por onde, nas oleografias devotas, acostumamos a ver surgir os santos e anjos da nossa fé, ameaçando tempestade; mas a minha secreta correspondência com o meio avisara-me que não choveria. Chegado que fui, sentei-me a um banco embutido no muro, bem defronte a uma das novas escadarias que levam à gabada avenida “Beira-mar”. Em seguida puxei um cigarro e pus-me a fumá-lo com paixão, olhando as montanhas do fundo, afogadas em nuvens de tumbo; e, engastado na barra de anil, um farrapo de púrpura, que se estendia por sobre os ilhotes de fora da baía.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 164.

 

A descrição da paisagem carioca, que não corresponde à gasta imagem turística da zona sul do Rio de Janeiro, muito usada para caracterizar a cidade, ganha contornos impressionistas pelas cores e pelos movimentos sugeridos pela escolha lexical do autor. Trechos como “jorro de densas nuvens luminosas” e “engastado na barra de anil” são exemplos de uma linguagem que valoriza a impressão do observador mais do que a descrição objetiva daquilo que se observa. O resultado surpreende pelo lirismo e pela naturalidade com que os comentários reveladores do narrador são inseridos na descrição, como ocorre em “a minha secreta correspondência com o meio avisara-me que não choveria”.

Pode-se considerar a identificação do narrador com a cidade um efeito de sentido da descrição apresentada, uma vez que a paisagem externa se confunde com as percepções e as sensações internas daquele que a vê. Augusto Machado identifica a proximidade de sua trajetória com a da cidade e se percebe vivo nos diferentes fluxos e contrafluxos que cortam o Rio de Janeiro. Em momentos que fundem descrição e reflexão pessoal, o lírico se estabelece e o trecho se aproxima da prosa poética.

Outro aspecto que se destaca na apresentação do Rio de Janeiro, na obra, é a descrição de personagens locais e seus hábitos cotidianos:

Deixando o hotel, ao chegarmos à Avenida Central, havia um movimento por ela acima. Subimos até o pavilhão Monroe. O público noturno de domingo, nas ruas, tem uma certa nota própria. Há os mesmos flaneurs, artistas e escritores e boêmios; os mesmos camelots, mendigos e rodeuses, que dão encanto do pitoresco à via pública. No domingo, porém, como eles, vêm as moças dos arrabaldes distantes, com seus pálidos semblantes e os vestidos característicos. Vêm as armênias das adjacências da rua Larga, em cujos grandes olhos negros, guarnecidos de longos cílios, e com uns duros reflexos de turmalina, a gente vê por vezes passar alguma coisa de ferocidade asiática. Além desses há operárias em passeio, com suas roupas amarfanhadas pela longa estadia nos baús. Há caixeiros com roupas eternamente novas e grandes pés violentamente calçados... Por entre essa gente, fomos indo até a balaustrada que dá para o mar, junto à qual nos encostamos, olhando em todo o comprimento a avenida iluminada e movimentada.

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 1618.

 

Há ainda uma peculiaridade no estilo barretiano que é digna de nota: trata-se da inserção de reflexões opinativas acerca de determinado tema de forma quase artificial. No meio de uma conversa cotidiana, como no exemplo que segue, o autor muda o tom do discurso e passa a apresentar teorias e/ou argumentos para as teses que pretende defender:

– É verdade! Mas, virá deles mesmos a perda de vontade, o enfraquecimento do amor, da dedicação aos estudos; ou           tem tal fato raízes em motivos externos, estranhos a eles que, só numa idade mais avançada, acabam percebendo, quando a consciência lhes revela o justo e o injusto, fazendo que se lhes enfraqueça deploravelmente o ímpeto inicial?

LIMA BARRETO. Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (Sátiras e Romances de Lima Barreto - Livro 5). Edição para Kindle. p. 1995.













INTRODUÇÃO À OBRA: VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ (1)

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