03 maio 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: NO SEU PESCOÇO (1)


 

Introdução

Aspectos biográficos da autora

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em 15 de setembro de 1977, na cidade de Enugu, capital do estado de mesmo nome localizado no sudeste da Nigéria. Filha de um professor, ela cresceu na cidade universitária de Nsukka, estudou medicina e farmácia por um ano e meio e, ao completar 19 anos, deixou a Nigéria e se mudou para os Estados Unidos, onde estudou Comunicação e Ciência Política e fez mestrado em Escrita Criativa na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, no estado de Maryland.

Chimamanda divide-se entre os Estados Unidos e a Nigéria, ministrando cursos de escrita e dando palestras sobre temas relacionados ao seu trabalho como escritora e ativista. Tornou-se conhecida também por sua atuação como militante feminista e é considerada uma das mais proeminentes vozes femininas do continente africano no contexto internacional.

Os temas mais abordados no trabalho de Chimamanda são imigração, desigualdade nas relações étnico-raciais e de gênero, saudades da terra natal e a situação político-social vivida pelos países africanos. O conjunto de sua obra inclui romances, peças teatrais, poemas e coleções de histórias. Seus livros mais conhecidos encontram-se todos disponíveis em português: Hibisco roxo (2003); No seu pescoço (2009); Americanah (2013); Sejamos todos feministas (2014); Para educar crianças feministas: um manifesto (2017) e Notas sobre o luto (2021). Com obras publicadas em mais de trinta línguas, a autora já recebeu 14 prêmios de literatura, 3 em outras categorias, diversas honrarias acadêmicas e nomeações a diversos prêmios.

 

No seu pescoço

Contexto de publicação: início do século XXI

Na primeira década do século XXI, a Nigéria consolidou-se como o país mais populoso da África, com mais de 140 milhões de habitantes segundo o censo de 2006, caracterizando-se por sua diversidade étnica, cultural e religiosa. O país é lar de mais de 250 grupos étnicos, destacando-se hauçás, igbos e iorubás, que formam a maioria da população. Essa pluralidade reflete-se nas mais de 500 línguas faladas, embora o inglês, legado do colonialismo britânico, seja a língua oficial, unificando os sistemas educacional, político e econômico. Apesar de ser uma das maiores economias do continente, impulsionada principalmente pela produção de petróleo, a Nigéria enfrenta desafios significativos, como altos índices de pobreza, corrupção endêmica e infraestrutura deficitária, que acentuam as disparidades socioeconômicas.

No campo cultural, a literatura nigeriana tornou-se uma das mais ricas da África, representando tanto a complexidade da nação quanto suas transformações históricas e contemporâneas. Escritores como Chinua Achebe e Wole Soyinka consolidaram a literatura nigeriana no cenário global no século XX. Mais recentemente, uma nova geração de autores, incluindo Chimamanda Ngozi Adichie, destacou-se por oferecer uma perspectiva renovada e multifacetada sobre os conflitos do país. Chimamanda, em particular, em sua abordagem sobre as questões africanas, com histórias que capturam as nuances da vida nigeriana e da diáspora, alcançou reconhecimento internacional, permitindo que leitores de diferentes partes do mundo compreendam as dinâmicas sociais, culturais e políticas do país.

Nesse contexto, a literatura nigeriana desempenha um papel crucial na construção da identidade nacional e no questionamento de problemas universais, como desigualdade e opressão. Ao mesmo tempo, funciona como uma janela para o mundo, permitindo que as vozes nigerianas sejam ouvidas além das fronteiras do país. Chimamanda, com sua escrita envolvente e engajada, é uma figura emblemática dessa nova onda literária, mostrando que a ficção pode ser uma ferramenta poderosa para promover o entendimento intercultural e a reflexão crítica.

 


O livro

Publicado em 2009, No seu pescoço é uma coletânea de contos que reúne doze histórias sobre temas como identidade, imigração, amor e a complexidade das relações humanas.

Cada conto oferece um olhar profundo sobre as experiências dos personagens, muitos dos quais são nigerianos vivendo tanto em seu país de origem quanto na diáspora. Em sua prosa, Chimamanda busca capturar as nuances culturais e os desafios enfrentados por aqueles que transitam entre mundos tão diferentes, abordando questões sociais e políticas em meio à diversidade das experiências africanas e à universalidade das emoções humanas.

A seguir, vamos destrinchar os elementos narrativos de cada um dos contos, apresentando uma breve síntese do enredo e analisando os aspectos mais importantes de cada história.

 

Conto 1 “A Cela Um”

Narrador

Primeira pessoa: irmã do protagonista Nnamabia.

“Narrador-testemunha”.

Personagens

· Nnamabia: protagonista.

· A irmã: narradora não nomeada.

· O pai: professor universitário, adepto dos registros escritos e relatórios.

· A mãe: condescendente com o comportamento do filho.

Espaço

Estado de Egunu, no sudeste da Nigéria, onde ficam a cidade de Nsukka e seu campus universitário.

Temas principais

Relações familiares; vida em comunidade; violência entre jovens de classe média em situação de privilégio; educação praticada por famílias de classe média no sudeste da Nigéria em determinados cenários sociais; sistema carcerário; relação do cidadão com a polícia.

Síntese do enredo

Nnamabia vive com a irmã, o pai e a mãe em uma comunidade de professores universitários no tranquilo campus de Nsukka, no sudeste da Nigéria. Um grupo de adolescentes do campus costuma arrombar casas de vizinhos para roubar, principalmente aparelhos eletrônicos. A casa de Nnamabia foi roubada uma primeira vez pelo vizinho Osita, mas a comunidade tinha o hábito de atribuir os crimes à ralé da cidade que entrava no campus, minimizando o envolvimento dos filhos dos professores, que usavam os roubos como demonstração de poder e ousadia. O segundo assalto à casa de Nnamabia foi feito por ele mesmo. Ele aproveitou a ausência dos pais, deixou a irmã sozinha na missa e simulou um arrombamento para roubar as joias da mãe. O pai e a irmã perceberam rapidamente que havia sido ele, mas, fazendo-se de ofendido, Nnamabia passou semanas fora de casa e, quando voltou, confessou ter vendido as joias e gastado todo o dinheiro.

Quando, aos onze anos, Nnamabia quebrou a janela da sala de aula com uma pedra, minha mãe deu a ele o dinheiro para pagar pelo conserto e não contou para o meu pai. Quando ele perdeu alguns livros da biblioteca no segundo ano, ela disse à professora que eles tinham sido roubados pelo menino que trabalhava lá em casa. Quando, no terceiro ano, Nnamabia, apesar de sair cedo todos os dias para ir ao catecismo, não pôde receber a primeira comunhão, pois depois se descobriu que ele não tinha ido nenhuma vez, ela disse aos outros pais que ele teve malária no dia da prova. Quando Nnamabia pegou a chave do carro do meu pai e fez um molde num pedaço de sabão que meu pai encontrou antes que ele pudesse levar a um chaveiro, ela disse vagamente que aquilo era coisa da juventude e não significava nada. Quando Nnamabia roubou do escritório as questões da prova e vendeu para os alunos do meu pai, minha mãe gritou com ele, mas depois disse ao meu pai que Nnamabia afinal de contas já tinha dezesseis anos, e devia receber uma mesada maior.

Não sei se Nnamabia sentiu remorso por roubar as joias dela.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A Cela Um. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 12-13.

 

Mesmo duvidando de que ele contasse toda a verdade, o pai pediu que Nnamabia fizesse um relatório detalhado de todos os passos do assalto. Ele não conseguia pensar em outra forma de punição para um garoto de 17 anos e sempre gostou de organizar e documentar a vida em relatórios. Depois de Nnamabia entregar o documento, que foi devidamente arquivado na gaveta de aço do escritório, a família não falou mais sobre o episódio. No terceiro ano da faculdade, porém, Nnamabia foi preso, acusado de envolvimento com os cultos que proliferavam no campus – Black Axe, Buccaneers e Pirates –, os quais eram associações entre meninos que imitavam o comportamento de rappers americanos, incluindo estranhas e violentas cerimônias secretas de iniciação.

Nnamabia sempre negou participar dos cultos, e sua irmã o achava popular demais para se envolver em grupos que o obrigariam a se indispor com as pessoas. Mas, com o crescimento desenfreado da violência no campus, com assaltos e assassinatos, a polícia decretou um toque de recolher para a comunidade, ao qual Nnamabia não acatou, permanecendo com amigos no bar, motivo suficiente para que fosse preso.

A família descobre que os casos relacionados aos cultos estão sendo investigados com rigor e os presos transferidos para a capital, Enugu, o que dificulta tanto o controle sobre o processo quanto as visitas. Mesmo tendo que dirigir mais de três horas e passar por várias blitzes policiais, a família visitou Nnamabia no presídio todos os dias na primeira semana. Com pequenos subornos em forma de comida e de notas escondidas em pacotes, a mãe conseguia que Nnamabia fosse autorizado a sair da cela para sentar-se com eles em um banco embaixo de uma árvore.

Nnamabia conta aos seus familiares que foi levado em uma viatura e obrigado a esconder as notas de dinheiro no ânus para que os policiais não o roubassem. Ele sabia que provavelmente precisaria pagar por proteção na cela, e estava certo. Ele explica para os pais como é o funcionamento da cadeia:

“Se a Nigéria funcionasse como essa cela” disse, “o país não teria nenhum problema. As coisas são tão organizadas! Nossa cela tem um chefe chamado general Abacha e ele tem um vice. Quando você chega, tem que dar algum dinheiro para eles. Se não der, vai ter problemas.”

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A Cela Um. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 17.

 

Nnamabia vai, no decorrer das visitas, revelando seu choque com o que presenciava na cadeia. Conta que ficou impressionado ao ver um menino “Buccanner”, alto e durão, chorar aos soluços, encolhido, depois de ter levado um soco do chefe de polícia por trás da cabeça. Mais chocado ainda ficou quando descobriu o que acontecia na “Cela Um”, para onde eram ameaçados de serem levados caso não se comportassem bem. Dois policiais tinham sido vistos saindo de propósito dessa cela levando um cadáver todo inchado, para que todos soubessem do perigo que a cela representava. Na volta para casa, a mãe permaneceu em silêncio olhando pela janela, enquanto o pai se lamentava por sua omissão na educação do filho, dizendo que deveria tê-lo mandado à cadeia quando arrombara a casa.

Na segunda semana de prisão, a irmã tentou explicar aos pais que continuar a visitar Nnamabia todos os dias era um sacrifício que a família não poderia manter, tanto pela dificuldade e pelo estresse da viagem como pelo preço da gasolina. Como os pais não aceitaram seus conselhos, ela quebrou o para-brisa do Volvo que usavam para as idas a Enugu. No dia seguinte, as visitas continuaram, mesmo com o para-brisa completamente rachado. Eles encontram Nnamabia muito diferente quando chegaram à cadeia. Ele não reclama da ausência deles no dia anterior e não come todo o arroz que levaram. Ele conta à família que há um novo prisioneiro, um homem de mais de 70 anos que foi detido no lugar de seu filho, que era quem a polícia procurava por assalto à mão armada. Sem conseguir localizar o verdadeiro criminoso, o velho – funcionário público aposentado e incorruptível – acabou preso. Em contato com esse velho e testemunhando todas as humilhações a que era submetido na cadeia, Nnamabia foi se transformando lentamente, ficando cada vez mais deprimido com a situação que vivia e presenciava ali.

Dois dias depois, aconteceu um novo assassinato no campus. Um dos rapazes presos por esse crime aceitou fazer uma delação e confirmou que Nnamabia não era membro dos cultos. Ao chegarem a Enugu para buscá-lo, a família recebe a notícia de que houve um problema de mau comportamento no dia anterior e que Nnamabia tinha sido transferido para a Cela Um, de onde todos os prisioneiros foram levados a outro lugar. Um policial se dispõe a levá-los ao local em que Nnamabia estava, dizendo que ficava apenas a 15 minutos dali. Sentado no banco de trás do automóvel da família, o policial os conduz a uma parte da cidade sem asfalto e sem sinalização nenhuma, com muito lixo espalhado por todos os lados. Todos tinham certeza de que estavam prestes a serem informados da morte de Nnamabia, mas ele foi trazido pelo policial, com o braço em carne viva e com uma crosta de sangue ao redor do nariz.

A mãe tenta perguntar ao policial o que aconteceu com seu filho e o motivo para ele ter apanhado tanto. Sem revelar exatamente o que houve com Nnamabia, o policial responde:

“Vocês não sabem criar seus filhos, todos vocês que se acham importantes por trabalharem na universidade. Quando seus filhos se comportam mal, acham que eles não têm que ser castigados. A senhora tem sorte, muita sorte de ele ter sido solto.”

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A Cela Um. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 27.

 

Na volta para casa, sem parar em nenhuma blitz da estrada, mesmo sob ameaça das armas dos policiais contra o carro, Nnamabia conta que tinha sido castigado por se opor à humilhação a que o velho fora submetido pelos policiais, que o obrigaram a desfilar sem roupas pelo corredor em troca de um balde de água. Sem se gabar do que tinha enfrentado, Nnamabia não conta o que tinham feito com ele nem descreve a cena do enfrentamento com o tom histriônico que muitas vezes usara. Sua irmã, porém, imagina orgulhosa a reação do irmão frente aos policiais e a admiração do velho que, sem tirar a roupa, fora defendido por Nnamabia.

Comentários sobre o conto

O conto “A Cela Um” apresenta uma forte perspectiva pessoal por meio de uma narradora em primeira pessoa, a irmã de Nnamabia, que funciona como “narrador-testemunha”. Embora a história seja centrada nas ações de Nnamabia, é por meio do olhar da narradora que conhecemos tanto o comportamento transgressor do irmão quanto o impacto de suas ações na família e na comunidade. A narração transmite um sentimento de proximidade, permitindo que o leitor compreenda o comportamento e as mudanças psicológicas do protagonista pelas reflexões da irmã, criando uma atmosfera de cumplicidade familiar e, ao mesmo tempo, de resignação diante dos erros do irmão.

O desenvolvimento psicológico dos personagens é uma das marcas mais fortes do conto. Nnamabia, inicialmente apresentado como um jovem inconsequente, é gradativamente humanizado conforme o relato avança. Ele começa como ladrão de joias e adolescente em busca de status entre os amigos, mas, à medida que experimenta a brutalidade do sistema carcerário nigeriano, a percepção que tem de si e do mundo muda. Suas reações dentro da prisão, especialmente ao testemunhar a injustiça sofrida pelo idoso preso no lugar do filho, revelam uma crescente maturidade e empatia, o que contrasta com o comportamento egocêntrico do início da história. A mudança psicológica de Nnamabia é um ponto crucial que a autora desenvolve com nuances, mostrando como o sistema corrupto e violento da prisão atua como um catalisador de autoconhecimento e transformação moral.

A realidade da Nigéria também emerge como pano de fundo opressivo, especialmente no contexto do campus universitário de Nsukka e da violência envolvendo a juventude privilegiada. Adichie usa esse espaço para refletir sobre as tensões sociais e políticas da região sudeste da Nigéria, destacando o distanciamento entre as elites acadêmicas e a realidade brutal enfrentada pela população mais pobre. O conto ilustra o envolvimento dos jovens de classe média em atos de criminalidade e os violentos cultos religiosos que têm espaço no campus. Tudo isso expõe a crise de valores e a falência educacional daquele grupo social, para muito além de questões individuais.

O sistema carcerário e a relação entre o cidadão e a polícia também são temas centrais no conto. A prisão não é apenas um espaço físico, mas um microcosmo que reflete os graves problemas das instituições nigerianas. Interessante notar que o termo “Cela Um” é sempre grafado com iniciais maiúsculas nas duas palavras todas as vezes em que é mencionado. Esse recurso torna o local, também título do conto, uma espécie de instituição com características muito peculiares a serem consideradas.

A descrição da Cela Um, espaço que simboliza a morte e o castigo extremo, serve como alegoria para o estado de decadência da Nigéria sob o governo militar. A cela opera como um regime de terror dentro da prisão, onde a violência é a regra e a justiça é arbitrária, exacerbando a sensação de desespero e impotência dos prisioneiros. O contraste entre o idealismo da vida acadêmica de Nsukka e a brutalidade do sistema carcerário torna-se um ponto de crítica social poderoso.

O estilo empregado no conto é uma marca do trabalho de Chimamanda no livro: a habilidade de misturar lirismo e brutalidade. A autora usa imagens vívidas e detalhadas para descrever a violência e a opressão, mas também reserva espaço para momentos de ternura, como a cena em que a narradora observa o irmão chorar pela primeira vez. Esse contraste entre momentos líricos e cenas de violência cria uma tensão emocional no leitor, tornando o impacto do conto ainda mais profundo.

A opção de Nnamabia de falar inglês em determinadas situações sugere o uso da língua em momentos de dissimulação, quando ele tenta fingir ser algo que não é. Em situações de sinceridade e abalo emocional, a língua empregada por ele é o igbo. Nnamabia é apresentado como um personagem malandro e sedutor, por quem todos têm admiração e simpatia. O limite entre a sinceridade, o exagero e a dissimulação em suas falas e atitudes é tênue e a opção pelo inglês ou pelo igbo (língua falada por aproximadamente 25 milhões de pessoas no sudeste da Nigéria) é um dos indicadores sobre o quão genuínos são o sentimento narrado e a veracidade dos eventos que conta.

O comportamento dos policiais – tanto nas blitzes em que a família é constantemente parada como na cadeia – é pautado pelo suborno que recebem e pelas ações que julgam convenientes a eles mesmos. Trata-se de uma polícia corrupta e desonesta, cujo comportamento é opressor e truculento. O funcionamento do sistema penitenciário da Nigéria é um dos temas colocados em discussão pela autora nesse conto, e a forma como a história termina dá a entender que ignorar as vozes locais autorizadas é uma atitude necessária para sobreviver sem ser humilhado por aqueles que se colocam em posição de superioridade.

Nnamabia se transformou durante o período em que esteve preso, não por ter sido reeducado pelo sistema prisional, mas, sim, por ter desenvolvido uma espécie de consciência sobre a corrupção generalizada que tinha tomado o país de assalto e corroído as bases das instituições que deveriam cuidar da paz e tranquilidade da população, mas pareciam agir de forma caótica e truculenta.

Conto 2: “Réplica”

Narrador

Terceira pessoa: adota o ponto de vista da protagonista Nkem.

Personagens

· Nkem: a protagonista que é informada sobre a traição do marido.

· Obiora: o marido, empresário nigeriano rico e importante, cuja família vive nos Estados Unidos enquanto ele passa a maior parte do ano em Lagos, na Nigéria.

· Adanna: a filha mais velha, nascida nos Estados Unidos.

· Okey: o filho caçula, três anos mais novo do que a primogênita, também nascido nos Estados Unidos.

· Amaechi: a empregada da casa, filha do motorista de Obiora na Nigéria, levada aos 16 anos para os Estados Unidos para trabalhar para a família.

Espaço

Bairro de subúrbio da cidade de Filadélfia, capital do estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, com referências à vida e aos costumes da cidade de Lagos, a mais populosa da Nigéria, situada no sudoeste do país.

Temas principais

Relações familiares; relações entre estadunidenses nativos e imigrantes e entre brancos e negros.

Síntese do enredo

Nkem, nigeriana que vive nos Estados Unidos, recebe, por telefone, a denúncia de Ijemamaka, uma amiga também nigeriana, a respeito de seu marido Obiora e a nova namorada que ele teria levado para a antiga casa do casal em Lagos, grande cidade do sudoeste do país. Em recente visita à Nigéria, Ijemamaka tinha visto os dois juntos e resolveu que deveria contar tudo à amiga.

“Ela é bem jovem. Deve ter uns vinte anos”, diz sua amiga Ijemamaka ao telefone. “Tem o cabelo curto e crespo; você sabe, com aqueles cachinhos bem pequenos. Não deve usar relaxante. Acho que deve ser um texturizador. Ouvi dizer que agora os jovens gostam de texturizadores.”

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Réplica. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 29.

 

O telefonema também traz notícias sobre a piora da vida em geral e o aumento surpreendente dos preços que encontrara no país depois de ter ficado sem visitá-lo por um tempo. Nkem, que ouvira toda a conversa observando os olhos da réplica de uma máscara de Benin que decorava sua casa, lembra à amiga que também estivera recentemente na Nigéria, para o Natal. Ela tem a incômoda impressão de sentir certa alegria no tom de voz da amiga que telefonou para alertá-la sobre a infidelidade do marido rico. Agradece, mesmo desejando que ela nunca tivesse ligado, e promete, ainda que saiba que não vai cumprir, levar os filhos a Nova Jersey para visitá-la em um fim de semana qualquer.

A máscara que observava sempre fora muito admirada pelos vizinhos do casal, que vivia em uma grande casa no subúrbio da Filadélfia, e até estimulou um dos casais amigos a colecionar arte africana. Nkem pensa nas máscaras verdadeiras, esculpidas 400 anos antes, e se lembra das explicações do marido sobre os terríveis rituais que expunham cabeças recém-cortadas nos enterros dos reis e davam o direito aos executores de portar aqueles objetos sagrados. Em sua imaginação, os guardiões das máscaras se sentiam orgulhosos com o direito conquistado, mesmo que isso não tivesse sido dito por seu marido.

O casal vivia nos Estados Unidos desde a primeira gravidez de Nkem, que se relacionava muito bem com a vizinhança branca e loira, de quem passou a gostar, mesmo percebendo que todos a julgavam incapaz de resolver questões básicas do cotidiano, porque era estrangeira e falava inglês com um sotaque diferente. Obiora dizia que a vida dos vizinhos era “de plástico”, mas de certa forma invejava o estilo estadunidense de ser.

Com o tempo, Obiora passou a ficar mais tempo em Lagos e menos na casa que compraram na Filadélfia, depois de viverem alguns meses de aluguel. Com sua ausência, os vizinhos passaram a perguntar sobre ele e Nkem explicou que tinham duas casas entre as quais se revezavam, uma nos Estados Unidos e outra na Nigéria. Todos a olhavam com desconfiança por isso, mas Obiora dizia que era normal que estranhassem hábitos diferentes dos praticados nos por eles. No entanto, Nkem também estranhava sua ausência prolongada. Ela não tinha participado diretamente das decisões que orientavam o destino da família. Primeira filha de uma família humilde da Nigéria, sempre soube que esperavam dela que tivesse meios para sustentar os pais na velhice, mas nunca se sentira capaz de corresponder a essa expectativa. Seu encontro com Obiora aconteceu depois de ela já ter se relacionado com outros homens ricos e casados, como era muito comum acontecer com moças solteiras de Lagos. Alguns, inclusive, a ajudaram a arcar com despesas da casa e necessidades de seus pais e irmãos, mas nenhum a assumiu como namorada e tampouco pediu sua mão em casamento.

homens que elogiavam sua pele de bebê, que lhe davam presentes baratos, que nunca a pediam em casamento porque ela fizera apenas um curso técnico em secretariado, não uma faculdade. Porque, apesar de seu rosto perfeito, ela ainda misturava os tempos verbais ao falar inglês; porque ainda era, essencialmente, uma menina da roça.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Réplica. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 39.

 

Só quem a valorizou foi Obiora, que, além de apresentá-la a seus amigos, matriculou seus irmãos na escola e a levou para viver em um apartamento com varanda em Ikeja (área do governo local e capital do Estado de Lagos). Quando foi pedida em casamento, estranhou, pois tinha achado que seria apenas comunicada da decisão de Obiora.

Nkem passou as mãos sobre o metal arredondado do nariz da máscara de Benin enquanto refletia sobre a notícia que recebera e esperava o horário de buscar os filhos na escola. Ela se lembrou da história contada por Obiora, quando trouxera a grande réplica para casa, de como as máscaras originais tinham sido roubadas da Nigéria por ingleses no fim do século XIX, durante uma “Expedição Punitiva”, espécie de pretexto de pacificação usado pelos colonizadores para matar e saquear as colônias. Nkem imaginava como seriam as originais e continuava se lembrando do fascínio do marido ao falar sobre as histórias que envolviam aqueles objetos e que os faziam parecer muito diferentes do que Nkem conseguia perceber naquele dia em sua casa. Obiora estaria de volta à Filadélfia na semana seguinte e Nkem imaginava o que ele traria dessa vez. No ano anterior, havia trazido mais uma réplica, uma escultura de terracota da civilização Nok, cujo original correspondente, normalmente utilizado pelo povo para idolatrar seus ancestrais, também havia sido saqueado pelos ingleses por ser supostamente pagão.

Ela fica imaginando o que ele vai trazer na próxima semana; veio olhar de perto os objetos de arte, tocando-os, imaginando os originais, imaginando as vidas por trás deles. Na próxima semana, seus filhos mais uma vez dirão “papai” para uma pessoa de verdade, não uma voz no telefone; ela vai acordar de noite e ouvir alguém roncando ao seu lado; vai haver outra toalha usada no banheiro.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Réplica. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 33. 

A casa em que vivem é grande e conta com a ajuda de uma empregada – Amaechi –, que era filha do motorista de Obiora em Lagos e vivia com eles desde os 16 anos, quando foi levada aos Estados Unidos para ajudar com os afazeres da casa e os cuidados com as crianças. Nkem costumava, durante um período, se sentir orgulhosa por pertencer ao grupo de mulheres nigerianas cujos maridos levavam suas esposas para ter filhos nos Estados Unidos, e depois ao grupo dos que tinham casas nos Estados Unidos. Nkem se lembra de como as decisões foram sendo tomadas e os acontecimentos simplesmente a mantinham mais e mais afastada de Obiora, até a ocasião de ficarem juntos durante o verão nos Estados Unidos e mais algumas semanas em Lagos, na época do Natal. Obiora, que estava em um período particularmente próspero, era obrigado a permanecer mais tempo na Nigéria, principalmente depois de ter conseguido uma grande conta do governo e ser incluído na lista dos Cinquenta Empresários mais Influentes da Nigéria.

Nkem se prepara para a chegada do marido, marcada para o final de semana. Sabe que ele gosta de seus pelos pubianos bem depilados, de forma a deixar apenas uma listra estreita, e de seus cabelos retocados com o relaxante para que faça um penteado que mantenha seu pescoço definido. Sempre desconfiou de traições do marido e fiscalizava seu closet detalhadamente nas semanas que passava na Nigéria. No banheiro, Nkem corta seus cabelos até que os fios tenham apenas o comprimento de uma unha e possam formar pequenos cachos com um texturizador. Lembrou-se de outra mulher nigeriana de cabelos curtos, que ficava nos Estados Unidos enquanto o marido vivia na Nigéria.

A mulher reclamara, dizendo “nossos homens” com intimidade, como se o marido dela e de Nkem tivessem algum parentesco. Nossos homens gostam de nos manter aqui, dissera ela a Nkem. [...] Mas sabe por que nunca se mudariam para cá, mesmo se os negócios fossem melhores aqui? Porque nos Estados Unidos não reconhecem os Grandes Homens. Ninguém fala “Doutor! Doutor!” para eles aqui. Ninguém corre para espanar o assento antes de eles se sentarem.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Réplica. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 36.

 

Nkem pede que Amaechi varra os cabelos no chão do banheiro e a moça pergunta por que ela tinha cortado os cabelos, mas Nkem não responde e pede que apenas limpe o chão. No quarto, ao olhar para a cama, Nkem percebe claramente a diferença entre os lados do colchão, uma vez que um deles só é usado dois meses por ano. De volta ao banheiro, arrependida de ter sido ríspida com a empregada, pensa na relação das duas, que se tornaram amigas por uma igualdade forçada, causada pelo estilo de vida estadunidense. Ela se desculpa.

Obiora telefona e lamenta por não ter conseguido ligar mais cedo. Pergunta sobre os filhos e percebe que a esposa está estranha. Ela não consegue falar muito e diz apenas que “está esquentando” quando ele pergunta sobre o tempo. Ele diz que comprou a passagem, que está louco para reencontrar a família e que precisa desligar para atender a uma ligação do assistente pessoal do ministro, telefonando às duas horas da manhã. Nkem não sabe onde o marido está e se pergunta se ele está mesmo sozinho, imaginando a relação dele com a amante na ausência dela.

Nkem desliga o telefone, vai até uma loja Walgreens para comprar uma caixa de texturizador e olha para a caixa com fotos de meninas com cachinhos bem curtos. De volta, conversa com Amaechi, lembra sua infância difícil e conta à empregada a notícia que recebera de que o marido tinha uma namorada que havia se mudado para a casa deles em Lagos. Não é comum ter aquele tipo de conversa com Amaechi, e a moça se assusta um pouco com a sinceridade, mas passa a fazer perguntas e cogita que Ijemamaka estivesse mentindo, hipótese na qual Nkem não acredita. A conversa segue, e Amaechi insinua que Nkem, no fundo, sabe das namoradas do marido.

No fim do dia, Nkem telefona para sua casa em Lagos e é atendida por um empregado que não conhece e que afirma que não há ninguém na residência além dos empregados Sylvester e Maria. Amaechi oferece uma bebida a Nkem, o que se transformara em uma tradição entre as duas desde o dia em que, anos antes, Nkem recebera seu green card.

Mesmo vivendo há anos nos Estados Unidos e reconhecendo as vantagens de se viver lá, Nkem sentia falta da Nigéria e pensava algumas vezes, mesmo que nunca de forma concreta, na possibilidade de voltar para lá. Ela pede a Amaechi que pegue a garrafa de vinho na geladeira e duas taças.

Nkem, Adanna e Okey vão ao aeroporto buscar Obiora. Embora costumasse rir com frequência nos dias de buscar o marido, naquele dia ela estava reservada e percebeu que os filhos também estavam mais quietos do que de costume. A presença do marido, normalmente, tornava a casa alegre. Ele trazia presentes para as crianças, que festejavam sua chegada. Nkem acredita que logo, quando forem maiores, farão perguntas sobre a ausência do pai, não se contentando com sua companhia apenas no verão e nas viagens de férias à Nigéria.

Obiora nota os cabelos curtos de Nkem e ela, sem dar nenhuma explicação, sugere que ele preste mais atenção às crianças. À noite, em casa, o casal observa a peça de arte que Obiora havia trazido, uma cabeça feita de latão em tamanho real, com manchas e um turbante. Oriunda da cidade de Ifé, era uma peça original do século XVIII, normalmente utilizada como decoração no palácio do Rei, com a intenção de lembrá-lo e homenageá-lo. Era a primeira peça de arte original que Obiora levava para casa.

Os dois conversam sobre o povo africano e suas tradições, e Nkem pergunta ao marido se ele achava que esse povo era feliz por ter que cumprir rituais ancestrais violentos e se talvez não tivessem desejado mudar algumas dessas tradições. Obiora responde que a definição de felicidade provavelmente era bem diferente naquela época. Ele pergunta por que a mulher cortou o cabelo e ela quer saber se ele não gosta de cabelos curtos. Ele ri perguntando se aquela é a nova moda nos Estados Unidos e diz que qualquer coisa fica bonita em seu rosto lindo, mas que ele prefere os cabelos compridos e acha que ela deveria deixá-los crescer novamente.

Nkem continua tentando conversar com o marido enquanto ele se prepara para entrar no banho. Ela observa sua barriga aumentada e o movimento que ela faz para cima e para baixo e pensa se meninas de vinte anos suportam aquele corpo de meia-idade. Obiora a convida para tomarem banho juntos, como faziam antigamente, e Nkem se pergunta se a menina de cabelos curtos também faz sexo oral com o marido no chuveiro como ela sempre fazia. Ela cede e entra no banho com o marido e, enquanto ensaboa suas costas, comunica que a família voltará a morar na Nigéria ao final do ano escolar.

“Mas... por quê?”, pergunta Obiora.

“Eu quero saber quando chega um empregado novo na minha casa”, diz ela. “E as crianças precisam de você.”

“Se é isso que você quer”, diz Obiora, após alguma hesitação.

“Nós podemos conversar.”

Ela o vira de costas gentilmente e continua a ensaboá-lo. Não é preciso conversar sobre mais nada, Nkem sabe. Está decidido.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Réplica. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 49.

 

Comentários sobre o conto

As máscaras africanas são obras de arte com as quais o casal Nkem e Obiora têm uma profunda relação. Os objetos, admirados pelos vizinhos americanos da Filadélfia, são representativos da cultura ancestral do povo africano, especificamente do Benin, país da África ocidental que faz fronteira com a Nigéria. Obiora só tinha réplicas das peças originais em casa e costumava contar à esposa sobre a utilização dos artefatos para espantar o mal em cerimônias oficiais.

Apenas pessoas especialmente escolhidas podiam ser guardiãs da máscara, as mesmas pessoas responsáveis por trazer as cabeças humanas recém-cortadas usadas nos enterros dos reis. Nkem imagina os rapazes orgulhosos, musculosos, sua pele marrom brilhando com o óleo de semente de palma, suas elegantes tangas amarradas na cintura. Ela imagina – e isso ela imagina por conta própria, pois Obiora não sugeriu que aconteceu desse jeito – os rapazes orgulhosos desejando não ter que decapitar estranhos para enterrar seu rei, desejando poder usar as máscaras para proteger a si mesmos, desejando que eles também tivessem voz.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Réplica. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 30-31.

 

A reflexão a respeito dos sentimentos dos jovens escolhidos para serem guardiões das máscaras traz à tona os sentimentos da própria Nkem sobre a tradição da qual é guardiã – a de mulher africana, filha primogênita, responsável pelo sustento dos pais, que se relacionara muitas vezes com homens casados em função do conforto que eles poderiam oferecer à sua família e que, anos depois, se vê obrigada a aceitar o papel de esposa de um marido que vive em outro país e mantém amantes.

A máscara de Benin é um símbolo central na narrativa, representando tanto a conexão de Nkem com sua cultura nigeriana quanto as complexas relações de poder e domínio, não apenas entre colonizadores e colonizados, mas também entre homens e mulheres. A arte visual nigeriana, com suas máscaras e esculturas, é evocada ao longo da narrativa como uma forma de Obiora demonstrar status e sucesso, mas também carrega um peso histórico que Nkem reconhece em suas reflexões. O fato de a máscara ser uma réplica – um objeto que, embora tenha aparência autêntica, não é original – serve como metáfora para o casamento de Nkem e Obiora: algo que, em sua superfície, parece intacto, mas que, na realidade, está corrompido pela infidelidade e pela desconexão emocional.

Quando Obiora chega aos Estados Unidos, encontra a mulher com os cabelos cortados e muito incomodada pela notícia que recebera sobre as namoradas que ele mantinha em Lagos. Sem dizer nada diretamente a ele, aceita tomar banho ao seu lado e, enquanto ensaboa suas costas, comunica a ele, com uma segurança e uma certeza que nunca demonstrara antes, que a família voltaria a viver em Lagos ao final do ano escolar e que usariam a casa da Filadélfia juntos. Pode-se inferir que, assim como uma obra de arte original tinha sido introduzida na casa pela primeira vez, aquela ocasião seria também a estreia de Nkem como esposa original, que tem voz na dinâmica familiar e não quer mais ser refém de uma tradição que não a representa.

Trata-se de uma narrativa em que é dado destaque para a transformação da mulher submetida a um casamento que não a satisfaz completamente e para as complexas dinâmicas entre a tradição e a modernidade. A narrativa, em terceira pessoa, adota o ponto de vista de Nkem, permitindo que o leitor acompanhe suas reflexões íntimas sobre a vida conjugal, a identidade cultural e as pressões sociais que enfrenta.

Nkem é uma personagem profundamente introspectiva, cuja vida parece dividida entre dois mundos: o dos Estados Unidos, onde vive com os filhos e seu marido está ausente fisicamente, mas presente em suas memórias e em sua crescente sensação de isolamento, e o da Nigéria. Nkem confronta não apenas a infidelidade do marido, mas também sua própria subordinação às expectativas culturais e de gênero. Obiora, por outro lado, é apresentado como um homem pragmático e ambicioso, cuja ausência constante no lar simboliza o distanciamento emocional que se desenvolve no casamento. A personagem de Amaechi, a empregada que vive com a família, também serve de contraponto ao isolamento de Nkem, funcionando como uma espécie de espelho para o dilema cultural e pessoal da protagonista.

O conto alterna entre a vida suburbana nos Estados Unidos e as memórias de Nkem sobre a Nigéria, criando um contraste entre o cotidiano aparentemente estável e previsível da Filadélfia e o mundo caótico, mas profundamente enraizado, de Lagos. O tempo no conto é explorado de forma sutil, por meio das memórias de Nkem e de suas reflexões sobre o passado, o presente e o futuro. Ao longo da narrativa, o tempo adquire um caráter emocional: quanto mais Nkem reflete sobre sua vida, mais ela parece presa em uma espécie de suspensão, sem controle sobre os rumos de sua própria existência.

Além disso, o conto explora com profundidade temas como identidade, pertencimento e distância entre as expectativas culturais de Nkem e a realidade de sua vida nos Estados Unidos. A decisão final de Nkem de retornar à Nigéria com os filhos não é apenas um gesto de autoafirmação, mas também um símbolo de sua tentativa de recuperar o controle sobre a vida, de reaproximar-se de sua cultura e de criar um futuro para seus filhos que esteja mais alinhado com suas raízes. Ao cortar os cabelos e adotar um estilo mais próximo da amante de Obiora, Nkem simboliza tanto a aceitação quanto a rejeição dos papéis que lhe foram impostos. Sua decisão final é carregada de ambiguidade, uma vez que parece tanto um ato de empoderamento quanto uma capitulação a um destino que ela mesma moldou.

“Réplica” é uma obra que reflete sobre o peso da história, o papel da arte como marcador de identidade e status e as tensões intrínsecas em relacionamentos interculturais e transnacionais. A linguagem rica e detalhada, combinada à habilidade de Chimamanda em construir personagens profundamente complexos, faz do conto uma meditação poderosa sobre o que significa ser mulher, imigrante e nigeriana em um mundo moldado por expectativas divergentes e exigências de adaptação.

 

Conto 3: “Uma experiência privada”

Narrador

Terceira pessoa: adota o ponto de vista da protagonista Chika.

Personagens

· Chika: estudante igbo, cristã, cursa medicina em Lagos.

· Mulher muçulmana: feirante hauçá, muçulmana, trabalhava no mercado em que o atentado ocorreu.

· Nnedi: irmã de Chika, igbo, cristã, estudante de ciências políticas na mesma universidade da irmã, onde participou da organização de manifestações pró-democracia.

Espaço

Loja abandonada na cidade de Kano, norte da Nigéria.

Temas principais

Conflitos étnico-religiosos na Nigéria; desigualdade social; alcance da violência.

Síntese do enredo

Duas mulheres, uma cristã igbo e uma muçulmana hauçá procuram um local para se esconder durante um conflito no mercado da cidade de Kano. A muçulmana, que perdeu seu colar na confusão, socorre a cristã Chika, que estava com a irmã em um passeio turístico e largou as laranjas que escolhia e a bolsa da marca Burberry, que a mãe trouxera para ela de uma viagem a Londres. Chika e Nnedi estavam em uma viagem de férias de uma semana, visitando uma tia em Kano. Na confusão, muçulmanos hauçás atacavam cristãos igbos a machadadas e apedrejamento.

Mesmo se não tivesse ouvido o forte sotaque hausa da mulher, Chika saberia que ela era do norte por causa do rosto estreito e das maçãs do rosto estranhamente altas; e saberia que é muçulmana, por causa do lenço.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Uma experiência privada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 51.

 

Chika vivia em Lagos, onde estudava medicina na universidade, e era muito diferente fisicamente, tanto na forma de se vestir como na de se expressar, da mulher que a arrastara até a loja onde se refugiaram.

O mais perto que Chika havia chegado de um ato público violento fora uma manifestação pró-democracia organizada por Nnedi, sua irmã, na universidade de Lagos, onde era estudante de ciências políticas. Chika se perdeu da irmã, que se afastara dela para comprar amendoim. Em meio aos gritos incompreensíveis em inglês, pidgin, hauçá e igbo e à correria generalizada que derrubava barracas e pisoteava os legumes, correu às cegas pelas ruas e acabou ali, ajudada pela mulher hauçá que não conhecia até aquele momento. O entorno da loja ainda estava movimentado e a janela foi fechada.

Chika saberá mais tarde que todo o acontecimento fora motivado por um incidente no estacionamento do mercado, quando um homem igbo e cristão havia passado com o carro, sem perceber, sobre um exemplar do Alcorão que estava no acostamento. Ele teve a cabeça decepada a machadinha e o corpo arrastado até o mercado por muçulmanos aparentemente pacíficos e que passavam o dia inteiro jogando damas ali perto. A intenção deles era chamar a atenção de outros defensores do livro sagrado.

Mais tarde, Chika percorrerá necrotérios, hospitais e redações de jornal com uma foto de Nnedi, em uma busca desesperada pela irmã que jamais encontrará.

A muçulmana estende sua canga puída no chão para que as duas se sentem enquanto aguardam o momento em que seja possível saírem. Ela está vestida com uma combinação preta de tecido brilhante; Chika usa uma saia jeans e uma camiseta com a Estátua da Liberdade, que comprou em uma viagem em que ela e Nnedi se hospedaram na casa de parentes em Nova York. Contar à mulher sobre as férias dela e da irmã em Kano acalma o coração de Chika e a faz acreditar que Nnedi está segura e acabará sendo encontrada.

Sentada ao lado da mulher hausa que a salvara até esse esconderijo, Chika sente o cheiro diferente de seu corpo. Ela simplesmente diz que o que estão vivendo lá “É obra do mal” (p. 55), afirmação que, certamente, seria desmentida pela consciência política de Nnedi, caso ela participasse da conversa. Chika imagina a irmã segura, rindo ou fazendo discursos políticos em algum lugar. Não entende como podem ter sido vítimas de uma violência que só tinham visto nos jornais, uma vez que estavam em Kano apenas por uma semana, como turistas, visitando a tia, que estava no trabalho, onde era diretora de uma secretaria.

A mulher hauçá conta que é feirante e pergunta a Chika sobre a faculdade de medicina. Chika a vê com algum estranhamento e certo preconceito. A mulher pede que Chika examine seus seios, que estavam ardendo, logo tirando a blusa e abrindo o sutiã.

Chika os examina com cuidado, estica a mão e os apalpa.

“Você teve neném?”, pergunta.

“Tive. Um ano.”

“Seus mamilos estão ressecados, mas não parecem infectados. Depois de amamentar o neném, tem que usar um hidratante. E quando estiver amamentando, tem que ter certeza de que o mamilo e essa parte aqui, a aréola, estão dentro da boca do neném.”

A mulher olha longamente para Chika. “Primeira vez isso. Eu ter cinco filhos.”

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Uma experiência privada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 57.

 

Chika mente que aconteceu o mesmo à sua mãe, quando, na verdade, ela tinha apenas duas filhas e sempre pôde usufruir de um tratamento de alto padrão. Diz à mulher que manteiga de cacau tinha sido usada por sua mãe com ótimos efeitos. A mulher conta que perdeu sua filha mais velha – Halima – na confusão do mercado e começa a chorar baixinho. Chika lamentará mais tarde a ideia de ter ido ao mercado e de Halima não ter ficado em casa naquele dia.

A mulher descobre uma torneira enferrujada na loja, que havia sido abandonada por ser uma construção ilegal. Lava-se com um filete de água marrom e metálica e se ajoelha para fazer orações. Chika questiona sua própria relação com a religiosidade e sente o rosário de dedo, que a irmã também tinha, embora tivesse decidido não usar mais por achar que não precisava daquele tipo de proteção. Mais tarde, quando a família estiver mandando rezar várias missas pela segurança de Nnedi, Chika desistirá de dizer à mãe que mandar rezar missas era desperdício de dinheiro. É como se aquela mulher rezando ajoelhada estivesse ensinando algo a ela sobre espiritualidade. Sem dar ouvidos à mulher, que anunciava o perigo constante, Chika decidiu deixar a loja, prometendo voltar com o motorista de sua tia para resgatar a mulher e levá-la para casa em segurança.

Andando pela rua sem saber exatamente para onde ir, Chika sente o cheiro repugnante de um cadáver incendiado há pouco tempo. Quando estiver ao lado da tia, em um carro com ar-condicionado e com um policial no banco da frente,

ela verá outros corpos, muito queimados, deitados no acostamento, ao longo da rua, como se alguém os tivesse disposto com cuidado, colocando-os em linha reta. [...] Ela escutará a rádio BBC e ouvirá os relatos das mortes e da onda de violência – “um conflito étnico com matizes religiosos”, dirá a voz. E jogará o rádio na parede, e uma fúria rubra irá percorrer seu corpo, pois tudo foi embrulhado, desinfetado e diminuído para caber em tão poucas palavras, todos aqueles corpos.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Uma experiência privada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 61.

 

Assustada com a proximidade dos cadáveres queimados, Chika volta à loja e a mulher hauçá a ajuda, limpando um filete de sangue que escorre de sua perna e amarrando seu lenço na panturrilha machucada. Oferece a Chika algumas caixas de papelão como banheiro, como ela mesma fizera. Pede desculpas pelo cheiro forte e diz que está mal da barriga. As duas ficam sentadas lado a lado em silêncio, enquanto a escuridão domina o ambiente e ouvem-se gritos estridentes na rua.

Mais tarde, Chika lerá no The Guardian que “os muçulmanos reacionários do norte, falantes da língua hausa, têm um histórico de violência contra os não muçulmanos” e, em meio à sua dor, irá parar para lembrar que examinou os mamilos e viveu a experiência de conhecer a gentileza de uma mulher que é hausa e muçulmana.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Uma experiência privada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 62.

 

Ao amanhecer, a mulher avisa a Chika que o perigo acabou e que ela precisa ir embora, antes que apareçam soldados para bater no povo. Chika desamarra o lenço da perna e o devolve à sua companheira, mas depois pede para ficar com ele, pedido esse que ela concede, com um leve sorriso, antes de se virar para sair.

Chika caminhará para casa, com uma pedra manchada de sangue apertada contra o peito, como se fosse uma espécie de suvenir macabro da experiência que tivera. Ela terá a certeza de que nunca mais encontrará Nnedi e saberá que sua irmã se foi para sempre.

Comentários sobre o conto

Um episódio de conflito entre igbos cristãos e muçulmanos hauçás na cidade de Kano, situada ao norte da Nigéria, é o elemento desencadeador da trama do conto. No texto, duas mulheres de etnias diferentes e com trajetórias completamente diversas vivem “uma experiência privada” em um estabelecimento comercial destruído no qual se abrigam para não serem atingidas pelas machadadas e pedradas que dominam o mercado de Kano.

Ainda que a ação da trama se desenvolva completamente nesse local, há menções recorrentes às consequências do acontecimento, desenvolvendo uma relação muito peculiar com o tempo da narrativa. O narrador informa ao leitor, sem que a protagonista tenha ciência, sobre acontecimentos futuros, fazendo com que a história desenvolva uma progressão sem que os personagens se desloquem no espaço e no tempo.

Ainda que a organização dos eventos seja linear, o uso de flashbacks e de reflexões interiores da protagonista confere uma dimensão psicológica que enriquece ainda mais a construção do tempo. A narrativa alterna entre o presente, onde Chika e a mulher hauçá estão escondidas na loja abandonada, e as lembranças de Chika sobre sua vida anterior ao conflito, que ajudam a delinear seu estado emocional. Essa estrutura narrativa contribui para o contraste entre a vida privilegiada de Chika e a realidade devastadora que ela enfrenta durante os conflitos. Além disso, a autora usa o espaço físico – a loja – como microcosmo da divisão social e cultural que permeia o país, enquanto a proximidade física das duas mulheres revela sua humanidade compartilhada.

O conto explora com profundidade temas recorrentes na obra de Chimamanda Ngozi, como conflitos étnico-religiosos, desigualdade social e a violência que permeia a vida cotidiana na Nigéria. A narrativa é conduzida em terceira pessoa, mas adota o ponto de vista de Chika, criando uma proximidade emocional com o leitor.

Chimamanda faz uso expressivo de detalhes sensoriais e descritivos, como o cheiro da fumaça ou da água enferrujada, que reforçam o clima de tensão e incerteza. As descrições da poeira, dos cadáveres queimados e da violência iminente criam um cenário opressor que serve de pano de fundo para a relação entre as duas personagens, uma cristã e uma muçulmana. O diálogo entre Chika e a mulher hauçá, por sua vez, é simples, mas carrega um profundo significado, destacando o contraste entre suas realidades, mas também os pontos em comum, como a maternidade e a perda.

O alcance e as consequências da violência étnica e religiosa são explorados por meio da relação entre Chika e a mulher hauçá, que inicialmente se baseia em desconfiança e preconceito, mas evolui para uma conexão empática. Ao cuidar dos seios doloridos da mulher, Chika atravessa as barreiras que inicialmente a separam da muçulmana. Essa interação traz à tona uma das mensagens principais do conto: a capacidade de encontrar humanidade no outro, mesmo em situações de extremo conflito.

A obra dialoga com outros contos de No seu pescoço ao abordar a alienação e o choque de realidades. Enquanto personagens de outros contos lidam com tensões culturais e identitárias, Chika é forçada a confrontar, de maneira visceral, a violência e a complexidade de seu país.

 

Conto 4: “Fantasmas”

Narrador

Primeira pessoa: James Nwoye, professor universitário aposentado de 71 anos.

Personagens

· James Nwoye: protagonista e narrador, professor universitário de matemática aposentado.

· Ikenna Okoro: professor de sociologia muito polêmico na universidade, descrito como um homem pequeno de pele clara e olhos de sapo, supostamente morto 37 anos antes do tempo em que o conto é narrado.

· Zik: filha mais velha do professor, morta durante a guerra.

· Nkiru: filha do professor, vive nos Estados Unidos.

· Ebere: esposa falecida do professor James.

· Chris Okigbo: colega da universidade muito admirado por todos, morto durante a guerra civil.

· Vincent: antigo motorista do professor James. Embora mais novo, parecia mais velho do que o narrador. James calcula que ele tivesse sessenta e tantos anos.

· Ugwuoke: funcionário da universidade.

Espaço

Campus da universidade de Nsukka, depois da Guerra de Biafra, ocorrida entre 30 de maio de 1967 e 15 de janeiro de 1970.

Temas principais

Luto e perda; memória e nostalgia; contexto da guerra civil nigeriana (1967-1970); identidade e mudança; relações familiares e comunitárias.

Síntese do enredo

James Nwoye, professor universitário de matemática aposenta do de 71 anos de idade, vai buscar o pagamento de sua aposentadoria na tesouraria da universidade de Nsukka.

Ele é informado pelo funcionário Ugwuoke de que seu dinheiro ainda não está disponível, situação comum a todos os que trabalhavam no lugar. Na saída, ao caminhar pelo campus onde lecionara por tantos anos, depara-se com um grupo que discute acaloradamente a falta de pagamento e, entre eles, reconhece Vincent, um antigo colega que trabalhou como motorista para ele nos anos 1980. Ele conta que já está sem aposentadoria há três anos e pergunta da filha de James, que se lembra de que Vincent compareceu ao mgbalu de sua esposa. James ouve Vincent reclamar de como a Nigéria é um país que não aprendeu a dizer “obrigado”, mas só consegue reparar no movimento de seu pomo de adão, para cima e para baixo, enquanto fala. Depois, acaba cedendo aos apelos dos outros do grupo e compra deles amendoim e um cacho de bananas.

Muitas vezes eu me pergunto se seria como aqueles homens se não tivesse dinheiro guardado dos meus cargos no Ministério Federal de Estatísticas e se Nkiru não insistisse em me mandar dólares dos quais não preciso. Duvido; provavelmente teria me encolhido como uma tartaruga no casco e deixado minha dignidade se reduzir a cacos.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Fantasmas. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 67.

 

Ao se despedir do grupo e se dirigir a seu carro, James vê Ikenna Okoro, um homem que ele acreditava estar morto desde a Guerra de Biafra, entre 1967 e 1970. Ele pensa em agir conforme os costumes de seu povo, jogando areia nele para ter certeza de que não era um fantasma, mas não podia fazê-lo ali, dentro da universidade.

Esse reencontro o surpreende e, ao mesmo tempo, o perturba, já que ele estava convencido de que Ikenna tinha morrido durante o conflito. Além disso, James percebeu que Ikenna conservava seu sorriso completo, com todos os dentes, enquanto James já tinha perdido um no ano anterior, recusando-se a realizar qualquer procedimento estético para disfarçar a situação.

James tinha visto o colega professor no dia de sua suposta morte, em que a universidade de Nsukka foi evacuada, com a gradual aproximação dos soldados federais com seus canhões.

Lembro que Ebere estava consolando nossa filha Zik por causa de uma boneca deixada para trás quando vimos o Kadett verde de Ikenna. Ele estava dirigindo na direção oposta, de volta para o campus. Eu buzinei e parei. “Você não pode voltar!”, gritei. Mas Ikenna acenou e disse “Tenho que pegar uns manuscritos”. Ou talvez tenha dito “tenho que pegar uns materiais”.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Fantasmas. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 69.

 

Ikenna ri diante da pergunta de James se ainda estava vivo e explica que havia sobrevivido à guerra indo para a Suécia em um avião da Cruz Vermelha. Ele fala pouco sobre os detalhes do que viveu, e o clima entre os dois fica tenso. Explica ter ficado na Suécia depois de ter perdido a família toda em um bombardeio em Orlu e que não tinha motivos para voltar até que o campus fosse reconstruído. James conta que também não suportou permanecer em Nsukka, mesmo depois da guerra terminada em 1970, e, por isso, foi para os Estados Unidos, onde ficou até 1976.

Ikenna pergunta sobre Zik e James responde, em igbo, que eles a tinham perdido para a guerra. Falam da morte de Chris Okigbo, figura admirada por ambos, e James diz que, ainda que lamente o ocorrido, ao menos ele teve coragem de lutar. Depois de dizer isso, fica constrangido, pois não queria que sua afirmação soasse como um ataque pessoal a Ikenna.

Talvez por causa do meu constrangimento, comecei a contar a Ikenna sobre o dia em que eu e Ebere fomos de carro até Nsukka depois do fim da guerra, sobre a paisagem de ruínas, os telhados arrancados, as casas repletas de buracos que Ebere disse parecerem os de um queijo suíço. Quando chegamos à estrada que passa por Aguleri, soldados do Biafra nos pararam e enfiaram um soldado ferido no carro; o sangue dele pingou no banco de trás e, como havia um rasgo no tecido, encharcou até o fundo do forro, se misturou com as entranhas do carro. O sangue de um estranho.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Fantasmas. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 73.

 

Durante a conversa com Ikenna, surgem lembranças vívidas da Guerra de Biafra, um conflito que deixou cicatrizes profundas em James e em sua comunidade. Ele se recorda das perdas, da fome e da destruição que presenciou durante os anos do conflito. Ikenna menciona as dificuldades e os desafios que os sobreviventes enfrentaram após o fim da guerra. A figura de Ikenna, que reaparece após tantos anos, traz à tona a complexidade das memórias da guerra, um evento que marcou uma geração inteira de nigerianos.

Ikenna pergunta sobre Ebere, e James responde, em igbo, que ela tinha morrido há três anos. A conversa toda faz com que James se lembre mais da esposa. Ele reflete sobre a profunda conexão que ambos tinham e a saudade que sente desde a morte dela. Ebere foi uma mulher forte e de pensamento crítico, com quem James compartilhava tanto sua vida quanto suas reflexões intelectuais. A ausência dela deixa um vazio imenso na vida do professor, mas ele conta a Ikenna que, algumas vezes, recebe sua visita. Frente ao estranhamento do colega, James diz que se referia ao passado, quando Ebere visitava frequentemente os Estados Unidos, por terem uma filha médica vivendo lá. Ele pensa em sua filha, Nkiru, com quem agora ele mantém contato apenas ocasionalmente. Nkiru é uma presença distante, e James sente que ela está completamente imersa em uma vida estrangeira, afastada das realidades da Nigéria.

James se lembra da primeira vez em que recebeu a visita de Ebere, depois de sua morte. Estava sozinho em casa e teve a cama descoberta por ela, que também massageou seus braços, pernas e peito com hidratante. Ele sempre acordava com a pele macia e exalando o cheiro do creme depois de cada visita da esposa.

Muitas vezes, sinto vontade de contar a Nkiru que sua mãe me visita toda semana durante o harmatã e, com menos frequência, durante a temporada de chuvas; mas, se fizer isso, minha filha finalmente vai ter um motivo para vir para cá e me carregar com ela para os Estados Unidos, e eu serei forçado a levar uma vida tão protegida por conveniências que se tornaria estéril. Uma vida repleta disso que chamamos de “oportunidades”. Uma vida que não é para mim.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Fantasmas. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 75.

 

James fala mais sobre a vida da filha em Connecticut. Embora tivesse sido recusada pela direção do hospital na primeira entrevista quando viram que era nigeriana, Nkiru conseguiu permissão para ficar porque havia nascido nos Estados Unidos, quando James estudava em Berkeley. Ele imagina como a vida poderia ter sido diferente se os nigerianos tivessem ganhado a guerra. Outras pessoas surgem na conversa dos velhos conhecidos, como Josephat Udeana, considerado à época o melhor dançarino de salão do campus, que se tornou reitor daquela universidade por seis anos e promoveu repetidos desfalques à instituição. Mesmo tendo sido investigado, não foi punido, e a administração da faculdade só piorou desde então; prova disso era o fato de que James, por exemplo, nunca havia recebido nada desde que se aposentara. Para que o mesmo não acontecesse com todos, os professores alteravam suas datas de nascimento nos prontuários para que não fossem obrigados a se aposentarem e pudessem continuar recebendo seus vencimentos.

Ikenna menciona como a falsificação de remédios se transformou em um dos maiores problemas da Nigéria, e James desconfia que talvez ele soubesse algo sobre a forma como Ebere morreu, vítima desse problema. Mas não quis aprofundar-se na discussão, afirmando apenas que “Remédios falsificados são horríveis” (p. 78), procurando encerrar o assunto. Ikenna não insiste e pergunta como é o cotidiano de James após a aposentadoria.

Começa uma ventania de poeira, e os dois antigos amigos se despedem. Enquanto dirige de volta para casa, James se sente tocado pela fragilidade da vida e pelo peso da história que continua a assombrá-lo. Lembra-se que dirige uma Mercedes importada da Alemanha que, embora já tenha mais de 20 anos, continua funcionando bem. Lembra-se do prazer e da alegria da família e dos adolescentes amigos de Nkiru quando o carro chegou.

James carrega consigo tanto as lembranças da guerra quanto a dor pela perda de sua esposa, mas não sofre o tempo todo com a morte dela, justamente por receber suas visitas com frequência. Ele se pergunta como ninguém nunca havia mencionado que Ikenna Okoro estava vivo.

É verdade, nós às vezes ouvíamos histórias de homens que tinham sido considerados mortos e que reaparecem meses, ou até anos, após janeiro de 1970; só posso imaginar a quantidade de areia atirada sobre homens devastados, por familiares suspensos entre a descrença e a esperança.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Fantasmas. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 81.

 

O conto se encerra com uma reflexão implícita sobre a permanência do passado, com seus traumas e fantasmas, na vida daqueles que sobreviveram, moldando suas existências e suas relações com o presente. James aguarda que sua filha ligue dos Estados Unidos com novidades sobre seu neto. Enquanto isso, planeja o banho e sua ida para o quarto, sabendo que, em sua escuridão silenciosa, pode receber mais uma vez a visita de Ebere.

Comentários sobre o conto

O conto explora temas como luto, perda, memória e toda a devastação causada pela Guerra de Biafra na Nigéria. A história é narrada pelo professor aposentado James Nwoye, um homem marcado por feridas emocionais e físicas do conflito, o qual, embora terminado há décadas, continua a assombrar sua vida e a dos que o rodeiam. Em visita ao campus para tratar de questões relativas à sua aposentadoria, encontra Vincent, seu antigo motorista, que agora aparenta estar envelhecido e abatido, representando o peso do tempo e da guerra sobre os sobreviventes. Nesse reencontro, o passado retorna em camadas de lembranças e dores. A universidade, um espaço de conhecimento e vida acadêmica, foi profundamente afetada pela Guerra de Biafra, e a devastação é visível em cada canto, tanto no cenário físico quanto nas pessoas que restaram.

Ikenna Okoro, um antigo professor de sociologia, aparece misteriosamente no campus após ter sido dado como morto há 37 anos. Sua presença surpreende James e carrega um tom quase sobrenatural. O título “Fantasmas” se torna especialmente significativo nesse contexto, pois, além da aparição inesperada de Okoro, o conto é po- voado por fantasmas do passado que continuam a assombrar James, seja na figura de colegas mortos, como Chris Okigbo – descrito como “nosso gênio, nossa estrela” –, seja nas memórias de sua filha Zik, que morreu durante a guerra, e de sua esposa Ebere, também falecida.

O luto e a perda são temas cruciais na vida de James. Ele carrega a dor pela morte de Zik, sua filha mais velha, e a saudade de sua esposa, Ebere, que faleceu tempos depois. A figura de Nkiru, sua filha que vive nos Estados Unidos, ressalta o distanciamento emocional e físico que também define sua vida presente. James é, portanto, um homem deslocado entre duas realidades: o passado devastador da guerra e um presente em que ele se sente um estranho em sua própria terra.

A narrativa traz à tona o impacto da Guerra de Biafra não apenas sobre o corpo físico da Nigéria, mas também sobre a psique de seus personagens. James reflete sobre como o conflito destruiu a comunidade da universidade de Nsukka e deixou cicatrizes profundas em todos os que sobreviveram. A guerra civil, que buscava a secessão da região sudeste da Nigéria, transformou completamente as vidas dos personagens.

Além de abordar o luto pessoal e coletivo, o conto também explora a identidade e a mudança. James vive em um país que ele não reconhece completamente, onde as tradições e a memória são distorcidas pelo tempo e pela guerra. O reencontro com Vincent e o aparecimento de Okoro – ambos personagens de seu passado – reforçam essa sensação de deslocamento. O campus universitário, que deveria ser um lugar de erudição e progresso, tornou-se uma sombra de sua antiga glória, refletindo a decadência do próprio país.

“Fantasmas” dialoga diretamente com outros contos da coletânea, especialmente no que diz respeito à reflexão sobre as consequências dos conflitos sociopolíticos e a fragilidade das relações humanas em tempos de crise. Embora o conto seja narrado do ponto de vista de um homem mais velho, a voz de James se alinha ao interesse de Chimamanda em explorar a memória e o trauma coletivo e individual, além de examinar as complexidades da Nigéria pós-colonial. A perspectiva masculina oferecida pelo narrador também destaca uma dimensão menos usual na obra de Chimamanda, que geralmente usa vozes femininas. No entanto, nesse conto, ela habilmente tece uma narrativa sensível sobre um homem confrontado por suas perdas e por um passado que continua a invadir o presente.

 

Conto 5: “Na segunda-feira da semana passada”

Narrador

Terceira pessoa: onisciência seletiva; o narrador assume o ponto de vista da protagonista Kamara.

Personagens

· Kamara: abreviação de “Kamarachizuoroanyi”, que significa “Que a graça de Deus seja suficiente para nós”.

· Tobechi: marido de Kamara.

· Josh: filho de Neil e Tracy, fica aos cuidados de Kamara enquanto os pais trabalham.

· Neil: pai de Josh, judeu e branco. Muito preocupado em organizar e cumprir os compromissos alimentares, educacionais e sociais que desenvolveu para o filho.

· Tracy: mãe de Josh, afrodescendente, artista visual, permanece ausente da rotina da casa porque trabalha em um grande projeto artístico.

· Chinwe: amiga nigeriana de Kamara.

· Maren: professora de francês de Josh.

Espaço

Filadélfia, Estados Unidos.

Temas principais

Identidade e autoexpressão; imigração e choque cultural; dinâmica de poder nas relações; busca por pertencimento; desejo e sexualidade; isolamento e solidão.

Síntese do enredo

Kamara tinha chegado à casa branca e ensolarada no bairro de Mount Airy, na Filadélfia, uma semana antes da segunda-feira da semana passada, cheia de promessas e dúvidas, sentindo a pontada de ser estrangeira naquele novo país.

Seu marido, que já vivia naquela cidade há seis anos, tinha conseguido um green card, e ela deixou a Nigéria para que se casassem novamente nos Estados Unidos. Tanto tempo depois, o relacionamento não era o mesmo que tiveram quando eram apenas estudantes universitários em Nsukka. Ela já não reconhecia o homem com que se casara e tinha a impressão de que ele também não sabia mais quem ela era. Ao menos por um momento, parara de se importar se ele olhava para ela com os mesmos olhos de quando se conheceram. Eles não tinham tido filhos, e ela não tinha certeza se ainda se importava com isso. As promessas que fizeram um ao outro antes de ele partir e as juras de amor e lealdade não pareciam mais fazer sentido.

Mesmo assim, Kamara mostrava-se animada para a mãe quando, ao telefone, ela desejava que logo tivesse um neto correndo pela casa. Embora Tobechi tivesse comprado pílulas anti-concepcionais para um ano, Kamara jogava os comprimidos na privada todos os dias e pedia um filho ao marido. Ela achava que poderia amenizar o cinza que nublava os dias dos dois se tivesse alguém para cuidar.

Ela foi contratada para cuidar de Josh, um menino de sete anos, enquanto sua mãe, Tracy, uma mulher afrodescendente de pele clara e longos dreadlocks, trabalhava em um projeto artístico no porão, de onde quase nunca saía. Josh era uma criança atenta e tagarela, com olhos curiosos que seguiam Kamara pela casa, tentando entender quem era aquela mulher que agora o levava para a escola e o alimentava no lugar da mãe.

O pai de Josh, Neil, era um homem meticuloso, quase obsessivo, que se certificava de que tudo estivesse em ordem: o horário dos lanches, o tipo de comida que o filho devia comer, os deveres escolares, as brincadeiras educativas. Judeu e branco, ele tratava Kamara com uma formalidade educada, mas havia algo nele que a fazia sentir-se como uma peça mal encaixada no ambiente asséptico da casa.

Ela abriu a geladeira. A prateleira de cima estava repleta de garrafas de plástico com suco de espinafre orgânico. Duas semanas antes, o espaço era ocupado por latas de chá de ervas, quando Neil estava lendo Bebidas à base de ervas para crianças, e, antes delas, tinham sido sucos à base de soja e, antes deles, shakes proteicos para fortalecer os ossos. O espinafre batido ia sumir em breve, Kamara sabia, pois, quando chegou naquela tarde, a primeira coisa que notou era que o Guia completo dos sucos de vegetais não estava mais em cima do balcão; Neil devia ter colocado dentro da gaveta durante o fim de semana.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Na segunda-feira da semana passada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 84.

 

No início, Kamara tentou não pensar muito em Tracy trabalhando naquele porão. Ela mal a via e, quando isso acontecia, Tracy estava sempre distante, falando rápido sobre o projeto ou sobre algo que Josh havia feito, sem realmente olhar nos olhos de Kamara. Até que, na segunda-feira da semana passada, tudo mudou. Kamara sentiu uma espécie de vibração no ar. Tracy saiu do porão naquela manhã e olhou para ela com uma intensidade que Kamara não esperava. Tracy perguntou a Kamara se ela já tinha posado para um pintor, e a babá negou.

Elas conversaram sobre arte, sobre a Nigéria, sobre a faculdade e o mestrado de Kamara e sobre como Tracy havia detestado a faculdade. Ela não a tratava como uma babá, mas como uma igual, uma mulher com histórias e experiências. Kamara, pela primeira vez, se viu envolvida pela presença de Tracy, pela maneira como ela falava, como seus lábios se moviam, como ela parecia uma musa saída de um quadro impressionista. Kamara ficou inquieta com aquilo, com a força daquela mulher.

Chinwe, a amiga nigeriana de Kamara, sempre dizia que as americanas eram esquisitas, “elas se comportam de um jeito estranho com as negras africanas, como se fôssemos artefatos exóticos”. Kamara nunca acreditara totalmente nisso, até aquela segunda-feira, quando Tracy a fitou de uma forma que parecia mais do que mera curiosidade, como se estivesse estudando Kamara, como se ela fosse parte de uma obra inacabada.

Quando Tracy se preparava para voltar ao porão e retomar o trabalho, Kamara, quase sem pensar ou programar o que iria dizer, sugeriu que ela mostrasse a obra que estava produzindo para Josh, ideia que foi aceita. No porão, Kamara ficou ainda mais interessada naquele espaço e na mulher que o ocupava.

Algumas vezes, ela começava a se perder em pensamentos sobre Tracy. Naquele momento no porão, quando Tracy falou seu nome repetidas vezes dizendo a ela que parecia música, Kamara a imaginou dizendo aquilo aos sussurros em seu ouvido, enquanto as duas moviam o corpo tentando seguir a melodia do nome. Embora Kamara não entendesse exatamente o que estava sentindo, estava claro que havia uma forte conexão entre ela e Tracy. A artista, repentinamente, faz a ela um convite.

“Você ficaria nua para mim?”, perguntou, num tom suave como um sussurro, tão suave que Kamara não teve certeza se havia ouvido direito. “Eu pintaria você. Mas não ia se parecer muito com você.”

Kamara sabia que não estava mais respirando direito. “Ah. Não sei”, respondeu.

“Pense no assunto”, disse Tracy, antes de se voltar para Josh e dizer a ele que tinha que voltar ao trabalho.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Na segunda-feira da semana passada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 99.

 

Neil chegou do trabalho e, depois de cumprimentar o filho e Kamara, perguntou se Josh estava ansioso com a competição de leitura da escola no dia seguinte. O menino retirou da mochila um dos cartões especiais de Shabat feitos para a família pretendendo entregá-lo a Kamara, com os dizeres: “Kamara, que bom que você é da minha família. Shabat Shalom” (p. 100). Neil disse a ele, delicadamente, que Kamara era babá e amiga dele, e os cartões eram para a família. Neil e Josh saíram e Kamara desejou boa sorte na competição de leitura da escola no dia seguinte.

Kamara bateu na porta do porão e Tracy afirmou com veemência que ela iria posar nua. Kamara concordou, mas Tracy explicou que seria em outro dia.

No dia seguinte, Kamara soube que Josh, embora tivesse se saído muito bem, não tinha sido o vencedor na competição de leitura. Maren, a professora de francês de Josh, também estava na cozinha, momento em que Neil a apresentou a Kamara, dizendo que Josh estava atrasado nas aulas e que estudaria em casa para se atualizar. Neil confidenciou a ela que estava preocupado por tentar consolar Josh com açúcar depois da competição. Havia harmonia e companheirismo entre Neil e Kamara, e ela passou a imaginar que teria mais tempo para ficar nua para Tracy quando Josh começasse a estudar.

Kamara fazia suposições na expectativa de ser chamada por Tracy para ser sua modelo. Imaginava que teria de passar a noite no porão e que telefonaria a Tobechi. Em meio a seus pensamentos, a porta que levava ao porão se abriu e Tracy apareceu com a mesma legging que usava sempre e uma camiseta suja de tinta. Ela beijou Josh e o chamou de “meu campeão especial”, cumprimentando Neil sem tocá-lo. Kamara gostou de perceber a distância que havia entre o casal, que mais pareciam dois irmãos.

Tracy disse “oi” para Kamara de forma natural, o que a fez imaginar que estava agindo assim porque não queria que Neil soubesse de nada. Kamara se ressentiu ao perceber que Tracy não estava “absolutamente deliciada, em vê-la” (p. 104). Neil então apresentou Maren para Tracy.

“Você está usando lente de contato?”, perguntou Tracy.

“Lente de contato? Não.”

“Você tem olhos muito incomuns. Violeta.”

Tracy ainda estava segurando a mão de Maren.

“Ah. Obrigada!” Maren deu uma risadinha nervosa.

“Eles são violeta mesmo”

“Ah… é, acho que são.”

“Você já posou para um pintor?”

“Ah… não.” Mais risadinhas.

“Devia pensar em posar.”

Ela levou a maçã aos lábios e deu uma mordida lenta, sem nunca tirar os olhos do rosto de Maren. Neil as observava com um sorriso indulgente e Kamara desviou o olhar. Ela se sentou ao lado de Josh e pegou um biscoito do prato dele.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Na segunda-feira da semana passada. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 104.

 

Comentários sobre o conto

A expressão do título “Segunda-feira da semana passada” é usada várias vezes no texto, criando uma expectativa sobre o acontecimento específico a que se refere. É a partir dessa expressão reiterada que o tempo da narrativa e a ordem dos acontecimentos vão, aos poucos, se revelando.

O conto é uma narrativa marcada pela sutileza e pela profundidade psicológica. A opção pelo foco narrativo em terceira pessoa com onisciência seletiva, centrado na perspectiva de Kamara, oferece ao leitor uma visão íntima dos conflitos internos da protagonista, ao mesmo tempo que mantém uma distância crítica em relação aos demais personagens. Essa escolha permite uma exploração profunda do universo emocional de Kamara, uma imigrante que tenta se adaptar à nova realidade nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que enfrenta frustrações pessoais e conjugais.

Kamara é uma mulher complexa, cheia de inseguranças, desejos e contradições. Sua relação com Tobechi é marcada por distanciamento e desencanto, revelando uma dinâmica de desconexão emocional, mesmo dentro do casamento. Já a relação com Tracy, mãe de Josh, se desenvolve em um misto de fascínio, desejo e ambiguidade. Tracy, uma artista excêntrica, utiliza estratégias de sedução e manipulação que cativam Kamara, atiçando seu desejo por algo novo e diferente, ao mesmo tempo que a mantém em uma posição de poder subjugado. Essa dinâmica ilustra a vulnerabilidade emocional de Kamara e como Tracy explora essa fragilidade de maneira sutil e controlada.

A linguagem do conto é carregada de subtexto, com diálogos e descrições que revelam mais do que é dito diretamente. O tempo e o espaço, embora circunscritos ao ambiente doméstico e a uma rotina aparentemente banal, funcionam como metáforas para o aprisionamento emocional e psicológico de Kamara. A ação se desenrola de forma contida, em um tempo presente que carrega as marcas do passado e das expectativas não realizadas. O estilo praticado no conto é econômico e preciso e conduz o leitor por esse universo emocional denso, no qual as maiores tensões são internas.

 

Conto 6: “Jumping Monkey Hill”

Narrador

Terceira pessoa: onisciência seletiva; o narrador assume o ponto de vista da protagonista Ujunwa.

Personagens

· Ujunwa Ogundu: protagonista do conto, escritora nigeriana, de Lagos, participante do encontro. Trabalhava em um banco e perdeu o emprego antes de ir para o encontro.

· O escritor ugandês: de Entebbe, ganhador da última edição do prêmio literário Lipton para escritores africanos. Descrito como homem de trinta e poucos anos, de rosto quadrado e pele escura.

· A escritora sul-africana branca: mulher branca, de Durban, que tinha “um rosto ansioso demais, sem humor e sem maquiagem” (p. 108).

· O escritor sul-africano negro: de Johanesburgo.

· A escritora zimbabuense: de Bulawayo, “tinha dreadlocks mais longos e finos, cujos búzios faziam clique-clique quando ela movia a cabeça” (p. 108).

· O escritor queniano: de Nairóbi, parecia um homem normal, parecido com o tanzaniano.

· O escritor tanzaniano: de Arusha, homem comum, muito semelhante ao queniano.

· A escritora senegalesa: a mais jovem entre os participantes, fazia faculdade em Paris.

· Edward Campbell: organizador do encontro de escritores africanos, parecia ter dois dentes mofados ao sorrir.

· Isabel: esposa de Edward, também trabalha na organização do evento e é ativista dos direitos dos animais.

· Simon e Hermione: amigos de Edward que viviam em Londres e foram ajudar com o evento, organizando um almoço de boas-vindas.

· Chioma: personagem criada por Ujunwa no conto que escreve no encontro. Formada em economia pela universidade de Nsukka, em Lagos.

· Yinka: personagem do conto de Ujunwa, trabalha no banco Merchant Trust, procurando conseguir novos investimentos de clientes importantes.

· Outros escritores africanos: personagens que representam diversas vozes do continente, com suas próprias histórias, muitas vezes silenciadas ou ignoradas por Edward.

· Autores citados nas discussões entre os participantes do workshop:

· Dambudzo Marechera (1952-1987): escritor e poeta zimbabuano.

· Alan Paton (1903-1988): escritor e ativista sul-africano.

· Isak Dinesen (1885-1962): pseudônimo da escritora dinamarquesa Karen Blixen.

· Chinua Achebe (1930-2013): autor nigeriano, figura central na literatura pós-colonial.

· Joseph Conrad (1857-1924): escritor britânico de origem polonesa, amplamente considerado um dos maiores romancistas em língua inglesa.

Espaço

Jumping Monkey Hill, resort nos arredores da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Temas principais

Colonialismo e racismo; sexismo; autenticidade das narrativas africanas; identidade e resistência.

Síntese do enredo

Ujunwa Ogundu é recebida por Edward Campbell no aeroporto da Cidade do Cabo e, juntamente com o escritor ugandês, que chega logo depois, é levada a Jumping Monkey Hill, resort nos arredores da cidade, em que acontece um workshop para escritores africanos organizado por Edward e sua esposa Isabel. Lá já estavam os outros convidados, de diferentes países da África: o sul-africano negro, de Johanesburgo; a sul-africana branca, de Durban; o tanzaniano; a zimbabuense; o queniano e a senegalesa, que era a mais jovem, viera de Paris e tinha dreadlocks mais grossos do que os longos e finos usados pela participante do Zimbábue. Foi com ela que Ujunwa achou que se daria melhor.

Parecia elétrica, hiperativa, e Ujunwa achou que talvez gostasse dela como gostava de álcool – em pequenas doses. O queniano e o tanzaniano pareciam normais, quase indistinguíveis – homens altos de testas largas com barbas desgrenhadas e camisas estampadas de manga curta. Ujunwa imaginou que fosse gostar deles daquela maneira indiferente com que se gosta de pessoas que não nos causam nenhum desconforto. Mas não estava certa sobre os sul-africanos: a mulher branca possuía um rosto ansioso demais, sem humor e sem maquiagem, e o homem negro parecia paciente e piedoso, como uma testemunha de Jeová que ia de casa em casa e sorria cada vez que lhe batiam a porta na cara. Quanto ao ugandês, Ujunwa sentira antipatia por ele desde o aeroporto [...].

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Jumping Monkey Hill. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 108.

 

Após o almoço, Edward apresenta o evento, que duraria duas semanas. Assim como o workshop, o prêmio Lipton para Escritores Africanos também fora uma ideia de Edward, patrocinada pela Fundação de Artes Chamberlain. A proposta principal do encontro consistia em que cada um escrevesse um conto para ser publicado na revista Oratory. A primeira semana seria dedicada à criação e a segunda, à revisão. O ugandês seria o líder do workshop, pois fora o ganhador do último prêmio Lipton. Edward falou sobre sua paixão pela literatura africana e apresentou formalmente sua esposa Isabel como uma ativista dos direitos dos animais.

Na manhã seguinte, Isabel comenta a estrutura óssea elegante de Ujunwa, que sugeria, em sua opinião, que ela era descendente de uma família real nigeriana. Ujunwa, incomodada com o comentário, respondeu que era, de fato, uma princesa e que um antepassado seu, no século XVII, tinha mantido um mercador português em uma jaula.

Isabel disse alegremente que sabia distinguir sangue real e esperava poder contar com o apoio dela na campanha contra a caça, mostrando-se indignada com caçadores que usavam as partes íntimas dos macacos para fazer talismãs. Depois do café, Ujunwa teve uma breve conversa com a mãe ao telefone e ficou feliz por ouvi-la rir. Na sequência, sentou-se para começar a escrever seu conto, que é sobre Chioma, uma moça formada em economia na universidade de Nsukka, em Lagos, e que vive com a mãe. Em busca de um emprego, sofre assédio na primeira entrevista que consegue. Vivendo de bicos e sendo constantemente recusada nas vagas para as quais se candidatava, procurou o pai, que tinha outra esposa, pedindo a ele para ajudá-la a se colocar no mercado de trabalho. O pai é grosseiro e tem por hábito agir com raiva. Não pergunta nada sobre a mãe, dá alguns telefonemas e entrega algum dinheiro a ela. Chioma sai do escritório observando a foto da mulher – muito séria, parece mestiça – com quem o pai vive.

No jantar servido naquele dia, todos aceitam a sugestão de Edward para comerem avestruz. Apenas Ujunwa pede um frango e se arrepende logo que a comida chega. Depois de duas taças de vinho – mais álcool do que costumava tomar –, conversou com a

senegalesa sobre as formas de cuidar de cabelos crespos. Depois, no gazebo, o ugandês manteve-se afastado, sentado com Edward e Isabel. Os outros continuaram bebendo e se divertindo, enquanto se provocavam, falando das características dos habitantes de cada região da África de onde os participantes vinham.

“Vocês quenianos são submissos demais! Vocês nigerianos são agressivos demais! Vocês tanzanianos são muito cafonas! Vocês senegaleses só sabem imitar os franceses!” Falaram sobre a guerra do Sudão, sobre a decadência da Africa Writes Series, sobre livros e escritores.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Jumping Monkey Hill. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 112.

 

Outros autores africanos são discutidos: Dambudzo Marechera, considerado incrível por todos os participantes; Alan Paton, a quem eles achavam paternalista; Isak Dinesen, classificado como “imperdoável”; Achebe, que dividia opiniões, uma vez que a zimbabuense o achava chato enquanto o queniano o julgava sublime. Joseph Conrad também foi mencionado e Ujunwa começou a dar saltos para imitar a forma desumanizada usada por ele para descrever os africanos em sua obra Coração das trevas, em que eles são figuras primitivas e silenciosas, que reforçam a visão colonialista da época.

A conversa segue, regada a vinho, e os participantes tornam-se mais falantes e ousados. A zimbabuense caiu no chafariz e se levantou reclamando dos peixes escorregadios que sentiu lá dentro, o que serviu de ideia para o conto do queniano, que ainda não tinha tido ideia nenhuma. A senegalesa aproveitou o assunto para dizer que estava escrevendo sobre sua vida, a morte da namorada e a força que precisou ter para se assumir lésbica para a família. Ao ouvir a palavra “lésbica”, o sul-africano pareceu alarmado, levantou-se e foi embora. O queniano disse o quanto o sul-africano lembrava seu pai, religioso, e que também não falava com ninguém. Todos seguiram falando de seus pais, menos Ujunwa, que achava não ter nada para falar de seu pai, segundo ela, uma pessoa normal. Disse apenas que ele havia sido presente em sua vida, mas que fizera algo que a magoara e, mais do que isso, a surpreendera. Quando perguntada se estava escrevendo sobre isso, respondeu enfaticamente que não, pois não acreditava na escrita como forma de terapia.

O tanzaniano disse que toda forma de ficção era uma espécie de terapia. Ao chegar a seu quarto, Ujunwa não conseguiu escrever e só se sentou em frente ao laptop para continuar sua história depois do café da manhã.

Chioma recebe um telefonema do banco Merchant Trust e fica esperançosa em conseguir um emprego. Ela conhece o diretor-presidente e é entrevistada pelo vice-gerente, que tem a pele escura e é bonito. Chioma deseja, sem sucesso, capturar sua atenção durante a entrevista. Ela é aceita para trabalhar no marketing do banco, tentando conseguir novas contas ao lado de Yinka. Sua performance é que determinará se ela terá um cargo permanente ali. Apesar de não entender bem o que faria, ela é levada com Yinka pelo motorista de uniforme em um jipe oficial com ar-condicionado até a casa de um hadji em Ikoyi, bairro de alto padrão em Lagos. Ambas são recebidas com sorrisos expansivos e taças com coquetéis gelados. Ele pede explicações para Yinka sobre o funcionamento da poupança de juros altos e que ela se sente em seu colo, sem parar de olhar para Chioma. Yinka consente. Ao olhar para ela, Chioma se lembra da ”mulher amarela”, que tinha um relacionamento com seu pai, e da história contada sobre ela por sua mãe.

A mulher amarela entrou, em uma tarde calma qualquer, na boutique de sua mãe, que sabia do relacionamento que a mulher mantinha com seu marido há mais de um ano. A mãe de Chioma sabia detalhes da relação dos dois, do carro e do apartamento que o marido comprara para a mulher. Ainda assim, nada pareceu mais insultante do que ela escolher itens da boutique para pagar a conta com o dinheiro do pai de Chioma. As duas brigaram fisicamente e todas as vendedoras também deram tapas e socos na mulher amarela até que ela deixasse a loja. O acontecido fez o pai sair de casa definitivamente. Chioma soube do ocorrido quando voltou do Serviço Nacional da Juventude. As irmãs da mãe (Elohor, Rose e Uche) se solidarizaram com ela e se dispuseram a implorar ao marido que voltasse para casa. Outra irmã – Funmi – disse que o homem estava sendo vítima de feitiços da mulher e que conhecia um babalaô que poderia acabar com aquilo. A mãe dispensou qualquer ajuda. Era o pai quem contribuía com a importação de sapatos de Dubai e, sem a ajuda dele, a boutique iria à falência. Após muitas promoções e anúncios, os sapatos passaram a ser facilmente vendidos. É um desses sapatos que Chioma usa enquanto, naquela manhã, vê Yinka sentada no colo do hadji.

Com o passar da semana no resort, Ujunwa passou a notar cada vez mais claramente algumas atitudes de assédio por parte de Edward.

“Eu não me importo de sentar no sol”, disse ela, já se levantando. “Quer que eu levante para você, Edward?”

“Gostaria muito que você se deitasse para mim.” O momento foi úmido, espesso; um pássaro grasnou ao longe. Edward sorria. Só o ugandês e o tanzaniano tinham escutado. Então o ugandês riu. E Ujunwa riu, porque era engraçado e espirituoso, ela disse a si mesma, se você parasse para pensar. [...]

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Jumping Monkey Hill. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 116.

 

Ujunwa tenta, após o almoço, contar à zimbabuense a abordagem de Edward, mas ela parecia menos falante e mais distraída naquele dia, provavelmente ansiosa em relação ao conto. Ujunwa leu o trabalho da amiga naquela noite e achou seu estilo cheio de floreios, ainda que tivesse gostado da história. Escreveu-lhe elogios e fez cuidadosas sugestões. O conto falava sobre um casal avisado de sua infertilidade por um pastor e sua tentativa de libertarem-se das bruxas, que acreditavam ser vizinhas que tinham amarrado o útero da mulher. No dia seguinte, houve um grande silêncio entre os participantes após a leitura da zimbabuense para o grupo. Em seguida, todos começam a discuti-lo. O ugandês e a sul-africana valorizam a energia da escrita; o queniano discorda, comentando sobre o esforço da zimbabuense em transformar algumas das frases em “literárias”.

Edward, por fim, diz que o conto era datado, o que deixou Ujunwa atônita e sem compreender o significado daquela observação. A zimbabuense apenas tirou os dreadlocks da frente do rosto, fazendo com que os búzios batessem uns nos outros. Todos se levantam, dizem boa-noite e voltam para seus bangalôs.

Ninguém comenta a conversa da noite anterior durante o café da manhã. O assunto gira em torno dos macios ovos mexidos e do som das folhas que ouviram farfalhar durante a noite. Mais uma vez, o grupo se reúne à noite para ouvir trechos da leitura do conto da senegalesa. Durante a leitura de seu texto, que se passava em um velório, ela se emocionou algumas vezes. Ao final, Edward, que passara o tempo todo fumando um cachimbo no cômodo fechado, afirma que histórias homossexuais não refletiam a verdadeira África.

Em um impulso, Ujunwa pergunta “Que África?”, o que desencadeia uma longa discussão na qual Edward insiste em seu ponto de vista sob as balançadas de cabeça da zimbabuense, da sul-africana e do tanzaniano. A senegalesa afirma ser natural do Senegal após uma explosão de comentários em francês fluido que durou aproximadamente 1 minuto. Edward também responde em francês e, logo depois, em inglês, conclui que ela provavelmente bebeu demais o excelente Bordeaux que ofereciam ali.

Depois de deixarem o local, Ujunwa, o queniano, a sul-africana e a zimbabuense vão para o bar, se perguntando onde estaria a senegalesa àquela altura. Todos os outros hóspedes do local, brancos, olham para o grupo de escritores com desconfiança. Ujunwa se sente desconfortável e lamenta ter rido frente ao assédio de Edward, quando ele disse que gostaria que ela se deitasse para ele. Ela aproveita a ocasião para queixar-se aos colegas, que olham para ela perplexos. Os três dizem que já tinham percebido os olhares incômodos de Edward, e a sul-africana comenta que ele jamais olharia da mesma forma para uma mulher branca, uma vez que o olhar dele para Ujunwa revela um “desejo sem nenhum respeito” (p. 119). Ujunwa se sente traída pelos colegas ao entender que todos já tinham percebido as investidas desrespeitosas de Edward. Volta a seu bangalô e tenta, sem sucesso, conversar com mãe ao telefone e escrever. Permanece deitada na cama com seus pensamentos até o amanhecer, quando finalmente adormece.

Naquela noite, todos ouvem a leitura de um trecho do conto do tanzaniano sobre assassinatos no Congo, revelando o ponto de vista violento de um miliciano. Edward declara que aquele seria o conto principal da publicação Oratory, por ser urgente e relevante, além de apresentar coisas novas. Ujunwa não gosta do conto e opta por não comentar, pois acha parecido com uma reportagem da revista The Economist ilustrada com charges. Ela volta para seu bangalô e abre o laptop para escrever, mesmo estando com dor de estômago.

Chioma continua a olhar Yinka sentada no colo do hadji e se sente como se estivesse atuando em uma peça de teatro. Ela havia escrito peças de teatro com sucesso durante a escola e apenas não cursou literatura na universidade porque seu pai declarou que essa opção seria “inviável” para ela. Foi o pai, apesar disso, quem sempre lera os contos que ela tinha escrito e costumava fazer comentários nas margens das páginas. Fora o pai também quem comprara romances para ela, o que sua mãe achava uma inutilidade.

Procurando chamar atenção de Chioma, o hadji repete que a achava muito bonita e que só concordaria em fazer negócios com o banco se ela fosse seu contato pessoal. Como Chioma não responde, Yinka se antecipa e afirma que a amiga com certeza será o contato de que ele precisa. O hadji leva Yinka para ver os perfumes que trouxera de sua última viagem a Londres, prometendo dar presentes às duas, mas Chioma não o segue. Vira-se, abre a porta e sai da casa, passa pelo jipe e ignora os chamados do motorista. Pega um táxi e dirige-se à agência para pegar os poucos objetos pessoais que deixara lá.

No dia seguinte, a dor de estômago de Ujunwa tinha piorado e ela não queria ler seu conto para os colegas naquela noite. Ao chegar para o café da manhã, soube pelo queniano, sentado ao seu lado, que Edward acabara de elogiar o umbigo nu da senegalesa, dizendo que havia sonhado com ele. Ujunwa olha com inveja para a tranquilidade da colega e se sente mal por saber que os comentários invasivos de Edward não se dirigiam exclusivamente a ela. Durante o almoço, fica sabendo que a senegalesa tinha dado de ombros às investidas de Edward.

Ujunwa pergunta a todos, em voz alta, por que nenhum deles diz nada em relação ao comportamento de Edward. Ninguém responde e todos passam a fazer observações ao garçom a respeito da comida, da bebida e da nacionalidade dele e dos outros integrantes da cozinha. A zimbabuense, por sua vez, disse não querer saber sobre os cozinheiros do resort por considerar a comida simplesmente nojenta. Todos passaram a se queixar da comida, da substituição da cerveja por vinho, do horário do café da manhã, do cheiro do cachimbo de Edward, etc.

O único que não falava nada era o sul-africano negro, que acabou declarando que achava os comentários de Edward inofensivos. Ujunwa discorda e afirma, elevando a voz, que são atitudes como as dele que possibilitaram aos ingleses colonizar aquele país e exigir credenciais para os próprios africanos circularem em seu território. Mesmo o sul-africano permanecendo indiferente ao comentário dela, Ujunwa se desculpa por ter erguido a voz. O queniano, que a observava, disse que ela parecia estar com raiva de mais coisas além das falas intromissoras e equivocadas de Edward.

Em um passeio a uma loja de bijuterias, o queniano diz a todos, olhando diretamente para Ujunwa, que Edward poderia conseguir para eles um agente em Londres e, por isso, talvez fosse mais prudente não o atacar.

À noite, Isabel elogia o pingente em forma de dente que Ujunwa comprara, comentando o quanto seria bom se as pessoas se contentassem com bijuterias e deixassem os animais em paz. De forma sarcástica, Ujunwa responde que se tratava realmente de marfim e que estava em dúvida se seria necessário acrescentar o dado de que ela mesma matara o elefante em uma caçada real. Isabel, espantada, não responde. Para se acalmar, antes da leitura de seu conto, Ujunwa passa o dedo sobre o colar de plástico.

Depois da leitura, o ugandês é o primeiro a falar e elogia a força e a verossimilhança do texto. O tanzaniano aponta o talento de Ujunwa na apresentação da atmosfera de Lagos, reforçando o quanto as cidades de terceiro mundo são parecidas. A sul-africana branca também elogia o conto, depois de dizer que odiava a nomenclatura “países de terceiro mundo.” Edward, por sua vez, diz que as mulheres não são vítimas da maneira grosseira que Ujunwa retratara em seu conto, especialmente na Nigéria, onde as mulheres, segundo ele, ocupam posições de poder, como no caso da ministra mais importante do gabinete do governo nigeriano. O queniano afirma que o final não era plausível, uma vez que Chioma não tinha outras opções de sobrevivência que a permitissem abandonar o emprego, ao que Edward complementa dizendo que nada no texto era plausível e que se tratava de um exemplo de literatura ideológica que não narrava “uma história real sobre gente de verdade” (p. 124).

Ujunwa reagiu ao comentário levantando-se e começando a rir, encarando Edward e dizendo que deveria ter acrescentado ao seu enredo um pedido de Chioma ao motorista do jipe para levá-la para casa, sabendo que seria sua última oportunidade de andar nele.

Havia outras coisas que Ujunwa queria dizer, mas não disse. Havia lágrimas brotando em seus olhos, mas ela não deixou que caíssem. Estava ansiosa para ligar para a mãe e, enquanto caminhava na direção de seu bangalô, perguntou-se se este final, num conto, seria considerado plausível.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Jumping Monkey Hill. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 124.

 

Comentários sobre o conto

No conto “Jumping Monkey Hill”, Chimamanda constrói uma narrativa densa e multifacetada, explorando as tensões entre identidade, autenticidade e o poder discursivo sobre a literatura africana. O resort onde se passa o workshop, com seu nome carregado de exotismo e absurdo, torna-se símbolo da ironia central do conto: uma tentativa de centralizar a produção literária africana em um espaço moldado por olhares coloniais. A escolha desse cenário reflete um encontro que deveria promover a diversidade, mas que, na verdade, é permeado por hierarquias e preconceitos, representados sobretudo pela figura de Edward, organizador do evento, cuja autoridade eurocêntrica determina arbitrariamente o que é ou não uma narrativa “verdadeira” sobre a África.

Os personagens, apresentados com detalhes que destacam tanto sua singularidade quanto os estereótipos que enfrentam, são parte essencial da crítica metalinguística do conto. Ujunwa, a protagonista, encarna as contradições de ser uma mulher escritora em um ambiente que exige que sua voz soe “autenticamente africana” enquanto ignora as complexidades de sua experiência pessoal e cultural. Os outros escritores, com suas próprias histórias e idiossincrasias, frequentemente encontram suas perspectivas marginalizadas ou filtradas pelas lentes de Edward, cuja visão essencialista reduz a África a um conceito monolítico. A dinâmica do grupo reflete debates internos sobre o que constitui a literatura africana e expõe como o controle narrativo perpetua preconceitos sobre identidade e autenticidade.

A metalinguagem desempenha um papel central na história, destacando o poder e os limites da literatura como forma de resistência. O conto que Ujunwa escreve, por exemplo, ecoa suas próprias experiências, funcionando como um espelho para sua realidade. No entanto, quando seu texto é analisado no workshop, Edward o descarta como “não representativo,” revelando a imposição arbitrária de critérios externos para validar a voz africana. Esse conflito metalinguístico evidencia o paradoxo de buscar autenticidade em um espaço onde o poder de definição não pertence aos africanos, mas àqueles que julgam suas histórias segundo normas coloniais ou exóticas.

Ao final, “Jumping Monkey Hill” denuncia a violência simbólica de moldar identidades e narrativas africanas a partir de perspectivas externas, reafirmando a importância de resistir a esses enquadramentos. Ujunwa, ao desafiar as atitudes de Edward e o silêncio cúmplice dos colegas, emerge como símbolo de um movimento mais amplo por autonomia narrativa e respeito à diversidade das vozes africanas. O conto não só desvela as estruturas de poder que permeiam os espaços literários, mas também desafia o leitor a refletir sobre o papel da literatura na disputa por representatividade e verdade.

 

Conto 7: “No seu pescoço”

Narrador

Segunda pessoa: o narrador refere-se à protagonista como “você” ao longo de todo o conto e assume seu ponto de vista. É como se a voz narrativa pressionasse a protagonista a se lembrar de tudo o que aconteceu em seu processo de mudança da Nigéria para os Estados Unidos. Há um tom geral na narrativa, em função da utilização desse foco narrativo, que também tem efeito de acusação.

Personagens

· Akunna: protagonista do conto, jovem nigeriana igbo que se muda de Lagos, na Nigéria, para Connecticut, nos Estados Unidos, após ser premiada com o visto norte-americano em uma loteria. Seu nome, em igbo, significa “fortuna do pai”.

· O tio: irmão do marido da irmã do pai da protagonista. Vive no Maine, em uma cidade de brancos, com uma esposa e dois filhos em idade escolar. Hospeda a protagonista em sua chegada aos Estados Unidos, mas tenta abusar dela no porão em que ela dormia.

· Juan: gerente do restaurante em Connecticut onde a protagonista trabalha como garçonete.

· O namorado de Akunna (não nomeado): americano, herdeiro.

Espaço

Pequena cidade de brancos no Maine e pequena cidade em Connecticut, ambas nos Estados Unidos.

Temas principais

Imigração (diferenças culturais, preconceitos e dificuldades de adaptação); solidão; identidade de gênero.

Síntese do enredo

Akunna conseguiu ser contemplada com o visto norte-americano em uma loteria. Sabendo que todos os que viviam lá possuíam carros e armas e cercada de expectativas dos amigos e parentes sobre todo o incremento material que sua vida teria, viajou para o estado do Maine, deixando sua família na Nigéria para ir morar provisoriamente na casa de um “tio” casado e com filhos em uma cidade de brancos. Na faculdade comunitária que passa a frequentar, todos se mostram curiosos com sua presença e suas origens, fazendo perguntas sobre onde aprendera inglês tão bem, sobre as condições gerais de vida na Nigéria e sobre o comportamento de seu cabelo crespo. O tio atribui aquela curiosidade a um misto de ignorância e arrogância dos estadunidenses. Uma noite, ela é constrangida pelo próprio tio (que não era um parente sanguíneo) a deitar-se com ele no porão em que dormia. Assustada, tranca-se no banheiro até poder fugir da casa pela manhã, sem nenhuma explicação. De ônibus, chega a Connecticut e consegue emprego em uma lanchonete gerenciada por Juan, que paga a ela um dólar a menos que para os outros imigrantes, sem recolher os devidos impostos ao governo.

Sentindo-se muito sozinha e vivendo em um quartinho pequeno com um tapete manchado, Akunna passa horas pensando nos pais e em tudo o que deixara na Nigéria. Lembra-se da boa aluna que tinha sido, das tias que vendiam peixe seco e banana-da-terra nas ruas de Lagos e dos tios que viviam em pequenos cômodos e tomavam gim nacional, regozijando-se com o fato de ela ter conseguido o visto e estar de partida para uma vida promissora. Logo passou a mandar algum dinheiro para os pais, mas sem contar a eles nada do que vivia, pois considerava não ter nada a dizer para eles. Quando começou a desejar escrever, pensou em narrar a sinceridade surpreendente dos estadunidenses que, quase sempre, mostravam-se ansiosos para expor suas tragédias pessoais e familiares em público. Pensou também em contar sobre o desperdício de comida e sobre a dificuldade de muitos casais em repreender os filhos que não se comportavam adequadamente em locais públicos. Como não tinha dinheiro suficiente para corresponder às expectativas de sucesso material dos familiares e amigos da Nigéria, acabava não escrevendo para ninguém.

Akunna se sentia invisível, pois não contara a ninguém onde estava, e às vezes se debatia contra as paredes de seu quartinho em uma tentativa de escapar, mas acabava com manchas roxas no corpo que faziam Juan pensar que ela tinha um namorado violento e que deveria se oferecer para ajudá-la a se livrar dele. À noite, antes de adormecer, ela sentia que algo se enroscava em seu pescoço e por muito pouco não a sufocava.

Em seu trabalho como garçonete, surpreendeu-se quando um estadunidense jovem, de menos de trinta anos, ao saber que ela vinha da Nigéria, perguntou se ela era igbo. Imaginou que, talvez, ele fosse algum professor de antropologia. Ele contou a ela que já estivera em Gana, em Uganda e na Tanzânia. Ele elogiou seu nome e ela ficou feliz por não perguntar o significado. Os dois começaram a sair juntos, visitando com frequência o restaurante Chang’s, e a troca cultural entre eles contribuiu para que se aproximassem cada vez mais. Akunna inicialmente diz que seu pai é professor em Lagos, mas, sentindo a proximidade entre eles aumentar, revela que, na verdade, ele trabalhava como motorista de uma construtora, contando um pouco do cotidiano dele.

O trânsito estava pesado, o trânsito sempre era pesado em Lagos e, quando chovia, ficava um caos. As estradas se transformaram em poças de lama, os carros atolaram e alguns de seus primos saíam e ganhavam algum dinheiro desatolando-os. Foram a chuva e aquele clima de pântano, você pensava, que fizeram seu pai pisar no freio tarde demais naquele dia. Você ouviu a batida antes de senti-la. O carro que seu pai atingiu era grande, importado e verde-escuro, com faróis dourados que pareciam olhos de um leopardo. Seu pai começou a chorar antes mesmo de sair do carro e se prostrar na estrada, fazendo muitas buzinas soarem. Desculpe, senhor, desculpe, senhor, entoava ele. Se o senhor me vender junto com minha família, não vai conseguir comprar nem um pneu do seu carro. Desculpe, senhor.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 132-133.

 

Akunna percebe que, apesar de a relação melhorar a cada dia, existe uma barreira invisível entre eles. Ele a leva para conhecer uma loja de produtos africanos e a forma como vira a garrafa de vinho de palma para ver quanto sedimento havia nela faz com que o dono – ganense – pergunte se ele é um africano branco, como os do Quênia ou da África do Sul, e ele responde que sim, mas que vivia nos Estados Unidos havia muito tempo. Ele nutre certa satisfação por ter conseguido enganar um africano nativo como o dono da loja. Akunna cozinha para ele o garri e o onugbu e ele vomita na pia, mas ela não se importa. Em uma das visitas ao Chang’s, ele diz ao garçom que tinha visitado Xangai recentemente, e o garçom pergunta a ele – ignorando a presença de Akunna à mesa – se tem uma namorada em Xangai. Akunna perde a fome e se sente mal quando, naquela mesma noite, eles fazem sexo, dizendo a ele que tinha se sentido ofendida porque, apesar de eles agirem claramente com um casal no restaurante, o garçom considerava impossível que ela fosse a namorada dele.

Ele comprava muitos presentes para ela e, quando ela se preocupava com o dinheiro gasto, ele contava que havia recebido parte da herança de um avô de Boston. Ela diz a ele que aqueles presentes (bola de vidro com uma boneca dentro, pedra brilhante com uma superfície que mudava de cor ao ser tocada, lenço mexicano pintado à mão) eram diferentes dos presentes úteis que ela costumava ganhar. Ele, então, passa a comprar roupas, sapatos e livros, até que ela pede para ele parar porque não queria presente nenhum. Ele continua e ela decide guardar tudo para dar aos primos, tios e amigos na Nigéria, quando pudesse visitá-los. Ele disse que queria conhecer a Nigéria e que poderia comprar passagens para os dois irem juntos, mas ela não queria ter a passagem paga para visitar seu próprio país por um estadunidense que acrescentaria o país à lista dos que já visitara e onde ficaria admirado com a vida dos pobres que moravam lá. Nesse dia, eles discutiram em voz alta, na rua, ele se afastou correndo e depois voltou, deu a mão a ela e os dois fizeram as pazes.

Aos poucos, a sensação de ter algo apertando seu pescoço antes de dormir começou a afrouxar. Ela sempre observava a reação das pessoas ao vê-los juntos e percebia que não eram considerados um casal normal. Na visita aos pais dele, tudo correu bem, mas ficou claro o quanto eles se esforçaram para que Akunna acreditasse que era tudo normal. A mãe dele disse que nunca tinha sido apresentada a uma namorada do filho e perguntou sobre as leituras que ela fizera, e o pai sobre a semelhança entre a comida nigeriana e a iniana. Ela se sentiu muito grata por não a examinarem como se fosse “um troféu exótico, uma presa de marfim” (p. 137).

Akunna sentia raiva quando ouvia os relatos do namorado sobre os problemas que tinha com os pais, e também quando ele recusou o convite dos dois para passarem, os quatro juntos, duas semanas em uma casa de verão que tinham na costa de Quebec. Ela deixou cair um copo de suas mãos e se espatifar no chão do apartamento dele, e ele perguntou se havia algo errado, mas ela respondeu que não, mesmo sentindo que havia muita coisa errada. Mais tarde, sem saber por quê, ela chorou no chuveiro.

Naquele dia, ela escreveu uma carta curta para seus pais e a enviou, dessa vez com seu endereço no meio das notas de dólares. Recebeu rapidamente uma resposta escrita pela mãe, contando que seu pai estava morto, que simplesmente tinha caído sobre o volante do carro da empresa que dirigia. Aquilo tinha acontecido há cinco meses e parte do dinheiro enviado tinha sido usado para garantir a ele um bom funeral. Ela tentou pensar no que estava fazendo quando seu pai morreu e no que vinha fazendo durante todos aqueles meses em que ele já estava morto.

Ele a abraçou enquanto ela chorava, ofereceu-se para pagar sua passagem para a Nigéria e para ir com ela até lá, mas ela disse que precisava ir sozinha. Ele perguntou se ela voltaria um dia e ela o lembrou que seu green card perderia a validade se ela não voltasse aos Estados Unidos no prazo de um ano. Ele disse que não era exatamente aquilo que ele estava perguntando a ela.

Você virou de costas e não disse nada e, quando ele a levou de carro ao aeroporto, você abraçou-o apertado por um longo, longo momento, e depois soltou.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 138.

 

Comentários sobre o conto

É interessante refletir sobre o motivo que levou a autora a nomear a obra com o título desse conto, como se a sensação de Akunna de ter algo enrolado em seu pescoço pudesse ser a metáfora que simboliza as pressões psicológicas, sociais e culturais enfrentadas por imigrantes. Essa sensação sufocante representa o fardo da expectativa, da solidão e da dificuldade em se integrar enquanto mantém laços com suas origens, uma metáfora para a opressão e a solidão que todo imigrante africano nos Estados Unidos sente, em maior ou menor grau. Imigrantes nigerianos, negros, sem lastro financeiro ou familiar, tentando se estabelecer na América e materializar o tão propagado sonho americano.

O conto “No seu pescoço” reflete de forma sensível e impactante esses desafios. Chimamanda opta por um foco narrativo em segunda pessoa, dirigindo-se diretamente à protagonista como “você”, o que cria uma sensação de intimidade e, ao mesmo tempo, de acusação. Esse recurso estilístico faz o leitor se colocar no lugar da protagonista, sentindo sua vulnerabilidade e o peso de suas experiências, como se fosse compelido a revisitar as memórias e as emoções de Akunna junto com ela. Essa estratégia literária amplifica o impacto emocional do texto, destacando o isolamento e a luta interna da personagem.

O estilo de Chimamanda nesse conto se caracteriza por uma prosa concisa, repleta de imagens evocativas e rica em detalhes que tecem um panorama das experiências culturais e pessoais de Akunna. A autora mistura reflexões íntimas com descrições da vida cotidiana, transitando entre momentos de dor, deslocamento e um frágil senso de pertencimento. A relação entre os Estados Unidos e a Nigéria é apresentada de forma multifacetada: enquanto o sonho americano parece promissor a distância, a realidade é marcada por preconceito, exploração e desilusão. Essa dualidade se reflete tanto na vida pessoal da protagonista quanto nas interações com o namorado americano, que, embora bem-intencionado, carrega atitudes paternalistas e uma visão superficial da cultura africana.

A narrativa também questiona as relações de poder e privilégio, enfatizando as barreiras invisíveis entre Akunna e seu namorado, reforçadas pela forma como ele observa a Nigéria como um exótico destino turístico. Ao final, Chimamanda conduz o leitor a um desfecho que encapsula a complexidade do retorno às raízes, tanto geográficas quanto emocionais, em um retrato melancólico da diáspora africana.

 

Conto 8: “A embaixada americana”

Narrador

Terceira pessoa: onisciência seletiva; o ponto de vista assumido é pela perspectiva da protagonista, que sofreu um grande drama pessoal e se encontra em meio a perseguições.

Personagens

· Ugonna: filho da protagonista, assassinado em um ataque de perseguição política em sua casa.

· Doutor Balogun: médico da protagonista.

· Protagonista não nomeada.

Espaço

· Embaixada estadunidense em Lagos, Nigéria (tanto na parte externa, em que se forma a fila, quanto na parte interna, onde as pessoas são entrevistadas para conseguirem o visto para a viagem).

Temas centrais

Corrupção política; trauma da violência do Estado; impotência do indivíduo diante das estruturas de poder; choque cultural entre o Ocidente e a África.

Síntese do enredo

Na entrada da embaixada dos Estados Unidos, em Lagos, ela ocupa o quadragésimo oitavo lugar em uma fila de cerca de duzentas pessoas que aguardam a entrevista para obtenção do visto norte-americano. Ela é esposa de um jornalista e ativista político que está sendo perseguido por difundir ideias contrárias ao governo do general Abacha.

Pretende pedir asilo nos Estados Unidos depois de ter, no dia anterior, embarcado o marido clandestinamente para fora da Nigéria e perdido o filho em um ataque armado sofrido em sua casa em consequência das posturas políticas do marido. Ela procura manter a mente vazia para não se lembrar do corpo do filho morto em seus braços e de tudo o que vivera. Para escapar dos invasores, ela pulou da varanda do segundo andar do edifício e machucara as costas. “Distensão muscular”, segundo o doutor Balogun. Faz calor. Suas costas doem. A fila reúne pessoas com diferentes objetivos, mas ligadas pelo desejo do visto.

Ali estavam as tábuas de madeira apoiadas em blocos de cimento, com amostras coloridas de doces, mangas e laranjas. Ali estavam os jovens que colocavam bandejas cheias de cigarros na cabeça, amortecendo o peso com rolos de tecido. Ali estavam os mendigos cegos levados pelas mãos por crianças, recitando bênçãos em inglês, iorubá, inglês pidgin, igbo, hausa, quando alguém pingava algum dinheiro em seus pratos.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A embaixada americana. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Tradução: Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 141-142.

 

Espontaneamente, surgem conselhos sobre o comportamento a se ter na entrevista e os erros que precisam ser evitados. Ela procura manter-se alheia e seu comportamento é visto com estranhamento por todos. Na calçada, próxima à fila, há um episódio de violência em que um homem chicoteia o rosto de outro. Todos observam entre curiosos e assustados, temendo que a embaixada não abra suas portas naquele dia.

O marido era um homem comprometido com o trabalho, de forma a deixar muitas vezes os projetos da família em segundo plano, o que causou um distanciamento entre eles. Ao conversar com um homem na fila, ela pergunta se ele lê o jornal The New Nigeria, para especular a respeito de seu posicionamento político e da repercussão, em meio àquelas pessoas, do ativismo de seu marido como jornalista. Sem saber que se tratava do marido dela, o homem enaltece o trabalho e a coragem de quem se posiciona daquela maneira nos jornais.

Ela também era jornalista, formada na faculdade de Zaira, e participara de reportagens importantes até engravidar, depois de quatro anos tentando. O texto do marido que tinha causado repercussão nacional fazia um retrospecto: “O governo Abacha até agora: de 1993 a 1997”. Ele tinha sido exaltado por um professor nigeriano de política como alguém que merecia um prêmio de direitos humanos por comunicar ao mundo a verdadeira situação da Nigéria. A partir daí, começaram as perseguições, os telefonemas anônimos, até sua fuga e o ataque que culminou na morte da criança.

A porta do consulado se abre e alguém avisa que só atenderão aos primeiros cinquenta da fila e que os outros devem tentar novamente em outro dia. Na entrevista, ela conta sobre a morte de seu filho e diz que sabe que foram agentes do governo os principais responsáveis, mas a funcionária do consulado precisa de provas concretas.

Ela pensa em tudo o que viveu e, enquanto olha para a funcionária, sonha em voltar para sua terra natal, em que viveram seus antepassados, plantar uma árvore e ser capaz de viver uma vida simples. A atmosfera da embaixada é apressada e a simpatia dos funcionários tende a diminuir à medida que o tempo passa.

Ela se virou devagar e caminhou para a saída.

“Senhora”, disse a funcionária às suas costas.

Ela não se virou. Saiu da embaixada americana, passou pelos mendigos que ainda faziam as rondas esticando seus pratos esmaltados e entrou no carro.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. A embaixada americana. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Tradução: Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 153.

 

Comentários sobre o conto

O ambiente da embaixada norte-americana na Nigéria, com suas dinâmicas de poder, pode ser compreendido como um microcosmo da situação política e social do país sob o governo de Sani Abacha, caracterizada pela repressão e falta de justiça. A embaixada funciona como um símbolo da barreira entre a Nigéria e o Ocidente, uma barreira permeada pela desigualdade de poder. Local de tensão e frustração, um ambiente onde os nigerianos, incluindo a protagonista, são marginalizados e tratados com indiferença. Um espaço que espelha a impotência dos nigerianos perante o poder ocidental, além de ser um reflexo da corrupção interna e da violência estatal.

O texto mistura lirismo e imagens de brutalidade. A autorreflexão da protagonista é desenvolvida de forma a capturar a beleza e a fragilidade da experiência humana, contrastando com a crueza da violência política e da intensidade do ambiente que cerca a embaixada. Essa oscilação entre o poético e o brutal destaca a tensão emocional da protagonista e a contradição entre o desejo de fuga e a realidade implacável da vida na Nigéria.

Outro aspecto importante é a multiplicidade linguística, que surge nas bênçãos preferidas pelos mendigos, uma espécie de reflexo do mosaico cultural nigeriano. As bênçãos, que a protagonista observa enquanto espera na fila, estão carregadas de significados culturais, simbolizando as múltiplas influências e as dinâmicas de poder que compõem a vida nigeriana, onde a língua serve tanto como conexão quanto como marca de desigualdade.

O conto é uma crítica ao poder hegemônico e à vulnerabilidade dos indivíduos frente à violência política. Ao mesmo tempo, revela a complexidade cultural e emocional da Nigéria, criando um contraste impactante entre o lirismo e a brutalidade, entre a beleza e o desespero.

 

Conto 9: “O tremor”

Narrador

Terceira pessoa: onisciência seletiva.

Personagens

· Ukamaka: protagonista.

· Udenna: ex-namorado de Ukamaka.

· Chinedu: vizinho desconhecido de Ukamaka nos Estados Unidos. Visita seu apartamento para que rezem juntos quando um avião cai na Nigéria.

· Abidemi: filho de um banqueiro da Nigéria, ex-namorado de Chinedu.

· Kemi: futura esposa de Abidemi.

Espaço

Proximidade da Universidade de Princeton, em Nova Jersey, Estados Unidos.

Temas principais

Religião e espiritualidade; identidade e imigração; amor e relacionamentos; sexualidade e repressão; ambiguidade moral e divina.

Síntese do enredo

Chinedu vai, sem avisar, à casa de Ukamaka, a quem não conhece. Bate à sua porta, a avisa que também é nigeriano e que está lá para que possam juntos rezar pelas vítimas do acidente de avião que acabara de acontecer na Nigéria, sobre o qual ainda não sabiam muita coisa. Embora o comportamento de Chinedu gerasse certo desconforto em Ukamaka, os dois rezaram juntos e de mãos dadas por algum tempo, enquanto atualizavam as páginas que visitavam na internet em busca de notícias sobre o acidente. Ela sentia um estranho tremor no corpo enquanto rezava e cogitava estar recebendo um sinal de Deus. Chinedu disse que provavelmente não conhecia ninguém que estivesse no avião, já que a passagem era muito cara e seus amigos não tinham dinheiro para arcar com aquele tipo de viagem. Ukamaka, porém, acredita que seu ex-namorado, com quem fizera planos de futuro e que havia terminado com ela, poderia estar no avião, já que tinha ido à Nigéria para um casamento.

Ao fim da oração, Ukamaka pede licença para ir ao banheiro e deseja que Chinedu fosse embora logo, mas ele se senta no sofá e começa a falar sobre como ficara sabendo do acidente, como se ela o tivesse convidado para ficar. Além do acidente de avião, a primeira-dama do país havia morrido na Espanha em decorrência de uma lipoaspiração. A coincidência dos dois eventos no mesmo dia faz com que Chinedu os entenda como um sinal de que a Nigéria estava precisando ser salva por Deus. O telefone toca e é a mãe de Ukamaka avisando que Udenna estava vivo. Embora fosse, de fato, embarcar no avião para ir ao casamento, acabou perdendo o voo e se salvando. Ukamaka começa a chorar com a notícia e é abraçada por Chinedu. É como se ele soubesse que aquelas lágrimas tinham relação com o que não havia acontecido, com o que poderia ter acontecido e pela situação mal resolvida que existia entre o casal, desde que Udenna terminara com ela em uma sorveteria.

Ukamaka convida Chinedu para almoçar e eles discutem o papel de Deus no acidente. Ukamaka não entende como é possível explicar Deus e sua infinita bondade frente a uma tragédia como aquela, mas Chinedu repete que “Os caminhos de Deus não são os nossos” (p. 160). Ukamaka tinha o hábito de discutir essas questões com o padre Patrick. Ela se lembra do momento do término do namoro, quando Udenna disse a ela que a relação dos dois estava estagnada e que, mesmo sem estar saindo com ninguém, queria terminar com ela. Ukamaka já estava organizando sua vida e seus planos em acordo com as ideias de Udenna de candidatar-se a governador do estado de Anambra, fazendo a comida do jeito que ele gostava e sonhando com os filhos que teriam juntos. Havia uma foto dos dois abraçados em um restaurante na Filadélfia, tirada por uma mulher que, naquele dia, perguntou se eram casados e comentou o quanto eles formavam um lindo casal.

Chinedu continua fazendo perguntas sobre Udenna, e Ukamaka conta que se conheceram na festa de formatura da irmã dela e que ele trabalhava em Wall Street, mas tinha amigos na Filadélfia. Os dois tinham chegado na mesma época aos Estados Unidos para fazer faculdade e havia várias coincidências entre suas trajetórias escolares desde a Nigéria. Enquanto observa a foto e ouve os comentários de Ukamaka sobre Udenna, Chinedu se lembra de tê-los visto próximos ao estacionamento e ter tido a certeza imediata de que eram nigerianos. Como estava com pressa, não conseguiu abordá-los. Ao atualizar a página dos sites abertos no computador, surgem novas notícias sobre o acidente de avião, e a morte de todos os passageiros que estavam a bordo é confirmada. Chinedu estava convencido de que o acidente era um castigo e um sinal, e permanece sentado comendo. A forma como ele raspava a colher nos dentes gerava estranhamento em Ukamaka.

Ela precisava de alguém para conversar, especialmente sobre Udenna, então passa a encontrar Chinedu com mais frequência. Queixa-se do fato de Udenna nunca ter dito a ela que a amava e de como ele tinha uma mania desagradável de diminuir tudo aquilo de que ela gostava. Como Chinedu falava pouco e sempre dava a impressão de não estar apenas escutando, mas também pensando com ela sobre tudo o que ela contava, as conversas entre eles tornaram-se mais frequentes. Ela contava a ele tudo o que não teria coragem de contar ao padre Patrick. Ukamaka pensou vagamente em ter um caso com Chinedu, mas logo entendeu que havia nele algo de assexual. Não precisar se maquiar e se arrumar para encontrá-lo trouxe alívio a ela.

Havia muitos estrangeiros que moravam no mesmo prédio de Ukamaka e Chinedu, mas nenhuma proximidade ou comunicação entre eles. Ukamaka conta que ela e Udenna creditavam esse comportamento à incerteza enfrentada pelos estrangeiros em território novo. Com Chinedu era diferente. Ele cumprimentava várias pessoas no estacionamento e ela não compreendia como e quando ele teve a chance de conhecer todos eles. Ukamaka não sabia o que Chinedu estudava, mas havia deduzido que ele, que morava ali desde o início da primavera, fazia doutorado em química. Ele disse a ela que precisou se esforçar para fazer amigos no prédio para ter como se locomover ao mercado ou à igreja e que estava satisfeito por ela ter carro e poder levá-lo aos lugares.

Juntos, eles iam a seus respectivos cultos aos domingos, ele em uma igreja pentecostal e ela em sua igreja católica. Faziam compras, ela mais do que ele, e iam procurar os legumes orgânicos que Ukamaka costumava comprar com Udenna. Chinedu não se conformava com o fato de as pessoas pagarem mais caro pelos mesmos vegetais apenas por não terem agrotóxico. Ao convidar Chinedu para ir a um restaurante com ela, fica sabendo que ele está jejuando e acha estranho que ele não tivesse comentado nada a respeito disso ainda, mas se lembra de que ele não comeu nada do arroz no dia anterior. Os dois falam sobre o quanto gostam do harmatã, e Ukamaka conta que passou o Natal anterior com Udenna na Nigéria, onde sua família o encheu de perguntas. Chinedu nunca voltara à Nigéria desde que tinha ido viver nos Estados Unidos.

Ukamaka ainda está apaixonada por Udenna e diz a Chinedu que gostaria que ele tivesse ligado para ela depois que a confusão do acidente de avião ficou esclarecida. Ele havia apenas mandado um e-mail em que agradecia a preocupação dela. Ela imagina que ele não entenda a dificuldade de estar apaixonada por um “babaca”; ele responde que sabe perfeitamente como funciona a situação porque também viveu um amor daquele tipo na Nigéria. Ele viveu com outro homem por dois anos. Chamava-se Abidemi, era banqueiro e o conheceu na filial da empresa de telefonia celular em que Chinedu trabalhava em Lagos. Usava cintos de couro com fivelas em formatos de logotipos famosos e foi quase grosseiro ao pedir para falar com um superior. Logo os dois trocaram olhares, Abidemi deu a Chinedu seu cartão e pediu, sem rodeios, que ele ligasse.

Durante dois anos eles mantiveram um relacionamento tóxico, com um grande controle de Abidemi sobre os passos de Chinedu e com presentes constrangedores oferecidos sem aviso, como um carro Honda, grandes viagens marcadas com apenas um dia de antecedência e longas mensagens cruéis quando Abidemi não respondia imediatamente às mensagens. Apesar de tudo, Chinedu gostava da possessão de Abidemi, até este avisá-lo que iria se casar com Kemi e apresentá-la a ele dizendo que era “um grande amigo”, na festa de aniversário de casamento dos pais de Abidemi.

Chinedu conta sua história com certo nervosismo e lamenta que o namorado sequer ficou dividido frente à obrigação de casar-se com Kemi. Abidemi não compreendia por que Chinedu não fazia apenas o que ele esperava e ficava zangado com ele. Ukamaka compara aquele comportamento ao de Udenna, e Chinedu retruca que nem tudo no mundo girava em torno de Udenna. Ukamaka se sente ofendida com a fala dele e pede que ele saia de seu apartamento.

Depois de ficar uma semana sem encontrar Chinedu e de se lembrar de todas as respostas vagas e do comportamento suspeito do amigo, que não tinha sequer seu nome indicado na caixa de correio do prédio, Ukamaka vai procurá-lo em seu apartamento na tentativa de descobrir o que ainda não sabia sobre ele. Chinedu a recebe muito sério, se diz ocupado e fecha a porta na cara dela. Ela o acha grosseiro e rude e promete a si mesma nunca mais falar com ele. No domingo, porém, de tão acostumada que estava a levá-lo à igreja, volta a bater em sua porta. Ele recusa a oferta, mas a convida para entrar porque queria que ela soubesse o que estava acontecendo.

Ele diz a ela que está ilegalmente nos Estados Unidos, que nunca disse que estudava em Princeton, que o apartamento em que vivia era emprestado de um amigo que estava passando o semestre no Peru e que receberia o aviso de deportação a qualquer momento. Ela o achou mais feio do que de costume e ele disse que continuava jejuando. Ela o convenceu a levá-lo para a igreja dela, mesmo ele detestando a mania dos católicos de adorar ídolos. Para que ele entendesse que não estava sozinho e que ela era capaz de entender a insegurança que ele sentia em relação ao futuro, contou a ele do tremor que sentira na primeira vez em que rezaram juntos. Ela cogita ter sido efeito de sua ansiedade reprimida por causa de Udenna, mas ele defende a ideia de que o tremor foi um sinal de Deus, cuja natureza é sempre se apresentar de forma ambígua.

Na entrada da missa, Ukamaka apresenta Chinedu ao padre Patrick, que aperta suas mãos e lhe dá as boas-vindas. Ukamaka e Chinedu conversam e riem antes de a missa começar, e ela lhe diz que não deixará que ele seja deportado e que encontrarão juntos uma forma de resolver aquela situação. Quando a missa começa, com os cânticos do coro e o padre salpicando as pessoas com água-benta, Chinedu pensa que as missas católicas na Nigéria são menos sisudas e imagina que, naquela mesma situação de bênção, todos teriam ficado encharcados, fazendo o sinal da cruz e se sentindo abençoados.

Comentários sobre o conto

Chimamanda utiliza, nesse conto, um narrador em terceira pessoa com onisciência seletiva, focando principalmente os pensamentos e sentimentos de Ukamaka, o que permite uma imersão profunda em sua perspectiva emocional. O estilo do texto é intimista, com diálogos que revelam tensões culturais e religiosas, além de introspecções que exploram a fragilidade emocional dos personagens. A narrativa é também cheia de contrastes simbólicos, como a convivência entre a fé e o ceticismo e entre o conservadorismo cultural e a busca por liberdade pessoal.

O tremor experimentado por Ukamaka e que dá título ao conto é interpretado de várias maneiras. Inicialmente, ela interpreta a sensação como um sinal divino, uma resposta às suas orações e angústias. Mas, no decorrer do conto, o tremor é ressignificado como reflexo de sua ansiedade reprimida e de seu estado emocional fragilizado após o término com Udenna. Esse elemento simboliza sua luta interna entre buscar um significado espiritual para suas experiências e aceitar a complexidade da vida, que nem sempre oferece respostas claras.

O encontro de Ukamaka e Chinedu evidencia a solidão dos imigrantes em um ambiente culturalmente distinto, onde a busca por conexão entre compatriotas é uma tentativa de preservar identidade e comunidade. Chinedu, em particular, carrega o fardo de sua ilegalidade, que o impede de formar vínculos profundos ou de se sentir seguro. Ele se torna uma figura ambígua na vida de Ukamaka: ao mesmo tempo que oferece apoio emocional, também guarda segredos que evidenciam as dificuldades da imigração. Sua situação ressalta os desafios legais e sociais enfrentados pelos imigrantes, especialmente aqueles marginalizados por sua sexualidade ou status legal.

As questões religiosas permeiam a narrativa, oferecendo um contraponto entre a fé católica de Ukamaka e a perspectiva pentecostal de Chinedu. Ambos usam suas crenças para interpretar eventos dolorosos, como o acidente de avião, mas também se confrontam com a dificuldade de reconciliar tragédias com a bondade divina. A sexualidade de Chinedu, marcada por um relacionamento abusivo com Abidemi e a obrigação de viver escondido, reflete a repressão enfrentada por pessoas LGBTQIA+ em comunidades tradicionais. Essa repressão é amplificada pela vulnerabilidade de Chinedu como imigrante ilegal, mostrando como as interseções de identidade tornam a experiência de deslocamento ainda mais desafiadora.

No final, o conto oferece uma nota de esperança ao mostrar Ukamaka decidida a apoiar Chinedu em sua luta contra a deportação, sugerindo que a solidariedade e o afeto podem transcender as barreiras impostas pela religião, pela cultura e pela legalidade.

 

Conto 10: “Os casamenteiros”

Narrador

Primeira pessoa: narradora protagonista (Chinaza).

Personagens

· Chinaza/Agatha: mulher nigeriana, recém-casada com um médico nos Estados Unidos.

· Ofodile/Dave: o marido nigeriano que se tornou médico e vive em Nova York.

· Tio Ike e tia Ada: tios da protagonista, nigerianos responsáveis por seu casamento.

· Shirley: vizinha de Ofodile, moradora do 3A.

· Nia: vizinha, moradora do 2D.

Espaço

Flatbush, bairro residencial de Nova York, nos Estados Unidos.

Temas principais

Identidade cultural e assimilação; migração e deslocamento; patriarcado e submissão feminina; casamento arranjado; relações de poder; racismo.

Síntese do enredo

Chinaza foi criada pelos tios Ike e Ada desde a morte de seus pais. Foram eles que conseguiram para ela o casamento com Ofodile, nigeriano que se tornou médico nos Estados Unidos e procurava uma esposa da mesma origem com quem pudesse se casar e constituir família.

Quando o novo casal desembarca em Nova York, vão morar no apartamento 2B em um prédio antigo que Chinaza imaginava bem melhor antes de conhecer. Ofodile, que fazia residência médica, já vivia no lugar e passa os dias inteiros fora de casa em função do trabalho. Como antes de se casar vivia sozinho no local, havia poucos móveis espalhados pela casa, como um sofá bege na sala de estar, uma cama e uma cômoda no quarto maior. A casa tinha um cheiro de bolor antigo.

Ainda tonta da viagem de 10 horas de Lagos a Nova York e da revista interminável na alfândega, que examinara detalhadamente todos os alimentos e ingredientes que trouxera, deita-se pela primeira vez com o marido e fica tranquila quando percebe que ele dorme rapidamente, passando a roncar, sem exigir dela o cumprimento de qualquer obrigação matrimonial. Sua sensação geral é de decepção, tanto com a casa quanto com os roncos do marido, que “começavam como um ribombo profundo na garganta dele e terminavam num apito agudo” (p. 181). Nenhum detalhe sobre o local em que viveriam ou sobre os desafios da convivência fora comentado antes do casamento.

Na manhã seguinte, Chinaza é acordada com o peso do corpo do marido sobre ela e há um primeiro encontro sexual incômodo, que ela percebe como parte de seu novo cotidiano. Ofodile dá algumas instruções sobre o comportamento que espera dela e sobre a linguagem que se espera ouvir nos Estados Unidos, além do nome – Agatha – que ela deve usar naquele país. Ela se sente aliviada por não conseguir falar com os tios por telefone.

Foram os tios que receberam o contato da mãe de Ofodile, que temia que o filho acabasse se casando com uma estadunidense. Os tios mandaram uma foto de Chinaza para eles e ficaram sem receber resposta por algum tempo, até terem a notícia de que Ofodile estaria na Nigéria no início de junho e que eles teriam duas semanas para se conhecerem antes do casamento. A notícia foi dada como se fosse um presente, resultado do sacrifício dos tios em garantir que a sobrinha tivesse um bom casamento: um médico, nos Estados Unidos. Nada poderia ser melhor para uma jovem nigeriana. Chinaza, porém, tinha outros planos, como fazer o exame nacional de admissão para tentar entrar em uma universidade. Ela sabia que os tios esperavam que ela ficasse agradecida e sabia também que era a responsável pelas vendas da padaria da tia Ada, que superavam qualquer outra de Enugu, além do brilho dos móveis e assoalhos da casa.

Para o café da manhã, só havia panquecas congeladas e chá sem leite e sem açúcar, conforme os costumes norte-americanos com os quais Ofodile, conhecido como Dave nos Estados Unidos, achava fundamental ela se acostumar. Shirley, a vizinha do apartamento 3A, surgiu com a correspondência dos dias em que Ofodile esteve na Nigéria e se apresentou a Chinaza. O sobrenome do marido não era o que constava no convite de casamento. Ele justifica a troca pela dificuldade do povo estadunidense em entender e pronunciar; assim, Ofodile Emeka Udenwa passou a se apresentar como Dave Bell e Chinaza Okafor passaria a ser Agatha Bell. Chinaza acha a mudança estranha.

“Você não entende como as coisas funcionam neste país. Se você quiser chegar a algum lugar, tem que ser o mais normal possível. Se não for, vai ser largada na beira da estrada. Tem que usar seu nome inglês aqui.”

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Os casamenteiros. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 186.

 

Ofodile levou Chinaza ao supermercado e a ensinou a usar o transporte público, sempre reforçando a importância de agir como os norte-americanos, falando “biscoito” em vez de “bolacha”, comprando a carne já empacotada e escolhendo a marca do supermercado por ser mais barata, pelo menos até que ele conseguisse se tornar “médico assistente”, que ele explica ser uma forma de dizer “especialista”. Chinaza se lembra de que os casamenteiros diziam que um médico ganhava muito dinheiro nos Estados Unidos.

Um dos planos de Ofodile é deixar aquele bairro periférico quando for um assistente, para não precisar mais conviver com imigrantes que, mesmo em solo norte-americano,  continuam agindo como se estivessem em seu próprio país, falando a própria língua. Além disso, ele também quer comprar um carro novo porque o seu chacoalhava muito e parecia ter diversas peças soltas dentro dele. Ele leva Chinaza para conhecer o shopping, e ela se sente como se estivesse em outro planeta quando vê o chão brilhando e o teto cintilante. Eles comem pizza de pepperoni e linguiça na praça de alimentação, local que ela considerou “humilhantemente público”, lembrando-se de que tio Ike nunca comia em festas se não fosse servido em uma sala privada. Ofodile, ao contrário, parece satisfeito em mostrar-se familiarizado com os costumes estadunidenses e disposto a fazer com que sua recém-chegada esposa os adotasse. Insiste para que ela fale em inglês e não use sua língua local da Nigéria. Ele chama a atenção dela para como todos os norte-americanos parecem saudáveis. O passeio ao shopping termina com uma visita ao McDonald’s, apesar da insistência de Chinaza para que voltassem para casa, onde ela cozinharia para os dois.

Durante a semana, em casa, enquanto Ofodile trabalha, Chinaza faz arroz de coco com ingredientes que encontrou em uma loja jamaicana do bairro, tentando compensar todas as vezes que comeram fora. O cheiro do prato se espalha pelo edifício e Shirley comenta isso quando vem pedir que Ofodile (a quem chama de Dave) fosse dar uma olhada no ar-condicionado de seu apartamento que enguiçara. Shirley diz que o cheiro é bom, mas que o prédio tem muitos moradores sem cultura que não apreciariam. Ofodile volta para casa, senta-se à mesa e come a refeição cheirosa, estalando os lábios em sinal de satisfação. Mas, no dia seguinte, presenteia a esposa com um livro de receitas dos Estados Unidos, dizendo que tinha certeza de que logo ela estaria fazendo uma ótima comida estadunidense.

Chinaza conhece Nia, outra moradora do edifício, e ela a convida para tomarem um refrigerante juntas. Ela aceita, embora pense que a tia Ada não aprovaria a aparência e o comportamento de Nia, que parecia uma ashawo, “por causa da blusa transparente que usava, deixando o sutiã de cor diferente bem visível” (p. 193). A vizinha se interessa pela origem do nome de Chinaza e pergunta seu significado. “Deus atende às preces”, responde. Nia conta que usa esse nome, de origem suaíli, desde os 18 anos, quando passou três anos na Tanzânia.

As duas vão ao apartamento de Nia e conversam enquanto tomam refrigerantes. Nia conta que é cabeleireira, tem um salão e tira folga às segundas-feiras, dia em que se oferece para levar Chinaza para conhecer o Brooklyn. Conta também que tem uma irmã que é gerente da Macy’s e que sabe que lá estão contratando vendedores sem experiência, caso Chinaza se interessasse. As duas combinaram que Chinaza a avisaria quando recebesse seu visto de trabalho.

À noite, Chinaza fala sobre Nia para Ofodile, mas ele hesita, como se não soubesse de quem se tratava. Depois, diz que ela é legal, mas que Chinaza deveria ter cuidado porque ela era uma má influência. Nia passou a visitar Chinaza todos os dias, depois do trabalho. Levava sua própria latinha de refrigerante e ficava sentada vendo Chinaza cozinhar. Falava sobre as mulheres que atendia no salão e sobre os homens com quem saía. Ela sempre ia embora antes de Ofodile voltar.

O inverno chegou e a neve surpreendeu Chinaza. Ofodile disse a ela que tinha se casado com uma mulher norte-americana para conseguir o green card e que agora, muito tempo depois, o divórcio ainda não estava concluído e a mulher, que descobrira que ele se casara de verdade, o estava chantageando para conseguir mais dinheiro do que ele já tinha pagado. Chinaza não compreende por que seu marido não tinha dito a ela que já tinha se casado antes e ele responde que aquela situação era muito comum e que todos faziam da mesma forma. Indignada e sem aceitar as justificativas de Ofodile, Chinaza pergunta o motivo pelo qual ele a escolheu para casar.

“Eu queria uma esposa nigeriana e minha mãe disse que você era uma menina boa, tranquila. Disse que talvez fosse até virgem”, disse ele, sorrindo, e parecendo ainda mais cansado ao fazê-lo. “Eu, provavelmente deveria contar a ela que estava muito enganada.”

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Os casamenteiros. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 197.

 

Ofodile ainda acrescentou que tinha ficado feliz por Chinaza ter a pele clara porque precisava pensar na cor da pele dos filhos que teria, uma vez que negros de pele clara se davam melhor nos Estados Unidos, segundo ele.

Ofendida com a situação, Chinaza prepara sua mala e deixa a casa apenas com as roupas que não eram presente do marido. Vai para a casa de Nia, que faz um chá e procura ajudá-la. Chinaza não quer telefonar para os tios porque sabe que será acusada por eles de ter deixado o marido. Ela pergunta se Nia conheceu a mulher com a qual ele tinha se casado ou se já tinha encontrado alguma namorada dele, e ela confessa que tinha tido relações sexuais com Ofodile dois anos antes e que tiveram um rápido caso de uma semana, mas que nunca namoraram.

Na noite seguinte, Chinaza, compreendendo que não tem condições de abandonar o marido naquele momento, toca a campainha do apartamento em que vivia e é recebida por Ofodile, que dá um passo para o lado para que ela possa passar pela porta e entrar.

Comentários sobre o conto

No conto “Os casamenteiros”, Chimamanda constrói uma narrativa que explora as complexas dinâmicas de identidade, casamento e migração, destacando o impacto das pressões sociais e culturais sobre indivíduos. Narrado em primeira pessoa pela protagonista Chinaza, o conto aproxima o leitor de suas emoções e percepções, criando empatia com a personagem. Esse foco narrativo favorece a expressão das decepções, dos conflitos internos e da sensação de deslocamento de Chinaza, que, ao emigrar para os Estados Unidos e casar-se com Ofodile, enfrenta um processo de despersonalização imposto pelas expectativas do marido e dos tios que organizaram o casamento.

Os personagens são apresentados com uma riqueza de detalhes que expõe suas motivações e contradições. Ofodile, que adota o nome “Dave” nos Estados Unidos, exemplifica a tensão entre a assimilação cultural e a preservação das raízes. Sua atitude em relação a Chinaza reflete uma visão utilitária do casamento, marcada pelo pragmatismo e pelos padrões impostos pela sociedade estadunidense. Chinaza, por outro lado, é retratada como uma jovem cheia de expectativas frustradas, forçada a abandonar sua identidade, simbolizada pela troca de nome e pela obrigação de se adequar a um estilo de vida que não compreende nem aceita plenamente. A interação com as vizinhas Shirley e Nia contribui para enriquecer sua caracterização, apresentando novos ângulos sobre a adaptação e a resistência cultural.

O espaço do conto, o bairro de Flatbush, em Nova York, funciona como um microcosmo das experiências de imigrantes, onde tradições e pressões do novo contexto coexistem. Flatbush, com seus edifícios antigos e atmosfera multicultural, contrasta com as imagens idealizadas que Chinaza tinha dos Estados Unidos, acentuando seu sentimento de alienação. Além disso, o espaço é palco das tensões entre o desejo de Ofodile de se distanciar da cultura nigeriana e a necessidade de Chinaza de se agarrar a ela como forma de sobrevivência emocional.

Por fim, o conto debate temas como o patriarcado, a imigração e as transformações da identidade cultural, mostrando como o casamento de Chinaza é um exemplo dessas questões. A escolha de Chimamanda por um espaço e por personagens que refletem diferentes graus de assimilação e resistência ressalta as complexidades de se viver entre dois mundos. A conclusão do conto, com Chinaza retornando ao apartamento de Ofodile, não oferece resoluções fáceis, mas evidencia a força e a vulnerabilidade da protagonista em um cenário marcado por múltiplas opressões.

 

Conto 11

“Amanhã é tarde demais”

Narrador

Segunda pessoa: o narrador refere-se à protagonista como “você” ao longo de todo o conto e assume seu ponto de vista. A impressão que se tem é de que a voz narrativa pode ser compreendida como uma espécie de consciência da protagonista.

Personagens

· Protagonista não nomeada.

· Nonso: o irmão, único homem que carregava o sobrenome Nnabuisi e que morre ainda criança, caindo de uma das árvores no quintal da avó.

· Dozie: o primo mais velho, filho da tia Mgbechibelije.

Espaço

Nigéria: quintal da casa da avó da protagonista.

Temas principais

Culpa e arrependimento; morte e luto; ancestralidade e tradições familiares; trauma e memórias fragmentadas; distanciamento emocional nas relações familiares.

Síntese do enredo

A protagonista é lembrada pelo narrador das últimas imagens que tem da Nigéria, país que deixou há dezoito anos, após o divórcio de seus pais e a promessa de sua mãe de que nunca mais pisaria lá para visitar a família do pai, principalmente a avó, com quem ela passara momentos marcantes, dos quais se lembra vivamente mesmo tanto tempo depois. Ela, seu irmão Nonso e seu primo Dozie passavam os dias no quintal da avó, que ensinava Nonso a subir em árvores e sacudir os galhos para derrubar as frutas maduras e sempre cuidava para que ele fosse o primeiro a tomar os goles de água de coco nos rituais de distribuição que promovia. Dozie era mais velho, mas era filho de sua filha. Nonso era o filho homem de seu filho e, portanto, aquele que levaria o sobrenome da família –Nnabuisi – adiante.

As lembranças se embaralham, mas a voz narrativa rememora que ela se apaixonou por Dozie quando tinha apenas sete anos e ele, dez.

vocês se espremeram no espaço minúsculo atrás da garagem da vovó e tentaram enfiar o que ambos chamavam de a “banana” dele naquilo que ambos chamavam de o seu “tomate”, mas nenhum dos dois sabia direito qual era o buraco certo.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Amanhã é tarde demais. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 202.

 

Além disso, juntos matavam os piolhos de sua cabeça, riam e esmagavam suas barrigas cheias de sangue. O irmão crescera repentinamente, e o amor pelo primo Dozie aumentou até envolver sua pele. Naquele mesmo verão, ela viu uma mangueira se partir ao meio durante uma tempestade e enfrentou a morte de Nonso. Ele morreu em um dia comum. A avó gritou com ele, pois se sentia traída por não ter mais quem perpetuasse o nome de sua família. Foi uma vizinha da avó quem conseguiu arrancar dela o número do telefone nos Estados Unidos e telefonou à mãe de Nonso para contar o acontecido. Mesmo com a tentativa da vizinha em mantê-la afastada da conversa entre a mãe e a avó, ela ouviu as duas discutindo sobre o que fazer com o corpo do irmão, mais do que lamentando sua morte. A mãe queria o traslado imediato do corpo para os Estados Unidos, mas a avó, cujos olhos já eram espreitados pela loucura, não concordava. Mesmo sabendo que as duas não se gostavam e que a avó nunca concordara com o casamento do filho com aquela norte-americana, as duas pareciam ligadas de alguma forma naquele momento. Ela era capaz de imaginar que a mãe também tivesse a mesma loucura nos olhos.

Ao telefone, a menina não conseguiu responder à pergunta incessante da mãe sobre o estado dela, como se quisesse acusá-la de não estar sofrendo o quanto deveria pela morte do irmão. A mãe disse que tentaria avisar o pai, que estava incomunicável em um festival de arte negra em um lugar remoto, no meio da floresta. Antes do término da conversa, a mãe emitiu um som, uma espécie de soluço que parecia o latido de um cão, que fez com que a filha se lembrasse da risada que ela sempre dava quando saía do quarto de Nonso depois de dar boa-noite ao filho, risada que nunca repetia quando saía de seu quarto.

A avó, que permanecia deitada no chão, rolando de um lado para o outro, não concordava com o despacho do corpo e repetia que o espírito de Nonso ficaria vagando pela Nigéria, sua terra original.

Dezoito anos depois, as árvores da casa da avó pareciam iguais, ainda que toda a casa parecesse bem menor e o túmulo da avó, no fundo do quintal, fosse extremamente pequeno. Ela fora recebida por Dozie, que ligara para ela pela primeira vez em dezoito anos para comunicar a morte da avó. Ele a recebeu no aeroporto e cuidou dela com cuidado, se disse surpreso por sua volta e olhou profundamente em seus olhos, fazendo-a se lembrar da morte de Nonso e do segredo que agora só os dois sabiam. No carro, Dozie perguntou sobre a mãe dela, e ela respondeu que a mãe agora vivia na Califórnia, sem mencionar que era em uma comunidade alternativa e que a relação das duas estava tão deteriorada a ponto de ela encerrar os últimos telefonemas da mãe antes de terminarem a conversa. No quintal, próximo ao abacateiro da infância, ela tenta compreender o tamanho do amor que sentia quando tinha apenas dez anos de idade e agarrava com força a mão do primo, na mesma tarde em que o irmão morrera. Lembra-se do momento em que sua tia Mgbechibelije veio buscar Dozie. Ela se pergunta sobre os anseios dele e pensa no quanto nunca entendeu alguns de seus mistérios.

Ela tem medo de que Dozie toque no assunto da morte de Nonso, mas ele apenas reforça sua surpresa com o desejo dela em se despedir da avó, considerando o ódio que sabia que sentia por ela. A palavra ódio desencadeou todas as lembranças do dia em que se viram pela última vez, naquele “verão úmido do reino amoral de sua infância” (p. 206), e da versão que contara à mãe sobre o acidente que o matou. Havia sido depois do enterro dele, em um cemitério frio da Virgínia, onde o pai observou tudo a distância, como se fosse um convidado afastado da família. Ao final, ele perguntou a ela como Nonso tinha morrido, como poderia ter caído de uma daquelas árvores do quintal da casa da avó que conhecia tão bem desde a infância. A versão que ela contou para a mãe só surgiu mais tarde, depois que a mãe mencionou o divórcio, afirmando que aquilo não estava acontecendo por causa de Nonso, mas porque ela e seu pai já estavam em processo de afastamento, como se apenas o filho homem e morto pudesse ser um motivo para o afastamento do casal, mas jamais a filha ainda viva.

Quando a mãe perguntou diretamente o que havia acontecido naquela tarde, ela disse que a avó, testando o amadurecimento de seu neto, fez com que ele subisse até galhos mais altos do que costumava atingir. Quando ele estava lá em cima, ela viu uma cobra muito venenosa em outro galho e pediu que Nonso tivesse cuidado e não se mexesse, mas ele escorregou e caiu do alto da árvore. Apesar de o neto ainda estar respirando, a avó não conseguiu socorrê-lo porque ficou gritando ao lado do corpo que ele a traíra, já que não tinha mais ninguém que levasse adiante o nome da família, responsabilidade que era dele.

A reação da mãe foi muito forte. Ela começou a gritar e telefonou para o marido, amaldiçoando o dia em que colocara os olhos nele pela primeira vez e dizendo que a mãe dele era a culpada por não ter socorrido o menino ainda vivo e deixar que ele morresse. Mais tarde, o pai conversou com a filha e disse para que ela tomasse cuidado com o que dizia para não causar mais sofrimento. Ela ficou em dúvida se o pai, de alguma maneira, sabia o que realmente tinha acontecido naquela tarde do último verão que passara na Nigéria.

Foi naquele verão que ela havia tido sua primeira revelação e percebido que só poderia sobreviver se algo acontecesse a Nonso. Isso foi explicado a Dozie e ele não disse nada. A ideia era que Nonso quebrasse as pernas ou ficasse aleijado para não ser mais capaz de fazer tudo o que fazia.

Fora dela a ideia de assustar o irmão com a cobra “echi eteka”, e ela tinha desafiado Nonso a subir até o topo do abacateiro enquanto a avó estava dentro da casa, cozinhando.

Foi fácil convencê-lo: bastou lembrar que você subia em árvores melhor do que ele. E subia mesmo, conseguia trepar numa árvore, qualquer árvore, em questão de segundos – você era melhor nas coisas que não precisavam ser ensinadas, nas coisas que a vovó não podia ensinar a ele.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Amanhã é tarde demais. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 209.

 

Os galhos eram fracos, e Nonso era mais pesado que a irmã. Ela esperou que ele estivesse na passagem de um movimento para outro para dar o alarme de cobra próxima, o que fez com ele se assustasse, caísse no chão e morresse na hora. Ela permaneceu olhando para Nonso estatelado no chão, em silêncio, ao lado de Dozie, antes de correr para chamar a avó dentro da casa.

A morte do irmão não tornou a mãe mais presente ou carinhosa em sua vida, e não foi suficiente para que ela desse a risada tão desejada pela filha na hora de colocá-la para dormir. Pelo contrário, a mãe passou a ter um cuidado excessivo com a filha, falando sempre aos sussurros, enquanto a filha evitava seus beijos fingindo tosse ou espirros. Ela nunca mais permitiu que a filha voltasse a ver o pai ou que fosse outra vez para Nigéria.

Dozie conta que tem tido sonhos em que vê Nonso mais velho, mais alto que ele. Ela pergunta o que, afinal, ele queria naquele verão, ao que ele responde que não desejava nada porque tudo girava em torno dos desejos dela.

Ele pergunta se você tem sonhos como os dele, e você diz não, [...] quer falar da dor no seu peito, do vazio nos seus ouvidos e da baforada de ar após o telefonema dele, das portas que tinham sido escancaradas, das coisas aplanadas que pularam para fora, mas Dozie está se afastando. E você está chorando, parada, sozinha, sob o abacateiro.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Amanhã é tarde demais. In: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. No seu pescoço. Trad. Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 211.

 

Comentários sobre o conto

O conto “Amanhã é tarde demais” apresenta uma narrativa densa, marcada por uma profunda introspecção e um uso provocativo da narração em segunda pessoa. Essa escolha narrativa, em que a voz se dirige diretamente à protagonista como “você”, aproxima o leitor de suas memórias e sentimentos, atribuindo uma atmosfera de culpa e arrependimento a toda a trama. A linguagem direta, mas emocionalmente carregada, traduz com precisão os conflitos internos da protagonista, explorando sua luta para enfrentar traumas do passado.

A protagonista, cujo nome não é revelado, reconstrói sua história de maneira fragmentada, revisitando o evento traumático da morte de seu irmão Nonso. Ele, como único homem da família Nnabuisi, representava a esperança da avó de preservar o nome e as tradições familiares. Sua morte precoce, no entanto, desencadeia uma série de conflitos emocionais que a protagonista carrega ao longo da vida. A avó, símbolo da ancestralidade e da continuidade cultural, emerge como figura central, enquanto a mãe da protagonista é retratada como distante e emocionalmente ausente. O primo Dozie, por sua vez, desempenha um papel ambíguo, alternando entre objeto de desejo infantil e guardião silencioso de segredos dolorosos.

O tempo e o espaço no conto são profundamente simbólicos. O enredo oscila entre o passado, repleto de memórias de infância e traumas não resolvidos, e o presente, marcado pelo retorno físico da protagonista à Nigéria para o funeral da avó. A casa da avó, com seu quintal e o icônico abacateiro, torna-se tanto um espaço físico quanto um território emocional, um lugar onde o passado e o presente se sobrepõem. O abacateiro, em particular, simboliza a relação da protagonista com Nonso e serve como uma lembrança constante do evento trágico que moldou sua vida.

A autora explora, ainda, o peso da ancestralidade na cultura nigeriana. A avó, como guardiã das tradições, lamenta profundamente a perda de Nonso, acreditando que seu espírito jamais encontrará paz. Esse elemento reforça a presença inescapável da herança cultural e das expectativas familiares, que influenciam as escolhas e o comportamento dos personagens.

 

Conto 12: “A historiadora obstinada”

Narrador

Terceira pessoa.

Personagens

· Nwamgba: a esposa viúva. Fazia comida e cerâmica e era considerada obstinada e de língua ferina pelo pai. Venceu o irmão em uma luta, o que causou vergonha no pai, que não queria que ninguém de fora da família soubesse do ocorrido.

· Obierika: o marido, filho único de outro filho único cujas esposas sofreram muitos abortos. Tocava flauta à noite.

· Okafo e Okoye: primos da família da mãe de Obierika, inicialmente detestados por Nwamgba, mas depois tolerados por ela.

· Ayaju: amiga íntima de Nwamgba. Ambas foram criadas juntas e casaram com homens do mesmo clã.

· Anikwenwa/Michael: filho de Nwamgba e Obierika. Seu nome homenageia “Anik”. Foi batizado como Michael depois que passou a fazer parte da missão cristã.

· Okenwa: marido de Ayaju.

· Mgbeke: esposa de Anikwenwa.

· Peter/Nnamdi: primeiro filho de Anikwenwa e Mgbeke; neto de Nwamgda.

· Grace/Afamefuna: segunda filha de Anikwenwa e Mgbeke. Nwamgda tem certeza de que é a reencarnação de Obierika.

· Senhor Gboyega: nigeriano, especialista em história do Império Britânico.

· George Chikadibia: homem com quem Grace se casa e de quem se divorcia em 1972. Engenheiro, formado pelo King’s College em Lagos, não concordava com os estudos dela sobre o que chamava de “cultura primitiva”.

Espaço

Aldeia igbo, próxima a Onicha, no sudeste da Nigéria; margens do riacho Oyi.

Temas principais

Colonização; resistência cultural; identidade.

Síntese do enredo

Depois de muitos anos da morte do marido, Nwamgba ainda se lembra dos momentos felizes que passaram juntos. Lembra-se de que percebeu que se casaria com Obierika   desde a primeira vez que o viu, quando ainda não tinha sequer menstruado pela primeira vez. Sua mãe, quando soube, não gostou da ideia, porque Obierika era filho único e seu pai também o era, pois pertenciam a uma família que, provavelmente, havia quebrado o tabu de vender uma menina como escrava, o que fez com que as esposas sofressem vários abortos, como uma espécie de maldição. O pai de Nwamgba, que achava a filha cansativa e obstinada demais, embora também se preocupasse com a provável infertilidade da família, achava que eram boas pessoas, reconhecidas pela comunidade, e deu a bênção para que se casassem. Ele sabia que o melhor a fazer era permitir que a filha fosse embora com alguém escolhido por ela para assim evitar que ela voltasse para a casa dos pais em virtude de prováveis brigas com os sogros.

Quando pagou seu dote, Obierika trouxera com ele dois primos – Okafo e Okoye –, detestados à primeira vista por Nwamgba e depois apenas tolerados por ela. Ela os achava invejosos e percebeu esse sentimento aumentar com a prosperidade de Obierika. Foram eles que insistiram para que Obierika se casasse com uma segunda esposa depois de três abortos sofridos por Nwamgba. Obierika, quando estava sozinho com a esposa, reafirmava que achava possível ter muitos filhos naquela família e que não pretendia se casar com outra esposa, pelo contrário, queria envelhecer ao lado de Nwamgba. Ela se preocupava com isso, exatamente porque não era comum que um homem próspero tivesse apenas uma esposa e, por isso, passou a se encarregar pessoalmente pela busca de alguém que pudesse cumprir aquela função.

Para encontrar essa mulher, Nwamgba contou a ajuda de Ayaju, sua amiga de infância, que vivia um casamento infeliz com Okenwa, marido que não escolhera e que, para ela, tinha cara e cheiro de rato. Nwamgba, porém, não acatou as sugestões de Ayaju e, enquanto falava com ela, sentia que estava mais uma vez grávida, mas não contou a ninguém por prever que, mais uma vez, perderia a criança, o que de fato aconteceu semanas mais tarde. Obierika consolou a esposa e sugeriu que fossem juntos procurar Kisa, o famoso oráculo, de quem receberam instruções para sacrificar uma vaca e oferecê-la aos ancestrais. Cumpridos os rituais de limpeza e sacrifícios, finalmente nasceu Anikwenwa, o primeiro filho do casal. A família era visitada com frequência por Okafo e Okoye, que valorizavam as habilidades do garoto em tocar flauta e aprender movimentos de luta com o pai, mas continuavam a ser vistos por Nwamgba como um grande perigo à família.

Obierika morre envenenado pela feitiçaria dos primos e Nwamgba fica abraçada ao corpo do marido até ser obrigada a largá-lo. Sua morte “a deixou num desespero interminável” (p. 217), e ela decidiu que não se suicidaria por causa de Anikwenwa. Ela não insistiu para que os primos bebessem o mmili ozu dele na frente do oráculo e, mais tarde, se arrependeu de não o ter feito. Ela já havia presenciado um suspeito sendo obrigado pela família do morto a beber o mmili ozu na frente de todos. Ele morreu poucos dias depois, o que confirmou que era ele o culpado pelo assassinato. Durante o enterro de Obierika, seus primos pegaram as presas de marfim, os bodes adultos do curral e os inhames do celeiro. Nwamgba se indignou e, à noite, entoou cânticos de protesto à perversidade e às abominações que aquela maldade traria para a terra até que os anciões do lugar a mandassem embora. Foi uma reclamação dela no Conselho das Mulheres que fez com que vinte delas fossem até a casa de Okafo e Okoye exigir que eles deixassem Nwamgba em paz. Ela sabia que eles nunca parariam e passou a não deixar que Anikwenwa saísse para “brincar nas noites de lua, a não ser que ela estivesse de guarda” (p. 218).

Ayaju, ao retornar de uma viagem, traz notícias sobre os problemas causados pelos homens brancos em Onicha. Eles primeiro tinham construído um posto de troca, depois começaram a querer ensinar as mulheres a fazer negócios e, quando os locais não quiseram assinar os documentos que propunham, arrasaram toda a aldeia em um ataque noturno. Mesmo assim, Ayaju resolveu mandar o filho Azuka para a escola recomendada pelos brancos, porque queria que ele estudasse e tivesse boas oportunidades na vida. Nwamgba não entende exatamente o que está acontecendo em Onicha, mas sonha em vingar-se de Okafo e Okoye usando as armas dos brancos. Quando ela conhece os brancos, porém, acha seu aspecto ordinário e compreende que eram os soldados do governo britânico e os mercadores da Royal Niger Company que destruíam as aldeias, embora, segundo eles mesmos, só trouxessem boas-novas. Eles pertenciam à Congregação do Espírito Santo, haviam chegado a Onicha em 1885 e estavam construindo uma escola e uma igreja lá.

Algum tempo depois, Ayaju conta que os homens brancos construíram um tribunal em Onicha e o usavam para julgar disputas locais. Conta também que Azuka – seu filho – já está aprendendo os hábitos dos brancos e acha que Anikwenwa deveria fazer o mesmo. Nwamgba se recusa a entregar seu único filho aos homens brancos, mesmo que estes tivessem armas poderosas. Mas não demora muito a mudar de ideia, ao ter um grande pedaço de sua terra roubado pelos primos Okafo e Okoye, que diziam aos anciões que faziam isso para protegê-la. Além disso, ouviu de Ayaju histórias sobre o tribunal dos brancos, onde quem saía vitorioso era quem melhor falasse a língua deles, e não necessariamente quem defendesse a verdade. O terceiro motivo que a fez mudar de ideia foi a história do menino Iroegbunam, desaparecido anos antes e reaparecido homem adulto. Ele tinha sido raptado por um vizinho enquanto a mãe estava no mercado, sofreu maus-tratos e acabou encaminhado para ser comercializado como escravo, até ser salvo por um homem branco que o libertou e o treinou para ser missionário cristão. Foi o desejo de ver seu filho livre dos primos de Obierika e capaz de falar bem o suficiente no tribunal dos brancos que fez com que Nwamgba mandasse Anikwenwa para a escola. A grande  preocupação de Nwamgba era que seu filho também fosse raptado e vendido exatamente porque matá-lo seria muito perigoso, já que os oráculos haviam previsto infortúnios para os primos de Obierika.

Na escola anglicana, Nwamgba acha estranho o fato de as aulas serem dadas em igbo e não aprova a atribuição das tarefas de costura para as meninas, já que, “em seu clã, as meninas aprendiam a fazer cerâmica e eram os homens que costuravam tecidos” (p. 222). Mesmo com as explicações do professor sobre a importância do respeito aos interesses dos nativos, Nwamgba preferiu ir à escola dos missionários católicos, tidos como severos e sem consideração pela cultura local. Anikwenwa foi batizado como Michael e Nwamgba não se importou que o filho passasse a ser chamado por um nome que ele nem conseguia pronunciar. Ela causou uma boa impressão no padre, que percebeu sua assertividade e se convenceu de que ela daria uma ótima missionária.

O que alarmou Nwamgba foi a forma indiscriminada como os alunos eram açoitados, ou por chegarem atrasados ou por não alcançarem o rendimento esperado deles. Até mesmo algemas eram usadas para garantir que os alunos não mentissem. Para o padre Lutz, “ensinar as escrituras também significava ensinar disciplina” (p. 224). Quando Anikwenwa chegou em casa com dois vergões violentos nas costas, Nwamgba foi à escola e avisou que seria capaz de arrancar os olhos de todos na missão se soubesse que seu filho tinha sofrido aquele tipo de punição outra vez. A justificativa era de que o desempenho de Anikwenwa estava aquém do esperado. Mesmo ela tendo recebido orientações das pessoas da missão para que não aparecesse lá com frequência, Nwamgba voltava todos os finais de semana para levar o filho para casa. Aos poucos, Anikwenwa mudou sua postura frente à escola, principalmente quando percebeu que suas roupas e o inglês que passara a falar causavam admiração e respeito em seu clã. Ele também se mostrava mais sério do que antes, “como se subitamente houvesse descoberto que era obrigado a carregar um mundo pesado demais” (p. 225).

Anikwenwa começa a comentar a forma como Nwamgba usa sua canga, afirmando que manter parte do corpo à mostra era pecado e que ela deveria amarrar a canga ao redor do peito. Ele se recusa a participar da cerimônia ima mmuo porque havia aprendido que a aproximação dos meninos com o mundo dos espíritos também era uma prática condenada pela igreja. Depois de repreendido pela mãe, cada vez mais preocupada com a mudança do filho, juntou-se aos meninos sem nenhum entusiasmo para a cerimônia. O grande orgulho de Nwamgba foi quando Anikwenwa conseguiu recuperar a presa de marfim que havia sido levada pelos primos Okafo e Okoye. Ele foi até eles, pediu que a devolvessem e eles obedeceram.

Com o passar do tempo, Anikwenwa partiu para Lagos com a intenção de formar-se professor. Durante os anos em que esteve fora, Okafo morreu e Nwamgba só sabia que o filho estava vivo por causa das respostas do dibia. Depois de algum tempo, quando morreu um menino do grupo de que Anikwenwa faria parte se não tivesse se tornado um missionário, ele voltou. Nwamgba olhava para o filho, que agora usava calças e andava com um rosário no pescoço, e não se surpreendeu quando ele comunicou que se casaria com uma moça considerada adequada pela missão e que estava sendo preparada para ser uma boa esposa cristã pelas irmãs do Rosário Sagrado em Onicha. Nwamgba, inquieta, sempre se perguntava se havia interferido no destino do filho.

Nwamgba estava decidida a não gostar da nora, mas Mgbeke era uma moça de cintura fina e comportamento gentil, que fazia tudo para agradar ao marido e chorava e pedia desculpas por tudo aquilo que não conseguia controlar. Ela inspirava pena em Nwamgba. Era muito respeitada por ser a esposa do catequista, mesmo por aqueles que não eram cristãos, mas no dia em que se recusou a tirar a roupa com as outras mulheres no rio Oyi, acabou espancada e abandonada no mato. Na visita que o padre O’Donnell fez aos anciões do clã, ele perguntou se Mgbeke não poderia obter autorização para ir vestida buscar água no rio, o que foi negado.

Sofrendo ao ver a vida apartada que seu filho e nora levavam, tratando com preconceito todos os que não eram cristãos, Nwamgba sonhava em ter um neto homem e acreditava que sua chegada seria a reencarnação de Obierika, o que traria um novo sentido à sua vida. Mgbeke, porém, sofreu três abortos espontâneos e ficou muito assustada quando a sogra revelou que aquele era um problema de família e que deviam consultar o oráculo em busca de uma solução, o que Anikwenwa repudiaria se soubesse. Nwamgba foi sozinha buscar uma resposta. Alguns meses depois, Mgbeke finalmente engravidou. Ainda que o pai tivesse decidido que a criança nasceria na missão em Onicha, Mgbeke entrou em trabalho de parto antes do tempo e teve seu filho em casa. Batizado Peter, o menino era chamado de Nnamdi pela avó, que acreditava que a criança era o espírito de Obierika que tinha voltado. Depois de mais três abortos, Mgbeke teve uma segunda criança, Afamefuna, uma menina nascida na missão em Onicha e batizada Grace pelo padre O’Donnell ao nascer. Nwamgba teve certeza de que era o espírito de Obierika quando pegou a neta no colo pela primeira vez.

A neta sempre foi muito interessada nas histórias e poemas narrados pela avó e, quando adolescente, mantinha-se atenta à prática de Nwamgba com a cerâmica, embora ela tivesse as mãos cada vez mais trêmulas e menos firmes. As duas afastaram-se quando Afamefuna foi para outro lugar cursar o Ensino Médio. Peter, seu irmão mais velho, já vivia com os padres em Onicha, e Nwamgba temia que a curiosidade e o espírito lutador da neta fossem substituídos “por uma rigidez sem curiosidade, como acontecera com Anikwenwa” (p. 230).

Nwamgba passa a se sentir mais próxima da morte no ano em que Afamefuna partiu para o internato em Onicha. Anikwenwa implorava que a mãe fosse batizada e recebesse a extrema-unção para que pudesse ter um enterro católico, mas Nwamgba recusou, dizendo que precisava ver a neta antes de ir se encontrar com seus ancestrais. Mesmo estando em semana de provas no internato, Afamefuna foi sozinha ver a avó porque tinha o espírito inquieto e já passara várias noites sem dormir sentindo uma inexplicável necessidade de voltar para casa.

Depois de ser repreendida e castigada muitas vezes por chamar de poesia o que tinha aprendido com a avó, Afamefuna passou a nutrir um profundo ressentimento pelo pai. Durante anos ela passou as férias trabalhando de empregada em Onicha para evitar contato com o comportamento beato e azedo de Anikwenwa e Nnamdi. Afamefuna tornou-se professora de Ensino Fundamental em Agueke, onde circulavam histórias sobre a destruição de sua aldeia pelos homens brancos. A demissão do senhor Gboyega, especialista em história do Império Britânico, do Conselho de Exames da África Ocidental pela discussão sobre inserir história africana ao currículo escolar, uma vez que ele não aceitava a ideia de que história da África fosse uma disciplina, gerou mais reflexões e mais tristeza em Afamefuna.

Ao questionar tudo o que aprendera, Grace resolveu voltar para casa para ver o pai, já velho, dizer amém e beijar sua testa quando ele fazia as orações diárias. Também preferiu dizer a ele que não tinha recebido as cartas que, na verdade, havia simplesmente ignorado. Grace escreveu um livro – Pacificando com balas: uma história recuperada do sul da Nigéria – em que buscou reinventar as vidas e os cheiros do mundo de sua avó. Casou-se com George Chikadibia, um engenheiro nigeriano que não dava nenhuma importância aos estudos dela sobre o que considerava uma cultura primitiva. Sofreu quatro abortos e se divorciou quando percebeu que seria capaz de esganá-lo caso tivesse que ouvir seus discursos inflamados sobre o tempo em que vivera em Cambridge. Ela tornou-se uma especialista em povos ijaw, igbo, ibidio e efuk, do sul da Nigéria. Ganhou prêmios da universidade e generosas remunerações pelos relatórios sobre o assunto que preparava para organizações internacionais.

No fim da vida, sentindo-se afastada de suas raízes, Grace foi a um cartório em Lagos e mudou oficialmente seu primeiro nome para Afamefuna. Entre seus prêmios, amigos e jardins de rosas inigualáveis, sempre imaginava sua avó observando tudo e rindo, muito divertida, por tudo que a neta se tornara.

Comentários sobre o conto

O conto “A historiadora obstinada” aborda os impactos da colonização na cultura igbo por meio de gerações de uma família cujas vidas são moldadas por conflitos entre as tradições locais e a assimilação da cultura europeia. Nwamgba, a matriarca, é uma figura central que encarna a resistência cultural e a adaptação estratégica diante das mudanças impostas pela presença colonial. Seu esforço para proteger o filho Anikwenwa das ameaças internas representadas pelos primos Okafo e Okoye a leva a tomar uma decisão que altera profundamente o destino da família: enviá-lo para a escola missionária. Essa decisão, motivada pela necessidade de sobrevivência no novo sistema jurídico e social introduzido pelos britânicos, simboliza a complexa relação entre preservação cultural e subordinação às forças coloniais.

O espaço é crucial na narrativa, situando os acontecimentos em uma aldeia próxima a Onicha, no sudeste da Nigéria, durante o auge da dominação britânica. O ambiente rural e tradicional contrasta com a crescente influência dos missionários, tribunais coloniais e práticas ocidentais, representando o dilema enfrentado por muitos nigerianos no século XX: adaptar-se ou resistir. O tempo histórico reforça essa tensão, abrangendo a transição entre um sistema comunitário e um modelo social hierárquico, imposto por meio da religião e do aparato jurídico britânico.

Os personagens refletem as diferentes respostas às mudanças culturais. Anikwenwa, renomeado Michael, é um símbolo de assimilação; ele adota os valores cristãos a ponto de repudiar as tradições do clã e impor práticas ocidentais à própria mãe. Sua esposa, Mgbeke, também vive o dilema entre o respeito aos costumes e as normas cristãs, sofrendo exclusão tanto por parte do clã quanto da comunidade cristã. Já Grace, ou Afamefuna, neta de Nwamgba, percorre um caminho de busca pela identidade ao revisitar as histórias da avó, adotando um papel de historiadora crítica que tenta recuperar as narrativas locais apagadas pela colonização. Sua trajetória aponta para um esforço de reconciliação entre o passado ancestral e o presente globalizado.

A narrativa evidencia como o colonialismo desestabilizou não apenas as estruturas sociais e políticas, mas também as relações familiares e a identidade individual. As escolhas de Nwamgba, baseadas na necessidade de proteção, resultam em consequências inesperadas, como o afastamento cultural de seu filho e dos netos. Contudo, a figura de Grace/Afamefuna sugere uma possibilidade de resgate e valorização das memórias locais, ainda que sob a influência de um mundo moldado pela modernidade e pelo colonialismo.






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  Introdução Aspectos biográficos da autora Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em 15 de setembro de 1977, na cidade de Enugu, capital do estado...