-
Leia o poema a seguir, extraído do livro Geografia, para responder às questões
1 a 3.
Na
manhã recta e branca do terraço
Em
vão busquei meu pranto e minha sombra
O
perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente
da seda e da serpente
No
meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas
de água mãos de areia pura
A
luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem
a linha das águas me divide
Mergulho
até meu coração de gruta
Rouco
de silêncio e roxa treva
O
promontório sagra a claridade
A
luz deserta e limpa me reúne
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Manhã. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner.
O Cristo
Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p.
30.
QUESTÃO 01
Com base na leitura do poema, é
possível afirmar que o estado de espírito do eu lírico é marcado
principalmente:
a) pela nostalgia do passado,
evidenciada na busca pela sombra e pelo pranto.
b) pela angústia provocada pela
perda da identidade frente à vastidão do mar.
c) pela experiência de plenitude
resultante da comunhão com os elementos da natureza.
d) pela confusão emocional
expressa nas imagens da sombra e da serpente.
e) pelo ressentimento diante da
indiferença da natureza em relação ao sofrimento humano.
QUESTÃO 02
Nos poemas de Geografia, observa-se com frequência a busca da inteireza. No poema
“Manhã”, o verso que melhor traduz esse ideal é:
a) “O promontório sagra a
claridade”.
b) “Nem a linha das águas me
divide”.
c) “Pupilas de água mãos de areia
pura”.
d) “Mergulho até meu coração de
gruta”.
e) “O perfume do orégão habita
rente ao muro”.
QUESTÃO 03
O poema estabelece uma oposição
entre:
a) o calor da praia e o frio das
águas.
b) a manhã branca e a sombra da
noite.
c) o barulho do mar e o silêncio
da gruta.
d) a luz do dia e a escuridão do
coração.
e) o perigo da serpente e a
segurança do deserto.
- Leia o poema “Senhora da rocha”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, para responder às questões 4 a 6.
Tu não estás como Vitória à proa
Nem abres no extremo do
promontório as tuas asas
Nem caminhas descalça nos teus
pátios quadrados e caiados
Nem desdobras o teu manto na
escultura do vento
Nem ofereces o teu ombro à seta da
luz pura
Mas no extremo do promontório
Em tua pequena capela rouca de
silêncio
Imóvel muda inclinas sobre a prece
O teu rosto feito de madeira e
pintado como um barco
O reino dos antigos deuses não
resgatou a morte
E buscamos um deus que vença
connosco8 a nossa morte
É por isso que tu estás em prece
até ao fim do mundo
Pois sabes que nós caminhamos nos
cadafalsos do tempo
Tu sabes que para nós existe
sempre
O instante em que se quebra a
aliança do homem com as coisas
Os deuses de mármore afundam-se no
mar
Homens e barcos pressentem o
naufrágio
E por isso não caminhas cá fora
com o vento
No grande espaço liso da luz
branca
Nem habitas no centro da exaltação
marinha
O antigo círculo dos deuses
deslumbrados
Mas rodeada pela cal dos pátios e
dos muros
Assaltada pelo clamor do mar e a
veemência do vento
Inclinas o teu rosto
Imóvel muda atenta como antena
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Senhora da rocha. In: ANDRESEN, Sophia de Mello
Breyner. O Cristo Cigano; Geografia.
São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 33-34.
QUESTÃO 04
Com base no poema, é correto
afirmar que:
a) o tempo é uma força capaz de
restabelecer a aliança do homem com as coisas.
b) a Senhora da Rocha simboliza a
natureza silenciosa, indiferente à morte humana.
c) o sujeito lírico demonstra fé
nos antigos deuses, capazes de salvar o ser humano da morte.
d) a aliança do homem com as
coisas se refere à valorização da matéria em detrimento do espírito.
e) o poema opõe a efemeridade da
vida humana e a permanência da Senhora da Rocha.
QUESTÃO 05
No poema, o recurso da anáfora ou
do polissíndeto, observado na primeira estrofe, tem a função de:
a) afirmar a superioridade da
Vitória de Samotrácia.
b) enumerar as ações heroicas das
divindades do passado.
c) criar uma oposição entre a
Senhora da Rocha e os antigos deuses.
d) construir uma imagem grandiosa
da mulher que domina a natureza.
e) criticar a impotência das
divindades gregas diante do tempo e da morte.
QUESTÃO 06
Do ponto de vista formal, no poema
estão presentes elementos modernistas como:
a) o tom irônico e a construção
objetiva da cena.
b) a fragmentação do sujeito
lírico e a forma fixa.
c) a métrica regular e as rimas
toantes elaboradas.
d) o verso livre e a ausência de
pontuação convencional.
e) a linguagem prosaica e a
ausência de imagens poéticas.
- Texto para as questões 7 e 8
Texto I
A minha maneira de escrever
fundamental é muito próxima deste “acontecer”. O poema aparece feito, emerge,
dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e anoto.
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Coral e outros
poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 367.
Texto II
A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu
polido
De certa forma
Fico alheia
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Escrita do poema. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O
Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 105.
QUESTÃO 07
Nos versos do texto II, verifica-se
a presença de um(a):
a) onomatopeia em “silêncio
grave”.
b) hipérbato em “brilha
docemente”.
c) antítese em “branco” e
“negrura”.
d) paronomásia em “traça” e
“branco”.
e) hipérbole em “fico alheia”.
QUESTÃO 08
Com base na leitura dos dois
textos, é correto afirmar que a escrita poética é resultado de:
a) uma observação minuciosa do
mundo aliada ao labor do artista.
b) uma consciência política,
comunicada para provocar transformações sociais.
c) um processo racional, em que
cada palavra é escolhida com precisão técnica.
d) uma manifestação espontânea,
que se impõe à consciência como algo já formado.
e) um momento introspectivo, em
que o eu poético traduz suas experiências em linguagem.
QUESTÃO 09
Leia os fragmentos abaixo, extraídos
de poemas do livro GeOgrafia, de
Sophia de Mello Breyner Andresen, para responder à questão.
Texto I
Os meus passos escutam o chão
enquanto a alegria do en-
contro me desaltera e sacia. O meu
reino é meu como um vestido
que me serve.
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Ingrina. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner.
O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 29.
Texto II
A nossa vida é como um vestido que
não cresceu connosco
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. No quarto. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O
Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.p. 65.
a) A imagem do vestido carrega o
mesmo significado nos dois textos? Justifique.
b) No texto I, vemos a repetição
do pronome possessivo em “O meu reino é meu”. De que modo isso pode ser
compreendido, considerando-se o restante do fragmento? Justifique.
QUESTÃO
10
Leia os versos destacados de três
poemas da parte Geografia, do livro Coral e outros poemas, de Sophia de Mello Breyner
Andresen.
Ingrina
O grito da cigarra ergue a tarde a
seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. [...]
Eu me perdi
[...]
Eu me busquei no vento e me
encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar
Da transparência
Senhor libertai-nos do jogo
perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não
há corais nem búzios
Mas sufocado sonho [...]
Considere as seguintes afirmações
sobre os versos no contexto dos poemas.
I. A poesia de Sophia está
profundamente marcada pelo contato com a natureza, muito especialmente com o
mar.
II. Sophia recupera fatos
históricos e míticos, através de longos poemas épicos, repletos de elogios às
figuras célebres.
III. O olhar do sujeito lírico
revela dupla dimensão, que parte das pequenas coisas, passa pela paisagem e se
une ao todo, revelando a importância da existência.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e III.
e) I, II e III.
- Texto para as questões 11 e 12
Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Esta gente. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner.
O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 40
QUESTÃO 11
No poema “Esta gente”, de Sophia
de Mello Breyner Andresen, observa-se o uso expressivo de recursos típicos da
poesia. Assinale a alternativa em que o recurso mencionado não está presente no
poema.
a) Anáfora nos versos 4 e 5.
b) Aliteração nos versos 8 e 9.
c) Rimas toantes na primeira
estrofe.
d) Rima consoante na quarta
estrofe.
e) Redondilha maior como métrica
dominante.
QUESTÃO 12
Com base na leitura do poema “Esta
gente”, responda ao que se pede.
a) O poema busca caracterizar o
povo português. Com base em elementos do texto, justifique como se dá essa
caracterização.
b) Na última estrofe do poema, o
eu lírico afirma seu posicionamento diante da realidade. Para ele, qual é o
papel da poesia?
QUESTÃO 13
Leia o poema abaixo para responder
ao que se pede.
Eu
me perdi
Eu me perdi na sordidez de um
mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote
Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra
Eu me busquei no vento e me
encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner.
Eu me perdi. In: ANDRESEN, Sophia de
Mello Breyner. O Cristo Cigano /
Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 39.
a) Como o mundo é caracterizado no
poema “Eu me perdi”, de Sophia de Mello Breyner Andresen? Justifique com base
em elementos do texto.
b) Ao longo dos versos, o eu lírico
afirma ter passado por experiências subjetivas opostas. Quais são elas? Como a
oposição entre a “sordidez” e a “limpidez” contribui para a cons-
trução de sentido do poema?
QUESTÃO 14
Leia, a seguir, um poema de Sophia
de Mello Breyner Andresen.
No deserto
Metade de mim cavalo de mim mesma
eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea
Para que não te percas nas cidades
mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive
Eu aponto o teu nariz para o
deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a
extremo
Por isso te debelo te combato te
domino
E o freio te corta a espora te
fere a rédea te retém
Para poder soltar-te livre no
deserto
Onde não somos nós dois mas só um
mesmo
No deserto limpo com seu perfume
de astros
Na grande claridade limpa do
deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um
mesmo
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. No deserto. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O
Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 64.
a) No poema “No deserto”, a
enunciadora se dirige a alguém que busca dominar. De quem se trata e qual é o
motivo alegado para que esse controle seja exercido? Cite elementos do texto
que justifiquem sua resposta.
b) No poema, um dos versos aparece
repetido. De que verso se trata e que função cumpre essa repetição na
construção de sentidos do texto?
11. E
12. a) No poema, os portugueses
são caracterizados em suas ambiguidades, o que aponta para a complexidade da
identidade nacional. Isso pode ser observado no uso de imagens opostas, como
“escravos” / “reis”, “luminoso” / “tosco”. Além disso, trata-se de um povo submetido
à fome e à humilhação.
b) Na última estrofe, vemos que a
poesia defendida pelo eu lírico está comprometida com a crítica social e com o
desejo de transformação da realidade. Isso pode ser observado na afirmação de
que, diante do sofrimento do povo português, seu canto se renova e busca um
país mais livre e justo.
13. a) No poema, o mundo é
apresentado como um lugar corrompido, onde a imoralidade é valorizada, pois são
imperativas a opressão (“polícia”), a ambição (“agiota”), a hipocrisia
(“fariseu”) e a luxúria (“cocote”).
b) No poema, o sujeito lírico
apresenta duas experiências subjetivas centrais: a perda de si em um mundo
corrompido e a redenção no encontro com a natureza. A oposição entre “sordidez”
e “limpidez” simboliza o contraste entre uma sociedade moralmente degradada
e a natureza como espaço de
autenticidade, onde o ser humano pode resgatar os valores de liberdade, justiça
e verdade e realizar o ideal de integração, fundamental na obra de Sophia de
Mello Breyner Andresen.
14. a) A enunciadora busca dominar
uma parte de si mesma para que esta não se corrompa ou se torne violenta. Isso
pode ser observado nos dois primeiros versos: “Metade de mim cavalo de mim
mesma eu te domino / Eu te debelo com espora e rédea”.
b) O verso que se repete é “Onde
não somos nós dois mas só um mesmo”. Sua reincidência reforça a ideia de que,
no deserto, ao contrário das cidades, o eu lírico consegue integrar suas
diferentes partes, tornando-se um só.
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