14 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: GEOGRAFIA (2)

 



- Leia o poema a seguir, extraído do livro Geografia, para responder às questões 1 a 3.

Na manhã recta e branca do terraço

Em vão busquei meu pranto e minha sombra

 

O perfume do orégão habita rente ao muro

Conivente da seda e da serpente

 

No meio-dia da praia o sol dá-me

Pupilas de água mãos de areia pura

 

A luz me liga ao mar como a meu rosto

Nem a linha das águas me divide

 

Mergulho até meu coração de gruta

Rouco de silêncio e roxa treva

 

O promontório sagra a claridade

A luz deserta e limpa me reúne

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Manhã. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner.

O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 30.

 

QUESTÃO 01

Com base na leitura do poema, é possível afirmar que o estado de espírito do eu lírico é marcado principalmente:

a) pela nostalgia do passado, evidenciada na busca pela sombra e pelo pranto.

b) pela angústia provocada pela perda da identidade frente à vastidão do mar.

c) pela experiência de plenitude resultante da comunhão com os elementos da natureza.

d) pela confusão emocional expressa nas imagens da sombra e da serpente.

e) pelo ressentimento diante da indiferença da natureza em relação ao sofrimento humano.

 

QUESTÃO 02

Nos poemas de Geografia, observa-se com frequência a busca da inteireza. No poema “Manhã”, o verso que melhor traduz esse ideal é:

a) “O promontório sagra a claridade”.

b) “Nem a linha das águas me divide”.

c) “Pupilas de água mãos de areia pura”.

d) “Mergulho até meu coração de gruta”.

e) “O perfume do orégão habita rente ao muro”.

 

QUESTÃO 03 

O poema estabelece uma oposição entre:

a) o calor da praia e o frio das águas.

b) a manhã branca e a sombra da noite.

c) o barulho do mar e o silêncio da gruta.

d) a luz do dia e a escuridão do coração.

e) o perigo da serpente e a segurança do deserto.

 

- Leia o poema “Senhora da rocha”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, para responder às questões 4 a 6. 

Tu não estás como Vitória à proa

Nem abres no extremo do promontório as tuas asas

Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados

Nem desdobras o teu manto na escultura do vento

Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura

 

Mas no extremo do promontório

Em tua pequena capela rouca de silêncio

Imóvel muda inclinas sobre a prece

O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco

 

O reino dos antigos deuses não resgatou a morte

E buscamos um deus que vença connosco8 a nossa morte

É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo

Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo

 

Tu sabes que para nós existe sempre

O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas

 

Os deuses de mármore afundam-se no mar

Homens e barcos pressentem o naufrágio

 

E por isso não caminhas cá fora com o vento

No grande espaço liso da luz branca

Nem habitas no centro da exaltação marinha

O antigo círculo dos deuses deslumbrados

 

Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros

Assaltada pelo clamor do mar e a veemência do vento

Inclinas o teu rosto

 

Imóvel muda atenta como antena

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Senhora da rocha. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano; Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 33-34.

 

QUESTÃO 04

Com base no poema, é correto afirmar que:

a) o tempo é uma força capaz de restabelecer a aliança do homem com as coisas.

b) a Senhora da Rocha simboliza a natureza silenciosa, indiferente à morte humana.

c) o sujeito lírico demonstra fé nos antigos deuses, capazes de salvar o ser humano da morte.

d) a aliança do homem com as coisas se refere à valorização da matéria em detrimento do espírito.

e) o poema opõe a efemeridade da vida humana e a permanência da Senhora da Rocha.

 

QUESTÃO 05

No poema, o recurso da anáfora ou do polissíndeto, observado na primeira estrofe, tem a função de:

a) afirmar a superioridade da Vitória de Samotrácia.

b) enumerar as ações heroicas das divindades do passado.

c) criar uma oposição entre a Senhora da Rocha e os antigos deuses.

d) construir uma imagem grandiosa da mulher que domina a natureza.

e) criticar a impotência das divindades gregas diante do tempo e da morte.

 

QUESTÃO 06

Do ponto de vista formal, no poema estão presentes elementos modernistas como:

a) o tom irônico e a construção objetiva da cena.

b) a fragmentação do sujeito lírico e a forma fixa.

c) a métrica regular e as rimas toantes elaboradas.

d) o verso livre e a ausência de pontuação convencional.

e) a linguagem prosaica e a ausência de imagens poéticas.

 

- Texto para as questões 7 e 8

Texto I

A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste “acontecer”. O poema aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e anoto.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 367.

 

Texto II

A mão traça no branco das paredes

A negrura das letras

Há um silêncio grave

A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma

Fico alheia

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Escrita do poema. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 105.

 

QUESTÃO 07 

Nos versos do texto II, verifica-se a presença de um(a):

a) onomatopeia em “silêncio grave”.

b) hipérbato em “brilha docemente”.

c) antítese em “branco” e “negrura”.

d) paronomásia em “traça” e “branco”.

e) hipérbole em “fico alheia”.

 

QUESTÃO 08

Com base na leitura dos dois textos, é correto afirmar que a escrita poética é resultado de:

a) uma observação minuciosa do mundo aliada ao labor do artista.

b) uma consciência política, comunicada para provocar transformações sociais.

c) um processo racional, em que cada palavra é escolhida com precisão técnica.

d) uma manifestação espontânea, que se impõe à consciência como algo já formado.

e) um momento introspectivo, em que o eu poético traduz suas experiências em linguagem.

 

QUESTÃO 09

Leia os fragmentos abaixo, extraídos de poemas do livro GeOgrafia, de Sophia de Mello Breyner Andresen, para responder à questão.

Texto I

Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do en-

contro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido

que me serve.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Ingrina. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner.

O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 29.

 

Texto II

A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. No quarto. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.p. 65.

 

a) A imagem do vestido carrega o mesmo significado nos dois textos? Justifique.

b) No texto I, vemos a repetição do pronome possessivo em “O meu reino é meu”. De que modo isso pode ser compreendido, considerando-se o restante do fragmento? Justifique.

 

QUESTÃO 10

Leia os versos destacados de três poemas da parte Geografia, do livro Coral e outros poemas, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Ingrina

O grito da cigarra ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. [...]

 

Eu me perdi

[...]

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar

E nunca

Um navio da costa se afastou

Sem me levar

 

Da transparência

Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência

No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios

Mas sufocado sonho [...]

 

Considere as seguintes afirmações sobre os versos no contexto dos poemas.

I. A poesia de Sophia está profundamente marcada pelo contato com a natureza, muito especialmente com o mar.

II. Sophia recupera fatos históricos e míticos, através de longos poemas épicos, repletos de elogios às figuras célebres.

III. O olhar do sujeito lírico revela dupla dimensão, que parte das pequenas coisas, passa pela paisagem e se une ao todo, revelando a importância da existência.

 

Quais estão corretas?

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas III.

d) Apenas I e III.

e) I, II e III.

 

- Texto para as questões 11 e 12

Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso

E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre

 

Pois a gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É a gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome

 

E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

E de um tempo justo

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Esta gente. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner.

O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 40

 

 QUESTÃO 11

No poema “Esta gente”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, observa-se o uso expressivo de recursos típicos da poesia. Assinale a alternativa em que o recurso mencionado não está presente no poema.

a) Anáfora nos versos 4 e 5.

b) Aliteração nos versos 8 e 9.

c) Rimas toantes na primeira estrofe.

d) Rima consoante na quarta estrofe.

e) Redondilha maior como métrica dominante.

 

QUESTÃO 12

Com base na leitura do poema “Esta gente”, responda ao que se pede.

a) O poema busca caracterizar o povo português. Com base em elementos do texto, justifique como se dá essa caracterização.

b) Na última estrofe do poema, o eu lírico afirma seu posicionamento diante da realidade. Para ele, qual é o papel da poesia?

 

QUESTÃO 13

Leia o poema abaixo para responder ao que se pede.

Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo

Onde era preciso ser

Polícia agiota fariseu

Ou cocote

 

Eu me perdi na sordidez do mundo

Eu me salvei na limpidez da terra

 

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar

E nunca

Um navio da costa se afastou

Sem me levar

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Eu me perdi. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 39.

 

a) Como o mundo é caracterizado no poema “Eu me perdi”, de Sophia de Mello Breyner Andresen? Justifique com base em elementos do texto.

b) Ao longo dos versos, o eu lírico afirma ter passado por experiências subjetivas opostas. Quais são elas? Como a oposição entre a “sordidez” e a “limpidez” contribui para a cons-

trução de sentido do poema?

 

QUESTÃO 14

Leia, a seguir, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen.

No deserto

Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino

Eu te debelo com espora e rédea

Para que não te percas nas cidades mortas

Para que não te percas

Nem nos comércios de Babilónia

Nem nos ritos sangrentos de Nínive

Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo

Para o perfume limpo do deserto

Para a sua solidão de extremo a extremo

Por isso te debelo te combato te domino

E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém

Para poder soltar-te livre no deserto

Onde não somos nós dois mas só um mesmo

No deserto limpo com seu perfume de astros

Na grande claridade limpa do deserto

No espaço interior de cada poema

Luz e fogo perdidos mas tão perto

Onde não somos nós dois mas só um mesmo

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. No deserto. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 64.

 

a) No poema “No deserto”, a enunciadora se dirige a alguém que busca dominar. De quem se trata e qual é o motivo alegado para que esse controle seja exercido? Cite elementos do texto que justifiquem sua resposta.

b) No poema, um dos versos aparece repetido. De que verso se trata e que função cumpre essa repetição na construção de sentidos do texto?

 


11. E

12. a) No poema, os portugueses são caracterizados em suas ambiguidades, o que aponta para a complexidade da identidade nacional. Isso pode ser observado no uso de imagens opostas, como “escravos” / “reis”, “luminoso” / “tosco”. Além disso, trata-se de um povo submetido à fome e à humilhação.

b) Na última estrofe, vemos que a poesia defendida pelo eu lírico está comprometida com a crítica social e com o desejo de transformação da realidade. Isso pode ser observado na afirmação de que, diante do sofrimento do povo português, seu canto se renova e busca um país mais livre e justo.

13. a) No poema, o mundo é apresentado como um lugar corrompido, onde a imoralidade é valorizada, pois são imperativas a opressão (“polícia”), a ambição (“agiota”), a hipocrisia (“fariseu”) e a luxúria (“cocote”).

b) No poema, o sujeito lírico apresenta duas experiências subjetivas centrais: a perda de si em um mundo corrompido e a redenção no encontro com a natureza. A oposição entre “sordidez” e “limpidez” simboliza o contraste entre uma sociedade moralmente degradada

e a natureza como espaço de autenticidade, onde o ser humano pode resgatar os valores de liberdade, justiça e verdade e realizar o ideal de integração, fundamental na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen.

14. a) A enunciadora busca dominar uma parte de si mesma para que esta não se corrompa ou se torne violenta. Isso pode ser observado nos dois primeiros versos: “Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino / Eu te debelo com espora e rédea”.

b) O verso que se repete é “Onde não somos nós dois mas só um mesmo”. Sua reincidência reforça a ideia de que, no deserto, ao contrário das cidades, o eu lírico consegue integrar suas diferentes partes, tornando-se um só.







INTRODUÇÃO À OBRA: GEOGRAFIA (2)

  - Leia o poema a seguir, extraído do livro Geografia, para responder às questões 1 a 3. Na manhã recta e branca do terraço Em vão busquei ...