Introdução
A autora
A
poeta Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto, Portugal, no
dia 6 de novembro de 1919. De origem aristocrática, passou uma infância
tranquila ao lado dos pais, com quem ia frequentemente à belíssima Praia da
Granja, no noroeste do país, fato que resultou em uma vivência junto ao mar que
marcou profundamente sua sensibilidade.
Seu
interesse pela escrita começou cedo; seus primeiros textos foram produzidos aos
14 anos. Entre 1936 e 1939, estudou Filologia Clássica na Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa. Embora não tenha concluído o curso, foi nesse
período que entrou em contato com a cultura helênica, que teve enorme
influência sobre sua poesia, na qual encontramos referências constantes à
mitologia grega.
Em
1946, Sophia casou-se com Francisco Sousa Tavares, advogado e jornalista, com
quem teve cinco filhos. Ao lado do marido, a poeta fez oposição ferrenha à
ditadura portuguesa e, após o fim do regime, em 1974, com a Revolução dos
Cravos, foi eleita deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista.
Em
1999, Sophia de Mello Breyner Andresen ganhou o Prêmio Camões, a mais
importante premiação literária da língua portuguesa. Também foi vencedora do Prêmio
Max Jacob de Poesia, em 2001, e do Prêmio Rainha Sofia de Poesia
Ibero-Americana, em 2003.
A
autora faleceu em 2 de julho de 2004, na cidade de Lisboa.
O salazarismo e a atuação política de Sophia de Mello Breyner Andresen
Entre
1933 e 1974, Portugal viveu sob a ditadura do Estado Novo, comandado
inicialmente por Antônio de Oliveira Salazar e, posteriormente, por Marcello Caetano.
Inspirado no modelo fascista de Benito Mussolini, o regime salazarista era
conservador, autoritário, nacionalista e profundamente aliado ao catolicismo. As
greves eram proibidas, a imprensa sofria censura e os opositores passaram a ser
perseguidos pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a PIDE, que atuou
implacavelmente entre 1954 e 1968.
Durante
sua vigência, o regime buscou construir e preservar a imagem de um Portugal
rural, tradicional e cristão. Além disso, reforçou-se a ideia de que a
identidade portuguesa estava intrinsecamente vinculada ao mar, ao Império e a
uma suposta “missão civilizatória” em relação aos povos africanos, como forma
de justificar a permanência das colônias ultramarinas.
Foi
nesse cenário que se organizou um grupo de católicos críticos ao regime, entre
eles Sophia de Mello Breyner Andresen e seu marido, Francisco Sousa Tavares. Em
1958, o casal fez campanha pela candidatura de Humberto Delgado, representante
da resistência democrática, disponibilizando a própria casa para que
intelectuais contrários à ditadura pudessem se reunir. As eleições daquele ano
foram marcadas por fraudes. Apesar de Delgado não sair vitorioso, sua candidatura
contribuiu para fragilizar ainda mais o regime, já afetado pela árdua realidade
do país, com sua pobreza e repressão violenta, que se afastava cada vez mais da
imagem positiva que o governo buscava sustentar.
Nos
anos 1960, iniciaram-se sucessivas lutas pela independência nas colônias
africanas de Portugal. Diante disso, Salazar foi intransigente, buscando manter
o domínio colonial a todo custo, o que significava deslocar consideráveis
recursos do orçamento do Estado para o esforço de guerra e convocar milhares de
portugueses para o serviço militar. Esse cenário contribuiu para aumentar o
descontentamento de parte da população portuguesa. Em 1965, Sophia assinou o
Manifesto dos 101 Católicos, que denunciava a guerra colonial e a cumplicidade
da Igreja católica com o regime de Salazar.
A
mudança para o governo de Marcello Caetano, na década de 1970, não alterou a
situação do pais: faltavam alimentos, os salários eram baixos, cresciam as emigrações
de civis e as deserções entre os militares contrários à continuidade da guerra
colonial. Em 1973, membros das Forças Armadas começaram a conspirar contra o governo
com a intenção de promover um golpe de Estado pacífico. Finalmente, em 25 de
abril de 1974, primavera no hemisfério norte, uma sublevação militar com apoio
popular colocou fim à ditadura em Portugal. A senha para o início do levante
foi a canção “Grândola, Vila Morena”, música popular de José Afonso na qual se
afirma o poder do povo. Sem oferecer resistência, o regime que controlava Portugal
há décadas sucumbiu. Uma multidão saiu às ruas comemorando a tão sonhada
promessa de liberdade. Os cravos, que estavam por toda parte, se tornaram o
símbolo da revolução portuguesa, que ficou conhecida como Revolução dos Cravos.
No ano seguinte, Sophia de Mello Breyner Andresen tornou-se deputada, afirmando
na política seu compromisso com a justiça e a liberdade.
A obra poética de
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ao
longo da vida, Sophia de Mello Breyner Andresen publicou diversos livros de
poemas, entre os quais Poesia (1944),
Dia do mar (1947), Coral (1950), No tempo dividido (1954), O
Cristo Cigano (1961), Livro sexto
(1962), Geografia (1967) e Dual (1972). O pesquisador Eucanaã
Ferreira, responsável por organizar uma antologia da autora, afirma que ela e
uma poeta do mundo visível e material, afirmação sustentada pelo que a
escritora diz no texto “Arte Poética II”:

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