Introdução
A autora
A
poeta Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto, Portugal, no
dia 6 de novembro de 1919. De origem aristocrática, passou uma infância
tranquila ao lado dos pais, com quem ia frequentemente à belíssima Praia da
Granja, no noroeste do país, fato que resultou em uma vivência junto ao mar que
marcou profundamente sua sensibilidade.
Seu
interesse pela escrita começou cedo; seus primeiros textos foram produzidos aos
14 anos. Entre 1936 e 1939, estudou Filologia Clássica na Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa. Embora não tenha concluído o curso, foi nesse
período que entrou em contato com a cultura helênica, que teve enorme
influência sobre sua poesia, na qual encontramos referências constantes à
mitologia grega.
Em
1946, Sophia casou-se com Francisco Sousa Tavares, advogado e jornalista, com
quem teve cinco filhos. Ao lado do marido, a poeta fez oposição ferrenha à
ditadura portuguesa e, após o fim do regime, em 1974, com a Revolução dos
Cravos, foi eleita deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista.
Em
1999, Sophia de Mello Breyner Andresen ganhou o Prêmio Camões, a mais
importante premiação literária da língua portuguesa. Também foi vencedora do Prêmio
Max Jacob de Poesia, em 2001, e do Prêmio Rainha Sofia de Poesia
Ibero-Americana, em 2003.
A
autora faleceu em 2 de julho de 2004, na cidade de Lisboa.
O salazarismo e a atuação política de Sophia de Mello Breyner Andresen
Entre
1933 e 1974, Portugal viveu sob a ditadura do Estado Novo, comandado
inicialmente por Antônio de Oliveira Salazar e, posteriormente, por Marcello Caetano.
Inspirado no modelo fascista de Benito Mussolini, o regime salazarista era
conservador, autoritário, nacionalista e profundamente aliado ao catolicismo. As
greves eram proibidas, a imprensa sofria censura e os opositores passaram a ser
perseguidos pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a PIDE, que atuou
implacavelmente entre 1954 e 1968.
Durante
sua vigência, o regime buscou construir e preservar a imagem de um Portugal
rural, tradicional e cristão. Além disso, reforçou-se a ideia de que a
identidade portuguesa estava intrinsecamente vinculada ao mar, ao Império e a
uma suposta “missão civilizatória” em relação aos povos africanos, como forma
de justificar a permanência das colônias ultramarinas.
Foi
nesse cenário que se organizou um grupo de católicos críticos ao regime, entre
eles Sophia de Mello Breyner Andresen e seu marido, Francisco Sousa Tavares. Em
1958, o casal fez campanha pela candidatura de Humberto Delgado, representante
da resistência democrática, disponibilizando a própria casa para que
intelectuais contrários à ditadura pudessem se reunir. As eleições daquele ano
foram marcadas por fraudes. Apesar de Delgado não sair vitorioso, sua candidatura
contribuiu para fragilizar ainda mais o regime, já afetado pela árdua realidade
do país, com sua pobreza e repressão violenta, que se afastava cada vez mais da
imagem positiva que o governo buscava sustentar.
Nos
anos 1960, iniciaram-se sucessivas lutas pela independência nas colônias
africanas de Portugal. Diante disso, Salazar foi intransigente, buscando manter
o domínio colonial a todo custo, o que significava deslocar consideráveis
recursos do orçamento do Estado para o esforço de guerra e convocar milhares de
portugueses para o serviço militar. Esse cenário contribuiu para aumentar o
descontentamento de parte da população portuguesa. Em 1965, Sophia assinou o
Manifesto dos 101 Católicos, que denunciava a guerra colonial e a cumplicidade
da Igreja católica com o regime de Salazar.
A
mudança para o governo de Marcello Caetano, na década de 1970, não alterou a
situação do pais: faltavam alimentos, os salários eram baixos, cresciam as emigrações
de civis e as deserções entre os militares contrários à continuidade da guerra
colonial. Em 1973, membros das Forças Armadas começaram a conspirar contra o governo
com a intenção de promover um golpe de Estado pacífico. Finalmente, em 25 de
abril de 1974, primavera no hemisfério norte, uma sublevação militar com apoio
popular colocou fim à ditadura em Portugal. A senha para o início do levante
foi a canção “Grândola, Vila Morena”, música popular de José Afonso na qual se
afirma o poder do povo. Sem oferecer resistência, o regime que controlava Portugal
há décadas sucumbiu. Uma multidão saiu às ruas comemorando a tão sonhada
promessa de liberdade. Os cravos, que estavam por toda parte, se tornaram o
símbolo da revolução portuguesa, que ficou conhecida como Revolução dos Cravos.
No ano seguinte, Sophia de Mello Breyner Andresen tornou-se deputada, afirmando
na política seu compromisso com a justiça e a liberdade.
A obra poética de
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ao
longo da vida, Sophia de Mello Breyner Andresen publicou diversos livros de
poemas, entre os quais Poesia (1944),
Dia do mar (1947), Coral (1950), No tempo dividido (1954), O
Cristo Cigano (1961), Livro sexto
(1962), Geografia (1967) e Dual (1972). O pesquisador Eucanaã
Ferreira, responsável por organizar uma antologia da autora, afirma que ela e
uma poeta do mundo visível e material, afirmação sustentada pelo que a
escritora diz no texto “Arte Poética II”:
Pois a poesia é a
minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha
participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o
poema não fala de uma vida ideal, mas sim de uma vida concreta: ângulo da
janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição
dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite,
perfume da tília e do orégão.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Arte
Poética II. In: ANDRESEN, Sophia de
Mello Breyner. Coral e outros poemas.
São Paulo: Companhia das Letras, 2018. P. 362.
A
valorização da materialidade e dos substantivos concretos na obra de Sophia
foi, inclusive, o motivo de um elogio que o poeta brasileiro João Cabral de
Melo Neto fez à obra da poeta.
Combinamos nos
encontrar em Sevilha, na Praça Maior, e no meio da grande confusão encontramos
um senhor com um ar muito triste que me disse assim: “Gosto multo de sua
poesia, tem muito substantivo concreto”. Fiquei muito espantada ... porque eu
não estava a par das ideias do João. Depois eu fui descobrindo a poesia do
João. E o João, eu achava que ele era uma pessoa encantadora. Foi um
maravilhamento.
ANDRESEN, Sophia
de Mello Breyner. In: ALMINO, João. A literatura da cisma. Folha de S. Paulo,
26 set. 1999. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2609199907.htm
Acesso em 20 ago. 2025
A
poesia cabralina é marcada pela concretude, que se manifesta em temas
recorrentes como a faca, a pedra a terra e o ferro. Nesse sentido, o elogio
recebido pela poeta portuguesa evidencia uma afinidade estética entre ela e João
Cabral.
No
entanto, a carência de abstrações nos versos de Sophia em nada elimina o
encantamento que eles produzem no leitor:
[...] os versos
parecem tocados de mistério e, no entanto, a sintaxe é clara e direta, o tom
soa elevado, mas o vocabulário é o mais simples; a expressão é clássica, porém
decididamente moderna; a aparente atemporalidade entra em tensão com a história
e o presente mais circunstancial, se deparamos a perfeição e a beleza, também
constatamos que nada é aparato ou ostentação; o leitor sente-se atraído,
acolhido, entretanto é apanhado todo o tempo por imagens inesperadas,
desconcertantes, que desalinham o conforto e lançam a fruição para uma zona que
exige empenho e gosto pelo risco; quando esperamos a transparência, somos
colocados frente a um mundo áspero e sombrio; esperamos o vago e encontramos a
precisão da geometria; a melodia sinuosa se alastra, austera, parece continua,
mas logo outro ritmo atravessa o caminho; onde presumimos a doçura defrontamos
com a veemência; onde supúnhamos o clamor, é o silêncio que surge; e quando
este parece perdurar, a voz se refax vigorosa, e denuncia, e exige, e não se
cala.
FERRAZ, Eucanaã. Apresentação: breve percurso
rente ao mar. In: ANDRESEN, Sophia de
Mello Breyner. Coral e outros poemas.
São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 17-18.
Os
poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen estão repletos de metáforas
inesperadas, frequentemente construídas com base nos temas presentes na obra: o
mar, a casa, a cidade, a noite e a mitologia grega. Nesse sentido, o mar, uma
das imagens mais constantes na obra da autora, torna se em alguns momentos metáfora
de liberdade e de resistência. A casa surge como representação da identidade do
indivíduo, sempre sujeita às modificações impostas pela passagem do tempo e por
aquilo que recebe do mundo exterior. A cidade, em especial a cidade moderna,
torna-se símbolo de degradação e daquilo que nos afasta da inteireza da
experiência, ao nos tirar a atenção das coisas. A noite aparece em certos
momentos relacionada ao silêncio e à possibilidade de o sujeito recuperar a atenção
para o mundo e para si, de onde emerge o ato da criação poética. Já a
Antiguidade clássica e sua mitologia seriam a possibilidade simbólica de
(re)união entre ser humano e natureza, devolvendo-lhe a inteireza perdida.
Mas,
para além dos elementos simbólicos, a poesia de Sophia de Mello Breyner
Andresen também é representação do momento histórico em que foi criada. Segundo
Eucanaã Ferraz, a dimensão política sempre esteve presente na obra de Sophia,
ainda que inicialmente de forma discreta. Prova disso é o verso “Apesar das
ruínas e da morte”, do poema que abre seu primeiro livro, Poesia, de 1944, um lembrete da guerra que assolava a Europa
naquele momento. Nesse sentido, Sophia sempre esteve atenta à dor e à
destruição, mas não renunciou ao sentimento da esperança, escrevendo seus poemas
como se com eles pudesse devolver ao mundo a beleza, a justiça e, de certa
forma, a vida.
Sophia
foi também uma poeta que, diante da fragmentação característica do indivíduo
moderno – capturada tão bem pela poesia de Fernando Pessoa – respondeu com a
busca pela inteireza. Em seus versos são porosas as fronteiras entre o dentro e
o fora, o eu e o outro, o ser humano e a natureza, a casa e a cidade, o passado
e o presente, o catolicismo e o paganismo, o sagrado e o prosaico, o silêncio e
a poesia. Tudo se integra e se influencia mutuamente. Nesse sentido, para
Eucanaã Ferraz, Sophia “busca um encontro total com
as coisas”, olha para o mundo com a atenção e curiosidade de quem vê tudo pela primeira vez, como expresso no poema “Coral”, do livro homônimo:
la
e vinha
E
a cada coisa perguntava
Que
nome tinha
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Coral. In: ANDRESEN, Sophia de Mello
Breyner. Coral e outros poemas. São Paulo:
Companhia das Letras, 2018. p. 81
Essas
características dialogam com o que Sophia apresenta no texto “Arte poética III”:
A coisa mais antiga
de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada
em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da
maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de
fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu
descobria.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Arte
poética III. In: ANDRESEN, Sophia de
Mello Breyner. Coral e outros poemas.
São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 364
Como
a poeta diz: não se trata do fantástico ou do imaginário, mas, sim, do real,
ainda que ele seja apresentado em seus versos por meio de metáforas constantes
e imagens inusitadas. Essa lembrança infantil, em que se sobressai “uma
felicidade irrecusável, nua e inteira”, permeia toda a obra de Sophia de Mello
Breyner Andresen, uma poeta que buscou incansavelmente na vida e em seus versos
a alegria, a verdade e a unidade entre todas as coisas.
No
entanto, essa luminosidade e a possibilidade de comunhão entre os homens e
destes com a natureza encontraram um período de melancolia, um “ciclo” como
avaliou a própria Sophia ao se referir aos livros No tempo dividido (1954) e Mar
novo (1958). A partir deles, as questões politicas apareceram de modo mais explícito
e, não à toa, nessas obras há momentos em que o mal-estar parece vencer.
Não
se trata, porém, de uma substituição da luz pela sombra, mas de uma percepção
de que o real é constituído por ambos. Sophia de Mello Breyner Andresen nos
deixou, assim, poemas repletos de imagens que continuam a dialogar com a
atualidade e a fascinar e emocionar leitores. Sua obra volta os olhos para o real,
mas produz uma espécie de efeito encantatório, que talvez possa ser explicado
pelo discurso em homenagem à autora, lido durante a cerimônia de entrega do
Prêmio Camões, em 1999:
[...] Sophia fala-nos
da nossa cultura e da nossa civilização como memória, vida e futuro. Fala-nos
da luz do sol e da sombra que é o seu espelho, da elevação das montanhas e da
imensidão do mar, das estátuas gregas e dos actos humanos. Fala-nos do trigo
que sacia a fome aos homens, das obras imortais que são capazes de criar e também
dos campos de concentração onde matam. Fala-nos da beleza, da generosidade e da
vergonha que não pode ser esquecida para não ser repetida. Desde os seus
primeiros versos até os mais recentes, fala-nos do que é essencial – do que há
de mais antigo e de mais moderno, do mais comum e do mais raro, do mais próximo
e do mais longínquo, do mais humano e do mais divino. A poesia de Sophia
procura um acordo mais justo, original, elementar e límpido do homem consigo
mesmo, com os outros homens, com as coisas, com a natureza, com o Universo. [...]
Arte do ser, a sua, poesia de comunhão com o Mundo, com a vida e de
participação no real, como Sophia gosta de dizer, ficará também como um dos
mais altos testemunhos do canto da liberdade face à opressão, da justiça ante a
iniquidade, da beleza perante a fealdade, da coragem frente ao medo.
CERIMÔNIA de
Entrega do Prêmio Luís de Camões. Disponível em: https://jorgesampaio.arquivo.presidencia.pt/pt/noticias/noticias/discursos-89.html.
Acesso em: 30 jun. 2025.
O livro Geografia
(1967)
De
acordo com o dicionário Michaelis, Geografia é a “ciência cujo objetivo é
descrever a forma, os acidentes físicos, os fenômenos biológicos, o clima, as
produções, a população e as divisões políticas que ocorrem na Terra”. No
entanto, para compreender o livro de Sophia de Mello Breyner Andresen é necessário
ir além desse significado – ainda que se parta dele – buscando outros sentidos,
sobretudo figurados.
Em
Geografia, o espaço se torna elemento
primordial, capaz de contar histórias, produzir memórias e ser transformado
pelos indivíduos, ao mesmo tempo que os transforma. Comparados aos dos livros No tempo dividido (1954) e Mar novo (1958), os poemas dessa obra
trazem um tom um pouco mais otimista, sem deixar de abordar as dimensões
políticas de Portugal.
Os
59 poemas do livro estão divididos em sete partes, todas remetendo direta ou
indiretamente a um lugar.
O
nome dado à parte I, Ingrina, faz
referência a uma praia no Algarve em que Sophia e sua família passavam os
verões. Os cinco poemas nela contidos estão ligados diretamente a Portugal e a
seus aspectos, como o litoral, a claridade, a religiosidade, o cheiro do orégano,
as cidades com ruas e muros caiados e as Grandes Navegações. Ao mesmo tempo,
esses poemas também falam do autoritarismo e da falta de liberdade sob o regime
ditatorial.
A
parte II, Procelária, leva o nome de
uma ave oceânica, mobilizada como metáfora de tempos sombrios, já que esses
pássaros são avistados “quando há vento e grande vaga” e fazem seu “ninho no
rolar da fúria”. Essa informação dialoga com os oito poemas dessa parte, que
tratam da morte, da desonestidade, da miséria, da guerra, da ambição e dos
aspectos perniciosos da modernidade. Simbolicamente, o lugar abordado nessa
seção é o mar, com sua representação de força e resistência.
Os
sete poemas da parte III, A noite e a casa,
apresentam um sujeito lírico em meio à noite, em contato com o sagrado e com o
silêncio. O lugar aqui retratado é a casa. Em diferentes versos observamos o
ato de estar atento: “a consciência atenta / Que nos confins do universo / Me
decifra e fita” (Escuto), “A casa sai
da sombra / Intensamente atenta” (Vela),
“O brando respirar / Da sua atenção pura” (A
luz e a casa), “Tudo está como o cipreste atento” (A noite e a casa). Essa atenção traduz a preocupação da poeta em
encontrar o mundo, escutá-lo, nomeá-lo; enfim, escrevê-lo. A parte III, pois,
trata da experiência da criação artística.
A
parte IV, Dual, tem 18 poemas bastante
representativos da dualidade e da busca pela inteireza que caracterizam a obra
andreseniana.
Dual
é, assim, um lugar filosófico, que abarca opostos e os unifica. Estabelece-se
aqui uma sobreposição constante entre a solidão do eu e as “coisas exteriores”,
amor e morte, tumulto e silêncio, presença e ausência, brilho e sombra,
eternidade e efemeridade. Também nessa seção, o tema da efemeridade percorre
diversos poemas.
Na
parte V, Mediterrâneo, encontramos 13
poemas ligados à Itália, à Grécia e à mitologia antiga. Esses espaços ligados à
Antiguidade clássica simbolizam a possibilidade de retorno a um estado no qual
homem e natureza eram uma coisa só.
Nos
quatro poemas da parte VI, Brasil ou do
outro lado do mar, Sophia de Mello Breyner Andresen homenageia nosso país,
nossas paisagens, nossa poesia e nosso modo de falar o português.
Por
fim, na parte VII, a última, No poema,
os quatro textos tratam do fazer poético, de modo que a própria poesia pode ser
compreendida como um lugar, um espaço de integração do sujeito e um retorno a
uma espécie de estado original, no qual humanidade e natureza viviam em
comunhão.
Análise dos poemas
Parte I: Ingrina
Nos
poemas da parte I de Geografia, observamos muitas referências a Portugal,
especialmente em seus aspectos luminosos, entre os quais o mar é soberano. No
entanto, já aparecem representações sutis de um país que vivia momentos sombrios.
Essa dualidade fica bem representada no poema em prosa “Ingrina” (p. 29), que
abre a obra.
O grito da cigarra
ergue a tarde a seu cimo e o perfume do orégão invade a felicidade. Perdi a
minha memória da morte da lacuna da perca do desastre. A omnipotência do sol
rege a minha vida enquanto me recomeço em cada coisa. Por isso trouxe comnigo o
lírio da pequena praia. Ali se erguia intacta a coluna do primeiro dia – e vi o
mar reflectido no seu primeiro espelho. Ingrina.
É esse o tempo a que
regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os
meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia.
O meu reino é meu como um vestido que me serve E sobre a areia sobre a cal e
sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.
ANDRESEN, Sophia
de Mello Breyner. Ingrina. In: ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano/
Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p 29.
Vernos
aqui a referência a uma praia no Algarve onde Sophia e sua família passavam os
verões. Assim, os versos remetem não apenas a um lugar geográfico, mas também a
um espaço de recordações. Mediado pela memória do sujeito lírico, é
estabelecido um jogo entre presente e passado, no qual elementos que antes
invadiam sua felicidade – o grito da cigarra, o perfume do orégano e a
onipotência do sol – agora fazem com que ele se afaste da ideia da morte e do
desastre. Nesse contato com o passado, o eu-lírico encontra alegria e pertencimento,
pois acessar Ingrina é como usar um vestido que lhe serve. O lírio que o
sujeito poético guarda consigo é outra forma de manter esse vínculo com o
passado. Essa flor, aliás, simboliza a pureza, colocada em risco com o passar
dos anos. O uso do verbo “desalterar” também aponta para esse movimento de
retorno: se o presente de sofrimento nos altera, é preciso que o encontro com
as lembranças felizes interrompa essa transformação. Os versos são construídos
em torno de algumas imagens extremamente sensoriais, ligadas à audição (“o
grito das cigarras”, “os meus passos escutam”), ao olfato (“o perfume do orégão”)
e à visão (“vi o mar refletido”). Ao fim, o eu-lírico afirma que o ato de
escrever “sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra” também lhe permite
recomeçar o mundo. Em síntese, esse poema constrói a ideia de que é possível uma
reconstrução por meio da memória e da palavra.
No poema seguinte, “Manhã”, o enunciador não
é capaz de encontrar seu “pranto” nem sua “sombra” ainda que os procure, o que indica
seu estado de tranquilidade possibilitado pelo sol, pela praia e pelo perfume
do orégano, elementos que, novamente, remetem ao litoral português. O estado de
união completa, característico da obra de Sophia, fica aqui representado nos
versos “A luz me liga ao mar como a meu rosto / Nem a linha das águas me
divide”, que sugerem tanto a ligação do sujeito com o mundo externo (o mar)
quanto a inteireza do sujeito, que não se fragmenta, o que é reforçado no verso
final “A luz deserta e limpa me reúne”. A ausência das vírgulas no verso “Pupilas
de água mãos de areia pura aponta mais uma vez para a integração plena entre os
elementos e destes com o sujeito lírico.
Já no poema “De pedra e cal”, percebe-se a
referência constante à cor branca (“campanários brancos”, “labirintos brancos”,
“brancura do sal”, “pedras brancas”), característica das cidades com casas caiadas,
uma tradição portuguesa, em especial nas regiões do Alentejo e do Algarve. Na
primeira estrofe, encontramos elementos arquitetônicos (campanários) e naturais
(figueiras) da cidade. Já na segunda estrofe, essa materialidade é substituída
por imagens de carga simbólica, como a de uma cidade-labirinto e do sal que “Sobe
pelas escadas”. No primeiro caso, a imagem do labirinto sugere a desorientação
ao percorrer as ruas da cidade. Enquanto isso, a imagem do sal remete a uma
natureza indomável, pois a maresia traz o sal do mar para a terra. Aqui, aliás,
vemos nos dois últimos versos a aliteração do /s/, gerando um som sibilante que
parece remeter à presença do vento. Na terceira estrofe, observamos que a
cidade é toda quadriculada, formato que indica ordem e planejamento – o contrário
da ideia do labirinto apresentada na segunda estrofe. Também nessa terceira
estrofe, o quadriculado da cidade e apresentado como um tabuleiro de xadrez
peculiar, em que só haveria pedras brancas. Trata-se de um jogo encenado, na
medida em que não há adversário, o que dialoga com o contexto autoritário de
Portugal à época da criação do poema, quando os opositores eram perseguidos e
eliminados. A ideia de uma cidade quadriculada se reproduz na forma do poema,
no qual vemos quatro estrofes com quatro versos, que parecem reproduzir o
formato dos espaços quadrados de um tabuleiro de xadrez ou os quarteirões de
uma cidade planejada. Na quarta estrofe, vemos a referência a duas peças de xadrez:
a torre e o cavalo. Este, no entanto, é transformado em cavalo-marinho, trazendo
uma atmosfera onírica ou fantástica para o poema. Desse modo, há uma ruptura
com a rigidez inicial da cidade quadriculada e monocromática. As torres remetem
a terra e os cavalos-marinhos, ao mar. Do mesmo modo que o sal cruza a linha
que divide mar e terra, essa imagem mostra a proximidade desses dois elementos,
ambos componentes da identidade do lugar. Também na quarta estrofe vemos a
presença das moiras, que vigiam os cavalos-marinhos. As moiras, além de serem
aves marinhas encontradas em ilhas atlânticas portuguesas, são seres
mitológicos que personificam o destino dos seres humanos. Sua lei é
inquestionável, não podendo ser desobedecida nem pelos deuses. Nesse sentido,
estar sob seu olhar significa não ter escapatória, o que remete novamente a um
ambiente opressivo e sem liberdade. Na última estrofe, os dois versos funcionam
como um aviso: “Caminha devagar / Porque o chão e caiado”. Tendo em vista os
demais significados do poema, pode-se entender que se trata de uma recomendação
de cautela aos que caminham por essa cidade, pois, ao impedir a camuflagem dos
corpos, a brancura os torna alvos fáceis para predadores.
O
poema “Mundo nomeado ou descoberta das ilhas” traz à cena os navegantes
portugueses no período das Grandes Navegações. Com base na imagem dos
aventureiros que “lam de cabo em cabo nomeando / Baías promontórios enseadas”,
constrói-se a ideia de que, para existir, o objeto deve ser antecedido por um
nome, o que afirma o poder criador da palavra. Nesse sentido, os navegantes que
nomeiam o mundo simbolizam o poeta, ou seja, aquele que busca as palavras para
designar as coisas antes “mergulhadas no sem-nome / Da sua própria ausência”.
A
parte I termina com o belíssimo poema “Nossa Senhora da rocha”, no qual vemos
referida a Ermida da Nossa Senhora da Rocha, uma capela simples de madeira
construída sobre uma falésia na região do Algarve. Na primeira estrofe, vemos a
Senhora da Rocha descrita por melo de uma série de negativas (“tu não estás”, “nem
abres”, “nem caminhas”, “nem desdobras”, “nem ofereces”), e é feita uma
distinção entre ela e a escultura em mármore da deusa Vitória.
De
acordo com o poema, os deuses antigos não foram capazes de driblar a morte,
momento em que se quebra “a aliança do homem com as coisas”. Por isso, no
presente, a humanidade continua buscando um deus que vença a finitude. A Senhora
da Rocha, consciente da efemeridade dos homens, mantém-se em prece “até ao fim
do mundo”. Outro contraponto feito entre os deuses do passado e a Senhora da Rocha
é que, enquanto aqueles são “deslumbrados”, a “pequena capela” tem o “rosto
feito de madeira”, o que remete a simplicidade e à humildade. Além disso, ao
afirmar que o rosto da Senhora da Rocha é “pintado como um barco”, o poema
associa a familiaridade dessa divindade com o mar – tão ligado à identidade portuguesa
–, local onde, por outro lado, os deuses antigos, feitos “de mármore”, afundam.
Parte I: Procelária
Na
parte II do livro, o difícil momento vivido pela Europa fica explícito: vemos
as consequências da ditadura em Portugal, da Guerra Civil Espanhola e dos
bombardeios aéreos durante a Segunda Guerra Mundial.
No
primeiro poema dessa seção, o título “Procelária” se refere a uma ave oceânica
que, segundo a mitologia, acompanha os navegantes e avisa sobre a chegada de
tempestades. No poema, a procelária representa a capacidade de enfrentar as
dificuldades e resistir a elas. Avistada em momentos de vento e mar agitado,
ela voa sobre os abismos sem buscar o abrigo da rocha, do cabo e do cais. Os
riscos e as inseguranças, ao invés de a abalarem, fortalecem-na e, por isso,
segundo o sujeito lírico, a procelária seria a imagem adequada para aquele que
vive momentos de dificuldade, o que remete ao contexto ditatorial de Portugal.
A
violência e a opressão do Estado Novo português também estão representadas no
poema “Cidade dos outros” que mostra um lugar onde impera a desonestidade e
onde a morte está sempre presente. Os adjetivos colocados em sequência no
primeiro verso contribuem para intensificar o mal que atinge a cidade (“terrível
atroz imensa”). Apesar de tudo acontecer em “murmúrios”, “sem gestos, sem
sinais sem fios”, vernos que “o mal procura o mal e ambos se entendem”, o que
denuncia a capacidade de articulação silenciosa dos algozes e, por isso mesmo,
a dificuldade de combatê-los. Além disso, o perigo bate à porta, não havendo
espaço seguro, onde encontrar proteção. Desse modo, o espaço público, habitado
pelos “outros”, ligados à ditadura, invade o espaço privado, algo comum nos regimes
autoritários.
A
invasão também aparece no poema “Néon”, mas, nesse caso, o que invade as casas
não são os agentes do regime ditatorial, e sim a tecnologia, com suas luzes de
máquinas e fantasmas. Sophia de Mello Breyner Andresen via as cidades modernas
como um ambiente hostil e de degradação, que afastava o homem da possibilidade
de comunhão com a natureza.
A
invasão do que é íntimo chega ao ápice no poema “Eu me perdi”, já que o mundo
sórdido atravessa as subjetividades. Nessa sociedade corrompida, há espaço
apenas para aqueles ligados ao poder, à violência, à corrupção, à hipocrisia e
à luxúria (“Polícia agiota fariseu / Ou cocote"). No entanto, aqui aparece
uma salvação para o sujeito lírico: o encontro com a natureza, representada
pela terra e pelo mar. Pela união com os elementos naturais, ele pode finalmente
se encontrar.
Nem
todos, no entanto, conseguem preservar sua integridade. A ambição desmedida
aparece no poema “Velório rico”, no qual vernos uma cena que remete à ambição e
à valorização da matéria, em detrimento dos afetos. Enquanto o morto, um
sujeito rico, é velado, seus herdeiros estão “inquietos como sombras”, ansiando
pelo que receberão do espólio e, por isso, “atormentam o ar com seus pecados”.
No
poema “Esta gente”, os versos buscam representar os portugueses e suas
ambiguidades: ora têm o rosto luminoso, ora o rosto tosco; em certos momentos
lembram escravos, em outros, reis. Trata-se de um povo submetido a
dificuldades, moldado pela paciência e pela fome, mais humilhado que “a pedra
do chão”. No entanto, diante “desta gente”, o sujeito lírico encontra a
esperança de um país mais livre e justo e tem renovada a sua vontade de combater
“o abutre e a cobra / O porco e o milhafre” – animais que, de acordo com o
senso comum, carregam aspectos negativos. Ao finalizar dizendo que, diante do
sofrimento do povo, seu canto se renova, o sujeito lírico evidencia que sua
poesia está intrinsecamente ligada ao engajamento político e à luta contra a
opressão.
O
contexto da Segunda Guerra Mundial aparece representado em “Os aviões”, que
aborda os horrores vividos por tantas cidades vitimadas pela guerra e pelos bombardeios
aéreos ao longo do século XX. Nas três primeiras estrofes, os versos apresentam
uma cena durante a qual um avião cruza o céu noturno. Sua presença perturba a
noite tranquila, na qual reinava “o silêncio branco dos muros”. O avião é
descrito como um “prodígio”, é “rápido”, um “pássaro vibrante". No
entanto, apesar de uma ameaça, trata-se de um veículo inofensivo, de modo que,
após sua passagem, tudo volta à normalidade (“a lua volta a iluminar as flores”
e o “cipreste contempla o seu próprio silêncio”). No entanto, na quarta e na
quinta estrofes, em outro lugar, outro avião leva a morte e, após sua passagem,
o cenário se transforma: “a lua não encontrou depois as flores”, já não havia
mais ninguém “dentro dos muros brancos” e a noite “em vão buscava o seu
cipreste”. Vale lembrar que o cipreste é uma árvore comumente plantada em
cemitérios e simbolicamente está ligada à morte e ao luto, mas também a
imortalidade e à renovação. Sendo assim, no poema, a morte do cipreste após a
passagem do segundo avião sugere a morte da esperança, um dos resultados
deixados pelo contexto de guerra.
Ainda
na parte II, encontramos o poema “Túmulo de Lorca”, que homenageia o poeta
espanhol Federico Garcia Lorca, assassinado em 1936, no contexto de
perseguições da Guerra Civil Espanhola.
Em ti choramos os outros mortos todos
Os que foram fuzilados em vigílias sem data
Os que se perdem sem nome na sombra das
cadelas
Tão ignorados que nem sequer podemos
Perguntar por eles imaginar seu rosto
Choramos sem consolação aqueles que sucumbem
Entre os cornos da raiva sob o peso da força
Não podemos aceitar. O teu sangue não seca
Não repousamos em paz na tua morte
A hora da tua morte continua próxima e
veemente
E a terra onde abriram a tua sepultura
É semelhante à ferida que não fecha
O teu sangue não encontrou nem foz nem salda
De Norte a Sul de Leste a Oeste
Estamos vivendo afogados no teu sangue
A lisa cal de cada muro branco
Escreve que tu foste assassinado
Não podemos aceitar. O processo não cessa
Pois nem tu foste poupado à patada da besta
A noite não pode beber nossa tristeza
E por mais que te escondam não ficas
sepultado
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Ingrina. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O
Cristo Cigano/ Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p 43.
O
sujeito lírico estende seu pranto não só a Lorca, mas a todos os encarcerados,
mortos e desaparecidos durante a guerra. No entanto, mais do que o lamento, e a
indignação que se faz presente. Não é possível aceitar ou encontrar paz diante
da violência perpétua, do sangue que “não seca”, da “ferida que não fecha”, do “processo
que não cessa”. O último verso deixa evidente que, ainda que o paradeiro do
corpo de Lorca permaneça desconhecido, sua memória se mantém viva.
Parte III: A noite e
a casa
Na
parte III, os poemas perdem a carga negativa da seção anterior. A noite e o
silêncio se tornam os parceiros da criação artística. Para isso, a casa é o
espaço privilegiado, simbolizando o encontro do eu consigo mesmo. Mas, assim
como as casas, sujeitas as mudanças impostas por aquilo que vem das ruas, o
sujeito também está em constante diálogo com o mundo externo. Essa porosidade entre
o dentro e o fora, entre o mundo subjetivo e o mundo das coisas concretas, é
característica da obra andreseniana.
Isso
já pode ser notado no primeiro poema da seção, “Quadrado”, no qual o sujeito lírico
pede que seja deixado com a luz, vinda de fora, e com a sombra, projetada na
parede. Desse modo, mediado pela janela, ele se situa na fronteira entre o
mundo externo e o interno. Podemos pensar o próprio poema como uma janela que
se coloca entre o poeta e o leitor.
No
poema seguinte, “Escuto”, o tom otimista fica evidente. O enunciador aparece em
comunhão com o sagrado. Ele está em dúvida se o que ouve é o silêncio ou deus,
que seria uma “consciência atenta / Que nos confins do universo / Me decifra e
fita”. No entanto, o sagrado não pode ser acessado diretamente, apenas intuído.
Mesmo
assim, o sujeito lírico tem a certeza de que é alguém “olhado amado e conhecido”.
Essa certeza faz com que ele aja, em cada momento, com “Solenidade e risco”, o
que sugere um encorajamento diante da vida. Essa integração entre mundo
interior e mundo externo, homem e sagrado, também ocorre dentro do próprio
sujeito, como se vê nos versos de “Bach Segóvia guitarra”: “E agora de mim / Não
me separa nada”.
Já
os poemas “Vela”, “A luz e a casa”, “A noite e a casa” e “Espera” formam uma
espécie de conjunto dentro da parte III. No primeiro deles, a casa está
personificada, “sai da sombra”, “se concentra", “fica muda” e “espantada”.
Os versos constroem uma cena durante a qual anoitece e, dentro da casa, a chama
da vela ilumina o ambiente, em um momento de espera carregada de atenção. No poema
seguinte, “A luz e a casa”, a casa iluminada pela vela se procura, ou seja, volta-se
para si, em um processo de personificação. Observamos a presença de um sujeito
lírico que sente a casa, a ponto de quase tocar
sua respiração. Há ainda uma intensa expectativa para algo que irá acontecer ao
cair da noite. Em “A noite e a casa”, algo se revela: a casa encontra seu
destino, o silêncio, e como resultado temos o sentimento de inteireza (“Nada
agora se dispersa se divide”). Por fim, em “Espera” o silêncio que chega, como
uma “Navegação antiquíssima e solene”, permite ao sujeito lírico a criação poética
com a mão pousada sobre a mesa representando o ato da escrita.
Parte IV: Dual
Muitos
poemas de Dual abordam a questão da efemeridade e da morte. Em “Novembro”, o
outono caminha para o fim, com uma “respiração [...] verde e fria” e um vento
que “inquieta’, anunciando a chegada do inverno. Em “Caminho”, o sujeito lírico
manifesta a consciência da morte – sua e a dos outros – ao caminhar por um
deserto, onde o sol e a secura castigam. As dificuldades enfrentadas nesse ambiente
são tantas que o cansaço impede a imaginação e o sonho (as “miragens”). A
imagem da caminhada persiste no poema seguinte, “Janela”, no qual a passagem
implacável do tempo coloca o sujeito em um percurso rumo à morte: “Caminho para
a frente e cega me persigo/ Quem me consolará do meu corpo sepultado?”. No
poema “Casa”, a morte se faz presente por meio da memória e do trauma. O sujeito
lírico recorda uma antiga casa de inverno que, apesar de pertencer ao passado,
está presentificada pois surge em seus sonhos. Observa-se aqui uma relação com
o poema “Os aviões”, da parte II de Geografia,
já que em ambos há noites de “espanto e de prodígio”. Se no poema anterior o avião
de guerra trazia a morte, neste comparece a imagem dos anjos vermelhos que, em
vez de protegerem os seres humanos, batalham entre si.
Em dois poemas dessa seção, a finitude atinge também o sentimento amoroso. Em “Assim o amor”, vemos o impacto desse sentimento sobre o sujeito lírico. A repetição no início do segundo e terceiro versos (“Espantando meu olhar”) intensifica o deslumbramento sentido por ele em relação ao seu objeto de afeição. No entanto, vemos progredir, ao longo do poema, um espanto que vai das coisas concretas (“cabelos”, “cavalos”, “avenidas”) àquilo que é mais abstrato e fugidio (“um confuso rumor de obscuras vidas”, “o tempo”), de modo que o sujeito se vê diante da frustração de não encontrar algo permanente e exato. Como sugere o último verso, é impossível encontrar a “eterna luz precisa”, pois a experiência amorosa e efêmera, ameaçada pelo “tempo sentado no limiar dos campos”. O mesmo ocorre em “De um amor morto”. Se no início o sentimento se apresenta belo e absoluto, no decorrer do tempo ele se esvazia, “não fica”, “não rende”, é devorado e levado embora. No fim, nem a memória é capaz de recuperá-lo, “Pois um amor morto / Não dela em nós seu retrato”.
Em
“As nereides”, o sujeito lírico manifesta o desejo de lutar contra a
impermanência, sugerido pela repetição do verbo “reter”. Essa expectativa e
dirigida inicialmente ao quarto, o quadrado branco que guarda, como em outros
poemas da coletânea, o “silencio” e a “vida atenta”. Em seguida, desloca-se
para elementos avistados pela janela: gostaria de reter o brilho da constelação
Cassiopeia e o movimento das ondas que quebram na praia. Por fim, afirma seu
desejo de “habitar para sempre” o espelho do quarto, indicando que também anseia
ser eterno, o que e reforçado pelo verso seguinte (“Que dos meus ombros jamais
tombasse o tempo”) e pelo desejo de ser como as nereides, ninfas ligadas ao mar
desde tempos remotos. Podemos ainda considerar a conexão entre a imagem da
janela e a do espelho: a primeira como aquilo que conecta o interior e o
exterior, a segunda como aquilo que conecta o sujeito a si mesmo. Com base
nessa associação, traça-se uma continuidade entre o fora, o quarto e aquilo que
mora dentro do sujeito, tomando-os um só.
Por outro lado, em alguns poemas dessa seção, o sujeito lírico parece encontrar maneiras de lidar com a efemeridade. Uma delas seria a criação poética, capaz de conter e expressar as diferentes partes do indivíduo, como se observa no poema “Dual”. Nele, o sujeito lírico está ligado tanto ao silêncio quanto ao tumulto. Podemos entender que os versos remetem ao ato da criação poética, sendo a parede depositária dos poemas, como se fossem uma página em branco. Aqui, o fato de as paredes refletirem o sujeito lírico sugere que fica inscrita e eternizada sua palavra.
A
mesma imagem se repete em “No quarto”, mais precisamente nos versos “A nossa
imaginação divaga entre paredes brancas / Abertas como grandes páginas lisas”.
No
poema “A flauta”, o momento apresentado é também o da inspiração poética,
possibilitada pela aliança com a noite e pela presença do silêncio.
Em
“Signo”, apesar da presença do signo da morte, o sujeito lírico equilibra e
unifica sua solidão com as coisas exteriores, o que, no contexto da obra de
Sophia de Mello Breyner Andresen, também sugere – metalinguisticamente – a
produção poética, resultado do elo entre o eu e o outro, entre indivíduo e
mundo.
Esse
ideal de unificação atinge seu auge em “No deserto”, no qual o sujeito lírico
diz dominar uma parte de si, como se domasse um cavalo, para que ela não se
corrompa. Assim, deixando de ser “dois” e se tornando “só um mesmo”, o sujeito
pode aparecer por inteiro “No espaço interior de cada poema”.
O outro modo de lutar contra a efemeridade e ainda realizar o ideal da inteireza é o retorno à Antiguidade, que será o tema da seção seguinte, mas que aqui já se anuncia no poema “Ali, então”. Trata-se de um retorno ao início e à essência das coisas, “Como o primeiro dia conhecido”, “Como se a morte a dor o tempo e a sorte / Não nos tivessem nunca conhecido”.
Parte V: Mediterrâneo
A
Itália e, principalmente, a Grécia com suas paisagens e sua mitologia são uma
constante na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. Em 1963, a poeta visitou
pela primeira vez o território grego em companhia da escritora Agustina Bessa
Luís e do marido ela, Alberto Luís. Logo no primeiro instante, ficou fascinada
com o que encontrou, como deixou registrado em seu diário de viagem.
Piso, às 4 e meia a
terra grega. Estrada maravilhosa à saída de Patras. Vamos rente ao mar entre
oliveiras e ciprestes e montanhas azuladas. Calor leve, ar perfumado. As
montanhas ligam a terra ao Olimpo. Paramos e vou lavar os pés, as mãos, os
braços e a cara, no mar. Água maravilhosa, transparente e fresca e tépida. Bebi-a.
É muito salgada
A felicidade, a frescura, o calor, o maravilhamento, o ar de oiro, o azul espalhado que estão em Homero, estão aqui. Cheira a resina. Jantamos à beira da estrada. Salada de tomate, azeitonas, ervas e pepino, queijo fresco de cabra, lulas fritas, vinho resinato branco, maravilhoso. É tudo quase maravilhoso demais.
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Fragmentos do diário manuscrito na primeira viagem à
Grécia em 1963 Disponível em: https://purl.pt/19841/1/1960/galeria/f2/diario.html.
Acesso em 30 jun. 2025
Para
Sophia, a Grécia materializa o ideal de comunhão total entre o ser humano, a
natureza e os deuses. Em suas paisagens e ruínas, a poeta encontrava os valores
da justiça, da liberdade e da verdade – justamente aqueles de que carecia a
pátria portuguesa sob a ditadura salazarista. Em contraste com muitos poemas
anteriores, nos quais a noite predomina, nessa seção encontramos lugares iluminados
pelo sol.
O
maravilhamento que Sophia experimentou ao chegar à Grécia é bem representado
nos versos de “Acaia”. O título faz referência a uma região da Grécia em que
ela afirma ter se despido do seu “vestido de exilio” e sacudido de seus “passos
a poeira do desencontro”. Isso sugere que, no contato com esse espaço, ela
pôde, enfim, sentir-se em casa e se encontrar.
O
ideal de comunhão com os deuses aparece em “No Golfo de Corinto”, cujos versos
falam de um lugar em que a proximidade entre homens e deuses é tão grande que
seria possível sentir a respiração desses últimos e seu cheiro. Diferentemente
dos homens, essas divindades são perfeitas, possuem corpos “Sem dor sem suor
sem pranto / Sem a menor ruga de tempo” e seu sangue é “uma luz cor de amora no
poente” que se une ao sangue humano.
Essa
união entre divindade, humanidade e natureza é um ideal buscado pelo sujeito
lírico de diversos poemas da seção V. E, para tanto, é necessário empreender um
retorno às origens, procurar “a ordem intacta do mundo / A palavra não ouvida” (Antinoos),
recuperar “a antiga / Divindade do ar entre as colunas” (Vila Adriana) ou, como
nos versos finais de “Ítaca”), resgatar “o teu selo a tua sabedoria inicial”,
emergindo assim “confirmada e reunida”.
Os valores da justiça e da liberdade são abordados, respectivamente, nos poemas “Electra” e “Epidauro”. No primeiro caso, o poema remete à figura mitológica de Electra, que buscou se vingar da mãe depois que esta, em parceria com um amante, assassinou Agamenón, pai da jovem. Sophia de Mello Breyner Andresen recria poeticamente o mito, com o grito de Electra perturbando o silêncio e convocando a justiça dos deuses. Já em “Epidauro”, repete-se um grito, que, dessa vez, é do eu lírico, que deseja destruir o Minotauro, a figura mitológica metade homem, metade touro, feroz e devoradora de seres humanos. No poema, esse monstro é representado como uma figura insaciável, que “Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias” e devora as alegrias. No entanto, de repente se percebe que o Minotauro não é verdadeiramente um monstro, mas sim “um homem que traz em si próprio a violência do toiro”. Tal constatação é, por si só, libertadora e ocorre em um “país do exterior onde cada coisa é [ ... ] trazida à liberdade da luz”. Podemos entender que a figura do Minotauro funciona como alegoria para a maldade, a violência e a opressão, que perdem a força sob a claridade das manhãs na cidade de Epidauro.
No
último poema dessa seção, “Um poeta clássico”, encontramos uma reflexão sobre o
fazer poético, em que a ausência é apresentada como parte do jogo. Tendo em
vista o ideal de integração já citado, a consciência da ausência coloca a poeta
em movimento, na busca da totalidade. Entende-se assim que sem a falta, sem o
vazio, não há o impulso necessário para a escrita poética, a ponto de a
ausência ser uma companheira do artista, uma “Segunda mão poisada sobre a mesa”.
No fim, a partir dela emerge a matéria da qual é feita a poesia (os “desastres”)
depositada nas páginas em branco (os “pátios lisos”).
Parte VI: Brasil ou do outro lado do mar
Nessa
seção, os poemas louvam o Brasil e atestam o maravilhamento sentido por Sophia
de Mello Breyner Andresen quando esteve em visita ao nosso país, em 1962.
[...] uma das coisas
que mais me comoveu no povo brasileiro foram dois aspectos: a continuação de
certos costumes portugueses e da língua e mais, também, o aspecto ecumênico do
Brasil. Eu não posso esquecer-me, por exemplo, da primeira missa que ouvi no
Brasil. Estava cercada de gente de todas as partes do mundo, tive uma profunda
impressão e comunidade, sentindo desabrochar um humanismo novo.
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Discurso de Sophia de Mello Breyner. Apud PAGOTO, Cristian. Imagens poéticas do Brasil no livro Geografia de Sophia de Mello Breyner Andresen. Entrelinhas, v. 12, n. 1, jan./jun. 2018
No poema “Descobrimento”, os versos lembram o fascínio que o primeiro encontro com a terra brasileira e com os indígenas provocou nos navegantes portugueses. No entanto, a cena do “descobrimento” é reinventada, tirando o protagonismo dos homens e colocando-o no mar, que mostra aos portugueses o que era então desconhecido. Assim como os poemas da parte V, Mediterrâneo, os povos nativos estão ligados a uma espécie de origem intocada. Eles são “homens recém-criados ainda cor de barro / Ainda nus ainda deslumbrados”, ou seja, ainda guardam a comunhão total entre homem e natureza.
Na sequência, vemos uma homenagem à arte e à
poesia brasileiras por meio do poema “Manuel Bandeira”.
Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar
Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
“As três mulheres do sabonete Araxá”
E minha avó se espantava
Manuel Bandeira era o maior espanto da minha
avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do “Trem de ferro”
E o “Poema do beco”
Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos
da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava
Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu
ombro
E foram parte do tempo respirado
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Manuel Bandeira. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 96.
Nas
duas primeiras estrofes, o sujeito lírico explica que, apesar de estar do outro
lado do mar, conhece o poeta brasileiro desde a juventude, momento em que
recitava os versos de “Balada das três mulheres do sabonete Araxá”, “Trem de
ferro” e “Poema do beco”, causando espanto em sua avó. Essa reação pode ser
explicada pela linguagem irreverente do poeta brasileiro, pelo erotismo ao
falar de seu fascínio pelas mulheres, pela sonoridade de seus versos e por sua
atenção para os elementos prosaicos e materiais da existência.
No poema “Brasília”, a homenagem se dirige à capital do Brasil, o que vai na contramão da representação das cidades modernas na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, quase sempre ligadas à degradação humana. No entanto, para a poeta, Brasília cumpre, assim como as cidades gregas, o ideal de unidade.
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecuménica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Brasília. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O
Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 98.
Segundo
o poema, o Brasil saiu do Barroco, ligado a Portugal, e atingiu o ideal da
liberdade, com identidade artística, social e política própria, materializada
em Brasília. Além disso, ali cumprem-se os ideais da justiça e da unidade,
observados na mistura dos “homens de todas as raças”, em referência aos
diferentes grupos humanos que compunham a recém-criada capital do país. O poema
exalta inclusive a figura dos candangos, pessoas que deixaram suas cidades de
origem para trabalhar na construção de Brasília. Nesse poema também temos presença
de duas deusas, Ártemis e Athena. A primeira preside o nascimento e o
desenvolvimento dos seres humanos; a segunda, ligada à sabedoria, protege as
instituições artísticas e ligadas à produção do conhecimento. Ao estabelecer
uma relação entre a capital do Brasil e essas duas divindades, o poema sugere
que a cidade tem a função política de organizar com sabedoria a vida dos
brasileiros.
O
quarto e último poema dessa seção faz referência a uma brasileira que Sophia
conheceu quando veio ao país. A poeta portuguesa se encantou com a forma de
Helena pronunciar as palavras, com todas as sílabas bem pronunciadas, “Sem
perder sequer um quinto de vogal”. No “Poema de Helena Lanari”, a linguagem é
capaz de criar realidade, já que, quando a palavra “coqueiro” é pronunciada
pela amiga brasileira, “com suas sílabas todas”, ele fica mais “vegetal”. Desse
modo, é como se a imagem sonora (o som das palavras pronunciadas por Helena,
mais “inteiras”) tivesse como consequência uma imagem visual específica, um
coqueiro em sua totalidade e essência, o que se relaciona ao ideal perseguido
por Sophia: o da inteireza. O português falado por Helena – e, por extensão,
por todo brasileiro – é poético aos ouvidos do eu lírico, e ajuda a explicar o
título (“Poema de Helena Lanari”, em vez de “Poema sobre Helena Lanari”), já
que é como se a amiga brasileira, ao falar o português do Brasil, tão sonoro,
recitasse poemas.
Parte VII: No poema
Do
mesmo modo que as partes anteriores do livro, No poema também pode ser associado a um espaço a ser buscado,
ocupado e explorado pelo sujeito lírico, na medida que
[...] o título não é
apenas Poema mas No Poema, que é um adjunto adverbial de lugar. A ideia de lugar
está reforçada, pois a poeta está a dizer: é isso mesmo, o poema pode ser um
lugar, aliás, é um lugar. A problemática, portanto, está colocada. Será que o poema,
assim como o mar, também pode ser o caminho “para minha casa”?
STEINBERG,
Vivian. “No poema”: um paradigma da
tessitura poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. 2006. Dissertação
(Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2006. p. 20.
Nos
quatro poemas dessa seção, há uma sondagem sobre o fazer poético – a escolha
das palavras mais adequadas e a relação entre o poeta e sua escrita. Em “Poesia
de inverno”, encontramos um eu lírico que precisa fazer uma escolha cuidadosa
entre os restos de palavras, usando “pinças assépticas”. O inverno aqui está
associado a um momento negativo, um “tempo sem deuses”, onde impera a descrença.
Por isso, palavras ligadas à suavidade, à beleza e à cor, como “seda nácar
rosa”, parecem deslocadas, e seu uso gera vergonha e arrependimento. O eu
lírico anseia então pelo momento do estio, ou seja, a chegada do verão, que
simboliza um tempo de esperança no qual a vida se faz presente, substituindo o
descontentamento.
Em
“Escrita do poema”, o sujeito lírico não se apropria do gesto da escrita. Diz
“a mão”, em vez de “minha mão”. Além disso, essa mão escreve no “branco das
paredes”, como se o espaço de escrita não fosse uma superfície concreta, mas o
vazio e o nada. O ato da escrita, nesse sentido, significa inserir presença
onde havia antes ausência. Assim, não espanta que o momento de escrita, tal qual
o momento da criação, seja um momento solene, no qual “Há um silêncio grave”.
Se
em “Poesia de inverno” temos a ausência dos deuses e em “Escrita do poema” o
poeta está alheio, em “Da transparência”, Deus e homens se conectam em uma
espécie de oração. Logo no primeiro verso, o eu lírico clama: “Senhor
libertai-nos do jogo perigoso da transparência”. A transparência é, aqui, um
“jogo perigoso” do qual devemos nos libertar justamente por ser algo ilusório.
Há mais verdade na opacidade, no mistério, na dúvida de não saber bem o que são
as coisas. As águas transparentes não guardam corais ou búzios, “Mas sufocado
sonho”, ou seja, nossas desilusões. O eu lírico ainda afirma que não sabemos
exatamente o que são os sonhos e apresenta a hipótese: são eles “Condutores
silenciosos canto surdo / Que um dia subitamente emergem / No grande pátio liso
dos desastres”. Na parte V do livro, no poema “Um poeta clássico”, já havia surgido
a imagem do pátio liso onde emergem desastres, simbolizando a escrita poética.
Desse modo, podemos entender que nossos sonhos emergem de nossa alma e se
transformam em poemas.
Por
fim, a obra se encerra com “Poema”.
A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para
fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Poema. In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O Cristo Cigano / Geografia. São Paulo:
Companhia das Letras, 2024. p. 107.
No
primeiro verso, o eu lírico afirma que sua vida é “o mar o Abril a rua”. O mar,
o elemento soberano de sua poesia; Abril, o mês de início da primavera e,
assim, do renascimento, mas também o mês da Revolução dos Cravos, aludindo ao
engajamento político da autora; a rua, o símbolo do encontro com o outro. No
segundo e no terceiro versos, está presente a ideia de integração que percorre todo
o livro: o interior do sujeito lírico é uma atenção voltada para fora – e ele
escuta. A escuta em Sophia opera sempre como um elemento de conexão entre o
indivíduo e o mundo externo. Trata-se de uma observação atenta, vinda da alma,
que busca captar o invisível, os sons naturais e humanos, as sílabas perfeitas,
a musicalidade do mundo, como se este pudesse produzir frases que ficam gravadas
no espaço e no tempo. Tudo existe de forma independente da poeta, que apenas
deve estar atenta, observar o real ao redor e, com base nessa percepção,
empreender sua criação artística.
Na
segunda estrofe, a enunciadora diz que procura Deus no mundo, “Sabendo que o
real o mostrará”. A divindade, assim, não se mostra inalcançável, pois está
materializada na natureza, na vida que cerca a poeta.
Na
terceira estrofe, a voz lírica renuncia às explicações e às teorias (ainda que
esse poema seja, no fim, uma explicação). Seu método é manter o pensamento nu,
aberto ao novo, à experiência, sem preconcepções que impeçam o estado de
presença e comunhão.
Na
quarta estrofe, o eu lírico afirma que sua biografia se confunde com a “terra o
sol o vento o mar”, pois poeta e mundo são um só. Por isso, sua identidade não
é fixa, está em constante mutação, assim como os elementos da natureza. A ela
se acrescenta tudo o que vê, não há permanência, mas um estado de expansão.
Nesse
sentido, na quinta estrofe, há a recusa em dar “opiniões” e “entrevistas” ou
falar sobre “datas” e “moradas”, pois tudo isso remeteria ao imutável.
Na
última estrofe, surge a consciência da finitude. Se no primeiro verso se
anuncia a vida, aqui é a morte que aflora lentamente, preparada dia a dia. No
entanto, não há alarde, espanto ou lamento. O fim (do poema, do livro e da
vida) é inevitável, e a poeta sabe disso.
Estilo
Os
poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen são caracterizados pela concisão e
pela clareza, como se a poeta buscasse alcançar a expressividade das imagens por
meio de poucas palavras, escolhidas meticulosamente. Esse traço a aproxima do
poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, de quem foi leitora e grande
admiradora.
Tanto
João Cabral quanto Sophia valorizam os substantivos concretos. No poeta
brasileiro, a rejeição ao sentimentalismo e a busca por uma linguagem precisa
se relacionam à escolha de algumas imagens recorrentes, como “faca” e “pedra”.
Já em Sophia, o anseio por entrar em contato com o real em sua materialidade
resulta em imagens expressivas, que constituem um universo particular, no qual algumas
palavras são recorrentes e ganham sentidos próprios, que vão além dos
convencionais.
Algumas
imagens usadas de maneira repetida em Geografia
estão ligadas à luminosidade, à claridade, ao branco, e remetem à positividade
e à vida. No entanto, a escuridão da noite, também frequente, é apreciada como
momento de encontro do sujeito lírico com o silêncio (outro elemento
recorrente), do qual emerge a criação poética.
Há
ainda a presença constante da casa e do quarto, relacionados à interioridade do
sujeito; dos espelhos, por meio dos quais se dá o encontro consigo; das
janelas, que conectam o eu ao outro; das paredes, metáfora das páginas em
branco, depositárias da escrita poética.
O
mar e seus elementos são o espaço da liberdade, da resistência e da salvação de
um sujeito que, em meio à sordidez do mundo, pode se encontrar. Não se trata,
portanto, do mar cantado tradicionalmente pela poesia portuguesa, o mar das
Grandes Navegações, dos heróis pátrios que dominaram a natureza. O mar de
Sophia devolve a integridade e a essência a um sujeito ameaçado constantemente
pela fragmentação do mundo moderno. É, enfim, um mar que simboliza a comunhão
da natureza com a existência humana.
O
cuidado com os aspectos sonoros também é uma característica notável da poesia
de Sophia de Mello Breyner Andresen, e são vários os recursos que contribuem para
isso. A ausência de pontuação, principalmente das vírgulas, é um deles. Além de
atribuir musicalidade ao verso e ser uma característica do Modernismo, essa escolha
da autora dialoga com o princípio ético de sua escrita: a busca da integração
total entre todas as coisas. A vírgula, que separa graficamente as palavras, é
então eliminada, como se vê no primeiro verso de “Poema”: “A minha vida é o mar
o Abril a rua”.
Outros recursos sonoros utilizados na poética andreseniana são as aliterações e as assonâncias, como no verso “Sua lisa pupila cintila e fita”, do poema “Os espelhos”. Nele temos a aliteração com a repetição da consoante /l/ e a assonância pela repetição da vogal /i/. No poema “De pedra e cal”, a aliteração do /s/ nos versos “E a brancura do sal / Sobe as escadas” também remete à sonoridade do vento e ao mecanismo da maresia.
As
rimas estão presentes de forma sutil e pontual, de modo que rimas internas,
toantes e consoantes convivem com versos brancos. Do mesmo modo, o verso
metrificado coloca-se lado a lado com o verso livre. É como se a poeta
aplicasse em sua escrita o princípio da
liberdade
defendido em sua vida, recusando, portanto, os modelos clássicos, do mesmo modo
que não adere totalmente ao verso branco e livre, ao gosto de alguns
modernistas. Esse traço estético de Sophia fica bem resumido em “Poema”, em que
a poeta anuncia sua renúncia a conceitos e modelos rígidos: “E por método é nu
meu pensamento”.
Os
poemas de Geografia frequentemente
apresentam anáforas, ou seja, a repetição da mesma palavra ou expressão no
início de diferentes versos ou frases. Além de contribuir para o ritmo do verso,
a anáfora pode enfatizar um anúncio, como no poema “Espera”, no qual a
repetição reforça a chegada do silêncio tão aguardado pelo sujeito lírico.
[...]
É então que os espelhos acendem o seu segundo
brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê o passar do silêncio
[...]
ANDRESEN,
Sophia de Mello Breyner. Espera. In:
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O
Cristo Cigano / Geografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. p. 54.
Da
mesma forma, no poema “Assim o amor” a anáfora contribui para reforçar a
intensidade do sentimento que invade os que se apaixonam: “Assim o amor / Espantando
meu olhar com teus cabelos / Espantando meu olhar com teus cavalos”.
No
“Poema de Helena Lanari”, a repetição do verbo “gostar” reforça o sentimento de
admiração e afeto do eu lírico ao escutar o português falado no Brasil: “Gosto
de ouvir o português do Brasil [...] Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas
todas”.

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