07 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: CANÇÃO DE NINAR MENINO GRANDE (2)

 



QUESTÃO 1

No contexto da obra de Conceição Evaristo, o título Canção para ninar menino grande é profundamente simbólico. Qual das alternativas abaixo melhor explica essa simbologia?

a) O título reflete a habilidade de Fio Jasmim em compor músicas que expressam sua virilidade e força, características marcantes de sua personalidade.

b) A expressão “menino grande” aponta para a ideia de que mesmo os adultos, especialmente os homens negros, carregam traumas de infância que necessitam de cuidado e acolhimento.

c) O título sugere que as canções de ninar são exclusivas para crianças, mas, na obra, são usadas para demonstrar a fragilidade emocional de todas as mulheres com as quais Fio se relaciona.

d) O título é uma crítica direta à incapacidade de os homens negros expressarem seus sentimentos por meio da música, limitando-se apenas ao papel de provedores da família.

e) Canção para ninar menino grande simboliza a rejeição de Juventina ao papel de “cuidadora” de Fio, destacando sua independência emocional e afastamento dos homens.

 

QUESTÃO 2

Leia o trecho a seguir, retirado da obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo. 

Fio Jasmim recolheu os presentes oferecidos pelas outras famílias e se encaminhou junto com os dois maquinistas para a pensão em que passariam a noite. Mais tarde, haveria festas na casa de um e de outro, rezas na igrejinha local, em agradecimento a Nossa Senhora da Boa Colheita. E haveria ainda visitas, caso ele quisesse, ao lugar onde as mulheres livres exerciam os seus trabalhos [...]. Seria o príncipe da noite. Não havia ali ninguém para impedir ao moço maquinista o experimento de sua realeza. [...] Fio Jasmim seria o príncipe da noite. Se, naquele dia, quando tinha apenas oito anos de idade, a professora, Dona Celeste, depois de ter contado a história da Cinderela, impediu que ele encarnasse o papel de príncipe, chamando, para o jogo cênico, um menininho loiro, ele agora poderia ser tudo.

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2023. p. 22.

 

Com base no excerto e considerando a complexidade narrativa da obra, analise as afirmações sobre a interação entre tempo e espaço e assinale a alternativa correta. 

a) A narrativa segue uma estrutura temporal estritamente linear, em que os eventos ocorrem em sequência cronológica, sem a interrupção de flashbacks ou digressões que possam alterar a continuidade da história.

b) O espaço na obra é puramente simbólico, sem qualquer ligação direta com a identidade ou o desenvolvimento dos personagens, funcionando apenas como um cenário estático para as interações de Fio Jasmim e suas amantes.

c) A narrativa adota uma construção temporal não linear, usando reminiscências e digressões para expor a influência dos eventos históricos e pessoais no presente dos personagens, ressaltando a continuidade das experiências de opressão e resistência.

d) Os espaços físicos, como as cidades e vilas que Fio Jasmim visita, são selecionados de forma aleatória e não têm impacto significativo na progressão temporal da narrativa ou na construção da identidade das personagens femininas.

e) A obra simplifica a relação entre tempo e espaço, focando exclusivamente as vivências pessoais de Fio Jasmim, sem abordar as implicações sociais e históricas para as personagens femininas afro-brasileiras.

 

QUESTÃO 3

O poema a seguir, intitulado “Vozes-mulheres”, é de autoria de Conceição Evaristo. 

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

 

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

 

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela

 

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e

fome.

 

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

 

A voz de minha filha 

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem –- o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade.

EVARISTO, Conceição. Vozes-mulheres. In: EVARISTO, Conceição. Poemas de recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Male, 2017. p. 24-25.

Nas obras de Conceição Evaristo, são temáticas frequentes a ancestralidade e a memória coletiva. Como a linguagem é usada para expressar a resistência e a identidade cultural no poema “Vozes-mulheres” e no livro Canção para ninar menino grande?

a) Em “Vozes-mulheres”, a linguagem é direta e objetiva para enfatizar a resistência, enquanto em Canção para ninar menino grande é usada uma linguagem simbólica e metafórica para explorar a identidade cultural.

b) “Vozes-mulheres” emprega uma linguagem rica em imagens sensoriais para transmitir a resistência feminina, enquanto Canção para ninar menino grande usa um estilo narrativo linear para abordar a identidade cultural.

c) “Vozes-mulheres” e Canção para ninar menino grande utilizam a linguagem formal e acadêmica para discutir a resistência e a identidade cultural de maneira crítica e analítica.

d) Em “Vozes-mulheres”, a linguagem é fragmentada para refletir a complexidade da identidade cultural, enquanto em Canção para ninar menino grande é exclusivamente contínua para expressar a resistência.

e) Ambas as obras usam a linguagem poética para expressar resistência e identidade cultural, mas “Vozes-mulheres” se concentra na repetição e no ritmo para reforçar a continuidade histórica, enquanto Canção para ninar menino grande utiliza a oralidade combinada à escrita lírica para expressar diversidade cultural.

 

QUESTÃO 4

Leia atentamente o trecho a seguir, extraído da obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo. 

Mas Fio Jasmim, ele próprio, como homem, aprendera que o território macho era outro. Era uma região que se situava a mil milhas de diferença das terras das mulheres. E, como proprietário de uma extensa gleba, o homem ali tinha o dever de dominar as mulheres, de alguma forma. E mais, tinha ainda de desafiar e causar inveja a outros machos. Não sendo de bom tom o derramamento das dores do macho - assim pensava Fio Jasmim –, por isso ele calou qualquer sintoma de mortificação em sua vida.

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2023. p. 129.

 

Com base na leitura do texto, assinale a alternativa que identifica adequadamente como o conceito de escrevivência se manifesta.

a) A autora apresenta uma narrativa desprovida de qualquer conexão com experiências pessoais, mas que tem preocupação em fazer críticas sociais, como a estereotipação que envolve a figura masculina.

b) O foco no passado afasta a obra da ideia de escrevivência.

c) As histórias, na obra, são contadas de forma objetiva e simples, a partir da oralidade, evitando nuances emocionais.

d) O texto destaca a interconexão entre a narrativa, a memória coletiva e a resistência ancestral, exemplificando a presença do conceito de escrevivência.

e) A obra negligencia a importância da tradição oral na transmissão de histórias.

 

QUESTÃO 5

Com base em seus conhecimentos sobre a obra Canção para ninar menino grande, indique V (verdadeiro) ou F (falso) para cada uma das sentenças a seguir e depois marque a alternativa correta.

(x) Fio Jasmim, o jovem maquinista, busca aventuras e novas experiências profissionais, sem o desejo de ter uma residência permanente.

(x) Fio Jasmim está tentando demonstrar sua masculinidade e virilidade para os maquinistas mais velhos, seguindo aquilo que lhe fora ensinado por seu pai e conforme os padrões sociais de sua época.

(x) Neide Paranhos da Silva busca manter sua independência e autonomia, recusando-se a deixar sua cidade natal para continuar seus estudos.

a) F – V – F

b) F – V – V

c) F – F – V

d) V – F – V

e) V – F – F

 

QUESTÃO 6

Texto 1

A mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua subjetividade; diz-se de bom grado que ela pensa com suas glândulas. O homem esquece soberbamente que sua anatomia também comporta hormônios e testículos. Encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo, que acredita apreender na sua objetividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que específica: um obstáculo, uma prisão. [..] A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. p. 12.

 

Texto 2

Ancorar seu corpo nos corpos de diversas mulheres tinha sido uma lição que Fio Jasmim aprendera com o próprio pai [..]. Fio cresceu ouvindo as proezas do pai. Aprendera com ele que ser homem era ter várias mulheres. E o mais certo era escolher, dentre elas, uma mais certa ainda para o casamento. Cedo, Fio Jasmim começou a buscar avidamente por mulheres, como se o nosso corpo não tivesse outra função, a não ser a de ancoradouro para os homens. [...] A cada encontro, se pensava mais macho e, portanto, mais feliz.

EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de Janeiro: Pallas, 2023. p. 93-94.

 

Os excertos anteriores trazem discussões e visões diferentes sobre a construção das identidades de gênero e a percepção do corpo da mulher na sociedade. Com base na leitura atenta desses trechos, responda: 

a) De que forma cada um dos textos revela as normas de gênero e as expectativas sociais impostas a homens e mulheres?

b) Refletindo sobre as ideias apresentadas nos trechos, discorra sobre as implicações dessas construções de gênero na autonomia individual e na percepção de identidade que homens e mulheres têm sobre si em Canção para ninar menino grande.

 

QUESTÃO 7

Rosana Paulino (1967) e a arte militante negra

A paulistana da Freguesia do Ó é artista plástica com bacharelado e doutorado pela Universidade de São Paulo e uma das primeiras a despontar no movimento negro. Desde o começo, entendeu o lugar de exceção que ocupava dentro de uma instituição branca e elitista e fez de seu trabalho um lugar de militância. [...]

Em um de suas séries mais conhecidas, Os Bastidores, ela imprimiu fotografias de mulheres de sua família em um tecido branco colocado em bastidores, e bordou grosseiramente com linha preta por cima de suas bocas [...]. São olhos que não podem ver, boca que não pode falar, nem gritar.

 


[...] Sobre essa série, a artista diz:

“Tocaram-me sempre as questões referentes à minha condição de mulher e negra. Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário [..]. Utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido, costurando novos significados, transformando um objeto banal, ridículo, alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam, dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e, principalmente, para sua condição no mundo”

STUQUE, Jessica. 5 mulheres brasileiras que retratam o machismo nas artes visuais. Soul Art, 13 mar. 2018. Disponível em: https:/soulart.org/artes/5-mulheres-brasileiras-que-retratam-o-machismo-nas-artes-visuais. Acesso em 19 nov. 2024.

 

Com base na leitura do texto sobre a obra da artista brasileira Rosana Paulino e na obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo, responda:

a) De que forma o nome do protagonista da obra de Conceição Evaristo, “Fio”, serve como metáfora para sua influência e presença na vida de diferentes mulheres, unindo-as por meio de experiências de amor e sofrimento?

b) Qual relação de sentido pode ser estabelecida entre o nome do protagonista de Canção para ninar menino grande e a obra de Rosana Paulino? 

 

QUESTÃO 8

Texto 1

O lápis e a folha em branco

Affonso Romano Sant’Anna 

– O que é necessário para uma pessoa vir a ser escritor? Pergunta simples. Resposta complexa.

Clarice Lispector, no fabuloso A maçã no escuro, nos diz algo a respeito. Algo não, muito, a respeito disto. E ter a coragem e a competência para ler, mastigar, ruminar esse manual da escrita e da vida que é esse livro, é já um teste para quem se pensa escritor. Verdade é que o bom leitor, o que não quer necessariamente ser escritor, mas se escreve e se inscreve nos livros alheios, esse terá também aí a prova de suas habilidades.

            – O que nos diz Clarice?

            Mais ou menos no meio do romance, o personagem Martim teve um impulso de escrever. Esse impulso, esclareça-se, surge numa progressão de descobertas de sua relação com o mundo: “Como um homem que fecha a porta e sai, e é domingo. Domingo era o descampado de um homem”. Ele já havia iniciado um aprendizado de observar e interpretar o seu entorno. Principiou pelo mais simples, pelo mundo mineral e vegetal. Reaprendeu a ver a natureza dentro e fora de si mesmo: as pedras, os pássaros, as vacas na fazenda. Já reaprendera a ver as roseiras, as abelhas, as samambaias e a surpreender a singularidade pungente e alarmante que cada objeto ou criatura tem. Já se aproximara de seu semelhante, estava descobrindo a mulher e o amor. Portanto, fora um longo trajeto de reelaboração interior articulado com a redescoberta do mundo. [...]

            Como todo ato de criar, escrever (às vezes, até mesmo uma simples carta, relatório ou trabalho escolar) é colocar-se na borda do abismo. Martim “hesitava e mordia a ponta do lápis [...] de novo revirou o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele não teve desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva de que mal escrevesse a primeira palavra e seria tarde demais”.

Ler Clarice, minhas amigas e amigos, é uma das angustiantes e deliciosas responsabilidades da vida intelectual. Lamento não poder reencenar aqui a densidade verbal do que ela segue narrando naquele livro. Seu personagem segue sofrendo para encontrar seu canal de expressão: “tudo o que lhe parecera pronto a ser dito evapora-se, agora que ele queria dizê-lo”. E “de repente se sentiu singelamente acanhado diante do papel branco como se sua tarefa não fosse apenas a de anotar o que já existia, mas a de criar algo a existir”. [...]

Um lápis e um papel e a tremenda solidão e responsabilidade. O abismo. Abismo onde se perder e se reencontrar. Onde outros se perdem e se reencontram através da escrita alheia.

            O romance de Clarice é uma alegoria não só sobre o processo de criação e recriação do indivíduo, mas uma alusão à trajetória de qualquer cultura que queira assumir o embate e a alteridade entre o eu e o outro, entre o eu e o mundo. O leitor visceralmente leitor, que não escritor explícito, aprenderá aí a fazer uma releitura de seu espanto e perplexidade diante da vida. E quem é escritor, quem carece não apenas de embarcar e viajar nas palavras alheias, mas construir, elaborar o seu próprio discurso, esse encontrará aí pistas e trilhas, mas sobretudo consolo de descobrir essa realidade que funciona como desafio: um lápis e uma folha em branco – nunca ninguém teve mais do que isto.

SANT’ANNA, Afonso Romano de. Com Clarice. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

 

Texto 2

Da construção de Becos

Também já afirmei que invento sim e sem o menor pudor. As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são contadas. Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali que explode a invenção. Nesse sentido, venho afirmando: nada que está profundidade, é ali que explode a invenção. Nesse sentido, venho afirmando: nada que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira. Ali, busquei escrever a ficção como se estivesse escrevendo a realidade vivida, a verdade. Na base, no fundamento da narrativa de Becos está uma vivência, que foi minha e dos meus. Escrever Becos foi perseguir uma escrevivência. Por isso também busco a primeira narração, a que veio antes da escrita. Busco a voz, a fala de quem conta, para se misturar à minha. Assim nasceu a narrativa de Becos da memória. Primeiro foi o verbo de minha mãe. Ela, D. Joana, me deu o mote: “Vó Rita dormia embolada com ela”. A voz de minha mãe a me trazer lembranças de nossa vivência, em uma favela, que já não existia mais no momento em que se dava aquela narração. “Vó Rita dormia com ela, Vó Rita dormia embolada com ela, Vó Rita dormia embolada com ela...”. A entonação da voz de mãe me jogou no passado, me colocando face a face com meu eu-menina. Fui então para o exercício da escrita. E como lidar com uma memória ora viva, ora esfacelada? Surgiu então o invento para cobrir os vazios de lembranças transfiguradas. Invento que atendia ao meu desejo de que as memórias aparecessem e parecessem inteiras. E quem me ajudou nesse engenho? Maria-Nova. [...]

EVARISTO, Conceição. Becos da Memória [livro eletrônico]. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

 

Transcreva uma passagem do texto de Affonso Romano que se aproxime da ideia de escrevivência, tal como estabelecida por Conceição Evaristo.

 

QUESTÃO 9

Explique por que o trecho transcrito na questão anterior se encaixa na definição de escrevivência.

 

QUESTÃO 10 

Notícias da Educação: Como surgiu o termo “escrevivência”?

Conceição: É uma longa história. Se eu for pensar bem a genealogia do termo, vou para 1994, quando estava ainda fazendo a minha pesquisa de mestrado na PUC. Era um jogo que eu fazia entre a palavra “escrever” e “viver”, “se ver” e culmina com a palavra “escrevivência”. Fica bem um termo histórico. Na verdade, quando eu penso em escrevivência, penso também em um histórico que está fundamentado na fala de mulheres negras escravizadas que tinham de contar suas histórias para a casa-grande. E a escrevivência, não, a escrevivência é um caminho inverso, é um caminho que borra essa imagem do passado, porque é um caminho já trilhado por uma autoria negra, de mulheres principalmente. Isso não impede que outras pessoas também, de outras realidades, de outros grupos sociais e de outros campos para além da literatura experimentem a escrevivência. Mas ele é muito fundamentado nessa autoria de mulheres negras, que já são donas da escrita, borrando essa imagem do passado, das africanas que tinham de contar a história para ninar os da casa-grande.

SANTANA, Tayrine; ZAPPAROLI, Alecsandra. Conceição Evaristo – “A escrevivência serve também para as pessoas pensarem”. Itaú Social, 9 nov. 2020. Disponível em: https:/wwwitausociaLorg.br/noticias/conceicao-evaristo-a-escrevivencia-serve-tambem-para-as-pessoas-pensarem/. Acesso em: 19 nov. 2024.

 

Com base na leitura do texto, faça o que se pede:

a) A escrevivência de Conceição Evaristo refere-se a um modo de escrever que está profundamente enraizado nas experiências vividas. Para ela, a escrevivência vai além da mera escrita; é um ato de resistência e de afirmação de identidade. Sabendo disso e com base no excerto acima, discuta como a escolha da autora em narrar a história de Fio Jasmim a partir da perspectiva das mulheres de sua vida influencia a compreensão do leitor sobre o protagonista e os temas centrais da obra.

b) Essa abordagem narrativa desafia ou reforça as expectativas tradicionais sobre a figura masculina no enredo? Explique.

 

QUESTÃO 11

[Segundo Durkheim] Nascemos no interior de um mundo constituído. A cada geração nos encontramos como uma tabula rasa frente a um conjunto de valores, crenças, normas, modos, usos etc. – que a exemplo dos objetos físicos de seu entorno são impessoais. Destarte, não somos mais que um elemento de um nexo de múltiplas interações. Para que possamos acessar esse vasto conjunto de objetos culturais, e assim desfrutar da condição de ser social, deve-se internalizar um sistema de signos que já está dado. É no curso do processo de socialização, portanto, que estes objetos culturais vão sendo incorporados pelos indivíduos.

VARES, Sidnei Ferreira de. Os fotos e as coisas: Émile Durkheim e a controversa noção de fato social. Ponto e Vírgula, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, n. 20, p. 104-121, segundo semestre 2016. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/31168/21605. Acesso em: 19 nov. 2024.

 

O determinismo social é uma teoria sociológica que sugere que o comportamento e as características dos indivíduos são amplamente determinados por fatores sociais, como a classe social, a cultura, a educação e o ambiente em que vivem. Com base na definição acima, analise como o determinismo social e as experiências de opressão racial e de gênero moldaram a identidade e o comportamento de Fio Jasmim. Em sua resposta, explique como esses fatores contribuem para a reprodução da masculinidade tóxica e das relações de poder entre os personagens.

 

 

1. B

2. C

3. E

4. D

5. A

6. a) No primeiro trecho, Simone de Beauvoir critica a visão reducionista do corpo feminino, percebido como uma prisão que impede uma relação objetiva com o mundo; a mulher, a partir de uma visão patriarcalista, é reduzida a suas funções biológicas, em contraste com a percepção do corpo masculino como neutro e universal. Já no segundo trecho, é ilustrada a socialização masculina tradicional, em que ser homem é sinônimo de ter múltiplas parceiras, o que é ensinado por meio do exemplo paterno. Ou seja, destaca-se a ideia de que a identidade masculina se constrói pela conquista sexual, reforçando estereótipos patriarcais. Como consequência, o corpo feminino é objetificado e visto apenas como um meio para afirmar a masculinidade.

b) A expectativa de afirmação da masculinidade ocorre a partir do controle sobre o corpo feminino, o que implica a limitação da autorreflexão e da complexidade emocional dos homens – como pode ser percebido no personagem de Fio, especialmente no fim do livro. Já para as mulheres, ser vista como “outra” em relação ao homem implica um ciclo de subordinação, fragilidade emocional, estereotipação e falta de autonomia, visto que suas identidades são definidas a partir de um prisma masculino – características que são percebidas nas mulheres que passam pela vida de Fio.

7. a) O nome do protagonista, “Fio”, simboliza sua capacidade de se conectar e de deixar marcas na vida das mulheres que encontra. Assim como um fio que passa por diferentes laçadas, ele une personagens separadas geograficamente por meio de laços de amor e sofrimento, ainda que efêmeros. O nome “Fio” também sugere a continuidade e a influência que ele exerce, tecendo histórias e experiências entrelaçadas. A comparação com o jasmim, uma flor conhecida por sua beleza e sedução, sublinha seu impacto encantador e, ao mesmo tempo, efêmero nas vidas das mulheres.

b) O nome do personagem e a obra de Rosana Paulino compartilham um simbolismo centrado na conexão e na transformação. “Fio” representa a influência e a ligação emocional entre as mulheres que ele toca, semelhante a um fio que une diferentes histórias. Já na obra de Rosana Paulino, o fio simboliza a opressão e o silenciamento das mulheres negras, mas também a resistência e a reapropriação de suas vozes. Ambos os contextos usam o fio para explorar temas de poder e identidade, destacando sua capacidade de unir, transformar e desafiar as narrativas pessoais e sociais.

8. “O romance de Clarice é uma alegoria não só sobre o processo de criação e recriação do indivíduo, mas uma alusão à trajetória de qualquer criatura que queira assumir o embate e a alteridade entre o eu e o outro, entre o eu e o mundo”

9. A ideia de escrevivência desenvolvida por Conceição Evaristo diz respeito ao ato de escrever e viver, isto é, inserir as vivências na escrita e, dessa forma, também vivenciar aquilo que foi escrito e criado. Assim, temos a ideia de um processo de criação e recriação do indivíduo que se relaciona à reflexão sobre a obra de Clarice.

10. a) A narrativa apresenta Fio Jasmim por meio das mulheres de sua vida, revelando sua masculinidade tóxica e os efeitos de suas ações. Essa abordagem destaca temas de opressão e resistência, humanizando Fio enquanto critica suas falhas, alinhando-se, assim, ao conceito de escrevivência de Conceição Evaristo.

b) A história desafia a visão tradicional do homem ao focar as mulheres ao redor de Fio, expondo suas fragilidades e a toxicidade da masculinidade imposta socialmente. Ao mesmo tempo, revela Fio como vítima de papéis de gênero rígidos, promovendo uma reflexão crítica sobre essas expectativas.

11. Fio Jasmim é moldado por um determinismo social que combina opressão racial e de gênero, que influenciam sua identidade e seu comportamento. As experiências de racismo e a educação machista que recebe o levam a reproduzir uma masculinidade tóxica, tratando as mulheres como objetos e afirmando seu valor por meio de conquistas superficiais. Essa dinâmica perpetua relações de poder opressivas, mas a narrativa dá voz às mulheres, desafiando e expondo essas estruturas sociais.





INTRODUÇÃO À OBRA: CANÇÃO DE NINAR MENINO GRANDE (2)

  QUESTÃO 1 No contexto da obra de Conceição Evaristo, o título Canção para ninar menino grande é profundamente simbólico. Qual das alterna...