QUESTÃO 1
No
contexto da obra de Conceição Evaristo, o título Canção para ninar menino grande é profundamente simbólico. Qual das
alternativas abaixo melhor explica essa simbologia?
a)
O título reflete a habilidade de Fio Jasmim em compor músicas que expressam sua
virilidade e força, características marcantes de sua personalidade.
b)
A expressão “menino grande” aponta para a ideia de que mesmo os adultos, especialmente
os homens negros, carregam traumas de infância que necessitam de cuidado e
acolhimento.
c)
O título sugere que as canções de ninar são exclusivas para crianças, mas, na
obra, são usadas para demonstrar a fragilidade emocional de todas as mulheres
com as quais Fio se relaciona.
d)
O título é uma crítica direta à incapacidade de os homens negros expressarem seus
sentimentos por meio da música, limitando-se apenas ao papel de provedores da
família.
e)
Canção para ninar menino grande
simboliza a rejeição de Juventina ao papel de “cuidadora” de Fio, destacando
sua independência emocional e afastamento dos homens.
QUESTÃO 2
Leia o trecho a seguir, retirado da obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo.
Fio
Jasmim recolheu os presentes oferecidos pelas outras famílias e se encaminhou
junto com os dois maquinistas para a pensão em que passariam a noite. Mais tarde,
haveria festas na casa de um e de outro, rezas na igrejinha local, em
agradecimento a Nossa Senhora da Boa Colheita. E haveria ainda visitas, caso
ele quisesse, ao lugar onde as mulheres livres exerciam os seus trabalhos
[...]. Seria o príncipe da noite. Não havia ali ninguém para impedir ao moço
maquinista o experimento de sua realeza. [...] Fio Jasmim seria o príncipe da
noite. Se, naquele dia, quando tinha apenas oito anos de idade, a professora,
Dona Celeste, depois de ter contado a história da Cinderela, impediu que ele
encarnasse o papel de príncipe, chamando, para o jogo cênico, um menininho
loiro, ele agora poderia ser tudo.
EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de
Janeiro: Pallas, 2023. p. 22.
Com base no excerto e considerando a complexidade narrativa da obra, analise as afirmações sobre a interação entre tempo e espaço e assinale a alternativa correta.
a)
A narrativa segue uma estrutura temporal estritamente linear, em que os eventos
ocorrem em sequência cronológica, sem a interrupção de flashbacks ou digressões
que possam alterar a continuidade da história.
b)
O espaço na obra é puramente simbólico, sem qualquer ligação direta com a
identidade ou o desenvolvimento dos personagens, funcionando apenas como um
cenário estático para as interações de Fio Jasmim e suas amantes.
c)
A narrativa adota uma construção temporal não linear, usando reminiscências e
digressões para expor a influência dos eventos históricos e pessoais no
presente dos personagens, ressaltando a continuidade das experiências de
opressão e resistência.
d)
Os espaços físicos, como as cidades e vilas que Fio Jasmim visita, são
selecionados de forma aleatória e não têm impacto significativo na progressão
temporal da narrativa ou na construção da identidade das personagens femininas.
e)
A obra simplifica a relação entre tempo e espaço, focando exclusivamente as
vivências pessoais de Fio Jasmim, sem abordar as implicações sociais e
históricas para as personagens femininas afro-brasileiras.
QUESTÃO 3
O poema a seguir, intitulado “Vozes-mulheres”, é de autoria de Conceição Evaristo.
A voz de minha bisavó
ecoou
criança
nos
porões do navio.
Ecoou
lamentos
de
uma infância perdida.
A
voz de minha avó
ecoou
obediência
aos
brancos-donos de tudo.
A
voz de minha mãe
ecoou
baixinho revolta
no
fundo das cozinhas alheias
debaixo
das trouxas
roupagens
sujas dos brancos
pelo
caminho empoeirado
rumo
à favela
A
minha voz ainda
ecoa
versos perplexos
com
rimas de sangue
e
fome.
A
voz de minha filha
recolhe
todas as nossas vozes
recolhe
em si
as
vozes mudas caladas
engasgadas
nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe
em si
a
fala e o ato.
O
ontem –- o hoje – o agora.
Na
voz de minha filha
se
fará ouvir a ressonância
O
eco da vida-liberdade.
EVARISTO, Conceição. Vozes-mulheres. In:
EVARISTO, Conceição. Poemas de recordação
e outros movimentos. Rio de Janeiro: Male, 2017. p. 24-25.
Nas obras de Conceição Evaristo, são temáticas frequentes a ancestralidade e a memória coletiva. Como a linguagem é usada para expressar a resistência e a identidade cultural no poema “Vozes-mulheres” e no livro Canção para ninar menino grande?
a)
Em “Vozes-mulheres”, a linguagem é direta e objetiva para enfatizar a
resistência, enquanto em Canção para
ninar menino grande é usada uma linguagem simbólica e metafórica para explorar
a identidade cultural.
b)
“Vozes-mulheres” emprega uma linguagem rica em imagens sensoriais para
transmitir a resistência feminina, enquanto Canção
para ninar menino grande usa um estilo narrativo linear para abordar a
identidade cultural.
c)
“Vozes-mulheres” e Canção para ninar
menino grande utilizam a linguagem formal e acadêmica para discutir a
resistência e a identidade cultural de maneira crítica e analítica.
d)
Em “Vozes-mulheres”, a linguagem é fragmentada para refletir a complexidade da identidade
cultural, enquanto em Canção para ninar
menino grande é exclusivamente contínua para expressar a resistência.
e)
Ambas as obras usam a linguagem poética para expressar resistência e identidade
cultural, mas “Vozes-mulheres” se concentra na repetição e no ritmo para
reforçar a continuidade histórica, enquanto Canção
para ninar menino grande utiliza a oralidade combinada à escrita lírica
para expressar diversidade cultural.
QUESTÃO 4
Leia atentamente o trecho a seguir, extraído da obra Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo.
Mas
Fio Jasmim, ele próprio, como homem, aprendera que o território macho era
outro. Era uma região que se situava a mil milhas de diferença das terras das
mulheres. E, como proprietário de uma extensa gleba, o homem ali tinha o dever
de dominar as mulheres, de alguma forma. E mais, tinha ainda de desafiar e
causar inveja a outros machos. Não sendo de bom tom o derramamento das dores do
macho - assim pensava Fio Jasmim –, por isso ele calou qualquer sintoma de mortificação
em sua vida.
EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de
Janeiro: Pallas, 2023. p. 129.
Com
base na leitura do texto, assinale a alternativa que identifica adequadamente
como o conceito de escrevivência se manifesta.
a)
A autora apresenta uma narrativa desprovida de qualquer conexão com
experiências pessoais, mas que tem preocupação em fazer críticas sociais, como
a estereotipação que envolve a figura masculina.
b)
O foco no passado afasta a obra da ideia de escrevivência.
c)
As histórias, na obra, são contadas de forma objetiva e simples, a partir da
oralidade, evitando nuances emocionais.
d)
O texto destaca a interconexão entre a narrativa, a memória coletiva e a
resistência ancestral, exemplificando a presença do conceito de escrevivência.
e)
A obra negligencia a importância da tradição oral na transmissão de histórias.
QUESTÃO 5
Com
base em seus conhecimentos sobre a obra Canção
para ninar menino grande, indique V (verdadeiro) ou F (falso) para cada uma
das sentenças a seguir e depois marque a alternativa correta.
(x) Fio Jasmim, o jovem
maquinista, busca aventuras e novas experiências profissionais, sem o desejo de
ter uma residência permanente.
(x) Fio Jasmim está
tentando demonstrar sua masculinidade e virilidade para os maquinistas mais
velhos, seguindo aquilo que lhe fora ensinado por seu pai e conforme os padrões
sociais de sua época.
(x) Neide Paranhos da
Silva busca manter sua independência e autonomia, recusando-se a deixar sua
cidade natal para continuar seus estudos.
a)
F – V – F
b)
F – V – V
c)
F – F – V
d)
V – F – V
e)
V – F – F
QUESTÃO 6
Texto 1
A
mulher tem ovários, um útero; eis as condições singulares que a encerram na sua
subjetividade; diz-se de bom grado que ela pensa com suas glândulas. O homem
esquece soberbamente que sua anatomia também comporta hormônios e testículos.
Encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo, que acredita
apreender na sua objetividade, ao passo que considera o corpo da mulher
sobrecarregado por tudo o que específica: um obstáculo, uma prisão. [..] A humanidade
é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela
não é considerada um ser autônomo.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2016. p. 12.
Texto 2
Ancorar
seu corpo nos corpos de diversas mulheres tinha sido uma lição que Fio Jasmim aprendera
com o próprio pai [..]. Fio cresceu ouvindo as proezas do pai. Aprendera com
ele que ser homem era ter várias mulheres. E o mais certo era escolher, dentre
elas, uma mais certa ainda para o casamento. Cedo, Fio Jasmim começou a buscar
avidamente por mulheres, como se o nosso corpo não tivesse outra função, a não
ser a de ancoradouro para os homens. [...] A cada encontro, se pensava mais
macho e, portanto, mais feliz.
EVARISTO, Conceição. Canção para ninar menino grande. Rio de
Janeiro: Pallas, 2023. p. 93-94.
Os excertos anteriores trazem discussões e visões diferentes sobre a construção das identidades de gênero e a percepção do corpo da mulher na sociedade. Com base na leitura atenta desses trechos, responda:
a)
De que forma cada um dos textos revela as normas de gênero e as expectativas
sociais impostas a homens e mulheres?
b)
Refletindo sobre as ideias apresentadas nos trechos, discorra sobre as
implicações dessas construções de gênero na autonomia individual e na percepção
de identidade que homens e mulheres têm sobre si em Canção para ninar menino grande.
QUESTÃO 7
Rosana Paulino (1967)
e a arte militante negra
A
paulistana da Freguesia do Ó é artista plástica com bacharelado e doutorado
pela Universidade de São Paulo e uma das primeiras a despontar no movimento
negro. Desde o começo, entendeu o lugar de exceção que ocupava dentro de uma
instituição branca e elitista e fez de seu trabalho um lugar de militância.
[...]
Em
um de suas séries mais conhecidas, Os
Bastidores, ela imprimiu fotografias de mulheres de sua família em um
tecido branco colocado em bastidores, e bordou grosseiramente com linha preta
por cima de suas bocas [...]. São olhos que não podem ver, boca que não pode
falar, nem gritar.
[...]
Sobre essa série, a artista diz:
“Tocaram-me
sempre as questões referentes à minha condição de mulher e negra. Olhar no espelho
e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é
um desafio diário [..]. Utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das
mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido,
costurando novos significados, transformando um objeto banal, ridículo,
alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que
torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam,
dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e,
principalmente, para sua condição no mundo”
STUQUE, Jessica. 5 mulheres
brasileiras que retratam o machismo nas artes visuais. Soul Art, 13 mar. 2018. Disponível em:
https:/soulart.org/artes/5-mulheres-brasileiras-que-retratam-o-machismo-nas-artes-visuais.
Acesso em 19 nov. 2024.
Com
base na leitura do texto sobre a obra da artista brasileira Rosana Paulino e na
obra Canção para ninar menino grande,
de Conceição Evaristo, responda:
a)
De que forma o nome do protagonista da obra de Conceição Evaristo, “Fio”, serve
como metáfora para sua influência e presença na vida de diferentes mulheres,
unindo-as por meio de experiências de amor e sofrimento?
b) Qual relação de sentido pode ser estabelecida entre o nome do protagonista de Canção para ninar menino grande e a obra de Rosana Paulino?
QUESTÃO 8
Texto 1
O lápis e a folha em
branco
Affonso Romano Sant’Anna
– O que é necessário para uma pessoa vir a
ser escritor? Pergunta simples. Resposta complexa.
Clarice Lispector, no fabuloso A maçã no escuro, nos diz algo a
respeito. Algo não, muito, a respeito disto. E ter a coragem e a competência
para ler, mastigar, ruminar esse manual da escrita e da vida que é esse livro,
é já um teste para quem se pensa escritor. Verdade é que o bom leitor, o que não
quer necessariamente ser escritor, mas se escreve e se inscreve nos livros
alheios, esse terá também aí a prova de suas habilidades.
– O que nos diz Clarice?
Mais ou menos no meio do romance, o
personagem Martim teve um impulso de escrever. Esse impulso, esclareça-se,
surge numa progressão de descobertas de sua relação com o mundo: “Como um homem
que fecha a porta e sai, e é domingo. Domingo era o descampado de um homem”.
Ele já havia iniciado um aprendizado de observar e interpretar o seu entorno.
Principiou pelo mais simples, pelo mundo mineral e vegetal. Reaprendeu a ver a
natureza dentro e fora de si mesmo: as pedras, os pássaros, as vacas na
fazenda. Já reaprendera a ver as roseiras, as abelhas, as samambaias e a
surpreender a singularidade pungente e alarmante que cada objeto ou criatura tem.
Já se aproximara de seu semelhante, estava descobrindo a mulher e o amor.
Portanto, fora um longo trajeto de reelaboração interior articulado com a
redescoberta do mundo. [...]
Como todo ato de criar, escrever (às
vezes, até mesmo uma simples carta, relatório ou trabalho escolar) é colocar-se
na borda do abismo. Martim “hesitava e mordia a ponta do lápis [...] de novo revirou
o lápis, duvidava e de novo duvidava, com um respeito inesperado pela palavra
escrita. Parecia-lhe que aquilo que lançasse no papel ficaria definitivo, ele
não teve desplante de rabiscar a primeira palavra. Tinha a impressão defensiva
de que mal escrevesse a primeira palavra e seria tarde demais”.
Ler Clarice, minhas amigas e amigos, é uma
das angustiantes e deliciosas responsabilidades da vida intelectual. Lamento
não poder reencenar aqui a densidade verbal do que ela segue narrando naquele
livro. Seu personagem segue sofrendo para encontrar seu canal de expressão:
“tudo o que lhe parecera pronto a ser dito evapora-se, agora que ele queria
dizê-lo”. E “de repente se sentiu singelamente acanhado diante do papel branco
como se sua tarefa não fosse apenas a de anotar o que já existia, mas a de
criar algo a existir”. [...]
Um lápis e um papel e a tremenda solidão e
responsabilidade. O abismo. Abismo onde se perder e se reencontrar. Onde outros
se perdem e se reencontram através da escrita alheia.
O romance de Clarice é uma alegoria
não só sobre o processo de criação e recriação do indivíduo, mas uma alusão à
trajetória de qualquer cultura que queira assumir o embate e a alteridade entre
o eu e o outro, entre o eu e o mundo. O leitor visceralmente leitor, que não
escritor explícito, aprenderá aí a fazer uma releitura de seu espanto e
perplexidade diante da vida. E quem é escritor, quem carece não apenas de
embarcar e viajar nas palavras alheias, mas construir, elaborar o seu próprio
discurso, esse encontrará aí pistas e trilhas, mas sobretudo consolo de
descobrir essa realidade que funciona como desafio: um lápis e uma folha em
branco – nunca ninguém teve mais do que isto.
SANT’ANNA, Afonso Romano de. Com Clarice. São Paulo: Editora Unesp,
2013.
Texto 2
Da construção de
Becos
Também já afirmei que invento sim e sem o
menor pudor. As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são contadas.
Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, é ali
que explode a invenção. Nesse sentido, venho afirmando: nada que está profundidade,
é ali que explode a invenção. Nesse sentido, venho afirmando: nada que está narrado
em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é
mentira. Ali, busquei escrever a ficção como se estivesse escrevendo a
realidade vivida, a verdade. Na base, no fundamento da narrativa de Becos está
uma vivência, que foi minha e dos meus. Escrever Becos foi perseguir uma
escrevivência. Por isso também busco a primeira narração, a que veio antes da
escrita. Busco a voz, a fala de quem conta, para se misturar à minha. Assim
nasceu a narrativa de Becos da memória.
Primeiro foi o verbo de minha mãe. Ela, D. Joana, me deu o mote: “Vó Rita
dormia embolada com ela”. A voz de minha mãe a me trazer lembranças de nossa vivência,
em uma favela, que já não existia mais no momento em que se dava aquela
narração. “Vó Rita dormia com ela, Vó Rita dormia embolada com ela, Vó Rita
dormia embolada com ela...”. A entonação da voz de mãe me jogou no passado, me
colocando face a face com meu eu-menina. Fui então para o exercício da escrita.
E como lidar com uma memória ora viva, ora esfacelada? Surgiu então o invento
para cobrir os vazios de lembranças transfiguradas. Invento que atendia ao meu
desejo de que as memórias aparecessem e parecessem inteiras. E quem me ajudou
nesse engenho? Maria-Nova. [...]
EVARISTO, Conceição. Becos
da Memória [livro eletrônico]. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.
Transcreva
uma passagem do texto de Affonso Romano que se aproxime da ideia de
escrevivência, tal como estabelecida por Conceição Evaristo.
QUESTÃO 9
Explique
por que o trecho transcrito na questão anterior se encaixa na definição de
escrevivência.
QUESTÃO 10
Notícias da Educação: Como surgiu o termo
“escrevivência”?
Conceição: É uma longa
história. Se eu for pensar bem a genealogia do termo, vou para 1994, quando
estava ainda fazendo a minha pesquisa de mestrado na PUC. Era um jogo que eu
fazia entre a palavra “escrever” e “viver”, “se ver” e culmina com a palavra
“escrevivência”. Fica bem um termo histórico. Na verdade, quando eu penso em
escrevivência, penso também em um histórico que está fundamentado na fala de mulheres
negras escravizadas que tinham de contar suas histórias para a casa-grande. E a
escrevivência, não, a escrevivência é um caminho inverso, é um caminho que
borra essa imagem do passado, porque é um caminho já trilhado por uma autoria negra,
de mulheres principalmente. Isso não impede que outras pessoas também, de
outras realidades, de outros grupos sociais e de outros campos para além da
literatura experimentem a escrevivência. Mas ele é muito fundamentado nessa
autoria de mulheres negras, que já são donas da escrita, borrando essa imagem
do passado, das africanas que tinham de contar a história para ninar os da
casa-grande.
SANTANA, Tayrine; ZAPPAROLI,
Alecsandra. Conceição Evaristo – “A escrevivência serve também para as pessoas pensarem”.
Itaú Social, 9 nov. 2020. Disponível
em:
https:/wwwitausociaLorg.br/noticias/conceicao-evaristo-a-escrevivencia-serve-tambem-para-as-pessoas-pensarem/.
Acesso em: 19 nov. 2024.
Com
base na leitura do texto, faça o que se pede:
a)
A escrevivência de Conceição Evaristo refere-se a um modo de escrever que está profundamente
enraizado nas experiências vividas. Para ela, a escrevivência vai além da mera escrita;
é um ato de resistência e de afirmação de identidade. Sabendo disso e com base
no excerto acima, discuta como a escolha da autora em narrar a história de Fio
Jasmim a partir da perspectiva das mulheres de sua vida influencia a
compreensão do leitor sobre o protagonista e os temas centrais da obra.
b)
Essa abordagem narrativa desafia ou reforça as expectativas tradicionais sobre
a figura masculina no enredo? Explique.
QUESTÃO 11
[Segundo Durkheim] Nascemos no interior de um
mundo constituído. A cada geração nos encontramos como uma tabula rasa frente a
um conjunto de valores, crenças, normas, modos, usos etc. – que a exemplo dos
objetos físicos de seu entorno são impessoais. Destarte, não somos mais que um
elemento de um nexo de múltiplas interações. Para que possamos acessar esse vasto
conjunto de objetos culturais, e assim desfrutar da condição de ser social,
deve-se internalizar um sistema de signos que já está dado. É no curso do
processo de socialização, portanto, que estes objetos culturais vão sendo
incorporados pelos indivíduos.
VARES, Sidnei Ferreira de. Os fotos e
as coisas: Émile Durkheim e a controversa noção de fato social. Ponto e Vírgula, Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, n. 20, p. 104-121, segundo semestre 2016. Disponível em:
https://revistas.pucsp.br/index.php/pontoevirgula/article/view/31168/21605. Acesso
em: 19 nov. 2024.
O
determinismo social é uma teoria sociológica que sugere que o comportamento e
as características dos indivíduos são amplamente determinados por fatores
sociais, como a classe social, a cultura, a educação e o ambiente em que vivem.
Com base na definição acima, analise como o determinismo social e as
experiências de opressão racial e de gênero moldaram a identidade e o
comportamento de Fio Jasmim. Em sua resposta, explique como esses fatores contribuem
para a reprodução da masculinidade tóxica e das relações de poder entre os personagens.
1. B
2. C
3. E
4. D
5. A
6. a)
No primeiro trecho, Simone de Beauvoir critica a visão reducionista do corpo
feminino, percebido como uma prisão que impede uma relação objetiva com o
mundo; a mulher, a partir de uma visão patriarcalista, é reduzida a suas
funções biológicas, em contraste com a percepção do corpo masculino como neutro
e universal. Já no segundo trecho, é ilustrada a socialização masculina tradicional,
em que ser homem é sinônimo de ter múltiplas parceiras, o que é ensinado por
meio do exemplo paterno. Ou seja, destaca-se a ideia de que a identidade
masculina se constrói pela conquista sexual, reforçando estereótipos
patriarcais. Como consequência, o corpo feminino é objetificado e visto apenas
como um meio para afirmar a masculinidade.
b) A
expectativa de afirmação da masculinidade ocorre a partir do controle sobre o
corpo feminino, o que implica a limitação da autorreflexão e da complexidade
emocional dos homens – como pode ser percebido no personagem de Fio,
especialmente no fim do livro. Já para as mulheres, ser vista como “outra” em relação
ao homem implica um ciclo de subordinação, fragilidade emocional, estereotipação
e falta de autonomia, visto que suas identidades são definidas a partir de um prisma
masculino – características que são percebidas nas mulheres que passam pela
vida de Fio.
7. a) O
nome do protagonista, “Fio”, simboliza sua capacidade de se conectar e de
deixar marcas na vida das mulheres que encontra. Assim como um fio que passa
por diferentes laçadas, ele une personagens separadas geograficamente por meio
de laços de amor e sofrimento, ainda que efêmeros. O nome “Fio” também sugere a
continuidade e a influência que ele exerce, tecendo histórias e experiências
entrelaçadas. A comparação com o jasmim, uma flor conhecida por sua beleza e
sedução, sublinha seu impacto encantador e, ao mesmo tempo, efêmero nas vidas
das mulheres.
b) O
nome do personagem e a obra de Rosana Paulino compartilham um simbolismo
centrado na conexão e na transformação. “Fio” representa a influência e a
ligação emocional entre as mulheres que ele toca, semelhante a um fio que une
diferentes histórias. Já na obra de Rosana Paulino, o fio simboliza a opressão
e o silenciamento das mulheres negras, mas também a resistência e a reapropriação
de suas vozes. Ambos os contextos usam o fio para explorar temas de poder e identidade,
destacando sua capacidade de unir, transformar e desafiar as narrativas
pessoais e sociais.
8. “O
romance de Clarice é uma alegoria não só sobre o processo de criação e
recriação do indivíduo, mas uma alusão à trajetória de qualquer criatura que
queira assumir o embate e a alteridade entre o eu e o outro, entre o eu e o
mundo”
9. A
ideia de escrevivência desenvolvida por Conceição Evaristo diz respeito ao ato
de escrever e viver, isto é, inserir as vivências na escrita e, dessa forma,
também vivenciar aquilo que foi escrito e criado. Assim, temos a ideia de um
processo de criação e recriação do indivíduo que se relaciona à reflexão sobre
a obra de Clarice.
10. a)
A narrativa apresenta Fio Jasmim por meio das mulheres de sua vida, revelando
sua masculinidade tóxica e os efeitos de suas ações. Essa abordagem destaca
temas de opressão e resistência, humanizando Fio enquanto critica suas falhas,
alinhando-se, assim, ao conceito de escrevivência de Conceição Evaristo.
b) A
história desafia a visão tradicional do homem ao focar as mulheres ao redor de
Fio, expondo suas fragilidades e a toxicidade da masculinidade imposta
socialmente. Ao mesmo tempo, revela Fio como vítima de papéis de gênero
rígidos, promovendo uma reflexão crítica sobre essas expectativas.
11. Fio
Jasmim é moldado por um determinismo social que combina opressão racial e de
gênero, que influenciam sua identidade e seu comportamento. As experiências de
racismo e a educação machista que recebe o levam a reproduzir uma masculinidade
tóxica, tratando as mulheres como objetos e afirmando seu valor por meio de
conquistas superficiais. Essa dinâmica perpetua relações de poder opressivas,
mas a narrativa dá voz às mulheres, desafiando e expondo essas estruturas
sociais.


