03 julho 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A VISÃO DAS PLANTAS (2)

 


Questão 1

O discurso indireto livre ocorre quando a voz de um dos personagens se mescla à voz do narrador.

Nos trechos abaixo, retirados de A visão das plantas, a única opção em que não se observa o uso do discurso indireto livre é:

a) “Farta da criação, a gata desceu a ladeira e Celestino nunca mais a viu. Ter-se-ia deitado ao ribeiro, com o fim de se matar?”.

b) “Comovia-se ao observar o arranjo das pétalas picotadas – por um anjo? – dos cravos”.

c) “A penumbra quase falava: respira, filho, chegaste”.

d) “Um vestígio de alfazema seca perfumava o mofo. Ou seria cera?”.

e) “As crianças saídas do colégio espreitavam os suspensórios de enxada às costas. Seria aquele o diabo?”.

 

- Texto para a questão 2 -

[...] quero os meus cravos ao vento, faladores, falam todo o dia uns com os outros, como a bicheza fala metida nos nós da madeira, contam histórias uns aos outros que só eu ouço, grandes tristezas, bagatelas, e depois cansam-se, doem-lhes as costas, é quando eu os ajudo, lhes acomodo a cama, digo que vai alta a tarde, que está quase aí a nossa noite, queridos cravos, falam como matracas e caem como meninos, por isso os quero tanto, são mais afoitos que as crianças, cansam-se, os cravos do capitão Celestino, bem-aventurados, só querem é rir e comer e beijar borboletas.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 25.

 

Questão 2

Nesse fragmento de A visão das plantas, um recurso expressivo presente é a:

a) antítese.

b) hipérbole.

c) alegoria.

d) prosopopeia.

e) sinestesia.

 

- Texto para a questão 3 -

Matei dez mulheres, a uma delas cortei os pés. Matei um corvo, para o comer. Raposas, ratazanas. Matei centenas de homens com as minhas mãos e elas não me caíram. Matei os sonhos de um milhar de outros. Queimei cabanas. Um dia, mordi o pescoço dum homem até lhe arrancar as veias para fora. Espetei uma lança no peito de um amigo. Roubei dinheiro. Rebentei o crânio de um albino contra uma rocha. E a seguir esquartejei-o. À hora de adormecer, a mão de minha mãe entrava por mim dentro com a xícara de leite morno, muito doce, e levava-me na mão do sono.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 23-24.

 

Questão 3

O trecho permite afirmar que, no contexto mais amplo de A visão das plantas, os atos passados de Celestino são:

a) confessados a padre Alfredo como meio para obter a redenção espiritual.

b) inventados pelos adultos da vila, que buscavam razões para expulsá-lo.

c) narrados aos vizinhos, como estratégia para mantê-los afastados do jardim.

d) registrados por Manuel, que busca preservar a memória coletiva do século XIX.

e) contados às crianças, não sendo acompanhados de sinais visíveis de remorso.

 

Questão 4

Leia o texto para responder ao que se pede.

As plantas viam-no como um olho de vidro vê a passagem das nuvens. Elas e o seu amigo eram seiva da mesma seiva, da mesma carne sem dó nem piedade. Atrás das costelas, no lugar do coração, o corsário tinha uma planta.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 37.

 

a) No livro A visão das plantas, é estabelecida uma identificação entre o capitão Celestino e as plantas de seu jardim. Em que se baseia essa identificação?

b) De acordo com o dicionário Michaelis, o substantivo amigo pode significar “que é afeiçoado ou entusiasta de; aficionado, admirador, amante”. Considerando o plano geral do romance, é possível afirmar que as plantas viam Celestino como um amigo? Justifique sua resposta.

 

- Textos para a questão 5 -

Texto 1

Os diversos avanços e retrocessos nas negociações entre Rio de Janeiro e Londres pareceram chegar ao final em 7 de novembro de 1831, quando a Assembleia Legislativa aprovou a primeira lei de proibição do tráfico de africanos. [...] A despeito dos esforços britânicos em exigir o cumprimento da lei de 1831, na década subsequente o desembarque clandestino de africanos intensificou-se. Havia uma rede de proteção ao comércio negreiro que contava com a conivência das autoridades responsáveis por sua repressão,

e, ainda mais, com a aceitação e ajuda da população local.

ARAÚJO, Carlos Eduardo Moreira de. Fim do tráfico. In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. (org.) Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 232.

 

Texto 2

Antes o porão nos meus tempos. 1833.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 32.

 

Texto 3

No cais, as fisionomias anunciavam outro século, que nunca seria seu.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 36.

 

Questão 5

Responda:

a) Com base na leitura dos textos I e II, explique a razão de Celestino ser referido como pirata ao longo do romance.

b) Os textos II e III estabelecem uma oposição. Aponte-a e, em seguida, explique como ela se relaciona com o desfecho do romance.

 

- Leia o seguinte trecho de A visão das plantas para responder à questão. -

Cavava como uma imposição vinda do fundo da terra, mas sem saber por que o fazia. Caras e esgares, risos e olhares, o brilhante, uma moeda, nada o conduziu nem atormentou. A terra entrou-lhe nos olhos, debaixo das unhas, sujou-lhe abarba, chegou-lhe à boca. Não cavava a sua cova. Cavou pela sua vida, sem pensar em nada, sem sentir o corpo. Respondia a uma força de que desconhecia a origem e lhe tomara conta dos braços. Cavou mais fundo.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 59.

 

Questão 6

A frase que melhor sintetiza o trecho acima é:

a) “Em breve, o homem deixaria de ser homem para ser terra e a terra, engolindo-o, o tornaria seu”.

b) “A partir da terra, revelou-se à noite e ao mar como tendo chegado ao seu destino”.

c) “Ao contrário do que se dizia na vila e lhe assegurava a língua-de-trapos do sacristão, a casa não fora ocupada por um facínora, mas por um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro”.

d) “As mãos, que outrora haviam de ter cheirado a rum e a sangue, cheiravam agora a coalho e a terra cultivada”.

e) “As rosas, os cravos, os abetos, a ameixoeira ainda não sabiam que o seu amigo tinha morrido”.

 

- Texto para a questão 7 -

As mães passaram a pôr as mãos à frente dos olhos dos meninos quando se cruzavam com ele na rua. “Se não comes a sopa, levo-te para a casa do capitão, que te há-de cortar às postas como se fosses uma garoupa”, diziam as avós aos netos. Na casa onde comprava as sementes, vendiam-nas de má vontade. Anda a construir um altar a Judas Escariotes, cruzes, credo, o diabo o carregue. Se ele não fosse tão discreto, tratariam de o correr da terra ou juntar-se-iam ao portão com archotes acesos, obrigando-o a abandonar o burgo, numa madrugada fria. Com o tempo, chegando do mar novos barcos e novas gentes, os rumores foram-se diluindo nas novidades. Pouco falava e estava velho. Caminhava a custo. Ia para cego e não se metia com ninguém.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 27.

 

Questão 7

Com base no trecho, observa-se que os sentimentos dos moradores da vila em relação ao capitão Celestino mudaram ao longo do tempo, já que:

a) a indiferença se transformou em respeito.

b) o entusiasmo se transformou em rejeição.

c) o desprezo se transformou em interesse.

d) a curiosidade se transformou em desconfiança.

e) o medo se transformou em indiferença.

 

- Texto para a questão 8 -

A velha negra nunca desatava a venda da menina holandesa porque o que se ata em vida na morte não se desata.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 79.

 

Questão 8

Assinale a alternativa que melhor representa o fragmento acima, retirado do romance A visão das plantas.

a) “A redenção exige a rememoração integral do passado, sem fazer distinção entre os acontecimentos ou os indivíduos” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 54).

b) “O que acontece aos seres humanos que morreram, nenhum futuro pode reparar. Jamais serão chamados para se tornarem felizes para sempre” (HORKHEIMER, M. Traditionelle und Kritische Theorie. In: LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 49).

c) “[...] o presente ilumina o passado, e o passado iluminado torna-se uma força no presente” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 54).

d) “Quanto à vingança das vítimas do passado, trata-se simplesmente da reparação dos crimes a que foram subjugados e da condenação moral daqueles que os infligiram” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 112).

e) “É evidente que a rememoração das vítimas não é [...] uma lamúria melancólica ou uma meditação mística” (LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 111).

 

- Textos para a questão 9 -

Texto 1

Os homens despejaram a cal no porão, saco a saco. Os negros viram que um pó caía sobre eles, mas não entenderam o que se passava. Os sacos de cal foram vazados no porão e a porta fechada por Celestino. Ouviram-se gemidos, pedidos de socorro e, passado algum tempo, um silêncio que apaziguou os piratas.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 36.

 

Texto 2

O quintal florido estava calmo. Se ali vivia o diabo, era bom jardineiro. Com as botas nas mãos dadas de Raul, Pedro galgou o muro, com esforço. “Consegues vê-lo? E como é?”, perguntou Luzia, impaciente. Mas, em cima do muro, deixado por um diabrete adivinho, só viu um pires com três cubos de marmelada e três fatias de queijo curado.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 19.

 

Questão 9

Com base na leitura dos trechos, responda:

a) O romance A visão das plantas rejeita o maniqueísmo. Justifique essa afirmação com elementos extraídos dos textos I e II.

b) Cite dois pares de opostos que podemos observar na comparação entre os textos I e II.

 

 

 

 

 

1. c

2. d

3. e

4. a) Tanto Celestino quanto as plantas são indiferentes ao sofrimento alheio e incapazes de mostrar gratidão.

b) Não é possível afirmar isso, já que não se observa qualquer sentimento de afeição das plantas em relação a Celestino. Elas não sentem gratidão pelos cuidados que o capitão lhes dedica nem mostram compaixão diante do adoecimento progressivo do jardineiro.

5. a) No texto I, fica claro que o tráfico negreiro para o Brasil foi proibido em 1831. No entanto, ele continuou ocorrendo ilegalmente, mesmo após essa proibição. A fala de Celestino, que aponta o ano de 1833 como “seu tempo”, sugere que o capitão continuou agindo de forma clandestina nos mares, o que equivale a dizer que ele atuava como pirata.

b) No texto II, vemos que Celestino se refere ao ano de 1833 como “seu tempo”, ou seja, um momento que lhe pertence, por estar relacionado ao auge de sua vida nos mares. Por extensão, podemos entender que o capitão pertence ao século XIX. Em oposição, o texto III afirma que o século XX não pertenceria ao velho pirata. Isso se relaciona ao desfecho do romance, já que, na virada do século, Celestino havia se transformado em assunto de cantigas de pescador e em um herói remoto do qual poucos se lembravam.

6. a

7. e

8. b

9. a) No romance de Djaimilia Pereira de Almeida, vemos representada a complexidade humana em todas as suas contradições. Desse modo, o mesmo homem capaz de cometer crimes terríveis, como matar de forma cruel os cativos que tentaram se rebelar em seu navio (texto I), é aquele que dedica cuidado às plantas e se mostra gentil com as crianças (texto II).

b) Podemos observar os seguintes pares de opostos: morte/vida, crueldade/cuidado.













02 julho 2026

INTRODUÇÃO À OBRA: A VISÃO DAS PLANTAS (1)


 

Introdução

Nos últimos anos, a literatura portuguesa tem presenciado o surgimento de uma nova geração de autores negros que, embora tenham sido criados em Portugal, possuem laços com as antigas colônias do país na África. Suas obras têm ampliado os horizontes da literatura lusófona ao abordar temas como o racismo e ao oferecer perspectivas diversas sobre o colonialismo e o pós-colonialismo. Essas narrativas têm desafiado a ideia de uma identidade portuguesa homogênea – branca e com raízes exclusivamente europeias –, sendo um lembrete de que homens e mulheres negros participaram e participam da história do país e de sua sociedade.

Entre os nomes de destaque dessa nova geração estão Kalaf Epalanga (Angola, 1978-), autor de Também os brancos sabem dançar; Yara Monteiro (Angola, 1979-), que escreveu Essa dama bate bué!; Gisela Casimiro (Guiné-Bissau, 1984-), autora do livro de poemas Erosão.

 

A autora

Djaimilia Pereira de Almeida nasceu em 1982, na cidade de Luanda, Angola. Filha de mãe angolana e pai português, mudou-se ainda criança para Portugal com sua família. Licenciada em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa, concluiu o doutorado em Teoria Literária pela Universidade de Lisboa e atualmente é professora da New York University, onde aborda temas como a diáspora africana.

No campo da ficção, Djaimilia estreou com o livro Esse cabelo (2015), que explora questões sobre raça e feminismo ao narrar a relação de uma menina com seus cabelos crespos. Desde então, publicou Luanda, Lisboa, Paraíso (2018), A visão das plantas (2019), As Telefones (2020), Os gestos (2021), Maremoto (2021) e Três histórias de esquecimento (2021). Grande parte dessas narrativas explora temas como a imigração, a identidade e a experiência de estar dividido entre dois mundos: o de Portugal e o dos países que foram colônias lusas.

Ao me debruçar sobre a literatura na minha língua, deparo com um retrato, de séculos, de pessoas negras como caricaturas, como elementos decorativos: risíveis, planas, muitas vezes sexualizadas, seres exóticos. Relegadas à condição de personagens vazios e estereotipados, pessoas negras são raras no cânone português e são representadas como seres humanos desprovidos de individualidade.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2023. p. 41.

 

A obra de Djaimilia tem sido amplamente reconhecida pelo público e pela crítica, com traduções em vários países. Além disso, a autora conquistou importantes prêmios literários, como o Oceanos, que elegeu Luanda, Lisboa, Paraíso como o melhor romance de 2019.

 

Uma mulher negra que escreve

No ensaio O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo (2023), Djaimilia Pereira de Almeida reflete sobre seu ofício como escritora. Segundo ela, seu maior privilégio é o tempo em que nasceu, pois, caso tivesse nascido algumas décadas antes, seu “destino seria, com sorte, a cozinha, a vassoura, a roça”

Djaimilia relata que seu pai, um homem branco, não gostava de que ela se visse como uma pessoa negra. Sua cor de pele era tratada como tabu dentro de casa e, por isso, a autora cresceu sem refletir muito sobre essa questão. Foi apenas por meio da escrita e da publicação de seus livros que sua compreensão se transformou. “Escrevendo, entendi-me negra” , “Nunca mais me odiei. Nunca mais tive vergonha de ser quem eu sou”.

A escritora também percebeu que a cor de sua pele cria uma série de expectativas sobre como ela deve se portar e quais temas deve abordar. Esperam que ela adote certas posições e sirva de instrumento para a causa antirracista. Com frequência, sente-se tratada como um produto da moda, que deve atender aos interesses de um mercado editorial ávido por publicar escritores negros, vistos como um “subgrupo exótico dentro dos escritores do mundo”.

Nesse contexto, aquilo que ela deseja escrever, o que sua imaginação pede, corre um risco constante de ficar em segundo plano. Por isso, ela é enfática ao recusar o rótulo de escritora negra, que considera uma estratégia mercadológica. No entanto, orgulha-se em afirmar que é uma mulher negra que escreve, afinal, sua identidade e sua experiência de mundo são inseparáveis do seu gênero, da cor de sua pele e de seu ofício.

 

O livro

Em uma entrevista concedida à escritora brasileira Stephanie Borges, Djaimilia Pereira de Almeida afirmou que, entre os livros que escreveu, A visão das plantas é o seu favorito. Diferentemente de suas obras anteriores, que trazem protagonistas negros e contemporâneos, nesse livro encontramos um homem branco que, no século XIX, atuou como um violento capitão de navios negreiros. Dado esse contexto, os leitores podem criar expectativas de que a autora, enquanto mulher negra, tenha utilizado sua escrita como forma de reparação ou acerto de contas contra esse personagem, que simboliza os algozes de seus ancestrais angolanos. No entanto, Djaimilia escolheu o caminho oposto, construindo uma narrativa que recusa as certezas fáceis e os desfechos didáticos, explorando a complexidade da condição humana, em todas as suas possibilidades e contradições.

 

Epígrafe: o ponto de partida

Na epígrafe de A visão das plantas, há um trecho do livro Os pescadores, do autor português Raul Brandão. Publicada em 1923, essa obra híbrida assemelha-se às narrativas de viagem e é repleta de lembranças do próprio autor, que misturou memória e imaginação para compor seu texto. Entre os personagens dessa narrativa, aparece brevemente a figura de Celestino,

que tendo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. Falava pouco. Sorria sempre numa satisfação interior, completa, perfeita, com uma cara de páscoas rosada e inocente, enquadrada pela barba de passa-piolho toda branca. A sua vida anterior fora misteriosa e feroz. De uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil. Outras coisas piores se diziam do capitão Celestino... Mas o que eu sei com exactidão a seu respeito é que para alporques de cravos não havia outro no mundo. Todo o dia um fio de água escorrendo por condutos invisíveis de que só ele sabia o segredo, caía pingue-que-pingue nos alegretes caiados de branco; todo o dia o velho corsário, com mãos delicadas de mulher, tratava embevecido as flores cultivadas como filhas. E acabou assim a vida mondando e podando, sem uma dúvida na consciência tranquila...

BRANDÃO, Raul. Os pescadores. In: ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021.

 

Em diversas entrevistas, Djaimilia Pereira de Almeida relata que entrou em contato com o livro de Brandão aos 18 anos e ficou fascinada pela imagem desse personagem, um capitão de navios negreiros já idoso e afastado de seu ofício, sobre o qual se contavam histórias terríveis de violência, mas que terminou a vida sem remorsos, dedicando-se ao cultivo de um belo jardim.

Djaimilia ficou intrigada com a possibilidade humana – e, portanto, filosófica – que a existência de Celestino sugeria: a ideia de que nem todo crime resulta, necessariamente, em sentimento de culpa e em castigo. Quase duas décadas e muitas releituras depois, a autora decidiu criar uma história para aquele velho capitão, mencionado apenas de passagem em Os pescadores. Assim nasceu o protagonista de A visão das plantas.

 

Síntese da obra

O livro A visão das plantas é composto de 25 capítulos sem numeração ou título. Por isso, nesta seção, para facilitar a análise, os capítulos serão numerados e identificados por suas respectivas páginas.

A edição tomada como base é a publicada pela editora Todavia.

 

Capítulo 1 (páginas 9 a 11)

Idoso, capitão Celestino retornou à vila litorânea de sua infância e à sua antiga casa, já inabitada, onde tudo estava diferente e, ao mesmo tempo, permanecia igual. Pó e mofo estavam em todas as partes. A hera cobria tudo, de modo que a casa se confundia com o quintal abandonado. A sala de jantar, a pequena sala, os dois quartos, a cozinha e a despensa haviam sofrido com a passagem do tempo e com a maresia, que transformaram a casa em um amontoado de pedra, madeira e cal, sem humanidade. Mesmo assim, era a companhia de que Celestino precisava em seus últimos dias. Sem merecer, ele havia encontrado nessa casa uma sepultura onde enterrar seu coração.

 

Capítulo 2 (páginas 11 a 15)

O retorno ao lar de sua infância e a ausência das pessoas com quem conviveu não provocaram qualquer traço de emoção em Celestino. Nos primeiros meses depois da chegada, ele organizou a casa, livrou-se dos móveis com caruncho e ateou fogo às roupas  de cama e às vestimentas das mulheres da família que haviam vivido com ele. Restavam poucos objetos: duas cadeiras, um camiseiro, uma mesa, quadros de seus antepassados e uma cama de ferro branco, sobre a qual sua mãe morreu. No quintal, tomado por ervas daninhas, as plantas haviam se alastrado desordenadamente e invadido tudo, como se tivessem a missão de apagar todas as memórias dos seres que haviam vivido naquele lugar. Foi ali que Celestino encontrou um propósito: sabendo-se a caminho da cegueira e da morte, decidiu ser consolado pelos tons e aromas das plantas. Empenhou-se em construir um jardim e seus cuidados fizeram com que a vida regressasse na forma de pequenos animais, como minhocas e insetos, que encontrava ao mexer na terra.

 

Capítulo 3 (páginas 16 a 21)

Padre Alfredo, pároco da vila, fez uma visita a Celestino e se surpreendeu com a beleza do jardim. Ele, que viera convencer o capitão a se confessar, calou-se diante do perfume dos  frutos e das flores. Celestino foi amistoso com o visitante e falou sem parar sobre os cuidados que dispensava às plantas, como se elas fossem os amores de sua vida. Tudo no ambiente destoava da figura sombria do pirata.

Quando as pessoas o viam passar, em suas caminhadas pela vila, pensavam nas aventuras que ele havia vivido e espalhavam histórias aterrorizantes sobre seu passado. Por sua vez, ele procurava manter distância de todos e, quando se sentia observado através das sebes, urrava e fazia ameaças. Sua casa passou a ser vista como mal-assombrada e o espantalho que ergueu no jardim para afastar os olhares curiosos contribuiu para aumentar o temor dos vizinhos, os quais fantasiavam que o pirata havia erguido um altar para o diabo e que à noite, com o rosto coberto de sangue, usava outra língua, que identificavam como a dos negros africanos com quem Celestino tivera contato.

O velho corsário sorria apenas para as crianças, pois via nelas representações da perfeição, da permanência e da vitalidade. Elas, por sua vez, sentiam um misto de curiosidade e medo e, em suas brincadeiras, imitavam o capitão, simulando um tapa-olhos com as próprias mãos e recriando as aventuras do pirata. Para três – Raul, Pedro e Luiza –, Celestino passou a deixar, no muro de sua casa, cubos de marmelada e fatias de queijo curado.

Quase um ano após o retorno, padre Alfredo continuou visitando o velho pirata, sem obter qualquer confissão ou fazer perguntas sobre seu passado. Percebeu que o capitão se confundia, trocava nomes, caminhando aos poucos para a loucura, uma forma de remediar o sofrimento daquela vida que se apagava. O padre talvez fosse o único a pensar que Celestino não era um facínora, mas, sim, um jardineiro ocupado em preparar o próprio enterro.

 

Capítulo 4 (páginas 22 a 26)

As crianças passaram a frequentar a casa de Celestino, que, orgulhoso, contava histórias de seu passado. Elas escutavam com curiosidade e entusiasmo. O velho pirata falou de seu pai, Nuno, também capitão de navios, que morreu em alto-mar, e dos medos que sentia quando menino.

Contou também sobre uma viagem ao continente africano, durante a qual adoeceu, vagando só e febril, até encontrar um grupo de holandeses que planejava a caça de um grande crocodilo, cuja venda renderia ao grupo substancial quantia. Entre eles havia uma menina, que se encarregou de seus cuidados. Apesar da ajuda recebida, depois de alguns dias, Celestino matou todos os homens do grupo e deixou a menina vendada e amarrada ao tronco de uma árvore.

Vinde a mim, meninos, a mim que degolei gargantas e durmo o sono dos justos. Quereis saber o que matei? Matei macacos e cavalos. Serpentes, vespas, um elefante. Um crocodilo do tamanho de uma jangada: cortei-o em cinco partes, enquanto me ri da fortuna que o colosso me renderia. Matei dez mulheres, a uma delas cortei os pés. Matei um corvo, para o comer. Raposas, ratazanas. Matei centenas de homens com as minhas mãos e elas não me caíram. Matei os sonhos de um milhar de outros. Queimei cabanas. Um dia, mordi o pescoço dum homem até lhe arrancar as veias para fora. Espetei uma lança no peito de um amigo. Roubei dinheiro. Rebentei o crânio de um albino contra uma rocha. E a seguir esquartejei-o. À hora de adormecer, a mão de minha mãe entrava por mim dentro com a xícara de leite morno, muito doce, e levava-me na mão do sono.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 23-24.

 

Em seguida, Celestino passou a narrar para as crianças seu cuidado com as plantas. Ele desejava que seus cravos ficassem ao vento, brincando, e, quando se cansassem de tanto tagarelar, o capitão lhes diria que já era tarde, os acomodaria e falaria com eles carinhosamente, como uma mãe que se dirige aos filhos pequenos.

 

Capítulo 5 (páginas 27 e 28)

Dois anos se passaram sem que alguém se aproximasse do portão de Celestino. Na loja de sementes, ele era atendido com má vontade. As mulheres cobriam os olhos dos filhos  quando cruzavam com o velho pirata. As avós usavam seu nome para fazer ameaças aos netos caso eles não se comportassem. Já as crianças ficavam divididas. Consideravam a possibilidade de ele ser o diabo, mas também viam seus cuidados e sua paciência com as flores. Talvez disfarçasse, mas o fato é que ele parecia desinteressante para um pirata. Celestino não se metia com ninguém, falava pouco, caminhava com dificuldade. Não fosse isso, tantos eram os boatos sobre seu vínculo com o demônio, teriam expulsado o capitão da vila. Mas, com o passar do tempo e a chegada de novas pessoas, sua presença deixou de chamar a atenção. Apenas o perfume de seu jardim ainda despertava o desejo e a curiosidade da vizinhança.

 

Capítulo 6 (páginas 29 e 30)

Nesse capítulo, acontece uma ruptura da narrativa em terceira pessoa, com uma sequência de fragmentos na voz de Celestino. São lembranças de seu passado no mar, pedaços de pesadelos recorrentes com imagens de luz, sangue e ratos, listas com afazeres para executar, comentários sobre seu cotidiano. Ele conta que foi a Leiria, de onde trouxe uma tulipa; fala dos cravos, do procedimento para secar as rosas, da perda de duas dálias, de uma noite no riacho, do chá com padre Alfredo e do bolo inglês que recebeu da vizinha.

 

Capítulo 7 (páginas 31 e 32)

Na parte de trás da casa, onde estavam o poço e a vinha, tudo foi se deteriorando pela falta de cuidado de seu morador, cada vez mais debilitado. O jardim em frente, no entanto, continuava vistoso. Era um contraste, como se a casa fosse um molar reluzente por fora e apodrecido por dentro.

Na sequência, mais uma vez a narrativa em terceira pessoa é interrompida por fragmentos na voz de Celestino a respeito de suas lembranças, de seus pesadelos e de seu cotidiano. Ele fala das imagens de luz e sangue, recorda de suas navegações e de uma cena de violência. Refere-se ao ano de 1833 como o seu tempo. Agora já não suporta o cheiro do mar. Imagina-se agredindo padre Alfredo. Diz que perdeu um dente no jardim.

 

Capítulo 8 (páginas 33 e 34)

Sentado na escuridão, Celestino observava um vento brando que vinha da serra e chegava à plantação de carvalhos e aos choupos. Aos poucos, o vento tomou o vale, como se saísse das profundezas da terra. Os carvalhos, movimentados pela aragem, pareciam falar alguma coisa. O som do vento nas folhas lembrava o som do mar e seu ritmo se assemelhava ao da maré. Quando se concentrava, Celestino conseguia sentir que seu coração e as folhas entravam no mesmo compasso.

O velho pirata, agora em terra, revelava ao mar que havia chegado ao seu destino. Deu um ultimato ao vento: sentia-se pronto para o enfrentamento, caso o viesse buscar. Agora tinha uma casa da qual não estava disposto a abrir mão. Entendia que era tarde para voltar atrás e corrigir os crimes que cometera. O vento não respondeu. Continuou em seu trabalho de agitar as folhas, em um ir e vir cadenciado. Celestino entendeu, por fim, que a Natureza não se comove, não se afeta. Ele tinha liberdade para morrer, amar e ser amado pelas plantas, que pertenciam a ele e, ao mesmo tempo, eram ele.

 

Capítulo 9 (páginas 35 a 37)

As plantas cultivadas por Celestino não sentiam gratidão pelos cuidados do jardineiro. Eram indiferentes ao amor que ele lhes dedicava. Não sofriam com sua ausência, nada esperavam dele, não julgavam suas ações. Caso ele morresse, elas receberiam a alforria e tomariam a casa. Também não lamentavam a morte dos escravizados que Celestino mandara sufocar com cal, no porão do navio negreiro. As plantas e Celestino eram feitos da mesma matéria, incapazes de sentir piedade.

 

Capítulo 10 (páginas 38 e 39)

A essa altura, os moradores da vila haviam perdido todo o interesse em Celestino, que desfrutou do estado de anonimato, de poder caminhar pelas ruas sem que viessem às portas das lojas para vê-lo passar. Os tempos eram outros e o novo século nunca pertenceria a ele. Celestino estava ligado ao passado, era um fantasma que já não colocava medo em ninguém. Padre Alfredo continuou tentando fazer com que o capitão se confessasse, dizia que não era tarde para isso, mas o pirata manteve sua recusa, pois não tinha nada para dizer. E completou refletindo sobre o tempo da maturação das ameixas, do florescimento das sardinheiras, do desaparecimento de uma cicatriz, do fim do mar, que já completaria cem anos. Esses eram tempos definidos, ao contrário daquele referido pelo padre. Afinal, como estipular quando é tarde para alguma coisa?

 

Capítulo 11 (páginas 40 e 41)

Este capítulo retoma o discurso em primeira pessoa, com um apanhado de pensamentos e lembranças de Celestino. Negando ter esganado a menina holandesa, ele se refere mais uma vez à imagem de sangue e luz. Pensa em Júlio, companheiro dos tempos de navegação, e em Saraiva, que havia morrido afogado. Acreditava ter visto Leal no cais, transportando sacas de farinha, mas esse homem já havia morrido há décadas, quando o capitão era ainda criança. Comenta os gritos dos moços à porta da igreja sobre a chegada do novo século. Aquela era outra morte e era como se ele já não estivesse ali. Havia entrado no mar recentemente, mas sentiu que o puxavam para baixo. Percebeu a degradação da água e que ele, nascido peixe, via que tudo havia se transformado em ratos.

 

Capítulo 12 (páginas 42 a 44)

Na vila, alguns ainda sentiam medo de Celestino e apressavam o passo ao passar em frente à casa do velho pirata. Outros, curiosos, espreitavam através das sebes e sentiam que ali estava a vida que recusaram: as aventuras, as viagens, a violência. Ao mesmo tempo que amava as flores, Celestino tinha impulsos de violência. Desejava usar sua navalha ao ver os meninos pela rua ou pegar a pistola e atirar em padre Alfredo pelas costas, quando o sacerdote ia embora de sua casa, depois de ter feito um sermão sobre a caridade, que enchia o capitão de tédio e o afastava a contragosto dos cuidados com o jardim. Ali, cada flor e cada fruto eram como uma espécie de duplo dos mortos que havia deixado pelo caminho. Eles ofereciam o silêncio, não o aborreciam com perguntas e olhares culposos. Pois o passado, na visão das plantas, era como a gosma que as lesmas deixam nas paredes e que, depois de seca, torna-se apenas uma linha. Talvez o mar também fosse uma espécie de caixão incapaz de ver, ouvir ou falar. Como os elementos da natureza, Celestino não sentia saudade ou medo. Identificava-se com as plantas do quintal e seus dedos deformados iam ganhando a forma de raízes.

 

Capítulo 13 (páginas 45 a 47)

O episódio descrito nesse capítulo pode ser tanto um delírio de Celestino quanto um flashback de quando se perdeu na floresta africana e encontrou o grupo de holandeses.

Febril, estava sozinho, em meio à mata fechada, onde havia se perdido. Desconhecia a língua da terra, conhecia apenas a do mar. Toda a Natureza o chamava para que se rendesse e se transformasse em planta. A floresta parecia ter vontade própria e era como se ela tivesse a missão de fazê-lo se perder. O capitão escutava chiados, mas não sabia se os sons vinham das ondas, dos animais ou de sua própria cabeça. O ambiente era hostil, povoado por cobras e aranhas, mas Celestino prosseguiu, abrindo caminho com um facão, em direção ao interior da floresta, onde viviam animais que nunca haviam encontrado um ser humano.

O pirata tinha deixado de ser gente. Era agora uma planta e seguia sem memória, sem medo e sem arrependimentos sobre o sofrimento que provocara nos outros ao longo da vida.

 

Capítulo 14 (páginas 48 a 51)

Esse capítulo se compõe de fragmentos. O primeiro fala dos pais de Celestino: a mãe, que teve uma vida servil, e o pai, que morrera em um naufrágio, seguindo o mesmo destino de outros antepassados. Na casa, havia um camiseiro feito com mogno trazido do Pará. A madeira vinda do Brasil tinha seguido a mesma rota que os homens e as mulheres aprisionados nos navios negreiros, mas os troncos tinham a vantagem de viajarem deitados, algo que era negado aos escravizados. A mãe de Celestino havia encomendado a mobília sem saber que aquela madeira se relacionava ao mundo de seu filho. Enquanto trabalhava, o carpinteiro que construiu o camiseiro se perguntava como havia vivido aquela árvore que tinha diante de si. No futuro, a madeira encerada e brilhante faria um reflexo que alcançaria um retrato na parede, no qual se via o capitão Nuno ainda jovem. O segundo fragmento retorna à floresta onde Celestino se perdeu. Depois de dias, ele encontrou um acampamento abandonado. Estava febril, com braços e pernas sangrando, as gengivas inflamadas. Acabou perdendo a consciência.

Por fim, o capítulo encerra com trechos em primeira pessoa. Celestino se recorda da mãe, que acordava e batia manteiga. Lembra-se da madrugada mais feliz de sua vida, a noite em que, junto dos companheiros, comemorou com música e um assado, quando à sua volta estavam os corpos de vinte e três pessoas negras. Fala de um cego que pedia dinheiro à porta da igreja; sentia nojo desse homem e queria enforcá-lo. Disse que, se fosse padeiro, envenenaria uma fornada de pão. Teve novas visões de sangue e luz. Comentou que foi à praia no domingo observar a chegada dos barcos. Mulheres esperavam a volta dos maridos, que haviam morrido em alto-mar. Por ele ninguém havia esperado, com exceção dos cravos de seu jardim.

 

Capítulo 15 (páginas 52 e 53)

As crianças começaram a visitar Celestino nos fins de tarde para observar os filhotes de morcegos que aprendiam a sobrevoar o quintal, ensinados por suas mães. Elas ficavam ansiosas, como se os morcegos fossem atacá-las. O velho pirata também sentia medo. Imaginava que os animais poderiam avançar em direção a ele e arrancar seus olhos. Mas os pequenos morcegos e suas mães não se davam conta da presença deles. Por volta das oito da noite, quando a escuridão já havia avançado, as mães-morcego encerravam sua lição de voo, as crianças voltavam para suas casas e Celestino seguia com sua rotina.

Foi naquele período que o capitão viu, pela primeira vez, a menina holandesa, morta há muito tempo. Após o jantar, enquanto observava as brasas na lareira, identificou sua figura em meio às chamas. Por um momento, quis tocar as labaredas e acariciar o rosto da criança. Lembrou-se das cantigas que ela entoava quando ele estava febril, músicas que lhe interessavam mais que a própria menina, cujo choro o aborrecia.

 

Capítulo 16 (páginas 54 a 57)

Às vezes, Celestino se embebedava. Nesses dias, acendia uma fogueira às margens do riacho onde havia nadado quando menino e passava a noite deitado lá. A proximidade da água não fazia com que recordasse dos seus tempos de viagens em alto-mar, pois sua cabeça estava mergulhada em esquecimento. Suas mãos ainda eram as mesmas que haviam cometido atrocidades, mas seu corpo, depois de ter chegado à terra firme, parecia não saber mais onde estava ou para onde ir. Certa noite, atirou-se nu ao riacho de águas geladas e sentiu que o lodo o puxava para o fundo. Não guardava remorso ou saudade, mas sentiu-se sozinho, pois já não tinha ninguém. Escutou então um choro de criança, mas não sabia se era um delírio ou se algum dos meninos da vila o espreitava. Temeu que fosse alguém com a intenção de botar fogo em seu jardim. Saiu do riacho, mas o choro havia parado. Perguntou-se se aquele som vinha da menina holandesa. Ali a Natureza era outra, diferente da floresta na qual se perdera, mas também o desprezava. A despeito de seus cuidados e de seu amor pelas plantas, elas não se importavam com ele. Ao amanhecer, Celestino emergia da neblina, que trazia ao jardim os cheiros e os sons do mar. Era o momento em que se lembrava de sua infância à beira-mar, quando brincava de marinheiro. Agora, no fim da vida, ele brincava de jardineiro.

O capítulo termina com fragmentos na voz de Celestino. São imagens desconexas, um mosaico do que ele vê, lembra e sente.

Esta noite choveram navalhas. O medo nos bigodes. Choupos e cravos no poço.

Sangue e luz. Ou o outro na vala. O céu sobre a minha cabeça. O burgo aceso até à Lua.

Hoje janelas abertas. O nevoeiro resmunga. Era arrancar-lhe a cauda.

Cadeiras, uma mesinha. Fui-me às encostas. Sinos toda a noite.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 56-57.

 

Capítulo 17 (páginas 58 a 60)

Enquanto trabalhava no jardim, Celestino pensou ver algo brilhante na terra. Cavou em busca do brilho, que fugia. Nesse momento, uma espécie de loucura percorreu suas ideias e seu corpo. Cavou sem parar, cada vez mais fundo, sem pensar ou sentir qualquer coisa. Era como se tivesse fome e dependesse daquele ato para se manter vivo. O quintal estava mergulhado em um nevoeiro.

Celestino havia enlouquecido, deixava de ser um homem. Não sentia saudade, não carregava mágoas, arrependimentos ou lembranças. Mesmo assim chorou. Finalmente, seu corpo tombou, exausto. Acolhido pela terra, olhou para as estrelas e adormeceu. Quando despertou, o jardim continuava igual, apenas a terra revolvida. Já era dia, perdera a noção do tempo. Sentiu medo e foi para a cama, com as ideias confusas.

 

Capítulo 18 (páginas 61 e 62)

Na manhã seguinte, Celestino acordou mais velho e mais cego. Seu corpo se deteriorara: os pés estavam inchados, as pernas cheias de varizes, tinha uma corcunda e a pele do pescoço estava flácida. Pela primeira vez depois de muito tempo olhou-se no espelho. Passou a mão no rosto e se arrepiou com a aspereza dos pelos. Decidiu cortar a barba, que havia mantido durante toda a vida. Barbeou-se com cuidado, pois suas mãos tremiam. Assustou-se ao ver seu rosto, mas não lamentou. Não colocou a pala que tapava um de seus olhos. Foi ao quintal, onde uma chuva forte dobrava as pétalas das flores. Sem a barba e sem a pala sobre o olho, sentia o frio e o vento de modo distinto. Do topo dos degraus que levavam ao jardim, teve um momento ao leme pela última vez na vida.

 

Capítulo 19 (páginas 63 a 65)

Celestino ficou vários dias doente e acamado. Enquanto isso, as vizinhas lhe traziam comida, um médico o visitava e o padre continuava com suas tentativas inúteis de fazê-lo se confessar. Recuperou-se motivado pela necessidade de cuidar do jardim, que continuava tão viçoso quanto antes.

Na época das festas de São João, uma grande fogueira foi acesa na praia. Celestino compareceu, acompanhado de Manuel, um primo do falecido caseiro Amadeu. No entanto, o velho homem se sentiu deslocado. Foi embora assustado e acabou caindo em um beco, onde Manuel o encontrou horas depois. Celestino implorou para que o rapaz o levasse para casa.

Nos dias seguintes, seu corpo e sua mente definharam ainda mais. Já não enxergava quase nada. Reconhecia as plantas pelo tato e cantava para elas. Pensava que o fato de florescerem era uma resposta aos cuidados que recebiam. Enterrou junto ao limoeiro os fios da barba que raspara. Era uma forma de, após a morte, seguir seu próprio rastro e encontrar o caminho de volta às flores do jardim quando sentisse falta delas. Trabalhou apressado, olhando por cima do ombro como se, em vez da barba, estivesse enterrando um saco de moedas, e então não se livrou do medo de que fosse roubado. Continuou a cuidar do jardim em seu amanhecer diário, cada dia de um jeito, de modo que jamais se entediava.

 

Capítulo 20 (páginas 66 a 68)

No Natal, Celestino recebeu de padre Alfredo um peixe, que acabou apodrecendo sobre a mesa. Assustou-se com o cheiro da morte que invadira a casa e abriu as janelas, aflito.

Raul, Pedro e Luzia ainda o visitavam para ouvir sobre os tempos de pirataria. Celestino sentia prazer no interesse que as crianças demonstravam em suas histórias. Um dia, tirou a camisa e mostrou aos pequenos suas tatuagens e a grande cicatriz nas costas, o que os impressionou. Inventou histórias violentas, nas quais sempre levava vantagem. Dizia que havia matado centenas de homens com as próprias mãos e que, apesar disso, elas estavam intactas. No entanto, dessa vez percebeu o choque das crianças com sua narrativa e a repulsa que seu corpo velho provocava. Sentiu-se embaraçado e deixou de enxergar os pequenos à sua frente. Ensimesmado, pensou em sua decrepitude e em como seria mais nobre ter morrido ainda jovem. O mar, que havia permitido seu regresso à terra, zombava dele, tornando-o motivo de curiosidade para os outros.

Era agora um homem domesticado. Ficou cismado ao perceber que as flores o mantinham aprisionado. Pensou ter erguido no jardim um pequeno mundo, mas a verdade é que havia sido escravizado, de livre e espontânea vontade, pelas plantas. No passado, essa constatação teria sido suficiente para que ele arrancasse todas as plantas pela raiz, mas agora temia mais pela vida delas que pela sua própria.

Quando voltou a si, expulsou as crianças. Mas, como já não guardava memórias, pouco depois não sabia dizer quem o havia visitado naquele dia.

 

Capítulo 21 (páginas 69 a 73)

A memória de Celestino se esvaía e ele passou a ter visões de uma velha negra. À noite, sonâmbulo, encontrava com ela na cozinha, preparando-lhe comida. Sentavam-se à mesa, ela o observava comer, depois o limpava e o levava de volta à cama. Também tinha delírios nos quais padre Alfredo aparecia em uma versão mais jovem, às vezes criança. Nessas visões, o sacerdote nem sempre vestia a batina e não tentava mais arrancar uma confissão. Os dois permaneciam em silêncio, ouvindo os estalos na lareira. Pensava então que a casa estava em chamas e tentava estrangular esse Alfredo imaginário e sem corpo. Em algumas noites era acordado por barulhos na casa e encontrava outras figuras, como um negro e a viúva de um pescador. Às vezes, despertava fora de sua cama, sujo e arranhado, com a cozinha ou a despensa revirada.

As crianças já não o visitavam e Celestino não conseguia mais cuidar da casa nem do jardim. Aos poucos, seu envelhecimento se estendia ao espaço que habitava. Tudo estava desleixado, tosco, as flores haviam desbotado do mesmo modo que as tatuagens que cobriam o corpo do capitão. Deixou de usar a pala e estava cada dia mais afastado da consciência. Aos poucos, o pirata se igualava a uma planta. Seu consolo era a presença da menina holandesa, a quem via como uma neta. Abraçado a ela, o velho pirata adormecia.

 

Capítulo 22 (páginas 74 a 77)

A velha negra passou a aparecer de dia e de noite, e Celestino a via como um amparo diante da morte próxima. Ela parecia saber tudo sobre ele, talvez porque o capitão tivesse revelado muito de si às suas vítimas. Era para ele uma presença segura, que lhe fazia comida, cuidava de seus cabelos e da barba que já não existia, fazia-lhe companhia, cantava em seu ouvido, aquecia-o durante o sono. Sem perceber, ao se aproximar da velha negra, Celestino fazia amizade com a própria morte. Estava esquecido de tudo, saía por dias à procura da velha, que andava a seu lado todo o tempo. Estava perdido de si mesmo, chamava seu próprio nome, mas nada encontrava. Então sentia desespero e a velha negra o acolhia como se ele fosse um menino, colocava-o em seu colo e depois o deitava na cama. Enfraquecido e derrotado, ele se entregava a esse cuidado, ainda que lhe desse medo. Depois de cobrir o corpo do velho pirata, a mulher voltava à cozinha. O fim de sua vida era mais uma vez adiado, já que a morte, quando quer, trabalha com paciência.

 

Capítulo 23 (páginas 78 e 79)

Em alguns dias, Celestino via a velha negra e a menina holandesa juntas. Perto da lareira, a idosa catava piolhos dos cabelos da menina, penteava-a e arrumava a venda que lhe cobria os olhos. Nenhuma das duas guardava qualquer mágoa em relação a Celestino, e ele gostava dessas companhias que o acompanhavam ao longo do dia em seus afazeres e cuidavam dele. A menina estava sempre com a venda, pois aquilo que havia sido atado em vida não podia ser desatado na morte. Celestino, sem poder ver os olhos da criança, não conseguia saber nada sobre ela nem se curar. Às vezes, a velha e a menina passavam semanas ou meses sem aparecer e, então, sem aviso, voltavam.

O velho capitão ainda recebia alguns vizinhos, que lhe traziam notícias de fora. Porém, os transeuntes já não o observavam escondidos pelas sebes. Agora era ele que, solitário, procurava os sons que vinham da rua.

Da mesma forma que o jardim, o pirata já não era mais o mesmo e logo deixaria a vida. Pouco a pouco, ele desaparecia e, com isso, desvanecia-se o mundo ao seu redor. Um dia, a terra o engoliria e ele passaria a pertencer a ela. Enquanto isso, a morte seguia disfarçada de mulher e de menina, adiando o momento final de Celestino.

 

Capítulo 24 (páginas 80 a 82)

Celestino ficou sentado no quintal enquanto uma gata dava à luz sua ninhada. Estava ansioso, como se estivesse à espera do nascimento de um filho seu. Nas semanas seguintes ao parto, os gatinhos buscavam a mãe, que ficava cada dia mais arisca. Um dia, ela foi embora, deixando os filhotes. Pouco depois, os gatinhos já crescidos também seguiram seu caminho. Novamente, ficaram apenas Celestino e seu jardim, onde o espantalho parecia dançar com o vento. Enquanto isso, o capitão encaminhava-se para a morte, com seu corpo cada vez mais frágil.

Uma noite, o homem despertou com barulhos na despensa, que encontrou vazia. Em sua mente, viu o porão de seu velho navio, os cadáveres sufocados pela cal, os corpos jogados ao mar, incluindo o da velha negra, que já não o visitava. Depois disso, o velho pirata pegou uma caixa de farinha e espalhou o pó branco sobre as plantas, enquanto dizia à morte que ela já podia buscá-lo.

 

Capítulo 25 (páginas 83 a 85)

Celestino já não sabia mais falar ou andar. Aos poucos deixava de pertencer a este mundo. Enquanto isso, as plantas do jardim passavam a ser as jardineiras do jardineiro. Àquela altura, os que haviam testemunhado seu regresso tinham morrido. Ele não era conhecido como o velho que ainda vivia na casa da rua dos choupos, mas havia se tornado um herói remoto, tema de cantigas de pescadores.

Às vésperas de sua morte, o jovem Manuel veio buscá-lo para ver o mar. Ali, o capitão avistou a menina holandesa caminhando em direção a ele. Quando já havia anoitecido, voltaram para casa, o rapaz acendeu a lareira, deitou o velho pirata na cama e saiu. Aquela noite de inverno foi a última de sua vida. Morreu sem qualquer dúvida ou remorso na consciência.

Na manhã seguinte, padre Alfredo veio benzer o corpo. Quando deixava a casa, olhou com cobiça as plantas do jardim, que ainda não haviam se dado conta da morte de Celestino. Com certa inveja, pensou que suas mãos piedosas eram incapazes de manter as plantas vivas.

 

Características da obra

Em A visão das plantas encontramos um narrador onisciente, ou seja, capaz de acessar os pensamentos e os sentimentos dos personagens. No entanto, em quatro ocasiões, encontramos trechos em primeira pessoa, na voz do próprio Celestino. São fragmentos que não chegam a constituir uma narrativa, mas compõem uma espécie de colagem de pesadelos, delírios, lembranças, afazeres, desejos e situações cotidianas vividas pelo capitão.

Não esganei a holandesa. Sete, oito aninhos, mas os pescoços não têm idade.

A bolha de sangue e muita luz. Sai-me da boca e ali fico.

Que será feito do Júlio? Era bom com a faca. Ainda nos rimos uma vez a sacar rolhas às garrafas. Foi no dia em que se afogou o Saraiva. Afogou porque era estúpido.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 40.

 

Em alguns momentos, a narrativa também se vale do discurso indireto livre, recurso que aproxima o leitor das reações dos personagens, como no exemplo a seguir.

O espantalho que assustara a vizinha assustava Celestino. Quem seria aquele rei sem reino, sempre em pé no nabal, abanando-se, emproado, chocalhando colheres de sopa em xícaras de lata? Dias a fio, trancado em casa, temia os sons vindos do outro lado das sebes. Que lhe queriam? Quem eram? Que caminho era aquele, do outro lado, ali tão perto?

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 83-84.

 

No trecho, o discurso do narrador e os pensamentos do protagonista se misturam, não havendo uma fronteira rígida entre eles. Por meio do discurso indireto livre, é possível acessar o pensamento de Celestino, que se mostra confuso e angustiado enquanto levanta questões para as quais aparentemente não encontra resposta.

Quanto à linguagem utilizada, temos uma prosa extremamente poética, que usa metáforas com frequência, criando imagens visualmente complexas e inusitadas, como vemos no trecho a seguir.

Andava como quem se quer dissolver em tudo, esperando encontrar o ponto onde a Natureza se cansaria de o ver pedir-lhe que o absorvesse. Cortou mato como se rasgasse um longo lençol.

Naqueles caminhos por onde homem nenhum andara, destruindo a tecelagem de Deus com a tesoura que eram as suas pernas, sem bússola ou sentido de orientação que o auxiliasse, não lhe acudiam as agonias daqueles que abandonara à sua mercê, nem o olhar de sua mãe despedindo-se do rapaz que fora.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 46.

 

Além disso, há o uso abundante da prosopopeia, já que em diversas passagens da narrativa espaços, animais e plantas aparecem personificados. Logo no primeiro capítulo, a casa de Celestino e os objetos dentro dela recebem características usualmente atribuídas aos seres humanos. Do mesmo modo, as plantas do jardim são frequentemente apresentadas como seres munidos de intenção, capazes de desprezar e dominar.

Sobre o tempo da narrativa, encontramos muitas indefinições, o que contribui para aproximar o leitor da sensação de nebulosidade na qual progressivamente mergulha a consciência de Celestino. O que temos são breves pistas, por meio das quais sabemos que a história se dá entre o final do século XIX e a virada para o século XX.

No cais, as fisionomias anunciavam outro século, que nunca seria seu. Como seriam os sobrolhos, as pestanas do século XX?

Quem lhe dera vê-los.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 38.

 

Em oposição ao século XX, que não pertenceria a Celestino, é citada outra data, o ano de 1833. O velho pirata se refere a ela como “meus tempos”, o que sugere ter sido esse momento seu auge como capitão de navios. Esse é um dado interessante, já que o tráfico negreiro para o Brasil, rota que Celestino cumpria, foi proibido em 1831. Depois dessa data, os tumbeiros continuaram cruzando o Atlântico de forma ilegal, o que ajuda a esclarecer por que o protagonista é referido diversas vezes como “pirata”.

Quanto ao período que transcorre entre o retorno de Celestino à casa de sua família e sua morte, não é possível um cálculo preciso. Sabemos apenas que se trata de um recorte de alguns anos, mas não muitos, já que Raul, Pedro e Luzia, as crianças que o visitavam, ainda não tinham saído da infância no fim da narrativa.

Em relação ao espaço, apesar de Portugal não ser referido em nenhum momento, sabemos se tratar desse país, já que a cidade portuguesa de Leiria é citada. Quanto à localização da casa, apesar de haver indícios, não há um endereço preciso. É possível que Djaimilia tenha criado um local fictício, chamado “rua dos choupos”, localizado à beira-mar. Mas também é possível que a autora tenha feito referência à Rua dos Choupos, localizada na cidade portuguesa de Caldas da Rainha (distrito de Leiria), a poucos minutos da praia de Salir do Porto.

A maior parte da ação se passa no espaço da casa, principalmente no jardim de Celestino. Em algumas poucas ocasiões, o personagem circula pela vila, entra na igreja de padre Alfredo ou vai à praia. Outros espaços que aparecem, por meio das lembranças de Celestino, são a floresta africana na qual se perdeu (onde conheceu a menina holandesa) e o navio negreiro (de onde foi jogado o corpo da velha negra).

 

Comentários sobre o enredo

Visões sobre Celestino

O retorno de Celestino à sua casa provocou diferentes reações nos moradores da vila. Alguns lojistas o atendiam com má vontade, as mães buscavam afastá-lo de seus filhos e os vizinhos espreitavam através das sebes, imaginando que no jardim do velho homem se realizavam maldades e rituais satânicos. As crianças, ao mesmo tempo fascinadas e horrorizadas com suas histórias de pirataria, visitavam o capitão para escutar suas narrativas. Uma delas, Raul – em referência ao escritor Raul Brandão –, desejava ter um roseiral como o de Celestino. Enquanto isso, alguns adultos fantasiavam sobre o passado misterioso do velho pirata e pensavam na vida de aventuras que não tinham vivido.

No entanto, o passar dos anos e a chegada de novidades fizeram com que a comunidade fosse perdendo o interesse em Celestino. Ele se portava de forma discreta, não se metia com ninguém, vivendo a maior parte do tempo recluso em seu jardim. Se não despertou simpatias, ao menos conseguiu alguma proximidade com as vizinhas, que levavam comida para ele nos momentos de doença. Já não provocava tanto medo ou curiosidade, e acabou esquecido. Alguns inclusive pensavam que estava morto e se lembravam dele apenas como um herói de tempos remotos, motivo de cantigas de pescador. Assim, ainda que não tenha sido concretamente expulso da vila, como alguns desejavam, o velho corsário acabou sendo deixado à margem e tratado como um elemento externo ao grupo: ora um homem exótico, ora um ser mítico. Suas ações no passado são tratadas como se não estivessem conectadas à história de toda aquela sociedade.

Essa desconexão entre os habitantes da vila e Celestino, representante de um passado violento, ligado ao Império e ao tráfico negreiro, aponta para um aspecto relevante sobre a história de Portugal. Nos últimos anos, a historiografia portuguesa tem discutido sobre o silenciamento que caracterizou, e ainda caracteriza, muitos dos discursos a respeito do passado nacional. Por isso, na seção a seguir, será apresentado um breve panorama da história portuguesa ao longo do século XX e serão tecidas algumas reflexões de como a memória do colonialismo e do neocolonialismo foi mobilizada nesse período. Tais informações nos auxiliarão a desenvolver a hipótese que será trabalhada mais à frente: a de que Celestino pode ser lido como uma alegoria do Império colonial português.

 

Portugal: Império e (des)memória

Em Portugal, desde as Grandes Navegações, consolidou-se uma identidade nacional apoiada tanto em um destino mítico voltado para a grandeza quanto na imagem da conquista do mar e dos domínios ultramarinos. Mesmo o longo período de decadência vivido nas últimas décadas do século XVI não foi suficiente para esgotar essa identidade; pelo contrário, quanto maior a crise, mais o discurso oficial buscou reforçá-la.

Entre 1933 e 1974, Portugal viveu as décadas do Estado Novo, período marcado pelos governos de António de Oliveira Salazar e de Marcello Caetano. Tratava-se de um regime conservador, católico e de traços fascistas, cuja Constituição, redigida em 1932, desenhou um regime corporativo segundo o modelo instalado por Benito Mussolini na Itália. As greves foram proibidas, a imprensa e as obras de arte foram censuradas e qualquer demonstração de descontentamento podia ser reprimida pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a Pide, que atuou implacavelmente entre 1954 e 1968.

Foram décadas de atraso social e econômico, durante as quais o Estado buscou manter o país congelado em uma imagem do passado: agrária, apoiada na tradição e ligada às glórias do Império e aos feitos de seus heróis. Naquele momento, essa imagem do Império foi mobilizada para justificar a permanência do domínio sobre as colônias africanas. Prova disso é a publicação do Acto Colonial, em 1933, que afirmava:

É essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam, exercendo também a influência moral [...].

Disponível em: https://www.parlamento.pt/parlamento/documents/acto_colonial.pdf. Acesso em: 7 nov. 2024.

 

Nos anos 1960, a fragilidade da ditadura de Salazar ficou evidente com os crescentes questionamentos ao neocolonialismo e o início das lutas pela independência nas colônias africanas de Portugal. Em 1961, as guerrilhas anticoloniais se organizaram em Angola; em 1962, foi a vez de Guiné-Bissau; em 1964, de Moçambique. Diante desse quadro, Salazar foi intransigente e buscou manter o domínio colonial a todo custo. Para tanto, foi preciso deslocar consideráveis recursos do orçamento do Estado para os esforços de guerra, e milhares de portugueses foram convocados para o serviço militar nas províncias ultramarinas.

Na década de 1970, já durante o governo de Marcello Caetano, Portugal viveu uma grave crise agrícola, com diminuição na oferta de alimentos e escassez de mão de obra no campo e em setores modernos da economia. Além disso, os salários eram muito mais baixos que em outros países da Europa. Por isso, mesmo que a imagem de Portugal no exterior passasse a impressão de um regime estável, internamente os descontentamentos se ampliavam. Enquanto entre os civis cresciam as emigrações, entre os militares aumentavam as deserções e as divergências sobre como enfrentar a guerra colonial. Parte dos oficiais defendia uma saída violenta, mas havia aqueles que argumentavam em prol de uma saída pacífica, já que a disputa colonial, além de exaurir as finanças do Estado, havia se transformado, àquela altura, em um esforço inútil, do qual Portugal apenas poderia sair derrotado.

Em 1973, membros das Forças Armadas começaram a conspirar contra o governo com a intenção de promover um golpe de Estado pacífico. Finalmente, em 25 de abril de 1974, uma sublevação militar com apoio popular colocou fim à ditadura em Portugal. A senha para o início do levante foi a canção “Grândola, Vila Morena”, música popular de José Afonso na qual se afirma o poder do povo. Sem oferecer resistência, o regime que controlava Portugal há décadas sucumbiu. No dia seguinte, uma multidão saiu às ruas comemorando a tão sonhada promessa de liberdade – os cravos, símbolos da revolução portuguesa, estavam por toda parte.

Infelizmente, à parte o mérito inquestionável de ter colocado fim ao Estado Novo de forma praticamente pacífica, a Revolução dos Cravos pouco alcançou no sentido de abrir caminhos para uma sociedade portuguesa menos desigual e mais aberta a questionar e denunciar os crimes cometidos no passado, no contexto do colonialismo e do neocolonialismo. Ainda hoje persiste um imaginário baseado na tese do lusotropicalismo5, reforçado durante o período salazarista, em que se coloca em evidência um passado glorioso ligado ao Império e ao mar, ao mesmo tempo que se busca silenciar o lado perverso do processo colonial, ou seja, a escravidão, o racismo e o domínio cultural e econômico sobre os povos subjugados.

Felizmente, o debate a respeito das tensões entre memória e esquecimento sobre o colonialismo e a escravidão tem alcançado diferentes esferas; antes mais restrito aos intelectuais e aos artistas, no ano de 2024 chegou ao governo português. No dia 23 de abril do referido ano, pela primeira vez na história, um presidente português admitiu os crimes cometidos durante os séculos de colonização e de tráfico negreiro. Em um discurso, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, além de afirmar que o país tem responsabilidade pelos erros do passado, sugeriu reparações.

 

Celestino: uma alegoria do Império colonial português

O romance de Djaimilia Pereira de Almeida é, acima de tudo, uma história sobre o esquecimento e a necessidade de lembrar. No plano geral do romance, o capitão Celestino funciona como alegoria do Império português colonial e escravista. Os diversos esquecimentos que o atravessam dialogam com o silencio histórico que tem caracterizado a história de Portugal.

Em seu jardim, Celestino buscou reproduzir um pequeno império, no qual as plantas eram as cativas. No entanto, por meio de uma rebelião simbólica, o jardim se tornou senhor do jardineiro. Para conter a natureza, o velho pirata espalhou farinha sobre as flores – uma tentativa falha de mimetizar o episódio em que sufocara com cal os escravizados que haviam se rebelado em seu navio –, mas em vão: agora ele pertencia às plantas e com elas se identificava.

As plantas com quem Celestino conviveu no fim da vida não julgavam nem lhe faziam perguntas. A elas pouco importavam os crimes cometidos pelas mãos que as regavam. Eram indiferentes, não demonstravam gratidão pelos cuidados que recebiam nem se comoviam diante do adoecimento progressivo do jardineiro. Enquanto isso, Celestino mergulhava no esquecimento e se desprendia de características que o associavam à imagem de pirata: o cheiro de mar passou a ser insuportável para ele, deixou de usar a pala de couro, raspou a barba. Mais que isso, perdeu o orgulho que as histórias de corso lhe traziam, como revela sua reação ao contar, pela última vez, suas aventuras para as crianças: em vez da postura presunçosa, sentiu-se constrangido diante dos pequenos, que miravam seu velho corpo com espanto.

Além disso, o protagonista abandona, junto da memória, sua condição humana. Se desde o início estava identificado com a casa, compartilhando com ela as marcas deixadas pelo tempo e pela maresia, no decorrer da narrativa observamos um espelhamento ocorrer entre Celestino e as plantas do jardim. Assim, a narrativa nos informa que, atrás de suas costelas, ele tinha uma planta no lugar do coração. Seus dedos estavam tortos e deformados como as raízes das árvores. Como uma planta faminta, o velho pirata cavou um grande buraco no jardim, em busca de alimento nas profundezas da terra. Como uma planta, ele não foi movido por pensamentos e emoções, não tomou consciência de seu próprio corpo ou da passagem do tempo. Também como uma planta, não sentiu piedade por suas vítimas e não carregou qualquer dúvida ou remorso em sua consciência.

Isso não significa que Celestino ignorasse a violência de seus atos, apenas entendia que não era possível desfazê-los. Ao mesmo tempo, a presença dos fantasmas de suas vítimas simboliza um passado que insiste em se fazer presente, mesmo que de forma silenciosa, em uma

terra de homens do mar cujas histórias terríveis circulavam pelo tempo até que, como o nevoeiro cerrado que vinha da praia pela manhã, se confundiam com a matéria de que eram feitas as casas, os quartos, as vestes, as pessoas, o sono.

ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. A visão das plantas. São Paulo: Todavia, 2021. p. 27-28.

 

Dessa forma, se não é possível julgar os algozes do passado, como a narrativa sugere, é possível recuperar a memória das vítimas, fazê-las presentes e ouvir seus ecos fantasmagóricos, em um possível caminho para a reparação.

 

Os opostos complementares

Em A visão das plantas são estabelecidos alguns pares de opostos que, no plano narrativo, traduzem a complexidade humana representada por Celestino. É importante observar que, longe de demarcarem contradições, esses opostos podem se misturar, a ponto de não ser possível distingui-los. Isso reforça a necessidade de uma leitura atenta, que rejeite simplificações maniqueístas ou moralizantes. Além disso, a mescla dos opostos contribui para criar uma atmosfera de indefinição e nebulosidade, assim como a que experimenta o protagonista no fim de sua vida.

Terra e mar

Enquanto a terra é o espaço em que a vida ressurge, por meio das plantas cultivadas no jardim de Celestino, o mar serve como um túmulo, incapaz de ouvir, ver ou falar, recebendo os corpos de muitos cativos mortos na travessia do Atlântico e guardando os segredos das atrocidades cometidas pelo velho pirata.

Além disso, no capítulo 10, o capitão afirma que o mar findou há quase cem anos, o que simbolicamente parece associado à progressiva proibição do tráfico negreiro, iniciada nas primeiras décadas do século XIX. Curiosamente, esse espaço, tão ligado à identidade e ao passado português, glorificado em diversos momentos, é aqui associado à imagem da morte, da crueldade e do silenciamento a respeito da escravidão.

Sangue e luz

O sangue e a luz são elementos recorrentes nos sonhos e nos delírios do velho corsário. O sangue faz referência à violência e às mortes associadas ao tráfico negreiro, enquanto a luz, essencial para o crescimento das plantas, simboliza a vida que floresce.

Passado e presente

No romance, Celestino incorpora os símbolos do passado colonial, patriarcal e escravista de Portugal. Como ele mesmo afirma em certo ponto, sua história se conecta a 1833. Nessa data, o tráfico negreiro já havia sido proibido por lei no Brasil, mas continuava acontecendo de forma clandestina, caracterizando-se como prática de pirataria. Entretanto, no presente da narrativa, já no final do século XIX, o tráfico atlântico de pessoas havia sido completamente interrompido. Assim, o capitão experimenta não apenas a proximidade de sua morte física, mas também uma morte simbólica, pois não se sente parte do século que se anuncia; ao contrário, refere-se a ele como “outra morte”, sugerindo que, embora o século XX fosse trazer novas tragédias humanas, a era do tráfico negreiro, da qual Celestino foi um representante, finalmente terminava.

Céu e inferno

É nesse par de opostos que encontramos a maior indefinição. Já no segundo capítulo, há uma referência a Deus, que estaria assistindo a tudo ao lado do diabo. No episódio em que Celestino se perde, a floresta é apresentada como o estômago de Deus, que poderia devorá-lo e, ao mesmo tempo, se comporta como um espectador passivo diante do desespero vivido pelo pirata. Por fim, diante da insistência do padre em obter uma confissão, o capitão compara Deus a um caroço cheio de veneno e bolor.

Além disso, há certa ironia no nome de Celestino, que significa “aquele que pertence ao céu”. Ora, o céu, além de ser o local onde se encontram os corpos celestes, é a morada de Deus e o destino das almas virtuosas, algo distante do passado do velho pirata. Ademais, em dois episódios, vemos o capitão dizer às crianças “Vinde a mim”, uma referência à fala de Jesus Cristo: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas” (Mateus, 19:14). Ao mesmo tempo, Celestino é associado ao diabo quando, ainda recém-chegado, desperta o medo e a desconfiança dos moradores da vila. Ironicamente, nesse momento padre Alfredo afirma que, se era verdade que ali vivia o demônio, então ele era um bom jardineiro.

Em resumo, A visão das plantas não trabalha com uma imagem de Deus que salva ou pune, o que é coerente com o conjunto de valores articulado pelo romance. Além disso, a associação de Celestino ao paraíso celeste, a Jesus Cristo e ao diabo reforça seu caráter complexo e dual.

 

Personagens

Capitão Celestino

Para os vizinhos, a figura de Celestino é cercada de mistérios. O mesmo vale para o leitor, que tem apenas vislumbres de seu passado. Entramos em contato com sua vida pregressa nos breves momentos em que ele narra sua história para as crianças que o visitam. Sabemos que nasceu na casa à qual retorna e onde semeará seu jardim, que cresceu na companhia da mãe e das tias e que nunca conheceu o pai, também capitão de navios, morto no mar. Começou a trabalhar no transporte de pessoas escravizadas ainda na juventude, fazendo a rota do continente africano ao Brasil. E, de acordo com seu próprio relato, roubou, agrediu e matou ao longo da vida sem sentir qualquer espécie de remorso.

De sua aparência, somos informados de que é um homem velho, de porte esguio e rosto fechado, que veste um sobretudo cinzento e usa um chapéu alto de feltro. Tem o tronco tatuado, as maçãs do rosto cortadas por dois veios paralelos, um nariz pontiagudo, dentes cariados, um olho pequeno e muito claro, o outro coberto por uma pala de couro negro, sobrancelhas fartas, barba comprida e branca. No entanto, com o passar da narrativa, observamos algumas transformações físicas que acompanham sua deterioração mental: seus pés incham, as pernas se cobrem de varizes, passa a ter uma corcunda e a barriga aumentada. Além disso, abre mão da barba e da pala – dois elementos bastante característicos dos piratas. É como se esse homem – e tudo o que ele significou – fosse sendo, aos poucos, apagado. Desse modo, o personagem pode ser lido como uma alegoria do Império português, não apenas por seu vínculo com o passado e com o escravismo, mas também por seu presente de decadência.

Outra leitura possível, que se associa à anterior, é a compreensão de Celestino como uma espécie de dom Sebastião às avessas. O mito do sebastianismo surgiu após o desaparecimento do rei dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. A esperança de que o rei retornaria em meio a um nevoeiro para salvar Portugal se infiltrou na memória coletiva do país e foi sendo resgatada constantemente, especialmente em momentos nos quais, diante da necessidade de fortalecer o discurso nacionalista, buscou-se reafirmar o passado glorioso português. Em A visão das plantas, a imagem do nevoeiro é mobilizada em diversos momentos. No entanto, enquanto o retorno de dom Sebastião era desejado como esperança da redenção portuguesa, a volta de Celestino coloca em evidência um passado que a sociedade gostaria de ocultar.

As crianças

Raul, Pedro e Luzia são as três crianças que estabelecem vínculo com Celestino. Inicialmente, assim como os demais vizinhos, eles espiavam a casa através das sebes, cheios de curiosidade. Raul desejava ter um roseiral bonito como o do velho corsário. O capitão, ciente desses pequenos observadores, passou a deixar, em cima do muro, cubos de marmelada e fatias de queijo curado, que as crianças sempre comiam.

Aos poucos os três passaram a visitar o velho pirata para ouvir suas histórias. Eles se sentavam no chão enquanto Celestino contava sobre suas viagens e os animais, as flores e os frutos que encontrara pelo caminho. As crianças riam, animadas e atentas, o que tornava o momento prazeroso para o capitão.

Elas também apareciam em alguns fins de tarde para observar as lições de voo que as fêmeas dos morcegos davam a seus filhotes. Ficavam em estado de alerta, o coração acelerado, como se fossem ser atacadas pelos animais. Por volta das oito da noite, quando escurecia e os morcegos paravam a aula, as crianças iam embora para suas casas.

Com o passar dos anos, no entanto, o olhar dos três para o capitão se modificou. Ao espanto que sempre sentiram diante de suas histórias de pirata, somou-se o pasmo com seu corpo de velho. Essa constatação perturbou Celestino, que expulsou os pequenos visitantes. Depois disso, eles não o visitaram mais.

Padre Alfredo

O pároco da vila foi a primeira pessoa a visitar Celestino. No jardim, o perfume das flores acabou silenciando o sermão que ele havia preparado para o capitão. Inicialmente, padre Alfredo se intimidava com a figura do velho pirata, mas logo se convenceu de que aquele homem não era um facínora, e, sim, alguém que pouco a pouco perdia a lucidez e caminhava para a morte. O pároco passou então a ser uma visita frequente e, pela voz de Celestino, o leitor é informado de que tomavam chá juntos e que, em um Natal, Alfredo o presenteou com um peixe. Até os últimos dias da vida de Celestino, o padre tentou convencê-lo a se confessar, sem sucesso. Quando o capitão morreu, padre Alfredo foi trazido pelo médico para benzer o corpo, o qual encontrou sereno. Ao ir embora da casa, admirou mais uma vez o jardim com cobiça, pensando que, em suas mãos piedosas, as plantas sempre acabavam morrendo.

Capitão Nuno

Pai de Celestino, esse personagem aparece somente por meio das lembranças e dos relatos do protagonista. Também foi capitão de navios, mas morreu jovem em um naufrágio, quando o filho ainda era muito pequeno. Tinha um nariz grande, olhos vazios, a pele muito branca e uma postura febril. Havia sido uma criança como muitas, que brincava e sonhava com bruxas. Tinha sobrevivido, quando pequeno, a uma pneumonia. Ficou feliz com o nascimento dos filhos, mas também sentiu medo de não ter meios para criá-los. Usava um cordão de ouro, que foi herdado por Celestino.

A mãe

Em nenhum momento da narrativa essa personagem é nomeada. Assim como capitão Nuno, ela aparece somente nas lembranças e nos relatos do filho. Viúva desde jovem, dedicava-se aos cuidados domésticos. Usava um vestido abotoado até o pescoço, tinha as mãos frias e calejadas. Servil, continha seu desgosto pela vida de sonhos abandonados. Depois que Celestino saiu de casa, seu único visitante ocasional era padre Alfredo, que, anos mais tarde, se referiria a ela como uma “santa senhora”. Já o sacristão diria que, assim como o velho pirata, a mãe também não era boa. Para Celestino, ela era a imagem que, em sua imaginação, trazia-lhe uma xícara de leite morno e o ajudava a adormecer. Morreu sem ter notícias do filho.

A menina holandesa

Criança de aproximadamente 8 anos de idade que cuidou de Celestino quando ele se perdeu em uma floresta africana. Febril e desorientado, o capitão foi acolhido por um grupo de holandeses e a menina se encarregou de sua alimentação, sua higiene e seu conforto. Esse grupo de homens planejava a caça de um grande crocodilo, cuja venda renderia ao grupo substancial quantia. Celestino, interessado no crocodilo, acabou degolando os holandeses e deixou a menina vendada e amarrada a um tronco de árvore. A caminho da morte e já senil, o velho pirata passou a ter visões com a criança. Na primeira vez, ela surgiu em meio às chamas da lareira, com seus cabelos ruivos misturados ao fogo. Depois, passou a ser uma presença constante na casa. Como uma neta, aninhava-se ao capitão durante as noites. Mesmo depois da morte, permaneceu com a venda sobre os olhos. Em nenhum momento da narrativa a personagem é nomeada.

A velha negra

Outra personagem feminina sem nome. Foi vítima de Celestino e teve seu corpo jogado em alto-mar pelo capitão. Assim como ocorreu com a menina holandesa, o velho pirata passou a ter visões nas quais a velha negra lhe aparecia, cozinhava e fazia-lhe companhia. Usava uma saia florida, avental branco, os cabelos amarrados em uma trança, tinha as unhas limpas e uma cicatriz na maçã do rosto.

Manuel

Primo do falecido caseiro Amadeu, que no passado cuidou da casa onde morava Celestino, esse personagem aparece em momentos pontuais ao longo da narrativa, como na noite de São João, na qual leva o capitão para os festejos. Também é a última pessoa a estar com Celestino, na véspera de sua morte, ocasião em que o leva para ver o mar, não apenas movido pela caridade, mas porque desejava estar próximo de um pirata de verdade.

 

 

 






INTRODUÇÃO À OBRA: A VISÃO DAS PLANTAS (2)

  Questão 1 O discurso indireto livre ocorre quando a voz de um dos personagens se mescla à voz do narrador. Nos trechos abaixo, retirad...