- Texto para a questão 1 -
O preto alto tomou a palavra:
– É porque nós já estamos fartos, camarada
Rufino, de ir atrás dos doutores, e os doutores depois nos dão o fora. O
operário tem de andar com os seus pés, é o que eu penso.
– O camarada Roberto trabalha conosco desde
os tempos do Bloco Camponês!
– Ele pode ser sincero, mas chegando aqui é
pra dominar! Vem organizar, vem chefiar, vem controlar... O operário é que deve
guiar o operário, e não elemento estranho à classe!
QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José
Olympio, 2024. p. 16.
QUESTÃO 1
Considerado
no contexto do romance Caminho de pedras,
o diálogo, ambientado em uma reunião política, demonstra que:
a)
a sinceridade era considerada prerrequisito para o ingresso na luta política.
b)
o movimento apresentava dissensões internas que prejudicavam a união do grupo.
c)
o operariado cearense se mostrava plenamente preparado para a revolução
política.
d)
as características raciais determinavam a simpatia ou antipatia entre os
membros do grupo político.
e)
a experiência de vida dos operários é considerada superior ao conhecimento
livresco dos doutores.
-Texto para a questão
2 -
Sim – por que negar a si mesmo? – Não fora a
fria lógica de quem estuda que o levara àqueles caminhos. Foi ternura, foi desgosto,
o impulso sentimental – que eles agora desprezavam tanto. O “luxo de doido” de
que falava sua mãe...
Alegavam muito marxismo e socialismo
científico e o materialismo histórico – mas tudo isso teria tanta importância,
e mormente teria tanta força para os arrastar de não fosse o simples e humano
enternecimento?
QUEIROZ, Rachel de. Caminho de pedras. Rio de Janeiro: José
Olympio, 2024. p. 61.
QUESTÃO 2
As
reflexões de Filipe acerca das razões que levavam pequeno-burgueses a aderir à
luta operária deixam entrever:
a)
o desapontamento com a teoria marxista.
b)
os afetos como impulso do engajamento partidário.
c)
a superioridade do engajamento político dos iletrados.
d)
a lógica e o racionalismo na resolução de problemas sociais.
e)
a crítica ao consumismo burguês, considerado “luxo de doido”.
QUESTÃO 3
Leia
o excerto a seguir.
Sentaram-se os dois à mesa do café,
sorridentes, animados. João Jaques assobiava, olhando para a nesga de quintal
que se avistava da varanda, vendo o Guri cavar no chão com uma pazinha,
laboriosamente, a sepultura da jiboia.
Agora, menos que nunca, Noemi sentia coragem
de falar. Seria o mesmo que ferir um inocente. Demais, a realidade cotidiana se
apossava dela com toda força da repetição e do hábito. E a rápida cena com
Roberto, na véspera, parecia um acontecimento muito antigo, ou uma aventura
vivida por criaturas de romance, sem consistência, fora do plano imaginário.
Seria absurdo falar naquilo agora, perturbar a alegria da manhã com os
pesadelos da noite.
QUEIROZ, Rachel de. Caminho
de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 103.
Esse
trecho do romance Caminho de pedras
revela, predominantemente,
a)
o desvelamento do caráter pérfido de Noemi.
b)
as tensões envolvidas numa relação adúltera.
c)
a complexidade dos sentimentos amorosos de Noemi.
d)
a noção de que a realidade não se parecia com os pesadelos.
e)
as justificativas para o rompimento da relação com Roberto.
-Texto para a questão
4 -
Duas vezes em dois dias um homem se aninhava
assim em seus braços, buscando-lhe o calor e o conforto do colo, depois dos esforços
do amor. Ontem o marido, hoje Roberto. Carne fraca e miserável. Ontem um, hoje
outro. De que lhe serviam as resoluções, o desejo desesperado de ser sincera e
não enganar nenhum! No fundo, não tinha coragem nem energia, acabava sempre
deixando-se levar pelo desejo deles, compadecida e atormentada.
QUEIROZ,
Rachel de. Caminho de pedras. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2024. p. 120.
QUESTÃO 4
Responda,
com base no texto:
a)
Tendo em vista o contexto do romance Caminho
de pedras, é possível considerar que a personagem Noemi se orienta pela sedução
e pela sexualidade? Justifique sua resposta.
b)
Aponte ao menos um episódio da narrativa que justifique sua resposta ao item a.
-Texto para a questão
5 -
– Temos de falar imediatamente a João Jaques.
Vou procurá-lo ainda hoje, dizer tudo. Não há mais razão para você ficar com
ele.
Noemi se assustou. Tudo naquela noite, na
mesma noite? Não, não!
– Quem deve falar sou eu. A questão é entre
mim e ele. Você não tem de se envolver.
Roberto virou-se, agressivo de súbito,
encarando-a com uma desconfiança que era quase inimizade:
– Pretende esconder alguma coisa? Tem que
dizer tudo a esse homem. Era a pior das indignidades, você enganar a ele e a mim.
– Por que você é tão fácil de ofender? Por
que é que eu iria lhe enganar?
QUEIROZ, Rachel de. Caminho
de pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 97.
QUESTÃO 5
O
comportamento de Roberto, no trecho, demonstra:
a)
consciência de que Noemi enganava a ele e ao marido.
b)
plena consideração pela situação da mulher, que era casada.
c)
ódio ao marido de Noemi, que era um de seus melhores amigos.
d)
postura semelhante à que ele apresentava nas reuniões políticas.
e)
caráter infantil e mesquinho, indiferente ao contexto familiar da amada.
QUESTÃO 6
Leia
com atenção o poema “Operário do mar”, de Carlos Drummond de Andrade.
Operário do mar
Na
rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no
discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas
mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum,
apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que
carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não
sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o
grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário
não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam
da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados,
o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali
corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria
vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que
não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me
despreze a seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma fascinação
quase me obriga a pular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha,
pelo menos implorar-lhe que suste a marcha. [...] Único e precário agente de
ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas
líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas,
atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão.
Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?
ANDRADE, Carlos Drummond de. Operário do mar. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 141.
Relacionando
o poema de Drummond ao romance Caminho de
pedras, de Rachel de Queiroz, responda:
a)
O conflito vivenciado pelo enunciador guarda semelhanças com aquele vivenciado
pelo personagem Roberto?
b)
Pode-se considerar que o romance de Rachel de Queiroz idealiza a classe
trabalhadora? Justifique sua resposta.
-Texto para a questão
7 -
A
hora triste da cidade tomara conta dele. As luzes da rua se acendiam, as
cortinas de aço das portas desciam com barulho e os caixeiros, os empregados
familiares que passavam o dia sorridentes ou abstratos, por trás dos balcões,
trepados em altos tamboretes, defronte de secretárias antigas ou de
registradoras barulhentas, se transformavam em homens misteriosos, individuais,
que metiam um paletó, tinham uma casa, uma rua e iam comer o seu jantar, dormir
o seu sono, trancar a sua porta. Aquele caixeirinho que passava ligeiro na
calçada possuía mãe e uma casa modesta, sua, para onde se dirigia, cego a todas
as outras casas da cidade, possuía uma mesa, uma rede. Todos ali. Aquele carteiro
de cara magra, que procurava um tostão entre os níqueis. E a moça pintada, de
vestido de babados. Todos tinham a vida isolada, sua vida particular.
QUEIROZ,
Rachel de. Caminho de pedras. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2024. p. 39-40.
QUESTÃO 7
O
movimento da cidade ao entardecer provoca em Roberto reflexões que:
a)
percebem o individualismo pequeno-burguês da população modesta.
b)
demonstram o caráter engajado do romance, ao expor a miséria social.
c)
mostram como as pessoas eram felizes, apesar da dura vida de trabalho.
d)
denunciam a exploração do trabalho sobre os trabalhadores do comércio.
e)
evidenciam sua contrariedade com aquele cotidiano destituído de utopias.
QUESTÃO 8
Publicado
no mesmo ano de Caminho de pedras, o
romance Capitães da Areia, de Jorge
Amado, narra as aventuras de um grupo de meninos de rua liderados por Pedro
Bala.
O estudante fazia planos sobre os Capitães da
Areia. Agora Pedro Bala acordava todos e explicava o que tinham que fazer. O
estudante estava entusiasmado com as palavras do moleque. Quando terminou de
explicar, Bala resumiu tudo nestas palavras:
– A greve é a festa dos pobres. Os pobres é
tudo companheiro, companheiro da gente.
– Você é um batuta – disse o estudante.
– Vai ver como a gente acaba com os traidor.
AMADO,
Jorge. Capitães da Areia. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008. p. 262-263.
Comparando
a Caminho de pedras, a cena:
a)
mostra o caráter ingênuo do movimento grevista.
b)
é oposta à recepção de Roberto pelos operários.
c)
é análoga à recepção dos operários aos intelectuais.
d)
também antecipa o sucesso de um movimento grevista.
e)
critica os miseráveis engajados no movimento comunista.
-
Texto para a questão 9 -
Pois
ele sentia muito... Dona Noemi tinha sido uma boa empregada, não tinha queixa a
fazer. Mas a Fotografia era frequentada por famílias, a freguesia principal era
de primeiras comunhões, noivas, grupos de pai, mãe, filharada. Dona Noemi
compreendia... Já tinham reclamado. A senhora sabe, o seu procedimento nesses
últimos tempos. A própria Guiomar, que era antes tão sua amiga... Enfim, numa casa
de negócios, quem manda é a freguesia. Mesmo se tratando dum atelier de arte, como ali, o jeito é
obedecer às leis do comércio. Ele até sentia muito, e talvez fosse sofrer
dificuldades em encontrar outra auxiliar tão competente. Por isso mesmo tinha
hesitado... Mas realmente foi impossível, as reclamações, a senhora sabe...
QUEIROZ,
Rachel de. Caminho de pedras. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2024. p. 138.
QUESTÃO 9
No
trecho, os argumentos de Seu Benevides, patrão de Noemi,
a)
encontram franca oposição de Guiomar, colega de trabalho.
b)
são compartilhados pela moça, que concorda com sua demissão.
c)
demonstram o moralismo social que recaía sobre a mulher divorciada.
d)
elogiam a moça, estabelecendo a ideia de uma posterior recontratação.
e)
atestam a retidão moral dele próprio, que sempre respeitava os fregueses.
-
Texto para a questão 10 -
Coitadinho, tão maltratado, tão desprezado,
sofrendo o que a mãe sofria, sufocado com ela na rede pequena do quarto ruim! Tinha
que deixar o trabalho, pensava Noemi. Casa não lhe faltaria, morava com a mãe
dum companheiro, entendiam-se bem, a velha era boa, caridosa. Arrumar um
serviço mais leve, que rendesse para ajudar na comida e permitisse ao menino
crescer à vontade, espernear à vontade.
Pisou em falso numa pedra solta. Arrimou-se
ao muro. O pequeno parece que se sacudiu todo, comovido também com o choque.
Noemi sorriu, amparou com a mão o ventre
dolorido:
– Mais devagar, companheiro!
E voltou a subir a ladeira áspera,
devagarinho.
QUEIROZ,
Rachel de. Caminho de pedras. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2024. p. 175.
QUESTÃO 10
Na
cena final do romance Caminho de pedras,
a trajetória de vida da personagem é evocada de maneira:
a)
otimista, com a confiança de que o filho seguiria a militância política.
b)
pessimista, marcada pelo arrependimento da separação conjugal.
c)
mística, associada ao movimento ascensional de subir a ladeira.
d)
realista, voltada à resolução das necessidades mais prementes.
e)
biológica, devido às considerações relacionadas à gravidez.
1. b
2. b
3. c
4. a)
Não. A relação de Noemi e Roberto foi pautada por um sentimento profundo e
sincero, que fez a personagem notar o quanto seu casamento não lhe satisfazia
mais.
b)
Noemi sempre se mostrou uma mãe zelosa em relação ao Guri, o que não se coaduna
com o menosprezo às relações familiares. O amor maternal fica plenamente
evidenciado com o dilacerante sofrimento que ela vivencia com a morte do filho.
Outro episódio que pode ser apontado como indicativo da seriedade de seus
sentimentos é o conflito íntimo que ela experimenta por não amar mais o marido.
5. e
6. a)
Sim. Roberto buscou entender profunda e solidariamente o caráter do operário,
assim como o enunciador do poema drummondiano. Roberto também se angustiou por
notar que, apesar de sua boa vontade em se conectar e se solidarizar com os
operários, experimentava um sentimento de distanciamento e incompreensão em
relação à classe trabalhadora que se engajava na militância política. Essa
busca por aproximação e a frustração diante da distância que os separa geram um
conflito interno em ambos.
b) Não.
Caminho de pedras se afasta da idealização da classe trabalhadora,
apresentando-a de maneira mais realista e atribuindo-lhe ambições, desejos de
mando e mesquinharias. Esses atributos, contudo, não estão ligados a uma
representação pejorativa dos operários, e sim ao fato de que tais
comportamentos são verificáveis em quaisquer grupos sociais, sejam eles
engajados politicamente ou não, humanizando-os e aproximando-os da realidade.
7. a
8. b
9. c
10. d

